quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

The land of the blue gown

"The land of the blue gown" - tradução literal "A terra do vestido azul" - é o titulo de um livro com quase 400 páginas da autoria de John Little Archibald que viveu na China cerca de 50 anos. Editado em Londres em 1902 a obra é uma viagem à China da segunda metade do século 19, nomeadamente sobre usos e costumes do povo chinês, e inclui alguns relatos sobre Macau.
"An account of travels in China in the last part of the nineteenth century. Describes visits to Shanghai and Peking, Canton, Hong Kong, Macao, Swatow, Amoy, Hanchow, Foochow and Soochow. Included are accounts of missions and missionaries, anti-foreign riots in Western China and visits to little-known border tribes. The culture, customs and the people are recorded."
China 1894 Foto Sze-Yung-Ming & Co
Oriundo de Manchester, o comerciante John Little Archibald (1838-1908) vai pela primeira vez à China em 1859 enquanto provador oficial de chá ao serviço de uma empresa alemã, passando por Kiukiang (Jiujiang) e Xanghai. É nesta última cidade que tem a ideia de usar navios a vapor ao longo da parte norte do rio Yangtze onde a navegação era praticamente impossível para as embarcações tradicionais devido à força da corrente.
Impressionado com o potencial de negócios na China acaba por se fixar na província Sichuan. Aos 28 anos decide casar com uma britânica.
Alicia Bewicke (1845-1926) nascera na ilha da Madeira (Portugal) em 1845. Estudou depois em Inglaterra mas cansada de uma sociedade demasiado passiva, cedo dedicou-se à escrita.
Em 1887 chegou à China como noiva de Archibald Little passando a viver em Chungking (província de Szechuan), um feito raro na época para uma mulher ocidental. Passou a acompanhar o marido nas viagens pela China e tomou notas de tudo o que viu e ouviu para além de tirar fotografias.
Enquanto viveu na China, a Sra. Archibald, como viria a ficar conhecida, viria a envolver-se numa luta pela emancipação da mulher chinesa de uma tradição conhecida por "pés de lótus " um ritual que passava por amarrar os pés das mulheres jovens em amarras apertadas a fim de modificar o formato dos pés. Para o efeito criou uma associação em Xangai a que deu o nome de "Natural Feet Society" (Sociedade dos pés naturais). Empenhada nessa luta proferiu discursos por inúmeras cidades chinesas sendo um dos mais notáveis dado em Hong Kong em Fevereiro de 1900 tendo passado por Macau no mês seguinte.
O casal regressaria a Inglaterra em 1907 e um ano depois John morreu. Alicia continuou envolvida em múltiplas causas sociais, nomeadamente contra a escravatura branca. Morreu em 1926.


Excerto do livro que incluiu três imagens de Macau, duas delas tiradas após o tufão de Setembro de 1874.
Chapter XX - Part II
Through Macao, Swatow, Amoy, Foochow, Hangchow and Soochow
It is a little sad to have to own that anti-footbiiiding seems much farther advanced in languid, sunshiny Macao than in bustling Hong-Kong. Of course the Portuguese have been established there for centuries, and they mix with the people and inter-marry as we do not. It may be that which makes the difference. But some say a doctor, a leading member of the reform party, has made the change at Macao. There on the Praya, a miniature Bay of Naples, with the exceptionally romantic public gardens at one end and the Governor's palace at the other, the Portuguese band making music in the evenings, the waves lapping on the shore, mothers walking out with their children round them, as we never seem to see English mothers in the East, and young girls with their duennas, there in Macao several of the best European houses are occupied by Chinese, and in one, conspicuous with heavily-gilded railings, I was delighted to find that all the children were growing up unbound.
Mr Ho Sui Tin, the leading Chinese of Macao, and a Portuguese subject, not only arranged a Chinese meeting for me to address, but took me home to his house after-wards and assured me one of his little girls was about shortly to be unbound. But though they had every luxury in the way of costly and artistic furnishing, even to a billiard table, on which they said they played, it was sad to see the elder daughters with their bound feet. He had not however been a member of the Reform Doctor's Society. My interpreter had, and he seemed full of earnestness, when at a little Christian meeting, at which the enthusiasm of everyone impressed me very refreshingly, one of the first to join the society was a bound foot lady his wife who said, smiling, " If you will take my money, and accept my promise that I am going to unbind." 
The secretary of the Portuguese Club, Signer d'Assompcao, was kind enough to organise a meeting there for all people, who understood English. A good many of the members, who did not, came in to listen at first, then gradually went away not quite noiselessly, and it was amusing next day to note the indignation of the Chinese portion of the audience: "The Portuguese might at least have kept quiet if they could not understand!" because the remark seemed to indicate the very different way in which the Chinese regard the Portuguese at Macao from the way in which the English are regarded at Hong-Kong. I must not however in passing forget to mention the great kindness of their then Governor Galhardo, even hampered as he was by the carnival a great affair at mediaeval Macao!
The exquisite views, the orange trumpet flowers of the bignonia, the merry children in carnival costume, the soft sunshine, the romance that attaches to Camoens garden and everywhere romantic accessories, all transport one to Europe, and make Macao a place quite by itself in China. I caunot help hoping also that it is one of the first places where footbinding will die out. The Roman Catholic Sisters appeared eager to bring this about, though as usual it was impossible even to ask them to combine for the purpose with Protestant missionaries.
The China Merchants' Company had granted me a free pass by all their steamers, the Hong-Kong, Canton Macao Company had been equally liberal, and now the Douglas Lapraik Line did likewise. I began to feel as if it were hardly right that hotels should charge me anything when steamer companies were so generous. But it was only at Canton and Macao that it was necessary to go to hotels. Everywhere else people most kindly entertained me for the Cause.

Tradução
É um pouco triste ter que admitir que a luta contra os pés de lótus parece muito mais avançada na lânguida e ensolarada Macau do que na agitada Hong-Kong. Claro que os portugueses estão lá há séculos e eles misturam-se com o povo e casam-se. Ao contrário de nós. Pode ser isso que faz a diferença. Mas alguns dizem que um médico, um membro importante do partido reformista, fez a mudança em Macau. 
Na Praia (Grande), uma baía em miniatura, de Nápoles, com os excepcionalmente românticos jardins públicos de um lado, e o palácio do governador do outro, a banda portuguesa toca música à noite, as ondas batendo na praia, mães caminhando com os filhos à volta, como nunca parecemos ver mães inglesas no Oriente, e raparigas com as suas duenas, ali em Macau várias das melhores casas europeias são ocupadas por chineses, e numa delas, conspícua com grades pesadamente douradas, fiquei encantado ao descobrir que todas as crianças estavam a crescer soltas.
O Sr. Ho Sui Tin, o principal chinês de Macau e súbdito português, não só deu-me a oportunidade dum encontro, como me deixou entrar na sua casa e garantiu-me que uma das suas filhas estava prestes a nascer. Embora tivessem todo o luxo na forma de móveis caros e artísticos, até mesmo uma mesa de bilhar, na qual disseram que jogavam, era triste ver as filhas mais velhas com os pés amarrados. Ele, no entanto, não tinha sido um membro da Sociedade do Doutor Reformado. O meu intérprete tinha, e parecia cheio de seriedade, quando numa pequena reunião cristã, na qual o entusiasmo de todos me impressionou de maneira muito animadora, uma das primeiras a se juntar à sociedade foi uma senhora de pés amarrados, sua esposa, que disse, a sorrir: “Se aceitarem o meu dinheiro e aceitarem a minha promessa de que vou desassociar.” 
O secretário do Clube Português, Signatário, d'Assumpcao, teve a gentileza de organizar ali um encontro para todas as pessoas que entendiam inglês. (...) Não devo esquecer de mencionar a grande gentileza do governador Galhardo, ainda que atrapalhado, como estava, por tal acontecimento, em pleno Carnaval numa Macau medieval!
As vistas magníficas, as flores laranjas da trombeta da bignónia, as crianças alegres em trajes de carnaval, o sol suave, o romance que se liga ao jardim de Camões e os acessórios românticos por toda a parte, tudo nos transporta para a Europa fazendo de Macau um lugar único na China. Não posso deixar de esperar também que seja um dos primeiros lugares onde o enfaixamento de pés vai morrer. As Irmãs Católicas Romanas pareciam ansiosas para fazer isso, embora, como de costume, fosse impossível até mesmo pedir-lhes que se combinassem para esse propósito com os missionários protestantes. A empresa China Merchants Company havia me concedido um passe livre para poder viajar em todos os seus vapores, a Hong-Kong, Canton and Macao Company foi igualmente liberal, e até a Douglas Lapraik Line fazia o mesmo. Comecei a sentir como se não era correcto os hotéis cobrarem-me a estadia quando as companhias de vapor eram tão generosas. Mas só em Cantão e em Macau era necessário ficar em hotéis. Em todas as outras partes, as pessoas recebiam-me em casa, com muito carinho pela causa.
"Macao Praya and City, as seen from Boa Vista Hotel"

