sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Feliz Ano do Dragão - 龙年快乐 - Happy Dragon Year

A 10 de Fevereiro tem início um novo ano lunar, este ano sob o signo do dragão, a única criatura mítica entre os 12 animais do zodíaco chinês.


Nas imagens acima registos da emissão filatélica dos CTT de Macau em 1988, também Ano Lunar do Dragão, com design de José Cândido. 
Segundo texto dos Serviços de Filatelia que acompanha esta emissão filatélica "O dragão foi o quinto animal a chegar à convocatória do Buda, antes da sua partida da Terra. De acordo com a sabedoria popular chinesa, o animal que regula o ano em que nascemos exerce uma profunda influência na nossa vida porque, como diz um velho ditado, 'é o animal que se esconde no nosso coração'. Na mística oriental o poderoso e magnífico Dragão não deixa de encantar ou agitar a imaginação. Na China o Dragão simboliza o imperador ou o género masculino, sendo a imagem do poder. Diz-se que aqueles que nasceram no Ano do Dragão trazem o destino na cabeça."
Emissão filatélica de 1995

Kung Hei Fat Choi - Long nián kuài lè -  龙年快乐 Happy Dragon Year  - Feliz Ano do Dragão

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

45° aniversário das relações diplomáticas entre Portugal e China

Assinala-se hoje o 45º aniversário das relações diplomáticas entre Portugal e China. Pelo menos em termos oficiais, porque devido à existência de Macau, oficiosamente sempre existiram contactos.

Embaixada portuguesa em Paris - 8 de Fevereiro de 1979: os embaixadores português, António Coimbra Martins, e chinês, Han Kenhua, assinam o comunicado conjunto sobre o estabelecimento de relações diplomáticas e a "acta das conversações sobre a questão de Macau" em que se acordou que o território fazia parte da China e seria restituído após negociações em "momento julgado oportuno".
A assinatura do documento oficial entre Portugal e China culminou quatro anos de negociações e aconteceu na embaixada de Portugal em Paris. Foto acima MNE/AHD.

O facto mereceu a atenção da imprensa portuguesa. No Diário popular: “Anunciado hoje em Lisboa e Pequim. Portugal e China estabeleceram relações”. No Diário de Lisboa: “Anunciadas relações com Pequim” (...) “Mota Pinto anunciou esta manhã aos jornalistas o estabelecimento de relações diplomáticas com a República Popular da China ao nível de embaixadores. A comunicação foi feita durante uma reunião à qual assistiu também o titular dos negócios estrangeiros”. No jornal A Capital: "Mota Pinto anuncia: Portugal e China estabelecem relações".

O "Rio de Macao"




Mais informações sobre esta carta náutica de 1829 aqui

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Aguarela da Praia Grande no espólio de banco holandês

Datada da primeira metade do século 19 (ca. 1840) esta aguarela sobre papel (56x116cm) representa a baía da Praia Grande. Faz parte do espólio de obras de arte do banco holandês Abn Amro. É um dos maiores da Europa e as suas origens remontam ao século 19. Resultou da fusão dos dois maiores bancos de Amesterdão e Roterdão: o Amsterdamsche Bank (1871) e o Rotterdamsche Bank (1863). Daí o nome Am/Ro. 
De autor desconhecido, a obra de arte é um exemplar típico do período denominado "china trade" e refere-se aos tempos em que os holandeses tiveram um papel muito importante nas relações comerciais com a Ásia, nomeadamente a China.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

""La ville de Macao, bâtie en amphithéâtre"

"La ville de Macao, bâtie en amphithéâtre, sur une colline roide et élevée présente, vue de la rade, un aspect assez pittoresque. Sa base est appuyée sur les trois villages de Monchiou, de Patane et de Mougha, qui étendent au loin sur le rivage leurs maisons en briques bleuâtres et recouvertes de toits aux angles relevés. La population de ces villages égale à peu près celle de Macao. Quand on pénètre dans la ville on est étonné des travaux énormes qu'il a fallu exécuter pour établir des rues, des places et des maisons sur des pentes aussi rapides. Les rues sont étroites tortueuses mais propres et bordées de maisons à un seul étage. Les plus belles habitations sont celles que les Européens ont construites sur les quais de la Praya Grande, lieu charmant, promenade favorite des étrangers et plantée de grands et beaux arbres. A peine arrivé à Macao j'ai été visiter la grotte du Camoëns, située au pied des forts de Penha et du Monte qui dominent la ville et la rade. Cette grotte est formée par un groupe de rochers où selon la tradition du pays le grand poëte se rendait tous les jours. C'est là qu il composa le poème des Lusiades." 
Excerto de Journal de la campagne de Chine 1859-1860-1861 - Volume 1 - Charles de Mutrécy, 1861.
Ilustração "Rade de Macao" não incluída na obra referida

