terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A "Nau do Trato"

A pedido de um leitor aqui fica um post para ajudar a explicar a expressão "nau do trato".
Nos final do século XVI, o comércio da Nau do Trato ou "o Grande Navio de Amacau" - segundo a expressão de Charles Boxer - origina lucros fabulosos aos que se arriscavam no mar e, por arrastamento, a todos os que viviam na cidade e que 'patrocinavam' estas viagens. Segue-se um texto de José Firmino Rocha Dinis sobre o tema. A imagem da Praia Grande é de uma pintura do séc. XVIII.
Em Maio, a Nau do Trato saía de Malaca com pimenta e outras especiarias e algodão da Índia e Molucas, vinhos, espelhos e relógios da Europa, jóias do Médio Oriente e pássaros falantes do Sião (que depois iam para a feira de Cantão), para além das mulheres cristãs, malaias, que a comunidade masculina de Macau necessitava para aumentar a população.
Descarregada à chegada a Macau, a nau recebia a seda chinesa, as armas, carpetes persas e obras de arte, seguindo o mais depressa possível para o Japão, a tempo de evitar a época dos tufões, entre Julho e Outubro. Se o conseguia, em Novembro partiria de Nagasáqui a abarrotar de prata, que era vendida com ainda maiores lucros em Cantão, de onde vinha mais seda, pérolas, porcelanas, ouro e mesmo produtos medicinais, que através de Malaca chegavam à Europa, com lucros acrescentados E assim, ao dobrar do século, vivendo num ambiente liberal, governado por portugueses residentes localmente, sem interferência dos venais funcionários de Goa, e temperado pela presença dos mandarins chineses, que, em qualquer momento, poderiam pôr em causa a continuidade da cidade, Macau atingia o ponto de máxima prosperidade que leva Austin Coates a considerar que "of all the cities of the Far East influenced ar chitecturally by Europe, Macao was the finest".
NA: Recomendo a leitura do livro de Boxer "O Grande Navio de Amacau, Fundação Oriente e Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1989". 
Aí pode ler-se a este propósito: "Na altura em que os portugueses visitaram pela primeira vez o Japão, as suas naus tinham cerca de 400 a 600 toneladas de arqueação, mas, no fim do século, o "Grande Navio de Amacau" andava por uma média de 1.200 a 1.600 toneladas, e não eram de excluir monstros de 2.000 toneladas. As naus portuguesas eram, nesse tempo, os maiores navios do mundo, e, quanto ao tamanho, só tinham como rivais os grandes galeões de Manila ou os navios da prata de Acapulco que ligavam anualmente o México às Filipinas".
Os autores chineses apreciam os Portugueses à sua maneira. "Esta gente é de raça branca, de alto nariz, os olhos verde-escuros, mas sem brilho; não deixam crescer a barba e o cabelo e quer seja preto ou branco, deixam-no cair da cabeça até ao pescoço, onde fica pendendo encaracoladamente ou solto", diz Iâu-Tông, que comenta: "os que possuem escravos julgam-se importantes. O corpo destes é inteiramente negro como a laca. O lábio é vermelho e os dentes brancos, sendo bastante parecidos com seres humanos. (...) Quanto às mulheres, também há duas espécies, brancas e negras, distinguindo-se em senhoras e escravas. Há ao todo umas 430 casas e o número de habitantes é o décuplo deste número ".
Uma das melhores fontes chinesas sobre a Macau desta época, Iâu-T'ông revela que "quanto à comida e bebida (os Portugueses) gostam do doce e picante (...) não usam bancos, mesas ou faichis. Os homens e as mulheres assentam-se de mistura uns com outros e os escravos negros servem-lhes a comida que é levada à boca com garfos de prata (...) Quando comem comida muito misturada empregam infalivelmente a mão esquerda, tirando-a com os dedos. Primeiro quebram vários ovos crus de galinha e chupam-nos. Depois, trincham os assados e usam de um pano branco para limparem as mãos e, de cada vez que as limpam, põem-no de parte para o mudarem por um novo. (...) Jejuam, dois dias, não comendo nem carne de vaca nem de porco, não lhes sendo porém proibido comer camarões e hortaliça. Lançam os sobejos da comida num recipiente parecido com uma manjedoura. Os escravos, quer homens quer mulheres, tiram-nos então com a mão para os comer".
