sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Relazione della preziosa morte dell'eminentiss... Carlo Tomaso


Relazione della preziosa morte dell'eminentiss e reverendiss Carlo Tomaso Maillard di Tournon. Commissario, e Visitatore Apostolico Generale, con le facoltà di Legato a latere nell'Impero della Cina, e Regni dell'Indie Orientali, seguita nella Città di Macao li 8 del mese di giugno dell'anno 1710. E di ciae, che gli avenne negli ultimi cinque mesi della sua vita. Roma, per Francesco Gonzaga, 1711.
First edition (1711) of a biographical study comprising three works of cardinal Maillard de Tournon who was the first papal legate sent to the Imperial court of China, on behalf of the Pope Clement XI.
He was born in Turin in 1668 of a noble family of Savoy. Tournon and his party sailed by way of Pondicherry, Manila and Canton, arriving at Beijing in December 1705. At first Emperor Kangxi received him kindly, but upon realising that he had come to abolish the Chinese rites among the native Christians he had Tournon imprisoned at Macau where he later died, shortly after being informed that he had been created cardinal on August 1, 1707. 
Maillard de Tournon's mission is considered one of the crucial turning points in the modern history of the Chinese church.

Na imagem a capa da primeira edição (1711) de um estudo biográfico composto por três obras do cardeal Maillard de Tournon, que foi o primeiro legado papal enviado à corte imperial da China, em nome do Papa Clemente XI. 
Maillard nasceu em Turim em 1668 de uma família nobre de Savoy. Na viagem passou por Manila e Cantão chegando a Pequim em Dezembro de 1705. Inicialmente, o imperador Kangxi recebeu-o mas ao perceber que ele havia abolido os ritos chineses entre os cristãos nativos, acabou por expulsá-lo da China.
No dia 25 de Janeiro de 1707, Tournon  - nomeado cardeal neste ano - emitiu um decreto em Nanquim que obrigava os missionários, sob pena de excomunhão latae sententiae, de proibir os ritos chineses.
Tournon chegou a Macau em meados de 1707 e entrou em conflito com o bispo de Macau, D. João de Casal, que foi ordenado pelas autoridades portuguesas para não obedecer nem autorizar qualquer acto jurisdicional por parte de Tournon, cuja estadia em Macau não estava autorizada pelo Padroado. D. João de Casal chegou mesmo a proibir o clero local de obedecer a Tournon, mas tanto os agostinhos como os dominicanos decidiram apoiar Tournon, gerando um clima de instabilidade em Macau. Tournon acabaria aprisionado ou pelo menos vigiado com liberdade condicionada por vontade de Kangxi e acabou por morrer em Macau no dia 8 de Junho de 1710.
A missão de Maillard de Tournon é considerada um dos pontos de viragem cruciais na história moderna da igreja católica na China. Recorde-se que o imperador Kangxi assinou em 1692 o Édito da Tolerância (1692) que concedia a liberdade religiosa.
A controvérsia dos ritos na China foi uma longa disputa no seio da Igreja Católica sobre a decisão a tomar quanto aos ritos chineses constituírem ou não formas de idolatria ou superstição. Este conflito, que opôs os jesuítas - que defendiam a continuação da prática dos ritos pelos católicos chineses - e as outras ordens religiosas, entre os quais os dominicanos - que alegavam que os ritos eram incompatíveis com o catolicismo -, começou na década de 1630 e só terminou no século XVIII, quando o Papa Clemente XI, em 1715*, e o Papa Bento XIV, em 1742, decidiram contra os jesuítas, o que reduziu drasticamente a actividade missionária católica na China. 
Só em 1939 o Papa Pio XII viria a revogar parcialmente a decisão dos seus predecessores e em 1943 o governo da República da China estabeleceu relações diplomáticas com o Vaticano. Após a Segunda Guerra Mundial já cerca de quatro milhões de chineses eram católicos. 

*A 19 de Março de 1715, o Papa Clemente XI, um apoiante de Tournon, emitiu a bula papal "Ex illa die", que condenava os ritos chineses:
I. O
Ocidente chama Deus o Criador do Céu, da Terra e de todas as coisas do universo. Como a palavra Deus não soa bem na língua chinesa, os ocidentais na China e os convertidos chineses ao catolicismo usaram o termo "Senhor Celestial" (Tianzhu) por muitos anos. A partir de agora, termos como "Céu" e "Shangdi" não devem ser utilizados: Deus deve ser tratado como o Senhor do Céu, da Terra e de todas as coisas do universo. A tabuleta que tem as palavras chinesas "Reverência para o Céu" não deve ser permitida de ser pendurada dentro de uma igreja católica e deve ser imediatamente tirada, se já está lá.
II. O culto de
Confúcio na Primavera e no Outono, juntamente com o culto dos antepassados
, não é permitido entre os convertidos católicos. Não é permitido mesmo que os convertidos apareçam no ritual como espectadores, porque ao ser um espectador nesse ritual é tão pagão como participar activamente nele.
III. Os funcionários públicos chineses e os candidatos aprovados nos
exames metropolitanos, provinciais ou prefeiturais, caso tenham sido convertidos ao catolicismo romano, não são permitidos de cultuar nos templos confucianos no primeiro dia e no décimo-quinto dia de cada mês. A mesma proibição se aplica a todos os católicos chineses, que, como funcionários públicos, chegaram recentemente em seus postos, ou que, como estudantes, foram recentemente aprovados nos exames
metropolitanos, provinciais ou prefeiturais.
IV. Não há católicos chineses que estão autorizados a
cultuar os antepassados
nos seus templos familiares.
V. Seja em casa, no
cemitério, ou durante um funeral, um católico chinês não tem permissão para realizar o ritual do culto dos antepassados. Ele não está autorizado a fazê-lo mesmo se ele estivesse acompanhado por não-cristãos. Esse é um ritual pagão
, independentemente das circunstâncias.
Apesar das decisões supra-mencionadas, clarifico que os outros costumes e tradições chinesas que não podem, de forma alguma, ser interpretados como pagãos devem ser permitidos de continuar entre os convertidos chineses. A forma como os chineses administram os seus lares ou governam o seu país não deve ser de modo algum interferido. Quanto exactamente aos costumes que devem ou não ser autorizados a continuar, o
legado papal na China vai tomar as decisões necessárias. Na ausência do legado papal, a responsabilidade de tomar tais decisões caberá ao chefe da missão da China e do Bispo da China. Em suma, costumes e tradições que não são contraditórios ao catolicismo romano serão permitidos, enquanto que aqueles que são claramente contraditórios a ele não serão tolerados sob nenhuma circunstância."
Na resposta o imperador Kangxi emitiu um decreto imperial em 1717 que determinava a proibição da prática do cristianismo na China e a expulsão de todos os missionários. Porém, este decreto não foi posto imediatamente em execução.
O novo legado papal, monsenhor Mezzabarba, que foi enviado à China para notificar oficialmente o Imperador sobre a bula Ex illa die só chegou a Macau no dia 26 de Setembro de 1720. No encontro em Pequim com o Imperador não se chegou a acordo e o Imperador decidiu em 1721 proibir de vez a difusão do cristianismo e a actividade evangelizadora dos missionários europeus na China:
"Após a leitura deste Decreto, apenas posso dizer que os europeus são de acanhada inteligência. Como é que podem eles falar dos princípios morais da China quando nada sabem dos costumes, livros ou língua Chinesa que os poderiam habilitar a entendê-los? Muito daquilo que dizem e discutem faz rir uma pessoa. Hoje vi o legado pontifício e o decreto. Ele é realmente como um bonzo budista ou taoista ignorante, ao passo que as superstições mencionadas são de religiões sem importância. Este modo de falar à toa não podia ser pior. Para o futuro não é permitido aos europeus pregar na China. Deve-lhes ser isto proibido para evitar desordens."

Face à oposição imperial, monsenhor Mezzabarba abandonou Pequim e regressou a Macau. Ali, em Novembro de 1721, publicou várias instruções que obrigavam os missionários a acatar as ordens da Santa Sé, que proibia a prática dos ritos chineses. Mas, "a fim de aliviar a consciência dos cristãos chineses que, perante a exigência de centenários costumes, se debatiam entre sérios escrúpulos, Mezzabarba explanou em oito concessões ou faculdades, o caminho a seguir". Ao abandonar Macau, levou consigo os restos mortais do Cardeal Charles de Tournon.

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