Tradução/adaptação:
"A cidade de Macau, construída em forma de anfiteatro, sobre uma colina íngreme e elevada, apresenta, vista do porto, um aspecto bastante pitoresco. A sua base é sustentada pelas três aldeias de Monchiou, Patane e Mougha, que se estendem ao longe ao longo da costa; as casas são feitas de tijolos azulados e cobertas por telhados de ângulo elevado. A população destas aldeias é aproximadamente igual à de Macau. Quando se entra na cidade ficamos maravilhados com as enormes obras que tiveram de ser realizadas para estabelecer ruas, praças e casas em encostas tão íngremes. As ruas são estreitas, sinuosas, mas limpas e ladeadas por casas térreas. As casas mais bonitas são aquelas que os europeus construíram no cais da Praia Grande, um lugar encantador, passeio favorito dos estrangeiros e repleta de grandes e belas árvores. Mal cheguei a Macau visitei a gruta de Camões, situada no sopé dos fortes da Penha e do Monte que dominam a cidade e o porto. Esta gruta é formada por um conjunto de rochas onde, segundo a tradição do país, o grande poeta ia todos os dias e foi lá que compôs o poema Os Lusíadas."

domingo, 4 de fevereiro de 2024

O "cabaret" do S.S. Macau

A operar nas ligações marítimas entre Macau e Hong Kong desde 1964, o S.S. Macau era  o maior e mais luxuoso ferry entre a ampla oferta disponível que passou a incluir os novos hydrofoils, em simultâneo com o 'velhinhos' ferrys como o Fat Shan, Tung Shan, Chung Shan, etc...que utilizavam os cais do Porto Interior.
O S.S. Macau demorava cerca de três horas a efectuar a viagem (face à hora e meia dos hydrofoils) e utilizava o cais do Porto Exterior. 
Para cativar passageiros e promover a oferta turística da STDM em Macau, havia a bordo "cabaret entertainment" de acordo com guias turísticos da época. O entretenimento referido era nada mais nada menos que um mini espectáculo erótico do Crazy Paris Show que Stanley Ho tinha levado para o território em 1979. Primeiramente foi exibido no teatro D. Pedro V e depois, a partir de 1986, no salão Mona Lisa do Hotel Lisboa.
Mais sobre a história deste navio aqui e aqui
As imagens são da década 1960
S.S. significa Single Screw (sistema de propulsão)

sábado, 3 de fevereiro de 2024

A casa de Lou Cao e Lou Lim Ioc antes de ser jardim público

Nas várzeas do Tao Seac foi construído ca. 1904/6 um edifício com características arquitectónicas únicas no território. Pertencia a Lu Cheok Chin (1837-1906), cidadão chinês também conhecido por Lou Kau ou Lu Cao. Para além da riqueza que possuía era também bastante, instalando-se em Macau por volta de 1870 no Largo da Sé.
Esta nova construção estava implantada numa área de 20 hectares, enorme tendo em conta as reduzidas dimensões de Macau ocupando todo o quarteirão delimitado pela Av. Cons. Ferreira de Almeida, Estrada de Adolfo Loureiro, Av. de Horta e Costa e Rua do Almirante Costa Cabral. Era a casa de campo da família e estava rodeada por um jardim inspirado nos que existiam no sul da China e forma lá contratados os construtores.
Assinalado o coreto com o Pavilhão da Primavera atrás

