terça-feira, 13 de abril de 2021

Emissão de 5 patacas em 1981 - coleccionadores

Estamos perante uma edição especial preparada para coleccionadores.  A emissão foi feita, propositadamente, por ser auspicioso na cultura chinesa, a 8.8.1981
Em 1980 a responsabilidade de emitir notas passou para o Instituto Emissor de Macau (IEM) que, entretanto, autorizou o BNU a continuar a emitir patacas.
Para os coleccionadores existe a particularidade de neste nota existirem pelo menos cinco assinaturas diferentes do "conselho de gestão".
Na frente o "templo chinês da Barra"
No verso uma ilustração da Baía da Praia Grande no século XIX 
(comum ao verso da emissão de outros valores nesse ano)

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Refugees Escape

A fuga em massa de chineses da China Continental para Hong Kong e Macau foi uma constante durantes as décadas de 1950 a 1970, fruto das convulsões políticas e sociais vividas na China na sequência da subida ao poder do partido comunista em 1949 e depois da  chamada "revolução cultural". Os jornais de todo o mundo fizeram eco desses acontecimentos como se pode verificar nalguns recortes de 1958 a 1972 que seleccionei para este post.
Macao. Wed. - One escapee from China drowned yesterday and another will be handed back to Chinese Communist authorities, police said today. The two tried to swim from China's Chungshang County to Macau, a two-mile crossing. AP.
New Straits Times, 17.10.1972
The Leader-Post 30 Jan 1967
The News-Dispatch 27 Dez 1967
The Telegraph 16 Jun 1965
Pittsburgh Post-Gazette 9 Out 1962
Lewiston Morning Tribune 3 Jul 1962
Sarasota Herald-Tribune 21 Jun 1962
Jornal do Brasil 1 Jun 1962
Lewiston Morning Tribune 21 Nov 1959
The Spokesman-Review 28.3.1958

domingo, 11 de abril de 2021

sábado, 10 de abril de 2021

Lin Kai Miu

O Lin Kai Miu (Pagode de Lin Kai) fica na Travessa da Corda (zona do Patane) junto ao antigo Cinema Alegria. 
Construído cerca de 1830, reconstruído e ampliado entre 1875 e 1908, é dedicado a várias 
divindades:  Choi Bak, Deus da Riqueza, Va Kuong, Deus do Fogo, Kun Iam, a Deusa da Misericórdia, Kuan Tai, Deus da Guerra e das Riquezas, Tai Soi, deuses do Ano, e aos Dezoito Loahans ou Arahats.
 




sexta-feira, 9 de abril de 2021

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Jorge Paulo Sacadura Almeida Coelho (1954-2021)

Jorge Paulo Sacadura Almeida Coelho morreu esta quarta-feira na Figueira da Foz. Nasceu em Viseu em 1954. Licenciou-se em Gestão de Empresas e estreou-se na política na UDT. Em 1982 filiou-se no Partido Socialista onde viria a ser um destacado militante. Foi ainda deputado, ministro e conselheiro de Estado.
A carreira como governante começou no cargo de chefe de gabinete do secretário de estado dos Transportes (Francisco Murteira Nabo, que viria a ser Governador interino de Macau) de 1983 a 1985. 
Em 1988 foi nomeado chefe de gabinete do secretário de estado adjunto dos Assuntos Sociais, Educação e Juventude do Governo de Macau, cargo que desempenhou até 1991.
JC em Portugal numa fotografia de Daniel Rocha

