

"O Testamento de Camilo Pessanha", de Danilo Barreiros, edição de 1961 (Bertrand) com capa de de Pedro Barreiros (1943-2022).
"(...) Na realidade Camilo Pessanha deixara-se dominar completamente pelo vício que os chineses dizem ser dos “virtuosos”. Estivesse onde estivesse, mesmo no tribunal, como Juiz ou advogado, Camilo Pessanha, chegada a hora de fumar o ópio, abalava alucinado, para satisfazer o invencível desejo que o torturava. Magro, esquálido, a barba hirsuta, o cabelo colado à testa, semi-nu sobre o leito, aspirando voluptuosamente o longo cachimbo sobre a chama amarelada da lâmpada de cristal, que lhe projectava a sombra desfigurada nas paredes obscurecidas, tendo no semblante a expressão hipnótica dos opiómanos, Camilo Pessanha parecia ter surgido das espirais de fumo do milenário incensador de bronze onde queimava sândalo aos Budas, demónios, guerreiros e filósofos que lhe assombravam o quarto. Os olhos fulgurantes, dilatados, denunciavam a vida intensa do seu espírito ávido de beleza que, nesses momentos, desprendido da matéria inerte, planava livremente no Mundo irreal que só ele conhecia. (...)"
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