domingo, 16 de abril de 2017

Museu de Macau: desde 1998

Composto por dois níveis subterrâneos e um terceiro acima da plataforma no topo da Fortaleza do Monte, o Museu de Macau começou a ser planeado em 1995.
A construção iniciou-se em Setembro de 1996 sendo inaugurado a 18 de Abril de 1998.
De um total de 2800 metros quadrados, cerca de 2000 são área de exposição onde se conta a história do território.

1º piso: Apresentação da história de Macau, actividades comerciais, religiões e culturas das duas civilizações. 
2º piso: Tradições e arte popular de Macau, cerimónias religiosas e festivais tradicionais.
3º piso: Macau contemporâneo focando algumas personalidades da literatura e das artes.
 Fachadas de edifícios e uma sala "macaense"


sábado, 15 de abril de 2017

Donas honradas, mulheres livres e escravas

Em 2011 Elsa Penalva publicou o livro "Mulheres em Macau: donas honradas, mulheres livres e escravas" que aborda o período entre 1590 e 1660. De seguida publico uma resenha da obra da autoria de Ana Paula Wagner.
O primeiro ponto a ser evidenciado é que as mulheres são as protagonistas dessa obra, o que já se encontra anunciado no próprio título do trabalho. São mulheres de diferentes estatutos sociais, que viviam em Macau entre finais de Quinhentos e meados de Seiscentos. No topo da hierarquia local estavam as "donas honradas". Conforme ressaltado por Elsa Penalva, essa condição, ser "honrada", não se ligava necessariamente a uma conduta moral reta; mas era acrescida de uma valoração positiva facultada "pelo enlace com um homem com poder econômico, e com possibilidades de acesso às elites atinentes ao exercício do poder político". Abaixo desta categoria, "donas honradas", encontravam-se as mulheres livres e, depois, as escravas. Para estas últimas, equivalia situar-se na base da pirâmide social macaense, no lugar mais indesejado. Num campo intermediário estavam as mulheres livres. Entretanto, para esses dois segmentos sociais, independentemente da condição de livre ou escrava, "significava ter que se organizar, atendendo à sociedade patriarcal em que se inseriam". Eram mulheres que, no geral, tinham dinâmicas de vida muito trabalhosas.
Porém, o universo feminino em Macau era muito mais complexo e diversificado do que a existência dessas três categorias, contando também com a presença de órfãs, religiosas, viúvas com posses ou não etc. Essa heterogeneidade é devidamente explorada pela autora no livro, além de ser redimensionada em razão do caráter multicultural da sociedade macaense, com indivíduos de diferentes procedências, como Portugal, China e Japão, por exemplo. Desse amplo quadro, a autora acaba por apresentar maiores detalhes do segmento das mulheres economicamente mais favorecidas. Tal circunstância deriva, possivelmente, de uma escolha feita por Elsa Penalva e, certamente, do tipo de documentação utilizada para a elaboração da pesquisa.
Em grande medida, ao problematizar a inscrição das mulheres na vida social de Macau, a autora procura não superestimar as ações delas, buscando equilibrar sua argumentação. A conclusão que chega é que "sem capacidade política, nem autoridade pública, e com reduzida intervenção social, a mulher em Macau, dificilmente escapava à dominação masculina a partir da riqueza de que dispunha". Ou seja, a maior parte delas encontrava-se submetida a uma valoração fundamentada em índices de riqueza e, nesse ambiente, o casamento era considerado a principal garantia de segurança e de sobrevivência material. Mas, por outro lado, a condição de viúva, quando acompanhada de poder econômico, facultava à mulher a "manutenção do prestígio social e a aproximação ao universo masculino".
Elsa Penalva não valoriza demasiadamente o papel da mulher em Macau, mas também não as vitimiza, procurando sempre um ponto de equilíbrio. No que diz respeito ao casamento, por exemplo, percebido como um importante mecanismo do processo de inserção social e de diferenciação entre o grupo feminino, ele foi um instrumento bem aproveitado pelas mulheres que viviam em Macau. Ainda que em algumas circunstâncias o matrimônio tenha sido imposto, as mulheres buscaram construir espaços de movimentação e, na medida do possível, procuraram atuar independente dos códigos sociais a que estavam sujeitas.
Como indicamos, a autora acabou privilegiando, em seu estudo, as mulheres economicamente melhor favorecidas, no caso, as viúvas com posses. Particularmente no que se refere a esse grupo social, as ideias de passividade feminina não se configuravam como majoritárias no período em análise, séculos XVI e XVII. Em relação ao aspecto econômico, algumas viúvas conseguiram ultrapassar determinadas barreiras e chegaram a ser as responsáveis pelo gerenciamento de seus patrimônios (garantindo a sua rentabilidade), constituindo-se em grande feito para a conjuntura daquela sociedade:
Algumas [mulheres], após terem enviuvado, tornaram-se elementos activos no meio mercantil em que viviam. Foi o caso de Isabel Reigota que entre 1652 e 1663 se opôs ao jesuíta Manuel de Figueiredo à data, Procurador da Vice-Província da China. Em causa estava o comércio do sândalo, e uma luta pelo poder travado no seio da Companhia de Jesus. O comportamento desta viúva deixa entrever uma aprendizagem de âmbito prático, fruto da observação atenta da actividade do marido, Francisco Rombo de Carvalho, e do contacto com os jesuítas com que privava. A sua casa, local de práticas dos vários saberes a que tinha acesso como mulher, permitira também a aquisição de conhecimento próprios do universo masculino, que, face à morte do marido, se tornaram recorrentes, funcionando como mecanismos de manutenção e sobrevivência.
A história da Isabel Reigota, indicada acima, sintetiza muito bem a argumentação da autora, e apresenta todos os elementos envolvidos na trama oferecida pelo livro. Ou seja, revela o cotidiano de mulheres que, por meio do casamento com um indivíduo com posses, tem acesso a um ambiente que lhes possibilita desenvolver conhecimentos e habilidades, que foram utilizados no momento em que seus cônjuges faltaram. Do mesmo modo, evidenciam as relações estabelecidas entre algumas ordens religiosas instaladas em Macau e determinados segmentos populacionais, fosse no contato para cuidar dos assuntos sagrados, ou sociais, ou econômicos.
Como se nota, paralelamente à história da condição social das mulheres de Macau, a autora descortina alguns aspectos do mundo religioso institucional da localidade, particularmente aquele que dizia respeito à Companhia de Jesus. Conforme Elsa Penalva, essa ordem era a que tinha maior poder em Macau, "pela sua antiguidade, modelo de aproximação à população, e ocupação logística do terreno. Isto pelo menos desde 1565 até inícios da centúria seguinte". As Clarissas, ordem religiosa feminina que se instalou em Macau, em 1633, também ganhou atenção da autora. Segundo seu argumento, a partir de 1642, essas religiosas "funcionaram como um grupo de pressão nas lutas pelo poder que se desencadearam na cidade", passando a se constituírem nas grandes oponentes à Companhia de Jesus naquele território. Entre as Clarissas estavam as filhas de mercadores abastados e influentes que se estabeleceram em Macau. Nota-se, assim, a configuração de um quadro bastante complexo que interliga o cotidiano das mulheres e as disputas religiosas e econômicas locais.
Sem dúvida, o livro em questão atende aos interesses daqueles leitores que buscam informações sobre as experiências das mulheres na Macau dos séculos XVI e XVII; contudo, também contempla a história de algumas ordens religiosas instaladas naquela localidade. Em grande medida, esse é um dos méritos do livro, fazer com que diminuam as distâncias que separam Macau de seus leitores. Embora a sociedade macaense tenha suas particularidades, devidamente exploradas e contextualizadas pela autora, tem-se a impressão de que é possível identificar algumas semelhanças com a história de outros territórios de colonização portuguesa, em especial nas questões relacionadas ao cotidiano das mulheres. É nesse sentido que dizemos que o livro de Elsa Penalva permite estabelecer algumas aproximações, desde o contato com esse espaço geográfico que constituía Macau até o conhecimento de experiências sociais nele desenroladas e comuns a outras sociedades.
Outra grande contribuição do livro Mulheres em Macau é a publicação, como anexos, de três documentos redigidos no século XVII, especificamente entre 1644 e 1690. Embora esses textos tenham sido escritos por homens e, portanto, nos digam muito do universo masculino, as mulheres que tiveram suas histórias vividas em Macau continuam sendo as protagonistas daquelas narrativas. Aliás, essa preocupação com as fontes e o recurso a um sólido trabalho documental é um dos pontos fortes da obra. Elsa Penalva pesquisou uma vasta documentação para compor seu trabalho, como os legados da Santa Casa da Misericórdia de Macau, documentos relativos a Câmara Municipal, processos inquisitoriais e registros de contendas relativos a Macau. Saliente-se, a propósito, a cuidadosa transcrição e referenciação dos documentos e da bibliografia consultada. Por fim, os capítulos apresentados no livro têm como base os estudos empreendidos pela autora em sua tese de doutorado (defendida em 2005) e comunicações apresentadas em congressos, porém ampliados à luz de novas indagações. Enfim, o que se tem em mãos é uma investigação de grande fôlego que requer e merece uma leitura atenta.
Artigo da autoria de Ana Paula Wagner, pesquisadora do Centro de Documentação e Pesquisa em História dos Domínios Portugueses

