sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Bispos Naturais dos Açores

D. Arquimínio da Costa, D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, D. João Paulino de Azevedo e Castro, D. José da Costa Nunes e D. Paulo José Tavares, têm em comum vários factos... são todos eles açorianos e foram Bispos de Macau. Segue-se as respectivas notas biográficas elaboradas a partir da Agência Ecclesia.
D. Arquimínio Rodrigues da Costa
Nasceu em S. Mateus do Pico em 8 de Julho de 1924. Feitas as primeiras letras, juntamente com outros dois companheiros, foram levados para Macau por Monsenhor José Machado Lourenço, missionando no Extremo-Oriente. O jovem Arquimínio deu entrada no seminário de S. José a 8 de Dezembro, fazendo com distinção todos os seus estudos eclesiásticos, completando teologia em Junho de 1949. Enquanto estudante no seminário de Macau revelou óptimas qualidades, foi inteligente e virtuoso, sendo por isso mesmo nomeado professor antes da sua ordenação presbiteral, que se efectivou pouco tempo depois, a 6 de Outubro, celebrando três dias após a sua primeira missa. No mesmo seminário exerceu a prefeitura de disciplina desde 1949 a 1953 e foi reitor interino (1955/6) na ausência do reitor daquele estabelecimento de ensino cónego Juvenal Garcia.
Visitando os Açores em 1956 onde passou um período de férias na sua ilha do Pico. Mas Roma esperava-o e, em 1957, foi frequentar o curso de direito canónico na Pontifícia Universidade Gregoriana, concluindo licenciatura em 1959. De novo em Macau, retomou as suas funções de prefeito de disciplina, sendo então nomeado professor do seminário. Em Agosto de 1961 era reitor interino passando a efectivo em Novembro seguinte.
Por motivo de ausência do prelado diocesano de Macau durante o Concílio Vaticano II, foi o dr. Arquimínio nomeado governador do bispado em 29 de Agosto de 1963 e depois em 1965. Leccionou (1968/9) no seminário de Aberdeen, em Hong Kong, as disciplinas de filosofia e latim, sendo ali nomeado prefeito de Estudos do Curso Filosófico. Professor competentíssimo, sacerdote cheio de humildade, é tido como poliglota com destaque para a língua chinesa em que fala e prega fluentemente.
Eleito pelo cabido vigário capitular da diocese em 14 de Junho de 1973, viu-se elevado à dignidade episcopal três anos depois, em 1976, em que o Santo Padre Paulo VI o nomeou finalmente bispo de Macau. A sua sagração decorreu na catedral macaense em dia da Anunciação, 25 de Março daquele ano.
Em 1983 esteve outra vez nos Açores. Conquanto viesse às ilhas para as rever no seu coração de amantíssimo açoriano e dar um justo repouso às suas forças, D. Arquimínio, pelo contrário, atirou-se ao trabalho em S. Mateus na ausência do pároco.
A 10 de Junho de 1984 D. Arquimínio foi condecorado pelo Governo português com o grau de Grande Oficial da Ordem de Benemerência e em 1986 recebeu o grau de Doutor Honoris Causa em Filosofia pela Universidade da Ásia Oriental de Macau.
Este ilustre acoriano viu o seu pedido de resignação à Diocese de Macau aceite pela Santa Sé a 6 de Outubro de 1988 e, um mês após, a 7 de Novembro de 1988 foi condecorado, agora pelo Presidente da República Portuguesa, com o grau de Grã-Cruz da Ordem de Mérito a 7 de Novembro de 1988 (2) .
Desde Janeiro de 1989 que fixou residência na ilha do Pico, na freguesia de S. Mateus, ocupando o seu tempo na recuperação da quinta que era de seu pai que, após o seu falecimento, ficou abandonada.
O Pe. Tomás Betteecourt Cardoso, que na sua estada em Macau procedeu à recolha de textos de D. Arquimínio (e outros bispos açorianos de Macau) descreve-nos, em Nota Introdutória, a maneira de ser de Arquimínio de forma sucinta e lapidar: "Bispo-Padre. Em Macau, Padre-Bispo; nos Açores é Bispo-Padre. E por isso, óptimo colega. Celebra, confessa, prega, catequiza, senta-se ao harmónio tocando e ensaiando e ensinando, compõe, pacifica, substitui... Serve! É, de facto, óptimo colega!...
"E ainda tem tempo para escrever, respondendo semanalmente no jornal católico da Ilha a quem lhe faz perguntas por escrito."


D. Paulo José Tavares


D. Paulo José Tavares, nasceu na ilha de S. Miguel, na freguesia do Senhor Bom Jesus, em Rabo de Peixe, a 25 de Janeiro de 1920. Feitas as primeiras letras, deu entrada no seminário de Angra, que frequentou desde Setembro de 1931 a Junho de 1941. Ordenou-se em Roma a 24 de Abril de 1943, na Basílica de S. João de Latrão, e, no dia seguinte, celebrou missa nova na Basílica de S. Paulo, extra-muros da Cidade Eterna. Laureado em direito canónico em 1945 pela Universidade Gregoriana, frequentando a Academia Eclesiástica até 1947, ano em que, seguindo a carreira diplomática, ingressou na Secretaria de Estado do Vaticano onde se desempenhou de cargos, primeiro como adido, depois como secretário e auditor e, por último, conselheiro da Nunciatura.
Pelo Papa João XXIII foi D. Paulo José Tavares nomeado bispo de Macau em 24 de Agosto de 1961, cuja sagração decorreu em 21 de Setembro na igreja de Santo António dos Portugueses, na cidade de Roma.
Finalmente tomou posse da sua diocese de Macau por procuração em 22 de Novembro de 1961, na mesma entrando solenemente em 27 desse mês, acompanhado de seu irmão, que ia como seu secretário particular, Pe. dr. Manuel Alfredo Tavares. Nessa longínqua diocese de Macau, onde foi recebido festivamente pelas autoridades religiosas, civis e militares, e em cujo Senado em solene sessão de boas-vindas presidida pelo governador coronel Jaime Silveira Marques, durante a qual lhe foi oferecida uma cruz peitoral e um anel continuou D. Paulo as tradições de outros ilustres prelados, muitos deles nascidos nas plagas açorianas, ali iluminando com o seu saber e inteligência o cristianismo iniciado pelos navegadores e mercadores portugueses do século XVI que então faziam escala na sua abandonada praia. Nesse centro da expansão cristã no Oriente se foram juntando, nos primeiros templos, religiosos idos de Malaca e das Molucas ou fugidos da China e do Japão. Primeiramente sob a jurisdição da diocese do Funchal e depois da de Goa, só em 1576 foi erecto o bispado de Macau por bula de Gregário XII, abrangendo toda a China, Japão e Molucas. Desanexado o Japão no ano de 1588 e a China em 1690, ficou Macau reduzido a Timor e Soler, a que se anexou mais tarde Singapura e Malaca. Timor em 1940 passou a constituir uma nova diocese. Hoje Macau é sufragânea de Goa.
