quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Brasões

o primeiro... utilizado até 1935
Acima, brasão atribuído pelo ministro das Colónias, Armindo Rodrigues Monteiro, a 8 de Maio de 1935.
Pela portaria nº. 8098 de 1935.05.06, a cada um dos oito territórios (colónias) foi atribuído um escudo partido em mantel, cuja sinistra ostentava uma composição heráldica característica do território, enquanto a dextra e a ponta, idênticas nos vários brasões, realçavam a ligação à metrópole.
Assim, eram a dextra, de prata, cinco escudetes, de azul, postos em cruz e carregados cada um com cinco besantes de prata em aspa; e a ponta, de prata, cinco ondas de verde. No que a Macau diz respeito: de azul, um dragão chinês, de ouro, aramdo e linguado de vermelho, carregado com um dos escudetes da dextra.
Este brasão de 1935 vai manter-se até 1951 quando a inscrição no listel passa a ter escrito "Província Portuguesa de Macau" (e os mesmo se passou nas outras províncias) até 1975. A partir de 1975 - caso único - o brasão mantém-se passando a ler-se "Governo de Macau" até 1999. Existiu ainda uma variante só com a palavra "Macau". Estas bandeiras foram pouco utilizadas no Território, prevalecendo o uso da bandeira portuguesa.


 Fachada do BNU em Lisboa: brasões das seis colónias onde o BNU era banco emissor.
Escultura em relevo de Leopoldo de Almeida colocada na sede na rua Augusta em 1964, centenário do  BNU

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

"Jornadas pelo Mundo" do Conde de Arnoso

O conde Arnoso chegou a Macau a 23 de Junho de 1887 juntamente com Tomás de Sousa Rosa, governador entre 1883 e 1886.
"Encontrar terra portuguesa, a mais de 3.600 léguas de distância da nossa querida pátria, é tamanha ventura, que os cinco dias que estivemos em Macau contarão na nossa vida como para o caminhante no deserto contam as horas de descanso passadas à sombra benfazeja das palmeiras dum oásis."
Nas "jornadas" escreve, no que a Macau diz respeito,  sobre de tudo a um pouco: edifícios, jardins, modos de vida, jogo, templos, monumentos, polícia, militares, etc...
(...) "A península de Macau, cercada de ilhas, pequena como é, com a sua várzea fertilíssima e as suas seis colinas dum relevo gracioso é tudo quanto se possa imaginar de mais pitoresco" (...)
“O Palácio do Governo, comprado à família Cercal, é um vasto edifício de bela aparência. Durante algum tempo estiveram nela diversas repartições; mais tarde, durante a última administração, todas se instalaram, com grande comodidade para o serviço público, no antigo Palácio do Governo, um óptimo edifício também, e onde principalmente se admira a sala do tribunal, que era a antiga sala do trono do palácio. (…) Ao lado fica o pequeno Correio estabelecido também durante o governo de Tomás da Rosa. Até então era coisa que não havia na província! Toda a correspondência se enviava, pelo vapor da carreira, ao correio de Hong Kong”.  (...)
"O Quartel de S. Francisco, no extremo da Praia Grande, mandado edificar pelo benemérito governador Coelho do Amaral, espaçoso, bem arejado, em excelentes condições, é ocupado pelo batalhão do Regimento do Ultramar destacado em Macau. Mais acima, no alto de uma pequena colina assenta o Hospital S. Januário, magnífico e elegante estabelecimento que Macau deve, entre outras muitas coisas, à larga iniciativa do conde de S. Januário". 
 
Bernardo Pinheiro Correia de Melo, 1º conde de Arnoso (em 1895), nasceu em Guimarães em 1855 e morreu em V. N. Famalicão em 1911. Baptizado com o nome de Bernardo em memória de seu terceiro avô materno , cursou Matemáticas na Universidade de Coimbra, completando os seus estudos na Escola Politécnica e na Escola do Exército. Seguiu a carreira militar, na Arma de Engenharia. Passou à reforma no posto de General de Brigada em 1908. Entrou ao serviço do Paço como Oficial-Mor da Casa Real e Oficial às Ordens dos Reis D. Luiz I e D. Carlos I. Em 1887 foi designado para Secretário da Embaixada Extraordinária à Corte Imperial de Pequim chefiada pelo Conselheiro General Tomás Rosa tendo sido um dos subscritores do Tratado Luso-Chinês, assinado em Dezembro de 1887. Nessa longa viagem passou pelo Egipto, Singapura, Macau, Hong Kong, Xangai, Tien-Tsin, Pequim, Japão e Estados Unidos. Registou as impressões que foram publicadas em parte na "Revista de Portugal", fundada e dirigida pelo seu amigo Eça de Queirós (1889) e no livro "Jornadas pelo Mundo", editado no Porto, pela Livraria Magalhães & Moniz, em 1895. Dessa viagem pelo Oriente o Conde de Arnoso não só registou magistralmente - na opinião de alguns - a China e Macau do final do século XIXI como também trouxe várias peças de arte, incluindo porcelanas, estatuária em madeira e cabaias de seda. Porventura a cabaia mais conhecida foi a que ofereceu a Eça de Queirós e que hoje pode ser vista na Fundação como o mesmo nome. Eça escreveria "O Mandarim" em 1880. O Conde Arnoso fez ainda parte do célebre grupo "Os Vencidos da Vida."
Numa carta enviada ao seu amigo Bernardo, Eça de queirós agradece o presente. ”Recebi, há pouco, a sumptuosa “cabaia”, e foi hoje revestido com ela, risonho e grave, que provei o chá da Terra das Flores. Com certeza me trouxeste da China um presente esplêndido! Mas tenho medo, amigo, de não ser competente para dignamente usar essa nobre vestimenta de Mandarim erudito! Oh Bernardo, onde tenho eu as qualidades precisas para me poder encafuar com coerência dentro daquelas sedas literárias? Onde tenho eu o austero escrúpulo gramatical, a dogmática pureza de forma, a sólida gravidade dos conceitos, o religioso respeito da tradição, a serena e amável moral, o optimismo clássico de um bom letrado chinês, membro fecundo da Academia Imperial?. Onde tenho eu sobretudo a pança para encher aquelas pregas amplas e mandarinais?. Eu não tenho pança! Nem a mão fina, de unhas ilimitadas, para sair com graça daquelas mangas abundantes e cheias de austeridade. nada tenho para a “cabaia” magnífica! Não podendo, portanto usá-la sobre as costas magras, vou dependurá-las na minha sala…”

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Melo Egídio e as autoridades chinesas

