sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

"Macau e os seus habitantes": final do século XIX (2ª parte)

Excerto de "Macau e os seus habitantes", Bento da França, 1897
Noções geographicas 
Demorando quasi no extremo SE. do vasto império chinez a 22° 12' 44" lat. N. e 122° 43' 45" long. L. (pelo meridiano de Lisboa), acha-se a península de Macau unida á grande ilha Hian-chan («Montes odoríferos») por uma pequena lingua de terra. Hian-chan pertence à província de Cantão. A península de Macau segue primeiro a direcção N.-S., isto no percurso de 720 metros, tendo de largura uns 200 metros. Depois alarga-se bruscamente para E., inclinando- se a sua direcção geral para O., e prolongando-se na extensão de 3:650 metros. (...) A península mede na sua maior extensão 4:400 metros approximadamente, e na máxima largura 1:680 metros, podendo calcular-se-lhe a área em 330 hectares. (...) Quasi todas aquellas collinas estão coroadas por fortalezas, e podem contar-se em numero de oito (...)
Constituição geológica
A formação d'esta península é granítica. Aqui e ali deparam-se-nos grandes rochas d'esta natureza, entremeiadas por delgadas camadas de espatho e quartzo. Do lado do mar, em que são batidas pelas aguas, apre- sentam-se nuas estas fragas, e diversos blocos soltos se sobrepõem irregularmente e em equilíbrio, na apparencia pouco estável. (...)
Depois que deixaram de existir as antigas barreiras da cidade, tem-se esta estendido um pouco mais, comquanto ainda possamos dizer que se circumscreve quasi exclusivamente na área d'antes occupada, dividindo-se em cidade christã e basar (a parte chineza). Em consequência, porém, da área dentro das antigas barreiras não ser suficiente para a excessiva população chineza, começaram os chins por estabelecer cinco povoações ruraes. (...)
Estas ruas e casas, comquanto conservem os característicos chinas, têem modernamente melhorado muito, com proveito da salubridade publica e da esthetica. As enormes lageas primitivas tèem sido substituídas por macadam ou calçada á portugueza; desappareceram por- tanto as fendas no lagedo que punham a descoberto os canos de esgoto. As casas modernas já têem mais ventilação e luz; a agglomeração da gente é menor, posto que ainda se nos offereça o soez espectáculo da vida em commum com animaes domésticos de varias espécies. Os mercados de peixe e de carne também saíram dos sitios apertados e faltos de ar em que se achavam. Emflm, desde que o benemérito governador Ferreira do Amaral tomou a peito tornar effectiva a nossa soberania em Macau, tem-se trabalhado incessantemente no saneamento e aformoseamento da cidade; e, se mais se não tem logrado fazer, a culpa cabe ao governo da metrópole, que lhe está sempre a absorver os rendimentos. (...)
As tres restantes povoações são a do Patane, a de Mong- há, e a de S. Lazaro. A do Patane é de todas cinco a mais importante, já pela industria fabril, já pelo seu commercio, principalmente em madeiras de construcção. Fica no littoral do porto interior, na espécie de cotovello, que a península faz ao formar a enseada da ilha Verde, terminando onde começa a Mong-há.(...)
Existem ali numerosas famílias, que habitam em embarcações de maior ou menor lote. São vários os seus misteres, taes como o de práticos da costa, o de pescadores, etc. ; n'este numero incluem-se muitas mulheres (lançareiras), que se occupam em conduzir passageiros e mercadorias para bordo dos navios fundeados e para as ilhas círcumvizinhas, bem como d'estas e de bordo dos navios para Macau. A cidade christa propriamente dita abrange a parte mais pittoresca de Macau. (...)  A cidade christa tem sido invadida por habitantes chinezes; nos bairros chins é que raro moram christãos. Alem d'isto, na maior parte das casas de moradores portuguezes, ou estrangeiros, ha creados chinezes.(...)

O panorama que se disfructa de algumas elevações é arrebatador e surprehendente (por exemplo, do pharol da Guia, da Gruta de Camões, ou ainda melhor da Penha). As habitações dos europeus sao de aspecto agradável, ha algumas mesmo notáveis pelo tamanho e bom gosto; quasi todas as da Praia Grande têem os seus jardins e ostentam na fachada da frente grandes varandas ou galerias.(...)
Na parte da cidade occupada pelos europeus (nacionaes e estrangeiros) e pelos macaístas, contam-se algumas ruas espaçosas e elegantes, prédios importantes e de boa appa- rencia, possuindo bastantes d'elles aprazíveis jardins e quintaes. Nos arrabaldes da cidade encontram-se algumas quintas bem cuidadas (...). Occupemo-nos agora dos templos. Ha em Macau varias igrejas (todas ellas,  senão sumptuosas, pelo menos bellas e muito cuidadas). Antes porém, de tudo mais, falemos da frontraria de S. Paulo. 
Esta magestosa peça architectonica foi o que se poude salvar do incêndio de 1835, que devastou o sumptuoso templo dos jesuitas. É toda de granito e de graciosa architectura grega, e está por tal sorte disposta que se vê de quasi todos os pontos da cidade. Vem aqui de molde falar da Sé, que é uma das freguezias, citar S. Lourenço, S. Lazaro e Santo António, mencionar o vasto seminário de S. José, a igreja de Santo Agostinho, a de S. Domingos e Santa Clara, não convindo deixar no olvido as ermidas de Nossa Senhora da Guia e da Penha de França. 
(...)  D'entre as construcções chinezas ha a notar os quatro principaes pagodes, suas pittorescas cercas e mais accessorios, sempre collocados entre penedos e copadas arvores.
Dos principaes pagodes, a que nos vimos referindo, acham-se situados, um no Patane, outro em Mong-há, o terceiro próximo das Portas do Cerco, e o ultimo, que é o mais formoso, nas immediaçôes da fortaleza da Barra. (...)

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