D. Paulo José Tavares tomou parte em todas as sessões do concílio Vaticano II (1962/5), lendo na última sessão o Evangelho da missa. Numa aspiração máxima de todos os cristãos, visitou os Lugares Santos na Palestina. Durante o seu episcopado equiparou a côngrua dos sacerdotes chineses à dos sacerdotes europeus integrados na missão do Padroado Português no Extremo-Oriente. A ele Macau ficou devendo a reorganização das suas paróquias, criou o Conselho das Escolas Católicas, introduziu na diocese os Cursos de Cristandade, o Movimento para Um Mundo Melhor e o dos Focolari. Todos os anos fazia visita às missões portuguesas de Singapura e Malaca, sendo sua preocupação os problemas da educação da juventude e a assistência aos necessitados. Com esta finalidade sociológica deu força a empreendimentos que atestam a sua vincada personalidade, criando ou ampliando dispensários, infantários e escolas. Organizou uma escola de férias e uma feira anual no compound, cujo produto fazia reverter para o ensino mais pobre e para os asilos. No campo espiritual, para o poder convenientemente desenvolver, meteu ombros à construção de uma casa de retiros, destinada especialmente a sacerdotes e religiosos, com quarenta quartos individuais; construiu auditório diocesano, ampliou a igreja de N.ª S.ª da Esperança e fez outras a de N.ª S.ª de Fátima e a de N.ª S.ª das Dores na Leprosaria de Ká Hó. Apoiou D. Paulo a acção das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora dos Anjos, as de Santa Doroteia, as franciscanas de Maria e, a seu convite, foram até Macau as Irmãs Missionárias do Perpétuo Socorro. Outro apostolado, como o das Irmãs de S. Paulo, ali praticou e desenvolveu com a aquiescência do bispo a sua acção nos meios de comunicação social e dirigindo a livraria e biblioteca.
D. Paulo sempre se preocupou com a formação do seu clero. Por essa razão criou os meios necessários para que sacerdotes da sua diocese alcançassem grau universitário em Roma e Manila. Quando deixou de funcionar o seminário maior, os seminaristas concluiram estudos em Hong Kong e em Portugal. Durante os revezes de 1966/7 D. Paulo José Tavares pautou-se pela verticalidade da sua própria vida de sacerdote e de bispo: Manteve-se intransigente na defesa da liberdade das escolas católicas.
Das suas obras, assinala-se a tese que defendeu em direito canónico: A concordata portuguesa de 1940 e a situação jurídica da igreja em Portugal, em alguns dos seus principais aspectos. Infelizmente este prelado faleceu ainda bastante novo, a 12 de Junho e 1973, contando apenas 53 anos, estando em Lisboa, aonde se deslocara em 25 de Abril desse ano, já muito doente, pois desejava participar na Conferência Episcopal da Metrópole que se realizava em Fátima. Dado o seu estado de saúde, não seria conveniente uma tão longa e extenuante viagem, o que lhe fez ver seu próprio irmão o secretário. Mas D. Paulo insistiu e fez-se de viagem assistindo com muita dificuldade a quase todas as reuniões de trabalho. Já no seu regresso de Fátima a Lisboa, na companhia do cardeal patricarca D. António Ribeiro, era tal o seu estado de saúde que ficou internado no Hospital da Cruz Vermelha por não haver vaga no do Ultramar, onde permaneceu até 12 de Junho em cuja madrugada faleceu.

D. José da Costa Nunes

Monsenhor José Machado Lourenço, também missionário no Oriente, que foi secretário e biógrafo dessa eminente figura cardinalícia, que foi D. José da Costa Nunes, disse do seu biografado: "Se houvesse vivido mais quatro anos, teria completado um século de existência esta eminente figura eclesiástica, a maior dos Açores".
D. José nasceu na aprazível ilha do Pico, na freguesia da Candelária, a 15 de Março de 1880. Na Horta, fez o seu exame de admissão aos liceus e em 1893, foi frequentar o Seminário de Angra, onde fez os seus estudos recebendo em 1 de Junho de 1901 a prima tonsura e ordens menores na igreja de S. Francisco anexa ao antigo convento onde a esse tempo se instalava o seminário, conferidas pelo prelado diocesano D. Francisco José Ribeiro Vieira e Brito. Antes de completar teologia, tinha então 23 anos, foi escolhido pelo reitor daquele estabelecimento de ensino religioso, o Senhor D. João Paulino de Azevedo e Castro, que acabava de receber honras prelatícias com a sua nomeação a bispo de Macau, para o acompanhar como seu secretário. Foi um aluno brilhante do Seminário, de feitio vivaz, sabia ser pertinente, decidido e eloquente, ali se moldando com o ensino e na companhia de mestres competentes a "personalidade inconfundível" de que falam os seus biógrafos.
Não estaria nos desígnios de D. José exercer o seu apostolado fora das parcelas açorianas, não fora a ocasião surgida da nomeação de D. João Paulino para prelado da diocese de Macau e da insistência e esperanças que este adivinhava em D. José para o levar consigo como secretário, cargo que, diga-se, foi noutros tempos de uma grande importância para o eclesiástico e social e por vezes disputado com unhas e competências. Não foi o caso vertente, em que o designado procurava eximir-se e o novo bispo, ante a recusa, mais e mais se mostrava empenhado. Machado Lourenço diz apenas isto: "Recusou, mas D. João Paulino insistiu". E foi assim que no mês de Março do ano de 1902 o seminarista José da Costa Nunes fez as suas formais despedidas em Lisboa, deixando parentes, amigos e companheiros de estudo, rumando ao Oriente, à luzida diocese de Macau, farol do cristianismo na fronteira da China, fazendo viagem por Bombaim, Ceilão, Singapura e Malaca.
A ordem presbiteral só veio a recebê-la em Macau das mãos de D. João Paulino a 26 de Julho de 1903, na capela do paço episcopal, celebrando a 31 desse mesmo mês a sua "missa nova" na festa de Santo Inácio, na igreja de Santo Agostinho vindo pouco depois a ser nomeado Missionário do Padroado do Oriente.
Decorridos três anos, uma provisão de D. João Paulino de 14 de Julho de 1906, nomeava-o vigário-geral, enquanto outras ocupações o absorviam quotidianamente, como a directoria do asilo dos órfãos da Santa Casa da Misericórdia, a docência no seminário de S. José, o professorado no liceu daquela velha cidade portuguesa na China. "Nas casas de educação, na cátedra, no púlpito, no confessionário, no jornalismo literário e calmo ou no doutrinário e polémico, nas suas relações sociais, nas tertúlias académicas (havia-as então e distintas) animadas por belos espíritos - Pessanha era um deles - nas salas de conferências, o Pe. Costa Nunes marcava um lugar de relevo, tornava-se mesmo uma figura imprescindível, empolgando a todos com o seu trato lhano e despretensioso e monopolizando quase a conversa por iniciativa dos presentes, encantados com o interesse dos assuntos e presos dos seus lábios, onde a língua portuguesa tornava um jeito característico de graça e simplicidade". (Machado Lourenço, Cardeal D. José da Costa Nunes, in Memoriam, p. 18).