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Macau por J. Gabriel B. Fernandes



A 24 de Junho de 1877 é posta a circular uma nova publicação em Portugal que se denomina Revista de Lisboa, "jornal politico, noticioso, litterario e scientifico" cujo redactor principal era J. M. Pereira de Lima.
Ao longo dos primeiros seis números, J. Gabriel B. Fernandes, assina um conjunto de artigos sobre Macau que servirão de base ao livro da sua autoria publicado anos mais tarde, em 1883 pela Typografia Universal de Thomas Quintino Antunes (impressor da Casa Real), e intitulado Apontamentos para a História de Macau.
José Gabriel Bernardo Fernandes nasceu a 29 de Dezembro de 1848 em Macau (na Sé). Na altura deste livro o autor tinha 29 anos, era bacharel (advogado) formado pela Universidade Coimbra e "empregado no ministério dos negócios da fazenda".

O primeiro artigo publicado na edição nº 2 da Revista de Lisboa de 1 de julho de 1877 intitula-se "A Ouvidoria de Macau".
Em 1580 teve começo em Macau a ouvidoria na pessoa de Ruy Machado. Os ouvidores, com as enormes jurisdicçõcs que lhes foram conferidas, commettiam toda a sorte do prevaricações e abusos, até que, a pedido dos moradores (1) foi por el-rei D. João 5.°, abolido o tribunal de ouvidoria por desnecessário n'uma cidado pequena.
Mais tarde, em ordem a regular o bom andamento da justiça e salvaguardar o município das prepotências exercidas pelos governadores que se intromettiam em assumptos
proprios do Senado da Camara (2), foi restabelecida a ouvidoria pelos annos do 1784. Lazaro da Silva Ferreira, nomeado ouvidor de Macau, curou em pouco tempo de engrandecer a sua ouvidoria com novas jurisdicções, tirando-as dos juizes da terra;
projectou um novo regimento para a ouvidoria que enviou à corte o deu em resultado da publicação do dois alvarás de 26 de março de 1803 (3), em virtude dos quaes um simples juiz de primeira instancia - era ao mesmo tempo ouvidor, corregedor da comarca, provedor-mór dos defuntos e ausentes, capellas e residuos, juiz o administrador da alfandega, dos bens dos orfaos, juiz da índia o Mina, primeiro vogal o relator na junta da justiça e na da corôa, membro do conselho do governo da província, juiz privativo da administração da misericórdia, vogal da administração da fazenda, etc.
Cercados de tantas regalias e com o ordenado annual de perto de tres contos do réis, os ouvidores, julgando de direito e de facto, interpretando e applicando as leis arbitraria o soberanamente, tendo quasi o mesmo poderio que os governadores, não podiam deixar de ser mal vistos pelos habitantes da comarca.
Foi, pois, com frenético enthusiasmo, que a cidade do Santo Nome do Deus de Macau (4) respondeu aos gritos de liberdade heroicamente erguidos em Portugal nas sempre memoráveis épocas de 1820 e 1834. O decreto de 3 do abril deste ultimo anno determinou que se executasse em Macau a nova legislação sobre a reforma da justiça (5) . Pelo art. 20 do doc. do 7 de dezembro do 1 36 foi dado a Macau um juiz de direito da primeira instancia (6), com as attribuições judiciaes dos antigos ouvidores, continuando a funcionar a junta da justiça creada pelo referido alvará do 26 de março de 1803. Contudo terminaram assim muitos dos altos cargos que por bastante tempo desfructaram os antigos magistrados da ouvidoria.
Notas:
1) Em Macau chamam moradores aos negociantes ou proprietários mais conhecidos da colonia.
2) Em 1853, por conselho do bispo da diocese, elegeram os macaenses o Senado da Camara (a que por dec. de 13 de maio de 1810 foi concedido o titulo de leal), composto de dois juizes, tres vereadores e um procurador.
3) Nesse anno foi instituída a junta da justiça em Macau. O dce. de 15 de julho de 1871, divide a junta da justiça em duas secções, uma civil e outra militar. A 1ª é constituída pelo governador geral da província (como presidente, e sem voto), pelo juiz de direito (relator), por dois vogaes do conselho da província e do presidente da camara municipal; a 2ª compõe-se do governador geral (presidente, e sem voto), do juiz de direito (relator), e de quatro officiaes mais graduados na província.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Mercado Vermelho 紅街市大樓 : desde 1936


