sábado, 12 de dezembro de 2020

The city is built on the side of a hill

Macao
A Portuguese colony on a small rocky peninsula extending southwest from the rest of the island of Heungshan in Kwangtung Province Forty miles from Hong Kong 88 miles from Canton and 948 miles from Shanghai.
Population 84 000 of whom 4 000 are of Portuguese extraction and about 300 other Europeans and Americans.
Macao is a free port and prior to the cession of Hong Kong to Great Britain in 1842 was the only open port in China.With the rise of Hong Kong and the opening of Canton to foreign trade Macao has lost its important position in the shipping world.
In an effort to retrieve its former position the Macao Government has recently added many improvements to the harbor including breakwaters piers and warehouses. It is now best known however as the Monte Carlo of the Orient because of the numerous lotteries fan tan houses and racing establishments in the colony.
 

Principal Exports 
Cement, bamboo, hogs, bricks, native paper, firecrackers and tinned fruits and vegetables. 
Principal Imports 
Cotton piece goods, rice, kerosene, sugar, flour and iron and steel manufactured articles. 
Industries
A Hong Kong company maintains a large cementmanufacturing plant here. Small firecracker establishments are numerous and there is a considerable number of primitive plants for the canning of fruits fish and vegetables. Fishing is a common pursuit of the native population who make Lappa the Chinese maritime customs port for Macao their headquarters. 
How Reached 
Steamers leave Hong Kong for Macao twice daily the trip occupying 3 to 4 hours and daily steamers operate to Canton a 7 hours journey from Macao. 
Hotel 
The Hotel Riviera 
Communications 
There is a city telephone system the Great Northern Telegraph Co operates a cable service and the Macao Government maintains direct communication with Lisbon by radio. 
A steamship service subsidized by the Government is maintained between the Portuguese colony of Macao and the Portuguese colony of Timor in the South Seas.

Bank 
The principal bank of the colony is the Banco Nacionale Ultramarino. 
Currency 
The official currency of the colony is the Macao dollar which is traditionally on a par with the Hong Kong dollar. In practice the Hong Kong dollar circulates freely in the colony of Macao and is generally used by visitors. 
American Consul 
Macao is in the Canton consular district.

Note 
The Portuguese colony of Macao consists of the peninsula of Macao and the islands of Taipa and Colowan. The area of the whole is 44 square miles. It was only in 1887 after establishment of the Chinese maritime customs service under Sir Robert Hart that the Chinese Government recognized Macao as a Portuguese possession. The foreign trade is chiefly through Lappa. The Macao Peninsula is 3 miles long and its greatest breadth 2 000 yards. The city is built on the side of a hill. The Portuguese in 1557 received a permit from the Chinese Government then the Ming dynasty to work factories here President Washington in 1790 appointed Major Shaw a Canton resident as consul to Macao. During the eighteenth century Macao was the chief port of western trade with China.
Década 1930. foto não incluída no livro
Lappa
Situated on an island at the mouth of the Chu or Pearl River in Kwangtung Province 40 miles from Hong Kong, 670 miles from Manila, 88 miles from Canton, 948 miles from Shanghai, 6.089 miles from San Francisco. It is the customs port for the Portuguese settlement of Macao. 
Principal Exports 
Hogs, poultry, bamboo bricks and tiles, coconuts, eggs, palm leaf, fans, firewood mats, pottery and earthenware marble and granite, tea, softwood timber and paper. 
Principal Imports 
Cotton piece goods, beans and peas, rice, cement, fresh and salted fish, flour groundnuts, macaroni, matches, kerosene, sugar, iron and steel manufactured articles and candles.
Industries 
Lappa has little industry except trade to and from Macao. 
Trade Value 
The value of direct foreign trade in 1930 was 16 450 490 haikwan taels 7 567 225 net foreign imports 12 676 363 haikwan taels 5 831 127 exports 3 774 127 haikwan taels 1 736 09 eached Lappa imer from Honge Chinese maritim. 
How Reached 
Lappa is a part of Macao and is reached through that port chiefly by steamer from Hong Kong. 
Note
Lappa is the name borne by the Chinese maritime customs station for Macao. The population is chiefly fishermen and those engaged in trade transport.

in "Commercial Travelers' Guide to the Far East, United States". 
Bureau of Foreign and Domestic Commerce, 1932

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Macau e o "Iberismo"

A propósito de mais um feriado em Portugal em que se comemorou a Restauração recordo neste post uma parte pouco conhecida da história de Macau.

