sábado, 15 de janeiro de 2022

Travessa da Palanchica

"Para as bandas de S. António, no bairro de Patane, fica a Travessa da Palanchica, que começa na Rua dos Colonos , próximo do Pátio de Além - Bosque , passa junto do término da Travessa do Patane (...)" 
As palavras são do padre Manuel Teixeira e servem para ajudar a enquadrar o anúncio abaixo, de 1860. 
Os "colonos" referidos são os chamados "cules" que provinham da China e eram enviados para várias partes do mundo como escravos, sobretudo para a América do Sul. Em 1859 foram quase 9 mil.
A travessa ainda hoje existe, perto do Jardim Luís de Camões. Com o mesmo nome chegou a existir uma pequena fortaleza que em abaixo assinalei num mapa da primeira metade do século 17.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Vapor a pás / Paddle-steamer "Honam": 2ª parte

Em cima a capa de uma edição de 1906 (a segunda) de um guia e horários da The Hong Kong, Canton and Macao Steamboat Company Ltd.
O "Honam", a jóia da frota da empresa, é o destaque da ilustração
Apesar de já possuírem electricidade a bordo as viagens eram feitas apenas durante o dia.
Em baixo o bilhete nº 16214 de Primeira Classe emitido em Hong Kong a 20 de Agosto de 1911 para uma viagem entre Cantão e Hong Kong assegurada pelo "Honam" da empresa "The Hong Kong, Canton & Macao Steamboat Company Limited".
Está passado em nome de um senhor Poland que tem lugar no Saloon. O preço - viagem apenas de ida - é de 6$ e as refeições não estão incluídas (custavam cerca de 1,5 dólares cada). 
No verso do bilhete estavam expostas as condições da venda. Entre outras, o bilhete era pessoal e intransmissível, tinha uma validade de 10 dias, não permitia aos passageiros dormirem a bordo enquanto a embarcação estava atracada nos portos. Para o efeito era obrigatório solicitar autorização ao comandante do navio e quando concedida implicava o pagamento adicional de 3$ por cada noite.
Nota: o preço da viagem entre Macau e Hong Kong (apenas ida ou apenas volta) era sensivelmente metade do valor da ligação entre Hong Kong e Cantão.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Vapor a pás / Paddle-steamer "Honam": 1ª parte

Depois de ter perdido o vapor a pás "White Cloud" no tufão de 1874 a Hong Kong, Canton and Macao Steamboat Company precisava urgentemente de um novo navio.
Construído na Escócia o vapor a pás "Honam" - nome de uma ilha no estuário do Rio das Pérolas, junto a Cantão, tb conhecida por Henan - chegou a Hong Kong a 15 de Setembro de 1882. A viagem experimental ocorreu a 7de Outubro de 1882 e o Honam esteve activo até 1925. Serviu sobretudo nas ligações marítimas entre a então colónia britânica e Cantão, embora esporadicamente também fizesse a viagem até Macau.
O nome 'ocidental' do navio foi 'gravado' - significa Sul do Rio) na proa enquanto os caracteres chineses - da esquerda para a direita - foram 'gravados' na zona das pás, escrito tradicionalmente da direita para a esquerda. Na popa pode ver-se a bandeira vermelha britânica também denominada "Red Duster", usada por navios mercantes ou de passageiros britânicos noa época.
Tinha três pisos, uma para carga, feito de ferro, e dois para passageiros, feitos de madeira. Como era habitual na época, o piso mais próximo da casa das máquinas era o dedicado a passageiros chineses, sendo também os bilhetes mais baratos. O piso superior, com melhores condições era para uso exclusivo dos passageiros ocidentais.
O S.S. Honam (Steam Ship/Navio a Vapor)) tinha 82 metros de comprimento e atingia uma velocidade máxima de 16,4 nós por hora. Ou seja, percorria cerca de 30 quilómetros a cada hora, o que na ligação entre Macau e Hong Kong dava uma viagem com uma duração que cerca de 4 horas. 
O pintor australiano Nicholas Chevalier (1828-1902) é o autor desta pintura a óleo datada de 1890 com o título: "The Sidewheeler Honam in Kowloon Harbor".
Segue-se um excerto de um artigo mais técnico sobre o Honam publicado revista Engineering de Novembro de 1888 e replicado no Scientific American Supplement, a 29 Dezembro de 1888.
The Paddle Steamer Honam
"We give on page 449 an illustration of the paddle steamer Honam, a model of which was shown by the builders at the Glasgow exhibition. The vessel, which is remarkable in several respects was constructed and engined in 1882 by Messrs A & J Inglis, of Pointhouse Glasgow, for the Hong Kong Canton and Steamboat Company, of Shangai, for trading on the Canton River.
The length of the Honam is 270 ft. (...) The decks are three in number and have a very considerable area. The main deck, which with the hold, is for cargo, is constructed of steel and the two docks above are of wood.
The distance between each is 9 ft. The top deck is for promenading and on the middle deck there are large saloons.
Above of the engine space there is the Chinese saloon 72 ft long and 45 ft mean width; the only furnishing required here is deck seats or lounges. Forward of the boilers there are several large staterooms for European passengers.
In many respects, these are models, not only of comfort and elegance but also for size. One dining saloon is at the extreme forward end of deck. It is 44 ft long by 36 ft mean breadth and  isseated for twenty passengers. The shade decks carried on stanchions and stringers, strongly braced where necessary to prevent racking."