(...) uma das prioridades do Governador Melo Egídio foi o desenvolvimento de relações amistosas com as autoridades chinesas e com os seus representantes tradicionais em Macau. Tendo iniciado funções imediatamente após o estabelecimento de relações diplomáticas de Portugal com a República Popular da China, assumiu como uma das principais preocupações da acção governativa a utilização de Macau como instrumento privilegiado ao serviço da consolidação dessas relações, a par da estabilidade do território, que dependia também do bom entendimento com organizações e personalidades chinesas locais. Assim, procurou manter um diálogo franco e intenso com Ho Yin, figura muito influente da comunidade chinesa local, e com O’ Cheng Peng, responsável pela Agência Nam Kwong, organismo que representava oficiosamente os interesses da China neste território. Foi nestes termos que descreveu os seus contactos com Ho Yin, na entrevista concedida a Fernando Lima e Eduardo Cintra Torres para a série televisiva “Macau entre dois mundos”:
“Falar de Ho Yin é simples, mas também difícil. Era um homem extraordinário. O Senhor Ho Yin, como lhe chamávamos, era bondoso, afável, pacífico, muito fumador, que irradiava simpatia logo ao primeiro contacto. Era um líder por natureza e era implicitamente reconhecido por toda a gente como o chefe da comunidade chinesa de Macau. Quando eu fui para Macau tinham acabado de ser estabelecidas relações diplomáticas com a China. Não estava ainda convenientemente definida a importância de um outro homem de quem fiquei amigo, que também foi muito importante para a China, para Macau e para Portugal, o O’ Cheng Peng. Era uma figura que estabelecia relações como que oficiosas e conversava periodicamente com o Governador de Macau. Antes dele, todo esse contacto era feito com Ho Yin. A partir do aparecimento de O’ Cheng Peng, a importância de Ho Yin não diminuiu socialmente. Continuou a organizar os jantares da Primavera, continuou muito preponderante na comunidade e devíamos-lhe esse apreço, porque era uma figura importante, desempenhou funções relevantíssimas. Era presidente da Associação Comercial de Macau, presidente do Banco Tai Fung, membro permanente da Assembleia Popular Nacional da China e foi, interinamente, presidente da Assembleia Legislativa até à eleição do Dr. Carlos Assumpção. Era um declarado amigo dos portugueses e nas negociações, nos acordos, que por vezes surgiram por conflitos fronteiriços, até mesmo nos acontecimentos do 1,2,3 teve uma influência extraordinária, favorecendo o apaziguamento de hostilidades criadas, sentidas entre os chineses e os portugueses. Contribuiu para desanuviar o ambiente, sempre com a mesma fleuma, a mesma maneira afável de tratar todos os assuntos. Posso dizer sem sombra de dúvida que o Ho Yin era um membro muito respeitado, muito querido da comunidade, no seu todo, chinesa e portuguesa, macaense e portuguesa, mesmo de residentes da metrópole em Macau, que o apreciavam imenso pelo bem que fazia e pelo amor que ele tinha a Portugal”.
 Para assegurar a eficácia do diálogo com essas entidades, Melo Egídio aconselhava-se muito junto de Roque Choi e de Joaquim Morais Alves. Também me envolveu em várias iniciativas neste âmbito, pelo que posso confirmar o interesse genuíno do Governador na manutenção de um relacionamento correcto com os seus interlocutores chineses.
A sua visita oficial à China e o encontro com Deng Xiaoping marcaram-no profundamente. Incentivou depois as deslocações de entidades portuguesas àquele país, à medida que a abertura se concretizava, e as de chineses a Portugal. Em 1980, apoiou uma visita de personalidades da comunidade chinesa de Macau a Portugal, as quais foram recebidas pelo Presidente da República, António Ramalho Eanes. Também acompanhou com entusiasmo a criação das zonas económicas especiais chinesas, acreditando no significado da sua implantação como sinal inteligente de abertura e de mudança. E lia toda a informação que lhe era preparada sobre a China, bem como as traduções da imprensa local elaboradas pelos Serviços de Assuntos Chineses.
No processo de revisão do Estatuto Orgânico de Macau (E.O.M), que não mereceu a sua concordância, teve nos deputados chineses aliados decisivos. A posição por estes assumida inviabilizou essa primeira tentativa de revisão. Aprovado em Fevereiro de 1976, como Lei Constitucional, o E.O.M. devia ser revisto na vigência da primeira legislatura na parte respeitante à composição e ao funcionamento da Assembleia Legislativa. O projecto preparado avançava, porém, com outras modificações de fundo que o Governador recusava liminarmente, apontando sobretudo a forma preconizada de designação do Governador como geradora inevitável de instabilidade política. Escolhido pelo Presidente da República e dele dependente politicamente, defendia-se no projecto de revisão que a nomeação passasse a pertencer ao Primeiro-Ministro. Até ao fim da administração portuguesa esta alteração nunca chegaria a ser feita.
Livro "Glimpse of Glory - Vislumbre de Glória"

O encontro com Zhao Ziyang
Já na qualidade de Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Melo Egídio voltou à China, a convite das autoridades chinesas. Nessa visita, foi recebido por outra figura carismática, caída depois em desgraça na sequência dos incidentes de Tiananmen:
“Mais tarde, depois de deixar Macau, era Chefe do Estado-Maior General e voltei à China. Apesar de eu então ter categoria de Primeiro-Ministro, não estava previsto o meu encontro com o Primeiro-Ministro Zhao Ziyang, porque era uma visita de âmbito militar e enquadrava-se no intercâmbio, também muito importante, numa retribuição de uma visita que uma delegação chinesa havia feito a Portugal a convite do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Fui recebido e contactei na China com chefes militares, com várias entidades militares. Visitei muitas instalações, algumas das quais soube que normalmente não eram abertas a visitas de entidades estrangeiras, e tive encontros também com entidades civis, como o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa. Com o Primeiro-Ministro Zhao Ziyang eu tive realmente uma conversa muito interessante, de cerca de 45 minutos, num ambiente de muita cordialidade. Revelou-se um homem profundamente conhecedor dos problemas a nível mundial e fundamentalmente estratégicos. Disse-me que tinha um grande apreço pelo Presidente da República Portuguesa e que tinha tido apreço pela revolução feita em Portugal. Que considerava Portugal como um país amigo da China e que a situação criada pelo estabelecimento das relações diplomáticas estreitaria laços de amizade entre Portugal e a China e também entre Macau e a China e que considerava que Macau poderia ter um papel relevantíssimo como porta de entrada da China ou elo de ligação entre a China e Portugal, ampliando este conceito até entre a China e o Ocidente, não esquecendo que Portugal estava inserido na União Europeia. Zhao Ziyang era um homem com ideias muito abertas. E tão abertas que depois dos acontecimentos de Tiananmen foi afastado do poder, foi-lhe fixada residência em Pequim, mas é um homem por quem continuo a ter muito apreço. Considero-o inteligente e desassombrado.”
Retirado de funções públicas, Melo Egídio continuou a acompanhar a evolução da China, como membro activo da Liga da Multissecular Amizade Portugal-China e através de diversos organismos ligados a Macau. E até ao fim da vida, em Dezembro passado, foi um promotor sincero e empenhado das relações luso-chinesas.
Artigo de Jorge Rangel, Presidente do IIM, publicado no JTM de 3-1-2012
Excerto de uma entrevista de Marcial Alves publicada no jornal O Dia em 1980 a propósito da passagem do primeiro aniversário de Melo Egídio como governador de Macau (1979-1981).
"...as minhas perspectivas acerca das relações com a República Popular da China são francamente optimistas. Este ano de permanência em Macau tem sido de contactos constantes com a comunidade chinesa e com elementos representativos dessa comunidade que estão também ligados, embora não pelo canal hierárquico oficial, às autoridades de Pequim. Nota-se, a cada passo, muito significativamente, um estreitamento de relações, uma cordialidade, uma confiança e um desejo de colaboração que considero excepcionais. Considero excepcionais e têm-se materializado realmente. A República Popular da China está muito empenhada, com certeza, no desenvolvimento de Macau."
Agradecimentos: Marcial Alves e ao seu blog Rua do Jardim 7