Nos dois governos liderados por António Guterres, primeiro acumulou os cargos de Ministro Adjunto e Ministro da Administração Interna e depois Ministro do Estado e do Equipamento Social, cargo do qual se demitiu em Março de 2001 após a queda parcial da ponte que liga Entre-os-Rios e Castelo de Paiva, que provocou mais de 60 mortos.
Foi ainda comentador político na televisão e desde 2008 foi Presidente da Comissão Executiva da Mota-Engil, membro do Conselho Consultivo do Banco de Investimento Global (BIG), Presidente da Assembleia Geral da Sociedade das Águas da Curia e Presidente da Assembleia Geral do Maratona Clube de Portugal.
Fernando Esteves, autor de uma biografia não autorizada de Jorge Coelho ("Jorge Coelho, o Todo-Poderoso”), mas para a qual o biografado aceitou colaborar na condição de "de não a ler previamente ou interferir na sua construção", passou por Macau em Maio de 2014 e foi entrevistado pelo jornal Ponto Final.
"Acho que a passagem dele pelo Governo de Macau não é decisiva. Apesar de tudo foi uma figura secundária. Teve numa pasta importante [secretário-adjunto para a Educação e Administração Pública], mas não essencial e esteve pouco tempo. Não acho que tenha deixado uma marca indelével no território como deixou em Portugal. Cimentou uma aura de competência e combatividade, importante para ganhar espaço no PS. Veio para cá como militante anónimo e voltou como membro do Governo [ministro-adjunto de António Guterres]."
Na entrevista o autor do livro  recordou ainda um episódio em que Jorge Coelho ficaria conhecido como "o bombeiro". A imagem ao lado é de Macau em 1990 e tem por base uma foto de Alfredo Cunha.
"Ontem passei à frente do antigo Palácio do Governador. Abro o capítulo sobre Macau com um episódio épico da passagem do Jorge Coelho por aqui, que cimentou a alcunha dele de “bombeiro”. É uma manifestação de 2500 polícias à frente do Palácio sob uma chuva tremenda. Eles manifestavam-se pelo facto de os outros funcionários públicos terem sido aumentados e eles não. O Governo entrou em pânico e ninguém teve coragem de encarar a multidão. Aquilo estava muito complicado. Os polícias ameaçavam invadir o Palácio. Entretanto as autoridades chinesas já tinham uma força de intervenção pronta a entrar no território e é Jorge Coelho que salva a situação. Ele estava a passar pelo Palácio a caminho de casa e eles falam-lhe da possibilidade de os chineses irem lá limpar aquilo [um representante dos chineses no território disse que estavam 5000 militares na fronteira à espera de avançar]. E ele diz: “No momento em que deixarmos que os chineses venham aqui, a nossa presença deixa de fazer sentido. Estamos a admitir que não somos capazes de administrar o território. Vamos ter de ser nós a resolver”. Então vai para a frente do Palácio, sobe a um carro com um megafone [e tradutor ao lado] e começa aos berros naquele estilo bélico dele e quando acabou de falar vê que a multidão dispersou."

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Rua do Peixe Salgado

Pequena rua entre a Calçada da Barra e a Rua do Almirante Sérgio, a Rua do Peixe Salgado tem fortes raízes na história de Macau. Dá ainda acesso ao Beco do Peixe Salgado.

Foto de Neves Catela: década 1930
"Productos nativos de Macau
O limitado territorio da peninsula produz apenas hortaliças, fructas e pequeno numero de animaes domesticos dos que servem de alimentação ao homem; as vitualhas que apparecem no bazar ou mercado veem das ilhas proximas. A classe pobre alimenta se as mais das vezes de arroz, carne de porco, peixe salgado e hortaliças."
"Macau", Bento da França. 1890

terça-feira, 6 de abril de 2021

Parecer sobre compra/aforamento de terrenos para estrangeiros: 1846

"[Parecer] em virtude da Portaria do Ministerio da Marinha de 5 de Setembro de 1846 sobre a pertenção de alguns Estrangeiros ácerca da compra o aforamento de terrenos para cazas em Macáu" 
Lisboa, 5 Outubro 1846
No parecer de três páginas, o Procurador-Geral da Coroa, José Cupertino de Aguiar Ottolini considera "perigosa" a proposta do Governador de Macau (Ferreira do Amaral) de se permitir aos estrangeiros a compra de prédios urbanos e o aforamento de terrenos para a sua construção.
Nota: Apresento apenas alguns excertos do documento onde incluí ainda alguns sublinhados.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

"Estado do Mercado": 1864

in Ta-Ssi-Yang-Kuo: 
semanario macaense d'interesses publicos locaes, litterario e noticioso
4.7.1864


domingo, 4 de abril de 2021

Arcas "Made In Macau"

Arca de cânfora (59 x 102 x 53 cm) com decoração embutida em madrepérola "Bambú e Aves". No interior tem a seguinte inscrição: "Fabricadas em Macau - Man Kay & Cia. - Av. Paiva Manso, 45 Lourenço Marques.
Ou seja, trata-se de uma arca feita em Macau e comercializada por uma empresa em Moçambique na década 1950/60. Refira-se que exista no país uma significativa comunidade chinesa ali estabelecida oriunda de Macau.