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Fotobiografia de Júlio Guerreiro da Tôrre: 1903-1977

Esta história começa no início do século XIX no Algarve. Certo dia, não se sabe onde, quando e de quem nasceu, entrou na Roda, em Faro, a 18 de Abril de 1829, um menino. Nesse mesmo dia o baptizaram na Sé com o nome de Sebastião. Foi dado a criar a Bernarda Maria, mulher de Manuel Guerreiro, um casal que vivia na Tôrre de Natal, lugar da freguesia da Conceição, a meio caminho entre Faro e Pechão.
Júlio Guerreiro da Tôrre em Faro com 14/15 anos
Com os tutores aprendeu a tratar do pomar e comerciar fruta e fez os primeiros estudos. Já adulto, na forma do “Sagrado Concílio Tridentino e da Constituição do Bispado de Faro”, foi já sob o nome de Sebastião Guerreiro que casou com Thereza de Jesuz, de Pechão, que lhe deu dois filhos. Enviuvou passados seis anos.
Voltaria a casar, sob o nome de Sebastião de Souza, com Maria Catharina, mais uma vez de Pechão. Tiveram sete filhos, sendo que no registo de baptismo de pelo menos os três primeiros, volta a aparecer com o nome de Sebastião Guerreiro.
“Do nome com que morreu (em 1904), Sebastião Guerreiro da Tôrre, gravado no gavetão do Cemitério da Boa Esperança que lhe guarda a urna, parece evidente a razão dos apelidos: Guerreiro adoptado do tutor; e Tôrre, do lugar”, recorda o bisneto Júlio Chagas Tôrre que acrescenta: “Seja como for, foi conhecido pelos três nomes e respeitado sob todos eles.”
A Marinha
Entre os descendentes de Sebastião, cinco viriam a ser oficiais da Armada: um Construtor Naval, três da classe de Marinha e um do Serviço Geral. Entre eles, está o oitavo e último filho de Francisco, Júlio Guerreiro da Tôrre (neto de Sebastião), nascido a 20 de Julho de 1903 na Rua do Ferragial (actual Rua da Polícia), onde o pai fora arrendatário da horta com o mesmo nome. “Cresceu na imensa propriedade de onde lhes vinha sustento. Armava aos pássaros, subia aos ninhos, chapinhava no tanque grande onde as mulheres pagavam uns centavos para lavar a roupa que ensaboavam e batiam na pedra lavrada posta em cada posição do lavadouro”, recorda o filho, Júlio Chagas, que explica como era Portugal na primeira década do século XX: “Feita a instrução primária eclodiu a Grande Guerra. Portugal era ingovernável. Os Presidentes do Ministério duravam dias. A dívida pública herdada em 1910, as despesas com a guerra, a inflação, a desvalorização da moeda, empobreciam as pessoas e o futuro amedrontava-as. Para um miúdo cuja escolaridade terminara, o horizonte ficava longe.”
Segundo consta, o pai de Júlio queria que ele fosse aprender o ofício de sapateiro, mas Júlio não estava para aí virado. Rebelou-se e foi à Escola de Alunos Marinheiros - instalada no secular edifício do Paço Episcopal, no Largo da Sé – onde colheu informações e decidiu que faria vida na Marinha. Como era menor precisava de autorização paterna e o pai, a muito custo lá assinou os papéis não sem antes o avisar: - Quando perceberes a asneira e voltares, não contes comigo.
 Com 18 anos e a Escola de Alunos Marinheiros
Rumo a Macau
Em 1919 assentou praça na Escola de Alunos Marinheiros do Sul com o número 3. Tinha 16 anos. Frequentou depois a Escola de Artilharia Naval (que desde 1865 funcionava na Fragata Dom Fernando II e Glória) e um ano depois, no dia de aniversário, era promovido a primeiro-grumete.
Da década de 1920 e dos tempos do “Curso Elementar de Artilharia” há uma fotografia com uma equipa de futebol a bordo da Fragata Dom Fernando, e onde Júlio é o quinto a contar da esquerda nos que estão de pé.
Em 1921 já era grumete-artilheiro (foto abaixo) e um ano depois seguiu para o Extremo-Oriente, onde Portugal tinha presença naval constante. Foi em Julho de 1922 a bordo do Paquete ‘Tenente Roby’. Só regressaria a Portugal cinco anos depois, em 1927. Nesses cinco anos serviu em várias unidades, fazendo parte, por exemplo, da tripulação do NRP Carvalho de Araújo. Uma faixa com o seu nome que evoca a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, por Sacadura Cabral e Gago Coutinho em 1922, testemunha esses tempos.
Fez ainda parte da guarnição da canhoneira ‘Pátria’, construída no Arsenal de Lisboa, com fundos de uma subscrição nacional, reacção popular contra a submissão ao ultimato britânico de 1890.
Numa passagem da ‘Pátria” por Shangai, em 1924, resultou uma fotografia onde Júlio Tôrre está sentado no pau-de-cumeeira do toldo; e no primeiro plano do lado direito, o segundo oficial desse lado, por quem ele nutria especial admiração, é o 1º tenente Joaquim Marques Esparteiro (1895-1976), distinto artilheiro, possivelmente o Imediato ou até mesmo já o comandante da canhoneira, e que viria a ser Governador de Macau, o centésimo a ocupar o cargo, entre 1951 e 1956.  
 JGT entre a guarnição da "Pátria"
E resultou ainda mais um quadro, em tecido bordado, onde se assinala o aniversário da República Portuguesa a mais de 10 mil quilómetros de distância… no Império do Meio.