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Hospedaria On Iok Iun: ópio de 1ª qualidade

Opium Den - an 19th century impression of Hospedaria On Iok Iun, an Opium Den in Avenida Almeida Ribeiro (San Ma Lou), opium was very popular in Macau, both for trading and as a consumable. Special trade laws were made for Macau, making it a safe zone for smugglers that soon atracted all walks of life, and crime. The Hospedaria was one of the most frequented parlors in the peninsula until opium was banned in 1947.
Um decreto real publicado em Abril de 1802 dá a Macau o previlégio exclusivo na importação do ópio. Em Macau, umas das casas de fumo, mais procurada era a Hospedaria On Iok Iun, no nº 121 da avenida Almeida Ribeiro. Dizia-se que vendia o ópio de maior qualidade (1ª categoria). 
O Encarregado do Governo, Samuel Conceição Vieira, ordenou o encerramento de todos os fumatórios de ópio, em Macau, a partir de 30 de Junho de 1947.
Jornal "A Voz de Macau" em 1940

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Anúncio "Bank of America Travelers Cheques"

Este anúncio foi publicado na edição de Outubro de 1965 da revista norte-americana Holiday. Na fotografia foram utilizados dois manequins a fazerem uma transacção num antiquário. 
Recorre-se à moeda local, a pataca, para passar a mensagem que, esteja onde se estiver, os cheques de viagem do Bank of America são aceites... tal como a moeda do local onde o viajante estiver. 
Reprodução na íntegra do texto do anúncio:

The pataca is local currency in Macao. So is this.
In Portuguese, Persian or Punjabi there’s no better word for “security” than “Bank of America Travelers Cheques’ Known and accepted the world over, they come with a money-back guarantee against loss or theft. Whenever you travel, carry money only you can spend — Bank of America Travelers Cheques. Bank of America National Trust and Savings Association. Member Federal Deposit Insurance Coporation.

Tradução:

A pataca é a moeda local em Macau. Em português, persa ou punjabi não existe palavra melhor para “segurança” do que os “Cheques de Viagem do Bank of America. Conhecidos e aceites em todo o mundo, eles vêm com garantia de devolução do dinheiro em caso de perda ou roubo. Sempre que viajar, leve consigo apenas o dinheiro que pode gastar - Cheques de Viagem do Bank of America.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O Quartel dos Mouros e a Capitania dos Portos

O Quartel dos Mouros (conhecido por “Soi Si Chong”) albergou durante muitos anos a Capitania dos Portos, mas nem sempre foi esse o seu uso. Inaugurado em Agosto de 1874 - incluído em 2005 na lista de Património Mundial do UNESCO - foi projectado pelo arquitecto italiano Cassuto (outras fontes indicam trata-se de um projecto do Barão do Cercal) começou por alojar a Companhia dos Mouros do Corpo de Polícia de Macau, polícias de origem indiana.
O edifício é uma mescla de influências: neo-árabe, neo-indiano, construído na base da colina e virado para o Porto Interior. Albergava cerca de 200 homens e tendo em conta a época da construção e o clima local ficou conhecido por ser bastante arejado. Em relação ao projecto inicial procederam-se a algumas alterações: nos pontos mais altos do edifício - extremidades e centro - as 'torres' ou torreões não têm uma cúpula como estava previsto.
Mas, voltemos ao início do século XIX, mais precisamente a 2 de setembro do ano de 1822, dia em que foi nomeado o primeiro Capitão do Porto de Macau, sendo então colocados sob as suas ordens um cabo e seis sipaios (soldados de origem indiana) para o desempenho das funções de Agentes da Autoridade Marítima.
Por despacho Régio de 3 de Março de 1841 foi aprovado o Regulamento Policial da Cidade e Porto de Macau ficando o Capitão do Porto com o comando da Polícia do porto de Macau. Em 26 de julho de 1862 foi estabelecido um novo regulamento Policial sendo criada então a Polícia do Mar. No dia 18 de setembro do mesmo ano passou a designar-se Polícia do Mar do Porto de Macau. A 3 de setembro de 1868 foi elaborado um novo regulamento passando a designar-se como Polícia do Porto de Macau. A título de curiosidade, refira-se que naquele final de século Venceslau de Morais (1854-1929) foi imediato do capitão do Porto (foi ainda professor no Liceu).
Na transição do século XIX para o século XX os assuntos portuários ganham nova dimensão e complexidade (pirataria,  contrabando de armas e de ópio) e na orgânica do governo surgem os “Serviços de Marinha” e a “Esquadra Marítima”. Em 1905, o Quartel dos Mouros sofreu uma reformulação, passando a servir como local para os serviços administrativos dos Serviços de Marinha e acomodação dos agentes da “Armada”. 
Foto de AJM Nunes da Silva: que enquanto capitão-tenente
foi comandante da Defesa Marítima Territorial na época
A designação de Polícia Marítima e Fiscal só começou a vigorar em 25 de Novembro de 1957 (Decreto no. 31288) devido à extinção da Polícia do Mar e da Polícia Fiscal. A 1 de Janeiro de 1976 a Polícia Marítima e Fiscal deixou de estar sob o comando da Capitania dos Portos e passou a estar integrada nas Forças de Segurança de Macau.
Em 6 de Novembro de 2001, a Polícia Marítima e Fiscal recebe a nova designação de "Serviços de Alfândega" e deixa de funcionar no Quartel dos Mouros que a partir dessa data passou a servir apenas para os serviços administrativos da Capitania dos Portos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Rosária Meireles: 1955

As irmãs Rosária, Milita e Cidália Meireles formaram entre as décadas de 1940 e 1960 o Trio Irmãs Meireles. Nas imagens a notícia na edição de 16 de Julho de 1955 do  "Rádio Nacional:semanário popular" de uma viagem a Macau de Rosária Meireles em 1955. O trio especializou-se no folclore português, mas também cantava canções românticas, boleros e músicas em voga na época. Fizeram uma carreira internacional de enorme sucesso, em especial no Brasil, e que inclui participações em diversos filmes.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Temperaturas negativas em 1948

"Macau é certamente uma das possessões portuguezas mais salubres. Notam-se ali as quatro estações, cuja duração é a seguinte: o inverno compôe-se de dezembro, janeiro, fevereiro e março; a primavera, de abril e maio; o verão tem junho, julho, agosto e setembro; o outomno abrange outubro e novembro.  (...)  Os mezes mais húmidos são abril e maio, epocha em que o tempo se conserva quasi sempre encoberto; os menos húmidos são outubro e novembro, em que a atmosphera está clara e a temperatura é moderada, posto que haja de quando em quando rápidas descidas thermometricas. 
A epocha das maiores chuvas vae de maio a agosto; e é de junho a outubro que se desencadeiam também os temíveis cyclones, chamados tufões. O mez de setembro e os princípios de outubro appare cem muitas vezes chuvosos, e ha exemplos de ter havido tufões no começo d'este ultimo. Fevereiro e novembro são os mezes de maior estiagem. No verão o thermometro chega a marcar 40° centígrados, e então o calor é suffocante; porém a temperatura media n'esta quadra é de 28° a 29° centígrados. 
No inverno a temperatura geral orça por 14° a 16° centígrados; todavia ha dias em que desce a 5 e 4. Nos dias tempestuosos o barómetro baixa consideravelmente, chegando no pavoroso tufão de 1874 a 706 mm ,105, minima altura barométrica a que tem descido. É em geral na estação fria que o estado sanitário corre mais satisfactorio e, sem duvida, mais azado ao bem-estar dos europeus. (...)"

