segunda-feira, 12 de março de 2018

O Hopu (alfândega chinesa)

O estabelecimento da alfândega chinesa em Macau remonta a 1684/85. Primeiro o Hopu Grande, na Praia Pequena, do lado do Porto Interior, seguido do Hopu Pequeno, localizado na Praia Grande, no Porto Exterior. Eram apenas dois de um total de mais de uma dezena que chegaram a existir na península de Macau ao longo de mais de dois séculos.
Com a chegada do gov. Ferreira do Amaral dá-se a extinção do Hopu - Macau tornava-se porto franco tal como Hong Kong - em 1849, porventura o acto político de maior melindre em todo o seu mandato e que viria a ditar o seu assassinato. No edital publicado no Boletim do Governo de 20 de Março de 1849 pode ler-se:
"[...] havendo Sua Majestade a Rainha de Portugal decretado o Porto Franco e por conseguinte deixado de existir a Alfândega Portuguesa, não é possível tolerar-se por mais tempo uma alfândega estrangeira, onde se continua a cobrar direitos das fazendas, comestíveis, materiais e outros artigos de uso, pela maior parte já pagos dos direitos e outras despesas no lugar da exportação ou pelo trânsito das vigias. Hei portanto conveniente declarar que, depois de oito dias a contar desta data [...] nenhuma cobrança desde essa data em diante se consentirá pelos Hopus nesta Cidade."
A 1 de Maio desse ano o governador envia um ofício ao vice-rei de Cantão onde explica os motivos da decisão:
"Antigamente a nação portuguesa era a única que gozava de certos privilégios na China, mas depois dos tratados, todos os antigos regulamentos e convenções entre a China e Portugal caducaram porque ou. eles continham artigos mais favoráveis que os dos tratados e nós não os podíamos gozar sem que os Ingleses e as mais nações tivessem direito a eles, ou eles eram menos favoráveis e não nos serviam a nós porque a Nação Portuguesa, só porque é uma aliada de 3 séculos e porque tinha sempre sido a Nação mais favorecida, não podia tornar-se de repente a Nação menos considerada [...] O Governo Português, que teve durante quase três séculos provas nada equívocas de que a Nação Portuguesa merecia a atenção do Governo Chinês conjuntamente com a simpatia do povo, esperava que mesmo sem se socorrer dos direitos que lhe pertenciam em comum com os tratados com a Inglaterra, que as autoridades chinesas proporcionassem meios de fazer prosperar o amigo que se conservou constante durante duas dinastias".

Mapa de 1838 onde se assinala a localização do Hopu da Praia Grande
Mas o que era o hopu? A.F. Marques Pereira, explica na página 61 do livro "As Alfândegas Chinesas de Macau, Macau, Typographia de J. da Silva, 1870.
"(O Hopu) tinha o prestígio da antiguidade e a força de muito poderio. As atribuições de completa alfândega juntava, como quase todas as repartições públicas do Império, uma certa alçada de castigos que lhe deixava prender e açoitar quantos chinas lhe caíam em desgraça. Situado no meio do bazar e fiscalizando todo o comércio que aí se fazia, tinha este Hopu inteiro conhecimento de todos os negociantes chineses que residiam em Macau, e não era possível a estes manifestar-lhe desafecto, em favor da independência do nosso domínio, sem arriscarem à perseguição e vingança dos mandarins as suas relações de comércio ou de famûia com o território chinês".
Nas páginas seguintes (63 e 64) relata alguns episódios relacionados com o fim do hopu por Ferreira do Amaral: "Em 13 de Março Amaral ordenou ao 1°o intérprete da colónia, João Rodrigues Gonçalves, que procedesse à definitiva e solene expulsão da alfãndega chinesa. O dito funcionário dirigiu-se ao Hopu com uma guarda de quatro homens e intimou a ordem que levava aos chins que ali encontrou, os quais embrulharam a roupa e abalaram sem resistência. Feito isto participou ao Governador que o edifício estava abandonado mas que restavam em frente dele um mastro com bandeiras, tabuletas e outras insígnias de autoridade chinesa [...] Amaral respondeu por escrito: 'Deite abaixo!' A cena cresceu então em solenidade e interesse. A multidão de chins apinhados à beira do expirante Hopu era de centenares e alguns cristãos se achavam aí também; mas esta concorrência toda estava calada e quieta como se não fôra viva. Dois ou três negros da extinta alfândega portuguesa atacavam a machado a base do grande mastro que durante cento e sessenta anos vexara a independência da colónia de Macau. Os golpes soavam claros, ásperos e fortes, como se os rodeara o silêncio de alta noite. Despedido o último, hesitou o madeiro instantes e deixou-se por fim cair para o lado dos chins, que se desviaram respeitosos e logo depois, e sempre calados, debandaram. Este silêncio (diz o Sr. João Rodrigues Gonçalves numa carta em que me refere o acto) foi apenas quebrado por um cristão, de quem me não lembra o nome, e que disse: 'acabou Macau!"
PS: Mais de 100 anos passados sobre o assassinato de Ferreira do Amaral ocorreu um episódio curioso relacionado com uma emissão de notas de 100 patacas em 1950.

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