Desses tempos de militar em comissão de serviço em Macau sobreviveram até o aos dias de hoje vários registos fotográficos. Uns dos períodos de licença em terra, em que Júlio alinhava com os restantes camaradas de armas “em rapaziadas, destrajes e convívios”: com Salvador Silvestre, José Marquilha, Beles Fragata, Júlio Bento e António Carrôlo. A tradicional romagem à Gruta de Camões também foi fotografada, num misto de militares, com uniforme ou traje à civil.
 
É pelo filho, também ele de nome Júlio, actualmente com 80 anos, que ficamos a saber que o pai “viveu muito tempo em concubinato com uma rapariga chinesa que o serenou e lhe refreou os ímpetos. Abria-se num sorriso quando falava de Macau, em especial da vida comum com a pequena”.
Das fotos antigas, que ajudam a contar a história, destaque ainda para as que documentam que em Macau Júlio tirou “todas as cartas de condução que havia para tirar”. Outro aspecto curioso que o filho realça tem a ver comos uniformes: “No Oriente, os marujos faziam grande gala no trajar. Os uniformes dos macaístas eram mesmo feitos por medida nos alfaiates e tinham um corte especial.”
Em 1926 a Ilha do Faial foi abalada por uma série de sismos que culminou no dia 31 de Agosto com um terramoto de grande intensidade que provocou mortos, muitos feridos e destruiu grande número de construções em várias freguesias, designadamente na cidade da Horta.
O Núcleo Desportivo Pátria, “integrando muita marujada que a lonjura não tornara menos atenta”, levou à cena em Hong-Kong em Fevereiro de 1927, uma Récita em benefício dos sinistrados do Faial. “Além de ter cantado no Acto de Variedades, o meu pai representou a Tia Censura na comédia em um acto ‘Um Julgamento’”, recorda o filho e o folheto.
 
Em Outubro de 1927, chegavam ao fim os anos de Macau e Júlio embarca no Transporte NRP ‘Pêro de Alenquer’ de regressa à Metrópole, Portugal.           Nesse ano seria promovido a 2º sargento da Armada.

De regresso ao Algarve, casa-se em 1935 e faz serviço na canhoneira Limpôpo. Em 1941 já é primeiro-sargento e é nessa qualidade que, de 1946 a 1951, ingressa nos Serviços de Marinha de Angola.
Numa fotografia dessa época, tirada em Julho de 1947 em Moçâmedes, está ele como Escrivão da Capitania acompanhado pelos filhos.
Um deles, o Júlio, recorda que o pai foi “Delegado Marítimo da Baía dos Tigres nos últimos quatro meses do ano, tempo suficiente para denunciar o mau desempenho do Chefe do Posto Administrativo por ter matado um nativo à chibatada.”
Júlio seria então Escrivão da Capitania do Lobito durante pouco mais de três anos tendo regressado a Lisboa em Abril de 1951 para se preparar para o Curso Geral de Sargentos.
Em 1953 tornou-se Oficial do Serviço Geral e obteve o galão de Subtenente (foto abaixo tirada em Lisboa). 
De regresso à terra natal, foi Escrivão da Capitania do Porto de Faro até Agosto de 1959. Curiosamente, a Capitania estava sedeada no mesmo ex-Paço Episcopal em que Júlio assentara praça quarenta anos antes. 
Em 1958 JGT enviuvou e voltaria a casar-se. Foi padrasto de um enteado que encaminhou para Armada. Mais uma vez e sempre, um artilheiro naval que embora morrendo novo “teve ainda tempo de usar estrelas nos ombros.”
A 1 de Janeiro de 1977 Júlio Guerreiro da Tôrre morria, em Lisboa, no Hospital da Marinha, no Campo de Santa Clara.
Texto: João F. O Botas

Agradecimentos: Júlio José Guereiro das Chagas Tôrre - tb ele marinheiro - e Arquivo Histórico da Marinha.


 
 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

"Hong Kong and Macao Steamers"

Este conjunto de fotografias é do final da década de 1910 e início da de 1920. Juntei-as aqui para se ver de diferentes perspectivas a ponte-cais do Porto Interior que servia de terminal marítimo de passageiros às embarcações a vapor que faziam a ligação entre Macau e Hong Kong. Nesta época o "Heungshan" era um dos vapores desta carreira.
Na estrutura pode ler-se em chinês e inglês "Hong Kong and Macao Steamers" - Vapores de Macau e Hong Kong - que pertenciam à empresa criada em Hong Kong em 1865, a "The Hongkong Canton & Macao Steamboat Company". 
Tendo em conta as características de constante assoreamento do rio - que obrigava a dragagens constantes - estas embarcações tinham uma calado pequeno (8 pés - 2,4 metros) já que as profundidades do rio oscilavam entre os 3 os 7 metros.
Entre as várias particularidades das imagens destaco o Hou Nang Hotel, uma vista parcial de uma Torre Prestamista de uma Casa de Penhores na Travessa das Virtudes (demolida em 2000 após um incêndio) e ainda a famosa Casa de Chá/Restaurante Xing Xiang (杏香茶樓). Tudo isto no que na época era denominado como Largo da Caldeira, topónimo que já não existe*, e que corresponde à actual zona da Rua das Lorchas que vai da Travessa das Virtudes ao início da Rua de Cinco de Outubro.
* existe com este nome uma rua e uma travessa.

