quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Uma pintura do período “China Trade” na Colecção de Arte da Fundação Jorge Álvares

Na página de internet da Fundação Jorge Álvares e no banner da sua newsletter mensal está uma pintura a óleo sobre tela da coleção de arte da Fundação que retrata a baía da Praia Grande em Macau em meados do século XIX. É um exemplo típico do período denominado "China Trade Art", desenvolvido por artistas chineses para o mercado ocidental entre os séculos 18 e 19.
A baía da Praia Grande é imediatamente reconhecível pela curva característica e pela linha contínua de edifícios de estilo neoclássico europeu com arcadas junto à linha de água. Alguns desses edifícios eram arrendados a empresas de comércio estrangeiras, nomeadamente a EIC (East India Company), a Companhia Inglesa das Índias Orientais.
Apresenta-se uma perspectiva panorâmica ligeiramente elevada - praticamente o chamado "olho de pássaro" ligeiramente acima do nível de água - permitindo ver tanto a actividade no mar como o edificado da cidade.
Toda a pintura é marcada por cores em tons suaves. O mar calmo e a abundância de navios simbolizam Macau como um porto seguro e um comércio florescente. As bandeiras hasteadas nos fortes e nos navios servem como sinais de identificação e soberania. Ao fundo destacam-se as colinas de Macau tendo no topo edifícios de cariz religioso e militar, como as ermidas da Penha e da Guia e a Fortaleza do Monte. A baía está repleta de embarcações do tipo ocidental e oriental - juncos, sampanas, veleiro... - testemunhando a vitalidade comercial da época.
Na paleta de cores predominam tons terrosos, ocres e verdes suaves, típicos da pátina de pinturas a óleo antigas. O céu ocupa uma grande parte da tela, com uma tonalidade amarelada que sugere o amanhecer ou o entardecer.
Para além dos óleos, este tipo de obras eram também feitas em aguarela e guache sobre papel (e outros suportes). Numa altura em que a fotografia ainda não tinha sido inventada assumiam-se como uma espécie de postais ilustrados, lembranças que os comerciantes estrangeiros encomendavam enquanto faziam negócios em Cantão - a partir de Macau - para levar como recordação /souvenir no regresso a casa.
Embora haja registo da presença de alguns destes pintores em Macau, a esmagadora maioria estava estabelecida em Cantão onde há registo de vários ateliers de pintura. Estes artistas adaptaram a técnica tradicional da pintura chinesa ao gosto ocidental e por norma não assinavam as obras que eram sobretudo de cenas portuárias, navios, vistas de cidades, retratos...
Estamos perante um óleo sobre tela de média dimensão (41 x 80 cm) mostrando a baía da Praia Grande de frente, uma perspectiva rara, face aos inúmeros exemplos de pinturas que mostram a baía na perspectiva Sul/Norte ou Norte/Sul.
Em primeiro plano destaca-se um navio híbrido (paddle steamer) que utilizava tanto a força do vento como a tecnologia a vapor, comum entre 1830 e 1860. Podem até ver-se pessoas no convés. É visível a roda de pás lateral (paddle wheel) no centro do casco, protegida por uma estrutura semicircular. Também se nota uma chaminé fina logo à frente da roda, libertando um pouco de fumo. A embarcação possui dois mastros com uma configuração de brigue-escuna ou escuna de gávea. O mastro de vante (frente) tem vergas para velas redondas, enquanto o mastro de ré parece preparado para velas latinas (longitudinais). O casco é longo, baixo e escuro, típico de navios de aviso, correios ou pequenos navios de guerra da época, desenhados para velocidade. A bandeira na popa (parte traseira) é a Blue Ensign britânica: tem um campo azul sólido com a Union Jack (a bandeira do Reino Unido) no canto superior esquerdo. Na época, a Blue Ensign era utilizada por navios mercantes comandados por oficiais da reserva da Marinha Real. Poderia ser um vapor de correio ou de passageiros da era vitoriana inicial, ou um pequeno navio de guerra britânico utilizado para patrulha costeira ou missões diplomáticas. Espalhados por toda a baía, vemos juncos chineses de vários tamanhos com as suas características velas de esteira. Estão ainda representadas pequenas embarcações a remos (sampanas e tancares), típicas de Macau e das cidades costeiras do sul da China, que vendiam provisões aos navios maiores e também funcionavam como táxis aquáticos transportando pessoas até à terra.
Na pintura está representado o Palácio do Barão do Cercal. Projectado pelo arquitecto macaense José Agostinho Tomás de Aquino foi construído em 1849. Identifica-se pelos dois corpos avançados nas laterais e a varanda ao centro.
Já perto da Fortaleza do Bom Parto, destaca-se um edifício semicircular - na zona de S. Lourenço - que foi residência de comerciantes estrangeiros durante muitos anos.
Da esquerda para a direita podem ver-se os godões/armazéns da Companhia Inglesa das Índias Orientais seguidos do portal com colunas e um brasão no topo que dava acesso à então residência do Governador. Pode ainda ver-se a igreja de Santo Agostinho, o Fortim de S. Pedro com uma bandeira içada e a Sé Catedral com as duas torres laterais.
Resultado da reconstrução de raiz entre 1844 e 1850, a igreja da Sé passou a ter a fachada principal virada para o lado oposto (Norte), pelo que esta disposição terá sido uma 'interpretação' do autor da pintura. Na anterior configuração, a fachada tinha apenas uma torre lateral e estava virada para Oeste.
Muralha ao longo da colina da Penha com a Ermida no topo
Junto à água a Fortaleza do Bomparto onde começa a muralha
Casario ao longo do cais; no topo a fortaleza de S. Paulo do Monte (com bandeira da monarquia portuguesa) e à esquerda a fachada da igreja Mater Dei - vulgo ruínas de S. Paulo - após o incêndio de 1835. Do lado direito entre o edifício de inúmeras colunas e a cerca do convento de Santa Clara - corresponde ao actual cruzamento da Av. da Praia Grande com a rua do Campo - a então denominada estrada do campo, por dar acesso ao território que ficava para lá das muralhas que cercavam a chamada 'cidade cristã'.
Na então denominada ponta de S. Francisco, um dos extremos da baía da Praia Grande, podem ver-se o Convento e a Igreja de S. Francisco, tendo ao lado o forte de S. Francisco. No topo da colina a Fortaleza e Ermida da Guia (sem farol, portanto, anterior a 1865). Ambas as fortificações militares têm bandeira da monarquia portuguesa hasteada. O largo ao centro, pontuado por algumas árvores, denominava-se Campo de S. Francisco. Após a demolição do convento de Santa Clara, e em 1861, do convento/igreja de s. Francisco (para ali ser construído o Quartel de S. Francisco em 1864/65), aquela área viria a ser o primeiro "jardim público" de Macau... conhecido por Jardim de S. Francisco e que ainda hoje existe.
Eis uma 'leitura' resumida da muita história que esta pintura tem para contar...

Publicado na Newsletter da FJA - Setembro 2026.

Excerto do Editorial assinado por Maria Celeste Hagatong, Presidente da Fundação Jorge Álvares:
"Os nossos agradecimentos ao jornalista João Botas pelo seu artigo de opinião muito interessante sobre um quadro que retrata a Baía da Praia Grande em Macau no século XIX, que faz parte da Coleção de Arte da Fundação Jorge Álvares. João Botas é o dinamizador do Blogue Macau Antigo que ao longo de 18 anos de existência já ultrapassou os 6 milhões de visualizações."

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