Cerca de 200 anos depois do fim da união das coroas espanhola e portuguesa (1640) a ideia dessa união, o Iberismo, ressurgiu e teve origem em Macau.
Um dos grandes defensores e o primeiro a sistematizar a ideia em livro foi Sinibaldo de Mas y Sanz (1809 -1868). Nascido em Barcelona, foi sinólogo, pintor, calígrafo, escritor e diplomata. Na época estava em Macau sendo o primeiro embaixador espanhol na China (1847).
No "Dicionário Bibliográfico Português", de Brito Aranha, publicado em 1883 pode ler-se:
En 1850, en el Palacio episcopal de Macao, residencia del Obispo J.J. de Motta, Carlos J. Caldeira, el canonista Fray, el dominico J. Fernando y el diplomático espanol Sinibaldo de Mas y Sanz, trazaron un borrador del que surgio la memoria titulada “La Iberia”, que salio a la luz publica en Lisboa en Diciembre de 1851. En ella se defendia la Union Monarquica de ambos países”
Ou seja, em 1850 no Paço Episcopal, junto à Sé, nomes como D. Jerónimo José da Mata (bispo da diocese), Carlos José Caldeira (primo do Bispo) e D. Sinibaldo de Mas juntaram-se para celebrar a conclusão de um livro que iria ser o grande agente da divulgação deste ideal: as duas coroas da península sob uma mesma bandeira.
Um ano depois, em 1851 D. Sinibaldo de Mas regressa à Europa no vapor Spark, por ter sido suprimida a Legação Espanhola no Império Chinês e nesse ano é editado o livro "La Iberia", também em edição portuguesa.
Sinibaldo regressaria à China e a Macau em Maio de 1864.
Chega a Xangai, na corveta a vapor Narvaez, como enviado extraordinário e ministro plenipotenciário de sua majestade católica, encarregado de negociar um tratado em Pequim. Acompanhavam s. ex., como secretários delegação, os senhores D. Pedro Alvarez de Toledo, sobrinho de sua majestade a imperatriz dos franceses, e D. José de Aguilar, actualmente cônsul-geral de Espanha na China e em Macau, e, como alunos intérpretes, os senhores Otin y Mesia, Laiglesia, e Ojeda."
No regresso à Europa em 1868 Sinibaldo leva consigo as credenciais emitidas pelo imperador chinês, Zongli Yamen (Tongzhi), a fim de negociar com a coroa portuguesa a "venda" de Macau à China. Uma cópia desse documento está actualmente no Arquivo do Instituto de História Moderna, em Taipé (Taiwan). Nesse mesmo ano Sinibaldo morre e a missão tido como secreta não chega a concretizar-se. 
Os dois países tinham assinado em 1863 o Tratado de Amizade e Comércio entre Portugal e a China (conhecido por Tratado de Tianjin) que incluía vários artigos sobre Macau mas que nunca foi ratificado.
Transcrição do documento acima:
Eu, Grande Imperador da Grande Pátria Qing, envio a minha saudação e apreço ao grande monarca de Portugal. Entre as relações da China com países estrangeiros, o Céu tem em alta estima sua nação amiga, que sempre foi honesta e pacífica. É por isso que escolhi cuidadosamente um homem sábio e inteligente, além de virtuoso e honrado, que anteriormente serviu como enviado especial da Espanha em Pequim, Don Sinibaldo de Mas, que é um bom conhecedor das relações da China com o exterior, e eu o nomeio para atuar como meu representante nas negociações entre nossas duas nações. É meu desejo manter relações fraternas, honrosas e de confiança com sua nação que nos permita alcançar a amizade eterna e aumentar a paz juntos para alcançar a felicidade mais profunda. Quinto mês do sétimo ano do período Tongzhi. 
Noutra parte das credenciais pode ler-se:
"Verificamos que Macau fazia parte do território chinês. De há muito tempo que os portugueses vivem lá por aforamento, pagando uma anuidade de 500 taéis de prata. Os portugueses construíram lá repartições públicas e fortificações entre outras estruturas. Agora, a China pretende nomear funcionários seus para governar esta terra como dantes exercendo a soberania sobre ela. Caso não oferecermos indemnizações proporcionais às despesas com as obras, os portugueses sairão com muitas perdas, de modo que pretendemos pedir a transferência de fortalezas, repartições civis e militares, quartéis, todas as infraestruturas públicas construídas pelos portugueses, assim como todo o material bélico existente, pontes e o sistema viário para a competência de funcionários chineses que a China nomeará para Macau à troca dum determinado valor pecuniário como indemnização para os custos das construções portuguesas. Uma vez liquidada a verba a ser combinada, Portugal retirará toda a função pública e a presença militar de Macau sem mais poder mandar para lá pessoal seu. Todos os assuntos, tais como a administração pública, o estabelecimento de postos alfandegários e a cobrança de direitos passarão a exclusiva competência da China, nos quais Portugal não terá mais intervenção. Doravante, as relações luso-chinesas em Macau serão regidas pelos regulamentos em vigor nos portos chineses abertos ao comércio estrangeiro."

Neste negócio estava previsto que não só Portugal recebesse uma avultada quantia (um milhão de taéis segundo algumas fontes), e o mesmo aconteceria com o negociador Sinibaldo (100 mil taéis) que, curiosamente, logo após o assassinato do governador Ferreira do Amaral defendia, numa carta enviada para Espanha, que era perigoso a China ter controlo sobre Macau:
"Macao y Hong Kong son los unicos puertos europeos que ay en China y el primero es superior al segundo en todo, exceptuando el puerto. Es, por consiguiente, muy importante que se conserve en poder de los cristianos, pues en un país inhopitalario como éste, en donde se nos niega la entrada y que trata con igual menosprecio a todos los extrajeros, en que punto nos refugiaremos en caso de una persecución, de una insurrección y aún de una guerra con los Ingleses o con otra nación? Es verdad que quedaria el recurso de Hong Kong, pero, además de otros inconvenientes, podría haber el de hallarse uno mal con los que gobieman en aquella isla. As'i, por ejemplo, si nosostros, los Españoles, tuviéramos que salir de Cantón, y demás puertos de China (lo cual acontecer'ia de ocurrir una guerra con qualquier pueblo extranjero) y no pudiésemos tampoco permanecer en Macao, por pertenecer a los Chinos, como haríamos si no nos fuese dado permanecer en Macao acogemos a Hong Kong por estar mal con los Ingleses, cosa que, por otra parte, ocurrió no hace mucho cuando el negocio Bulwer? En dónde se albergar'ia la procurador'ia de nuestras misiones en China, Cochichina y Tunkin? En dónde colocaríamos el depósito de carbón para nuestros vapores? Por estos motivos todos, todos los extranjeros que en China residen son unánimes en la opinión de que ninguna manera debemos permitir que este Establecimiento caiga en poder de los Chinos (...)"
 
Na imagem acima uma ilustração incluída na 3ª edição portuguesa (1855) do livro "A Iberia - Memoria sobre a conveniencia da união pacifica e legal de Portugal e Hispanha ilustrado com os retratos do rei D. Pedro V de Portugal e da princesa das Astúrias D. Maria Isabel." Francisca de Assis.
Nota: Outra das obras relevantes da autoria de Sinibaldo foi editada em 2 volumes em 1861. Com o título "La Chine et les puissances chrétiennes" aborda a história das relações da China com "os poderes cristãos" onde Macau é bastante destacado.
Sugestões de leitura: 
- "O tratado impossível: um exercício de diplomacia luso-chinesa num contexto internacional em mudança 1842-1887", de António Vasconcelos de Saldanha (2006)
- "Un ambassadeur à Macao Guerres de l'opium entre la Chine et l'Occident (1839-1858)"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Escola de Sam Iok / Sam Yuk