Excerto de "The New World of Today", Vol. 7 de A. R. Hope Moncrieff, Londres, 1922
"On the opposite side of the estuary is the peninsula of Macao, where stands a Portuguese town, the oldest place of trade with China, now inhabited chiefly by the half-castes called Portuguese, and having gambling tables for its main industry, which, till a quarter of a century ago, was that of exporting slaves under the name of coolies. It has also turned a dishonest penny by selling, and changing, its postage stamps, so as to levy tax on philatelists; then its breezy shores make a health resort for the perspiring merchants of Hong-Kong. 
These two settlements, Hong-Kong in its stately prosperity, Macao in its mean decay, well illustrate the change that has come over the world since Camoens wrote part of his Lusiad here, and Francis Xavier died on an adjacent island. 
From Hong-Kong and Macao steamers ply up the delta formed by three streams, the Si-kiang “river of the west”, Pe-kiang 'river of the north', and Tung-kiang 'river of the east', a labyrinth of shifting streams, back-waters, and canals, where large vessels cannot ascend beyond Whampoa, 8 miles below Canton. The main channel, known to the Chinese as the Pearl River, is called by us the Canton River, on which, 80 miles from the mouth, stands the chief city of the south, its real name Kwangchow, but Europeans have corrupted Kwangtung, the province of which it is chief place, into Canton for the name of the southern capital, of late years a focus of republican feeling, and meeting-place of a parliament opposing that at Peking."
Tradução
"Do outro lado do estuário está a península de Macau, onde se ergue uma cidade portuguesa, o mais antigo local de comércio com a China, agora habitado principalmente pelos mestiços chamados portugueses, e tendo o jogo como a sua principal indústria, quando, até um quarto de século atrás, era exportar escravos sob o nome de coolies, e estância balnear para os comerciantes abastados de Hong Kong. 
Estas duas povoações, Hong-Kong na sua majestosa prosperidade, Macau na sua mesquinha decadência, ilustram bem a mudança ocorrida no mundo desde que Camões escreveu aqui parte dos Lusíadas, e Francisco Xavier morreu numa ilha próxima. 
De Hong-Kong e Macau, navios a vapor percorrem o delta formado por três rios, o Si-kiang "rio do oeste", Pe-kiang "rio do norte" e Tung-kiang "rio do leste", um labirinto de fluxos inconstantes, remansos canais, onde grandes embarcações não podem subir além de Whampoa, 8 milhas abaixo de Cantão. O canal principal, conhecido pelos chineses como o Rio das Pérolas, é chamado por nós de Rio Cantão, no qual, a 80 milhas da foz, fica a principal cidade do sul, seu verdadeiro nome Kwangchow, mas os europeus corromperam Kwangtung, o província da qual é a principal cidade é Cantão, capital do sul, e que nos últimos anos é um foco de sentimento republicano e local de reunião de um parlamento que se opõe a Pequim”.
Década 1920

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Edifício do Convento de Santo Agostinho