"A bit of old Macao". Igreja Sto. António após o tufão de Setembro de 1874

"Mr. Ho Sui Tin, rich chinese in Macao"

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Divisão de Filatelia dos CTT

A Divisão de Filatelia dos CTT de Macau foi criada em 1984 no centenário da "Coroa", a primeira emissão filatélica oficial no território ocorrida em 1884. 

Entre 1884 e 1910 os perfis dos reis eram presença constante nas emissões filatélicas. Com a implantação da República de Portugal em 1910, as emissões filatélicas passaram a ter motivos de paisagem e temáticas locais.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Arrematação para a obra de Construção da Nova Avenida do Bazar Chinês

"Faz-se público que a arrematação para a obra de Construção da Nova Avenida do Bazar Chinês (2º, 3º e 4º lanços -da Rua dos Mercadores à Rua Visconde Paço de Arcos), terá lugar no dia 10 do próximo mês de Novembro (...)."
in Boletim Oficial do Governo da Província de Macau - 10.10.1914


Esta Nova Avenida do Bazar Chinês é nada mais nada menos que a Avenida de Almeida Ribeiro (San Ma Lou) cujo início da construção remonta a 4 de Março de 1911 quando foi lançada a arrematação do primeiro troço, entre o Largo do Senado e o Pátio do Martelo numa extensão de 62m. 
A obra só ficaria completa por volta de 1918 quando foi concluído o último troço (entre o Largo do Senado e a Praia Grande) desta avenida que passou a ligar os portos exterior e interior.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Visita particular do governador de Hong Kong: 1861

"No dia 4 de Maio (1861) chegou a Macau no vapor Fei Ma* Sir Hercules Robinson, governador de Hongkong, na companhia de lady Robinson e de Mr Alcok, ministro de Sua Magestade Britannica no Imperio do Japão . S. Exa. foi como particular visitar pela primeira vez aquella cidade."
In Annaes do Conselho Ultramarino, Portugal.
* O vapor britânico Fei Ma (Cavalo Voador), de 121 toneladas, feito em madeira, pode ser visto nesta ilustração - à direita perseguido por dezenas de juncos chineses a remos (frota imperial) - de um jornal britânico, o Illustrated London News, em 1857.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Obras no Palácio do Governo: 1863

No Boletim do Governo de Macao de 23 Março de 1861 A. Marques Pereira escreve um pequeno artigo na "parte não oficial" sobre as obras quase concluídas do "novo palácio" na "frontaria da cidade" (Praia Grande):
"(...) Corre a fachada, na extensão que occupava a antiga, com o pateo que lhe ficava contiguo, dando assim logar no andar nobre a treze janellas bastante afastadas. A porta, elevada sobre uma pequena escada de pedra, é ladeada por quatro meias columnas que sustentam a varanda, sacada do centro, e continuam em cima até ao triangulo da cornija, onde estão as armas reaes de Portugal. Ao fundo do vestibulo, cujas portas lateraes dão serventia ao andar inferior, ha três arcos sustidos por columnas com passagem para a escada, ainda agora não construída. Na perpendicular d'estes arcos, tres portas no patamar de cima dão entrada no centro de uma elegante galeria de cinco salas, que occupa toda a frente do pavimento nobre. A obra está feita com solidez pouco vulgar nas construcções d'aqui."
As obras começaram na Primavera de 1860 e alteraram, entre outros aspectos, "a fachada, que antes por excessivamente modesta, avultava mesquinha". Na altura era governador de Macau, o conselheiro Isidoro Francisco Guimarães (Visconde da Praia Grande). Só por volta de 1872 o edifício foi alterado construindo-se um "corpo central saliente".
Refira-se que nesta altura também o Barão do Cercal iniciou a construção do seu Palácio na Praia Grande e que mais tarde viria a ser, primeiro arrendado, e depois comprado pelo Governo de Macau para ali se instalar o Palácio do Governo no final do século 19, passando o primeiro edifício a ser conhecido como Palácio das Repartições, já aqui ali foram instalados os diferentes serviços do governo. Corresponde ao espaço onde actualmente está o edifício do antigo tribunal, frente a estátua de Jorge Álvares.
Recorrendo a um artigo do jornal O Occidente, de 1883, ficamos a saber como era o edifício, por palavras e por uma ilustração. É a versão do edifício já com Casa da Guarda (do lado direito) após obras fruto de alguma destruição no tufão de Setembro de 1874.
"Tem o edifício de frente, quarenta tantos metros e de suas extremidades seguem perpendicularmente à frente alas que para o lado interior fecham até certa altura o jardim do mesmo palácio, o qual depois é protegido por muros e prédios particulares, sendo os fundos do lado fronteiro ao palácio fechado pelas cavalariças e cocheiras pertencentes ao mesmo, cuja frente fica na calçada, se bem nos recorda, do Santo Agostinho. Comprehende o palacio dois pavimentos, no inferior, lado direito, são as repartições da secretaria do governo e, lado esquerdo, alojamentos dos oficiaes às ordens e adjudantes dos governadores. Nos fundos, arrecadações e quartos de ordenanças. No primeiro pavimento à frente, salas de entrada e na primeira, à direita, mais duas sendo a do topo a do docel; à esquerda, de visitas ou dos retratos dos governadores, reservada, a gabinete particular do governador ou seu escriptorio."
Veja-se, a propósito, o teor deste documento de 1862:
"Sendo presente a Sua Magestade El Rei o Officio nº 65 do Conselho do Governo de Macau, datado de 23 de Julho de 1860 pedindo que fosse approvada a obra de alargar a rua para o mar desde o Palacio do Governo até á esquina das quatro casas pertencentes a João Baptista Gomes*, a qual obra foi contratada pelo preço de 8 300 patacas inferior ao do respectivo orçamento, Manda O Mesmo Augusto Senhor pela Secretaria d Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar, conformando-se com o Parecer do Conselho Ultramarino (...) communicar ao Governador de Macau para seu conhecimento e convenientes: 1º Que fica approvada a obra de se trata e legalisada a despeza que com ella se tiver feito até a indicada cifra 8 .300 patacas.(...)"
Nota: Antes de haver um edifício próprio, os governadores residiam ou na Fortaleza do Monte ou em casas alugadas na Praia Grande, o local mais nobre da cidade.
* João Baptista Gomes (1800-1889) nasceu em Goa (tendo para ali efectuado importantes doações). Casou em Macau com Francisca Brandão com quem teve 3 filhos. Foi advogado, Delegado do Procurador Régio (Procurador da Coroa e Fazenda de Macau) e Juiz Administrador das Alfândegas sendo nos relatos da época considerado um "rico capitalista".

