sábado, 21 de fevereiro de 2015

Queima de panchões

Queima de panchões na rotunda Ferreira do Amaral, junto à ponte Nobre de Carvalho e com o Liceu nas traseiras. Ano novo lunar de 1985.
A queima de panchões é um dos vários rituais típicos das celebrações do ano novo chinês e significa o afastamento dos maus espíritos. Desde o final do século XIX e até à década de 1960 (foto abaixo) o seu fabrico tinha bastante expressão no território, tendo a partir dessa altura entrado em declínio.
Filipe Paiva assina a 14 de Agosto de 1903 um artigo sobre os "pau-chaus" ou "estalos chinezes" que seria publicado na Revista Portugueza Colonial e Marítima, Nº 073, a 20 de Outubro desse ano. Segue-se um excerto:
"Era esta uma pratica que vem citada em um livro intitulado Kuig-ts'u-sui-she-ki, publicado pela epoca do sexto seculo da nossa era. Ora este livro, abre com um capitulo que diz: "O primeiro dia do primeiro mez é o dia dos tres principios (querendo dizer que começa o anno, o mez e a estação) e no tempo de Confucio chamava-se kran-yuch ou seja em portuguez - o monte regulador. Ao cantar do gallo, o povo levanta-se, e a primeira cousa que faz é queimar e estalar bambus, em frente das suas habitações, a fim de expulsar para bem longe os malignos demonios chamados Shan-são."
- Em um romance muito moderno, relativamente a tudo quanto é chinez, que é o Hung-low-meng, ou em portuguez "Sonhos da Camara Vermelha" - ha uma especie de enygma cuja solução é o "pau-chang". Disse que é modernissimo, porque n'este Far-East, todas as leis, usos e costumes são tão extraordinariamente antigos que este romance, datando do ultimo seculo, é perfeitamente actual. Entrando no dominio da superstição, fere-nos a curiosidade perguntar o que serão esses taes Shan-são, que teem medo e se affastam pressurosos, quando algum bambu, aquecido pelo fogo estala com ruido.
Na collecção enorme da litteratura china, o livro chamado Shen-i-King, diz alguma cousa sobre o maligno. Cita o repositorio de sciencia: "Entre as montanhas da China Occidental, ha uns seres de forma humana, mas apenas de um pé e meio de altura, que são por natureza muito inoffensivos; porém, se são offendidos ou atacados causam grande damno aos homens produzindo-lhes doenças, alternadamente por meio do frio e calor.
Chamam-se Shan-são. Ora queimando bambus ao fogo, produzindo assim uns estalidos seccos e rapidos, ficam os Shan-são amedrontados e procuram imediatamente fugir para longe." (...) Porém, o panchão alastrou-se, passou a ser usado tambem pelos habitantes de Macau, que o empregam em diversões e festas para animar e excitar com o seu ruido as reuniões, ao ar livre, pelo luar de agosto, quando o Tai-phun não revolve os ares em confusão medonha, e mesmo quasi adquire foros de official, quando festeja pessoas gradas, que regressam à metropole, ou tornam de longas demoras; mas o verdadeiro motivo, aqulle que vimos se vae perder nas longas eras archaicas, é sempre o mesmo, o pretexto de exorcismar os malignos Shau-siau quer elles, sedentos e avidos, se queiram apoderar de algum novo governador que chega á colonia, ou esteja atormentando alguma gentil nhonha de olhar maguado e pé ben fêto que festeje as suas juvenis primaveras em reunião macaista."
Nota: 
Filipe Emílio de Paiva (1871-1954) era oficial da Marinha portuguesa e era 1º tenente quando esteve como oficial imediato da canhoneira Diu aquando da missão de serviço na Estação Naval de Macau entre 1903 e 1905.
Deixou registos muito 'vivos' e detalhados da sua passagem por Macau nos primeiros anos do século XX não só no que diz respeito à comunidade macaense e portuguesa mas também em relação à comunidade chinesa e aos seus hábitos. 
Sob o pseudónimo literário de Emílio de San Bruno, escreveu cinco romances cuja acção decorre nas então colónias portuguesas. "O caso da Rua Volong - scenas da vida colonial" foi o título baseado em Macau e editado em 1928.
Em 1997 a sua passagem pelo território ficou compilada num livro intitulado "Um marinheiro em Macau, 1903: álbum de viagem".

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