Em Agosto de 1933, a Comissão de Terras concordou com o pedido de concessão apresentado pelo Leal Senado da Câmara relativo ao uso gratuito de um terreno de 1450 metros quadrados, sito na Avenida Almirante Lacerda para construir um mercado.
A Portaria n.º 1431 do Governo da Colónia de Macau, de 30 de Abril de 1934, aprovou a emissão da dívida pública do Leal Senado da Câmara no valor total de $400,000.00, com taxa de juro de 5 por cento, amortizado em dez anos. O resultado da emissão destinava-se à construção e à manutenção das instalações da Câmara Municipal, incluindo mercados, cemitérios e para fim de higiene pública, em que o orçamento para construir o novo mercado era de $60,000.00. 

Assim, na segunda metade de 1934 ficaria delineado o projecto de arquitectura da autoria de Júlio Alberto Basto. O cálculo da estrutura da obra ficou a cargo do Barão de Senna Fernandes e o desenho foi feito por Wong Lam e Tse Shing. A construção do mercado teve início nos primeiros meses de 1935 ficando concluída em Junho de 1936.
Naquela altura, o plano da construção do novo mercado contou com a oposição dos negociantes e proprietários adjacentes ao mercado original de San Kio, porque com a construção e o funcionamento do novo mercado ficaria afectado o comércio da zona de San Kio. Chegaram a pedir a suspensão da construção mas o Leal Senado negou a pretensão alegando a necessidade da construção de um novo mercado, de maiores dimensões para satisfazer o aumento da população e feito de acordo com as regras mais modernas para garantir elevados padrões de higiene.
Em 1992 - Decreto Lei n.º 83/92/M de 31 de Dezembro - o mercado foi classificado como "edifício de interesse arquitectónico".

A denominação oficial é Mercado Municipal Almirante Lacerda embora este edifício exemplar da arquitectura modernista seja mais conhecido pelo nome "Mercado Vermelho", facto que advém da cor dos tijolos utilizados na construção; a designação em chinês é 紅街市大樓.
Elaborado a partir de um texto (e imagens) do Arquivo Histórico de Macau.

domingo, 9 de abril de 2017

Macau e a "vista Chineza" do Rio de Janeiro

Nos tempos em que a soberania de Portugal reinava em Macau e no Brasil, no início do século XIX, foi da então possessão asiática que partiu muita mão-de-obra necessária em terras de Vera Cruz. É nesse período que nasce o chamado 'bairro chinês' do Rio de Janeiro bem como o Pavilhão Chinês (ou Vista Chinesa como é conhecido localmente) que proporcionava - e ainda o continua a fazer - uma vista privilegiada sobre a cidade brasileira - miradouro da Tijuca - ainda a dar os primeiros passos na construção.
Essa vaga migratória de mão-de-obra seria impulsionada pelo Ouvidor Arriaga (Miguel Arriaga Brum da Silveira) que numa carta dirigida ao Príncipe Regente no início de Março de 1809 (a corte portuguesa instalara-se ali há muito pouco tempo) exalta as qualidades dos trabalhadores chineses que poderiam ser muitos úteis à Real Fazenda. Claro está que, à época, a situação que se reporta mais se aproximava de uma situação de escravidão. No final de Março a ideia era posta em prática havendo registo do envio das primeiras 'levas' de trabalhadores chineses - agricultores - para o Brasil. Com eles seguiria, pouco depois, as primeiras sementes e plantas de chá, nos tempos de D. João VI...
E quais são as origens da "Vista Chineza"? A versão que se aponta como sendo a mais verosímil é esta. Aquando da expansão da cidade do Rio de Janeiro foi construída uma estrada entre o Jardim Botânico e o Alto de Boa Vista; nessa estrada - denominada D. Castorina - trabalharam muitos dos chineses oriundos de Macau e que foram construindo alguns abrigos na encosta da Tijuca havendo registo em 1844 de uma "Casa dos Chinas".
Seria já em 1903 que essa memória seria recuperada pelo prefeito da cidade (Pereira Passos) com projecto do arquitecto Luis Rey que replicou em cimento/argamassa a fisionomia do bambu edificando um pavilhão denominado "Vista Chinesa'. Foi alvo de um grande restauro em 2013 e ainda hoje pode ser visitado.
Dos tempos da presença da casa real portuguesa no Brasil existem muitas e variadas histórias relacionadas com Macau a que voltarei em próximas oportunidades.