As arcas de cânfora (e as de teca ou pau rosa), nomeadamente as de entalhe, chegaram a representar uma importante actividade económica em Macau nas décadas de 1950 a 1970. O perfume da madeira e os motivos exóticos eram os grandes atractivos destes produtos sendo habitual os portugueses que passavam pelo território levar consigo uma arca de cânfora no regresso a casa.
Excerto do livro "Pezinhos de Coentrada" de Alice Vieira: 
(...) De vez em quando, a mãe abria a arca de cânfora, trazida em tempos idos pelo avô Fernando, que fizera a tropa em Macau, e suspirava, que pena as coisas estarem a estragar-se (...)"
Esta indústria artesanal chegou a ter um peso importante na economia local entre as décadas de 1940 e 1980 existindo mesmo a Associação de Operários de Malas de Cânfora de Macau. 
Entre os inúmeros fabricantes deste tipo de produtos em Macau, aqui ficam mais 2 exemplos:
"Kin San & Cia. Lda - Malas de Cânfora, Largo de S. Domingos - Macau".
"Hap Vo - Oficina de Mobílias e Malas de Cânfora, Rua da Tercena".

sábado, 3 de abril de 2021

Macau's tourist attractions: início década 1980

Excertos de guias turísticos dos primeiros anos da década de 1980:
Visitors can go to Macau from Hong Kong either by ferry about a 3hr trip or by hydrofoil or jetfoil about 1 hr. Taxis are plentiful and inexpensive. There are also public buses.
The larger hotels have facilities for overseas phone calls and cables. Overseas calls also can be made from the General Post Office.
Macau has 13,000 telephones and 4 AM and 3 FM radio transmitters.
Macau hotels are relatively inexpensive and include modern luxury hotels older Victorian style hotels and converted villas.
Book in advance particularly for weekends holidays or during special events such as the Macau Grand Prix Portuguese Chinese and European cuisines are available in Macau's restaurants.
Macau has 11 deluxe and first class hotels with 2,600 rooms. Of the estimated 4 million people who visited Macau in 1980 3.4 million were Hong Kong residents. Japanese British American and other foreign tourists exceeded 400,000.
Among Macau's tourist attractions are its Mediterranean atmosphere in an oriental setting, its casinos, dog racing tracks, Jai Alai palace and the annual Macau Grand Prix automobile race. (...) There are 13 commercial banks six of them foreign-owned.
Entre 1982 e 1986 foram inaugurados 5 hotéis passando a oferta hoteleira para um total de 22. Nesta oferta estavam hotéis de 5 estrelas (Mandarim Oriental, Royal, Hyatt Regency e Lisboa), uma pousada de 5 estrelas (Pousada de São Tiago), hotéis de três estrelas (Sintra, Metrópole, Matsuya e Mondial), um hotel de 4 estrelas (Presidente), hotéis de duas estrelas (Central, Bela Vista, Estoril), uma pousada de 4 estrelas (Pousada de Coloane), entre outros.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