Quando foi criada, em Setembro de 1953, a Escola Sam Yuk (dos aventistas do 7º dia) estava localizada na cidade de Macau no nº 5 da Rua Sanches de Miranda, na zona do bairro de S. Lázaro. A rua, que recebeu o nome em homenagem ao governador, tal com o edifício, datam de 1925.
Detalhe da entrada do edifício pela Calçada da Igreja de S. Lázaro
Nos primeiros tempos era uma escola primária, sucursal de uma escola com o mesmo nome em Hong Kong. Em 1961 autonomizou-se face a Hong Kong e em meados de 1967, na sequência da conturbação política e social nas então duas colónias a escola acabou por encerrar  e o governo de Macau utilizaria o edifício anos mais tarde para albergar os serviços de acção social.
Professores e Alunos no primeiro ano lectivo (1953): Chung Wai Poh era o director.
A reabertura aconteceria em 1986, na zona do Fai Chi Kei, apenas em regime nocturno e o nome passa a ser Colégio de Sam Yuk. Em 1994 passa a operar na Taipa onde em 1996 é construído um edifício de raiz e a rua passa a chamar-se Rua do Colégio. é nesta morada que está actualmente a Escola Secundária Sam Yuk de Macau - 澳门三育中学.
Foto acima é da década de 1980 antes do edifício ter sido alvo de obras de restauro.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Hospital de Santa Sancha

Nas várias "breves" sobre Macau publicadas na revista Portugal Colonial de Agosto de 1935 surge uma referência ao Hospital de Santa Sancha.
Este hospital criado pela portaria nº 388 de 1934 (era governador Bernardes Miranda) seria instalado no Palacete de Santa Sancha e tinha como objectivo inverter os elevados números de mortalidade infantil junto da população chinesa. Assim é criado um hospital infantil, creche e lactário. 
Em termos de pediatria já existia o Hospital de Santa Infância (no Asilo com o mesmo nome a cargo das irmãs canossianas) que continuaria a funcionar passando a dedicar-se apenas aos casos de "doenças contagiosas". O hospital/maternidade de Santa Sancha durou pouco tempo vindo a encerrar em 1936 e os doentes transferidos para o hospital S. Januário.
Anúncio publicado no Boletim do Governo de 5.10.1868

Quinta, chácara, palácio ou palacete... o nome de Santa Sancha é muito antigo no território. O edifício foi construído em 1846 - arquitecto Tomás de Aquino - para residência do Barão do Cercal (ver imagem acima*) e fica no extremo sul da península (foto da década 1920 em baixo).
Após a morte da Viscondessa do Cercal em 16 de Dezembro de 1892 a propriedade foi vendida por 8.000 patacas em 1893 a Herbert Fullarton Dent (1849-1920), comerciante de ópio) tendo ficado na família até 1923 quando o filho William Herbet Shelly Dent a vendeu ao Governo de Macau (governador Rodrigo José Rodrigues) por 32.500 patacas. O edifício chegou a albergar missionários franceses, um pequeno museu e na década de 1930, por poucos anos, um hospital/maternidade. Em 1937 passou a ser residência oficial dos governadores, sendo o primeiro inquilino Artur Tamagnini de Sousa Barbosa.

* "O barão do cercal tem a honra de participar aos seus parentes e amigos que esta manhã sua espoza deu à luz uma menina. Quinta de Santa Sancha 4 d'outubro de 1868".

Barão do Cercal foi um título nobiliárquico criado pela rainha D. Maria II em 1851 a favor de Alexandrino António de Melo (1809-1877) e que seria depois 1.º Visconde do Cercal. O 2º Barão do Cercal  (desde 1863) foi o filho, António Alexandrino de Melo (1837-1885) - publicou o anúncio acima referido - e a "espoza" era Guilhermina Pamela Gonzaga (1841-1893).
Para além do Palacete de Santa Sancha construíram também em 1849 o chamado Palácio do Cercal, na Praia Grande, tendo ali vivido pai e filho. 
Com a morte do visconde a família entrou em dificuldades financeiras. Em 1875 o edifício foi arrendado ao governo mas as dívidas foram de tal ordem que em 1881 o edifício foi  mesmo penhorado e sujeito a leilão sendo comprado pelo governador Joaquim José da Graça por 20 mil patacas. Na altura muitas das repartições do governo funcionavam no Palácio das Repartições (construído em 1851) pelo que o palácio comprado passou a ser residência do governador. O primeiro que ali residiu foi Tomás de Sousa Rosa que exerceu o mandato de 1883 a 1886.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

"Immaculada Conceição da Virgem Maria Senhora Nossa"

Antes da Imaculada Conceição ser a Padroeira de Portugal já o era de Macau. O culto da Imaculada Conceição em Macau remonta a 1580 com o do estabelecimento pelos franciscanos da primeira confraria.
A devoção "à Immaculada Conceição da Virgem Maria Senhora Nossa" ficaria ainda consagrada no ano de 1640 quando na Igreja Mater Dei, mais concretamente "no frontispicio que se fez de pedraria na fachada da igreja" (imagem abaixo) foi colocado "no nicho do meio uma imagem da Senhora fundida de bronze como triumpho da Immaculada Conceição em roda aberto na pedra."  No ano seguinte passa a ser padroeira de Macau.
Em Portugal, após a Restauração de 1640, D. João IV proclamou o dia 25 de Março de 1646 a Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira de Portugal e do Império português. Mais tarde o Papa Pio IX consagrou o dogma católico a 8 de Dezembro de 1854 ficando esta data associada.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Regresso a 1965 e ao Hotel Matsuya