sábado, 8 de abril de 2017

Primórdios do chá no Brasil

No início do século XIX as encostas da Vista Chinesa do Rio de Janeiro foram desmatadas para ali se praticar a agricultura. A primeira experiência foi feita com a plantação de chá e com recurso a trabalhadores chineses trazidos de Macau, em 1812, pelo Conde de Linhares (ministro do reino).
O Príncipe Regente de Portugal tencionava transformar o Brasil num grande produtor e exportador de chá para a Europa já que na época o chá se apresentava com alto valor no mercado e aparentava vir a ser um produto mais rentável do que o café. Foi assim que, sob supervisão do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, fundado em 1808, foram plantados naquela encosta cerca de seis mil pés de chá que eram colhidos em três safras anuais.
Por volta de 1822 a plantação ia de vento de popa. Um quadro do pintor alemão Johann Moritz Rugendas intitulado "Chineses cultivando chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro" é a prova desses tempos áureos, embora curtos.
Na verdade a experiência viria a revelar-se um desastre já que o gosto do chá 'carioca' não agradava à maioria. Fosse pela fraca qualidade das plantas, pelas características do solo e do clima ou pela falta de conhecimentos dos cultivadores. Por volta de 1830 seria abandonada a cultura do chá mas as centenas de chineses oriundos de Macau (pelo navio Vulcano) para o seu cultivo ficariam pelo Brasil e logo depois seriam muito úteis na construção de uma estrada que dava acesso a uma vista privilegiada para a cidade do Rio de Janeiro e onde seria construído, em 1903) um "pavilhão chinês" (imagem abaixo). Mas essa história fica para depois...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Decreto nº 892/76 de 30 de Dezembro

Tendo sido extinto, pelo Decreto-Lei n.º 705/75, de 19 de Dezembro, o Comando Territorial Independente de Macau e convindo dar às respectivas infra-estruturas militares o destino adequado à sua particular utilidade pública; Considerando o disposto no artigo 7.º e seu § 1.º da Lei n.º 2078, de 11 de Julho de 1955; 
O Governo decreta, nos termos da alínea g) do artigo 202.º da Constituição, o seguinte:
Artigo 1.º São desafectados do domínio público militar e afectados ao domínio público monumental, cultural e artístico de Macau, no qual passam a ficar integrados como monumentos nacionais, os seguintes bens:

Fortaleza de Mong-Há; Fortaleza do Monte; Fortaleza da Barra; Fortaleza da Guia.
Artigo 2.º São desafectados do domínio público militar e integrados no domínio privado de Macau os seguintes bens:                                        
Quartel de S. Francisco; Aquartelamento da Guia (com excepção da Fortaleza da Guia); Quartel da Taipa; Paióis de Cacilhas; Quartel da Flora; Edifício da antiga enfermaria militar; Residências de oficiais da Flora; Colina de D. Maria; Barracas metálicas do antigo Quartel de Subsistências; Destacamento de Manutenção de Mong-Há; Antigo asilo de Mong-Há; Campo desportivo de Mong-Há; Fortaleza de Mong-Há (com excepção da fortaleza propriamente dita); Depósitos de materiais de Mong-Há; Quartel das Portas do Cerco; Residências militares n.os 9 e 10 da Flora; Abrigo do Patane; Colina da Barra; Nova messe de sargentos em Mong-Há; Quartel, carreira de tiro, morro e paióis da ilha da Taipa; Quartel de Coloane; Posto de artilharia em Coloane; Posto de Hac-Sá; Casa da praia de Cheoc Van; Nova carreira de tiro em Coloane.
Campo de Tiro em Hac Sa: 1968
 Quartel da Flora

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Carlos D'Assumpção: biografia resumida

Quatro depois do previsto é publicada esta semana em Macau uma biografia de Carlos Assumpção (1929-1992) - Um homem de Valor. Aqui no blogue existem diversos posts sobre o tema. Incluo neste duas notícias sobre a sua morte em 1992 e uma biografia resumida publicada na Revista Macau em 1997.
Filho primogénito de um advogado provisionário e de uma senhora originária do arquipélago de Trinidad, que lhe deram mais sete irmãos, Carlos Assumpção nasceu em Macau em 1 de Março de 1929, no seio de uma família tradicional — o barão Paes d’Assumpção (bisavô de Carlos Augusto) exercera em Macau funções de grande destaque.
Órfão de pai aos 14 anos, Carlos Assumpção frequenta o Liceu de Macau durante os anos da II Grande Guerra. Com o fim do conflito, ruma para Coimbra, onde se forma em Direito. Remontam a Coimbra os seus primeiros passos na vida política, com a sua eleição para presidente da Associação Académica.
Concluída a licenciatura com distinção (foi o melhor aluno do curso), Carlos Assumpção regressou a Macau, deixando em Coimbra, a acabar Medicina, a sua futura mulher. Dedica-se afincadamente ao trabalho num cartório de advocacia na Rua Central, granjeando, em pouco tempo, fama e clientela. Em 1956, é eleito vogai do Conselho Consultivo do Governador e, dois anos depois, assume o cargo de notário e director da Secretaria Notarial (funções em que se manteria até 77).
Vive por dentro a crise do “Um-dois-três”, de 1966. Integra o Conselho de Defesa, chega a chefiar a delegação que negoceia com as autoridades chinesas uma saída para o conflito, mas acaba por abandonar a comissão.
Em 1968 é escolhido como procurador à Câmara Corporativa, iniciando novo mandato em 72 (interrompido em 25 de Abril de 74).
Funda e lidera a Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (ADIM), que se viria a tornar, na década seguinte, a mais importante força política local, e colabora intensamente na elaboração do primeiro Estatuto Orgânico que instituiu a Assembléia Legislativa.
À frente da ADIM e de outras forças políticas, vence as eleições directas para aquele órgão em 1976, 1980, 1984 e 1988, sendo sucessivamente eleito pelos seus pares presidente da Assembléia Legislativa, cargo que ocuparia durante quase 16 anos, até à sua morte a 20 de Abril de 1992. No seu obituário, inscrevem-se ainda a participação na comissão de redacção da Lei Básica de Macau, a convite da RPC, e uma série de elevadas distinções de Macau e da República Portuguesa.
Um busto em sua memória foi inaugurado na Taipa pelo Presidente Mário Soares, em 1993, numa rotunda com o seu nome que figura também numa importante alameda dos novos aterros do Porto Exterior.
in Revista Macau - Maio 1997
Carlos Assumpção regressou pela última vez a Macau
Carlos Assumpção regressou hoje pela última vez a Macau. Aos ombros de elementos das Forças de Segurança e no ambiente de pompa e circunstância que toda a vida recusou, o corpo do presidente da Assembleia Legislativa esteve depositado até às quatro da tarde na Igreja da Sé, seguindo então para o Cemitério de São Miguel Arcanjo. A espantosa expressão de serenidade que a sua máscara mortuária apresentou é o melhor testemunho de que Carlos Assumpção se libertou já do longo sofrimento que foi a sua agonia e das angústias terrenas. Dizer que desapareceu para sempre é falsear a verdade. No coração dos muitos que o amavam, respeitavam a admiravam,, estará sempre vivo, numa saudade que hoje é insuportável e que só o tempo ajudará a sarar.
in Tribuna de Macau - 23.4.1992
Ir em frente
Das muitas coisas que tive a felicidade de aprender com Carlos Assumpção, uma foi a de que é preciso serenidade nos momentos de crise. A dor que sentimos com a sua morte é uma questão com cada um de nós. Respeitar a memória é, no entanto, recusar o pânico ou a tentação de desistir de lutar. Toda a sua vida Carlos Assumpção lutou pela dignificação dos seus conterrâneos e pelo progresso da sua terra e do seu país. É certo que nos falta agora o apoio do seu conselho e a sua capacidade criativa para ultrapassar dificuldades. Mas é quando faltam os homens excepcionais que os outros mais se têm de unir para suprir insuficiências. Contávamos todos com ele. Agora teremos que cumprir os mesmos objectivos só nós. É cada um dando o seu melhor que poderemos honrar a memória de um homem que nunca nos pediu mais do que isso. João Fernandes
in Jornal de Macau - 23.4.1992