D. João Paulino de Azevedo e Castro seguia com desvelado interesse e naturalmente orgulhoso os triunfos do seu pupilo, e comprazia-se vislumbrando a obra dele no apostolado da Igreja e reflectidamente na sociedade macaense. Foi do Conselho da Instrução Pública e visitador das Missões, indo até Timor e dessa sua primeira viagem deu excelente conta num relatório que vem citado na História da Igreja em Portugal, de Fortunato de Almeida. As suas visitas estenderam-se ainda a Singapura e Malaca.
Já a esse tempo o jovem sacerdote açoriano era particularmente estimado pelos seus dotes de integridade e inteligência. Começava a manifestar-se nele o dom da palavra sagrada: "No Oriente cultivava no púlpito os seus distintos dotes de orador fluente" (Hist. da Igreja). O seu nome era já prestigiado na comunidade e muito aceito nos meios oficiais, exercendo a esse tempo o cargo de governador do bispado, durante as ausências na Europa do prelado da diocese.
Com a I República, que eclodiu em Portugal a 5 de Outubro de 1910, far-se-íam sentir também no Oriente os seus efeitos, por isso, "D. João Paulino viu-se obrigado a passar esses dias calamitosos fora de Macau. Mas tinha a consolação de saber - refere Mons. Lourenço - bem entregue nas mãos firmes do seu vigário-geral o governo da diocese. O Pe. Costa Nunes, nomeado governador do bispado em 3 de Abril de 1907 e de novo em 30 de Novembro de 1910 em que o bispo fora refugiar-se em Cantão por motivo de distúrbios ocorridos em Macau, lutou impertérrito, jamais transigindo quando os direitos e interesses eclesiásticos estavam em causa. A uma personalidade forte juntava as qualidades do diplomata, e logo que a tempestade amainou, quem quer podia ver que era sua a vitória".
Este mesmo autor conta um acontecimento que ocorreu por essa altura, em que Costa Nunes fora convidado para proferir uma conferência no Grémio Militar. Devido ao ambiente carregado pelo 5 de Outubro, foi amigavelmente aconselhado pelo próprio presidente do Grémio a desistir da sua conferência, já que os ventos que corriam em nada eram propícios ao clero e poderiam piorar com a presença da marinhagem. O seu temperamento a um tempo forte e corajoso ditou-lhe o contrário: ir e fazer o seu trabalho. "A conferência realizou-se principiando numa atmosfera carregada de nervosismo. Só o conferente estava calmo, parecia, falou, falou com a maior serenidade e com a sua costumada eloquência, envergando a batina que muito amava. Que triunfo! Os marinheiros, electrizados, aproximaram-se dele e protestaram contra a ideia que deles fizera o presidente do Grémio" (Mons. Lourenço, ob. cit, p. 20).
Este interessante episódio terminou com a declaração, sorridente, do audaz sacerdote açoriano à alta entidade militar: - Revolução haveria, se eu quisesse, com todos os bravos marinheiros ao meu lado!
Noutra ocasião, fruto do desvairamento da hora que passava, houve mesmo a tentativa de assalto ao paço episcopal. Mas, Padre Costa Nunes, recebendo os invasores à porta como quem faz as honras da casa, disse-lhes apenas, calmamente: Só entrarão por cima do meu cadáver!
Por provisão de 1 de Julho de 1911 transferiu-se de Macau para Malaca e dali para Timor em visita a estas Missões por o bispo o não poder fazer.
Falecido D. João Paulino em 1918, coube a D. José o proferir-lhe a oração fúnebre nas solenes exéquias celebradas na diocese macaense. Tinha D. José uma maneira brilhante de escrever, que atraía e empolgava. Este pedaço de prosa recolhido da sua oração sobre ser bonito é sentimental e sem dúvida que toca profundamente o coração humano, como tocaria se lhe pudesse chegar a alma de D. João Paulino:
... e agora lá estás aos pés da Virgem da Gruta, a Virgem dos teus amores, nesse lugar bendito, onde habitualmente eu te, ia encontrar rezando o terço ou recitando o teu breviário.
D. José foi eleito vigário capitular, sede vacante, em sessão do cabido de 22 de Fevereiro desse mesmo ano, embora não pertencesse à corporação capitular, vindo a ser nomeado em 20 de Novembro de 1920 e confirmado em consistório pelo Papa Bento XV em 16 de Dezembro do mesmo ano, bispo de Macau, a que opôs grande resistência, pois apesar do júbilo geral que a notícia causou, D. José tentou por todos os modos sustar a sua nomeação, para tanto se deslocando ao Vaticano. A 14 de Fevereiro de 1921 escrevia ele a D. Aquilos, arcebispo de Tessalónica e ao tempo Núncio Apostólico em Lisboa, esta carta de que se reproduz apenas parte:
Tenho a subida honra de acusar a recepção do Ofício de V Ex.ª Ex.ª Revm.ª, de 16 de Janeiro do corrente ano, participando-me a minha nomeação de bispo da diocese de Macau.
Se por um lado me penhora esta manifestação de benevolência por parte de Sua Santidade elevando-me à alta dignidade episcopal, por outro lado sinto-me profundamente abatido, ao considerar as graves responsabilidades que assumiria, se aceitasse um cargo incomportável com a debilidade das minhas forças.
Assim, deponho nas mãos de Sua Santidade, por intermédio de V Ex." Revm.ª, a minha renúncia, rogando encarecidamente a V Ex.ª se digne usar a sua influência para que a Santa Sé haja por bem aceitar-ma.
Devidamente autorizado por sua Eminência, o Cardeal Secretário de Estado, parto para Roma no próximo mês de Abril a fim de tratar pessoalmente deste assunto, todavia acolho-me à protecção de V Ex. a Revm.ª para que se removam quaisquer obstáculos, que porventura se oponham à aceitação da minha renúncia ....
Uma publicação eclesial revela: "Clero e fiéis se regozijaram com o facto, excepto ele que empregou todos os esforços para se eximir a tão alto cargo, chegando mesmo a ir a Roma para esse fim. Mas Bento XV não cedeu; não podia ceder, porque nesses tempos difíceis, o Pe. Costa Nunes era a pessoa naturalmente indicada para timoneiro daquela nau, que navegava em mares algo tempestuosos. Já dera provas mais que suficientes"
Este novo prelado de Macau veio a ser sagrado na matriz da cidade da Horta, nos Açores, a 20 de Novembro de 1921.