sábado, 1 de janeiro de 2022

Macau no "Asian Civilisations Museum" em Singapura

No Asian Civilisations Museum podem ser vistas algumas obras de arte de/sobre Macau. Para este post seleccionei duas pinturas (óleo sobre tela) e um leque.
Estão entre as principais peças do chamado "China Trade" marcado sobretudo pela exportações de produtos chineses para o ocidente ao longo dos séculos 18 e 19,
Havia uma grande procura por vistas dos lugares que os europeus e americanos visitavam na região costeira junto a Macau, pelo que os pintores chineses depressa começaram a executar cenas de cidades portuárias, paisagens marítimas e retratos baseados muitas das vezes em gravuras europeias e americanas. Tinham ainda a particularidade de 'imitarem' as técnicas de pintura do mundo ocidental. Foram produzidas milhares de peças, nomeadamente pinturas, que na esmagadora maioria não eram assinadas, não se podendo por esse motivo obter muitas informações adicionais para além do que pode ser visto nas telas.
Os tamanhos das pinturas variavam bastante mas por norma não eram grandes. Nestes dois casos estamos perante peças de 55 cm x 69 cm, uma rara excepção.
A julgar pelo que é representado os quadros foram executados na primeira metade do século 19.
Nesta vista do Porto Interior pode ver-se à direta o pagode da Barra / Templo de A-Ma. São ainda representadas as fortalezas da Guia e do Monte, a Ermida da Penha e a fachada da igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo, desde 1835). Destaque ainda para as múltiplas embarcações, ocidentais e orientais.
Nesta vista da baía da Praia Grande, a leste da península de Macau, destaco os edifícios ao longo da costa bem como as principais fortificações de natureza militar e igrejas. Da esquerda para a direita, a Fortaleza do Bomparto, a Ermida da Penha, Fortim de S. Pedro, Fortaleza do Monte, Fortaleza e Ermida da Guia e ainda o forte de S. Francisco, entre outros.
Em cima um leque - seda e papel com entalhes dourados - com três vistas de cidades portuárias. Da esquerda para a direita: Hong Kong, Cantão e Macau.  

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Estátua de Jorge Álvares: curiosidades

Inaugurada em Setembro de 1954 a estátua de Jorge Álvares - localizada na praça com o mesmo actualmente - está repleta de curiosidades. Neste post revelo algumas: documentos sobre o transporte para Macau, outro projecto de estátua no âmbito do concurso público levado a efeito em Portugal no início da década de 1950 e ainda o modelo que serviu de base à proposta vencedora e que é diferente da versão final.
Estátua de Jorge Álvares em 1962. Foto Francis Millet Rogers




A estátua vista da entrada para o restaurante Solmar na década 1960

A história da estátua remonta a ao Verão de 1952 quando o Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, esteve de visita a Macau. Na ocasião o ministro recebeu de oferta da comunidade chinesa um automóvel e reza a história que foi o próprio a propôr que se leiloasse o dito automóvel, revertendo o montante auferido para erigir um monumento ao navegador Jorge Álvares, primeiro europeu a chegar à China. Mais tarde, com o valor que sobrou foi feita uma segunda estátua em homenagem ao cronista homónimo, em Freixo de Espada à Cinta.
Detalhe do pedestal com a assinatura do autor e ano do fabrico

Euclides Vaz (1916-1991) foi aluno da Escola de Belas Artes de Lisboa entre 1937 e 1945 e também ali foi professor entre 1958 e 1986.
Frente ao Edifício das Repartições. Final da década 1950

Tendo por base esta foto tirada no atelier do autor constatam-se as diferenças entre o projecto e a versão final.
Em cima "Estudo para a representação do navegador Jorge Álvares, patinado para bronze esverdeado). Fotografado no Atelier Municipal do escultor (Lisboa) em 2017. Foto: Ana Lúcia Pinto e Sandra Tapadas
Em baixo a versão final da estátua numa fotografia da década de 1980
A estátua (e pedestal) de Euclides Vaz foi enviada a 24 Abril 1954 pela Companhia Nacional de Navegação no vapor "Índia". Quem pagou o transporte foi o Gabinete de Urbanização do Ultramar / Ministério do Ultramar em Junho de 1954. Os dois documentos abaixo atestam estas informações.


Excerto do discurso de José dos Santos Baptista, Chefe da Repartição Técnica da Obras Públicas (de Macau) no dia da inauguração da estátua (17.9.1954) - imagem abaixo:
Foto do "Macau - Boletim Informativo", nº 28 - ano 2 - 1954

"(...) o júri do concurso classificou, em primeiro lugar, o trabalho do escultor Euclides Vaz, a quem, em Setembro de 1953, foi feita a adjudicação da obra. Em Maio deste ano chegaram a Macau, no paquete Índia, todas as peças do monumento. Elaborado o projecto da sua localização e montagem pela Repartição Técnica das Obras Públicas, é a respectiva execução posta a concurso e, depois, adjudicada ao empreiteiro Vá San. A montagem foi iniciada em fins de Julho e ficou concluída em fins de Agosto. (...)"

Nos eventos conhecidos por "1,2,3" (Dezembro de 1966) a estátua sofreu alguns estragos.

Sugestões de leitura: 
Revista GAMA, Estudos Artísticos. Volume 8, número 15, janeiro–junho 2020 | semestral
Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes (CIEBA), Faculdade de Belas-Artes,
Universidade de Lisboa.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Escolas particulares no século 19

Muito antes de existirem escolas sob a alçada do governo - a chamada instrução pública - o ensino fazia-se ou nos colégios religiosos ou a título particular e era acessível apenas aos mais abastados. Assim, na primeira metade do século 19 por vezes surgiam anúncios como este - de uma "escolla que ensine a meninas ler, escrever, cozer, bordar..." - publicado em 1836 no jornal o Macaísta Imparcial.
"No dia 27 de Abril de 1847, o Padre Jorge António Lopes da Silva aceita, perante o Leal Senado, o convite para reger a recém-estabelecida Escola Primária Municipal, sendo também mestre de primeiras letras, com o ordenado de 350 patacas por ano. Levará, porém, e isso é condição que apresenta, os meninos que até aí estudavam em sua casa. A escola ficou instalada em parte do Recolhimento de Sta. Rosa de Lima, mudando-se para o Convento de S. Francisco em 1849 mas, no mesmo ano, e porque chegou tropa auxiliar de Goa, voltou ao Recolhimento. 
No dia 16 de Junho foi inaugurada a Escola Principal de Instrução Primária, fundada pelo Senado, por meio duma subscrição e uma lotaria que renderam 4.000 patacas e com o donativo de 5.000 patacas que o negociante inglês James Matheson ofereceu, por ocasião da sua retirada para a Europa. O currículo era o já anteriormente pensado mais o ensino de inglês e francês. A escola foi apoiada, desde Setembro deste ano, por proventos de uma lotaria, visto ter muitos órfãos que recebiam instrução gratuita e o encargo ser demasiado para o Senado. A iniciativa de um “Bazar de obras curiosas”, com o mesmo fim, nasceu também neste ano, em Dezembro, e a primeira “edição” deste bazar rendeu $1073,83 patacas. A escola dispunha ainda dos fundos de um legado, como já vimos, e não pagava direitos. Foi seu primeiro director o Pe. Jorge António Lopes da Silva, natural de Macau."
in Cronologia da História de Macau, vol. 2, 2015, de Beatriz B. da Silva
"Aula de primeiras letras como ler, escrever e contar"
in Boletim da Província de Macao, Timor e Solor, 1846

A 5 de Janeiro de 1862 começou a funcionar a “Nova Escola Macaense” por iniciativa do Barão de Cercal que te autorização para obter fundos através de uma lotaria anual e ainda um subsídio do governo para auxiliar a fundação dum estabelecimento de instrução primária e secundária, cujo ensino deveria ser gratuito para os pobres. A escola funcionou até 1867 e com os fundos deste instituto e com o produto das acções subscritas fundou-se a “Associação Promotora da Instrução dos Macaenses”.
Em 1863 Bernardino de Sena Fernandes foi autorizado a estabelecer uma escola particular de meninas, dirigida por mestras francesas, irmãs do Instituto de S. Paulo, que em 1875 foi substituído pelo Colégio de Santa Rosa de Lima.
Em 1878 a taxa de analfabetismo entre os portugueses oriundos de Portugal era de 51% enquanto entre os portugueses locais era de 25%. Nesse ano, escreve João de Andrade Corvo nos "Estudos sobre as provincias ultramarinas", "além das escolas publicas ha 16 escolas particulares frequentadas por 407 alumnos sendo 245 do sexo masculino e 162 do feminino."
A 1 de Setembro de 1882 foi inaugurada a Escola Municipal de Instrução Primária, no nº 17 da Rua de S. Domingos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Fortificações militares