Entre as características do jardim destacam-se duas portas típicas dos jardins chineses, "Porta da Lua” e "Porta da Jarra", devido ao formato de cada uma; um grande lago, abundante vegetação incluindo bambus, flor de lótus, canforeiras e salgueiros; uma cascata em pedra de lava; a denominada Ponte das Nove Curvas, devido ao seu formato sinuoso; o Pavilhão da Primavera (Chun Chou Tong) e um coreto onde se realizavam espectáculos de ópera chinesa, muito apreciados pelo proprietário. Esta estrutura seria destruída na explosão no Paiol da Flora em Agosto de 1931.
Com a morte Lou Kau em 1906 - naturalizado português por Carta Régia de 11.05.1886 - a propriedade passou para a posse do filho mais velho, Lou Lim Ieoc/Ioc 盧廉若 (1877-1927), que seguiu as pisadas do pai, nomeadamente no número de mulheres, de filhos e nos negócios relacionados com o jogo e o comércio do ópio. Muito prestigiado em Macau, Lou Lim Ioc viria a morrer aos 50 anos em 1927.

Nos anos seguintes, pelas partilhas e desanexações - cedência de terrenos e edifícios à escola Pui Cheng - a área inicial foi sendo diminuída até ficar com pouco mais de um hectare.
Em Maio de 1973 o governo de Macau - Gov. Nobre de Carvalho - adquiriu a propriedade por 2,7 milhões de patacas (Ho Yin era um dos donos) recorrendo a parte do dinheiro a que a STDM estava obrigada em troca do exclusivo da concessão do jogo. No final de 1974, sob gestão do Leal Senado, o jardim abriu ao público com o nome de Lou Lim Ioc, condição que se mantém até hoje.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Gruta de Camões: antes e agora

O primeiro local de homenagem a Luís Vaz de Camões surgiu em Macau. Existem registos desde pelo menos o século 18 que assim o atestam. Ainda antes de Portugal, foi também em Macau que foi criado o primeiro busto do poeta que ali viveu alguns anos em meados do século 16 quando escrevia a sua obra maior, o poema épico "Os Lusíadas".

Miradouro perto da Gruta de Camões
Uma pedra gravada ali colocada no 10 de Junho de 1972 - Dia de Portugal - inclui um poema com a data de 1820. Na verdade o poema foi escrito pelo francês Louis de Rienzi em 1827, quando vivia em Macau.


Década 1920
A foto acima é de ca. 1870. A estrutura em alvenaria junto ao solo é de 1840 ano em que ali foi colocado um busto de Camões, o segundo, já que houve um anterior, feito em grés, nos primeiros anos do século 19.  
A referida estrutura em alvenaria (com caracteres chineses - abordarei estes num próximo post) foi demolida - tal como o miradouro no topo da gruta - em 1885, após a compra do espaço pelo governo de Macau que o transformou no jardim público. Antes disso, em 1866, foi inaugurado o busto (ainda hoje lá está) feito por M. M. Bordalo Pinheiro.

As fotos a cores foram feitas em Janeiro de 2024 e gentilmente cedidas por Carlos Makwa Barreto.

Postal de 1891

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Vapor a pás "Spark"

Na extensa lista dos navios entrados e saídos do porto de Macau em Agosto de 1853 um dos nomes que se destaca é o do vapor "americano" Spark comandado pelo capitão Castilla. Na época a embarcação assegurava a ligação marítima de passageiros entre Macau e as cidades de Hong Kong e Cantão.
Construído em 1849 por R. B. Forbes, o Spark foi comprado pelo comerciante James Bridges Endicott (1814-1877) - natural de Salem, Massachusetts, EUA. Foi transportado em peças sendo reconstruído em Hong Kong em 1850 nos estaleiros navais denominados Whampoa (também era o nome de uma pequena ilha entre Macau e Cantão - já muito perto desta última, actual Huanpou/Pazhou). 
Os estaleiros eram chefiados por Endicott que chegou ao Sul da China com apenas 15 anos -por volta de 1831 - tendo vivido em Hong Kong, Cantão e Macau até à morte em 1870. A sua ligação a Macau explica a existência de um placa na capela protestante, junto ao cemitério.
O Spark em Cantão num detalhe de uma pintura de meados do século 19 cuja autoria é atribuída a Tingqua.