O excerto é da autoria de Bento da França e diz respeito ao final do século XIX percebendo-se por isso a português escrito na altura. Estamos no século XXI e no que ao clima diz respeito pode-se dizer que praticamente nada mudou.
Localizado no hemisfério Norte o território segue as estações do ano de Portugal, por exemplo. Ainda assim tem fenómenos climatéricos próprios como é o caso dos tufões, o elevado índice de humidade no ar e a diminuta amplitude térmica.
Não sendo habitual registarem-se temperaturas muito baixas no Inverno, numa rápida análise às temperaturas registadas entre 1901 e 2001 conclui-se que nos meses de Janeiro e Fevereiro houve anos muito frios e até houve um ano de valores negativos.  A 27 e 28 de Janeiro de 1948 o mercúrio desceu aos menos dois graus centígrados.
Uma leitura mais detalhada dos dados estatísticos do século XX revela que certos anos se destacaram pelas temperaturas de Inverno demasiado baixas. Em 1903 e 1905 registaram-se 4 graus de mínima em Fevereiro; 3 graus a 8 e 9 de Janeiro de 1917; 2 graus a 4 de Fevereiro de 1919; o mês de janeiro de 1930 também foi quase todo muito frio com variações entre os 3 os 12 graus; em 1942 o valor baixo foi de 3 graus, 5 graus em 1943 e em 1945 foi de 2 graus, a 8, 9  e 11 de Fevereiro. O recorde foi batido a 26 e 27 de Janeiro de 1948 com menos dois graus. No dia 28 foi 1 grau negativo e no dia 29 foi um grau positivo.
Na década de 1950 os anos de 1955, 1956 e 1957 foram os mais frios, tendo neste último o mercúrio descido aos zero graus no dia 11 de Fevereiro. A segunda metade da década de 1960 também registou Invernos bastante frios por oposição à de 1970 onde apenas os anos de 1972, 74 e 77 tiveram dias muito frios. Em 1980, nas duas primeiras semanas de Fevereiro os termómetros oscilaram entre os 3 os 7 graus.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

As "garrafas" de Jorge Álvares

"Em 1552, achava-se no porto de Sanchoão o comerciante Jorge ÁIvares, natural de Freixo de Espada à Cinta. Como os portugueses faziam ali o seu comércio com Cantão, Álvares encomendou a Cantão algumas porcelanas com o seu nome gravado. Ainda hoje existem três garrafas piriformes de porcelana azul e branca; uma conserva-se no Victoria and Albert Museum de Londres com uma inscrição portuguesa: O MANDOU FAZER JORGE ALVARES (552), e outra chinesa: Ta Ming Nin Tsao, isto é: Feita no período de Grande Ming (Dinastia Ming) 1368-1644. Esta peça foi parar a esse Museu, via Istambul, em 1892. Isto indica que a porcelana portuguesa atingiu Constantinopla. Outra garrafa de Jorge ÁIvares foi oferecida por Antunes de Carvalho e Silva ao Museu do Caramulo, fundado pelo Dr. Abel de Lacerda; tem na base uma inscrição chinesa que diz: “Que uma infinda boa sorte acompanhe todos os teus empreendimentos”. Este pensamento não é da autoria de Álvares, pois é típicamente chinês. A terceira garrafa figura na “The Walters Art Gallery” de Baltimore."
O anterior excerto foi escrito há muito tempo pelo padre Manuel Teixeira e alguns dados já estão desactualizados. Com este post pretende-se fazer essa actualização.
Desde Outubro de 2012, a Fundação Jorge Álvares cedeu ao Museu do Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa uma das três garrafas de Jorge Álvares.
A garrafa é uma das poucas porcelanas decoradas a azul-cobalto sob o vidrado, que constituem as mais antigas encomendas personalizadas conhecidas feitas por europeus aos oleiros chineses.
Para além do exemplar agora patente no Museu do CCCM, são conhecidos outros 6 exemplares das garrafas com a inscrição “ISTO MANDOU FAZER JORGE ALVRZ NA//A ERA DE 1552 REINA” no Victoria and Albert Museum (Londres), no Walters Art Museum (Baltimore), no Museu do Caramulo (Fundação Abel Lacerda), na Fundação Carmona e Costa, em Portugal, no Museu Guimet de Arte Asiática, em Paris, e no Chehel Sotun (Ardebil Shrine Collection), em Isfahan, no Irão.
Três dos seis exemplares estão portanto em Portugal. Este conjunto de peças é a prova da existência de um comércio clandestino entre os portugueses e os chineses, apesar do corte de relações oficiais entre os dois países no período compreendido entre 1552-1554.
Características:
Porcelana branca decorada a azul-cobalto sob o vidrado
Jingdezhen, província de Jiangxi
Dinastia Ming, marca e reinado de Jiajing (1522-1566), datada de 1552
Altura: 23,7 cm – Diâmetro do pé: 8,3 cm
Garrafa com bojo piriforme, gargalo alto, truncado, repousando sobre pequeno pé ligeiramente inclinado para o interior, de porcelana branca, executada em três tacelos, cuja junção é visível no exterior, na parte inferior do bojo. O vidrado levemente azulado reveste a totalidade da peça, à excepção da extremidade do pé, onde a sua paragem é assinalada por linha alaranjada.
A decoração, pintada em vários tons de azul-cobalto, reparte-se por vários registos separados entre si por duplo círculo. O registo central, que ocupa praticamente todo o bojo, mostra um qilin e um unicórnio com corpo de gamo mosqueado mas com um chifre (o que o aproxima do qilin) cavalgando numa paisagem, limitado por sebe, com pequenos bambus brotando de rochedos, um pinheiro com tronco contorcionado e um conjunto de bambus, que balizam o território de cada animal.
A copa do pinheiro e as extremidades dos bambus foram abruptamente cortadas pelo registo seguinte, a inscrição portuguesa, em posição invertida, distribuída por duas linhas: “ISTO MANDOU FAZER JORGE ALVRZ N//A ERA DE 1552 REINA”. A legenda está, em todos os exemplares conhecidos, incompleta, pois acaba bruscamente em REINA, uma palavra não terminada, cortando o final da frase e o sentido da inscrição que, como observou Luís Keil, poderia ser REINANDO EM PORTUGAL EL REI D. JOÃO III.

