segunda-feira, 3 de abril de 2017

The Modern Trace

Se há cidades em que a história se confunde com a arquitectura, Macau é um desses exemplos, e tal como a outros níveis, também aqui, as marcas arquitectónicas assumem muitas das vezes traços peculiares. 
No início do século XX o termo "moderno" significava, simultaneamente, "na moda" e "presente" e também reflectia a busca pela "modernização". A arquitectura moderna é pois uma designação genérica para o conjunto de movimentos que vieram a marcar a arquitectura desenhada e produzida em especial durante a primeira década do século XX e que se insere na corrente de pensamento denominada de modernismo sendo de destacar nomes como Bauhaus na Alemanha, Le Corbusier em França, Frank Lloyd Wright nos Estados Unidos e Oscar Niemeyer no Brasil.
A tendência modernista do traço arquitectónico não tardou a chegar a Macau embora tivessem surgido no território, no período áureo do modernismo, edifícios com linhas bem clássicas, como é o caso, só para dar um exemplo, do edifício dos Correios, no Largo do Senado, construído no início da década de 1930.
É precisamente contra os denominados ornamentos que predominavam na arquitectura que vai surgir a linha moderna onde impera a simplicidade do traço, as linhas rectas, os altos e baixos-relevos. A par desta nova forma de projectar edifícios surgem as inovações tecnológicas que vão permitir usos até então impensáveis para o ferro e para o cimento armado, por exemplo.
Vem tudo isto a propósito da notícia de que a moradia que pertenceu a Chui Tak Kei na Av. Ouvidor Arriaga (nº 50) vai ser dem
olida para no seu lugar ser construído um edifício de 30 andares.
O facto fez-me lembrar um dos muitos pedidos que recebo por via do blogue Macau Antigo e que se se materializou com a publicação em 2014, pela Root Planning, uma associação civil de Macau, de um mapa desenhado intitulado "The Modern Trace - The Art Map of Modern Architecture in Macau". 
O projecto que pode ser traduzido por "O Traço Moderno - Mapa da Arquitectura Moderna em Macau" inclui uma descrição de um total de 32 edifícios que, olhados com atenção, se destacam da 'selva urbana' macaense.
O trabalho é de louvar e um exemplo a seguir por outras organizações da sociedade civil. Segundo os autores, o projecto teve por objectivo "dar a conhecer ao público a cultura local e o desenvolvimento urbano de Macau". Num território que tem um vasto rol de património classificado pela Unesco como sendo da Humanidade importa não menosprezar outras marcas arquitectónicas que mesmo não sendo classificados merecem ser preservados evitando casos de demolições que têm surgido ao longo dos anos e que por certo no futuro todos lamentaremos.
Nas traseiras do mapa - onde estão localizados os 32 edifícios - surge uma pequena ficha técnica sobre cada edifício com textos em inglês e chinês. É uma pena que não o tivessem feito também em português.
 
Nestas mais de três dezenas de exemplos encontram-se arquitectos portugueses, chineses, macaenses e de outras nacionalidades. A lista é extensa e inclui edifícios construídos para as mais diversas finalidades (habitações, hotéis, cinema, fábricas, armazéns, escolas, etc...) quer por particulares quer pelo governo do território. Quanto a escolas existem cinco exemplos: do Instituto Salesiano à Escola Portuguesa passando pelo Colégio D. Bosco, Escola Secundária Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes e Jardim de Infância D. José da Costa Nunes.