Anúncio de 1876

A seguir, o testemunho de Walter William Munday, vítima de um ataque de piratas a bordo do Spark em Agosto de 1874 numa viagem de Cantão para Macau. Este tipo de situações era muito frequente. Foi notícia no jornal The London and China Telegraph.

"I embarked on board the Spark on the 22nd of August to proceed on business to Macao. We left Canton at half past seven in the morning and were due at Macao between four and five the same afternoon. The Spark is a paddle wheeled steamer the lower deck being confined exclusively to Chinese passengers and having a winding staircase near the stern leading to the quarter deck which was for Europeans. There were a great many native passengers but I had the misfortune to be the only European. The crew consisted of about twenty men Chinese and Portuguese half casts. The captain, poor Brady, was an American and although an utter stranger to him previous to our journey it has seldom been my good fortune to have a nicer or more amiable companion. We had a capital run to Whampoa where we arrived at about nine o clock and breakfasted.
The Canton steamer to Hongkong and the return steamer from Hongkong ought to have passed us soon after leaving Whampoa but from some reason they were delayed and did not pass us till after twelve o clock which obliged the pirates to put off their attack. The river here where the outrage was perpetrated is about one mile across. So far the trip had been most delightful nothing had occurred to awaken any suspicion. I was still as wedded to the humdrum existence and safety of English life as if I were but taking a trip in the British Channel and so little thinking of any peril that I dozed over my cigar and book under the awning for ward I must have slept here some time as I certainly awoke with a start it may have been a noise it may have been instinct of danger which roused me. Which it really was I am unable to tell but I immediately perceived a man rushing up the gangway towards me with a knife in his hand and a gash across his fore head. Surprised and only half awake my first thought was that he was a madman and I rushed out to procure help to seize him. (...)"

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

"Camoens's Cave" na The Cyclopædia de 1818

No mês em que se assinalam os 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões aqui fica mais uma referência ao poeta e ao primeiro local de homenagem ao mesmo criado em Macau.
O excerto a seguir é retirado do 6º volume - de um total de 39 - da obra The Cyclopædia; Or, Universal Dictionary of Arts, Sciences, and Literature. By Abraham Rees, ... with the Assistance of Eminent Professional Gentlemen. Illustrated with Numerous Engravings, by the Most Disinguished Artists.

"Camoens's Cave, in Geography, a cave below the lofticst eminence in the town of Macao in China, so called from a tradition current in the settlement that the Portuguese poet of that name wrote his celebrated poem of Lusiad on that spot. This interesting cave is in the middle of a garden which commands a very extensive prospect."

"Gruta de Camões, em Geografia, gruta localizado no sopé da colina mais alta da cidade de Macau na China, assim chamada por uma tradição corrente local de que o poeta português com esse nome escreveu ali o seu célebre poema Os Lusíadas. Esta interessante gruta fica num um jardim que proporciona extensos panoramas."

Esta enciclopédia inclui ainda um extenso artigo sobre a vida e obra de Camões. Nesta época os registos iconográficos do local eram como o se pode ver abaixo. A ilustração com a legenda  "Camoen's Cave at Macoa" faz parte do livro publicado em 1814 "Journal of a voyage, in 1811 and 1812, to Madras and China" de James Wathen.

domingo, 28 de janeiro de 2024

"O passeio principal é a Praia Grande"

