quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Manuel Cardoso: paixão pela fotografia

Filho de pai português e mãe chinesa, o macaense Manuel Alexandre Cardoso distinguiu-se na fotografia, actividade a que se dedicou desde 1964. Morreu esta semana ao fim de meio século a fotografar Macau.
Entrou para a função pública durante o governo do General Nobre de Carvalho, tendo trabalhado no Centro de Informação e Turismo de Macau, mudando depois para o Gabinete de Comunicação Social. Foi o fotógrafo oficial de vários governadores, colaborando também com diversos jornais locais ao longo de meio século. Em 1985, Manuel Cardoso foi agraciado com a Medalha de Mérito Profissional pelo governador Almeida e Costa. Fotografou até ao fim dos seus dias e ainda na Primavera deste ano estava patente em Portugal uma exposição com fotografias da sua autoria.
Dragão com 238 metros no Ano Novo Lunar (2014) no Largo do Senado. Foto de MC

Excertos de uma entrevista de MC a António Falcão no jornal Macau Hoje de 1.2.2011
A sua história como fotógrafo já é bastante longa. Como tudo começou?
Foi em 1964 que comecei a aprender a fotografia. Na altura não havia livros ou se havia, havia poucos e praticava muito. Fui aprender a fotografia na Foto Maxim’s, na Rua do Campo. Achei aquilo interessante. Depois comecei a aprender a misturar os líquidos ao peso. Tanto de hidroquinona [que hoje em dia se usa para tirar manchas da pele], tanto de metol, tanto de sulfito de soda.
Já ninguém sabe o que é isso...
(Risos) Já ninguém sabe, já passou à história. Mas fui aprendendo e aprendendo e mais de dez anos depois concorri ao Centro de Informação e Turismo, que mais tarde se tornou no Gabinete de Comunicação Social, onde continuei. A partir daí comecei a trabalhar para o Governo e a acompanhar os vários governadores. Em 1985, tive a medalha de mérito profissional. Na altura tinha o quê? Alguns 30 anos de idade, no máximo, quando fui condecorado.
Que momentos mais o marcaram nesse seu percurso pela história de Macau?
Foi nas conversações da entrega de Macau, da visita de Mário Soares e da assinatura de Cavaco Silva em Pequim. Aquelas fotografias que aparecem nos jornais desse momento são minhas. E há também outra fotografia, muito conhecida na altura, de um adivinho a puxar as bochechas de Mário Soares que também é minha (risos).
Com tantos governantes que passaram pelas suas lentes, como foi a sua relação com essas pessoas com quem trabalhou? Para bem e para o mal.
Para o mal não vejo nenhum. Agora para o bem... Digam o que quiserem dizer mas para mim o Almeida e Costa era um bom homem. É como tudo: há quem goste e quem não goste. Eu gosto. Ele tratou-me bem. Trabalhei com os outros governadores todos. Ainda hoje quando vejo o Melo Egídio ele cumprimenta-me. O Garcia Leandro... eu, quando o vejo, ele aproxima-se de mim. Todos os governadores com quem trabalhei são todos boas pessoas. Eu nunca os tratei mal nem eles me trataram a mim. Mesmo aquele que era professor. Como é que ele se chama? O médico... Como é que se chama o médico?
Stanley Ho por MC na década de 1980.
"É um dos melhores retratos que fiz."
Pinto Machado...
Sim, esse. Esteve cá pouco tempo. Esteve cá meses. Não se deu bem com o Mário Soares, pediu demissão do cargo e foi-se embora. Mas também me dei bem com ele.
Integrou-se bem nos acontecimentos da cidade captando toda essa mistura de culturas. Existiam muitos fotógrafos na altura?
Chineses havia muitos, portugueses quase nenhum. Se formos a olhar para o meu trabalho agora, é como se fizesse parte da lusofonia. É como uma herança para o mundo lusófono. Não fui um pioneiro, mas fui um dos que levei a fotografia a sério. Fui fazendo fotografias atrás de fotografias, mesmo após ser condecorado. Mas aquilo não dava dinheiro nenhum e perguntaram-me o que é que eu queria. Eu respondi: “Quero estudar!” Então fui para Portugal tirar um curso de realizador de televisão. Na altura ainda não havia curso de Comunicação Social, o curso de realizador era feito na RTP, no centro de formação.
Nunca chegou a exercer essa profissão?
Nunca. Porque a mim não me quiseram pagar e eu não aceitei estar debaixo dos outros. Disse sempre: “O enfermeiro é enfermeiro, o médico é médico. Cada macaco no seu galho.” Nunca aceitei ficar subjugado por outros sem curso. Por isso continuei na fotografia.
Tendo acompanhado as duas épocas de Macau com um olhar atento, que diferenças consegue observar que sejam mais evidentes?
Agora há mais eventos, há mais fotografias. Antigamente não havia tantas. “Dar a César aquilo que é de César”: hoje há mais oportunidades para a fotografia. Claro que já não há aquela cidade de Macau de outrora. Se quiser fotografar aquelas casinhas antigas, aqueles bairros todos, certas profissões que existiam, já não é possível porque desapareceu tudo. É verdade, isso é o preço do desenvolvimento e como tal é mesmo assim, não há umas coisas mas há outras.
Carlos d'Assumpção, Manuel Cardoso e o gov. Nobre de Carvalho
Como vê a evolução da sua cidade?
Hoje é mais próspera. Macau é um território mais rico. Mas para mim é a mesma coisa, continua a ser a minha terra. A mim não me afecta, sou um funcionário aposentado e não sinto a diferença.
Conseguiu captar os momentos com muita naturalidade.
É assim. Normalmente não falo com as pessoas que fotografo. Não dialogo, não digo nada, fico por aí, não peço autorização, nem nada. Subo, entro, finjo como se nada acontecesse, como se fosse o homem invisível, e vou fotografando, enquanto não me mandarem embora fico por lá. É preciso ter uma certa lata, claro. (...)
Que conselhos dá a quem queira abraçar esta profissão?
Digo já: é uma profissão muito cansativa. Ser fotógrafo é uma vida muito árdua. Eu não aconselho muita gente a entrar para a profissão. Só é fotógrafo quem tem paixão pela fotografia. É quase como ser padre.
Porque diz isso?
É preciso ter vocação, quem não tem vocação não consegue lá chegar.
Manuel Cardoso com os pais
Continua a fotografar?
Todos os dias. Vou para o jardim, vou para o mercado. Para a Taipa, para Coloane. Vou para todo o lado. Mas só faço fotografias de Macau.

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