Não fazem parte desta selecção outros exemplos deste tipo de arquitectura que existiram em Macau mas que entretanto foram demolidos. É o caso, por exemplo, do conjunto de moradias 'art-deco' construídas na década de 1950 na avenida Sidónio Pais, o edifício Ribeiro que ficava ao lado do Cineteatro, entre outros. Destaque ainda para o bloco de residências dos CTT, da autoria de Manuel Vicente.
Da lista fazem parte, por exemplo, a actual Escola Portuguesa, projectada em 1963 como Escola Comercial Pedro Nolasco, pelo arquitecto Chorão Ramalho; a Mansão Skyline, de M. M. Creig, construída em 1934 e de acordo com a arquitecta Ana Tostões, “é o único caso de vivenda moderna concebida de acordo com volumes cúbicos, brancos e de recorte preciso (…), onde a expressão moderna é assumida com radicalidade."; o Instituto Helen Liang, desenho da autoria de Manuel Vicente; os cinemas/teatros Apollo, Alegria e Cineteatro, de épocas bem distintas, o Mercado Vermelho, projectado em 1934 por Júlio Alberto Basto, os hotéis Estoril, Lisboa e Grand Hotel, ou Kuok Chai, da autoria do engenheiro civil macaense João Canavarro Nolasco (1937), "o prédio mais alto de todo o império colonial" na altura da sua inauguração; o edifício da Imprensa Nacional (de 1954), entre outros menos 'conhecidos', como é o caso do nº 66 da Rua dos Ervanários (1952) ou do Edifício residencial Kam Loi, construído em 1969 na avenida Infante D. Henrique, entre os números 33 e 37.
Destaque ainda para o Armazém Tai Fong (Rua Dr. Lourenço Pereira Marques), Edifício da Companhia de Produtos da China (nº 114 da Rua Cinco de Outubro), a Ponte-Cais nº 11 na Rua das Lorchas, junto ao Porto Interior, a Casa de Chá Long Va na Rua Norte do Mercado Almirante Lacerda, o Edifício Milionário, construído na década de 1960 nos números 598-634 da Avenida da Praia Grande, e ainda o edifício da Fábrica de Panchões Kuan Iec, na rua da Praia do Manduco e que entretanto foi demolido.
Aliás, estes edifícios são/eram a memória que resta de uma era em que o território chegou a ter uma indústria assente sobretudo na pesca e nos panchões embora o essencial da economia fosse assegurado pelos casinos. A esse propósito já do período final do modernismo são de realçar três edifícios. O hotel Estoril, do início da década de 1960 (com demolição anunciada para breve), e já da década de 1970, o hotel Lisboa e o Palácio de Pelota Basca (Jai Alai).
Do grupo Root Planning, a quem prestei uma pequena ajuda, fazem parte Ines Lei, Andre Lui, Billy Au e Lam Iek. As ilustrações são da autoria de Cheang Chiwai. A todos envio as minhas sinceras felicitações esperando que outros trabalhos deste dou de outro âmbito venham a ver a luz do dia muito em breve.
PS: Numa notícia de 16 de Março de 2016 o jornal Ponto Final dizia que “Existem em Macau exemplos notáveis da arquitectura modernista do século passado que estão em risco, por não estarem classificados”. A referência surgia a propósito da organização de uma exposição – “Modernismo de Macau” – organizada pela Docomomo Macau. Segundo presidente da associação, o arquitecto Rui Leão, “Macau é uma cidade pequena e que se tem renovado muito. Mas ainda tem muitos edifícios notáveis do período modernista, principalmente edifícios públicos, mas também temos exemplos de habitação individual e colectiva”. No final de 2016 a Docomomo organizou um seminário que visou debater “estratégias para proteger edifícios modernos” e tenciona publicar em breve um guia de arquitectura moderna de Macau tendo já identificado cerca de 40 exemplares que merecem ser classificados de forma a salvaguardar a sua preservação.
During the trend of Modernism in early 20th century, a number of buildings emerged in Macau with particular functions, and distinguished themselves from the previous styles. Ines Lei and her fellows of local group the Root Planning studied 32 modern buildings in the city and featured them in hand-drawn illustrations with bilingual (chinese and english) overviews on The Art Map of Modern Architecture in Macau.
Artigo da autoria de João Botas tb publicado na edição de Março de 2017 da newsletter A Voz, da ADM (Macau) - imagem acima.



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