"Enquanto remávamos em direção à terra, numa linda manhã de maio, toda o cenário se tornou animado e bela. A baía termina em cada extremidade do crescente, de um lado num ousado promontório com uma fortaleza na qual hasteia a bandeira de D. Maria, e do outro pelo convento da Penha, não junto à costa, mas numa colina mais elevada, mais para o interior. Nos azul das águas inúmeras embarcações de todos os tipos, desde o junco ao pequeno tancar. 
Depois temos a cidade com as suas igrejas, fortalezas, templos, casas pintadas com vários tons suaves, o alaranjado dos telhados e o verde da folhagem das árvores que se erguem ao lado ou espreitam acima delas. Além da vista para o ancoradouro da Taipa há ainda a entrada do porto interior com as montanhas ao fundo. Toda a paisagem em redor é uma das maiores pinturas que já vi no Oriente. (...)
A paisagem faz recordar o Sul da Europa, nas casas, por exemplo, e nos jardins em socalcos, bonitos em si mesmos, dignos de serem admirados. Não há muitos locais de interesse, sendo o maior o templo situado no sopé de uma colina à entrada do porto interior. Este templo é uma das mais belas exemplos da arquitectura chinesa que pode ser visto, talvez em todo o império chinês. (...)
A única atracção literária ou relíquia de Macau é uma gruta chamada gruta de Camões. (...) E depois há a grande atracção viva que poderá reivindicar um lugar nas fileiras do génio, o pintor George Chinnery. (...)
O Missionário Gutzlaff também é digno de uma honrosa menção. É um homem de talento extraordinário e de zelo indomável, espírito empreendedor e perseverança. (...)
Na arquitectura há pouco em Macau que atraia a atenção, a não ser o esqueleto da fachada do colégio dos Jesuítas, cuja pedra fundamental foi lançada há quase um século. O edifício que foi consumido por um incêndio em 1834. (...) Tudo o que resta é a fachada e o nobre lance de escadas que conduz a ela. (...)
A vista mais completa de Macau é obtida a partir de um forte chamado Monte, numa colina que se eleva ao centro da cidade. (....) Desta posição ficamos com a cidade aos nossos pés vendo o que separa o porto interior da baía de Macau.
O passeio principal é a Praia Grande, que é suavemente sinalizada com grandes pedras e se estende ao longo de quase metade da margem da baía. O atual governador prolongou este agradável passeio noturno em direção até ao forte na entrada da Baía e teria ido muito mais longe, mas o governo chinês interferiu e não permitiu. (...)

Este pequeno excerto é uma tradução/adaptação de um extenso artigo intitulado A Visit to China publicado em 1838 no Calcutta Monthly Journal and General Register.

sábado, 27 de janeiro de 2024

Restrições à "serração da velha" em 1853

A 8 de Março de 1853 o governador de Macau, Isidoro de Guimarães, determinou restrições à forma como os militares do Batalhão de Artilharia participavam "no divertimento vulgarmente chamado A Serração da Velha".
Trata-se de uma antiga tradição popular, "uma espécie de mascarada" como refere a ordem do governador, integrada nos rituais de passagem (do Inverno para a Primavera), ligada ao simbolismo da regeneração e renovação, e que ocorria durante o Carnaval e a Quaresma. Fazia-se um boneco (a velha) em pano ou papel que depois era cerrada.
As restrições aqui impostas indicavam que o divertimento deixava de poder ser feito nas "ruas  da cidade" e apenas era permitido "no recinto do quartel". Invocava-se que os "ornamentos religiosos" usados poderiam "ridicularizar o ritos da Santa Religião" e ofender algumas pessoas. Deduz-me portanto que a ordem se ficou a dever a queixas.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

William Thornton Bate e o "Mr. Duddell's Hotel"

William Thornton Bate (1818-1857) foi um oficial da Marinha Real Britânica (alistou-se em 1831) também habilitado como topógrafo* que participou nas chamadas 1ª e 2ª Guerra do Ópio. Morreu na batalha de Cantão em 1857** sendo sepultado no cemitério de Happy Valley em Hong Kong.
O reverendo John Baillie passou para livro a vida de Bate num livro publicado em 1859 com o título "A Memoir of Captain W. Thornton Bate, R.N. With a portrait" que contém referências breves sobre Macau. A obra teve por base os diários do próprio Bate, uma prática habitual naqueles tempos, nomeadamente entre os oficiais de navios.
"One day he visited the Macao roads, he writes, on the Governor, who is an officer in the Portuguese navy and speaks English well. We then put up at Mr Duddell's Hotel*** board and beds three dollars per day. Bittern weighed and anchored in 3,5 fathoms off Macao at three pm. Saluted the Portuguese flag with twenty one guns which was returned with the same number. The nature of the bottom off Macao is exceedingly soft, so that vessels may anchor safely in very little over their draught at low water. Some of the ships touch at low water."

