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quarta-feira, 15 de abril de 2020
terça-feira, 14 de abril de 2020
"Dulce et decorum est pro patria mori"
O ossário–monumento dos Combatentes da Grande Guerra no Cemitério de S. Miguel no dia da inauguração em Abril de 1938.
Nas várias faces do monumento pode ler-se a expressão em latim: "Dulce et decorum est pro patria mori" - "É doce e adequado morrer pela pátria" - um dos versos da obra "Odes" do poeta romano Horácio.
Parte da expressão - "Dulce et Decorum est" - foi também utilizada como título de um poema de Wilfred Owen sobre os efeitos de um ataque de gás sobre os soldados da primeira guerra mundial e publicado postumamente em 1920.
A expressão pode ainda ser encontrada em edifícios um pouco por todo o mundo e é também o lema de várias instituições como é o caso do Academia Militar em Portugal.
No Jardim de S. Francisco existe outro registo da Liga dos Combatentes da Grande Guerra no território, sendo Lara Reis um dos fundadores.
segunda-feira, 13 de abril de 2020
Filatelia: 1º Congresso Nacional Medicina Tropical (1952)
Em 1952 decorreu em Lisboa o 1º Congresso Nacional de Medicina Tropical. Em Portugal e nas colónias portuguesas - Macau incluído - foi feita uma emissão filatélica especial para assinalar o evento.
Para o selo de Macau foi escolhido um desenho da autoria de Alberto Souza, do Hospital de S. Rafael, um dos dois hospitais do tipo ocidental existentes no território. O evento foi organizado com o objectivo de promover o reconhecimento da Medicina Tropical portuguesa no contexto europeu e estava enquadrado na propaganda do Estado Novo, que pretendia mostrar o progresso da Medicina em Portugal e contribuir para a afirmação do país enquanto Estado colonial e sua legitimação enquanto Estado-Nação.
domingo, 12 de abril de 2020
Rua de S. Paulo em 1870 por John Thomson
Rua de S. Paulo fotografada em 1870 por John Thomson (1837-1921).
A rua de S. Paulo no século 21
São dos primeiros registos fotográficos de Macau;
até então era a pintura que retratava a realidade.
Vendedores de rua
Uma rua vibrante... cheia de vida. Contei pelo menos 11 pessoas.
Detalhes da arquitectura da época e da iluminação pública
Pessoas à janela
Canas de bambú a suportarem os edifícios
Uma sombrinha para o som e o sistema pinga para o transporte de carga
sexta-feira, 10 de abril de 2020
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Desaparecimento misterioso em 1957
O norte-americano Donald Blackwood, de 24 anos, esteve desaparecido durante quase 3 meses na Primavera de 1957. A sua curiosidade por ver a China era tanta que foi até Hong Kong e daí para Macau onde na noite de 27 de Abril alugou uma sampana com a qual atravessou o canal do Porto Interior em direcção à ilha da Lapa. Nesta altura a ilha era já território chinês. Seria apanhado pelas autoridades chinesas sem qualquer documentação legal que permitisse a sua entrada e por isso foi preso. Seria expulso da China e libertado em meados de Julho.Em plena guerra fria, com a China ainda fechada ao exterior, a história deste jovem militar oriundo do Ohio e casado com uma norte-coreana correu mundo...
Preocupado o seu pai viajou até Hong Kong e depois a Macau à sua procura. Após uma semana de contactos e sem notícia do filho regressou aos EUA. Dois dias depois de partir, a 16 de Maio de 1957, surgia uma notícia que dava conta de que a polícia de Macau garantia que Donald, a mulher e o filho de apenas oito meses estava na China. Foi certamente através de contactos feitos com as autoridades portuguesas que Donald foi devolvido à liberdade.
Em Julho a agência Reuters escrevia: "An American salesman, Donald Blackwood. returned today from communist China where he had gone "just to see how the place looks."
Notícia do jornal The Desert Sun na edição de 12 de julho de 1957:
Mystery Man Says China Visit Due to Blackwood Says He Was Disappointed Hopes to Return To U.S.; Sorry About Actions
Hong Kong - Donald Jackson Blackwood, 24, whose disappearance two months ago became a cold war mystery, said today he i went into Red China out of "curiosity" but was "disappointed" with what he saw. Blackwood, of Cincinnati, Ohio, I returned by ferry boat to Hong Kong this morning with his North Korean-born wife and small child; The Chinese Communists expelled them Thursday across the border i into the Portuguese udony of Macao. “I was curious to see China and learn all about it," Blackwood told newsmen today. "Now that I've made the trip 1 am disappointed and sorry.” He called the trip an “irresponsible gesture on my part" and admitted quietly he had disobeyed a Stale Department ban on travel to Red China. “Although I made the trip 1 consider myself a loyal American," he said. IT am sorry I went and I am sorry 1 disobeyed the State Department ruling." Blackwood, a former enlisted man in the Air Force, said he met his wife while in the service. He married her after he returned from the United States in the spring of 1955 as a civilian. He said she strongly opposed the trip to Bed China. Asked how he entered China without a visa he replied, “A rickshaw boy, a sampan man and 100 U.S. dollars. He said he was ferried to the Chinese shore opposite Macao in the early hours of April 28. He said the Chinese read him a statement charging him with illegal entry and “we then left within five minutes." But he said if it hadn't been for the expulsion order he would have stayed longer, "I was planning to see Peiping, Shanghai and North Korea." “My personal desire to see China was stronger than my will to abide by the Slate Department ruling,” he said. Blackwood said he planned to return to the United Slates and work for his father, a drive-in restaurant owner who flew to Hong Kong to search for his missing son. But he wasn't sure when he would return because of “State Department technicalities."