Fortalezas, fortes, baluartes e fortins são algumas das classificações das estruturas militares edificadas em Macau pouco tempo depois do 'assentamento' em 1555/57.
Algumas das 'fortificações' referidas neste post e que assinalei num mapa de 1912

Vejamos como estas 'estruturas' foram descritas logo em 1638 pelo italiano Marco d’Avalo:

Fort. do Monte: séc. 21
The city is surrounded by strong walls and ramparts and has three hills with a fort on the top of each one, forming a triangle. The strongest and most prominent of these castles is named São Paulo. (…) The second fort is named Nossa Senhora da Penha de França and holds inside it a hermitage of the same name. It possesses six light cannon that fire iron shot of six to eight pounds. The third fort is named Nossa Senhora da Guia and stands outside the town. It offers no advantage except that this hill is higher than the others an overlooks them, consequently, it is fortified, equipped and protected with four to five cannon. It too has a hermitage within its walls. (…) Moreover, the city has four bulwarks at low level, of which three are on the sea, or water side, and four on the land side. The first is named Santiago da Barra, and the ships pass by it. (…) The second bulwark is named Nossa Senhora do Bom Parto, is located on the southwest, on the hill of Penha de França, and has eight bronze cannon. (…) From here there begins a half moon* serving as a sea wall, with a redoubt in the middle, on which three cannon can be mounted in time of need. On the outside a low wall runs to another bulwark called São Francisco. Between these two bulwarks lies a beach lined with fine elegant buildings (…). The third bulwark, São Francisco, bigger than that of Nossa Senhora do Bom Parto, is mounted with twelve cannon and has a redoubt that projects far out to sea. In 1632 a platform was made at the foot of this bulwark, and on it was sited a culverin, which shoots a forty-eight pound iron shot (…). The fourth bulwark lies on the land side and is named São João. Three cannon are sited here, close to the land gate called São Lázaro. The wall climbs the hill to the São Paulo fort and from there it proceeds to the Jesuit house.
* referência à Praia Grande e ao que viria a ser o Fortim de S. Pedro.
Algumas das fortificações num mapa de 1865

Marco D'Avalo começa por referir a Fortaleza de S. Paulo do Monte,  localizada no centro da península, na colina de S. Paulo do Monte, e considerada o eixo da linha de defesa do território a eventuais ataques vindos do norte, devido à cinta de muralhas que a ligavam ao Baluarte de S. João e ao Fortim de S. Januário permitindo a defesa a ataques vindo de todos os flancos.
O segundo exemplo de Avalo é o Forte da Nossa Senhora da Penha de França, situado no cimo da colina com o mesmo nome, e cuja missão era a defesa contra as invasões navais,  embora também pudesse ser usada para defender toda a cidade.
Em terceiro lugar refere-se a Fortaleza de Nossa Senhora da Guia. Situada na colina com o mesmo nome, ficava então fora das muralhas defensivas da cidade e tinha por objectivo a defesa contra a ameaça do continente chinês.
Segue-se a Fortaleza de Nossa Senhora do Bom Parto, que em simultâneo com a Fortaleza de S. Tiago da Barra (na ponta sul da península, na colina com o mesmo nome), protegia sobretudo os acessos ao porto interior.
Com 12 canhões a Fortaleza de S. Francisco, localizada na base da colina de S. Jerónimo (onde hoje está o Hospital de S. Januário), era a primeira linha de defesa contra qualquer incursão marítima, reforçado pelo Baluarte de S. João localizado junto à Porta de S. Lázar o e equipado com 3 canhões.
Fortim de S. Pedro
Estes eram as principais fortificações militares de Macau, um estrutura construída ao longo dos tempos e que incluía ainda a Fortaleza da Taipa (na Ilha da Taipa),  Bateria de Colonae (ilha de Coloane) o Forte do Patane (ou Palanchica), o Forte da Lapa, o Forte de Mong-Ha, o Forte de D. Maria II, o Forte da Ilha Verde, forte de Mong-Ha, Forte da Lapa (na ilha com o mesmo nome), fortins de S. Pedro e S. Jerónimo, etc...
Forte da Taipa numa mapa de 1865

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Ordem Militar da Torre e Espada: Leal Senado


A Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito foi criada em 1459. Entre os 17 Membros Honorários - cidadãos estrangeiros e instituições e localidades nacionais ou estrangeiras condecorados com a Ordem - está o Leal Senado de Macau, desde 15 de Março de 1999, era Presidente da República, Jorge Sampaio.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Établissement Portugais de Macao