“Um dia visitou Macau, escreve ele, sobre o Governador, que é oficial da marinha portuguesa e fala bem inglês. Acomodamo-nos então no Hotel do Sr. Duddell e dormimos por três dólares por dia. Ancoramos 3,5 braças (cerca de 6 metros) ao largo de Macau às três horas da tarde. Saudou a bandeira portuguesa com vinte e um tiros de canhão que foram devolvidos no mesmo número. A natureza do fundo ao largo de Macau é extremamente suave, de modo que os navios podem fundear em segurança com muito pouco acima do seu calado em maré baixa. Na maré baixa alguns navios tocam no fundo."

* Concebeu uma planta das feitorias estrangeiras em Cantão no ano de 1856.
** Batalha final ocorrida em Dezembro de 1857 durante a segunda guerra do ópio que colocou de um lado tropas inglesas e francesas (ca. 6 mil) e do outro tropas chinesas (ca. 30 mil); o conflito terminou com a vitória anglo-francesa e a assinatura do Tratado de Tientsin a 26 de junho de 1858.
*** Frederick Duddell, proprietário do Oriental Hotel desde 1855, morreu a 1 de Novembro de 1856 em Macau segundo o jornal Indian News. Este hotel ficava na Praia Grande na zona que corresponde ao actual cruzamento da Av. da Praia Grande com a Rua do Campo. Um livro de 1867 refere a existência de outro Oriental Hotel, "pequeno" e de "construção recente" que ficava no Porto Interior junto aos cais, na zona da actual Praça de Ponte e Horta. Foi destruído num incêndio em 1869.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Conferência no Grémio Militar a 3 de Janeiro de 1909

Manuel da Silva Mendes (1867-1931), sinólogo e estudioso do taoismo, realizou uma conferencia no Grémio Militar de Macau a 3 de Janeiro de 1909 intitulada "Lao-Tze e a sua Doutrina segundo o Tao-Te-King".
A palestra tem por base um livro com o mesmo nome da autoria de MSM e editado pela Imprensa Nacional no ano anterior, em 1908.
O Tao Te Ching, da autoria de Lao Tze, é uma das obras fundamentais do taoísmo e fonte de inspiração para diversas religiões e filosofias.
O Tao revelou ser o mais misterioso e espiritual de todos os carateres chineses, tal como Lao Tzu declarara no Tao Te Ching, publicado pela primeira vez há mais de 2 000 anos.
Esta obra pode ser entendida como a interpretação que MSM faz desse "tratado de cosmogonia e de moral, em que Lao-Tze expõe as suas ideias sobre a existência e atributos do Ser primordial, sobre a origem das coisas, sobre a origem e fim do homem e sobre a conduta que deve observar para atingir o seu fim".


 Excerto:
"Senhor Presidente: Minhas Senhoras; Meus Senhores; Os estudos orientaes qua ha poucos annos ainda constituiam apenas themas para divagações de espíritos curiosos, estão já hoje, mercê da approximação do Oriente com o Occidente em suas relações principalmente commerciaes e politicas, adentro do ambito da cultura geral. Ninguém põe já em dúvida que o conhecimento da historia dos gregos e romanos com o das noções que nos legaram sobre as antigas civilisações orientaes, é de todo o ponto insuficiente para a compreensão não só do desenvolvimento integral da Humanidade em todos os logares e em todas as idades, como também da mútua correlação e influência dos diferentes focos de civilização. (...) Entre os antigos filósofos da China ocupa Lao Tze, a par de Confúcio e Mencio, um lugar primacial.(...)"
O texto integral da conferência pode ser lido no livro "Sobre Filosofia
", uma compilação de textos de MSM, editado pelo Leal Senado em 1979 e em 1983.
jornal Vida Nova 3.1.1909

jornal Vida Nova 10.1.1909

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Orfanato/Instituto Helen Liang

O edifício foi concebido por Manuel Vicente entre 1963 e 1964 como um convento construído à volta de um pátio quadrado que resulta do limite espacial definido pelas ruas envolventes. O espaço interior é assim recuperado, com as árvores promovendo uma atmosfera de recolhimento e claustro.
A capela ergue‐se como um volume exemplar, cúbico, localizado no gaveto mais significativo do terreno, assumindo‐se nessa expressão que atinge o mundo público e urbano. Para além disso, a descoberta da singularidade e do sentido misterioso de Macau parece tomar forma no modo como Manuel Vicente manipula a entrada de luz através de dispositivos que deixam passar a luz e a sombra. Um sistema de brise‐soleils exteriores constitui o filtro dos longos e esguios vãos que se abrem ritmadamente na fachada para buscar a luz do dia.
Texto de Ana Tostões, arquitecta.
Nota: Actualmente o edifício - na Rua do Chunambeiro - funciona como Creche diocesana Helen Liang.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