segunda-feira, 3 de abril de 2017

The Modern Trace

Se há cidades em que a história se confunde com a arquitectura, Macau é um desses exemplos, e tal como a outros níveis, também aqui, as marcas arquitectónicas assumem muitas das vezes traços peculiares. 
No início do século XX o termo "moderno" significava, simultaneamente, "na moda" e "presente" e também reflectia a busca pela "modernização". A arquitectura moderna é pois uma designação genérica para o conjunto de movimentos que vieram a marcar a arquitectura desenhada e produzida em especial durante a primeira década do século XX e que se insere na corrente de pensamento denominada de modernismo sendo de destacar nomes como Bauhaus na Alemanha, Le Corbusier em França, Frank Lloyd Wright nos Estados Unidos e Oscar Niemeyer no Brasil.
A tendência modernista do traço arquitectónico não tardou a chegar a Macau embora tivessem surgido no território, no período áureo do modernismo, edifícios com linhas bem clássicas, como é o caso, só para dar um exemplo, do edifício dos Correios, no Largo do Senado, construído no início da década de 1930.
É precisamente contra os denominados ornamentos que predominavam na arquitectura que vai surgir a linha moderna onde impera a simplicidade do traço, as linhas rectas, os altos e baixos-relevos. A par desta nova forma de projectar edifícios surgem as inovações tecnológicas que vão permitir usos até então impensáveis para o ferro e para o cimento armado, por exemplo.
Vem tudo isto a propósito da notícia de que a moradia que pertenceu a Chui Tak Kei na Av. Ouvidor Arriaga (nº 50) vai ser dem
olida para no seu lugar ser construído um edifício de 30 andares.
O facto fez-me lembrar um dos muitos pedidos que recebo por via do blogue Macau Antigo e que se se materializou com a publicação em 2014, pela Root Planning, uma associação civil de Macau, de um mapa desenhado intitulado "The Modern Trace - The Art Map of Modern Architecture in Macau". 
O projecto que pode ser traduzido por "O Traço Moderno - Mapa da Arquitectura Moderna em Macau" inclui uma descrição de um total de 32 edifícios que, olhados com atenção, se destacam da 'selva urbana' macaense.
O trabalho é de louvar e um exemplo a seguir por outras organizações da sociedade civil. Segundo os autores, o projecto teve por objectivo "dar a conhecer ao público a cultura local e o desenvolvimento urbano de Macau". Num território que tem um vasto rol de património classificado pela Unesco como sendo da Humanidade importa não menosprezar outras marcas arquitectónicas que mesmo não sendo classificados merecem ser preservados evitando casos de demolições que têm surgido ao longo dos anos e que por certo no futuro todos lamentaremos.
Nas traseiras do mapa - onde estão localizados os 32 edifícios - surge uma pequena ficha técnica sobre cada edifício com textos em inglês e chinês. É uma pena que não o tivessem feito também em português.
 
Nestas mais de três dezenas de exemplos encontram-se arquitectos portugueses, chineses, macaenses e de outras nacionalidades. A lista é extensa e inclui edifícios construídos para as mais diversas finalidades (habitações, hotéis, cinema, fábricas, armazéns, escolas, etc...) quer por particulares quer pelo governo do território. Quanto a escolas existem cinco exemplos: do Instituto Salesiano à Escola Portuguesa passando pelo Colégio D. Bosco, Escola Secundária Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes e Jardim de Infância D. José da Costa Nunes.