O canhão Armstrong

"(...) Muito mais apropriado é o nome de S Januario dado ao hospital de Macau, formosa construcção * (...) que foi ideia do Conde de S. Januario executada pelo major Carvalho que estando em serviço de guarnição na provincia de Macau e Timor recebeu ordem militar para proceder á construcção nas circumstancias curiosas de terem os technicos opinado ser inexequivel a edificação n'aquelle local pelo governador escolhido. O illustre conde contrariado com a errada opinião dos engenheiros da provincia encarregou Dias de Carvalho da execução do seu plano de construcção do hospital lembrando-se que elle resolvêra pouco tempo antes uma difficuldade importante qual fòra a do desembarque e collocação d um enorme canhão Armstrong** que os residentes de Macau tinham offerecido ao governo e que chegado á rada não havia meio de o pôr em terra firme. Depois de infructiferas tentativas o governador que ouvira fallar da habilidade de Carvalho mandou-o chamar e impoz-lhe a obrigação de desembarcar o canhão e colloca-lo no fortim de S. Francisco.
Parecia impossivel fazer-se tal porque a lorcha onde o canhão se achava não se podia approximar junto da muralha da Praia Grande por não lho permittir o assoriamento do lodo e o peso do bronze era tal que posto em jangada ou em sampana - gondola chineza de fundo chato - enterrar-se-hia nos lodos. Carvalho porém imaginou um andaime de bambu desde a muralha do fortim até á lorcha e lançando um formigueiro de chinezes - o chinez pesa como uma andorinha mas tem a força de carga d'um gallego - que iam trepando, enroscando-se e deslisando pelos troncos dos bambus e conseguiu em poucas horas com formigas e cannas arrastar suspenso sobre um abysmo o monumental canhão Armstrong. (...)
In Revista Illustrada, 13.10.1890
* inaugurado em 1874.
** Os canhões Armstrong foram os mais utilizados em navios de guerra de quase todo o mundo durante a segunda metade do século XIX. Foram criados pelo britânico William George Armstrong ficando o apelido associado aos canhões de carregamento pela culatra, através do sistema La Hitte. Foram fabricados na Inglaterra a partir de 1855 pela Elswick Ordnance Company e pela Royal Arsenal de Woolwich.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Oficiais de Marinha e Governadores

Desde a 'autonomia' face ao Governo da Índia em meados do século 19 - em 1844 o Estado Português da Índia deixou também de administrar os territórios de Macau, Solor e Timor - e até à transferência de soberania em 1999 Macau teve cerca de meia centena de governadores, e desses, cerca de metade (25) eram oficiais de Marinha.
Ferreira do Amaral, Januário Correia de Almeida, Albano de Oliveira, Hugo de Lacerda, Carlos da Maia e Marques Esparteiro são apenas alguns exemplos.
Na toponímia local são evocados alguns destes - e outros - "ilustres marinheiros" que mesmo não tendo sido governadores, desempenharam cargos de relevo em Macau.
Sugestões de leitura:
- "Antigos navegadores e marinheiros ilustres nos monumentos e toponímia de Macau", Obra Social dos Serviços de Marinha, 1984
- "Marinheiros ilustres relacionados com Macau", Manuel Teixeira, Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1988

quarta-feira, 31 de março de 2021

Canhoneira Príncipe Carlos surta "no rio de Macau"