"Établissement portugais de Macao" da autoria de Henryk Edward Chonski (1810-1881). Com 19 páginas foi publicado em Paris no ano de 1850. Ilustração não incluída no livro.
Origine de l'établissement. 
Vers la lin du xve siecle, les Portugais, guides par cet esprit d entreprise qui, à cette époque, poussait les principaux peuples du midi de l'Europe vers des régions inconnues, après avoir doublé pour la première fois le cap de Bonne-Espérance, vinrent jeter sur la côte occidentale de la presqu'île indienne les bases de leur future grandeur maritime et commerciale. Cette grandeur, toute passagère qu'elle fût, brilla pendant quelque temps d'un vif éclat. L'établissement de Goa, dont les ruines parlent encore aujourd'hui d'une splendeur passée, fut le principal point d'où la puissance maritime portugaise rayonna et se répandit progressivement, surtout vers l'est de la mer des Indes. Sous le commandement du brave et intolérant Alfonso Dalboquerque, les Portugais s'emparèrent de Malacca, située sur la presqu'île de ce nom, et de là pénétrèrent dans l'Archipel de la Sonde et atteignirent les côtes de la Chine. 
C'est à Malacca qu'en 1516 un certain Gabriel Perestello s'embarqua, avec l'autorisation du capitaine de la place, Georges Dalboquerque, à bord d'une jonque chinoise, pour se rendre dans le Céleste-Empire. Il rapporta de ce voyage quelques renseignements très-vagues sur ce pays encore inconnu, mais il réalisa de très-beaux bénéfices par le trafic auquel il s'était livré pendant son séjour sur quelques points de la côte. Ce succès inattendu provoqua des tentatives sur une plus vaste échelle.
En 1517, quatre navires portugais., dont un appartenant à Georges Mascarenhas, et quatre bateaux malais mirent à la voile sous le commandement de Fernaô Perez de Andrade, et entrèrent dans la même année dans legolfe chinois. La vue des grands navires européens causa d'abord de vives alarmes aux Chinois; mais, rassurés bientôt par des manières polies et amicales et par la conduite pacifique des étrangers, les mandarins, sensibles surtout aux cadeaux qu'on leur prodigua avec habileté, firent aux hautes autorités du pays un rapport favorable sur les nouveaux venus. On permit à six navires de la flottille portugaise de jeter l'ancre dans le port de Tomao situé sur la petite île de San-chân (que les Anglais nomment Saint-John), ouverte alors au commerce des étrangers. Avec deux autres navires, Andrade remonta à Kwang-Toung ou Canton. C'est là le commencement des rapports maritimes de l'Europe avec le Céleste-Empire.
Nous n'entrerons pas dans le récit détaillé des vicissitudes par lesquelles ont passé les premiers navigateurs et marchands portugais, avant d'avoir gagné un pied à terre, un point fixe où il leur fût permis de s'établir d'une manière permanente. Nous en indiquerons seulement les principales. Pendant près d'un demi-siècle, les Portugais parcouraient les côtes de la Chine depuis l'île San-Chân jusqu'à Liampô ou Ling-po (on prétend que c'est le Ning-po actuel), où ils ont enfin obtenu du gouvernement chinois la permission d'ériger une factorerie. S'étant rendus coupables de divers actes de violence et de piraterie contre les Chinois, ils ont été expulsés de cet endroit, et leur établissement a été détruit. Ils se sont alors rabattus sur Tchin-tchou, dans la province de Fokienn, mais ils n'ont pas tardé à y trouver le même sort et par les mêmes motifs. Enfin, après avoir formé un établissement qui dura pendant plusieurs années , sur l'île de San-chân (où est mort l'apôtre des Indes, François-Xavier), et essayé un autre établissement sur l'île de Lampaçao, ils ont fondé l'établissement de Macao.' 
On ne connaît positivement ni l'année de la fondation de la ville, qui reçut le nom de Cidade do Santo Nome de Deos de Macao, ni le titre originaire en vertu duquel les Portugais prirent possession de la péninsule rocheuse sur laquelle la ville se trouve bâtie. Un mémorandum ministériel portugais, conservé dans les archives du sénat de Macao, attribue l'origine de l'établissement à la conquête faite sur un chef pirate de l'île de Hiang-shan, dont la presqu'île et le port d'Amagao (ou, comme les Chinois le nomment, Gao-mounn ou Hao-mounn) forment une partie intégrante. D'après les chroniqueurs chinois, au contraire, l'établissement des Portugais aurait eu pour origine la concession d'une plage déserte, faite par les autorités locales aux marchands et aux marins portugais, qui avaient besoin de débarquer et de sécher les marchandises avariées dans une longue traversée. Plusieurs huttes et baraques auraient été d'abord érigées pour procurer un abri aux hommes préposés à la garde de ces marchandises; ces huttes auraient été par la suite remplacées par des maisons et des magasins, et des relations s'établirent avec les habitants du voisinage. 
Peu à peu une population chinoise vint s'établir à côté des comptoirs des étrangers, le clergé des missions catholiques bâtit des chapelles et des églises, des forts furent érigés pour servir de défense contre les pirates et les ennemis du dehors, et un gouvernement colonial, dont la juridiction toutefois ne s'étendait jamais sur la population indigène, fut installé au milieu de la nouvelle colonie. Plusieurs écrivains portugais prétendent que le territoire de Macao a été concédé à leurs nationaux en retour du secours qu'ils ont prêté aux autorités chinoises dans la destruction des pirates qui infestaient les parages voisins de l'embouchure de la rivière de Canton.
Quoi qu'il en soit, il est certain que cette concession ne leur a été faite que d'une manière conditionnelle; que les Portugais ont toujours été obligés de payer une redevance annuelle en reconnaissance de la souveraineté de l'empereur de Chine sur le territoire qu'ils occupaient. Cette redevance, qui, dans les premiers temps de l'établissement, dépassait la somme de 1,000 laëls (7,500 fr.), a, depuis 1691 , été réduite à 600 et par la suite à 500 taëls. Elle est payée annuellement par le procureur du sénat de Macao au trésor impérial, à Canton.
Topographie.
La position de Macao, à part les inconvénients actuels de son port intérieur, est une des plus favorables au commerce et une des plus salubres dans ces parages. La ville est située par 22" 11' 30" de latitude nord, et par 1110 11' 45" (113° 32' Greenwich) de longitude est du méridien de Paris. Elle occupe, à l'entrée d'un golfe dans lequel se jette la rivière de Canton, une presqu'île rocheuse d'environ huit milles marins de tour 4, de trois milles de long sur un mille de large. Un isthme de quelques cents pieds de largeur rattache la presqu'île à la grande île de Hiangshan, fermée par les deux bras de la rivière de Canton et le golfe de la mer. Les Chinois ont séparé le territoire affecté à la résidence des Portugais du restant de l'île, par une muraille qui traverse l'isthme dans toute sa largeur. Une seule porte, placée au centre et gardée par des soldats chinois, permet de communiquer avec l'intérieur du pays. Il est défendu aux Européens de la franchir. Autrefois même on la fermait tous les soirs au coucher du soleil pour l'ouvrir le lendemain au lever du jour. Mais depuis la dernière guerre avec les Anglais qui, en 1840, ont attaqué cette barrière et l'ont en partie démolie, la porte reste toujours ouverte.
Les principales hauteurs qui dominent la ville sont couronnées de forts, érigés par les Portugais, pour la plupart au xvue siècle, lors de la guerre avec les Hollandais. Ces forts portent les noms de Monte, de la Guia, de San- Francisco, de la Penha, de Bomparto et de la Barra , noms souvent cités dans l'histoire de la colonie.
Un beau quai de granit dit Praya Grande ceint en demicercle les bords de la rade, couverte de petits bateaux de transport dits tankas, ramés par des femmes. Plusieurs églises et quelques édifices publics et privés embellissent le plus ancien établissement européen en Chine Dans le nombre des premiers, les plus considérables sont la maison du sénat, la douane, la maison du gouverneur; parmi les seconds, la plus remarquable est la maison appartenant à un négociant portugais, Lourenzo Marquès, et nommée Casa de Orta. Dans le jardin attenant à cette maison se trouve la grotte où le célèbre poète portugais Camoëns, qui était venu à Macao comme soldat et marin, composait ses Lusiades.
Rade. Ports.
L'établissement de Macao possède une rade et deux porls. La rade est spacieuse, mais dans la partie où elle est assez profonde pour le mouillage des gros navires, elle est complètement ouverte; plus près du quai, elle est abritée, mais peu profonde.
Le port extérieur, nommé la Taïpa, est formé par plusieurs îles situées au sud de la rade. A l'entrée de la Taïpa (les Anglais écrivent Typa), les navires d'un fort tonnage peuvent mouiller en toute saison; dans l'intérieur de ce port, n'entrent habituellement que des navires de 300 à 400 tonneaux. Le port intérieur ou port de Macao est fermé par la presqu'île où est située la ville, par une partie de l'île Hiang-shan, et une île montagneuse dite Lapa. Une barre assez élevée qui se trouve à l'entrée de ce port le rend inaccessible aux navires de 600 à 700 tonneaux ; pour les faire mouiller dans ce port, on est obligé de décharger une partie de la cargaison; mais les navi res de 300 à 400 tonneaux entrent facilement dans le port intérieur. M. Cécille, commandant de la frégate française YÈrigone (aujourd'hui vice amiral), qui a examiné ce port en 1842, a exprimé 1 opinion qu'avec des travaux de dragage peu dispendieux, on pourrait rendre le port intérieur accessible même aux grands navires de guerre. Comme l'exhaussement du fond provient en grande partie de l'accumulation du lest jeté dans l'eau depuis longues années, principalement par les jonques chinoises, il est nécessaire de veiller à ce que le lest ne soit plus vidé dans les eaux du port.
Division. Population.
La ville est divisée en trois paroisses portant les noms des établissements ecclésiastiques dont elles relèvent. La première de ces paroisses s'appelle Bairo da Se ou de la cathédrale; la seconde, Bairo de San Lourenço; la troisième, Bairo de San Antonio. La population se compose de trois classes principales: les sujets portugais, les sujets chinois, les étrangers. A la première, appartiennent d'abord tous les Portugais, tant ceux qui sont nés en Europe (il yen a à peine une centaine) que ceux nés dans les colonies; ensuite les métis, mestiços, race la plus mélangée qu'on puisse rencontrer dans aucune colonie du globe. Il y en a qui proviennent du croisement des Européens avec les femmes chinoises, malaises, indiennes de Goa et avec des négresses esclaves; d'autres sont issus des rejetons de ces mêmes croisements, croisés à leur tour avec des femmes de différentes races pures ou métisses.
Ces derniers (sous-métis) conservent à peine une goutte de sang européen dans leurs veines. On compte aussi parmi les métis les Chinois baptisés et habillés à l'européenne.
Enfin, la troisième catégorie des sujets portugais à Macao comprend les nègres et les négresses esclaves provenant des colonies d'Afrique ou de l'île de Timor, colonie portugaise dans les Moluques. Le bataillon des cipayes, dit de principe, qui tient garnison à Macao, est composé des Indiens et des métis nés à Goa; les officiers seuls sont Européens. 
Le recensement de 1835 avait donné les chiffres suivants pour ces différentes catégories de population: Hommes blancs ou de couleur, libres, 1,487; femmes, idem, 2,306. Nègres esclaves mâles, 469; négresses esclaves, 831. Total de la population blanche ou de couleur, libre, 3,793; population noire esclave, 1,300. Total général, 5,093. Depuis dix ans, la population blanche ou de couleur, libre, est restée à peu près stationnaire; celle des nègres a un peu diminué, mais dans des proportions peu importantes. Un fait frappant ressort de ce recensement, c'est que le nombre de femmes dépasse celui des hommes de plus d'un quart. Nous n'avons pas pu trouver une explication satisfaisante de ce phénomène. Une remarque que nous ferons aussi en passant, c'est que la population de sang mêlé, ou celle des Macaistes proprement dits, des deux sexes, est d'un type physique fort laid.