No gargalo, duas bandas: uma decorada com quatro cabeças de ruyi ligadas por motivo vegetalista e outra com motivos geométricos formando losangos, típicas de meados do século XVI. O pé é realçado por círculo azul. A base apresenta a marca em seis caracteres, dispostos em duas colunas de três caracteres: da Ming Jia jing nian zao (feito no período Jiajing da grande dinastia Ming), inscrita num duplo círculo.
O gargalo, que deveria ser em forma de trombeta, conforme duas das nove garrafas com a mesma inscrição conhecidas, as únicas com gargalo original, está incompleto e remata com aplicação de prata com decoração floral de influência otomana.
Sugestão de leitura adicional: “Garrafas Chinesas de Jorge Álvares”, por Luís Reis Santos, in “Belas Artes”, Revista e Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, 2a. serie, n°. 18, Lisboa, 1962

Nota: descrição técnica da peça e imagens retiradas de catálogo do CCCM

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Zheng Kuan Hin e a Casa do Mandarim

Felizmente que neste últimos anos se começa a falar em Macau de figuras que ao longo de quase dois séculos foram expurgadas da memória histórica por acção, ou omissão, decorrentes dos ciclos conjunturais da política. Refiro-me concretamente ao letrado filósofo economista Zheng Kuan Hin que depois de ter visto a sua casa recentemente restaurada ali ao pé da “Fonte do Lilau” (vencidos preconceitos inumeráveis e várias décadas), parece ter passado a ser fonte inspiradora para novas iniciativas culturais, nomeadamente a criação de um centro em Coloane com o seu nome promovido pelo “Instituto Cultural”. A iniciativa é de louvar a todos os títulos.
Ao contrário de Sun Yat-sen, ou Mao tsé-tung, Zheng Kuan Hin, permaneceu no limiar de ser apagado liminarmente da história. Não porque as suas ideias não tivessem influenciado os dois nomes citados, nem porque não tivesse deixado de influenciar, também, várias gerações posteriores. Principalmente no período que antecedeu a queda da última dinastia imperial da China e a proclamação da República Popular em 1949, mas simplesmente porque Zheng Kuan Hin pertenceu a uma geração intelectual inexoravelmente vencida pela força dos ventos da história.
De facto o “mandarim” não era republicano e muito menos socialista. Nasceu e viveu bem antes destes dois conceitos se firmarem claramente no Mundo Ocidental e no Oriente em particular. Zheng era um monárquico apaixonado pela ciência e pela modernidade sócio-política que absorvia todos os dias em Macau, onde vivia, alcandorado na sua casa da antiga “Praia do Manduco”. Um homem que acreditava que era possível restaurar o regime sem pôr em causa a harmonia tradicional confucionista. No plano político, prático, seguia como exemplo a restauração “Meiji” do Japão que sem por em causa a tradição tinha limitado os poderes imperiais através de uma “Constituição do Estado” e a criação de um parlamento, onde, alegadamente, o povo, através dos seus representantes, faria ouvir a sua voz. E certo é que o Japão deu com essa reforma um salto histórico para a modernidade.
Por outro lado ouvia (em Macau) as vozes ocidentais do livre comércio e da livre expressão que lhe estavam associadas e que se demonstravam em termos pujantes na iniciativa privada; nas novas descobertas da ciência; e na “caixa de pandora” repleta de maravilhas que se sucediam nesse século das luzes que prometia a felicidade a toda a gente. Ricos e pobres, desde que os enunciados de David Ricardo, em termos económicos, e as propostas (em termos político-sociais) de Rousseau fossem cumpridas. Rousseau em menor grão, já que Confúcio tinha dito, mais palavra, menos palavra, mais conceito, menos conceito, o mesmo que o filósofo francês tinha escrito milénios depois. A miséria, a fome a escravidão e a infelicidade milenares na China seriam inexoravelmente vencidas com a adopção de uma nova globalidade que Pequim ainda não estava preparada para entender nesses tempos e recusava liminarmente.
Só que Zheng Kwan Hin acreditava na regeneração do regime a partir de cima, ou seja do topo da pirâmide social, não concebendo que fossem as bases a desencadear o futuro.
Foi esse o seu único engano e a sua quase obliteração da história como marco referencial.
Paralelamente, nesses tempos, outras figuras que, igualmente, com ele se equiparavam em intelectual vigor e que irrevogavelmente se obliteraram na memória política dos dias de hoje estavam também.
Falo de Kang Youwei figura que em Macau viveu longos períodos e que defendia o fim da propriedade privada e da família no interesse de um futuro nacionalismo. Kang citava Confúcio como exemplo de reformador e não como reaccionário como era visto pelas correntes intelectuais mais hodiernas da sua época.
Kang era um militante da transformação da China no contexto de uma monarquia constitucional e pretendia, tal como Zheng Kwan Hin, remodelar o país à imagem da transformação Meiji japonesa. Essas ideias valeram-lhe uma oposição unânime e exacerbada da classe intelectual, tanto modernista, como tradicionalista que deitaram inexoravelmente a sua figura por terra.
O último estertor político de Kang ocorreu em 1917, quando já em plena República tentou um golpe de estado destinado a instituir na China a sua sonhada “Monarquia “Constitucional”. Foi uma utópica tentativa inexoravelmente destinada ao fracasso. Os tempos eram outros e muito outros.
Kang, juntamente com o seu discípulo Liang Qichao, tinham sido protagonistas da campanha de modernização do “Império” durante o período que ficou conhecido como “A Reforma dos Cem dias” durante o reinado do Imperador Guangxu (1875-1908). Uma reforma abruptamente interrompida pela “Imperatriz Mãe “Cixi” em 1898.
Liang Qichao, que iniciou a sua vida política igualmente em Macau, onde foi responsável pela abertura dos primeiros jornais em língua chinesa da colónia portuguesa, para além de diversas escolas e dos célebres “clubes de leitura” que procuravam incentivar, exactamente, os hábitos de leitura pelas classes populares (um dos quais, porventura, com alguns simbolismo se situava fronteiro onde hoje se encontra a Livraria Portuguesa, na Rua Pedro Nolasco da Silva, mais conhecida por rua das Mariazinhas) fez o que pode para acabar, nomeadamente não só com a ignorância geral e o analfabetismo, mas também com os atentados aos direitos humanos. Nomeadamente com o desgraçado “tráfico de cules” que tanta fortuna pessoal trouxe a várias famílias de Macau quanto vergonha lhe granjeou internacionalmente. Eça de Queiroz, um dos maiores nomes das letras portuguesas se encarregaria de denunciar este período negro da história de Macau, do outro lado do Mundo, nas Antilhas, num movimento de desagravo pelos direitos humanos. Isto como se um e outro (Liang e Eça) se conhecessem. Mas a verdade é que nesses tempos o que os unia era apenas um sentimento, já que a tal globalidade estava longe de se realizar (o telégrafo de “a Cidade e as Serras” era ainda exclusivo da Europa, da comunicação entre embaixadas e entre os correspondestes da agência “Reuters”) o resto do mundo ignorava-se literalmente.
A Imperatriz “Cixi” pôs termo abrupto às reformas e ordenou a execução dos “macaenses” Kang e Liang que se eximiram à sentença fugindo de Pequim. Primeiro para Macau e posteriormente para o Japão. Na sequência da fuga, durante a estada em Macau, Liang fundou e organizou a oposição intelectual ao absolutismo como pôde através de escolas, movimentos e associações (nomeadamente o revigoramento da instituição de “Beneficência “Tong Sin Tong” (fundada em 1878) que ao seu nome ainda hoje deve muito (ainda que permaneça, politica e convenientemente posto de lado). No Japão, Kang fundava, por seu turno a “Sociedade para a Protecção do Imperador”. Um iniciativa nascida essencialmente fora de tempo já que nesse momento Sun Yat-sen percorria o mundo ganhando simpatias universais que lhe permitiram fundar por seu turno a “Sociedade para A Regeneração da China” o movimento que viria de facto a renovar o velho e esboroado império em novos termos essencialmente anti monárquicos. Kang e Liang ficavam-se pelos velhos cânones e remetidos a um cantinho político-intelectual passado e sem hipóteses de futuro. A república e o socialismo marxista leninista tinham obliterado, já e então, todas as esperanças utópicas de Zheng Kuan Yin, Kang, Kang You Wey e Liang Qichao.
Se na “Casa do Mandarim” algum retrato figurar com estas três figuras bem se lhe pode apor a legenda portuguesa do século XIX; - Os “Vencidos da Vida”. O paralelo é muito semelhante. Uma geração moderna que moldou o futuro mas a que ninguém actualmente dá particular crédito nem louvor a não ser em areópagos muito sincréticos e em especializadas teses de doutoramento. Todavia. Certo é que se Zheng Kwan Hin, Kang You Wey e Liang Qichao, tal como Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Ribeiro da Costa, Lobo de Ávila e Eça de Queirós moldaram na sua militância (ou diletância, conforme o ponto de vista) as ideias do futuro. Pena é que tanto uns como outros, permaneçam na generalidade esquecidos dos compêndios das escolas elementares de onde deviam constar obrigatoriamente para memória futura pela sua importância no desenvolvimento das ideias.
Por tudo isto é de louvar a iniciativa do “ICM” de relembrar Zhen Kwan Yin e com ele todos os que lutaram por ideais. E apenas por ideias! Certo é que independentemente dos “ismos” a verdade é que o que temos hoje em termos políticos e sociais resulta do que eles pensaram, do que eles fizeram e do que eles publicaram principalmente em Macau. A “Nova China” não se pode esquecer disso. Nem Macau!
Artigo de João Guedes, Jornalista/Investigador publicado no JTM de 8-2-2011