Não fazem parte desta selecção outros exemplos deste tipo de arquitectura que existiram em Macau mas que entretanto foram demolidos. É o caso, por exemplo, do conjunto de moradias 'art-deco' construídas na década de 1950 na avenida Sidónio Pais, o edifício Ribeiro que ficava ao lado do Cineteatro, entre outros. Destaque ainda para o bloco de residências dos CTT, da autoria de Manuel Vicente.
Da lista fazem parte, por exemplo, a actual Escola Portuguesa, projectada em 1963 como Escola Comercial Pedro Nolasco, pelo arquitecto Chorão Ramalho; a Mansão Skyline, de M. M. Creig, construída em 1934 e de acordo com a arquitecta Ana Tostões, “é o único caso de vivenda moderna concebida de acordo com volumes cúbicos, brancos e de recorte preciso (…), onde a expressão moderna é assumida com radicalidade."; o Instituto Helen Liang, desenho da autoria de Manuel Vicente; os cinemas/teatros Apollo, Alegria e Cineteatro, de épocas bem distintas, o Mercado Vermelho, projectado em 1934 por Júlio Alberto Basto, os hotéis Estoril, Lisboa e Grand Hotel, ou Kuok Chai, da autoria do engenheiro civil macaense João Canavarro Nolasco (1937), "o prédio mais alto de todo o império colonial" na altura da sua inauguração; o edifício da Imprensa Nacional (de 1954), entre outros menos 'conhecidos', como é o caso do nº 66 da Rua dos Ervanários (1952) ou do Edifício residencial Kam Loi, construído em 1969 na avenida Infante D. Henrique, entre os números 33 e 37.
Destaque ainda para o Armazém Tai Fong (Rua Dr. Lourenço Pereira Marques), Edifício da Companhia de Produtos da China (nº 114 da Rua Cinco de Outubro), a Ponte-Cais nº 11 na Rua das Lorchas, junto ao Porto Interior, a Casa de Chá Long Va na Rua Norte do Mercado Almirante Lacerda, o Edifício Milionário, construído na década de 1960 nos números 598-634 da Avenida da Praia Grande, e ainda o edifício da Fábrica de Panchões Kuan Iec, na rua da Praia do Manduco e que entretanto foi demolido.
Aliás, estes edifícios são/eram a memória que resta de uma era em que o território chegou a ter uma indústria assente sobretudo na pesca e nos panchões embora o essencial da economia fosse assegurado pelos casinos. A esse propósito já do período final do modernismo são de realçar três edifícios. O hotel Estoril, do início da década de 1960 (com demolição anunciada para breve), e já da década de 1970, o hotel Lisboa e o Palácio de Pelota Basca (Jai Alai).
Do grupo Root Planning, a quem prestei uma pequena ajuda, fazem parte Ines Lei, Andre Lui, Billy Au e Lam Iek. As ilustrações são da autoria de Cheang Chiwai. A todos envio as minhas sinceras felicitações esperando que outros trabalhos deste dou de outro âmbito venham a ver a luz do dia muito em breve.
PS: Numa notícia de 16 de Março de 2016 o jornal Ponto Final dizia que “Existem em Macau exemplos notáveis da arquitectura modernista do século passado que estão em risco, por não estarem classificados”. A referência surgia a propósito da organização de uma exposição – “Modernismo de Macau” – organizada pela Docomomo Macau. Segundo presidente da associação, o arquitecto Rui Leão, “Macau é uma cidade pequena e que se tem renovado muito. Mas ainda tem muitos edifícios notáveis do período modernista, principalmente edifícios públicos, mas também temos exemplos de habitação individual e colectiva”. No final de 2016 a Docomomo organizou um seminário que visou debater “estratégias para proteger edifícios modernos” e tenciona publicar em breve um guia de arquitectura moderna de Macau tendo já identificado cerca de 40 exemplares que merecem ser classificados de forma a salvaguardar a sua preservação.
During the trend of Modernism in early 20th century, a number of buildings emerged in Macau with particular functions, and distinguished themselves from the previous styles. Ines Lei and her fellows of local group the Root Planning studied 32 modern buildings in the city and featured them in hand-drawn illustrations with bilingual (chinese and english) overviews on The Art Map of Modern Architecture in Macau.
Artigo da autoria de João Botas tb publicado na edição de Março de 2017 da newsletter A Voz, da ADM (Macau) - imagem acima.



domingo, 2 de abril de 2017

Casamento do irmão de Chui Tai Kei em 1961

Neste recorte da edição de domingo do jornal Notícias de Macau (7.5.1961) enviado pelo Luís Lopes o destaque vai para um casamento chinês (de um irmão de Chui Tai Kei) no restaurante da Piscina Municipal a 26 de Abril desse ano. O Hotel Estoril, nas imediações, estava prestes a ser inaugurado.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Tratado das Cousas da China: excertos

