quinta-feira, 16 de maio de 2019

Narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d´armas... 1890

Archivo Historico de Portugal: narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d´armas, etc” joi uma jornal publicado entre 1889 e 1890. Saíram duas séries de 52 números: a primeira, de Setembro de 1889 a Abril de 1890; a segunda, de Maio a Novembro de 1890. Ao longo dos 15 meses de edição fora abordadas 104 vilas e cidades. Macau surge na edição nº 39 da 2ª série em 1890.
Segue-se um excerto do longo artigo de três páginas.
"Nas costas da China, e no golpho onde se lança o rio Tigre, surge do seio do mar uma ilha montanhosa, chamada pelos chins Negao-Men. Tem dez léguas de comprimento. Na extremidade oriental d'esta ilha está edificada a cidade de Macau.
A historia d`esta nossa possessão é tão honrosa para Portugal, que a adquiriu, como para o imperio da China, que lhe cedeu esse territorio. Da parte dos portuguezes significa um serviço importante, de leaes amigos, prestado à China em occasião de apuro. Da parte dos chins representa um acto de gratidão nacional por esse serviço.
Na primeira metade de seculo XVI, estando recentes as nossas primeiras relações com o celeste imperio, foram as costas d´este paiz infestadas por piratas, que commettendo roubos e horriveis carnificinas, espalhavam o terror por todos os mares e portos do imperio. O numero e a audacia dos piratas zombaram do poder do imperador Khang.Hi, tornando-lhe inuteis todos os seus esforços. O mal cresceu a ponto, que ameaçou acabar inteiramente com o commercio da China. Foi n'estas críticas circunstamcias que os portuguezes se resolveram a perseguir os piratas; e com tal denodo o fizeram,, que em pouco tempo os anniquilaram completamente.
Em recompensa d'este immenso serviço concedeu-lhes o imperador Khang-Hi uma porção de território na ilha Negao-Men, pra ahi estabelecerem uma feitoria. (...)
Em breves annos se estendeu pela praia uma longa fileira de casas e armazéns de agradavel aspecto, sobresahindo alguns formosos edificios publicos; e fez-se rosto ao mar com um extenso caes de cantaria. Coroaram-se os montes sobranceiros com alguns conventos e fortes. Arborisaram-se as encostas e plantaram-se hortas e jardins em redor da povoação. D'esta arte, ao aceno do genio portuguez, se ergueu quasi de improviso, d'entre rochas e areias, a cidade do Santo Nome de Deus de Macau, que teve pelo começo anno de 1557. (...)

Praia Grande no século 19 (ilustração na incluída no artigo)
Os fundadores de Macau tinham sabido crear, pela uma actividade e energia, uma situação prospera para a colonia. Mas os seus descendentes amollecidos pelo clima e pelos sosos da riqueza, foram trocando os habitos activos da Europa pela indolencia e apathia das raças asiaticas. Achando nos chins bons operarios, habeis corretores, e caixeiros intelligentes, foram pouco a pouco descançando n´elles, encarregando-os de quasi tudo quanto era trabalho. A remuneração liberal d´esses serviços foi attrahindo à cidade, primeiramente a classe laboriosa da parte chineza da ilha, e mesmo do continente, depois innumeraveis vadios e malfeitores. D´este modo a população chineza de Macau em pouco tempo excedeu muito a portugueza. (…)
O aspecto da cidade, vista do porto, é mui formoso e pittoresco. Está edificada em amphitheatro sobre uma extensa bahia. Parte d´ella, sentada à beira do mar, ostenta numa longa fileira de casas construidas ao uso da Europa, resplandecentes de alvura, e algumas com seus adornos architectonicos. Outra parte eleva-se sobre uma collina pedregosa, mediando entre ambas os palmares e mais arvores dos quintaes e jardins. Finalmente coroam-se os montes sobranceiros à cidade com fortalezas, conventos e templos, que contrastam com as negras rochas graníticas, que lhe servem de base. (…)
Os trajos variados, e na maior parte de côres garridas, da população chineza, que percorre as ruas e anima os caes; a diversidade de embarcações, que estanceam no porto, muitas de fôrmas singulares e exquisitas, empavesadas de flamulas e bandeiras multicores; e enfim os resplendores do sol, e a poreza da atmosphera em dias claros, dando brilho e realce a tudo isto, completam um quadro qure surprehende e encanta os viajantes. (…) A cidade de Macau tem por brasão as armas reaes em escudo de prata, e em volta lê se o seguinte: Cidade do nome de Deyus não ha outra mais leal. A etymologia do nome de Macau vem de duas palavras chinezas, Ama e Cau. A primeira designa o idolo de um pagode, que ali havia desde tempos remotos. A segunda quer dizer porto. Começando o portuguezes a chamar ao sitio Amacau logo que ahí estabeleceram, deram à cidade com pouca differença o mesmo nome."



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