Sugestão de visita: Portugal
Também o vestuário mostrava a prosperidade então reinante. "Os homens usam feltro preto para chapéu e amolgam-no, formando três bicos e ornamentando-o com placas douradas, em forma de flores, parecendo-se com um cesto de vime. Os rapazes vestem-se desedaazul. Como regra de vestir, a parte superior não ultrapassa a cintura e a parte inferior não passa dos joelhos. Muitos usam plumas e to-lo para se ornamentarem, ou fazem-no com brocados prateados e dourados ou com seda tecida em Fát-Sán. Os debruns são feitos de seda. O fato é abotoado na altura do peito, com botões de ouro ou de prata", enquanto as mulheres, "mesmo no rigor do Inverno, só usam uma blusa que chega apenas até à cintura. O vestuário inferior é composto de três peças. Uma que chega até aos joelhos, uma que esconde as pernas e outra para calçar os pés e que é feita de seda de cinco cores".
É precisamente através da evolução dos ornamentos das mulheres que se pode apreciar como a Macau do final do século 16 era diferente da do início do estabelecimento. Com grande perspicácia o mesmo autor recorda que, "ao princípio, andavam todas descalças e nem usavam meias". Ultimamente, refere,"usam couro encarnado para fazerem calçados tão curtos que não se podem enfiar neles os dedos dos pés" e mais adiante que "o penteado fica em cima da testa. Usam raras vezes alfinetes para o cabelo desornamentado e, para se embelezarem, colam o cabelo à altura das maçãs do rosto, deixando um orifício adiante e outro atrás. Nas mãos levam braceletes de ouro".
O apogeu comercial atraiu o interesse de outros povos europeus, nomeadamente dos Holandeses e Ingleses, que, mais de uma vez, por diferentes formas, tentaram assumir o controlo das rotas dos mares da China e do Japão. Nos inícios do século 17, os frequentes recontros entre Portugueses e Holandeses obrigaram a cidade a fortificar-se, criando nos Chineses o temor de que os Portugueses assumissem uma posição ofensiva, e ao reforço da posição do líder militar, o capitão geral que, vindo de Goa, passou a disputar com o Senado, o poder executivo da cidade. Mas os Holandeses não conseguiram alterar o domínio português no comércio com o Japão.
A década de 30 revelar-se-ia, porém, fatal, com uma sucessão de acontecimentos que ultrapassaram os mais negros cenários previstos para a cidade. Os cristãos são massacrados no Japão e Nagasáqui fecha-se ao comércio português; os Ingleses começam a entrar no porto de Cantão e a disputarem o comércio com a China, e, final mente, quando os portugueses de Macau comemoram o regresso à independência, acaba o comércio com as Filipinas, sob jugo espanhol, e, em, 1641, Malaca é conquistada pelos Holandeses As principais linhas de abastecimento e prosperidade de Macau estavam encerradas e abalado o prestígio de que Portugal gozava entre os Chineses como principal potência europeia. Em Pequim, crescente influência dos jesuítas, que impressionaram o Imperador com os seus conhecimentos, e a deslocação da embaixada de Manuel de Saldanha, tentaram ajudar os Portugueses a retomar o comércio marítimo proibido desde 1662, uma medida tão prejudicial para Macau que leva o Padre Francisco Pimentel a concluir: "e como os moradores desta cidade não tinham bem algum de raiz, nem um palmo de terra sobre que cair mortos, tirar-lhes o comércio foi o mesmo que tirar-lhes a vida".
Sugestão de visita: Museu Marítimo de Macau
Alguma coisa os jesuítas terão ajudado, uma vez que o Imperador Kang-Hsi se recusou "a sair com algum decreto contra Macau, ainda que muitos lho solicitavam, porque (seria) agravar a um Rei e a uma Nação a que há tão pouco tempo fez tantas honras em sua corte", mas foi uma questão de tempo. Em 1688, 18 anos depois da embaixada de Saldanha, as autoridades chinesas estabeleciam uma alfândega, destinada a cobrar impostos aos barcos chineses e estrangeiros que demandassem o porto, o que retirou ao Senado a última grande fonte de receita do estabelecimento português.
Ao longo do século XVIII o período de decadência torna-se ainda mais evidente. Agravam-se as relações com os Chineses, que em 1732 abrem nova alfândega na Praia Grande e quatro anos depois criam o cargo de mandarim para administrar os interesses chineses em Macau. Agravam-se as relações com a Coroa Portuguesa com as "Providências Régias" de D. Maria I a conferirem mais poderes ao Governador, considerando os membros do Senado "todos ignorantíssimos em matéria de governo e sem outras vistas mais do que a de procurarem a sua fortuna por meio de navegação e comércio".

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