O que proponho para este post é um excerto de um relatório de 1866 do cirurgião-mor do território, Lúcio Augusto da Silva, de 1866 e que apresentada uma descrição muito detalhada de como era o edifício do Convento de Santo Agostinho*.
"O hospital militar acha se estabelecido no convento que pertenceu aos frades da ordem de Santo Agostinho. Depois da extincção dos frades serviu este edificio de quartel ao batalhão de primeira linha e mais tarde de habitação ás recolhidas que occupam actualmente o convento de Santa Clara.
A portaria do governo da colonia de 21 de novembro de 1855, extinguindo a antiga enfermaria militar que occupava então parte do edificio do hospital da misericordia, creou o hospital militar que, como a referida enfermaria, continuou a occupar a mesma casa. Só em 6 de junho de 1857 é que os doentes militares foram transferidos para o edificio que presentemente occupam. A creação d'este estabelecimento deveu-se ás instancias do meu antecessor, o cirurgião-mór, Antonio Luiz Pereira Crespo. 
O edificio está situado sobre uma collina na distancia de duzentos metros, pouco mais ou menos, do mar, no centro das ruas mais habitadas pelos portuguezes e sobranceiro a quasi todos os outros edificios proximos, dos quaes está convenientemente afastado.
Avista-se d'elle o mar e uma grande parte da cidade do lado do norte do nascente e do sul. As condições de exposição pois são boas e seriam excellentes se do lado do oeste não ficasse elle unido á igreja.
Compõe-se o edificio de quatro corpos de construcção dispostos de modo a formarem um quadrado deixando um pateo interior. Cada um d'estes corpos olha para um dos quatro pontos cardeaes da terra. O corpo do sul onde fica a fachada do edificio contém no pavimento superior o seguinte: sala das sessões e archivo da repartição de saude, casa para recepção dos doentes, quarto do enfermeiro-mór, casa de deposito dos appositos e instrumentos cirurgicos, dois quartos para os officiaes, um com quatro e outro com duas camas, e em frente d'estes quartos, um corredor com uma janella no fundo, aberta para leste. No pavimento inferior ha a casa da guarda e dois calabouços soalhados, um com capacidade para oito e outro para duas camas. O corpo de leste comprehende no pavimento superior duas enfermarias separadas por uma pequena casa onde estão os instrumentos meteorologicos, uma das quaes tem treze e a outra quatorze camas, podendo cada uma d'ellas conter, em caso de necessidade, mais duas.
Parallelo a estas duas enfermarias ha um corredor com janellas para o pateo interior. No pavimento terreo fica a casa das autopses e uma grande enfermaria soalhada que só uma vez em occasião de pinturas no edificio foi occupada por doentes. Esta enfermaria tem espaço para dezoito camas. O corpo do norte compõe-se de um extenso corredor ao norte do qual, e parallelos, ficam o quarto dos ajudantes de enfermeiro, duas enfermarias cada uma com sete camas, o quarto do segundo enfermeiro, a casa de deposito das roupas e, na extremidade de leste, a latrina. No lado opposto do corredor ha tres quartos para os officiaes inferiores com janellas para o pateo interior e contendo duas camas cada um. No pavimento inferior fica a casa dos banhos e a de deposito dos utensilios.
O corpo do oeste é apenas um corredor com janellas para o pateo central ficando de outro lado unido á igreja e por conseguinte privado d'esse lado da necessaria ventilação. Contém treze camas. O corredor do pavimento inferior serve de passagem para a sacristia da igreja. O hospital tem tres quintaes, em um dos quaes appenso ao corpo do norte fica a cozinha, a casa dos serventes chins e um poço de abundante e boa agua; e em outro ligado ao corpo de leste plantaram-se ha pouco tempo algumas arvores com o fim de se fazer um pequeno passeio para os convalescentes.
O edificio está velho. Nas occasiões das grandes chuvas e vento o tecto exige sempre consertos que nunca o põem de modo que não careça d'elles n'essas occasiões. Só despendiosas obras dariam a este edificio todas as condições que requer um bom hospital.
Entretanto sem grande despendio se podem melhorar muito as condições hygienicas das enfermarias abrindo algumas janellas e dando ás que existem a fórma propria para a ventilação de differentes modos. S. exa. governador está disposto a mandar fazer algumas n'este sentido. O edificio porém está a todos os respeitos mui conveniente estado de aceio.
No hospital militar não faltam roupas e utensilios necessarios para o seu serviço. Quando cheguei a esta cidade fiz extensa requisição que foi satisfeita e que veiu supprir faltas. Requisitei tambem (...) caixas de instrumentos cirurgicos, machina electro magnetica de modo que o hospital não carece dos principaes para satisfazer ás necessidades actuaes d'esta colonia.
Tem elle sessenta e oito leitos de ferro e como somente em circumstancias anormaes pode haver maior numero de doentes, ha leitos d'estes para todos sendo os dos quartos dos officiaes mais commodos que os outros.
O hospital militar não tem outros rendimentos que não sejam os descontos feitos aos doentes que n'elle são tratados. Estas quantias ficam na fazenda publica para onde se remettem as importancias que pagam outros doentes que não têem vencimento pelo estado. A fazenda publica como é claro paga todas as despezas. A receita do hospital em consequencia do pequeno movimento clinico não chega para as despezas. O deficit porém, se assim se pode chamar, é em alguns mezes insignificante.
O movimento annual do estabelecimento tirada a media dos ultimos tres annos, de 1862 a 1864, é de 746 doentes. Todo o serviço do hospital é feito em conformidade do regulamento que apresentei e foi approvado pelas auctoridades superiores e de que já remetti a v. exa. um exemplar. A este regulamento estão appensos os modelos dos differentes mappas, tabellas, papeletas e altas dos doentes. A relação dos empregados do estabelecimento vae junta a este relatorio. N'elle V. exa. encontrará a minha informação sobre as habilitações, moralidade e serviços d estes funccionarios."
* A construção da Igreja de Santo Agostinho e o Convento foi iniciada em 1586 por frades agostinianos, mas só foi concluída em 1591. O primeiro convento de Macau foi o de S. Francisco e data de 1584.
Vejamos o que escreveu António Marques Pereira nas "Ephemerides commemorativas da historia de Macau" publicado em 1868:
"22 de Agosto de 1589: Os religiosos de Santo Agostinho tomaram neste dia posse do convento de Nossa Senhora da Graça em Macau que já antes haviam fundado os padres hespanhes da mesma ordem os quaes o cederam por determinação de el rei D Felippe I intimada pelo governador da India Manuel de Sousa Coutinho. Affirmam alguns manuscriptos que no ánno de 1591 se mudou o local do convento para onde se vê ainda formoso alto da cidade de onde se descobre toda a Praia Grande e o mar. Querem outros que só fosse a mudança de algumas portas e não de todo o corpo do convento por se não encontrar noticia nem vestigios do que se pretende dar por mais antigo." 
Em 1894 o convento albergou o Liceu de Macau que nesse ano foi inaugurado.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Protocolos da tomada de posse do Governador: 1863







Parte Official - Quartel do Governo de Macao - 15 de Junho de 1863 - Ordem à Força Armada nº 24
Esperando-se com brevidade S. Exa. o Conselheiro José Rodrigues Coelho do Amaral, nomeado por S. M. El Rei, Governador desta Colonia, o Exmo Conselho do Governo determina o seguinte: 
1º Ao avistar-se o Vapor que de Hongkong conduzir S Exa, o qual deve traser no tope de proa içada a Bandeira Nacional, a Fortaleza da Guia içará a sua Bandeira dando um tiro de peça e a  este signal todas as Fortalezas içarão logo suas respectivas Bandeiras que conservarão içadas até ao sol posto. 
2º Ao passar o Vapor por a frente da Fortaleza de S. Francisco esta salvará com 21 tiros, e igual salva dará quando S. Exa. dezembarcar. 
Acontecendo porem ir Sua Exa desembarcar no rio* a salva terá lugar quando S. Exa. entrar a porta do Palacio do Governo sendo antes do sol posto.
3º Ao signal da Guia o Batalhão de Macao na maior força, marchará para o Palacio do Governo em grande uniforme, como guarda de honra à recepção de Sua Exa. 
4º Os Escaleres** da Policia se acharão na praia grande, para fazerem o sequito do Vapor ao desembarque em terra.
5º São convidados por esta ordem todas as corporações Militares, arregimentados e não arrigimentados, Empregados publicos a quem o serviço não inhiba, para assistirem ao dezembarque de S. Exa. acompanhando-o ao Palacio.
6º Deste dia em diante a guarda principal volta a ser commandada por official.
Gregorio José Ribeiro, Secretario do Governo


* referência ao Porto Interior, outra alternativa de desembarque à baía da Praia Grande junto ao fortim de S. Pedro.
** pequenas embarcações.

Duas Ordens à Força Armada publicadas no Boletim do Governo
Quartel do Governo em Macau - 21 de Junho de 1863 Ordem à Força Armada nº 27
Devendo ter lugar no dia de amanhã (22) a posse de Sua Exa. o Governador, o Conselheiro José Rodrigues Coelho do Amaral, nomeado por decreto de 7 de Abril findo, o Exmo. Conselho do Governo determina o seguinte:
1º Que ao nascer do sol todas as Fortalezas icem as suas bandeiras, arriando-se ao pôr do sol. A Lorcha Amasona * embandeirará ás horas do estillo.
2º Que devendo a posse ter lugar ás 5 horas da tarde do dia indicado, são avisadas para assistir a este acto todas as Corporações Militares, e Empregados Publicos que o serviço não inhiba, usando-se do grande uniforme.
3º Que o Batalhão de Macao se ache ás 4h30 horas collocado na parte externa da Fortaleza do Monte dando a direita à porta, na maior força disponível, e em grande uniforme para faser as devidas continencias. 
4º Que a Fortaleza dará as seguintes salvas, todas de 21 tiros: 1ª quando o Exmo. Conselho do Governo chegar á Fortaleza com o bastão do Commando, que previamente terá ido buscar á Sé Cathedral; 2ª á chegada de Sua Exa. o Governador, accompanhado pelo Leal Senado; 3ª na occazião em que o Exmo. Conselho entregar a Sua Exa. o bastão e as chaves da Fortaleza; 4ª a sahida de Sua Exa. do Monte acompanhado pelo Exmo. Conselho e pelo Leal Senado, e corporações.
5º Que o Batalhão de Macao feche o prestito, para a Sé Cathedral, onde se conservará até findar o Te-Deum solemne, e Sua Exa. sahir da Igreja.
6º Que o Tenente do Batalhão Nacional, às ordens do Conselho, findas estas ceremonias deixe d´estar destacado na Repartição do Governo.
Gregorio José Ribeiro, Secretario do Governo

* Lorcha de guerra sendo também designada pelo nome Amazona.

Nota: Antes de existir Palácio do Governo a Fortaleza do Monte era a residência oficial do governador e era ali, mesmo depois disso, que o governador tomava posse do governo; a cerimónia tinha essencialmente dois momentos, um civil (tomada de posse perante o Senado e o conselho do governo) e outro religioso (Te-Deum da Sé), sempre acompanhados de honras militares.

sábado, 8 de janeiro de 2022

The Senate House

Ilustração da década 1940

The Senate House (Leal Senado) in the centre of the city was built in 1784 at a cost of upwards of 80,000 Ts. Over the principal entrance is the following CIDADE DO NOME DE DEUS NÃO HA OUTRA MAIS LEAL: "Em nome del Rei nosso senhor D Joao IV mandou o governador a capitao geral da praça Joao de Souza Pereira pôr este letreiro em fé da muita lealdade que conheceu nos moradores d ella em 1654." The front was rebuilt in 1876. On its walls are to be found some famous old paintings and in the rear of it is the Public Prison.
Excerto do artigo "Historical Landmarks of Macao" in The Chinese Recorder, 1888

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

"Circular" sobre vapores em 1862

Circular
Até segundo aviso o vapor Fi Wan navegará regularmente entre es te porto e Hongkong. De Hongkong todas as Segundas, Quartas e Sextas feiras. De Macao, todas as Terças, Quintas e Sabbados  - a hora da partida de ambos os portos será ás 11 a.m. 
O vapor Whampoa, também navegará regularmente entre este porto e Cantão. De Cantão, todas as Terças, quintas e Sabbados. De Macao, todas as Segundas, Quartas e Sextas, - a hora da partida de ambos os portos será às 8 a.m. 
Para passagem e fretes dirija-se a B. E. Carneiro
Macao, Novembro 19, 1862
Circular
Until further notice the steamer Fi Wan will run regularly between this & Hongkong as follows: From Hongkong every Monday, Wed nesday & Friday. From Macao everyTuesday Thursday & Saturday,  - hour of departure from both places, at 11 a.m. 
The Steamer Whampoa will also run regularly between this & Canton as follows: From Canton every Tuesday & Saturday at 8 a.m. From Macao every Monday, Wednesday & Friday at 8 a.m. For further particulars apply to B. E. Carneiro 
Macao, November 19th 1862


Os anúncio acima foram publicados n'O Boletim do Governo de Macao" a 3 de Janeiro de 1863. Nesta época as viagens entre Macau e Hong Kong duravam cerca de 4 horas.
Recorde-se que a empresa "Hongkong, Canton and Macao Steamboat Company" só seria criada dois anos depois.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

The land of the blue gown

"The land of the blue gown" - tradução literal "A terra do vestido azul" - é o titulo de um livro com quase 400 páginas da autoria de John Little Archibald que viveu na China cerca de 50 anos. Editado em Londres em 1902 a obra é uma viagem à China da segunda metade do século 19, nomeadamente sobre usos e costumes do povo chinês, e inclui alguns relatos sobre Macau.
"An account of travels in China in the last part of the nineteenth century. Describes visits to Shanghai and Peking, Canton, Hong Kong, Macao, Swatow, Amoy, Hanchow, Foochow and Soochow. Included are accounts of missions and missionaries, anti-foreign riots in Western China and visits to little-known border tribes. The culture, customs and the people are recorded."
China 1894 Foto Sze-Yung-Ming & Co
Oriundo de Manchester, o comerciante John Little Archibald (1838-1908) vai pela primeira vez à China em 1859 enquanto provador oficial de chá ao serviço de uma empresa alemã, passando por Kiukiang (Jiujiang) e Xanghai. É nesta última cidade que tem a ideia de usar navios a vapor ao longo da parte norte do rio Yangtze onde a navegação era praticamente impossível para as embarcações tradicionais devido à força da corrente.
Impressionado com o potencial de negócios na China acaba por se fixar na província Sichuan. Aos 28 anos decide casar com uma britânica.
Alicia Bewicke (1845-1926) nascera na ilha da Madeira (Portugal) em 1845. Estudou depois em Inglaterra mas cansada de uma sociedade demasiado passiva, cedo dedicou-se à escrita.
Em 1887 chegou à China como noiva de Archibald Little passando a viver em Chungking (província de Szechuan), um feito raro na época para uma mulher ocidental. Passou a acompanhar o marido nas viagens pela China e tomou notas de tudo o que viu e ouviu para além de tirar fotografias.
Enquanto viveu na China, a Sra. Archibald, como viria a ficar conhecida, viria a envolver-se numa luta pela emancipação da mulher chinesa de uma tradição conhecida por "pés de lótus " um ritual que passava por amarrar os pés das mulheres jovens em amarras apertadas a fim de modificar o formato dos pés. Para o efeito criou uma associação em Xangai a que deu o nome de "Natural Feet Society" (Sociedade dos pés naturais). Empenhada nessa luta proferiu discursos por inúmeras cidades chinesas sendo um dos mais notáveis dado em Hong Kong em Fevereiro de 1900 tendo passado por Macau no mês seguinte.
O casal regressaria a Inglaterra em 1907 e um ano depois John morreu. Alicia continuou envolvida em múltiplas causas sociais, nomeadamente contra a escravatura branca. Morreu em 1926.


Excerto do livro que incluiu três imagens de Macau, duas delas tiradas após o tufão de Setembro de 1874.
Chapter XX - Part II
Through Macao, Swatow, Amoy, Foochow, Hangchow and Soochow
It is a little sad to have to own that anti-footbiiiding seems much farther advanced in languid, sunshiny Macao than in bustling Hong-Kong. Of course the Portuguese have been established there for centuries, and they mix with the people and inter-marry as we do not. It may be that which makes the difference. But some say a doctor, a leading member of the reform party, has made the change at Macao. There on the Praya, a miniature Bay of Naples, with the exceptionally romantic public gardens at one end and the Governor's palace at the other, the Portuguese band making music in the evenings, the waves lapping on the shore, mothers walking out with their children round them, as we never seem to see English mothers in the East, and young girls with their duennas, there in Macao several of the best European houses are occupied by Chinese, and in one, conspicuous with heavily-gilded railings, I was delighted to find that all the children were growing up unbound.
Mr Ho Sui Tin, the leading Chinese of Macao, and a Portuguese subject, not only arranged a Chinese meeting for me to address, but took me home to his house after-wards and assured me one of his little girls was about shortly to be unbound. But though they had every luxury in the way of costly and artistic furnishing, even to a billiard table, on which they said they played, it was sad to see the elder daughters with their bound feet. He had not however been a member of the Reform Doctor's Society. My interpreter had, and he seemed full of earnestness, when at a little Christian meeting, at which the enthusiasm of everyone impressed me very refreshingly, one of the first to join the society was a bound foot lady his wife who said, smiling, " If you will take my money, and accept my promise that I am going to unbind." 
The secretary of the Portuguese Club, Signer d'Assompcao, was kind enough to organise a meeting there for all people, who understood English. A good many of the members, who did not, came in to listen at first, then gradually went away not quite noiselessly, and it was amusing next day to note the indignation of the Chinese portion of the audience: "The Portuguese might at least have kept quiet if they could not understand!" because the remark seemed to indicate the very different way in which the Chinese regard the Portuguese at Macao from the way in which the English are regarded at Hong-Kong. I must not however in passing forget to mention the great kindness of their then Governor Galhardo, even hampered as he was by the carnival a great affair at mediaeval Macao!
The exquisite views, the orange trumpet flowers of the bignonia, the merry children in carnival costume, the soft sunshine, the romance that attaches to Camoens garden and everywhere romantic accessories, all transport one to Europe, and make Macao a place quite by itself in China. I caunot help hoping also that it is one of the first places where footbinding will die out. The Roman Catholic Sisters appeared eager to bring this about, though as usual it was impossible even to ask them to combine for the purpose with Protestant missionaries.
The China Merchants' Company had granted me a free pass by all their steamers, the Hong-Kong, Canton Macao Company had been equally liberal, and now the Douglas Lapraik Line did likewise. I began to feel as if it were hardly right that hotels should charge me anything when steamer companies were so generous. But it was only at Canton and Macao that it was necessary to go to hotels. Everywhere else people most kindly entertained me for the Cause.

Tradução
É um pouco triste ter que admitir que a luta contra os pés de lótus parece muito mais avançada na lânguida e ensolarada Macau do que na agitada Hong-Kong. Claro que os portugueses estão lá há séculos e eles misturam-se com o povo e casam-se. Ao contrário de nós. Pode ser isso que faz a diferença. Mas alguns dizem que um médico, um membro importante do partido reformista, fez a mudança em Macau. 
Na Praia (Grande), uma baía em miniatura, de Nápoles, com os excepcionalmente românticos jardins públicos de um lado, e o palácio do governador do outro, a banda portuguesa toca música à noite, as ondas batendo na praia, mães caminhando com os filhos à volta, como nunca parecemos ver mães inglesas no Oriente, e raparigas com as suas duenas, ali em Macau várias das melhores casas europeias são ocupadas por chineses, e numa delas, conspícua com grades pesadamente douradas, fiquei encantado ao descobrir que todas as crianças estavam a crescer soltas.
O Sr. Ho Sui Tin, o principal chinês de Macau e súbdito português, não só deu-me a oportunidade dum encontro, como me deixou entrar na sua casa e garantiu-me que uma das suas filhas estava prestes a nascer. Embora tivessem todo o luxo na forma de móveis caros e artísticos, até mesmo uma mesa de bilhar, na qual disseram que jogavam, era triste ver as filhas mais velhas com os pés amarrados. Ele, no entanto, não tinha sido um membro da Sociedade do Doutor Reformado. O meu intérprete tinha, e parecia cheio de seriedade, quando numa pequena reunião cristã, na qual o entusiasmo de todos me impressionou de maneira muito animadora, uma das primeiras a se juntar à sociedade foi uma senhora de pés amarrados, sua esposa, que disse, a sorrir: “Se aceitarem o meu dinheiro e aceitarem a minha promessa de que vou desassociar.” 
O secretário do Clube Português, Signatário, d'Assumpcao, teve a gentileza de organizar ali um encontro para todas as pessoas que entendiam inglês. (...) Não devo esquecer de mencionar a grande gentileza do governador Galhardo, ainda que atrapalhado, como estava, por tal acontecimento, em pleno Carnaval numa Macau medieval!
As vistas magníficas, as flores laranjas da trombeta da bignónia, as crianças alegres em trajes de carnaval, o sol suave, o romance que se liga ao jardim de Camões e os acessórios românticos por toda a parte, tudo nos transporta para a Europa fazendo de Macau um lugar único na China. Não posso deixar de esperar também que seja um dos primeiros lugares onde o enfaixamento de pés vai morrer. As Irmãs Católicas Romanas pareciam ansiosas para fazer isso, embora, como de costume, fosse impossível até mesmo pedir-lhes que se combinassem para esse propósito com os missionários protestantes. A empresa China Merchants Company havia me concedido um passe livre para poder viajar em todos os seus vapores, a Hong-Kong, Canton and Macao Company foi igualmente liberal, e até a Douglas Lapraik Line fazia o mesmo. Comecei a sentir como se não era correcto os hotéis cobrarem-me a estadia quando as companhias de vapor eram tão generosas. Mas só em Cantão e em Macau era necessário ficar em hotéis. Em todas as outras partes, as pessoas recebiam-me em casa, com muito carinho pela causa.
"Macao Praya and City, as seen from Boa Vista Hotel"

"A bit of old Macao". Igreja Sto. António após o tufão de Setembro de 1874

"Mr. Ho Sui Tin, rich chinese in Macao"