A 20 de Outubro de 1864 o Governo de Macau foi autorizado a construir duas escunas a vapor. Viria a construiu uma e comprou outra em Hong Kong. Esta última denominou-se Príncipe D. Carlos (escuna de guerra). A outra, baptizada "Camões", foi construída na China. Entrou ao serviço em 1865 e foi abatida em 1876. 
As duas embarcações foram classificadas como canhoneiras e usadas, entre outros fins, no combate à pirataria.
De seguida apresento o relatório do primeiro cruzeiro da Canhoneira Príncipe Carlos feito pelo comandante da mesma em 1867.
Ilmo e Exmo Sr   
Tendo regressado a este porto do primeiro cruzeiro que teve a canhoneira Príncipe Carlos, cumpre-me o de apresentar a V Exa as observações que fiz ácerca das condições nauticas da mesma canhoneira, consideradas em referência á sua qualidade de navio a vapor. São muitas e variadas as opiniões que tenho ouvido emittir a respeito deste navio e por isso esperava apresentar a minha quando bem a pudesse fundamentar. Proporcionou-me V .Exa para isso os meios necessarios dignando se dar a commissão que acaba de ser preenchida e na qual fiz as experiencias que as circumstancias do tempo permittiram e que me parecem sufficientes para dizer que o navio é dotado de excellentes qualidades nauticas. Havendo desde já declarado a V Exa a minha opinião passarei a relatar a derrota que segui no meu cruzeiro.
Largando a amarração sobre boia do meu ancoradouro no rio de Macáo no dia 29 do mez findo, ás 7 horas da manhã, dirigi a minha navegação, só a vapor para a Boca de Tigre, e segui pelo rio de Cantão até surgir defronte da cidade do mesmo nome onde ancorei. Cumpridas as instrucções que de V Exa para o digno e zeloso consul portuguez naquella localidade o sr Eduardo Pettit, larguei para Hong kong tendo me demorado alguns dias em Vam pú como tive a honra de participar a V Exa em officio nº 1 do corrente ano. Refeito de mantimentos, aguada e carvão em Hongkong segui para oeste não me afastando porém de Macao em conformidade das ordens que recebi de V. Exa. Nas circumstancias de bom tempo e vento brando o navio só com o pano seguia á bolina 4 milhas por hora virando por d'avante e em róda; largo do vento andou proximamente; o que faz suppor que deve ser muito veleir com vento fresco. Se o helice pudesse suspender-se seria um navio de primeira marcha.
O casco é de construcção solida e mui elegante, denunciando immediatamente o seu bom andamento. As madeiras empregadas são de teca e molave. Está bem reforçado nos logares onde giram os rodizios como tive occasião de verificar. O seu aparelho, de escuna, está bem aguentado e airoso; porém esta parte tenho a observar que a enxarcia real fosse d'arame e não de linho por que o fumo a deteriora facilmente. Pelo que respeita á machina direi que depois das alterações feitas em Macáo debaixo da direcção do habil engenheiro machinista Antonio José Dias, que a pedido do contractador se prestou gratuitamente durante cincoenta dias consecutivos a este arduo trabalho, ficou ella em bom estado e satisfez cabalmente a esperiencia de recepção. Não aconteceo o mesmo quando o navio veio de Vampú porque um conjuncto de circumstancias o tornavam inservivel.
A machina é de alta pressão, dá força de 30 cavallos nominaes ou 180 effectivos e do systema de Tronco ou de embulos annulares. As suas principaes peças são de solida e reforçada construcção. A 50 libras de pressão deu revoluções por minuto e imprimio navio a velocidade de 7 milhas nas circumstancias referidas. Auxiliada com o pano e á bolina esta velocidade augmentou de uma maneira notavel. Com o vento regular e para ré de 6 quartas desenvolvendo a machina a 25 libras obtiveram-se 50 revoluções seguindo o navio nestas circumstancias 9 milhas. A pressão nas caldeiras poderá ser elevada na actualidade a 80 libras sem risco. Terminarei esta parte dizendo que o consumo do carvão, por um calculo aproximado, é de 10 toneladas em 24 horas e que o paiol tem capacidade para 32. Se em logar de 3 caldeiras houvesse uma com 3 fornalhas a capacidade para o carvão augmentaria muito e vantagens em geral seriam mui importantes.
Devo tambem informar a V Exa este cruzeiro empreguei a guarnição em exercicios de pano, de artilharia e de fuzil. As peças de calibre 32 tem pouco alcance e são pesadas. Este navio carece de 2 rodizios raiádos Blackley que são de muito alcance e certesa, como consta pelos relatorios que dos navios da divisão de reserva, em Lisboa, dirigiram ao respectivo commandante da divisão em exercicios na enseada da villa de Paços de Arcos.
Concluindo direi que as aphreensoes de que alguns se possuiram das qualidades da canhoneira Príncipe Carlos e da sua machina, depois ter sido acceita, não podem ter mootivo justificado e devo crer que apenas se fundam em opiniões emittidas por individuos extranhos á profissão e sem conhecimentos de machinas a vapor. É possivel que a minha limitada intelligencia e pouca pratica me illudam mas posso asseverar que são exactas as bases que apresento neste relatorio para V Exa julgue o que for mais acertado.
Aproveitando este ensejo peço licença para significar a V Exa que a ordem e disciplina a meu bordo foi sempre mantida com regularidade o que é devido em grande parte ao meu immediato o 2º tenente Julio Monteiro Cabral que no desempenho das suas funcções tem sido sempre zeloso e activo. Não deixarei tambem de fazer menção do mestre Valerio que nesta qualidade tem até hoje dado provas de intelligencia e dedicação pelo serviço juntando a isto o respeito e afecto que tem sabido merecer da guarnição em geral.
Deus Guarde a V Exa 
Bordo Príncipe Carlos surto no rio, 14 de janeiro de 1867 -
António José Caminha 1º Tenente Commandante
in Boletim do Governo de Macau, 21.01.1867
Canhoneira Camões. Imagem: Museu de Marinha
Nota: 
A escuna (a vapor) de guerra (armada com 4 bocas de fogo) Príncipe D. Carlos era um navio mercante inglês adquirido em Hong-Kong pelo Governo de Macau em 1866 a fim de substituir a lorcha de guerra Amazona que se encontrava em muito mau estado.
Foi muito utilizada no combate aos piratas, viagens oficiais do Governador e como símbolo de soberania em viagens até Timor, Cantão e Xangai. Em 1869 passou a navio de vela "por conveniência de serviço".
No tufão que assolou Macau em  Setembro de 1874 afundaram-se alguns navios e entre eles o D. Carlos e o Camões.