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um tufão em 1599

Mapa de 1598
“No ano de 1599, aos 28 do mês de Julho quando eu estava na cidade de Macau, vi mais de 10 ou 12 casas arruinadas pela água e pela força do tufão que nas ilhas Filipinas é chamado pelos castelhados «huracán». As casas são feitas de terra misturada com cal viva; são fortificações de tantas a tantas braças com tabiques de pedra murados a cal, sendo as paredes estucadas com cal por dentro e por fora, e cobertas de telhas em tudo ao modo da Espanha. Depois de ter soprado com tanta fúria, que não se podia andar pelas ruas nem sequer mostrar lá a cara, o vento parou, tendo passado por todos os rumos da rosa dos ventos, e continuou durante dois dias. além de muitos danos, e naus que fez desviar por toda a costa e portos de China, fez também perder no porto de Amacao uma nau que tinha vindo do Reino do Sião, carregada de lenha chamada comummente pau brasil, que eles neste país chamam «sapan»; da qual nau conseguiram com muita dificuldade escapar-se os marinheiros siameses com as suas mulheres, que segundo o seu costume levam consigo quando fazem longas viagens… “

Edição alemã
As palavras são de Francisco Carletti nos “Arrazoamentos da minha viagem à volta do mundo” e constituem porventura o primeiro relato de um tufão em Macau. O estabelecimento dos portugueses no território não tinha ainda 50 anos.
A tradução deste excerto é da autoria do prof. Edgar Knowlton Jr (1890-1978), catedrático jubilado de Línguas Europeias na Universidade de Hawai) e pode ser encontrada no livro "Macau através dos séculos", Macau, Imprensa Nacional, 1977, do padre Manuel Teixeira.
Francesco Carletti (1573-1636), era um mercador florentino, comerciante de escravos (em Cabo Verde) e viajante. Esteve em Macau de 15 de Março de 1598 a 28 de Julho de 1599, vindo do Japão, acompanhado pelo pai, António, que acabaria por morrer  no território. Terá sido ele a trazer o cacau das Américas para África. Durante oito anos compilou as suas impressões da viagem à volta do mundo iniciada em Espanha em 1594. Entre 1608 e 1615 escreve o livro “Ragionamenti di Francesco Carletti Fiorentino sopra le cose da lui vedute ne´ suoi viaggi si dell´ Indie Occidentali, e Orientali Come d´altri Paesi“ editado em 1701.
Sugestão de leitura: a reedição deste livro em 1999, Voyage Autour Du Monde (1594-1606) Paris: Editions Chandeigne.

A propósito de Carletti aqui fica um excerto da autoria do padre Manuel Teixeira. O tema é porcelana chinesa.
(...) Carletti diz que porcelana branca com a borda azul é a mais preciosa que se vê ordinariamente. Por meio dos jesuítas ele comprou a melhor porcelana que podia obter. Não só em Portugal, mas também nalguns países da Europa, havia peças de porcelana. Henrique VIII da Inglaterra possuía uma malga de porcelana prateada. O imperador da Alemanha Carlos V (1500-58) possuía vários pratos com o seu monograma; seu filho, Filipe Ⅱ de Espanha (1522-96) tinha uma colecção de 3000 peças. No Museu Princesschof de Leeuwarden, Holanda, há uma peça com motivos chineses na borda e as armas do rei D. Sebastião de Portugal (1557-87), repetidas quatro vezes. O centro é decorado com a roda budista, cercada de 4 leões a brincar com uma bola. Nota-se que os oitos símbolos budistas que figuram nas porcelanas são: a roda, a concha, o guarda-sol, o dossel, o Iotus, o vaso, dois peixes e o nó sem fim; às vezes aparece também o Bodhidharma. Era tão grande a procura da porcelana que um regulamento do porto de Lisboa de 1522 permitia que um terço da carga do navio fosse porcelana. Isto significava muita porcelana. Assim, por exemplo, a carraca São Tiago, tomada pelos holandeses na costa de Santa Helena em 1602, levava alguns milhares de peças de porcelana. Parte dela pertencia ao Florentino Francisco Carletti que a comprara em Macau por intermédio dos jesuítas. Ele pôde adquirir fina porcelana azul e branca; ele confessa que os jesuítas também lhe forneceram grandes e lindas jarras que ele comprou por cerca de 165 reales espanhóis de prata. Carletti afirma um pouco exageradamente: “há tantas espécies que se poderia encher não um navio, mas uma esquadra”. Havia porcelanas só para uso do rei e estas eram decoradas a ouro; mas as mais lindas e mais comuns eram as porcelanas de azul e branco. Em 25 de Fevereiro de 1603, a carraca Santa Catarina, do comando do Cap. Sebastião Serrão, foi capturada no Estreito de Johore por Jacob Van Heemsherck com um junco de Macau, carregado de provisões para Malaca; a nau que, levava 700 pessoas, entre as quais 100 mulheres e crianças, foi levada para Amesterdão, onde a sua carga de mais de cem mil peças de porcelana foi vendida em leilão rendendo, três milhões e meio de florins. Devido a isso, a porcelana chinesa ficou sendo chamada Holanda Kraakporselein (porcelana de carraca).
Nota: O termo carraca (caracca em italiano e espanhol) carrak (em inglês) deriva do árabe caraquir (navio mercante); há ainda o termo árabe harraca (barco pequeno).

