sábado, 13 de julho de 2013

Maria Anna Acciaioli Tamagnini: 1900-1933

Legenda da fotografia: O governador de Macau, Tamagnini Barbosa, chorando com a menina que recitou a poesia da sua esposa (já falecida nesta altura) sobre a Santa Infância, a 20-6-1937. 
Tamagnini Barbosa chegara nesse ano a Macau para o seu terceiro mandato como governador. Pela primeira vez de 10 de Dezembro 1918 até 23 de Agosto de 1919; 8 de Dezembro de 1926 até 30 de Março de 1931; e 11 de Abril 1937 até o seu falecimento em Macau no Palácio de Santa Sancha a 10 Julho de 1940, com 59 anos. A sua mulher (a segunda), com o nome de baptismo, Maria Anna Acciaioli de Magalhães Colaço, nasceu em 1900 e morreu aos 33 anos.
"Ela era uma menina estudiosa com um grande desejo de aprender que viveu os poucos anos da Primeira República portuguesa de 1910 a 1926. Aos 16 anos de idade, ela começou a faculdade em Lisboa onde conheceu, entre outros, um professor jovem, educado, culto e recém-viúvo chamado Artur Tamagnini de Sousa Barbosa que dava aulas de português na Escola Nacional. Os pais, querendo que Maria Anna desenvolvesse mais o talento literário, nesta época mais direccionada à prosa do que poesia, arranjaram lições privadas em sua casa com o Dr.Tamagnini, naquele tempo um homem de mais ou menos trinta e seis anos. Numa história quase digna de um conto de fadas, em 1916 os dois casaram-se em Lisboa".
Casada agora, Maria Anna Acciaioli Tamagnini seguiu o marido até Macau quando em 10 de Dezembro de 1918 ele foi nomeado Governador de Macau pela primeira vez. Nesses sete anos, diz Natália Correia,  "granjeou grande prestígio quer pela irradiação do seu espírito que brilhava à flor da delicada formosura que os seus retratos nos mostram, quer pelo talento literário com que semeou por jornais e revistas uma assinalável colaboração em verso e prosa, quer ainda pelo seu empenho em obras sociais e protecção com que encorajava as artes e letras. Meteórica foi a passagem pela vida desta invulgar estrela da constelação do nosso lirismo orientalista."
O Padre Manuel Teixeira refere que "chegada a Macau, as suas qualidades artísticas granjearam-lhe logo muito prestígio e simpatia, tanto no meio europeu como na comunidade chinesa, que ela tanto procurava e acarinhava. De personalidade extremamente afável, irradiava natural bondade e o seu fino trato fazia com que todos se sentissem bem no seu convívio. Dotada de valiosa cultura humanística e de esclarecida inteligência, diligenciava por suavizar, com esses seus predicados, não só as mais ingratas tarefas do difícil cargo à responsabilidade de seu marido, dando encantamento ao ambiente social que rodeava o Palácio do Governo, mas também fazendo sentir a sua discreta caridade junto aos mais modestos e infelizes necessitados. Por isso, a cidade atribuiu o seu nome ao Asilo de Mendicidade, que já foi destruído, razão que nos leva agora a pedir que noutra instituição similar fique evocado o nome de tão ilustre senhora, que patrocinou e promoveu tantas festas de caridade, para as quais compunha poesias e dava o melhor do seu sempre bondoso coração. Nessas cristãs tarefas eram seus auxiliares o grupo categorizado dos Artistas Amadores de Teatro e Música, que ela chamava ao Palacete de St.ª Sancha, para assistir aos ensaios e encorajar os trabalhos na sua incansável missão de protectora, também, das artes e das letras."
Recibo emitido pelo Conselho Administrativo do Comando da Polícia de Segurança (Esquadra 4) em 1969 pela cota de $0,40  - quarenta avos em prata - para o Asilo de Mendicidade “Dra Maria Ana Tamagnini Barbosa ” (cotisação do mês de Julho de 1937).
Sobre ela o padre Manuel Teixeira escreveu em 1974: “Poetisa, por muitos, desconhecida, mas de real valor, Maria Anna foi uma senhora duma fina sensibilidade artística, dotada de natural intuição e servida por uma emocionalidade que em tudo a deixava encontrar inspiração para a sua imaginação criadora”.
Natália Correia na introdução à 3ª edição de Lin-Tchi-Fá - o único que escreveu, tinha então 25 anos e sobre o qual o DN em Julho de 1925 escreveu "é de um raro encanto" - em 2006, escreveu: “Atraente criatura compósita de emoção e brisa, a sua poesia floresce da estranha osmose da comoção feminil da alma lusa e desse Oriente que guarda o arcano do mistério do supramundo no mundo.”
Ellen Thompson escreveu: “Maria Anna Acciaioli Tamagnini was a woman of special circumstances. She enjoyed many opportunities in regards to travel, education, as well as liberty of thought. These factors, in conjunction with her youth and ability to write, placed her in a unique situation in which it was possible to publish a book accessible to a large audience. With these opportunities, she searched for happiness, not only for herself, but for women everywhere. The picture of the Chinese woman that she paints with her poetry in the book Lin-Tchi-Fá: Flor da lotus opens a discourse about the situation of women in Macau, in Portugal, and in China. During the 19th and 20th centuries in China, Portugal and Macau, women increasingly fought for their rights. The political climate in which Tamagnini found herself was turbulent in many ways. Of notable importance in Tamagnini’s work is the feminist movement what was gaining strength with sharp voices against traditional norms as well as the deep-rooted traditions that had for centuries oppressed women. Tamagnini, because of society’s attitude in regard to these feminists, packaged her feminine message with much subtlety. Thus, readers who only wanted to hear a pretty story of the exotic Orient were satisfied, while to those readers with sensibility, she told the story of the woman’s search for happiness. This happiness did not come by pleasing any man, but in the self-actualization of each woman.”

Maria Ana Acciaioli era professora de francês e de história da literatura francesa; falava fluente inglês, castelhano e italiano, (como património de família). De cantonense (idioma chinês de Macau), aprendeu depressa o suficiente para encantar os chineses frequentadores do Palácio do Governo e para, ela em pessoa, governar os 30 criados chineses dos dois Palácios do Governo existentes em Macau, (um de Verão, o Palácio de Santa Sancha; outro, a Sede do Governo, na Avenida da Praia Grande). 
A sua colectânea de poemas, publicada pela primeira vez em 1925 e reeditada pelo Instituto Cultural de Macau em 1991, foi recentemente reeditada pela Editorial Tágide.
 Excerto do poema flor de Lótus. Fotografia de Manuel Cardoso

Lótus! Flores da noite, flores sagradas
De folhas verdes, longas, espalmadas.
Flores brancas e rosadas, flores de lago,
Que a lua beija e despe num afago.

À tona de água, pelas noites cálidas,
Lembrais-me virgens sonhadoras, pálidas.
Noivas à espera do seu bem-amado...
Envoltas no véu branco de noivado.

Cobrindo os lagos quietos, azulados,
Ó flores de lótus de botões rosados,
Lembrais-me... seios castos, virginais,
Pombas brancas fugidas dos pombais.

Corpos leves de ninfas a flutuar
Sobre a alfombra das folhas verde-mar;
Princesinhas do Oriente tranformadas
Em pétalas de lótus desmaiadas.
Flores de nácar de folhas cor de jade,
Inimigas do sol, da claridade,
Companheiras das águas que ao luar
Vos quedais todas brancas a cismar...

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