O Chicago Tribune de 21 de Julho de 1957 escrevia sobre o regresso a casa atribulado num telex escrito a partir de Hong Kong com o título: "Korea Delays American Return Home". Ou seja, a viagem ficou momentaneamente comprometida já que o consulado da Coreia em Hong Kong apreendeu o passaporte da mulher de Donald.
Donald J. Blackwood, expelled from Red China as an illegal immigrant, postponed his return to the United States to day Korean consulate here picked up his Korean's wifes passport. Blackwood, 24, of Cincinnati, Ohio, said he went to Red China with his wife and 8 month old son solely out of curiosity. There were reports Blackwood would make another attempt to leave Monday, disregarding the Korean consulate's action, by using his wife's entry visa to the United States as a travel document."
quarta-feira, 8 de abril de 2020
"Pearls from Macao"
Na edição de Julho de 1933 da revista Magic Carpet - dedicada à literatura de aventura - o destaque era um conto intitulado "Pearls from Macao" da autoria de H. Bedford-Jones (1887-1949). Uma "emocionante história de assassinato e mistério nos mares do sul da China".
Nascido no Canadá, Henry James O'Brien Bedford-Jones notabilizou-se como escritor de romances de aventuras, ficção científica e crime. Naturalizou-se norte-americano em 1908.
terça-feira, 7 de abril de 2020
John Thomson: fotógrafo, geógrafo e viajante
Nascido na Escócia, John Thomson (1837-1921) foi um dos primeiros fotógrafos a viajar para o leste da Ásia.
Por volta de 1850 torna-se aprendiz junto de um fabricante de instrumentos ópticos tem o primeiro contacto com os princípios da fotografia. Em 1861 torna-se membro da Royal Scottish Society of Arts e, no ano seguinte, decide juntar-se ao irmão que estava em Singapura. Deixa Edimburgo rumo a Singapura em Abril de 1862, o início de uma viagem que iria durar uma década. Primeiro dedicou-se a tirar retratos de comerciantes europeus, mas depressa desenvolveu um grande interesse pelos povos e costumes locais, podendo considerar-se um pioneiro do foto-jornalismo.
Em 1864, Thomson viajou até ao Sião (Tailândia), onde fotografou o rei e membros da família real. Ao fim de pouco mais de um ano, seguiu para o Cambodja, visitando Angkor, as florestas e Phnom Penh, onde também fotografou a família real. Regressa entretanto a Londres onde dá palestras e publica um livro
Em 1868 estabelece-se em Hong Kong viajando na região durante 4 anos. Foi nesta altura que visitou e fotografou Macau (em 1870), Cantão, Amoy, Fukien, Pequim e Formosa, etc.
Dos mendigos urbanos aos camponeses das áreas rurais passando pelos mandarins dos palácios imperiais, Thomson registou centenas de momentos únicos na história.
Regressa Inglaterra onde instala um estúdio, dá palestras e escreve livros, mas ainda passa pelo Chipre em 1878, ates de assentar de forma definitiva em Londres.
Em 1921, Henry Wellcome adquiriu uma colecção de mais de 600 negativos originais em placa de vidro de Thomson.
Em Macau Thomson tirou mais de uma dezena de registos feitos com a tecnologia mais recente na época. Uma câmara de colódio húmido e vários equipamentos adicionais que obrigavam a ter sempre consigo pessoas e animais que auxiliam no transporte. Bem preservadas, muitas das placas de vidro, seriam 'reveladas' e digitalizadas mais de 150 anos depois e com uma excelente definição.
Thomson morreu em 1921 aos 84 anos de ataque de coração. Em homenagem à obra que deixou o seu nome foi atribuído a um dos picos do Kilimanjaro, o chamado Point Thomson.
Entre as várias obras que escreveu destaco uma de 1898 intitulada Through China with a Camera de onde retirei este excerto - e a imagem abaixo - sobre Macau.
Macao is a magnificent curiosity in its way. The Chinese say it has no right to be there at all; that it is built on Chinese soil; whereas the Portuguese, on their part, allege that the site was ceded to the King of Portugal in return for services rendered to the Government of China. These services, however, cannot have been properly appreciated, for the Chinese in 1573, built a barrier-wall across the isthmus on which the town stands, to shut out the foreigners.
The place has had a chequered history since the time of its original foundation, sometimes being under its own legitimate Government, and at others being claimed and ruled by the Chinese. But its history, however important to the parent country, had better be left alone, more especially as there are passages in it which reflect no great lustre on the nation whom Camoens adorned.
The main streets in Macao are deserted. The houses there are painted in a variety of strange colours, some of the windows being fringed with a rim of red, which gives them the look of inflamed eyes in the painted cheeks of the dwellings. But there are magnificent staircases, wide doorways and vast halls, though the inmates for the most part are a very diminutive race; they are called Portuguese, but they suffer by comparison with the more recent arrivals from the parent land, being darker than the Portuguese of Europe, and darker even than the native Chinese.
| Praia Grande vista da Penha em 1870 por J. Thomson |
There is trade going on the streets, but it is of a very languid kind, and the gambling-houses, or the cathedral are the chief places of resort. The forts are, of course, garrisoned with troops from Europe. At 4 p.m. or thereabouts, the settlement wakes up; carriages whirl along the road; sedan chairs struggle shorewards, that their occupants may taste the sea-breeze; and the mid-day solitudes of the Praya Grande have been converted into a fashionable promenade. Ladies are there too, attired in the lightest costumes and the gayest colours; some of them pretty, but the majority sallow-faced and uninteresting, and decked out with ribbons and dresses, whose gaudy tints are so inharmoniously contrasted, that one wonders how Chinnery the painter could have spent so many of his days among a community so wanting in artistic tastes.
The young men - for there seem to be no old men here, at least all dress alike, quite irrespective of years - are a slender race, but not more slender than diminutive. But if Macao is interesting as a Portuguese settlement, and the only one which now remains to Portugal of those which her early traders founded in China, it can also boast of historic associations, giving it a special and independent attraction. Here the poet Camoens found a retreat, and here too, Chinnery produced a multitude of sketches and paintings, which have really had some influence on art in the south of China.
| A placa de vidro antes da revelação (imagem anterior) |
O colódio surgiu depois do daguerreótipo. O colódio - espécie de verniz - era aplicado nas placas fotográficas de vidro e depois sensibilizado com nitrato de prata. Dizia-se húmido porque a placa devia permanecer húmida durante todo o procedimento, desde a captação à revelação das imagens. Na prática os fotógrafos transportavam um laboratório fotográfico (quase sempre uma pequena carroça). A sujidade, o riscar e o partir das placas eram os inconvenientes, mas em contrapartida o tempo de exposição foi muitíssimo reduzido.
segunda-feira, 6 de abril de 2020
Grafonolas: década 1930
Neste anúncio de imprensa a Agência Mercantil Económica - na Av. Almeida Ribeiro, 1 a 11 - dá a conhecer ao público os modelos de grafonola portáteis da marca Columbia - "Boas Bonitas e Baratas" - do ano 1930.
domingo, 5 de abril de 2020
Sede da Fábrica de Panchões Yick Loong Co.
Em cima imagem da sede da Fábrica de Panchões Yik Loong no nº 14 da Rua de Miguel Aires (junto ao Porto Interior), em Macau. O prédio foi demolido recentemente.
O nome completo em chinês é: 益隆炮竹工場 Yik Lung Pau Juk Gung Cheung. 工場 / Gung Cheung significa fábrica.
Rótulo de uma das muitas marcas da fábrica
Em português pronuncia-se Iec Long, daí também termos esta designação.
Foi fundada pela família Tang na década 1920
Nome no muro da fábrica (Rua Fernão Mendes Pinto, Taipa): 1928 a 1984.
sábado, 4 de abril de 2020
sexta-feira, 3 de abril de 2020
"Annuncio: Corridas de Cavallos": 1883
Este anúncio de Fevereiro de 1883 foi publicado na imprensa de Macau - no caso "O Correio de Macau" - e Hong Kong. As corridas cavalos anunciadas disputavam-se no hipódromo de Happy Valley na vizinha colónia britânica.
Este tipo de corridas, curiosamente, até começou em Macau, muitos anos antes... Peter Mundy, por exemplo, refere corridas em 1637 junto à igreja de S. Domingos.
O hipódromo e o cemitério de Happy Valley
Na época, Harriet Low (1809-1877) era das poucas mulheres estrangeiras a viver no território (entre 1829 e 1834). No seu Diário escreveu assim a 5 de Novembro de 1829:
"(...) O campo de corridas está no lugar chamado a Barreira, que impede todos os estrangeiros de passarem além. O campo mede cerca de três quartos de milha. Havia lá uma casa provisória de bambú construída para as senhoras, e posso afiançar-te, minha querida irmã, que era muito interessante contemplar o matizado grupo abaixo de nós. Chineses de todas as descrições, enfarpelados nos seus trajos muito singulares, alguns com os chapéus da forma dum cesto, muitos de cabeça descoberta, mas empunhando uma ventoinha que os protege do sol. Alguns tinham sacos nas costas medindo cerca de meia jarda quadrada, nos quais metem os bebés. Estes pobrezinhos apanhavam chocadelas em toda a roda, no meio da multidão, como se fossem pedaços de madeira.
Portugueses e lascares andavam de mistura com chineses e, ao ouvir esta mistura de línguas – das quais nada compreendi, fez-me pensar na confusão de Babel, o que me levou a desejar que esta doida gente tivesse na terra tanto tempo quanto lhe fosse permitido. Algumas das corridas foram muito boas e fizeram-se grandes apostas.
Regressámos cerca das sete horas e tivemos uma longa discussão sobre os méritos dos ingleses. (...)
| Antes da construção do hipódromo era na zona da Praia da Areia Preta que se realizavam as corridas de cavalos. |
As corridas de cavalos em Macau não passaram naturalmente despercebidas e a 28 de Abril de 1829 o Mandarim de Heong San enviou um ofício às autoridades de Macau “ordenando-lhe que proibisse imediatamente as corridas de cavalos com que, por divertimento, os estrangeiros residentes em Macau (ingleses) assustavam os viandantes, junto às Portas do Limite, o que constituía uma grave ofensa às leis do Império”
Nesta época eram realizadas uma ou duas vezes por ano tendo as primeiras remontado a 1798. Há também registo de corridas perto de Casa Garden (na época arrenda à Companhia holandesas das Índias Orientais).
Na toponímia um dos registos mais antigos destas corridas é muito provavelmente a Rampa dos Cavaleiros. Há ainda a Avenida do Hipódromo.
Nesta época eram realizadas uma ou duas vezes por ano tendo as primeiras remontado a 1798. Há também registo de corridas perto de Casa Garden (na época arrenda à Companhia holandesas das Índias Orientais).
Na toponímia um dos registos mais antigos destas corridas é muito provavelmente a Rampa dos Cavaleiros. Há ainda a Avenida do Hipódromo.
quinta-feira, 2 de abril de 2020
Chine ancienne et nouvelle
No último ano do século XIX o francês, G. Weulersse (1874-1950), antigo aluno da Escola Normal Superior, agregado de História e Geografia e bolseiro de viagem da Universidade de Paris passou pela China numa viagem à volta do mundo.Em 1901 escreveu as impressões e reflexões pessoais da viagem e um ano depois publicou-as em Paris num livro de 366 páginas intitulado "Chine ancienne et nouvelle: Impressions et Réflexions"
O terceiro capítulo - pág. 63 a 79 - é dedicado a Macau onde o autor esteve em Abril de 1900.
Neste post apresento alguns excertos da edição original em francês e a tradução dos mesmos onde são abordados os mais diversos temas, desde a arquitectura a hábitos locais, passando pelos templos e igrejas (Ruínas de S. Paulo e Sé Catedral), a gruta de Camões, a população cristã e chinesa, o comércio, o ópio e o jogo do fantan.
"Avec sa fraîche polychromie de murailles blanches, jaunes, mauves et roses, ornées de volets verts et vêtues de verdure, sous le ciel bleu, au grand soleil Macao a un air de jeunesse et de gaîte"
Com a sua fresca policromia de muralhas brancas, amarelas, malvas e rosadas, enfeitadas com postigos verdes e vestidas de verdura, sob o céu azul e o sol escaldante, Macau tem um ar jovial e alegre.
"La 'Praya Grande' est l'orgueil de Macao. C'est un boulevard qui se développe avec ampleur en croissant sur la grande baie. La vue sur le large est très belle: la mer vient battre les enrochements du quai, et quelquefois rejaillit par-dessus les parapets de granit. Ce n'est plus ici l'atmosphère étouffée d'Hong-Kong: on respire à pleins poumons la brise. L'ombre est délicieuse des banians aux branches basses, au feuillage serré, que l'âpre vent de mer a noués et tordus. Enfin ce grandfront de vérandas décorées des plus fraîches couleurs, ces étages de colonnes, ces frontons, ces terrasses: tout cela forme unjoli décor. (...)La Praya est soignée comme une allée de parc: on n 'a rien négligé pour l'embellir; même les poteaux télégraphiques sont décorés, peints en bleu et rouge, et surmontés de boules dorées. C'est l'élé-gance, le 'fini' minutieux d'une ville que le mouvement de la vie ne trouble plus, et qui se pare elle-même comme une relique"
A Praia Grande é o orgulho de Macau. É uma grande avenida que se desenvolve ao longo da baía. A vista sobre o conjunto é muito bela: o mar bate nas rochas do cais e, por vezes, ultrapassa os resguardos de granito. Aqui já não há a atmosfera abafada de Hong-Kong: respira-se livremente a brisa. É deliciosa a sombra das figueiras de ramos baixos, folhagem serrada, que o rude vento do mar enredou e retorceu. Esta grande frente de varandas pintadas de cores alegres, estes prédios coloniais, estas fachadas, terraços, formam um cenário bonito. (...) A Praia está cuidada como se fosse uma alameda de parque: o seu embelezamento é muito cuidado. Até os postes telegráficos foram decorados, pintados de azul e vermelho, com um globo dourado no topo. É a elegância, o acabamento minucioso de uma cidade que não é afectada pelo movimento normal e que se enfeita a si própria como uma relíquia.
"Plus vivante que l'arrière-ville, la Praya manque cependant d'animation. Les pousse-pousse sont de longues heures oisifs à leur station; et à certains moments la Praya serait désert sans les ratisseurs et balayeurs continuellement occupés à ramasser les feuilles tombées des banians"
Mais viva que a parte interior da cidade, mesmo assim a Praia tem falta de animação. Os riquexós permanecem estacionados durante horas nas suas estações. Por vezes, a Praia fica deserta, sem os raspadores e varredores que se ocupam da limpeza das folhas caídas das figueiras.
"Au-dessous de l'arsenal, vaste bâtiment blanc aux volets verts dont le badigeon s'est écaillé, au pied d'une muraille de pierres sèches, s'étend le jardin où furent achevées les 'Lusiades'. Des haies de jeunes bam-bous; un taillis clairsemé de grands banians àcaoutchouc dont les racines comme des serpents se glissent dans les fissures des roches, et comme des tentacules de poulpe les enserrent; des dessins de rocaille, mais recouverts de mousse; des allés élégantes, mais envahies par les herbes: tout respire un air de demi-abandon, de nature douce et libre. Quel contraste avec le somptueux, l'impérial jardin de Hong-Kong: mais c"est bien ainsi qu'on imagine la retraite du poète!
Voici son observatoire: il tombait en poussière, on a dû le reconstruire. Mais du haut de la colline la vue ne descend plus sur une campagne paisible comme alors! Au pied même de la terrasse s'étend un quartier chinois. De petites maisons aux toits de tuiles brunes, si pressées les unes contre les autres qu'à peine aperçoi-ton de rares coins de façades blanches, bleues ou roses: au-dessus s 'élèvent les tours des Monts-de-Piété, l'arête des grands murs bordée d'une sorte de fresque blanche et noire. Et le guide me donne des détails positifs: ces Chinois paient 3 cents par an et par mètre carré au gou-vernement de Macao.
El là-bas cette île au nom poétique - 'Green Is-land', l'Ile Verte - est maintenant rattachée à la terre, gâtée par les cheminées et les fumées d'une fabrique de ciment anglaise: cela rapporte 400 piastres par an au gouvernement de Macao, plus 10 cents par tonneau de ciment; — si seulement Camoëns les avait eus pour revenu! Le monument du moins est digne du poète. Entre deus énormes blocs de granit qui, en s'appuyant l'un contre l'autre, forment une arche naturelle, le buste de bronze est placé sur un socle de granit, et sur l'héroїque mélancolie de ce visage où l'soeil droit est éteint, descendent comme des lauriers toujours nouveaux des bran-ches defeuillage vert."
Na parte inferior do arsenal, um grande edifício branco com postigos verdes cuja tinta se lascou, na base de uma muralha de pedras secas, desenvolve-se o jardim onde foram terminados Os Lusíadas. Fileiras de bambus novos, uma mata com grandes figueiras cujas raízes serpenteiam por entre as fendas das rochas e, como tentáculos de polvo, as abraçam; desenhos de conchas cobertas de musgo; alamedas elegantes, mas invadidas por plantas: tudo tem um ar de semi-abandono, de natureza doce e livre. Que contraste com o sumptuoso jardim imperial de Hong-Kong. No entanto, é neste ambiente que se imagina o retrato do poeta!
Eis o seu observatório: cheio de pó, era preciso reconstruí-lo. Mas do alto da colina a vista já não abrangia um campo agradável como então! Perto do terraço, estende-se um bairro chinês. Pequenas casas com tectos de telhas castanhas, apertadas umas contras as outras, azuis ou cor de rosa: por cima, elevam-se as rodas dos Montes-da-Piedade, a aresta dos grandes muros bordados de preto e branco. O guia dá-me informações: estes chineses pagavam 3 centavos por ano e por metro quadrado ao governo de Macau.
Lá em baixo, uma ilha de nome poético - Ilha Verde - que já está ligada à terra, corrompida pelas chaminés e fumos de uma fábrica inglesa de cimento que paga ao governo de Macau 400 piastras por ano e 10 cêntimos por tonelada de cimento; como seria bom se Camões pudesse ter usufruído de tal rendimento.
Pelo menos, o monumento é digno do poeta. Entre dois blocos enormes de granito que, apoiando-se um contra o outro, formam um arco natural, o busto de bronze está colocado sobre um pedestal de granito e, sobre a melancolia heróica desta imagem com o olho direito tapado, ramos de folhagem verde caem como coroas de louros.
"Ces rues étroites, ces 'calçadas' grimpantes et tournantes, sans trottoirs, pavées de têtes de chat ro-cailleuses ou glissantes, rappellent le siècle passé. Les grands vitrages de coquilles vaguement translucides montées sur un treillis en bois, aussi étranges à nos yeux que les carreaux de papier des Chinois, nous transportent encore plus loin, dans le Moyen Age. En plein jour ces rues sont presque désertes. Dans la plupart la pente est trop raide même pour des pousse-pousse. Le visiteur y peut errer et rêver sans être dérangé, troublé même par le bruit: dans quelque endroit un peu plus large il trouvera peutêtre la chaussée transformée en atelier par de petits artisans chinois qui y étanlent, pour sécher, des fleurs artificielles ou bien des cheveux. Beaucoup des rues ou ruelles serpentent entre de grands murs aveugles, sans fenêtres et même sans portes, par-dessus lesquels parfois débordent des verdures tombantes dont la luxuriance même dit l'abandon; entre lesquels résonnent clair les pas solitaires sur le pavé de galets. Quand ce ne sont pas des murs de couvents, ce sont les murs de soutènement des maisons en terrasse."
As ruas estreitas, as calçadas trepadoras e enleantes, sem passeios, calcetadas com pedras ásperas ou escorregadias, fazem lembrar o século passado. As grandes vidraças vagamente translúcidas postas sobre um engradado de madeira, tão estranhas para nós como os ladrilhos de papel dos chineses, fazem-nos recuar até à Idade Média.
Durante o dia, estas ruas estão quase desertas. Na maioria dos casos, o declive é demasiado íngreme mesmo para os riquexós. O visitante pode aí vaguear e sonhar sem ser incomodado ou perturbado pelos ruídos: nas ruas mais largas encontrará talvez a calçada transformada em oficina, com os pequenos artesãos chineses aí instalados, secando as flores artificiais ou até cabelos.
Muitas ruas ou ruelas serpenteiam entre os grandes muros cegos, sem janelas e até sem portas, por cima dos quais cai por vezes uma vegetação luxuriante, sinal de abandono. Aqui, os passos solitários ressoam claramente sobre o pavimento de calhaus. Quando não se tratam de muros de convento, são muros de apoio de casas com terraço.
"Presque toutes les fenêtres d'ailleurs sont défendues par de forts barreaux qui donnent aux habita-tions un aspect de prisons: précaution utile contre les voleurs qui sont nombreux à Macao; protection éven-tuelle contre un coup de main de la population chinoise, très mêlée et assez turbulente!"
Quase todas as janelas exteriores são defendidas por barras fortes que dão às habitações um ar de prisão: precaução útil contra os ladrões que são numerosos em Macau; protecção contra um eventual golpe de mão por parte da população chinesa, muito intrometida e deveras turbulenta.
"Les plus riches habitations privées sur la Praya Grande sont celles de gros commerçants chinois qui, après fortune faite, ont trouvé ici un refuge contre les exactions des mandarins; ils y ont trouvé aussi un air plus sain que celui de Hong-Kong, et des terrains moins chers"
As habitações privadas mais ricas da Praia Grande pertencem a corpulentos comerciantes chineses que, depois de conseguida a fortuna, aqui encontraram refúgio contra as imposições dos mandarins; aqui encontraram igualmente um ar mais puro do que em Hong-Kong e terrenos mais baratos.
"Le véritable monument de l'ancien Macao est une ruine, le portail de 'San Paulo'. Les escaliers qui y montent sont imposants: ils montent, montent, comme vers les nuages, semblables aux escaliers célèbres du Japon; mais larges comme des terrasses, ils ont encore plus de grandeur; l'herbe a beau pousser sur leurs marches de pierre. La façade seule restée debout se détache en plein ciel comme un grand portique triangulaire à trois étages."
O verdadeiro monumento da antiga Macau é uma ruína, a fachada de S. Paulo. As suas escadas são imponentes, não param de subir, até parecem as célebres escadas do Japão; mais largas que terraços, têm ainda uma grandeza maior. A erva cresce por entre os seus degraus de pedra. A fachada fica no topo, destaca-se em contraste com o céu, como um grande pórtico triangular de três andares.
"L'incurie des Portugais a laissé la saleté chinoise souiller cette ruine. Ce qui fut l'intérieur de la nef n'est qu'un amas de décombres et d'ordures où les porcs se promènent. Au moment où je lis l'inscription sculptée sous la grande arcade du milieu: 'Mater Dei...' une énorme truie paraît dans l'ouverture; et des immondices sont accu-mulées devant la 'première pierre', jadis posée en grande pompe, où se lit encore une inscriptions mémorable:
VIRGINI MAGNAE MATRI CIVITAS MACAENSIS LIBENS POSUIT AN. 1602."
A incúria dos portugueses deixou a sujidade chinesa estragar esta ruína. O que tinha sido o interior da nave é agora um monte de escombros e imundície onde os porcos se passeiam. Na altura em que leio a inscrição esculpida sob a grande arcada do meio Mater Dei... aparece uma grande porca na entrada. A imundície acumula-se à frente da "primeira pedra", lançada com grande pompa, onde se pode ler uma inscrição memorável.
"L'intérieur de la cathédrale est très gai, tout blanc, vivement éclairé par de larges fenêtres ouvrant sur des vérandas; les lustres sont chargés de cristaux; jusqu'aux verres des lampes qui sont ondulés et teints en bleu: c'est une salle élégante. Point de mystère, point d'envolée: l'arc du plafond est surbaissé, et des filets d'or relèvent la corniche blanche, comme dans un salon Louis XVI. La chaire est de belle laque noire dorée; et les boiseries des 'loges' reluisent également de laques et d'ors. Les chapelles latérales sont décorées en bleu foncé et en rouge vif. Le grand autel est tout blanc, mais étincelant d'orfèvreries; au-dessus une Vierge en blanc trône sous un dais bleu tendre"
O interior da catedral é muito alegre, todo branco, iluminado pelas largas janelas abrindo sobre varandas; dos lustres carregados de cristais, até aos vidros das lâmpadas, ondulados e azulados, é na verdade uma sala elegante. O arco do tecto é rebaixado e filetes de ouro realçam a cornija branca, como num salão do estilo Luís XVI. O púlpito é feito de laca preta dourada e os forros reluzem também com lacas e ouros. As capelas laterais estão decoradas com azul escuro e vermelho vivo. O grande altar é todo branco, mas decorado com joalharia. Por cima, está uma Virgem num trono branco sob um pálio azul suave.
"Macao est remplie de religieux et fait montre de ses soldats. Mais ce sont justement des soldats de parade: c'est à peine s'ils savent tenir leur arme; et au moindre défilé on les voit tous: ils sont deux cents. Macao est défendue par sept forts: cela fait à peine trente hommes par fort, à peine de quoi garder les priso-nniers. Et ces forts sont des antiquités: la plupart des canons sont des canons de bronze. Macao contre une attaque sérieuse ne tiendrait pas une heure!"
Macau está repleta de religiosos e faz alarde dos seus soldados, mas são somente soldados de parada: é com muito custo que sabem pegar numa arma e no mais pequeno desfile vêem-se logo todos pois são só duzentos. Macau está defendida por sete fortes e é com muito custo que cada um tem uma guarnição de trinta homens e é também com dificuldade que os presos são guardados. Estes fortes são antiguidades: a maioria dos canhões é feita de bronze. Perante um ataque a sério, Macau não durava mais do que uma hora.
Com a sua fresca policromia de muralhas brancas, amarelas, malvas e rosadas, enfeitadas com postigos verdes e vestidas de verdura, sob o céu azul e o sol escaldante, Macau tem um ar jovial e alegre.
"La 'Praya Grande' est l'orgueil de Macao. C'est un boulevard qui se développe avec ampleur en croissant sur la grande baie. La vue sur le large est très belle: la mer vient battre les enrochements du quai, et quelquefois rejaillit par-dessus les parapets de granit. Ce n'est plus ici l'atmosphère étouffée d'Hong-Kong: on respire à pleins poumons la brise. L'ombre est délicieuse des banians aux branches basses, au feuillage serré, que l'âpre vent de mer a noués et tordus. Enfin ce grandfront de vérandas décorées des plus fraîches couleurs, ces étages de colonnes, ces frontons, ces terrasses: tout cela forme unjoli décor. (...)La Praya est soignée comme une allée de parc: on n 'a rien négligé pour l'embellir; même les poteaux télégraphiques sont décorés, peints en bleu et rouge, et surmontés de boules dorées. C'est l'élé-gance, le 'fini' minutieux d'une ville que le mouvement de la vie ne trouble plus, et qui se pare elle-même comme une relique"
A Praia Grande é o orgulho de Macau. É uma grande avenida que se desenvolve ao longo da baía. A vista sobre o conjunto é muito bela: o mar bate nas rochas do cais e, por vezes, ultrapassa os resguardos de granito. Aqui já não há a atmosfera abafada de Hong-Kong: respira-se livremente a brisa. É deliciosa a sombra das figueiras de ramos baixos, folhagem serrada, que o rude vento do mar enredou e retorceu. Esta grande frente de varandas pintadas de cores alegres, estes prédios coloniais, estas fachadas, terraços, formam um cenário bonito. (...) A Praia está cuidada como se fosse uma alameda de parque: o seu embelezamento é muito cuidado. Até os postes telegráficos foram decorados, pintados de azul e vermelho, com um globo dourado no topo. É a elegância, o acabamento minucioso de uma cidade que não é afectada pelo movimento normal e que se enfeita a si própria como uma relíquia.