terça-feira, 30 de março de 2021

O 'foto-jornalista' Jules Itier

Os daguerreótipos de Jules Alphonse Eugéne Itier (1802-1877) foram descobertos no final da década de 1970 pelo coleccionador Gilbert Gimon. Feitos no final da primeira metade do século 19 são considerados os primeiros registos fotográficos de Macau e da China
Surgem no contexto da assinatura do primeiro tratado entre França e China, o Tratado de Huangpu/Whampoa, assinado em Outubro de 1844 e cujas negociações decorreram no templo de Kun Iam em Macau
Jules  Itier era inspector de alfândegas, diplomata e fotógrafo amador, um daguerreotipista' tendo conta a tecnologia disponível na época e acompanhou o diplomata francês Joseph Théodose Marie Melchior de Lagrené (1800-1862) numa missão à China iniciada em 1843.
Na prática os franceses pretendiam algo parecido com o que os ingleses conseguiram um ano antes com acordo que se seguiu à guerra do ópio com a China.
Lagrené estava mandatado pelo governo francês para apenas negociar um tratado comercial mas viria a conseguir também o fim da proibição do cristianismo na China ditado pelo imperador Yongzheng em 1724. Nas negociações com o comissário imperial Qiying, teve um papel decisivo Joseph-Marie Callery, que vivia em Macau e dominava o mandarim servindo de intérprete.  
A assinatura formal do documento ocorreu a bordo do L'Archiméde a 24 de Outubro de 1844.
Em Fevereiro de 1846 o imperador Daoguang emitiu um édito legalizando o Cristianismo na China. 
Actuando como um jornalista dos tempos modernos Itier registou para a posteridade, em texto e imagens, os vários momentos da expedição e das negociações e assinatura do tratado. A delegação francesa ancorou em Macau a 14 de Agosto de 1844.
Delegação chinesa e francesa no templo de Kun Iam em Macau onde decorreram as
negociações do Tratado de Whampoa entre os impérios de França e da China.

4 Nov. 1844: M. Durant e Kum Chou, secretário de Paw Sse Chen

Joseph Marie Callery

Curiosidades: Um dos maiores feitos fotográficos de Itier na China foi uma panorâmica de Cantão obtida a partir de um telhado. Feita com recurso a mais de uma dezena de daguerrreótipos foi inspirada num desenho feito semanas antes por François-Edmond Pâris (1806-1893), o comandante da corveta a vapor L'Archimède, uma panorâmica a 360 graus de Macau. Sobre isso publicarei brevemente um post.
Quanto a M. Durant era um importante comerciante em Macau.

Sugestões de leitura:
- Correspondance diplomatique chinoise relative aux négotiations du traité de Whampoa conclu entre La France et La China le 24 octobre 1844, Joseph-Marie Callery, Paris, 1879 (imagens acima)
- Journal d’un Voyage en Chine, 1843, 1844, 1845, 1846, Jules Itier, Paris, 1848
- Ambassade française en Chine. Journal de Voyage, Ferrière Le Vager, Paris, 1854