terça-feira, 17 de abril de 2018

O número 1 da Rua Silva Mendes


Em Macau existe a chamada Casa Memorial de Sun Iat Sen. Ao contrário do que muitos pensam, não foi nunca a sua residência. Foi mandada fazer em 1912/1913, pela sua mulher, Lu Muzhen e pelo filho, Sun Fó /孫科, no nº 1 da Rua de Silva Mendes, junto à Av. Sidónio Pais, na zona da Flora.
Sun Iat Sen é o 4º em último plano a contar da direita
O edifício destruído em Agosto de 1931 pela explosão do paiol da Flora

Em Agosto de 1931 ficou praticamente toda destruída na sequência da explosão do Paiol da Flora sendo reconstruída em 1933. Em 1958 tornou-se Casa Memorial e foi aberta ao público como se mantém até hoje. De seguida, reproduz-se um texto da autoria de Luís Gonzaga Gomes, escrito em 1953, sobre aspectos da vida de Sun Iat Sen.
"O vulto mais proeminente da história contemporânea da China é, sem dúvida, Sun-Iât-Sin, que os chineses deificaram, cognominando-o de “Kuók-Fu”, isto é, “pai da nação”, não só por ter ele sido um dos principais fautores da República Chinesa, como ainda pelo facto de ter sacrificado, com modelar abnegação, toda a sua vida, em proveito da grande reforma social, que visava transformar o seu país numa nação próspera o europeizadamente civilizada.
Natural de Tch’ói-Hâng, insignificante vilório que dista apenas uns poucos de quilómetros de Macau, era petiz de treze anos quando partiu para Honolulu, a fim de se juntar a um irmão mais velho que prosperava nessa longínqua “Pérola do Pacífico”.
Após cinco anos de estudos elementares, regressou à terra natal, para seguir pouco depois para Hongkong, onde fez os preparatórios no “Queen’s College” e, em 1892, formou-se brilhantemente no “Medicai College” dessa mesma cidade.
Os ininterruptos vexames impostos pelo estrangeiro à sua pátria, despertaram pouco a pouco, lentamente, no seu ser o espírito de revolta, e não lhe foi difícil ver que o motivo primacial porque o seu país se encontrava debilitado e incapaz de reagir à então desenfreada cupidez dos estranhos, residia na completa inépcia do caquético e anacrónico regime monárquico, totalmente arruinado e enfraquecido pela corrosiva venalidade e pela estulta incompetência de imbecilizados eunucos que eram os que nesse tempo retinham de facto, nas suas mãos, os destinos da nação chinesa.
O malogrado Kuóng-Sôi, jovem e inexperiente monarca, quando subiu ao trono, em 1875, tentara reformar o país. Mal avisado, porém, pelo aliás bem intencionado Hóng-lâu-Uâi, ousou prematuramenta derruir, no curto espaço de cem dias, costumes e leis milenariamente consuetudinários mas, traído vilmente pelo seu lugar-tenente, Un-Sâi-Hói (Yuan-Shih-Kai) - o maior funâmbulo da política chinesa que, vindo depois a ser Presidente da República, tentou restabelecer a Monarquia, proclamando-se seu imperador,— foi por este entregue à valetudinária e cruel imperatriz reinante que, ao saber que uma das intenções do incauto Kuóng-Sôi era afastá-la definitivamente do trono, não hesitou em repetir um desses actos de tragédia medieval, fazendo sequestrar o malaventurado imperador, durante quarenta longos anos, entre as quatro paredes desprovidas de janelas dum dos pavilhões da Cidade Interdita.
Gorara assim um infortunado tentame cujo desígnio almejava uma drástica reforma do complicado sistema político chinês - a introdução do sistema democrático, no seu aspecto mais liberal possível, em substituição dum absolutismo intransigente e imutavelmente conservador.
Desfeita a ténue esperança que os espíritos liberais - os verdadeiros patriotas daquela época - mal vislumbraram, não existia outro meio de salvar a nação, que estava caminhando a passos largos para o vórtice, senão escorraçar do mando os odiados eunucos, conselheiros da déspota imperatriz-mãe, e segregar do mando os incompetentes e malversadores mandarins, os sátrapas do sistema monárquico chinês.
Não era fácil lutar contra os interesses dum sistema político que séculos de experiências constituíra em uma admirável organização; contra uma escola mental, formada por retrógrados letrados que, por se encontrarem obcecados com os obsoletos conceitos filosóficos dos seus cânones clássicos se julgavam possuidores da sabedoria universal, repudiando por isso qualquer ideia inovadora; contra os mandarins, classe privilegiada que retinham o poder e a riqueza; e, contra milhões de indivíduos mal dispostos a ceder o seu modo do vida que supunham irrefragavelmente o melhor do mundo por outro deles inteiramente desconhecido. Provocar, pois, uma revolução, num meio tão hostil, era tarefa hercúlea que demandava longos anos de proselitismo para se poder obter algumas probabilidade de êxito.
Estava, porém, lançada a sorte, e Sun-lât-Sin não trepidaria ante nenhuma dificuldade. Impulsivo, dominando facilmente quem o ouvia com a magia das suas palavras, principiou a sua campanha de aliciação, organizando uma sociedade secreta que tentou um ataque contra o “Yamen” de Cantão, em 1895. Fracassada a tentativa e acossado pela polícia manchú, o visionário patriota foi obrigado a exilar-se. Fugiu para Hauai, para Londres, para terras diversas, sempre perseguido. Na sua vagabundagem, de cidade em cidade, o seu lúcido espírito não descansava, ia observando, estudando e absorvendo novas idéias que ficariam mais tarde consubstanciadas no “Sám-Mân-Tchü-I” (os Três Princípios do Povo). Em todos os lugares ondo encontrava um núcleo de compatriotas não lhe faltava o apoio moral e financeiro dos mesmos.
Durante esse agitadíssimo período da sua vida, Sun-Iât-‘Sin   teve de albergar-se  várias vezes em Macau, e, numa ocasião estabeleceu a sua residência e consultório na Rua das Estalagens, no prédio onde hoje se encontra instalada a firma de sedas “U-Tip-P’ât-Tâu”, porventura o primeiro onde a clínica europeia foi exercida por um cidadão chinês. Sun-Iât-Sin, necessitava de se dedicar à, sua profissão de médico, não só para ocultar a sua verdadeira actividade, como para obter recursos, a fim de poder manter-se, tanto a si como aos seus correligionários mais necessitados.
Esse consultório em breve se transformou em refúgio dos mais importantes monarcómanos, tais como: lèong-Hók-Leng, lâu-Lit, Uóng-Hák-Kéong, o mais ardente de todos, lu-Tchéong-Pou e outros. Pela calada da noite, os conjurados efectuavam o seu corrilho no consultório e aí recebiam as instruções do chefe, e, numa mesma cama, dormiam os lugares-tenentes de Sun-Iât-Sin, quando após horas de truculenta discussão a fadiga os obrigava a descansar.
Como médico, Sun-Iât-Sin era extremamente habilidoso. Entre a sua numerosa clientela, figurava um nevrópata, filho do ricaço Lou, que, minado pela atroz doença que o lançava em constantes ataques de melancolia, depois de ter recorrido sem sucesso algum à ciência dos mais famosos curandeiros da época, só alcançou ser curado por Sun-Iât-Sin.
Grato   por  quem   conseguira   restituir a serenidade ao espírito atribulado do seu estremecido filho, Lou-Si   ofereceu-lhe   um  medaIhão de oiro,   onde  estava  gravado  o eterno testemunho   do   seu  reconhecimento, nos seguintes termos:  “São mútuas a sua habilidade e a sua bondade”. Pouco depois, Sun-Iât-Sin teve de abandonar o seu consultório para ir exercer a sua actividade de revolucionário em outros lugares.
Todos os seu pertences foram então confiados à guarda de Ièong-H’ók-Leng e, quando este morreu, foram entregues aos cuidados da viúva do ricaço Lou-Si. Entre essas relíquias existia um filtro onde lèong-H’ók-Leng pincelara este conceito ditado pela sua admiração ao caudilho: “Ansioso desígnio tão puro como a água”. Com o decorrer dos anos, o filtro passou a ser propriedade de Lèong-Im-Mêng, director que foi da Escola Secundária Sông-Sât de Macau, que o ofereceu ao Museu dos Cinco Andares de Cantão, a fim do mesmo poder ser admirado e reverenciado por todos os cantonenses.


