sexta-feira, 29 de junho de 2018

"Primórdios de Macau": excertos



"Primórdios de Macau", da autoria do Padre Manuel Teixeira, edição ICM, 1990, Macau.
Na introdução pode ler-se: "Este trabalho foi preparado para as comemorações do IV Centenário da Cidade de Nome de Deus de Macau. A Povoação de Macau foi fundada em 1557 e elevada a Cidade em 1586."
Ora o quarto centenário ocorreu em 1955... Estamos portanto perante um livro de 39 páginas que compila vários textos do padre Manuel Teixeira (1912-2003) que foram primeiramente publicados ao longo das décadas de 1950 a 1980.
Deste livro com uma tiragem de apenas 500 exemplares apresento neste post alguns excertos sobre os primeiros tempos de Macau no século XVI divididos pelos seguintes temas: Governo, População, Senado e Moeda. No final publico ainda uma foto pouco conhecida feita em 1979 por John Launois.
Governo
De 1543 a 1550, o comércio com o Japão era livre, mas nesta última data passou a ser monopólio da Coroa. Ao Rei de Portugal ou ao Vice-Rei da Índia competia nomear o capitão-mor da Viagem do Japão; esta viagem era feita pela Nau do Trato, que partia de Goa, via Malaca, para a China e Japão. Os capitães-mores saíam de Goa em Abril-Maio e chegavam a Macau cerca de dois meses depois; partiam daqui para o Japão e regressavam em Novembro. Esperavam aqui a monção para a Índia.
No entanto, chegava de Goa um novo capitão-mor que governava a cidade. Em 1557, ano da fundação de Macau, era capitão-mor Francisco Martins.
Um documento de 1581 diz: “Nesta povoação não houve nunca capitão que residisse ordinariamente nela, somente o capitão das viagens do Japão, que se fazem cada ano… serve de capitão da terra, enquanto nela está, e já quando se vai, é vindo o outro capitão da outra viagem, de maneira que muito pouco ou nenhum tempo está sem capitão”.
Carece, pois, de fundamento o que afirmam muitos historiadores, entre os quais Eudore de Colomban, que diz: “Antes de tudo era necessário que a Colónia tivesse um Chefe, e foi Diogo Pereira, rico negociante, quem foi eleito Capitão da terra pelos habitantes. Ajudavam-no no governo dois dos mais notáveis e influentes cidadãos, formando assim uma espécie de triunvirato, cujo dever era regular todas as questões de ordem pública e política.” O cargo de capitão da terra foi, com satisfação geral, exercido por Diogo Pereira até 1587. Note-se que Diogo Pereira nunca foi capitão da terra, mas sim capitão-mor de 1562 a 1564. Durante os primeiros anos de Macau nunca foi nomeado um só capitão da terra. A 30 de Dezembro de 1604, o Rei sugeria a conveniência de se nomear um capitão para Macau, “por não haver ali capitão”, mas nada se fez. A 26 de Fevereiro de 1606, o Rei sugeria o mesmo, mas sem efeito. Só em 1623 é que foi nomeado o primeiro, na pessoa de D. Francisco Mascarenhas.
Senado
Pouco depois de Macau ter prestado juramento de fidelidade a Filipe 11, D. Leonardo de Sá, em 1583, convocou os cidadãos mais grados da Colónia, que resolveram formar uma Municipalidade ou Câmara, a que deram o nome de Senado.
Já existia em 25 de Fevereiro de 1584, pois, nessa data, segundo refere Mateus Ricci no seu Diário, chegou a Nau da Prata do Japão: “Arrivata la nave dei Giappone a Maccao, ritorao il P. Ruggero con assai danari, che e la Camera delia citta e altri amici gli averano dati di limosina“- chegada a nau do Japão a Macau, o P. Ruggieri regressou (de Macau a Shiu-Hing) com bastante dinheiro que lhe havia dado de esmola a Câmara da Cidade e outros amigos.
A Câmara foi aprovada pelo Vice-Rei da Índia, D. Francisco Mascarenhas, Conde de Santa Cruz. Este partiu de Lisboa a 8 de Abril de 1581, chegou a Goa a 16 de Setembro e governou até 25 de Novembro de 1584. Portanto, ele aprovou a fundação da Câmara de Macau nesse ano de 1584, o que concorda inteiramente com o que nos diz o P. Ricci sobre a existência da Câmara nesse ano. É que as viagens de ida e volta a Goa não se faziam com a rapidez de hoje: era necessário esperar pelas monções. (...)
Uma Representação de 1821 afirma que o Senado nasceu quando, “sob a presidência de Belchior Carneiro, os habitantes de Macau, que tinham direito a votar, se reuniram em 1583”. Ora, nessa altura, quem governava a diocese não era D. Melchior Carneiro, que renunciara em 1581 e vivia retirado na casa da Companhia de Jesus, mas D. Leonardo de Sá.
A 17 de Dezembro de 1582, o P. Valignano informava o Geral da Companhia: “O P. Patriarca Melchior Carneiro, que já renunciou ao seu bispado, está aqui em nossa casa com quatro moços, que o servem e também aos padres; está muito gasto e consumido com a velhice e enfermidades”. O P. Francisco Pires, S.J., que chegou a Macau a 24 de Julho de 1581, diz que achou recolhido na casa da Companhia o Patriarca Carneiro, que “comia um frango requentado por não poder comer… tinha um moço, de nome João, que o servia e acompanhava quando ia fora”. Como é que um velho gasto, consumido e decrépito, que em 1581 já não podia sair à rua se não acompanhado por um criado, se iria colocar à frente dos cidadãos em 1583 (ano em que morreu) e fundar o Senado de Macau?