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A demissão do Sr. Reitor

Ao observarmos a longa duração da história da vida escolar ou académica constatamos que há incidentes de percurso, às vezes graves, que se devem a causas menores, por exemplo, à fragilidade das relações humanas, ao choque de personalidades, à irreprimível vontade de testar os limites da autoridade ou mesmo à inconfessada ânsia de tomar o poder dentro do microcosmos escolar. A natureza humana é deveras misteriosa. As Escolas são férteis nesse género de situações e o Liceu de Macau não fugia a essa regra. 
No início de 1968, no Conselho Disciplinar, de 5 de Janeiro, convocado e presidido pelo Reitor, António Maria da Conceição, foi feita uma preocupada reflexão global sobre a disciplina que seria necessário reforçar e muito, dada a perigosa deriva existente. O Padre Manuel Teixeira, professor de Religião e Moral, lamentava “que algumas alunas se apresentavam no Liceu com vestuário impróprio. Usavam mini-saias ou mini-batas, coisa que devia ser proibida no Liceu para bem da formação moral dos alunos”; a directora do 2º ciclo, professora Ana Maria Amaro disse que “no conselho de turma do 5º ano para classificação de aproveitamento e comportamento dos alunos, no fim do período, foram relatados factos tão anormais de indisciplina que foi resolvido pedir ao senhor Reitor que reunisse o conselho disciplinar”; o Secretário, professor João Ferreira Felício tem uma intervenção apocalíptica, sobre os alunos, “começam por tocar viola e jazz, vem depois a droga, marijuana e sexo e por fim, ai jesus que a criminalidade juvenil é alarmante”; a professora Aida Pina Manique “perguntou finalmente ao senhor Reitor que havia de responder aos professores que com frequência lhe perguntavam o que tinha acontecido aos alunos que riscavam as faltas disciplinares marcadas pelos professores no Livro de Ponto”. Outras intervenções, da médica escolar, Drª. Maria de Lurdes Assumpção, ou da directora do 3º ciclo, também eram reveladoras de graves problemas disciplinares que era urgente pôr cobro. Sentia-se, claramente, o esboroar da autoridade e um afrouxamento da vigilância das normas éticas e morais. O contexto local (sequelas da revolução cultural) e o contexto metropolitano (guerra no ultramar e um regime político autoritário) podem explicar um pouco a pulsão libertária que animava a juventude do Liceu, refractária também aos cristalizados ensinamentos da Igreja.
O Reitor, em vez de puxar pelos galões, optou por expor com clareza o seu pensamento pedagógico: “Não é a primeira vez que dirijo um estabelecimento de ensino, como podem supor. Quando voltei para Macau há pouco menos de 30 anos, vim para dirigir a Escola Comercial Pedro Nolasco, função que exerci durante seis anos consecutivos. Depois, fui também director da Escola Primária Oficial masculina por mais ou menos igual período de tempo. Na direcção dessas duas escolas, segui o mesmo princípio que sempre norteou a minha já longa carreira de professor – considerar a escola uma grande família, em que os colegas eram irmãos e os alunos filhos, a ambos estimando como se de facto á minha família pertencessem. Tratando com franqueza e amizade fraternais os professores e com carinho e tolerância paternais os alunos, consegui sempre consideração, harmonia e leal colaboração da parte do corpo docente e respeito, obediência e amizade da parte dos alunos, com o que a disciplina e o bom andamento dos serviços escolares só tiveram a lucrar, não se tendo verificado jamais, durante esses anos todos, a mínima desarmonia entre director e professores, nem qualquer actos de grave indisciplina ou desrespeito por parte dos alunos”.
Terá o Conselho entendido estas palavras como uma inominável fraqueza do Reitor ? Ou, pelo contrário, terá compreendido essa atitude profundamente educativa, de leal bondade, de humanismo e de compreensão do Outro ?
O Reitor foi dizendo, “por razões que todos conhecem – a acumulação de cargos – não tenho podido prestar à manutenção da disciplina no Liceu a atenção que a mesma requeria. Em breve, porém, com a chegada do novo Chefe dos Serviços de Educação, já poderei dedicar-me mais aos assuntos do Liceu, e então, estou confiado, a disciplina dos alunos melhorará grandemente, pois então já terei tempo com o auxílio de todos de velar por ela”.
Ficou uma pequena dúvida no Conselho, como compaginar a bondade com a autoridade ? Não consta que tivessem lido “Alguns Pensamentos sobre a Educação”, de John Locke, para procurarem uma resposta satisfatória. A imprensa inglesa de Hong Kong noticiava a turbulência do Maio de 68 em França, uma janela de liberdades, e de generalizada contestação de toda e qualquer autoridade, aberta ao mundo. Os elementos mais esclarecidos da comunidade portuguesa de Macau, estavam gratos à Comissão de Censura que impedia a circulação dessas ideias e imagens, porque receavam a atracção da juventude por esse ideário. Trabalho em vão, como se compreende.
Um ano depois, no pachorrento dia 24 de Janeiro de 1969, uma aluna do 5º ano do Liceu [muitos anos depois, minha aluna na Escola Técnica dos Assuntos Chineses e entretanto já falecida] comete a impertinência e a deselegância de escrever na folha do exercício escrito frases inapropriadas, quiçá ofensivas para a dignidade profissional de uma sua professora. Nessa atitude era, diga-se, reincidente. Atendendo à idade, não era uma falha de carácter mas apenas um acto de má educação.
Pela lógica decorrente da legislação escolar e dos bons costumes, a aluna seria inapelavelmente sancionada após um procedimento disciplinar conduzido pela hierarquia do Liceu. E foi justamente isso que sucedeu. A professora em causa apresentou a queixa no dia 31 de Janeiro. Nesse mesmo dia o Reitor pondera a situação e aplica à aluna uma suspensão de oito dias, à luz do Estatuto do Ensino Liceal, assinado por António de Oliveira Salazar em 17 de Dezembro de 1947. Contudo, o Secretário lembrou ao “senhor Reitor que era um acto ilegal, além de que para se aplicar um castigo justo era necessário esclarecer bem e interpretar convenientemente a conduta da aluna”. O Reitor aceita o reparo e nomeia o Secretário para instruir o processo, no dia 10 de Fevereiro. O Secretário, professor João Felício, procura ir mais além, com quesitos estranhos à matéria da participação. A professora teve dúvidas sobre a legalidade dessa inquirição, abusiva e intempestiva, pelo que faz a pergunta ao Reitor. Este, alarmado com o rumo impróprio da investigação, instaura um procedimento disciplinar ao Secretário, que, de acordo com o Estatuto do Funcionalismo Ultramarino, seria acusado de “desobediência e má compreensão dos deveres profissionais”. O processo será arquivado, no dia 6 de Março, porque tinha um registo profissional impoluto ao longo de trinta anos de serviço. Era o princípio do fim da cordialidade no relacionamento interpares e institucional.
Contudo, uma leitura restritiva da legislação permitiu ao Secretário do Liceu, professor João Ferreira Felício, desferir um inaudito e violento ataque ao Reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, professor António Maria da Conceição. O professor João Ferreira Felício tinha chegado a Macau em 1949 sendo Reitor o professor Alberto Garcia da Silva, e desde então foi nomeado Secretário do Liceu. Macau era governada pelo comandante Albano Rodrigues de Oliveira.
A queixa hierárquica e formal foi entregue no dia 22 de Março à chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Educação de Macau, Ricardina Rosa y Alberty Lopes da Silva. Rapidamente foi nomeado o Intendente Administrativo João Calleres Júnior, antigo Administrador das Ilhas, secretariado por Gustavo Edmundo Batalha, para analisar e dirimir o conflito. Esta questão trouxe algum frisson na vida do Liceu, então com pouco mais de 430 alunos, e foi um excelente húmus para alimentar a coscuvilhice da comunidade portuguesa.
O professor João Felício, na sua queixa, diz que “perante o descalabro, incluindo o aspecto moral, para o qual o sr. Dr. António Maria da Conceição estava a encaminhando o Liceu nos primeiros meses do seu reitorado, denunciou a acção do Senhor Reitor no que foi secundado pelos directores de ciclo”, sendo, por vezes, contundente, “aprova todas as propostas tendentes a resolver problemas de limpeza, indisciplina dos alunos, indisciplina e desleixo dos empregados, mas não põe em prática nenhuma, incluindo o Regulamento Interno que para ele é letra morta”.
O Reitor, professor António Maria da Conceição, redige uma notável peça argumentativa, demolindo e rebatendo ao longo de vinte e uma páginas, (e honra lhe seja prestada, sem recorrer a argumentos ad hominem), as queixas aduzidas pelo Secretário, professor João Felício. Respigo estas passagens reveladoras: “perante afirmações tão atrevidas e irresponsáveis, reveladoras duma completa ignorância das normas legais reguladoras do assunto, o que se torna absolutamente prejudicial à boa execução das suas funções de secretário”, lembra que na “verdade procurou o signatário no seu relatório, delicada e diplomaticamente, dar ao Sr. Dr. João Ferreira Felício, Secretário do Liceu, umas noções da forma como deveria proceder no exercício das suas funções cominadas na alínea b) do artigo 220 do Estatuto do Ensino Liceal, uma vez que, o queixoso, na sua defesa aos artigos de acusação que lhe foram formulados no supracitado processo disciplinar, deu tantas provas de incompetência e ignorância das normas legais reguladoras da organização de processos”. 
Do triunvirato directivo do Liceu, Reitor, Vice-Reitora e Secretário, apenas a Vice-Reitora e professora de Matemática, Fernanda Mota Salvador, se mantinha aparentemente equidistante em relação ao conflito que era deveras ruinoso para a reputação do Liceu, maxime, da imagem da comunidade portuguesa.
No dia 19 de Junho, o Intendente Administrativo João Calleres Júnior apresenta o seu Relatório, no qual avultam estas três conclusões: a primeira, “Parece não haver dúvidas de que a aluna foi bem castigada. Demonstrou mais do que uma vez irreverência, falta de consideração e respeito para com a professora”; a segunda, “É muito estranha a queixa do Sr. Professor Dr. João Ferreira Felício e analisando concretamente chegamos à conclusão que se excedeu nas instruções que recebeu do Reitor para proceder a averiguações contra o comportamento da aluna, colocando a professora no banco dos réus. Da participação ou queixa do professor João Ferreira Felício resultou uma acumulação de faltas que impõe levantamento do respectivo processo disciplinar. Por outro lado, o muito tempo de serviço que tem como Secretário do Liceu criou-lhe hábitos que não convém manter para sossego e boa harmonia do Liceu”; a terceira, “Quanto ao Reitor, Dr. António Maria da Conceição que fez a maior parte da sua vida como professor primário, julgo estar deslocado ; o seu feitio bondoso, a forma como sempre lida com quem quer que seja sem má fé e a sua falta de energia não o indicam para Reitor do Liceu, que tem forçosamente de ser um indivíduo de pulso. Assim, parece que o mesmo deve ser desligado de tais funções”.
Estas miudezas burocráticas e processuais, com picardias à mistura, escondiam algumas questões aparentemente invisíveis. Por um lado, o conflito entre teorias e metodologias, assumindo o professor João Felício um certo vanguardismo de ideias pedagógicas que fazia questão que fossem abundantemente registadas em quase todas as actas das reuniões. Promovia a difusão em Macau de algumas novas orientações para o Ensino Preparatório, aprovadas pelo Ministro da Educação, professor José Hermano Saraiva. Notava-se que mantinha a irresistível ambição de ascender ao cargo de Reitor, um lugar de prestígio como se calcula. Após duas décadas como Secretário de cinco Reitores (Alberto Garcia da Silva, Pedro Guimarães Lobato, José Tertuliano Cabral, Énio Ramalho e António Maria da Conceição), era chegada a sua hora. O seu acrisolado nacionalismo estava bem patente no livro “Portugal Pequenino e Gigante”, editado na Imprensa Nacional de Macau, em 1968.
Por outro lado, o Reitor revelava-se uma personalidade discreta, sensível, que procurava apagar-se perante o colectivo, exercendo o cargo com elevação e bonomia. Jorge Rangel, antigo aluno do Liceu, recorda os protagonistas do modo seguinte: “O Dr. Ferreira Felício, que não preparava as lições e batia nos alunos, o exemplo do que o professor não deve ser, o professor menos simpático que conheci”; “o Dr. António Maria da Conceição, professor de Francês, que adormecia por vezes nas aulas mas que nos deu as bases para um melhor conhecimento duma língua importantíssima na época e a oportunidade de descobrirmos os grandes escritores franceses”.
Em Abril de 1969, na sessão solene das comemorações dos 75 anos do Liceu, António Maria da Conceição profere o seu último discurso na qualidade de Reitor, publicado no jornal “Notícias de Macau”, no dia 22 desse mês. Para serenar o ambiente interno da instituição educativa e também para tranquilizar a comunidade portuguesa, o governador Nobre de Carvalho decide dar por finda a comissão de serviço do Reitor e do Secretário, em Agosto de 1970. Invocava uma urgente conveniência de serviço, um eufemismo que dispensava uma qualquer explicação. No dealbar do novo ano lectivo, a vice-reitora Fernanda Mota Salvador foi interinamente provida como Reitora do Liceu Nacional Infante D. Henrique.
Artigo da autoria de António Aresta - Janeiro 2013