Toute cette population s'occupe principalement de commerce et de navigation; mais, comme elle dispose de peu de capitaux, qu'elle est d'un naturel fort indolent et ne possède que peu d'instruction, les résultats de leurs entreprises sont peu considérables. Il y a cependant dans le nombre quelques riches négociants, dont la fortune a pour principale origine le trafic de, l'opium. Le clergé, à Macao, est assez nombreux; il a produit quelques bons sinologues. Parmi les propriétaires des maisons, il y a quelques amateurs des beaux-arts, surtout de l'architecture et de la musique.
Sujets chinois. Quant aux sujets chinois, leur nombre est évalué de 30 à 40,000 habitants. Ils sont artisans, marchands, boutiquiers, contrebandiers, bateliers, pêcheurs, portefaix. Un grand nombre sont employés comme domestiques des sujets portugais et des étrangers établis à Macao. Les habitants de deux ou trois villages contigus à la ville s'occupent d'agriculture et de jardinage. Toute cette population chinoise est placée sous la juridiction d'un mandarin inférieur, dit Tso-tang, dont les fonctions pourraient être assimilées à celles de maire, de commissaire de police et de juge de paix réunies. Ce mandarin réside à Macao même, au centre du bazar ou quartier chinois; il relève de la juridiction d'un autre mandarin de Hiang-shan, que les Portugais, à cause de sa demeure, nomment mandarin de Casa branca (maison blanche), située sur le territoire chinois. Ce dernier est une espèce de sous-préfet de l'arrondissement dans lequel est situé Macao. Nous parlerons plus tard de la nature des rapports établis entre les autorités portugaises et les agents administratifs du Céleste Empire.
Forme du gouvernement de la colonie. La forme du gouvernement de la colonie de Macao participe de la nalure mixte de sa population ; il y a le gouvernement portugais et le gouvernement chinois. Le gouvernement portugais est exercé par le sénat, le gouverneur, l'évêque et le juge ou ministre. Le sénat1 est une sorte de conseil municipal, avec des attributions toutefois qui ordinairement appartiennent au gouvernement politique central. L'origine de ce corps, le rôle qu'il a joué à différentes époques, ses luttes avec les gouverneurs et les commandants de troupes, sont des faits d'un grand intérêt pour l'histoire des relations européennes avec le Céleste Empire, mais ces détails excéderaient les limites de ce travail. Nous nous bornerons seulement à dire que le sénat"est un corps électif, qu'il se compose de sept membres élus parmi les notables (homens bons) qui ont droit de voter. Parmi ces membres, deux portent le nom de juges (juizes), trois sont conseillers ou syndics (vereadores) et un procureur (procurador). Les juges décident dans certaines affaires litigieuses civiles et criminelles, sauf appel au juge ou ministre, et de celui-ci au tribunal d'appel pour toutes les colonies de l'Asie portugaise, séant à Goa et nommé Relaçao. Les juges sont aussi chargés de l'exécution des décisions qu'ils rendent dans le sénat collectivement avec les autres membres de ce corps. Les conseillers ou vereadores président alternativement les séances du sénat et s'occupent plus spécialement des affaires municipales. Le procurador a dans ses attributions la police, le bon ordre, l'entretien et la réparation des édifices publics, l'exécution des ordres que le sénat lui donne par écrit; enfin, et c'est là la plus importante de ses attributions, il est intermédiaire et l'organe officiel du sénat auprès des autorités chinoises; il exerce aussi par lui-même une certaine autorité sur la population chinoise de la ville, et il prend pompeusement le litre de chef des Chinois de Macao (cabeça dos Chinos em Macao). Mais en réalité, dans toute affaire de quelque gravité, par exemple lorsqu'il y a des poursuites à exercer contre un Chinois, il Leal senado, sénat loyal, et non royal, comme l'appellent fréquemment par erreur les journaux anglais.
Parmi les employés du sénat, les principaux sont le trésorier et le secrétaire. Le premier est en même temps le percepteur des revenus de la colonie, et il siège au sénat (mais non parmi les sénateurs) lorsqu'il rend ses comptes semestriels. Le secrétaire rédige et contresigne les décisions du sénat et fournit des informations sur les lois existantes.
Le gouverneur préside le sénat lorsque ce corps s'occupe des affaires politiques, militaires, économiques, quand il discute sur l'emploi des fonds publics et sur les collisions avec les Chinois ou les étrangers. Le gouverneur est en même temps chef de la force armée et commande les forts qui entourent la ville. Ce fonctionnaire a presque toujours été nommé par le vice-roi ou gouverneur général de Goa, ou du moins proposé par lui.
Il était obligé de faire à ce dernier des rapports sur tous les actes du sénat. Le gouverneur peut suspendre toute décision qui lui paraîtrait contraire aux lois, ou aux règlements en vigueur, ou aux ordres reçus de Lisbonne.
Ces attributions mettent fréquemment le gouverneur en collision avec le sénat. C'est alors le juge ou ministre qui s'interpose pour concilier le différend, et lorsqu'il se trouve de l'avis du gouverneur, les autres membres n'ont plus qu'à signer la décision.
Si le gouverneur est en désaccord avec tout le sénat et avec le juge ou ministre, c'est à l'évêque que l'on a recours. Celui-ci, outre l'autorité spirituelle qu'il exerce en vertu de la nomination par la couronne de Portugal est encore autorisé à intervenir dans le gouvernement de la colonie si l'affaire dans laquelle le gouverneur est en opposition avec le sénat est réputée urgente. L'évèque, dans ce cas, convoque une assemblée des notables, et le différend est vidé à la majorité des voix.
Le juge ou ministre a des pouvoirs très-étendus. Il décide non seulement dans toutes les causes civiles et criminellés, mais aussi dans les affaires de douanes. On peut appeler de ses décisions au tribunal supérieur de Goa. Les Chinois adressent à ce juge des plaintes contre les sujets portugais. Dans le cas d'homicide, le coupable est jugé par le ministre, et l'exécution a lieu à Macao.
Le trésor de la colonie est administré par le trésorier sous l'autorité du sénat, auquel ce fonctionnaire rend les comptes tous les six mois. Les seuls revenus qui alimentent le trésor sont les produits des droits de douane. Leur perception a été organisée pour la première fois par le règlement du 29 mars 1784. Les dépenses sont ordonnancées par le sénat. L'excédant des recettes avait été et est encore habituellement prêté sur la grosse (respondentia) aux membres du sénat euxmêmes et à leurs amis. Ce système avait donné lieu autrefois à des abus sans nombre.
Les recettes, dans les années prospères, sesorit souvent élevées au-delà de 100,000 taëls (un taël vaut 7 fr. 50 e.).
Mais, à partir de l'année 1826 surtout, les dépenses ont presque constamment dépassé les revenus, de façon qu'à la fin de 1834, la dette de la colonie avait atteint le chiffre de 165,134 lacis. L'interruption du commerce servé à la couronne de Portugal sur ce siège, ainsi que sur ceux de Pékin et de Nankin, créés en 1690. Le diocèse de Macao comprend la ville et les provinces chinoises de Kwangtoung et de Kwangsi. Il y a a Macao un chapitre épiscopal, trois paroisses et environ vingt-cinq ecclésiastiques pour quatre a cinq mille chrétiens. (...)
Navigation. Commerce. Législation commerciale.
Depuis leur établissement sur la côte occidentaie de l'Inde, les Portugais furent, pendant plus d'un siècle, les seuls intermédiaires du commerce européen avec les ports de l'Asie. De leur rocher de Macao, ils dominèrent pendant 70 ou 80 ans tout le commerce de la Chine. En 1578, leurs navires de 600 à 800 tonneaux ont commencé à remonter à Canton; en même temps, les contrebandiers chinois de la côte apportaient à Macao toutes sortes de marchandises à bord des jonques. Les Portugais importaient d'Europe principalement des tissus de laine; ils importaient de l'Inde de l'ambre, des coraux, des dents d'éléphants, du bois de santal, de l'argent monnayé et en lingots, et, surtout, une grande quantité de poivre. Leurs exportations, d'après le témoignage de l'Asia portuguesa, s'élevaient, annuellement, à 5,300 caisses de soieries, chaque caisse contenant 400 rouleaux de velours ou de damas, et 150 de tissus plus légers (Martin Martini, dans son Atlas sinensis, parle de 1,300 caisses), 2,500 lingots d'or (paos de ouro), chacun pesant 10 taëls, 800 livres de musc, et, en outre, des perles, des pierres précieuses, du suère, de la porcelaine et une grande variété d'articles de luxe. 
Les Portugais s'enrichissaient également par le commerce avec le Japon. Depuis 1542, année pendant laquelle quelques aventuriers, jetés par une tempête, abordèrent les côtes du Japon jusqu'en 4630, où ils furent définitivement expulsés de ce pays, Macao servait d'escale au commerce avec ce nouveau marché. La fondation de la colonie espagnole de Manille, les relations avec Malacca, Siam et la Cochinchine contribuaient aussi, dans la même période, à entrenir la prospérité commerciale de Macao. En 1622, les Portugais repoussèrent victorieusement une attaque des Hollandais, alors en guerre avec l'Espagne à laquelle le Portugal était réuni. Enorgueillis de tant de succès, les Portugais supportaient impatiemment la dépendance danslaquelle voulaient les tenir les autorités chinoises.
En 1631, celles-ci leur avaient complétement interdit le marché de Canton. Pour rendre cette défense vaine et illusoire, les Portugais parcouraient, avec leurs navires, les côtes méridionales de l'empire, trafiquaient avec de nombreux contrebandiers, et, chaque fois que les autorités chinoises parvenaient à saisir un de ces commerçants d'interlope, les Portugais poussaient les hauts cris, se plaignaient de l'inj ustice des saisies et offraient de prouver que les marchandises arrêtées avaient déjà payé des droits à leur importation à la douane chinoise de Macao. Cette lutte continua avec des alternatives de succès et de non réussites partielles jusqu'en 1685, année mémorable dans les fastes du commerce étranger en Chine. Ce fut, en effet, en 1685 que l'empereur Kang-hi ouvrit les ports de l'empire à ce commerce, et permit à ses propres sujets de trafiquer avec les pays environnants. Malheureusement;'cette politique libérale ne dura pas longtemps. En 1717, Kanghî, cédant à la suggestion d'un haut mandarin, un préfet maritime, nommé Chin-Maou, rendit un nouvel édit révoquant les dispositions de 1685. Un ordre, conçu dans le même sens, fut intimé au gouvernement de Macao, qui fit immédiatement des démarches pour en neutraliser les effets. Une députation, appuyée par les menées influentes d'un jésuite nommé Joseph Pereira, obtint, du vice-roi de Canton, la permission de commercer avec les pays situés au sud de la mer de Chine. La permission fut approuvée parKang-hi, et, en 1718, plusieurs navires furent expédiés à Batavia et à Manille. Ce même empereur avait proposé au gouvernement de Macao de convertir l'établissement portugais en entrepôt général du commerce avec l'étranger, et de charger ce gouvernement de la perception des droits. Pareille proposition fut renouvelée par le successeur de Kang-hi, l'empereur Young-Tching, en 1732.
Qui le croirait? Ces deux propositions furent repoussées; la première, par le sénat de Macao, la seconde, par le vice roi de Goa, comte de Sandamil. Les Portugais étaient alors loin de prévoir les suites de ce refus.
Leur jalousie commerciale ne voyait alors, dans le privilége qu'on voulait leur accorder, que l'obligation funeste, selon eux, d'entrer en partage des bénéfices commerciaux avec d'autres nations européennes. Ils voulaient en avoir le monopole, ils l'ont eu, et c'est le monopole qui les a ruinés! (...)