Só meses mais tarde o novo bispo faria a sua entrada solene em Macau, aos 4 de Junho de 1922, para um governo que durou dezoito anos. Esperavam-no imensos problemas criados por situações que haviam conduzido aquela diocese a uma preocupante rotura financeira. Por isso, para começar, teve de confrontar-se com indispensáveis medidas tendentes à revigoração de fontes de riqueza para saneamento das dívidas em aberto e o desenvolvimento das obras escolares, assistenciais e de evangelização, numa diocese enorme, que compreendia não só o território de Macau, mas ainda as ilhas de Taipa e de Coloane, alguns distritos da província de Kuangtung e os seus cinco milhões de habitantes, o Timor português e os isentos de Singapura e Malaca. Mas a sua acção nessa área, jamais poderia ser aquela que fora antes, pois agora como bispo as suas atenções teriam que ser redobradas, dedicando-se aos estabelecimentos de ensino missionário, que disciplinou e melhorou, aumentando o número de matriculados, cuja direcção espiritual viria a entregar à competência dos padres jesuítas, assim como a reitoria do próprio seminário. Outro tanto dedicou ao colégio de meninas de Santa Rosa de Lima, de novo entregue aos cuidados das Franciscanas Missionárias de Maria, que a República havia expurgado para longe. Fundou um colégio para rapazes chineses, Piu Ching, deu nova dimensão aos educadores salesianos, melhorou as condições das Irmãs Canossianas, criou escolas, um mosteiro para carmelitas contemplativas, erigiu capelas, inaugurou a Sé Catedral restaurada, a igreja de Penha, o paço episcopal, estabeleceu a Acção Católica entre chineses e portugueses, conseguiu o baptismo de "algumas centenas, se não milhares de adultos" chinos e difundiu a Missão de Nossa Senhora de Fátima entre milhares de chineses que se refugiavam em Macau. Foi notável a sua organização missionária no interior da China, inspirada em nossos métodos tradicionais, operando-se grande expansão no número dos eclesiásticos e religiosos, multiplicando-se os templos cristãos, as capelas, as residências, as obras escolares e de assistência. D. José acalenta e apoia todas as obras da Igreja, não descura as visitas, que empreende por diversas missões, de algumas ficando para a posteridade documentos fotográficos, hoje preciosos, como daquela vez na Missão dos Padres Jesuítas de Shiu-Hing, ou nas terras timorenses. Os seus propósitos seriam estes: "Animando todas as iniciativas de penetração do bloco gentílico, D. José, muitas vezes com perigo da própria vida, percorria periodicamente essas cidades, vilas e aldeias distantes, nunca duvidando empreender as mais incómodas viagens".
D. José não olvida nunca os seus Açores, e sempre que podia dava uma fugida às ilhas. No ano de 1931, vindo passar um período de descanso, profere no liceu Antero de Quental, em Ponta Delgada, uma conferência sobre o Oriente, considerada como magistral. O Dr. Jerónimo da Costa, que foi reitor daquele estabelecimento de ensino e que ao eminente açoriano dedicou uma interessantíssima monografia, já por mais de uma vez aqui citada, a este propósito assevera: "Em Sua Excelência Reverendíssima há sempre uma saudade a mitigar, um desejo insaciável de pisar novamente aquela encantadora freguesia que o viu nascer, entrar mais uma vez na ilha do Pico, cuja imagem perdura indelevelmente na sua retina; visitar no trajecto algumas ilhas dos Açores, que ele não esquece, já pelas velhas amizades que nasceram na juventude e jamais quebraram o elo pela vida fora, já pelas recordações que a cada passo lhe despertam os templos, os lugares onde Sua Excelência Reverendíssima recebeu as homenagens saídas do coração deste bom povo açoriano que tanto o admira.
"Passado o tempo indispensável ao conserto sólido do organismo, satisfeita mais ou menos a perseguidora saudade da família, da terra e dos amigos, parte novamente Sua Excelência Reverendíssima para a diocese de Macau, via Roma, Canal de Suez, etc.
"A Itália está prestes a entrar no conflito mundial; e Sua Excelência Reverendíssima, achando-se em Roma e já não podendo atravessar o Canal de Suez, percorre o Mediterrâneo, atravessa o estreito de Gibraltar e continua a viagem, que dura meses, contornando toda a África e entrando em Macau em 1940".
Mas em 1945, pisa de novo o solo dos Açores investido já na alta dignidade de Primaz do Oriente. Efectivamente, Pio XII aos 11 de Dezembro de 1940 nomeara-o arcebispo metropolitano de Goa e Damão, com os títulos de Primaz do Oriente, Patriarca das Índias Orientais e arcebispo titular de Granganor.
Passou então D. José da Costa Nunes à Índia portuguesa, tomando posse da arquidiocese aos 18 de Janeiro de 1942, tinha então 61 anos. Mas, "apesar da sua idade e de haver trabalhado arduamente, D. José levava para o seu novo posto um vigor físico e mental invejável por muitos muito mais jovens, fruto de uma vida regrada e metódica - mesa frugal, repouso nocturno a tempo e horas, exercícios corporais diários, passeios quotidianos, a pé, de, pelo menos, 3 quilómetros e corte radical com o tabaco desde 1925".
A 10 de Fevereiro de 1942 Goa presta a "maior e mais significativa homenagem" ao eminente patriarca, que decorre no Instituto Vasco da Gama, importante centro cultural da Índia portuguesa, do qual D. José era sócio honorário desde 1937.
Durante a permanência em Goa do arcebispo açoriano, soube habilmente desenvolver no seu governo um conjunto de acções de envergadura, tais como, o apostolado dos beneméritos confrades de S. Vicente de Paulo, o montepio do clero, o sínodo, a melhoria do nível intelectual no seminário, que já se revelava como o mais alto de todos os seminários da Índia, as recomendações ao clero para que tornasse mais frutuoso o ministério, melhoramento de escolas paroquiais, o ensino da arte musical de que tanto se agradavam os goeses, a criação de escola de aprendizagem de ofícios, que vingou sob a direcção dos Padres Salesianos, as novas orientações à Sociedade Missionária de São Francisco Xavier, a fundação de duas congregações femininas, uma casa de protecção à mulher, o lar estudantil de Pangim, são alguns dos actos da eficiente administração de D. José na Sé arquiepiscopal de Goa.
Os efeitos desse extremoso trabalho ressaltam de certo modo nesta síntese do punho do Dr. George Moraes, goês e professor em Bombaim, citado por Mons. M. Lourenço, que saíu no Heraldo de Goa após a morte do patriarca: - "Os efeitos da benéfica acção sentiam-se dentro e fora de Goa, entre cristãos e hindus, dando em resultado o geral reconhecimento da sua obra, mesmo nos meios mais insuspeitos". E noutro período, acrescenta: "... certamente não morrerá na memória dum povo que ele ajudou a transformar-se numa das mais importantes comunidades da índia hodierna. Ele viverá para sempre na sua grata recordação".