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Raid aéreo Lisboa-Macau: 1987 no "Sagres"

Em 1986/87 três portugueses - Jorge Cruz Galego, Álvaro Prata Mendes e Arnaldo Alves Leal homenagearam o feito de 1924 http://macauantigo.blogspot.com/2009/03/raid-aereo-lisboa-macau-em-1924.html, a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau e repetiram-no. Depois do "Pátria" (percorreu 16.380 km gastando 115h e 45m) foi a vez do "Sagres" (15.000 Km e 106 h) que ficou por Macau...
O "Sagres" em Seac  Pai Van e o relatório da aterragem de emergência.

Os heróis de 1987 que receberam a Medalha de Mérito Desportivo de Macau pelo feito que foi o raid aéreo Lisboa - Macau no pequeno Monomotor Mooney Super (m-20E), o "Sagres", de 10 de Janeiro a 6 de Fevereiro de 1987, "reeditando outra proeza semelhante levada a cabo há 63 anos também por aviadores portugueses, constitui não apenas um memorável acontecimento em termos desportivos mas também uma forma brilhante de enaltecer o território de Macau e sua população, o Governador de Macau deliberou distinguir publicamente a actuação dos referidos desportistas com a mais alta condecoração desportiva do Território, manifestando desta forma o seu alto apreço por tal feito; Assim, no uso da competência atribuída pelo artigo 7o. do Decreto-Lei no. 42/82/M, de 3 de Setembro, o Governador de Macau manda: que a Jorge Cruz Galego, Álvaro Manuel Prata Mendes e Arnaldo Alves Leal, seja concedida, nos termos da alínea d) do artigo 5o. do Decreto-Lei no. 42/82/M, de 3 de Setembro, a Medalha de Mérito Desportivo.
Residência do Governo, em Macau, aos 3 de Fevereiro de 1987. - O Governador Joaquim Pinto Machado.
Informações (e fotos) adicionais aqui: