quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Problemas urbanísticos na transição do século 19 para o século 20

Em 1841 Macau tinha 25.000 habitantes, 20.000 dos quais eram chineses, e em 1867 esse número subiu para mais de 56.000.
Em 1869 exis­tiam cadastradas 175 vias públicas na cidade cristã, 89 no Bazar, 83 em Patane, 48 em Mong­Ha, 24 em Long Tin Chun, 5 em Tap Séak, 1 em Séak Lo Tau, 1 em Long Wan Chun, 55 em São Lázaro, 14 na Penha e em Tanque do Mainato e 22 na Barra, num total de 529. Comparando estes números com os de 1905, nota­-se, como mais significativo, o aumento do Bairro do Bazar e da zona do que foi outrora o campo, com mais 20 ruas.
O aumento populacional levou a um crescimento desordenado das edificações na cidade que até mais ou menos esta altura se situavam predominantemente dentro do perímetro da cidade, ou seja, entre as muralhas.
Na edição de 1 de Novembro de 1890 do jornal O Macaense pode ler-se:
“Quem desembarca do vapor de Hong Kong, no porto interior, e quer vir à Praia Grande, tem de atravessar um dédalo de ruas estreitas e imundas, orladas por casas de paredes escuras e tristes. Há principalmente uma travessa muito estreita, junto à Rua de Felicidade por onde têm de passar todos os que quiserem transitar em jenrickshas. É tão estreita que um homem de braços abertos não pode passar por ela. É ela a Travessa do Tintureiro (Tai Pang Hong), ou Travessa do Falcão, com menos de cem metros que, começando no Largo do Senado, termina na Rua dos Mercadores.
Houve em tempos um projecto bastante grande de fazer uma larga avenida, que partindo do Largo de Caldeira no porto interior, viesse acabar na Praia Grande, passando pela frente do edifício do Leal Senado. Para esse fim seria preciso expropriar um bom número de casas chinesas, e uma parte da casa que é actualmente o Hotel Hing-kee, e calculava-se que seriam necessários $30 000. Não pedimos agora tão grandiosa obra. Por enquanto talvez bastaria modificar a Rua de Felicidade, alterando-a gradualmente desde o seu começo na Rua Marginal, para torná-la transitável para jinrickshas, que agora não podem subir a ladeira que a vem ligar com a Rua dos Cules. Os prédios da Rua de Felicidade pertencem a uma sociedade de negociantes abastados, que são bastante condescendentes. Não será difícil persuadi-los a converter, as que hoje servem de lupanares, em lojas mais asseadas e com frontarias mais alegres, com o que eles virão finalmente a lucrar. Essa transformação não poderá deixar de ser lentamente feita, mas se o governo melhorar aquela rua de modo que a torne mais frequentada, os proprietários por seu próprio interesse irão transformando os prédios, enxotando dai os lupanares.”
Augusto Abreu Nunes, director das Obras Públicas, descreve assim a chamada zona do Bazar, em Macau, a 11 de Fevereiro de 1903:
“As ruas mais importantes que cortam o Bazar e estabelecem a ligação entre ele, a rua Marginal e o centro da cidade, na direcção Leste/Oeste são: a Rua da Felicidade e a Rua das Estalagens, duas ruas estreitas, tortuosas, tendo em alguns pontos a máxima largura de 6,5 metros! Estas ruas são ligadas transversalmente por outras, em piores condições ainda: a Rua dos Mercadores, a do Mastro, a do Aterro Novo, etc., chegando nestas travessas a haver largura de 3 metros e não sendo a maior nunca superior a 7 metros. Resulta deste estado do Bazar, uma aglomeração enorme de casas de negócio, e portanto de gente e carros pelas ruas, que se atropelam constantemente, dificultando o trânsito e o comércio. A estes inconvenientes acresce, como consequência, que as condições higiénicas daquele recanto são deploráveis, isto é: uma falta de ar e luz em todas as habitações, becos e ruas, e um fétido insuportável por toda a parte”.

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