Numa carta de 25 de Outubro de 1581 diz-se que D. Leonardo chegara nesse ano a Macau; chegou, pois, no segundo semestre desse ano, antes de 25 de Outubro. Foi ele que presidiu à reunião dos cidadãos em 1583, devendo, pois, ser considerado fundador do Senado. Em 1583, o capitão-mor era Aires Gonçalves de Miranda, que chegou a Nagasaqui em 25 de Julho desse ano, fazendo a viagem de Macau até lá em doze dias. Partiu de lá para Macau em 25 de Fevereiro de 1584.
População
Em Liampó, havia trezentos portugueses casados; em Chincheu, seiscentos. Em Lampacao, havia de quinhentos a seiscentos portugueses em 1560, ano em que se transferiram para Macau os que quiseram.
Em Macau, em 1561, segundo o P. Baltasar Gago, S.J., “estão instalados entre quinhentos e seiscentos comerciantes portugueses“. “Instalados” quer dizer moradores permanentes. Em 26 de Dezembro de 1562, o P. João Baptista del Monte, S.J., escrevia de “Maquao“: “O número dos Portugueses que agora estão em esta terra serão perto de oitocentos“.
Em 1 de Dezembro de 1563, o P. Manuel Teixeira, S.J., escrevia do porto da “Amaquao“: “oitocentos ou novecentos portugueses que neste porto estão e de diversos portos a ele correm“, mas “haverá 500 portugueses contínuos“.
O P. Francisco de Sousa, ao descrever a pomposa procissão da Páscoa de 1564, dizia que nesse tempo a colónia “que acabava de nascer era uma feitoria comercial, contando apenas 900 portugueses, mas um grande número de chineses, índios e escravos pretos“. D. Melchior Carneiro, que chegou cá em 1560, encontrou cá “poucas habitações de portugueses“. O P. Alexandre Valignano dizia que, em 1579, havia aqui “mais de 200 casas {de portugueses) e bom número de cristãos“. Um documento de 1581, diz: “E foy com breve tempo crescendo esta povoação de maneira que tem hoje pasante de dous mil vizinhos“. Em 1621, P. Coen, governador de Batávia, escrevia: “Ao presente há em Macau 700 a 800 portugueses e mestiços e cerca de 10.000 chineses“. A 27 de Novembro de 1623, o escrivão do Senado, Diogo Caldeira do Rego, dizia haver cá “mais de 400 portugueses casados“(…) “afora muitos casados naturais da terra e de fora e outra muita gente de várias nações.”
Em 1635, António Bocarro escrevia: “Os cazados que tem esta cidade são oitocentos sincoenta Portugueses e seus filhos, que são muito mais bem dispostos e robustos que nenhum que haja neste Oriente, os quais todos tem uns e outros seis escravos de armas de que os mais e milhores são cafres e outras nações. Além deste número de casados portugueses, tem mais esta cidade outros tantos casados entre naturais da terra, chinas cristãos que chamam jurubassar, de que são os mais, e outras nações todos cristãos…
Tem além disto esta cidade muitos marinheiros pilotos e mestres solteiros portugueses, os mais deles casados no Reino, outros solteiros que andam nas viagens do Japão, Manila, Solor, Macassá, Cochinchina, destes mais de 150.”
Moeda
Os primeiros comerciantes portugueses que chegaram a Tamão (Lintin) não usaram moeda nas suas transacções; seguiram o método que sempre havia sido usado na China – o da “troca directa”, que era o que oferecia maiores facilidades nas operações comerciais. O método chinês foi adoptado pelos nossos em Tamão, Liampó, Lapa, Chincheo, Lampacao, Sanchoão e Macau, onde se realizavam várias operações de troca, sobretudo de porcelanas, sedas, chá e vernizes chineses, por jóias, ouro e especiarias.
A nau que, de Macau, levava mercadorias ao Japão, vinha de lá carregada com ouro e prata no valor de cerca de três milhões de libras esterlinas, pelo que recebeu o nome de “Nau da Prata”. Apareceram depois vários instrumentos de troca e, finalmente, a moeda: tael, duro espanhol, dólar e duro mexicano ou pataca mexicana, dólar chinês ou pataca da China, dólar de Hong Kong ou pataca de Hong Kong. Mais tarde, vieram os Tai Vonos. divisionários da pataca chinesa, e até os chamados Pang-tang (certificados de Prata). Todas estas moedas circularam livremente em Macau, num regime monetário inteiramente atrabiliário. (...)
O tael não era moeda propriamente dita, nem jamais teve existência como tal, nunca sendo cunhada. Era um determinado peso de prata, variável conforme as localidades. Um tael, em Macau, equivalia a dez mases, ou cem condrins, ou mil caixas. O termo vem do malaio tahil. que John Crawfurd diz derivar do indiano tolá. A Santa Casa da Misericórdia de Macau, que, nos seus livros de caixa, registava indistintamente o tael e a pataca, abandonou em 1852 os lançamentos na equivalência de taéis, visto o decreto-lei de 12 de Outubro de 1853 ter legalizado a circulação da pataca mexicana, com o toque de 960/929 milésimos, ou seja, setecentos e vinte milésimos do tael.
Padre Manuel Teixeira fotografado em Macau em 1979 pelo foto-jornalista John Launois, aliás, Jean René Launois (1928 -2002), célebre pelos registos fotográficos de Malcolm X, Bob Dylan ou dos Beatles, só para citar alguns exemplos, que trabalhou para títulos como a Newsweek, Time, National Geographic, Rolling Stone, Paris Match, Life Magazine, etc... sendo da sua autoria alguns dos registos mais marcantes dos acontecimentos mundiais ocorridos entre as décadas de 1950 a 1970.

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