A viagem que proponho é até Macau de 1965 quando foi inaugurado o Hotel Matsuya, nome que advém do facto do investimento ser parcialmente de origem japonesa registada com o nome "Empresa Hoteleira e Turismo Matsuya Limitada".
O edifício foi construído num terreno (em regime de concessão) junto ao hospital S. Januário com uma vista magnífica sobre os aterros do Porto Exterior, onde já funcionava o novo terminal marítimo de passageiros. 
A STDM ganhara poucos anos o exclusivo do jogo, os turistas chegavam em cada vez maior número, mas os hotéis eram poucos (Bela Vista, Estoril, Caravela, Riviera e Central eram os poucos que existiam) face a tanta procura, de Hong Kong sobretudo, mas também do Japão.
Na primeira campanha de publicidade o mote era: 
"Hotel Matsuya - Brand spanking new, 1965. Terrace and rooms overlook the Outer Harbour and Pearl River”
"Hotel Matsuya - Novíssimo, 1965. Terraço e quartos com vista para o Porto Exterior e o Rio das Pérolas ”
O "novíssimo" hotel tinha 37 quartos duplos e 3 singles. Ficava no nº 5 da Calçada de S. Francisco (anos mais tarde redenominada para Estrada de S. Francisco) com o número de telefone 5466. Frente à entrada 'passava' o Grande Prémio (desde 1954), uma ligeira curva que iria ficar conhecida pelo nome do hotel.
O Matsuya teve a particularidade de poucos anos depois de abrir criar a sua própria agência de viagens e turismo, a “Hi-No-De Torus" a que mais tarde juntou o nome "Caravela" (nome de uma pousava na Av. da República que o hotel passou também a gerir). A agência contava com 15 autocarros de turismo (12 com ar condicionado) e guias que falavam português, inglês, cantonense, japonês, mandarim e espanhol.
Nos primeiros anos de actividade os preços por noite variavam entre as 45 e as 110 patacas (quartos duplos) e as 55 patacas (single).

Na edição de 1968 do "Fodor's Guide to Japan and East Asia" pode ler-se: 
"Matsuya, on the edge of the Guia circuit, new , with a terrace overlooking the outer harbor."
"Matsuya, no limite do circuito da Guia, novo, com terraço com vista para o porto exterior."

Em 1969 o "New Horizons World Guide" escrevia:
"There are several new hotels in Macao: Estoril, Caravela, Matsuya and Villa Taiyip. The veteran Central has been reconditioned and traditional hotels like the Pousada de Macau, Bela Vista and Riviera offer comfortable accommodations." 
“Existem vários novos hotéis em Macau: Estoril, Caravela, Matsuya e Villa Taiyip. O veterano Central foi restaurado e hotéis tradicionais como a Pousada de Macau, Bela Vista e Riviera oferecem acomodações confortáveis.”


Nesse mesmo ano de 1969 o Matsuya era considerado a melhor "hospedaria" de Macau pela Saturday Review, que diz ter 47 quartos: 
"Macao's luxurious hostelry is the Matsuya, with only forty-seven rooms."
"A hospedaria luxuosa de Macau é a Matsuya, com apenas quarenta e sete quartos."
No ano seguinte, 1970, o guia "Golden Guide to Hongkong and Macau" refere 41 quartos e descreve assim o hotel:
"The comfortable Matsuya, a modern hotel on Guia Hill, possesses a fine terrace which is popular for drinks."
"O confortável Matsuya, um hotel moderno no Monte da Guia, possui um belo terraço que é popular para bebidas."
O "Pan Am's World Guide" de 1974 refere:
"Another recommended hotel is the Matsuya, Calcada San Francisco (from US$ 20 double). 
"Outro hotel recomendado é o Matsuya, na Calçada de S. Francisco (preço desde 20 dólares dos EUA para quarto duplo)"
Nesse ano de 1974, em Outubro, é inaugurada a Ponte para a Taipa e o facto não foi esquecido pela publicidade do hotel (em inglês):
"A four-storey hotel overlooking the Outer harbor and the bridge to Taipa, past the former fortress of San Francisco, and the road leading to the Hospital of Sao Januario. Facilities: terrace cafe for al fresco meals, dining room, bar."
"Um hotel de quatro andares com vista para o porto exterior e a ponte para a Taipa, além da antiga fortaleza de São Francisco e a estrada que leva ao Hospital de São Januário. Instalações: esplanada para refeições ao ar livre, sala de jantar, bar."
Este mini-folheto do Hotel Matsuya é da década de 1960
Nota: Na década de 1980 tive a oportunidade de visitar parte do hotel e recordo a decoração à moda japonesa bem como um pequeno jardim do mesmo estilo.
O Matsuya viria a fechar portas na década de 1990. Em 2001 a concessão do terreno onde estava o edifício não foi renovada e a propriedade passou para o Governo de Macau.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Macau nos "Bonecos de Bolso" de Pedro Cabral

Numa pesquisa para o blogue 'encontrei' por acaso um desenho de Pedro Cabral que me despertou a curiosidade. Este post resulta dos contactos posteriores tendo pedido ao Pedro que partilhasse com os leitores alguns dos seus desenhos feitos em Macau.
Coloane: 1993

Pedro Martins Barata Cabral nasceu em Lisboa em 1954 onde vive actualmente. Licenciado em Arquitectura (1978) na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa viveu em Macau na década de 1980 tendo trabalhado na Direcção de Obras Públicas e Serviços de Turismo. 
Em 2005 criou o blog Bonecos de Bolso - ao qual recomendo uma visita - e é ainda colaborador nos blogs Urban Sketchers e Urban Sketchers Portugal.
Hotel Lisboa. 1997
"Durante muitos anos passei os dias desenhando com lapiseiras, réguas e rotrings, o que foi bruscamente interrompido com a ida para Macau (onde estive de 1987 a 1991). Rapidamente me dei conta da nostalgia dos papéis, lápis e canetas e esta foi uma das razões que me levou a, inspirado pelo meu Colega e Amigo Adalberto Tenreiro, começar a desenhar quase todos os dias.
Tínhamos outros amigos que viviam fora de Macau e costumávamos partilhar os desenhos através do fax, que era a novidade da altura. Era um grupo reduzido, que não chegava à meia-dúzia, e a mecânica do fax obrigava-nos ao desenho em folhas A4 com traço preto sobre folhas brancas (que para alguns eram opção independente do meio de divulgação).
A digitalização de imagens ainda não era corrente e os desenhos em folhas foram-se distribuindo ou perdendo. Sobram muito poucos. Também já não existem alguns dos lugares que desenhei em Macau.
Mais tarde, com a “democratização” dos scanners, passei a desenhar em cadernos -  diários gráficos - por vezes utilizando cores. Comecei, em 2005, o blog Bonecos de Bolso. 
Alguns desenhos de breves regressos a Macau já foram publicados no blog e, mais uma vez, penso que alguns locais já não existem. Desde a troca de desenhos por fax, entre a tal meia dúzia de amigos, passando por algumas exposições ou publicações, até aos Bonecos de Bolso, ao Flickr, facebook ouInstagram, a rede de desenhadores em caderno foi-se expandindo significativamente. 
Em 2007, pela mão do Gabi Campanário, formámos os Urban Sketchers e, em 2009, os Urban Sketchers Portugal. Hoje somos uma vasta comunidade espalhada, literalmente, pelo mundo inteiro, mas para mim tudo começou em Macau."
Pedro MB Cabral
Edifício Ritz, Largo do Senado.