domingo, 26 de dezembro de 2021

Uma "columna de pedra" numa "praça triangular"

Tal como nas cidades portuguesas, também em Macau o pelourinho, colocado no centro do Largo do Senado, perto da igreja da Santa Casa e da Cadeira, simbolizava a justiça e era local de aplicação de penas.
Já aqui abordei o tema do Pelourinho que existiu junto ao Leal Senado. Sobre este 'pedaço de história' há muito desaparecido recorro a um relato, raro, da década de 1850, da autoria de António Maria Bordalo, incluído numa 'noveleta' intitulada "Sansão na Vingança" publicada no jornal O Panorama em 1854. Mais tarde teve edição em livro 1881 e reedição em 1980.
"Acompanhe nos o leitor á procuratura da cidade e encontrará um tribunal como não podia suppor existisse ainda no seculo 19, em um paiz que se diz portuguez e civilisado. Em um dos lados de uma praça triangular* está situado o palacio da municipalidade; esta corporação ainda ali tem o pomposo titulo de Leal Senado de Macau, mas nenhuma das suas antigas attribuições governativas; é porém composta pela seguinte forma: um presidente, dous vereadores, dous juizes ordinarios e um procurador, todos de eleição popular; reunidos, não tem mais prerogativas do que qualquer camara do reino; funccionam porém alternados na junta de justiça, tribunal superior da imaginaria Provincia de Macau Timor e Solor; mas procurador por si só, exerce uma auctoridade sem limites sobre a população chineza da cidade, isto é, sobre nove decimos dos seus habitantes.
N'esse mesmo edificio do senado está o terrivel tribunal da procuratura; tem um interprete superior do idioma echinez e outros subalternos a que chamam linguas; tem meirinhos e carrasco; e tem além, no meio da praça, essa columna de pedra que em outra parte denotaria o fôro da povoação, mas que n'esta cidade é um logar de supplicio e exposição de criminosos, o pelourinho.
Ali se amarra com a propria trança, e de barrete na cabeça designando as culpas, á guisa de carocha da inquisição, o miseravel ratoneiro que não teve com que amaciar a policia. Ali se prende o infeliz que roubou um pão ou algumas sapecas, para levar centenares, milhares de pancadas com um grosso bambu! Ali se arranca a pelle ao criminoso que não tem dinheiro para se remir, e tudo isto por sentença do procurador que é graduado mandarim do imperio celestial, mas não graduado em leis, e mediante um processo verbal e summario, em que intervem o interprete ou um dos linguas, porque o procurador vulgarmente não falla chinez, além de não saber mesmo ás vezes escrever o seu nome, nem ter as menores noções de direito. Este funccionario tem, afóra a sua agencia, tresentos taéis de ordenado, apezar de ser eleito pelos seus concidadãos e gosar das honras mandarim chinez." 
PS: Tanto quanto sei existem apenas três representações iconográficas do pelourinho (ver link acima). Duas delas são da autoria de George Chinnery. Em 1964 Jack Braga publicou um artigo sobre o tema. Segundo consta foi ele quem descobriu um dos desenhos/esboços de Chinnery.
* É curioso que até praticamente ao final do século 20 existiu um espaço de formato triangular frente ao edifício do Leal Senado. Em cima uma foto da década de 1980.

sábado, 25 de dezembro de 2021

"Sabão da Fábrica Portugueza de Macao": 1851

"Para Venda – Muito bom, e fino Sabão de Fabrica Portugueza de Macao, para lavagem de roupa, a 12 Cattes* por pataca; vende-se também a meudo até hum pão, que não pezará mais de meio catte, a 120 Sapecas ao catte. Quem quizer dirija-se a “Boa Vista” Caza N.º 4, ou a “Fonte de Lilao” Caza do mesmo numero, desde o dia 13 do corrente mez em diante às 9 horas A.M. a 5 P.M. não sendo Domingo, e dia Santo de guarda**. 
Macao, 7 de Fevereiro de 1851."
Anúncio publicado no Boletim do Governo de Macau, Timor e Solor em 1851.