Entre tantas e tão apreciadas obras de beneficência, a influência do seu espírito criador vai até o Pico, sua terra natal e sempre muito aconchegada do seu coração de açoriano, onde foi fundada uma notável obra de educação infantil.
O Governo de Portugal, reconhecendo-lhe os méritos, condecorou-o a 3 de Julho de 1946 com a Gran-Cruz da Ordem do Império Colonial, por decreto de 3 de Junho desse mesmo ano. Foi cidadão benemérito de Macau por proposta do respectivo município.
A 16 de Dezembro de 1953, "após meio século de actividade no oriente", renunciou D. José ao seu elevado cargo, ficando desde então com o título de patriarca e arcebispo de Odesso, ingressando na Cúria Romana como vice-carmelengo da Santa Igreja, passando a residir em Roma, onde, aliás, se sentia bem. Tinha 74 anos sãos de "corpo e de espírito".
Nove anos depois, a 19 de Março de 1962, foi elevado ao cardinalato, do título de Santa Prisca, por Sua Santidade João XXIII, facto a que se referiu o Boletim Eclesiástico dos Açores do ano de 1962, nos termos seguintes: - "Mas a obra de organização eclesiástica e de desenvolvimento missionário, realizada em Macau, apontava-o naturalmente para um posto mais alto para onde essas mesmas qualidades o recomendavam. S. Ex.ª Revm.ª não desiludiu a Santa Sé, e o que fez em Goa - por si só honroso galardão de uma vida completamente dedicada ao serviço da Igreja e da Pátria - mereceu-lhe a ascensão ao cardinalato, após alguns anos de residência em Roma, onde continuou a prestar relevantes serviços como presidente permanente dos Congressos Eucarísticos Internacionais, consultor de várias congregações romanas e vice-carmelengo da Santa Igreja". Mais tarde o Santo Padre incumbiu-o de outros elevados misteres como o de consultor das Sagradas Congregações Romanas, da disciplina dos Sacramentos, da do Concílio, da dos Religiosos da Fé, da dos Negócios Eclesiásticos Extraordinários, tendo ainda sido membro da Comissão Central Preparatória do Concílio Fcuménico.
Monsenhor Lourenço, que tão bem traçou a biografia desta grande figura eclesiástica, ele próprio tinha larga folha como missionário do Oriente, privando tão de perto com D. José, sabia muitas e curiosas histórias e no seu livro conta esta passagem, que daria lugar à nomeação do novo purpurado.
Quem é aquele bispo, de barbas, que vejo à minha frente nas cerimónias religiosas da Basílica? perguntou o Sumo Pontífice.
Disseram-lhe quem era. Apetece-me conceder-lhe púrpura cardinalícia no próximo consistório. Mas, Santo Padre, está completo o número previsto... - Pois façamos mais um!
A 16 de Março de 1970, D. José escreve o seu Testamento Espiritual, peça importante que se reproduz na íntegra:
Fiz ontem 90 anos. De joelhos agradeço a Deus os benefícios que me concedeu durante tão longa vida e peço-Lhe perdão das infidelidades sem conta que cometi e da suprema ingratidão com que correspondi às Suas graças.
Tantas coisas que fiz e não devia ter feito! Quantas outras que não fiz e devia fazer! Confi-o, porém, na misericórdia divina, infinitamente maior do que as minhas misérias. Nascido no seio de uma família modesta mas rica de sentimentos religiosos, desejei desde criança ser padre. Para realizar esta aspiração, que meus Venerandos Pais também alimentavam, alguns obstáculos tive de vencer.
Ao aproximar-se a data da minha ordenação, o Reitor do meu seminário, eleito Bispo de Macau, convidou-me a acompanhá-lo como seu secretário. Foi assim que a minha vida eclesiástica se encaminhou para as Missões do padroado Português do Oriente, onde exerci o meu ministério por espaço de 50 anos.
Quando já a minha idade avançada aconselhava a retirar-me da vida activa, Sua Santidade Pio XII colocou-me na Cúria Romana. Penaliza-me ter sido um fraco elemento junto do Soberano Pontífice, pois afeito a assuntos missionários e em contacto permanente com o mundo asiático, sentia-me impreparado para o meio burocrático do Vaticano. Contudo, a bondade do Papa João XXIII quis distinguir-me com a nomeação de Cardeal.
Quando olho para o meu passado, vejo traçada uma linha bem diversa da que eu premeditava. E foi essa que tive de percorrer. Considerando-a já totalmente percorrida, pois julgo encerrado o ciclo da minha frágil actividade, peço ao Senhor me chame numa hora boa. Santo Arsénio, que morreu no deserto com 120 anos de grande penitência, tremia ao pensar nas contas a dar no Tribunal Divino. Eu não tremo, pois, não obstante tantas fraquezas, confio plenamente na misericórdia do Senhor. Este meu sentir não é filho, creio de condenável presunção, antes inspirado pela certeza de que Deus espera na eternidade, de braços abertos, todos os pecadores arrependidos e todos os que O amaram na vida.
Tendo ocupado, quase desde o começo da minha vida sacerdotal, cargos de mando, terei cometido erros e magoado subordinados, mas sirva-me de conforto a ideia de ter procurado sempre cumprir o que me era imposto e nunca haver ofendido voluntariamente o pessoal eclesiástico ou não eclesiástico, que de mim dependia. De ninguém conservo má disposição e a todos peço me perdoem. O meu pensamento nesta hora volve-se para as dioceses do Oriente, que pastoreei. Ligado a pessoas e instituições, nunca esqueci essas terras distantes, que ainda hoje vivem bem perto do meu coração é do meu espírito.
Apaixonei-me pelas Missões, pelas obras de tantos Operários da Vinha, realizadas no campo do apostolado, e pelas recordações que os antigos portugueses deixaram nesses países longínquos. O tempo, que tudo gasta, vai respeitando muitas dessas tradições nacionais, marcadas quase todas por um cunho acentuadamente religioso.
Ao percorrer em serviço das Missões essas regiões orientais, notava que ordinariamente as populações nativas viviam em relativa paz, mas hoje, em muitas delas, reina a desordem e predomina a violência. Que o Senhor traga a paz para esses povos e que a Igreja possa espalhar livremente, por tão vastas regiões, o Evangelho, única garantia de levantamento moral e material dessas populações oprimidas.
Entre as poucas obras que saíram das minhas mãos, uma há que me merece cuidado especial: a Casa de S. José, fundada na minha terra natal. Quis assim perpetuar a memória de meus Saudosos Pais, que tantos exemplos de virtude deram em toda a sua vida. Quis também beneficiar o povo da Candeláfia, no meio do qual me orgulho de ter nascido.
A Casa de S. José, em boa hora confiada às Beneméritas Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, muitos benefícios já espalhou e está espalhando entre os habitantes desta povoação e outras povoações da ilha do Pico.
