sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A mulher chinesa: estudo do séc. XIX

Anna de Souza Caldas foi  primeira portuguesa a estudar a mulher chinesa. O seu trabalho "Chins vistos de perto - Notas e apontamentos tomados em Macau" seria publicado em 1900 no "Ta-Ssi-Yang-Kuo", ed. J. F. Marques Pereira, Arquivos e Anais do Extremo-Oriente Português. O facto, inédito, foi assinalado por Marques Pereira na introdução ao artigo: "Já não é a primeira vez que a Ex.ma Sr.a D. Anna de Sousa Caldas, a nossa distincta collaboradora, apresenta a publico as producções da sua lucida intelligencia; mas só a muito custo consegue vencer os impulsos da sua grande modestia para dotar a litteratura patria com os primores de observação, como as que se notam nos artigos, cuja serie encetamos hoje (...) enquanto viveu no Extremo-Oriente teve occasião de observar de perto os usos e costumes que tão magistralmente descreve."
Anna de Souza Caldas viveu em Macau e terá sido a partir do que observou na parte chinesa da sociedade macaense que elaborou este artigo. Era mulher do Major Antonio Alfredo de Souza Calda que desempenhou várias comissões de serviço em Macau (tb em Moçambique e Timor) entre 1880 e 1887, tendo sido, por exemplo, comandante do presídio militar. 
Desse seu trabalho reproduzo alguns excertos:
"As damas da classe principal usam cabaia comprida ou curta, calça e uma especie de saia justa e cheia de pregas em sentido vertical, sendo tudo de seda e tendo a cabaia, que trazem exteriormente, as mangas larguissimas para se verem as mangas das outras duas cabaias interiores, que são geralmente mais estreitas, mas de côres vivas e muito bordadas resumindo, por assim dizer n'ellas, a prova de bom tom das filhas do Celeste-Imperio. As mulheres do povo trazem cabaia curta e umas calças larguissimas de seda ou de ganga. (...)
As da alta cathegoria todas, ou quasi todas, teem os pés aleijados, porque todos os chins favorecidos da fortuna, mandam comprimir com ligaduras os pés ás suas filhas, desde a mais tenra edade, e calçam-lhes depois uns sapatos de seda pequenos e ponteagudos, em que não entra senão metade do pé. Assim, o dedo pollegar é o unico que vae crescendo com a edade da creança, os demais vão, pouco a pouco, dobrando para a planta do pé, o qual, com o temo, forma quasi que um bico na frente, á feição do calçado. Este defeito nas mulheres que nascem na opulencia serve para ostentar a grandeza de suas familias.
Com semelhante aleijão as mulheres nobres não podem andar sem o auxilio de creadas graves, em quem se apoiam. Quando sahem de casa vão fechadas em cadeirinhas; outras porém vão ás costas das creadas ou a pé, arrimadas a um chapeu de sol. As classes pobres que não podem dar creadas às suas filhas, e que, pelo contrario, as destinam para creadas de servir ou para outro qualquer genero de trabalho, não lhes comprimem os pés.
O uso de comprimir os pés data do anno de 954 da era de Christo. Conta-se que houve então uma imperatriz que tinha os pés de pequenissimas dimensões e que todas as damas do paço tinham summo desgosto de não possuirem uns pés como os d'ella. Cada uma, portanto, comprimia os pés como podia, imaginando novos feitios de sapatos, cada vez mais apertados, porque o diminuir o volume dos pés era o sonho de todas. Mas nem por isso nenhuma poude egualar á imperatriz. Então, uma dama dotada de mais engenho do que as outras, decidiu que só uns sapatos onde não coubesse senão metade do pé, as poderiam satisfazer, pois que d'esta fórma fariam parecer os pés ainda mais pequenos que os da imperatriz. Assim, mandou fazer umas pequenissimas botinhas de setim bordadas a ouro e depois de comprimir os pés, forçando os dedos a dobrar para baixo da planta, excepto o pollegar, calçou as botinhas até meio do pé e appareceu ás outras damas apoiada nos braços de duas creadas.
Esta innovação foi ao principio reprovada por algumas das damas, mas dizendo-lhe ella que além de conseguirem de tal modo diminuir o volume dos pés, se distinguiram de todas as outras mulheres do imperio, e, obrigadas como ficavam a andar amparadas por duas creadas, ostentariam melhor a sua alta dignidade, todas ellas, movidas pela vaidade, começaram a seguir aquelle exemplo que agradou a toda a côrte. Em vista d'isto, todas as mulheres das novas gerações chinezas, que pertenciam a familias nobres, ou mesmo abastadas, deviam ter os pés aleijados. As familias pobres, porém, não puderam seguir o barbaro uso para não impossibilitarem assum as suas filhas de serem creadas de servir."
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