Já antes referi o "Tratado em que se contam muito por extenso as cousas da China com suas particularidades e assim do reino de Ormuz composto por El R. Padre Frei Gaspar da Cruz da Ordem de S. Domingos".
A obra do missionário dominicano foi a primeira monografia impressa na Europa sobre o Celeste Império. Para além de sistematizar um conjunto de notícias que haviam sido recolhidas pelos navegantes portugueses ao longo de várias décadas de intensos contactos luso-chineses, transmitia também os resultados das indagações levadas a cabo pelo autor em Cantão, por ocasião de uma breve visita efectuada àquela metrópole.
Frei Gaspar da Cruz foi um dos muitos religiosos portugueses que no século XVI passaram pelo Oriente mas foi ímpar no relato que fez das suas viagens
Em 1548 ruma à Índia com outros companheiros e estabelece residências em Goa, Chaul e Cochim; visita Ceilão e parte para Malaca, onde em 1554 funda um convento da Ordem de S. Domingos; passa depois ao Cambodja em 1555-1556 (existe lá um monumento em sua homenagem) e, através do Laos, chega à China em 1556, primeiro Lampacao (uma ilha muito perto de Macau; ver mapa holandês de 1753 abaixo) e depois Cantão, tendo depois obtido autorização dos mandarins para se deslocar a Kuangtung. Entre 1557 e 1559 viaja de novo rumo a Malaca e em 1560 integra um grupo de dominicanos com destino a Ormuz para pregar o Evangelho. Em 1564 está em Goa donde acaba por partir com destino a Lisboa.
Nos anos seguintes, aproveitando elementos colhidos durante as suas deambulações asiáticas, dedicou-se à composição de um extenso Tratado das cousas da China até que contrai a peste vindo a morrer em Setúbal em 1570.  Nesse mesmo ano seria publicado em Évora o seu Tratado pelo impressor André de Burgos.
Em 2010 esta obra foi reeditada em versão modernizada e em formato de bolso.Frei Gaspar da Cruz apresenta uma imagem extraordinariamente positiva da China e dos chineses, que, no seu modo de ver, superam todos os outros povos asiáticos "em multidão de gente, em grandeza de reino, em excelência de polícia e governo, e em abundância de possessões e riquezas".
A obra tem múltiplas informações... inclui por exemplo, o primeiro relato detalhado sobre a técnica de fabrico da cerâmica pelos chineses que remonta à dinastia Tang (618-906).
Alguns excertos:
(...)
É a China terra quase toda mui bem aproveitada, porque, como a terra seja muito povoada, a gente muito em demasia e os homens gastadores – e tratando-se muito bem no comer e beber e vestir e no demais serviço de suas casas, principalmente, que são muito comedores -, cada um trabalha de buscar vida e todos buscam diversos modos e maneiras de ganhar de comer e como sustentarem seus grandes gastos. Faz ajuda muito a isto ser a gente ociosa nesta terra muito aborrecida e mui odiosa aos demais, e quem o não trabalhar não no comerá, porque comummente não há quem dê esmola a pobre. Pelo que se acertava algum pobre de pedir esmola a algum português e o português lha dava, riam-se os chinas dele, e zombando diziam: “Para que dás esmola a este que é velhaco? Vão ganhar!”
Somente alguns chocarreiros recebem prémio, [quando] subindo-se nalgum alto ajuntam gente e põem-se a contar patranhas para que lhe[s] dêem alguma coisa. Os padres e seus sacerdotes dos seus ídolos comummente são aborrecidos e desestimados, pelos terem por gente perdida e ociosa, donde os regedores não lhe[s] perdoam, mas por qualquer leve culpa lhe[s] dão muito açoite. Pelo que açoitando uma vez um regedor, diante [de] um português, um sacerdote seu, e o português dizendo-lhe porque tratava tão mal os seus padres e os tinham em tão pouco estima, respondeu-lhe: “Estes são velhacos ociosos e perdidos”.
(...)
Foram-se um dia uns portugueses nobres mostrar em Cantão um banquete que fazia um mercador rico e honrado, o qual foi para folgar de ver. A casa em que se dava era sobradada e muito linda, com muito galantes janelas e adufas, e toda era um brinco. Estavam as mesas postas em três lanços da casa, para cada convidado uma mesa muito linda e sua cadeira dourada ou prateada, e cada mesa tinha em fronte um frontal de damasco até ao chão. Nas mesas não havia toalhas nem guardanapos, assim porque as mesas são muito lindas, como porque comem tão limpamente que não têm necessidade destas coisas. Estava a fruta posta logo na borda de cada uma das mesas, toda posta em ordem, a qual era castanhas assadas e esburgadas, e nozes limpas e [d]escascadas, e cana-de-açucar limpa e feita em talhadas, e a fruta que acima dissemos que chamam líchias, grandes e pequenas, mas eram passadas. Toda esta fruta estava posta em castelinhos bem feitos, atravessada com pauzinhos muito limpos. Pelo que todas as mesas em roda, com estes castelinhos, ficavam como ornadas. Logo após a fruta estavam todas as iguarias postas em bacios finos de porcelana, todas muito bem aparadas e mui limpamente cortadas, e tudo posto em boa ordem. E ainda que iam ordens de bacios por cima doutros, todos estavam postos polidamente, de maneira que o que estava à mesa podia comer do que quisesse sem ser necessário tirar bacio nem mudá-lo.
 E logo estavam dois pauzinhos dourados muito galantes para comer com eles metidos entre os dedos; usam deles a modo de tenazes, de maneira que nada do que está à mesa tocam com a mão. E ainda que comam uma porcelana de arroz com aqueles paus, a comem sem lhe[s] cair grão. E porque comem muito limpamente sem tocar com a mão no comer, não têm necessidade de toalhas sem de guardanapos. À mesa lhe[s] vem tudo cortado e mui bem preparado. Tinham também uma porcelana muito pequena dourada, que leva um bocado de vinho, e só para isto há servidor à mesa. Bebem tão pouco porque a cada bocado de comer há-de ir bocado de beber, e por isso é tão pequena a vasilha.
Há alguns chinas que criam unhas muito compridas, de meio palmo até palmo, as quais trazem muito limpas, e estas unhas lhe[s] servem em lugar dos paus para comer.


quarta-feira, 29 de março de 2017

A bebida do 'imperialismo'

A estreia da Coca-Cola na China deu-se em 1927 mas as vendas seriam terminadas em 1949 com a subida ao poder dos comunistas. Foi por esta altura que surgiu em Macau a Coca Cola...
Após 30 anos de interregno, em Janeiro de 1979, com o reatamento das relações diplomáticas entre a China e os Estados Unidos, chegaria a Pequim (oriundo de Hong Kong) o primeiro carregamento de 3 mil caixas com garrafas de Coca-Cola, a bebida-símbolo do imperialismo e do modo de vida do capitalismo ocidental tão rejeitado pelo poder político na China. Tendo por base um acordo assinado em Dezembro de 1978 (Mao Tse tung morrera em 1976 sendo sucedido por Deng Xiao Ping) a empresa estava autorizada a vender o produto, mas apenas a estrangeiros e restringida a certos locais como alguns hotéis em Pequim, Xangai e Guangdong. Depressa a situação iria alterar-se.
Imagens 1950/60: Largo do Senado, Rua do Campo e Largo da Companhia de Jesus
A verdade é que desde sempre ficou entre o povo chinês a sede pela bebida. A designação Coca Cola tem tradução em chinês (mandarim) por (kekou kele- 可口可乐), o equivalente a alegria deliciosa.
Não obstante as dificuldades iniciais, aos poucos a marca foi singrando no mercado chinês e em 1983 abriu a primeira fábrica na China (Guangdong). Em 1984, quando o presidente norte-americano, Ronald Reagan, visitou a China já a revista Time colocara na capa da edição de 30 de Abril uma fotografa que ficaria para a história... a de um chinês com uma garrafa da conhecida marca na mão tendo como fundo a grande muralha... Actualmente a China representa o 3º maior mercado da Coca Cola no mundo.