Não tendo outros bens a deixar, deixo esta instituição à gente da terra onde nasci, esperando que todos a amparem como obra de grande utilidade sobretudo para as gerações novas.
Ignoro o dia e local do meu passamento, contudo desejo ser sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma se falecer na Itália, no cemitério da Horta, junto de meus Pais, se morrer em Portugal.
Ao terminar, o meu pensamento foge para junto do Santo Padre, que nesta hora grave dirige os destinos da Santa Igreja, com suma prudência e firmeza.
Prestando-Lhe os meus sentimentos de submissão e amor filial, peço ao Senhor O ilumine e fortaleça, para que possa continuar no seu posto por largos anos, servindo a Causa de Deus e os interesses desta sociedade que o espírito do Mal agita e arrasta para a revolução e a morte. Recomendando-me às orações de todos, espero exalar o último suspiro sempre unido à Cátedra de Pedro e sempre esperando na bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio ao mundo para salvar os pecadores, venit in hune mundum peceatores salvos facere, no dizer de S. Paulo. O Boletim Eclesiástico dos Açores assinalando as Bodas de Ouro da Sagração Episcopal de D. José, fá-lo com a convicção de que na "jerarquia eclesiástica foi o açoriano que mais alto subiu". E diz mais: - "Por todas as qualidades e virtudes que o exornam, é indubitavelmente um dos maiores Açorianos de todos os tempos. Foi certamente por isso que o diário micaelense Correio dos Açores, propôs que todos os municípios açorianos o proclamassem cidadão honorário, ideia muito bem aceita no arquipéiago"
.
Já enfermo e internado na clínica Madonna di Fatima, foi visitado em 13 de Agosto de 1976 pelo Papa Paulo VI, que se deslocou expressamente da sua residência de verão, em Castelgandolfo, onde então estava, à cidade de Roma para estar um pouco com ele e o confortar.


Estava prestes a extinguir-se uma vida que tinha sido multi-facetada e de invulgar ascenção. Muito jovem ainda D. José mostrou-se interessado pelo jornalismo onde já se estreara, quando seminarista, em A Voz, folha editada na vila da Madalena, no Pico, vindo a fundar em Macau a Revista Oriente. Mas a sua colaboração estendeu-se a outras publicações portuguesas e estrangeiras, onde era apreciado o seu estilo elegante, deixou muitas instruções, pastorais, cartas magistrais ao clero e conferências a "exigentes auditórios".
Das suas obras que se apontam como já publicadas, mencione-se: Saudação pastoral (1922); O padroado português no oriente (1922); Cartas aos sacerdotes da arquidiocese de Goa, Lx.ª 1947. Faleceu a 9 de Novembro de 1976, tinha então 96 anos "no que bem mostrou a resistência de Homem do Pico". O órgão do Vaticano descreveu sinteticamente a morte que enlutou o coração dos católicos portugueses, especialmente o dos açorianos seus chorosos conterrâneos.

D. João Paulino de Azevedo e Castro

Este bispo de Macau nasceu em 4 de Fevereiro de 1852, na Vila das Lajes da Ilha do Pico. Fez os seus preparatórios durante os anos de 1869 a 1874 no liceu da Horta (ilha do Faial) e veio a concluir formatura em teologia no ano de 1879 na vetusta Universidade de Coimbra, recebendo, também, ordens religiosas. Na poética cidade do Mondego era João Paulino sobejamente conhecido não só pelas suas qualidades como, também por uma enorme barba que usava, a longa barba paulina".
Varão de grandes virtudes e de enorme bondade, sempre aberto aos outros, virtuoso, dedicado aos estudos, tendo feito a instrução primária na sua terra de nascimento, o liceu da Horta, e, depois o seminário e a Universidade de Coimbra, onde se formou em teologia. Naquela antiqiússima urbe universitária houve toda a instrução sacerdotal, ali mesmo recebendo as ordens eclesiásticas menos a de presbítero, que só viria a receber na cidade de Angra do Heroísmo aos 31 de Agosto de 1879, que lhe foi conferida pelo bispo diocesano D. João Maria Pereira do Amaral e Pimentel. Demos, porém, a palavra a quem o conheceu bem de perto.
Nesse mesmo ano, o egrégio sacerdote que tanto haveria de se distinguir veio a exercer o professorado eclesial no seminário diocesano de Angra, a convite do virtuoso bispo D. João Maria, onde regeu as cadeiras de teologia dogmática, sacramento e moral, história eclesiástica, direito canónico, geografia e história geral, francês e, também, filosofia.
Vice-reitor do seminário, passou a reitor em 1888 contribuindo durante todo esse tempo para os créditos e respeitabilidade de tal estabelecimento de formação eclesiástica. Desempenhou-se por essa altura de outros cargos de responsabilidade social, havendo sido presidente da comissão administrativa do Asilo de Mendicidade de Angra do Heroísmo (1894-1902), director do Boletim Eclesiástico dos Açores, onde evidenciou dotes de capacidade e discernimento em assuntos de direito canónico e civil.
Foi este distinto sacerdote apresentado cónego da Sé de Angra (1889), mais tarde investido na dignidade de tesoureiro-mor (1890) e, depois ainda, elevado a arcediago (1901) dignidade de que não tomaria posse por entretanto haver aparecido a sua designação para a mitra de Macau. Examinador prosinodal, dedicou-se aos problemas do Seminário de Angra, de que era, aliás, reitor e professor, devendo-se-lhe a criação do Museu de História Natural, que obteve importantes espécimes. Enfim, "... era uma das figuras eclesiásticas mais distintas de então, desempenhando vários cargos de responsabilidade e de honra".
Com tantas e excelentes qualidades morais e de serviço, a sua elevação a bispo de Macau foi um acto, como já alguém disse, agradavelmente esperado. Monsenhor cónego Ferreira, revela-nos que "Angra toda, a começar pela sua sociedade mais distinta, tinha pelo preclaro sacerdote a maior estima e simpatia, o que se revelou a flux por ocasião da sua elevação ao episcopado". Leão XIII assim o confirmou por bula de 9 de Junho de 1902. A sua sagração efectuou-se a 27 do mês de Dezembro desse ano, na igreja do antigo convento de S. Francisco de Angra, então anexada ao seminário, sendo sagrante o bispo diocesano D. José Manuel de Carvalho, transferido do bispado de Macau para o dos Açores. Um seu contemporâneo recordou-lhe o dia solene da sagração: "Está ainda viva na lembrança de toda essa festa memorável, a primeira que se viu nesta cidade, e que em todos despertou as mais consoladoras impressões, que muito tarde se apagarão".
O acto solene da sagração deste bispo vem descrito no Boletim Eclesiástico dos Açores, que aqui o fixamos, já pelo que representa no descritivo solene da sagração de um prelado católico, já por ser a primeira vez que na cidade de Angra se assistiu a um cerimonial prelatício.