Fortaleza do Monte:
"Era muito perto de casa. Apesar de exigir uma íngreme subida, era um passeio frequente."

Junco:
"Subindo o rio e passando vagarosamente pelo Porto Interior eram frequentes os juncos."



Porta no interior do jardim Lou Lim Ioc. 1997

Pátio da Cabaia, um dos pátios antigos de Macau, cruzamento Rua da Palha/Rua do Monte
Travessa do Paiva, nº5 - na época um dos edifícios que albergava a Direcção dos Serviços de Turismo; foi entretanto ampliado e serve actualmente como "Serviços de Apoio da Sede do Governo" (imagem abaixo)
Francisco José de Paiva (1801-1849) pertenceu à terceira geração da família macaense 'Paiva'. Com o mesmo nome do pai, foi um abastado comerciante, juiz ordinário do Senado (1831), encarregado dos Negócios Sínicos (1836), major-comandante do Batalhão Nacional de Macau (1847), 1º cônsul geral de Portugal em Hong Kong (1847) e Comendador da Ordem de Cristo.
No interior do Templo de Kun Iam Tong. 1997

Calçada do Monte

Largo do Senado

Fábrica de Tabaco:
"Durante alguns meses passei diariamente a esta porta que me disseram ser de uma antiga fábrica de tabaco que aguardava demolição. Era uma porta linda, tipicamente chinesa, na Travessa dos Anjos. Suponho que já não existe."

sábado, 5 de dezembro de 2020

"Traje das Nhonhas de Macao": 1779

A imagem ao lado tem como título "Traje dos Nhonhas de Macao" e a autoria é atribuída a Carlos Julião que a fez em 1779 no Estado Português da Índia. 
O vestuário desta mulher é uma Saraça-Baju. Existiram outros, como o dó.
Na "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto, e por elle escrita: Que consta (...). Em Lisboa, Na Officina de Antonio Craesberck de Mello, Impressa de Sua Alteza & impressa à sua custa, Anno de 1678", Fernão Mendes Pinto, a propósito de um banquete oferecido pelos moradores da cidade, usa a palavra "sereias" para descrever a forma como as mulheres estavam vestidas:

"(...) e assentados à mesa forao servidos por moças muyto fermosas,& ricamente vestidas ao modo dos Mandarins que a cada iguaria que punhao cantavao ao som dos instrumetos, que outras tangiao, e a pessoa de António de Faria foy servida co oito moças muito alvas & gentis molheres, filhas de mercadores honrados, que seus pais por amor de Mateus de Brito,& de Tristao de Gâ trouxerao da cidade, as quaes todas vinhao vestidas de sereas (...)".


Peter Mundy que no século 17 esteve em Macau escreve a este propósito:
"Neste lugar há muitos homens ricos, trajando à maneira de Portugal. As suas mulheres, como as de Goa, vestem-se com saraças e condês, estes sobre a cabeça e as outras do meio do corpo até aos pés, e andam calçadas de chinelas chatas. É este o trajo ordinário das mulheres de Macau. Só as de melhor categoria são transportadas em cadeiras à mão, como as cadeirinhas em Londres, todas totalmente cobertas, algumas das quais sao muito caras e ricas, trazidas do Japão. Mas quando saem sem elas, a patroa dificilmente se distingue da criada ou escrava pela aparência exterior, todas inteiramente cobertas, mas os seus sherazzees (saraças) são de melhor qualidade. (...)
Essas mulheres, dentro de casa, usam exteriormente uma veste de mangas muito largas, chamada kamono ou kerimono japonês, por ser o trajo ordinário usado pelos japoneses, havendo muitos que são elegantes, trazidos de lá, de seda tingida, e outros tão caros como aqueles, feitos aqui pelos chineses, de rica bordadura de seda colorida e oiro (...)"

George Bennett que passou por Macau entre 1832 e 1834 refere-se assim às "mulheres portuguesas":
"The Portuguese ladies at Macao are for the most part possessed of but few attractions. The dark eyed, beautiful damsels, the destroyers of so many hearts in Lisbon are here seldom to be met with. The lower class may be seen covered by their mantilla walking at a funereal pace to mass or confession, the only duties for which a Portuguese female considers it worth while to take exercise. The higher class are carried from one street to another by negroes in clumsy and tawdry palankeens."

Curiosidade: se quiser ver um traje mais recente consulte este post.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Volta ao Mundo: a corrida inspirada em Phileas Fogg