Mais viva que a parte interior da cidade, mesmo assim a Praia tem falta de animação. Os riquexós permanecem estacionados durante horas nas suas estações. Por vezes, a Praia fica deserta, sem os raspadores e varredores que se ocupam da limpeza das folhas caídas das figueiras.
"Au-dessous de l'arsenal, vaste bâtiment blanc aux volets verts dont le badigeon s'est écaillé, au pied d'une muraille de pierres sèches, s'étend le jardin où furent achevées les 'Lusiades'. Des haies de jeunes bam-bous; un taillis clairsemé de grands banians àcaoutchouc dont les racines comme des serpents se glissent dans les fissures des roches, et comme des tentacules de poulpe les enserrent; des dessins de rocaille, mais recouverts de mousse; des allés élégantes, mais envahies par les herbes: tout respire un air de demi-abandon, de nature douce et libre. Quel contraste avec le somptueux, l'impérial jardin de Hong-Kong: mais c"est bien ainsi qu'on imagine la retraite du poète!
Voici son observatoire: il tombait en poussière, on a dû le reconstruire. Mais du haut de la colline la vue ne descend plus sur une campagne paisible comme alors! Au pied même de la terrasse s'étend un quartier chinois. De petites maisons aux toits de tuiles brunes, si pressées les unes contre les autres qu'à peine aperçoi-ton de rares coins de façades blanches, bleues ou roses: au-dessus s 'élèvent les tours des Monts-de-Piété, l'arête des grands murs bordée d'une sorte de fresque blanche et noire. Et le guide me donne des détails positifs: ces Chinois paient 3 cents par an et par mètre carré au gou-vernement de Macao.
El là-bas cette île au nom poétique - 'Green Is-land', l'Ile Verte - est maintenant rattachée à la terre, gâtée par les cheminées et les fumées d'une fabrique de ciment anglaise: cela rapporte 400 piastres par an au gouvernement de Macao, plus 10 cents par tonneau de ciment; — si seulement Camoëns les avait eus pour revenu! Le monument du moins est digne du poète. Entre deus énormes blocs de granit qui, en s'appuyant l'un contre l'autre, forment une arche naturelle, le buste de bronze est placé sur un socle de granit, et sur l'héroїque mélancolie de ce visage où l'soeil droit est éteint, descendent comme des lauriers toujours nouveaux des bran-ches defeuillage vert."
Na parte inferior do arsenal, um grande edifício branco com postigos verdes cuja tinta se lascou, na base de uma muralha de pedras secas, desenvolve-se o jardim onde foram terminados Os Lusíadas. Fileiras de bambus novos, uma mata com grandes figueiras cujas raízes serpenteiam por entre as fendas das rochas e, como tentáculos de polvo, as abraçam; desenhos de conchas cobertas de musgo; alamedas elegantes, mas invadidas por plantas: tudo tem um ar de semi-abandono, de natureza doce e livre. Que contraste com o sumptuoso jardim imperial de Hong-Kong. No entanto, é neste ambiente que se imagina o retrato do poeta!
Eis o seu observatório: cheio de pó, era preciso reconstruí-lo. Mas do alto da colina a vista já não abrangia um campo agradável como então! Perto do terraço, estende-se um bairro chinês. Pequenas casas com tectos de telhas castanhas, apertadas umas contras as outras, azuis ou cor de rosa: por cima, elevam-se as rodas dos Montes-da-Piedade, a aresta dos grandes muros bordados de preto e branco. O guia dá-me informações: estes chineses pagavam 3 centavos por ano e por metro quadrado ao governo de Macau.
Lá em baixo, uma ilha de nome poético - Ilha Verde - que já está ligada à terra, corrompida pelas chaminés e fumos de uma fábrica inglesa de cimento que paga ao governo de Macau 400 piastras por ano e 10 cêntimos por tonelada de cimento; como seria bom se Camões pudesse ter usufruído de tal rendimento.
Pelo menos, o monumento é digno do poeta. Entre dois blocos enormes de granito que, apoiando-se um contra o outro, formam um arco natural, o busto de bronze está colocado sobre um pedestal de granito e, sobre a melancolia heróica desta imagem com o olho direito tapado, ramos de folhagem verde caem como coroas de louros.
"Ces rues étroites, ces 'calçadas' grimpantes et tournantes, sans trottoirs, pavées de têtes de chat ro-cailleuses ou glissantes, rappellent le siècle passé. Les grands vitrages de coquilles vaguement translucides montées sur un treillis en bois, aussi étranges à nos yeux que les carreaux de papier des Chinois, nous transportent encore plus loin, dans le Moyen Age. En plein jour ces rues sont presque désertes. Dans la plupart la pente est trop raide même pour des pousse-pousse. Le visiteur y peut errer et rêver sans être dérangé, troublé même par le bruit: dans quelque endroit un peu plus large il trouvera peutêtre la chaussée transformée en atelier par de petits artisans chinois qui y étanlent, pour sécher, des fleurs artificielles ou bien des cheveux. Beaucoup des rues ou ruelles serpentent entre de grands murs aveugles, sans fenêtres et même sans portes, par-dessus lesquels parfois débordent des verdures tombantes dont la luxuriance même dit l'abandon; entre lesquels résonnent clair les pas solitaires sur le pavé de galets. Quand ce ne sont pas des murs de couvents, ce sont les murs de soutènement des maisons en terrasse."
As ruas estreitas, as calçadas trepadoras e enleantes, sem passeios, calcetadas com pedras ásperas ou escorregadias, fazem lembrar o século passado. As grandes vidraças vagamente translúcidas postas sobre um engradado de madeira, tão estranhas para nós como os ladrilhos de papel dos chineses, fazem-nos recuar até à Idade Média.
Durante o dia, estas ruas estão quase desertas. Na maioria dos casos, o declive é demasiado íngreme mesmo para os riquexós. O visitante pode aí vaguear e sonhar sem ser incomodado ou perturbado pelos ruídos: nas ruas mais largas encontrará talvez a calçada transformada em oficina, com os pequenos artesãos chineses aí instalados, secando as flores artificiais ou até cabelos.
Muitas ruas ou ruelas serpenteiam entre os grandes muros cegos, sem janelas e até sem portas, por cima dos quais cai por vezes uma vegetação luxuriante, sinal de abandono. Aqui, os passos solitários ressoam claramente sobre o pavimento de calhaus. Quando não se tratam de muros de convento, são muros de apoio de casas com terraço.
"Presque toutes les fenêtres d'ailleurs sont défendues par de forts barreaux qui donnent aux habita-tions un aspect de prisons: précaution utile contre les voleurs qui sont nombreux à Macao; protection éven-tuelle contre un coup de main de la population chinoise, très mêlée et assez turbulente!"
Quase todas as janelas exteriores são defendidas por barras fortes que dão às habitações um ar de prisão: precaução útil contra os ladrões que são numerosos em Macau; protecção contra um eventual golpe de mão por parte da população chinesa, muito intrometida e deveras turbulenta.
"Les plus riches habitations privées sur la Praya Grande sont celles de gros commerçants chinois qui, après fortune faite, ont trouvé ici un refuge contre les exactions des mandarins; ils y ont trouvé aussi un air plus sain que celui de Hong-Kong, et des terrains moins chers"
As habitações privadas mais ricas da Praia Grande pertencem a corpulentos comerciantes chineses que, depois de conseguida a fortuna, aqui encontraram refúgio contra as imposições dos mandarins; aqui encontraram igualmente um ar mais puro do que em Hong-Kong e terrenos mais baratos.
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| Ruínas de S. Paulo: Imagem não incluída no livro |
O verdadeiro monumento da antiga Macau é uma ruína, a fachada de S. Paulo. As suas escadas são imponentes, não param de subir, até parecem as célebres escadas do Japão; mais largas que terraços, têm ainda uma grandeza maior. A erva cresce por entre os seus degraus de pedra. A fachada fica no topo, destaca-se em contraste com o céu, como um grande pórtico triangular de três andares.
"L'incurie des Portugais a laissé la saleté chinoise souiller cette ruine. Ce qui fut l'intérieur de la nef n'est qu'un amas de décombres et d'ordures où les porcs se promènent. Au moment où je lis l'inscription sculptée sous la grande arcade du milieu: 'Mater Dei...' une énorme truie paraît dans l'ouverture; et des immondices sont accu-mulées devant la 'première pierre', jadis posée en grande pompe, où se lit encore une inscriptions mémorable:
VIRGINI MAGNAE MATRI CIVITAS MACAENSIS LIBENS POSUIT AN. 1602."
A incúria dos portugueses deixou a sujidade chinesa estragar esta ruína. O que tinha sido o interior da nave é agora um monte de escombros e imundície onde os porcos se passeiam. Na altura em que leio a inscrição esculpida sob a grande arcada do meio Mater Dei... aparece uma grande porca na entrada. A imundície acumula-se à frente da "primeira pedra", lançada com grande pompa, onde se pode ler uma inscrição memorável.
"L'intérieur de la cathédrale est très gai, tout blanc, vivement éclairé par de larges fenêtres ouvrant sur des vérandas; les lustres sont chargés de cristaux; jusqu'aux verres des lampes qui sont ondulés et teints en bleu: c'est une salle élégante. Point de mystère, point d'envolée: l'arc du plafond est surbaissé, et des filets d'or relèvent la corniche blanche, comme dans un salon Louis XVI. La chaire est de belle laque noire dorée; et les boiseries des 'loges' reluisent également de laques et d'ors. Les chapelles latérales sont décorées en bleu foncé et en rouge vif. Le grand autel est tout blanc, mais étincelant d'orfèvreries; au-dessus une Vierge en blanc trône sous un dais bleu tendre"
O interior da catedral é muito alegre, todo branco, iluminado pelas largas janelas abrindo sobre varandas; dos lustres carregados de cristais, até aos vidros das lâmpadas, ondulados e azulados, é na verdade uma sala elegante. O arco do tecto é rebaixado e filetes de ouro realçam a cornija branca, como num salão do estilo Luís XVI. O púlpito é feito de laca preta dourada e os forros reluzem também com lacas e ouros. As capelas laterais estão decoradas com azul escuro e vermelho vivo. O grande altar é todo branco, mas decorado com joalharia. Por cima, está uma Virgem num trono branco sob um pálio azul suave.
"Macao est remplie de religieux et fait montre de ses soldats. Mais ce sont justement des soldats de parade: c'est à peine s'ils savent tenir leur arme; et au moindre défilé on les voit tous: ils sont deux cents. Macao est défendue par sept forts: cela fait à peine trente hommes par fort, à peine de quoi garder les priso-nniers. Et ces forts sont des antiquités: la plupart des canons sont des canons de bronze. Macao contre une attaque sérieuse ne tiendrait pas une heure!"
Macau está repleta de religiosos e faz alarde dos seus soldados, mas são somente soldados de parada: é com muito custo que sabem pegar numa arma e no mais pequeno desfile vêem-se logo todos pois são só duzentos. Macau está defendida por sete fortes e é com muito custo que cada um tem uma guarnição de trinta homens e é também com dificuldade que os presos são guardados. Estes fortes são antiguidades: a maioria dos canhões é feita de bronze. Perante um ataque a sério, Macau não durava mais do que uma hora.
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