Realizou-se no dia 27 de Dezembro último, na majestosa igreja de S. Francisco, a sagração do Exm.º e Revm.º Sr. D. João Paulino de Azevedo e Castro, bispo de Macau.
Foi bispo sagrante o Exm.º e Revm.º Prelado de Angra.
A escolha da igreja do Seminário para este imponente acto representa mais uma amável gentileza do ilustre Prelado para com aquele estabelecimento que Sua Exª a Revm.ª dirigiu durante longos anos na qualidade de vice-reitor, desenvolvendo primores de fervoroso zelo e inexcedível dedicação.
Por autoridade apostólica podiam os bispos ser substituídos por dois presbíteros constituídos em dignidade ou oficio eclesiástico sendo convidados para este fim os Rvm.ºs deão José dos Reis Fisher e cónego António Maria Ferreira. Foi devido a esta circunstância que a cidade d' Angra poude, pela primeira vez, presenciar a sagração de um bispo.
O anel episcopal, bento no acto da sagração, e uma bela esmeralda engastada em ouro, valiosa oferta das zeladores do Apostolado da Oração de que Sua Exª Rvm.ª foi zelosíssimo Director. Uma das salvas de prata empregadas no serviço do Exm.º e Rvm.º Bispo de Macau foi uma mimosa dádiva dos seus queridos seminaristas que também empregaram todos os esforços para que a ornamentação do templo correspondesse à solenidade do acto. E na verdade, a igreja de S. Francisco, que é uma das melhores e mais vastas da cidade, estava magnificamente decorada, tendo-se improvisado duas grandes tribunas, uma para damas e outra para sacerdotes, tomando os cavalheiros assento no cruzeiro.
Cumpriu-se à risca o Pontifical Romano sob a direcção dos hábeis mestres de cerimónias Rvd.ºs Beneficiados da Sé Manuel Vaz Diniz e Eduardo de Sousa Marques.
As suas últimas despedidas fizeram-se em Angra no dia 6 de Fevereiro de 1902, data em que embarcou. No Continente interessou-se junto do Ministério do Ultramar pelos negócios pendentes da sua cúria, deixando o torrão lusíada em 23 de Março com destino a Lurdes e Roma. Na cidade Eterna foi recebido em audiência particular pelo Sumo Pontífice Leão XIII. De Roma dirigiu-se a Bombaim e dali a Macau, numa viagem necessariamente incómoda por ser longa, todavia, bem sucedida. Malaca e Singapura ficaram-lhe no percurso e teve assim ensejo de estabelecer os primeiros laços com os fiéis sob a sua jurisdição episcopal.
No dizer de Mons. Ferreira, encontrava-se o ilustre prelado açoriano à data de 4 de Julho no porto de Macau, aprestando-se para as honrosas cerimónias com que ali fora recebido, desvanecedoramente pelo clero, pelas autoridades e povo que o aguardavam no maior júbilo. Tomou D. João Paulino posse da sua cadeira episcopal em 16 de Fevereiro do ano seguinte de 1903, ano em que chegou à sua diocese, onde o aguardavam alguns problemas de importância, aos quais procurou devida e eficientemente solucionar. Um dos primeiros casos que se lhe antepôs foi a questão determinada pela Sagrada Congregação de Propaganda, em que os Governos de Portugal e de França estavam interessados na fixação de novas delimitações à diocese de Macau e Prefeitura Apostólica de Cantão. Por esses novos limites ficava a Prefeitura com a ilha de Haináo, passando a pertencer à porção territorial do bispado macaense o distrito de Cian-Quim, junto da ilha de Hião-Chão. Perante as actividades dúbias do Governo francês e da prefeitura apostólica cantonense, houve D. João Paulino que assumir atitude diz-se que enérgica e patriótica, habilitando o Governo português a reclamar da Santa Sé.
D. João Paulino, nesse mesmo dia, deu entrada solene na diocese macaense, "revestindo esse acto todo o esplendor e brilho", assaz, precedido por uma fama muito grande dos dotes e capacidade do novo prelado, que em nada desmentiram as faculdades do distinto picoense, que se dedicou exaustivamente ao governo diocesano, criando novas missões, colégios, novas aulas no principal estabelecimento de Macau, que era o seminário para a formação dos valores ao serviço de cristandade no oriente, a sua inexcedível actividade e carinho com que presidiu ao Conselho governativo da província de Macau, na ausência do governador, as suas idas missionárias a Timor, Malaca, Singapura e Hainan.
Com ele levou de Angra, como seu secretário particular, o seminarista-teólogo José da Costa Nunes, seu compatrício do Pico, e que haveria de lhe suceder na cadeira episcopal daquela diocese portuguesa no Extremo Oriente.
Um outro facto de extrema importância que atraiu as atenções de D. João Paulino, como novo bispo de Macau, foi fundar em 17 de Julho de 1903 o Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, que viria a ser apelidado o rei dos boletins.
No ano de 1904 visitou pastoralmente as missões do Estreito, benzendo em 1 de Agosto desse ano a primeira pedra da igreja de São José de Singapura, com acesso aos fieis só em 1912. Visitou também Timor em 1905, e no ano imediato conseguiu que os Salesianos penetrassem na diocese macaense, aos quais confiou a direcção do orfanato da Imaculada Conceição, de que foi primeiro director D. Luís Versíglio depois bispo de Shiu-Show e mártir. A estes mesmos religiosos entregou D. João Paulino a missão do distrito de Heung-Sán. Já em 1907, por sua influência, o Vaticano anuiu à troca de Hainan por Shui-Hing, que passou à jurisdição de Macau e que viria mais tarde (1913) a ser dividida em duas missões, sendo a do norte à conta dos jesuítas e a do sul ao apostolado dos padres seculares.
Macau não foi avara ao seu pastor, antes vinculou-lhe o nome ilustre a uma artéria que se ficou denominando para a Posteridade Estrada D. João Paulino.
A morte arrebatou-o a 17 de Fevereiro de 1918, estava ele na sua diocese de Macau e residência da Penha, onde permaneceu durante cerca de quinze anos, tendo de idade 66 anos. O egrégio prelado que na longínqua terra de Macau teria sentido os efeitos da devastadora 1 Grande Guerra, teria em mente, uma vez terminada essa terrível conflagração, o regresso ao rincão açórico ao sabor de uma infinita saudade. Em 6 de Fevereiro de 1923 foram os seus restos mortais trasladados para o lugar do seu nascimento, as Lajes do Pico.


D. Manuel Bernardo de Sousa Enes


Foi o segundo bispo nascido na ilha de S. Jorge. D. Manuel Bernardo de Sousa Enes abriu os olhos para o mundo na então Vila do Topo, ilha de S. Jorge, a 5 de Novembro de 1814. Começou o futuro bispo os seus estudos primários aos oito anos de idade no convento de São Diogo, da ordem franciscana, no Topo. Tinha dez anos quando recebeu o hábito de pupilo, aos dezasseis era admitido ao estado da regra de S. Francisco, professando em 1831.