terça-feira, 28 de março de 2017

Limites marítimos

Neste Mapa da Divisão Administrativa da RAEM, publicado no Boletim Informativo 2016/01 da Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água, (ex-Capitania dos Portos de Macau) surge o limite marítimo de Macau. Trata-se de uma questão que nunca obteve consenso entre Portugal e a China e que ao longos dos séculos originou vários incidentes.
Sem que ambas as partes se entendessem quanto aos limites marítimos, no Porto Interior, por exemplo, aceitava-se como correcta a divisão das águas mais ou menos a meio do curso de água.
Na década de 1950 ocorreram vários incidentes. Num deles, um militar português que praticava vela acabou preso pelas autoridades chinesas por ter entrada em águas territoriais da RPC. Noutro caso, em Maio de 1952, soldados chineses estacionados junto à Porta do Cerco, disparam sobre um barco de pesca que tinha alegadamente violado as águas territoriais chinesas; um canhoneira chinesa que se deslocou para o local julgou estar a ser atacada por uma lancha da Polícia Marítima e Fiscal (PMF) de Macau, que navegava nas imediações, e na confusão houve uma intensa troca de tiros entre ambas as partes. A notícia correu mundo e foi até bem longe. Eis os títulos de vários jornais na época: “Firing on Macao Border Reported in Hong Kong”, no The New York Times de 23 de Maio de 1952; “Macao Incident Denied”, no The Daily Telegraph de 24 de Maio de 1952.
Voltando à ilustração... Esta surge depois de no final de 2015 o Conselho de Estado da China ter aprovado o novo mapa da divisão administrativa de Macau que determinou que o território passe a ter sob sua jurisdição 85 quilómetros quadrados de áreas marítimas.
Sugestão de leitura:
“Negociações e Acordos Luso-Chineses Sobre os Limites de Macau No Século XIX” (IIM, 2010) de António Vasconcelos de Saldanha.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Uniformes Comissariado de Polícia de Macau: 1931

No B.O. n.° 14, de 1 de Abril de 1916, publica-se a Portaria n.° 52 que autoriza a admissão dos oficiais e praças que foram recolhidos das repartições dos serviços de polícia, para, sob as ordens do Administrador do Concelho (Comissário), constituir a secção do comissariado especialmente destinada à Polícia de Segurança. 
No B.O. n.° 15, de 10 de Abril de 1920, surge o novo regulamento do Comissariado de Polícia, que insere definitivamente a Polícia de Segurança no Comissariado da Polícia, definindo as missões gerais e a estrutura de topo do Comissariado.
Em Junho de 1931 é publicado no Boletim Oficial o Plano de Uniformes do Pessoal do Comissariado de Polícia de Macau.
Era constituído - Pessoal Privativo - por Chefes, sub-chefes, guardas (1ª, 2ª e 3ª classe), Auxiliares (1ª, 2ª e 3ª classes) e Agentes da Polícia Administrativa e Investigação Criminal.
Do Pessoal Militar faziam parte Oficiais, Sargentos, Cabos e Soldados.
O tecido dominante era a sarja e a cor o azul ferrete (quase preto). Existiam diferentes tipos. Os chefes, por exemplo, tinham 5 tipos de uniforme, de acordo com a época do ano e a ocasião (instrução, passeio, formaturas ou serviço).
 Barrete, trunfa (usada pelos guardas "menores") e capacete, este último igual ao usado no exército
 Fig. 9 e 10: dólman
Capote e  talim, cinturão, polainas e botas
 Distintivos de Graduação

domingo, 26 de março de 2017

Postal com legenda errada

Postal nº 94 de uma vasta colecção editada pela Livraria Po Man Lau. Tem como título "Um trecho do Porto Interior visto da Penha", mas de facto a legenda não corresponde à imagem onde temos uma vista da baía da Praia Grande vista da Fortaleza do Monte na década de 1930/40 vendo-se a Sé, Hotel Bela Vista, Leal Senado, Igreja Sto. Agostinho e Hotel Central, a Penha, etc...
(clicar na imagem para ver em tamanho maior)

sábado, 25 de março de 2017

O clã Lou

No final do século XIX um comerciante chinês iria marcar de forma decisiva e a vários níveis a vida em Macau, tal foi a sua influência. Refiro-me a Lou Wa Sio, mais conhecido po Lou Kao, nono filho do clã Lou, originário de Xinhui, na província de Guangdong, muito perto de Macau.
No território deixou como legado uma mansão com marcas do período da dinastia Qing, na Travessa da Sé (imagem ao lado), e um dos jardins mais bonitos e mais chineses de Macau, feito à imagem e semelhança dos da cidade de Suzhou, e que acabaria por receber o nome do seu primogénito, Lou Lim Ieoc.
A mansão, com traços chineses e alguns elementos da arquitectura occidental, foi construída por volta de 1889 e era conhecida pela designação Salão do Ouro e dos Jades (Kam Yuk Tong).
Mas as marcas do legado não se ficam pelo património edificado. Lou Kao foi também um dos primeiros magnatas da indústrias do jogo.
Nos filhos vai deixar a semente da intervenção política. Lou Lim Ioc chegou a ser membro do Leal Senado e Lou Yi Ieoc (o terceiro filho) foi também um dos apoiantes da causa de Sun Yat-sen, o fundador da República na China em 1911. Em Macau Sun teve outros importantes apoios, como foi o caso do amigo Francisco Hermenegildo Fernandes e dos governadores Álvaro de Mello Machado (1910-1913) e Carlos da Maia (1914-1916).
Carlos da Maia e Lou Lim Ioc lado a lado em Macau em 1915
“É com verdadeiro prazer que venho exprimir-lhe os meus sinceros agradecimentos pela extrema bondade que testemunhou, em repetidas circunstâncias a todos os meus amigos políticos, sobretudo durante os últimos acontecimentos que tiveram lugar não longe de Macau. Não tenho palavras para vos expressar o reconhecimento profundo que dedico a tantos testemunhos de simpatia da vossa parte. Transmitindo-vos assim esses sentimentos, eu estou certo de ser o intérprete fiel de todos os republicanos chineses. Formulo ardentes votos, meu caro Governador, para que a ordem e a paz sejam rapidamente restabelecidas na China, a fim de que nós possamos, com a ajuda e o exemplo da República Portuguesa, instaurar na China os princípios e as bases de uma administração que traduza as aspirações do povo”.
Rotunda Carlos da Maia em Macau. Década 1920