* O Cate é uma medida de peso do sistema chinês que correspondente a cerca de meio quilo.
** Os “dias santos de guarda” são os que os católicos são obrigados a assistir à Missa: para além do domingo, o Dia de Natal, Dia de Reis, 1 de Janeiro e 8 de Dezembro.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Um "autógrafo" no Natal de 1951

Um "Natal Alegre e Ano Novo Muito Feliz" são os votos expressos neste "autógrafo" enviado 
da "Província de Macau - Repartição Central dos Serviços dos Correios, Telégrafos e Telefones" para o Brasil "Par Avion Via Hong Kong" em 1951. Foi há 70 anos...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

"Um Conto de Natal" de Henrique de Senna Fernandes

Na edição de 23 de Dezembro de 1994 o jornal Ponto Final (Macau) publicou um Conto de Natal inédito da autoria de Henrique de Senna Fernandes em que o próprio explicava:
"O original deste conto não me pertence. Pertence à minha neta Laura, de oito anos, que o rabiscou, numa dúzia de linhas, para um exercício da escola. Enterneceram-me a imaginação revelada e a tocante ingenuidade da história e resolvi desenvolvê-la para que não se perdesse e a própria autora não a votasse ao esquecimento. Basicamente o enredo é dela, eu apenas fiz os acrescentamentos que julguei necessários."
"O garoto tem cinco para seis anos, anda descalço e só em em dias especiais usa umas sapatorras, grandes demais para os seus pezitos e muito gastas. Não sabe quem são os seus pais, nunca os viu, não tem irmãos, nem ninguém que se proclame seu parente. Foi trazido sabe-se lá como e quando, ao sítio, ao cuidado dum casal de velhos, com dois filhos, todos adultos, gente rude e hirsuta, de poucas falas, incapazes de ternura para uma criança. Os quatro moram numa casa sombria de pedra e trabalham no amanho de terra em volta. O garoto vive ao lado, num barraco, feito de tábuas de madeira já podre, que deixa penetrar pelas frinchas a chuva e o vento.
No verão, sofre um calor horrível e sufocante, mordido pelos bicharocos que infestam a palha a servir de cama. No inverno, o frio é como uma geleira e o garoto treme comos parcos agasalhos que o defendem.
Não se sabe qual o nome com que o baptizaram, e, porque todos lhe chama Garoto, acredita que esse é o seu verdadeiro nome. Não vai à escola, mas já moureja com os misteres que lhe dão, em conformidade com a sua idade. Ralhos e berros recebe-os muitos, safanões e carolos também, mas sevícias propriamente ditas, mais cruéis, não moem o seu corpo débil. O que mais lhe dói, é a indiferença geral.
Não tem entrada na casa de pedra, onde arde a lareira no inverno, fica à portas às horas da refeição para receber a sua ração que nunca é suficiente nem saborosa, sendo a fome a sua companheira diária. É ainda muito pequeno para perguntar a razão daquele tratamento e porque não pode juntar-se com aquela gente para o convívio familiar.
A solidão amadurece-o, fica a pensar que nunca teve um brinquedo e porque razão não é como as outras crianças que possuem pais, que brincam despreocupadas, correm, saltam, dão gargalhadas e se vestem bem, sem os farrapos que o cobrem. Todos certamente têm uma cama para dormir.
O seu lugar favorito é o bosque, não muito distante da casa. Conhece as árvores, o pio de cada passarinho, a toca do vivo lebréu. Do lugar pode espreitar a aldeia na curva do vale, com o seu movimento bucólico e repousante de pessoas, automóveis e carroças, um divertimento simples, mas sempre alvoroçante para ele. Conhece os sinos da igreja, muito branco no alto duma eminência e sente sempre o apelo de entrar nela. Os da casa visitam-na uma vez por semana, mas nunca o levam, como se tivessem vergonha dele.
Naquele inverno agreste, de frio cortante como nunca, o padre da igreja aprece, de repente, cheio de perguntas que não sabe responder porque não está habituado a falar com ninguém, com excepção dos passarinhos e animaizinhos do bosque, entre eles, o furtivo lebréu.
Assiste depois, uns passos afastado, ao interrogatório do padre aos adultos da casa. Todos gesticulam muito, as vozes erguem-se irritadas, estão a falar dele, porque aponta, muitas vezes o dedo na sua direcção. Palavras esparsas sobre uma filha do casal que abandonou o lar paterno atrás dum desvairado amor. Sobre essa filha, os quatro adultos têm expressões azedas de desdém e de fúria. Coisas que nada têm que ver com ele e não perceber porque o misturam com a memória da desconhecida.
A conversa sobre de tom, o padre, rubicundo de cólera, vira-lhe as costas, aproxima-se por fim dele, dá-lhe a imagem do Menino Jesus e diz-lhe: - Daqui a uns dias é Natal. Vai à igreja rezar pelo Menino Jesus, que nasceu neste dia. Pede-lhe qualquer coisa e vem depois dizer-me o que lhe pediste.
Nessa noite, os da casa dão-lhe mais agasalhos com que vestir e uma manta mais espessa. Mas continua à porta para as refeições. Não olvida as palavras do padre que lhe martelam a cabeça, no meio da solidão. Nas mãos conserva a imagem oferecida.
O dia de Consoada raia cinzento, com borrifos de chuvisco. O garoto está irrequieto, decido ou não decide em ir à igreja, hesita, mas uma força interior impele-o a cumprir a sugestão do padre. É pouco mais de meio-dia quando se interna no bosque.
Atravessa-o a correr e por uma vereda sinuosa, desce à estrada que o leva directamente à aldeia. Tem os pés calçados das sapatorras e como vai obcecado não se atemoriza com tanta gente que encontra no caminho. Sobe a bonita ladeira e penetra finalmente na igreja.
Defrontam-no a penumbra, os santos dos altares, o colorido dos vitrais simples. Mas os seus olhos fixam-se no presépio alumiado pela velas. Achega-se e instintivamente ajoelha-se diante do Menino deitado que sorri, mãos erguidas.
Baixinho pede. Pede que lhe dê um pai e uma mãe e comida para matar a fome. E mais timidamente, quase a medo, pede-lhe uma cama quentinha para dormir. Tem mais pedidos a fazer, mas não quer abusar. Tudo isto fervorosamente, atropelando as palavras.
Depois procura o padre, mas ele está ocupado nos preparativos para a festa natalícia, tem pessoas que o aguardam. Não tem tempo para o atender e ele regressa ao barraco, com a certeza de que os seus pedidos não chegarão aos ouvidos do Menino Deus.
Ninguém repara nas suas deambulações. Ao cair da tarde, o frio é intenso e o garoto encolhe-se na palha, cobrindo-se com a manta e quase chora escutando o assobio lúgubre do vento que ulula por entre as frinchas do madeirame podre.
Nisto, ouve bater a porta. Com dificuldade, os dentes a tremer, vai abri-la. Um homem e uma mulher, bem vestidos, ambos bonitos, sorriem para ele, com lágrimas nos olhos. ela, muito docemente, ao beijá-lo diz: 
- Não te assustes. Somos teus pais. Vimos buscar-te para levar para casa. Temos muitas guloseimas e brinquedos para ti. 
- E uma caminha quente também?
- Uma caminha quente e muito mais - disse o homem, abraçando-o.
Já não tem frio. Aperta no peito a imagem do Menino Jesus que traz no bolso da camisa. E sai para o relento, entre os pais, para longe da casa de pedra."

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Correspondências de Natal: 1961

in edição nº 125 de Novembro de 1961 da revista mensal do Clube Filatélico de Portugal.
Nessa mesma edição foi publicado um pequeno anúncio de um cidadão chinês coleccionador de selos residente no território (Tap Seac).
Nesta altura Rolando dos Reis Ângelo era o agente em Macau do Clube Filatélico de Portugal.