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, havia no convento franciscano do Topo 12 internos, dos quais seis eram presbíteros.
Sentindo-se habilitado concorreu a professor da escola de Santa Bárbara e nela foi provido em Agosto de 1835, para ali se mudando com o seu velho amigo a habitar uma casa na Ribeira das Seis. Não durou muito o seu exercício como professor régio, porque em 1837 fez entrada como praticante no escritório do ilustre causídico, espírito superior e letrado, que era o Dr. António Monis Barreto Corte Real, interessando-se nessa fase da sua vida pela advocacia, que, mercê do seu talento, dois anos mais tarde, em 1839, começou a advogar.
Como tantíssimos outros açorianos, o Brasil seria para ele a miragem e o potencial fogoso das ambições do emigrante ilhéu. Para lá se orientaram os seus planos. No mês de Setembro de 1840 vai de curta visita aos pais a S. Jorge e a 12 de Outubro tomava o brigue brasileiro, o Nova Saúde, num adeus demorado.
O deambular do Padre Manuel Bernardo, não para aqui. Volta em 1849 a Portugal, onde chega em princípios de Setembro após demorada e tormentosa viagem, alcançando Coimbra onde fez rápidos preparativos demandando primeiramente a Figueira e depois Coimbra. Na velha Universidade se matriculou no 1.o ano da faculdade de teologia. Fez um curso brilhante, galardoado no primeiro e no quarto ano e se mais distinções não lhe foram atribuídas, foi causa e incidente da revolta estudantil por ocasião de certa entrudada, o que levou os conselhos das faculdades a suspenderem a atribuição de prémios aos alunos. Convidado a reger cadeira de teologia, defendeu teses a 13 de Junho de 1857, obtendo licenciatura em 25 de Junho e o grau de doutor em 16 de Julho do mesmo ano. Foi assim nomeado lente substituto a 10 de Maio de 1861 ascendendo à cátedra universitária em Agosto de 1872.
No ano de 1855 o Padre Manuel Bernardo de Sousa Enes, acompanhado de um seu amigo e conterrâneo, o jorgense Joaquim Teixeira Brasil, fez uma visita de saudade às Doze Ribeiras e à família do seu mestre José Lourenço da Rocha.
O seu afã na docência estendia-se ainda ao seminário diocesano de Coimbra, onde, desde 1871 a 1873, deu aulas de direito natural, teologia moral, direito canónico e dogmático especial. O distinto açoriano havia adquirido pelo seu esforço, corajoso e insano, uma projecção elevada no meio eclesiástico. A sua posição de homem de inteligência e saber rapidamente invadira a terra açoriana, a ponto de os seus conterrâneos jorgenses o haverem convidado a paroquiar o Topo. Demos a palavra ao Pe. Azevedo da Cunha que nas suas Notas Históricas, diz: "em 1853 ainda não aspirava à mitra, porquanto achando-se vaga a igreja de N.a S.a do Rosário da Vila do Topo, por falecimento do vigário Pe. Ambrósio Constantino Pacheco da Silveira, os principais cavalheiros do Topo dirigiram-se-lhe em carta colectiva, rogando-lhe desse ao Topo a honra de vir pastorear sua população. Respondeu que eram esses os seus desejos. Esta pretensão, porém, foi prejudicada pela nomeação de vigário do Pe. Francisco Monteiro de Amorim, natural de Santa Rosa daquela freguesia e filho de João Lopes de Amorim, natural de Angra".
Foi apresentado bispo de Macau por decreto de 25 de Junho de 1873, confirmado um ano depois, a 15 de Junho de 1874. As cerimónias da sua sagração fizeram-se a 27 de dezembro deste mesmo ano na igreja de Santa Maria Madalena, em Lisboa. Só em 9 de Novembro de 1876 se embarcou, indo por Espanha e Marselha, a tomar posse dá sua cadeira episcopal na diocese macaense, onde chegou no 1.c) do ano de 1877. Acompanhavam-no nessa viagem seu sobrinho Dr. José Joaquim de Azevedo Enes, que ia como delegado do Ministério Público para Goa, o Pe. Francisco da Ponte, seu secretário, natural do Topo e seu sobrinho e mais seis padres missionários. Foi o primeiro açoriano a ser nomeado para o sólio episcopal de Macau, antiga cidade do Nome de Deus na China ou do Santo Nome de Deus de Macau na China, situada a sul do Celeste Império.
Experiente como era no ensino, deve-lhe o bispado do Santo Nome de Macau as remodelações do Recolhimento de Santa Rosa de Lima, num digno colégio para instrução e educação de meninas, para cuja docência nomeou professores capazes para dele' e fazer um dos melhores estabelecimentos de educação naquele tempo na Ásia. Junto ao colégio fundou uma instituição de beneficência que haveria de ter grande importância para os portugueses fixados nas paragens do Extremo-Oriente. Procedeu a restauras da Sé de Macau, assim como do seminário onde fez sua aposentadoria durante todo o tempo que ali esteve, pois o paço episcopal, se bem que existente, estava inabitável e necessitado de obras havia uns quinze anos.
A bula Universis orbis ecelesiis, com data de 15 de Junho de 1874, deu uma nova delimitação territorial ao bispado macaense juntando-lhe o Timor português. Adentro das novas perspectivas da Igreja, foi logo preocupação imediata de D. Manuel Bernardo de Sousa Enes dar existência palpável às missões de Haynan e às de Timor, beneficiando estas de esplêndido desenvolvimento. Durante o seu governo, foi presidente do Conselho Governativo de Macau e Timor, presidente da Comissão Directora do Colégio de Santa Rosa de Lima e reitor do seminário diocesano. Em Maio de 1879 convidou o clero a assistir ao desembarque do general Gran@ presidente dos Estados Unidos. O ferro também quebra, diz o nosso povo. Foi quanto aconteceu a D. Manuel Bernardo, que voltou a sentir-se doente e, por essa razão, desejou voltar à terra portuguesa. As dificuldades de ser substituído impediram o seu breve regresso, deixando-se por lá ficar até 10 de Março de 1883, data em que retornou à Europa. Nessa altura difundiu no Jornal macaense a sua pastoral de despedida, com data de 8 daquele mês.
Bragança foi a sua nova etapa.
Todavia, Bragança e Mirandela não eram os lugares da eleição do bispo Sousa Enes por motivos de saúde. O clima gélido do norte aumentava-lhe os sofrimentos. A vacância da diocese de Portalegre, permitiram-lhe ser para ali nomeado por decreto de 24 de Junho de 1885, já muito doente, a ponto de vir a falecer dois anos depois, a 8 de Setembro de 1887.

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