No intuito de perpetuar a memória de Sun-Iât-Sin em Macau, Tch’àn-Tchân-U, aliás Tch’ân-Meng-Sü, quando foi escolhido pelo general Tchèong-Kái-Seak para presidente do Governo Provincial de Kuóng-Tông, com sede em Cantão, pensou em adquirir o edifício onde aqui esteve instalado o consultório de Sun-Iât-Sin, a fim de o transformar em um “Pavilhão de Recordação de Tchông-Sán”. Esta ideia, porém, não chegou a vingar porque Tch’àn-Meng-Sü pouco tempo se demorou no poder, em virtude do golpe de estado, provocado em 28 e 29 de Abril de 1931, pelo seu rival o general Tch’àn-Tchái-T’óng, comandante do  8.° Corpo do Exército Nacional Revolucionário.
Em frente do Quartel de Artilharia, na Rua Silva Mendes, existia uma casa que servira de habitação à mulher de Sun-Iât-Sin e que foi destruída no pavoroso desastre da explosão do paiol da Flora, em 1928. Em seu lugar ergue-se hoje um magnífico edifício (foto acima), em estilo mourisco-modernista, encontrando-se no meio do seu pequeno jardim a estátua de Sun-Iàt-Sin, em bronze e tamanho natural. É nesta casa que o seu filho Sün-Fó, um dos mais importantes vultos da política chinesa, costuma residir, quando de passagem por Macau para a sua aldeia natal."
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