Nesta altura, há 131 anos, duas mulheres jornalistas estavam numa corrida inédita. Uma viagem à volta do mundo inspirada no livro do francês Júlio Verne, "A Volta ao Mundo em 80 Dias".
Na manhã de 14 de Novembro de 1889*, Nellie Bly (1864-1922), pseudónimo literário da jornalista Elizabeth Cochran Seaman, embarcou no vapor Augusta Victoria, no porto de Nova Iorque, com destino a Londres. 
Era a primeira etapa de uma viagem que tinha por objectivo ser mais rápida que Phileas Fogg, personagem do livro do de Verne - que Nellie conheceu pessoalmente ao passar por França) - publicado poucos anos antes, em 1873.
A viagem demorou 72 dias, 6 horas e 11 minutos, (o objectivo inicial era fazer a viagem em 75 dias) um recorde mundial na época, com passagens por França, Itália, Egito, Iémen, Sri Lanka, Singapura, Hong Kong, S. Francisco e finalmente Nova Iorque.
Ao longo da viagem Bly foi reportando ao jornal New York World (a quem tinha proposto a ideia - imagem acima é da capa do dia 14.11.1889), via telégrafo, cada passo da experiência e, posteriormente, registou a aventura em livro: "Around the World in Seventy-Tow Days", publicado em Nova Iorque em 1890.
A passagem por Hong Kong ocorreu a 23 de Dezembro de 1889. Bly (na imagem acima) não chegou a visitar Macau sendo a única referência ao território um dos vários tipos de embarcações que avistou no delta do rio e que denomina como "Portuguese lorchas": 
"We first saw the city of Hong Kong in the early morning. Gleaming white were the castle-like homes on the tall mountain side. We fired a cannon as we entered the bay, the captain saying that this was the custom of mail ships. A beautiful bay was this magnificent basin, walled on every side by high mountains. Once within this natural fortified harbor we could discern, in different directions, only small outlets between the mountains, but so small, indeed, they appeared that one could hardly believe a ship would find space large enough for passage. In fact, these outlets are said to be dangerously narrow, the most vigilant care being necessary until the ship is safely beyond on the ocean blue. Mirror-like was the bay in the bright sun, dotted with strange craft from many countries. Heavy iron-clads, torpedo boats, mall steamers, Portuguese lorchas, Chinese junks and sampans. Even as we looked, a Chinese ship wended its way slowly out to sea. Its queer, broad stern hoisted high out of the water and the enormous eye gracing its bow, were to us most interesting. A graceful thing I thought it, but I heard an officer call it most ungraceful and unshapely."
Sendo norte-americana, enquanto esperava pelo navio que havia de a levar a Yokohama (Japão), Nelly Bly aproveitou para visitar Cantão, onde os Estados Unidos eram uma das várias potências estrangeiras com representação diplomática:
"This little island, guarded at every entrance, is Shameen, or Sandy Face, the land set aside for the habitation of Europeans. An unchangeable law prohibits Celestials from crossing into this sacred precinct, because of the hatred they cherish for Europeans. Shameen is green and picturesque, with handsome houses of Oriental design, and grand shade trees, and wide, velvety green roads, broken only by a single path, made by the bare feet of the chair-carriers. Here, for the first time since leaving New York, I saw the stars and stripes. It was floating over the gateway to the American Consulate. It is a strange fact that the further one goes from home the more loyal one becomes. I felt I was a long ways off from my own dear land; it was Christmas day, and I had seen many different flags since last I gazed upon our own. The moment I saw it floating there in the soft, lazy breeze I took off my cap and said: "That is the most beautiful flag in the world, and I am ready to whip anyone who says it isn't."
Na tarde de 25 de Janeiro de 1890, depois de percorrer mais de 40 mil quilómetros pela Europa, África, Ásia e América viajando de navio a vapor, barco, comboio, riquexó, cavalo e até um burro, Nellie Bly desembarcou na estação de comboios Jersey City onde a esperavam milhares de fãs e cimentava de uma vez por todas o seu nome na história do jornalismo de investigação. Em 1887 fizera passar-se por demente e internou-se num asilo revelando em "Ten Days in a Mad House" as péssimas condições em que os doentes estavam chegando a ser vítimas de violência.
* Nesse mesmo dia partia do mesmo local uma outra mulher jornalista, Elizabeth Bisland (1861-1929), da  revista Cosmopolitan, (imagem acima) com o mesmo objectivo mas a viagem foi feita na direcção oposta. Bly só ficaria a saber desta concorrente quando estava em Hong Kong a comprar o bilhete para o Japão de onde Elizabeth viera. O empregado chega a dizera Bly que ela iria perder a competição já que Elizabeth passara por lá há 3 dias...(foi a 16 de Dezembro). O avanço seria perdido num contratempo em Londres e Elizabeth só chegaria aos EUA a 30 de Janeiro de 1890, ao fim de 76 dias e meio. Foi depois de Bly, mas bateu o recorde de Willy Fog. Mas para a história ficou o nome da vencedora.
Para além das crónicas na Comsopolitan, a experiência da viagem também ficou registada em livro publicado em 1891: In Seven Stages: A Flying Trip Around The World.
Excerto com referências aos "portugueses" em Hong Kong:
On Sunday, the 15th, we reach Hong Kong. The sea turns to a cool profound emerald, and we descry again on the horizon the bamboo wings of the fishing and coasting junks. These sails are somewhat larger and deeper of hue than those of Japan, and still more resemble the fans of giant yellow and russet butterflies.(...) 
The island of Hong Kong is a cluster of lofty abrupt hills with scanty vegetation, seized by England in 1842 after a struggle with China. At that time the town was an insignificant fishing village, but the value of the site was great commercially and strategically. It is a convenient and safe harbor for the squadron detailed to watch and menace the Russian navy in the Pacific; and the English have elevated the village into a flourishing city and made it the fourth shipping port of the world. The harbor is navigable for the largest merchant vessels and men-of-war in existence, and is perfectly sheltered and easy of access. (...) 
We meet the most astonishing varieties of the human race. All sorts and conditions of Chinamen – elegant dandies in exquisitely pale-tinted brocades; grave merchants and compradors, richly but soberly clad; neat amahs with the tiny deformed Chinese feet, sitting at the street corners, taking in sewing by the day; street sellers of tea, shrimp, fruit, sweetmeats, and rice; women working side by side with the men, mending the streets, horrible old women, weazened and wrinkled beyond all imagining, all the femininity shrivelled out of them, their only head-covering a bit of black cloth across their seamed and humble foreheads, and the last pathetic spark of the female instinct for adornment displaying itself in the big jade and silver rings in their ears.
From windows shaded by light bamboo blinds look out coarse olive faces – heavy and dull of eye, repulsively sensual. These are Portuguese; descendants of the hardy sailors who explored and ruled these southern seas before the English supplanted them. They have bred in with the natives everywhere and have grown an indolent mongrel race. Plump and prosperous-looking gentlemen go by in European dress and with tight-fitting purple satin coal-hods on their heads. Their complexions are dark and their features – dug out of a mat of astonishingly thick beards – are aggravatedly Hebraic in their cast. They are Parsees, and look uncommonly like the lost tribes – exhibiting also, I am told, the same eminent abilities in business probably possessed by those much-sought-for Hebrew truants.
At the corner stands a haughty jewel-eyed prince of immense stature – straight and lithe as a palm – in whose high-featured bronze countenance are unfathomable potentialities of pride and passion. He wears a soldier's dress and sword, and a huge scarlet turban of the most intricate convolutions. I cry out with astonishment at the sight of this superb creature.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

A nota de 10 patacas e a Praia Grande de Wilhelm Heine

 



O pintor alemão Peter Bernhard Wilhelm Heine foi um dos 'ilustradores'* da expedição do comandante Perry ao Japão com escala, entre outros portos, em Macau. Fez várias ilustrações do território: templo de A-Ma, Ruínas de S. Paulo, etc... e a baía da Praia Grande. Esta última foi reproduzida no verso de uma nota de 10 patacas (emissão de 1984) e que se pode ver acima. 
Em baixo está uma ilustração também de Wihelm Heine. É muito parecida mas não é igual...

A narrativa da expedição de um esquadrão americano aos mares da China e ao Japão: realizada nos anos de 1852, 1853 e 1854, sob o comando do comodoro M.C. Perry, Marinha dos Estados Unidos, por ordem do Governo dos Estados Unidos
Várias ilustrações de Macau estão incluídas nos 4 volumes publicados em 1856 com o título "Narrative of the Expedition of an American Squadron to the China Seas and Japan Performed in the years 1852, 1853, and 1854, under the Command of Commodore M. C. Perry".
* o outro foi o fotógrafo de daguerreótipos Eliphalet M. Brown, Jr.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Macau na "Chine" de H. Cordier

Macao est situé par 22° 11' de latitude Nord et III °13' de longitude Est de Paris, sur une péninsule rocheuse dépendant de l'île et du district chinois de Hiang chan, à l'entrée occidentale de la rivière de Canton. Au large, au Sud-Est se trouvent'les îles de Macarera et Typa; le bras de mer qui les sépare de terre est désigné sous le nom de Typa road D, ou de Chap Tze Men (Che tsen men). 
A l'Ouest s'étend l'île de Toui Mien Chan, ou de Patera, désignée aussi sous le nom de Lappa ou de Kong pa; le port intérieur est formé entre cette île et Macao. Au fond de la baie sur la côte de Hiang-chan, s'élève la ville entourée de murailles, Kien chan, désignée par les Portugais sous le nom de Casa Branca. 
La création de Macao par les Portugais qui lui donnèrent le nom de Cidade do nome de Deos de Macao est fixée par les uns à 1549, par d'autres à 1557. 
Depuis 1582, les Portugais payaient aux autorités chinoises une redevance de 500 tels par an qui fut abolie depuis l'assassinat du gouverneur Amaral en 1849. En outre, il y avait une double douane à Macao: l'une chinoise, l'autre portugaise. Aucun vaisseau étranger, en dehors des Portugais et des Espagnols de Manille, n'était autorisé par les Chinois à venir faire le commerce à Macao; les Portugais étaient même obligés de payer pour leurs navires le droit d'ancrage et de mesurage. 
Leur avantage sur les nations étrangères était de n'avoir à payer aux douanes du Céleste Empire que la même taxe que les marchandises chinoises. Le traité duIei décembre 1887 entre la Chine et le Portugal a réglé la situation de Macao qui a perdu son importance commerciale, depuis l'ouverture de Hong Kong. (...)
In Chine vol. 1, pág. 73 - H. Cordier

Henri Cordier (1849-1925) foi linguista, historiador, etnógrafo, autor, editor e orientalistas. Nasceu nos EUA mas mudou-se para França em 1852 onde foi presidente da Société de Géographie em Paris. Em 1869, com apenas 20 anos partiu para Xangai, onde trabalhou num banco inglês em Xangai e publicou artigos em jornais locais. Em 1872, foi nomeado bibliotecário da filial do Norte da China da Royal Asiatic Society. Nesse período, publicou dezenas de artigos no Shanghai Evening Courier, North China Daily News e no Journal of North China Branch da Royal Asiatic Society. 
Em 1876, foi nomeado secretário de um programa do governo chinês para estudantes chineses na Europa. Em Paris, entre 1881 e 1925 foi professor da l'École spéciale des Langues orientales (actual Instituto de Línguas e Civilizações Orientais/ L'Institut national des langues et civilizations orientales. 
Embora não dominasse a língua chinesa catalogou cerca de 70.000 obras sobre a China até 1921. Foi ainda o editor fundador do T'oung Pao, o primeiro jornal internacional de Estudos Chineses e, com Gustaaf Schlegel, ajudou a criar o jornal sinológico T'oung Pao em 1890.
Entre as inúmeras obras que deixou destaco o "Bibliotheca Sinica", cujo primeiro volume foi publicado em 1878.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Foral de Macau

Apesar de os portugueses se terem estabelecido na zona do Sul da China por volta de 1555/7 o Senado (forma de poder local) - só surgiria em 1583. Será a pedido do Senado que a Carta de Privilégios é concedida a Macau a 10 de Abril de 1586 pelo vice-rei da Índia, D. Duarte de Meneses e a ratificação pelo então monarca ibérico, D. Filipe I de Portugal (II de Espanha) ocorre em 1595. 
Macau fica assim com o título de “Povoação do Nome de Deus do Porto de Macau na China”. Nesta mesma data o Vice-Rei D. Duarte de Meneses passou um alvará, dando à Câmara de Macau poderes e faculdades para prover os seus oficiais por triénio e os de Escrivão de Juízes ordinários e dos órfãos em vida, excepto o ofício de Tabelião do público e judicial, por ser de provimento do Rei.
Macau ca. 1640. Desenho da autoria de Vicente Pacia feito na década 1940

D. João IV mandou acrescentar, muito mais tarde, em 1654, o epíteto "Não há outra mais leal", devido à forma como as gentes de Macau enfrentaram o período do domínio espanhol entre 1580 e 1640.
O dístico sobre o arco que dá acesso à escadaria de granito, no átrio do Leal Senado, em Macau, diz o seguinte: "Cidade do Nome de Deus, não há outra mais leal. Em nome d’El- rei nosso senhor Dom João IV mandou o capitão geral d’esta praça João de Souza Pereira pôr este letreiro em fe da muita lealdade que conheceu nos cidadãos d’ella em 1654." 
A partir de 1685, aparece como Nobre Cidade de Macau e, em 1810, a partir do Rio de Janeiro, onde a corte se encontrava exilada, o príncipe D. João (futuro D. João VI) assinou uma carta, concedendo o título de "Leal‟ à Câmara Municipal macaense que, a partir de então, e até à passagem da soberania do território, em 1999, passou a designar-se Leal Senado de Macau.
O documento do foral de Macau encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Códice 247, da Divisão de Documentação Escrita, Secção do Poder Executivo com o título "Foral, Regalias e Privilégios Concedidos à Cidade de Macau, na China, 1596-1756." 
Faz parte da muita documentação levada de Portugal por D. João VI, aquando da transferência da Família Real para o Brasil (Rio de Janeiro) no período entre 1808 e 1821. 

Segue-se um excerto:
Conta este Livro de cento oitenta e seis meias folhas de papel de Holanda, contando desta, até à última em que está outro termo igual a este, todas numeradas, e rubricadas pelo Juiz Ordinário Vicente de Mata e o seu meio sinal que é Mata, para nele se tresladar o foral desta Cidade, regalias, e privilégios que sua Magestade que Deus guarde tem concedido a ela, desde a sua primeira fundação até ao presente, e os mais que adiante lhe conceder, para bem do que fiz este termo em que o dito Senhor se assinou comigo Manuel Pires de Moura Alferes, e Escrivão da Câmara desta Cidade de Macau do Nome de Deus na China aos vinte de Dezembro de mil setecentos e vinte anos. 
[Vicente da Mata] 
Treslado do Alvará de Sua Magestade pelo qual confirma os privilégios da Cidade.

Macau em 1840 por George Edward Madeley (1798-1858)

Eu o Rei faço saber aos que este alvará virem que por alguns respeitos que me a isso movem hei-de por bem de fazer mercê à nova Cidade de Macau nas partes da China de lhe confirmar os privilégios que o Vice-Rei Dom Duarte de Meneses lhe concedeu em meu nome, pelo que mando ao meu Vice-Rei, ou Governador das partes da Índia que agora é, e ao adiante fôr, que cumpram este Alvará como nele se contêm, o qual valerá como carta, e não passará pela Chancelaria, sem embargo das ordenações no 2.o Livro, em contrário, e vai por duas vias, Diogo de Sousa o fez em Lisboa a três de Março de noventa e cinco. Pedro Gomes de Abreu o fez escrever,- Rei- da Silva, faz Vossa Magestade mercê da nova cidade de Macau nas partes da China de lhe confirmar os privilégios que Dom Duarte de Meneses, lhe concedeu em nome de Vossa Magestade, e que este valha como carta, e não passe pela Chancelaria,- Registado Pedro Gomes da Abreu, fica assentado, e pagou nada. Sebastião Dias. Cumpra-se esta Provisão do Rei meu senhor inteiramente como se nela contêm, – Luís da Gama o fez em Goa 10 de Abril 1596: e isto senão entenderá na apresentação do cargo de Juiz dos orfãos sem expressa declaração, e mercê de Sua Magestade, o Vice-Rei – Cumpra-se este alvará do Rei meu senhor como nele se contêm; e isto não se entenderá nos cargos de Juiz, Escrivão dos orfãos, sem expressa provisão, ou ordem de Sua Magestade, e isto para me conformar com uma Instrução sua que trouxe no ano de 96: Luís da Gama o fez em Goa 24: de Abril de 1596: O Conde Vice-Rei. Cumpra-se esta Provisão do Rei nosso senhor como se nela contêm, Nuno de Mendonça- o qual alvará eu João Amado Escrivão da Câmara o subscrevi, e me assinei com os oficiais da mesa aos vinte dias de Outubro de seiscentos e onze. João Amado. 

Senhores 
Diz a Cidade de Macau que o Vice-Rei lhe tem feito merçê dos privilégios de que goza a Cidade de Évora, os quais estão na Câmara desta Cidade. PARA A.V.S. Ms. lhe faça M. mandar-lhes dar o treslado em forma autêntica para o mandar confirmar a Goa. E.R.M. Sý, como pede. Câmara a dez de Março 90. Os Juízes, e Vereadores, e mais Oficiais da Câmara desta Cidade de Santa Cruz de Cochim e &amp. Fazemos saber a todos os Corregedores, Ouvidores, Juízes, Justiças, Oficiais, e Pessoas a que o treslado dos privilégios de que esta Cidade goza for apresentado e o conhecimento dele com direito pertencer, em como a nós foi apresentada a petição atrás escrita da Cidade de Macau, pela qual nos pedia os privilégios concedidos à Cidade de Évora de que esta Cidade goza em forma autêntica, o que visto por nós lhes mandamos passar o treslado dos ditos privilégios assim, e da maneira que nesta Câmara estão e se incorporou neste Livro e é todo o seguinte. 
A quantos esta certidão autorizada por ser a ela E em toda a parte dever de dar crédito virem. O Doutor Dinis Rodrigues Cavaleiro da ordem de Xpõ Juiz de Fora com alçada por o Rei nosso senhor nesta muito nobre, e sempre leal Cidade de Évora, &ª
Rui Dias Cotrim, e Sebastião da Cunha, e Paio Rodrigues de Vila Lobos Fidalgos, e Vereadores em ela, e Rui Nogueira Cavaleiro, e Procurador, fazemos saber que por Fernão Pires morador em a Cidade Santa Cruz de Cochim na Índia como Procurador da dita Cidade nos foi dito, que o dito senhor tem outorgado, e feita merçê à dita Cidade de todos os privilégios, e liberdades, que esta dita Cidade tem, e que a ser desejavam seguir o regimento, e ordenança que se tem na governança dela, pedindo-nos que lhe quiséssemos mandar dar o treslado delas, ou por apontamentos de feição, que fizessem fé o que a dita Cidade tem, e do que se usa, e pratica nela. E visto seu requerimento, e por nos parecer justo lhe mandamos dar o treslado que adiante vai escrito sob nossos sinais, e selo da dita Cidade do que ela tem, e se nela usa; E porque de algumas coisas outras que têm em particular, que não podem servir para outra parte senão somente em a dita Cidade, pareceu escusado. E das que vão são ao adiante escritas. (...)

Nota: Existe na Sociedade de Geografia de Lisboa uma Cópia do livro "Foral de Macau" mandado extrair por João José da Silva, Juiz de Direito da Comarca de Macau, em 1888.