"Macao Races" em Junho de 1933

Hongkong Daily Press 10.6.1933

Com o anúncio do fim das corridas de cavalos a trote com atrelados em Macau por "dificuldades de exploração" por parte do Macao Jockey Club que detinha o monopólo da concessão até 2042, recupero algumas notícias de 1933 publicadas no jornal Hong Kong Daily Press. Recordo que a maioria dos frequentadores/apostadores das corridas que na época se disputavam na zona da Areia Preta, perto da Porta do Cerca, eram oriundos da então colónia britânica.
A afluência para ver as corridas de fim de semana era de tal ordem que se efectuavam viagens de barco especialmente para esse fim como atestam estes anúncios.
Nota: o contrato para a concessão de exploração em regime exclusivo de corridas de cavalo em trote atrelado foi assinado em 1978 pelo governo de Macau com um consórcio com capitais de Macau e Hong Kong; as instalações seriam construídas na ilha de Taipa e as corridas iniciaram-se no final de 1984.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Circo Harmston

Fundado em Inglaterra no ano de 1880 o circo Harmston (nome do fundador) abriu falência por volta de 1886 tendo então William Batty Harmston rumado ao Oriente fixando-se a partir de 1889 na Índia. A partir daqui a companhia actuou em vários países da região durante mais de 40 anos sendo considerado o maior circo do género ocidental na Ásia - também esteve na Austrália - até ao final da década de 1930 quando foi extinto.
Os animais - 50 "bem treinados" - eram uma das grandes atracções (incluíam tigres, leões, cavalos, ursos) e claro, acrobacias (de bicicletas e motos como se vê no desenho) e palhaços ("Novos clowns"). O anúncio de imprensa testemunha a passagem do circo por Macau em Março de 1913 tendo-se instalado uma enorme tenda na zona de Mong-Ha (onde viria a ser feita a feira industrial em 1926).
Curiosidade:
Outras companhias de circo que passaram pela Ásia - fazendo muito sucesso em cidades chinesas como Xangai - entre o final do século 19 e o início do século 20:  Baroufsky's Circus (russo), Warren's Circus (americano) - passou por Macau em 1902, Fitzgerald's Circus (australiano), Hagenbeck's Circus e Chiarini's Circus (europeus).

domingo, 21 de janeiro de 2024

"Extincta a escravidão"

Em 1761 Portugal foi pioneiro na abolição do tráfico de escravos na metrópole, declarando libertos de forros os escravos que entrassem em Portugal. Era o primeiro passo para a abolição da escravatura o que só veio a acontecer, por decreto de 1869 que abolia a escravatura em todo o território português.
Na prática essa abolição demoraria muito mais tempo.
Em Macau, curiosamente, houve legislação para a abolição da escravatura mesmo antes de isso ter ocorrido em Portugal (anterior a 1869).
Uma portaria do Ministério da Marinha (Diário do Governo n° 175) de 25 de Julho de 1856 dá providência para em Macau - em resposta a um pedido do governador - "se declarar d'esde já extincta de facto a escravidão" e "adquirindo assim a honra de ser a primeira das Possessões portuguesas onde fosse proclamado este grande acto de civilisação".
Assim, a 23 de Dezembro de 1856 seria abolida por decreto a escravidão na cidade de Macau e suas dependências. A importação de escravos por mar já fora proibida por decreto de 10 de Dezembro de 1836 e a importação de escravos por terra, foi proibida por decreto de 14 de Dezembro de 1854.
A importação de escravos para Macau remonta aos tempos do comércio com o Japão, logo no século 16, aliás uma das razões para a expulsão dos jesuítas em 1586. Marca das sociedades desses tempos, um pouco por todo o mundo, os escravos em Macau - de várias nacionalidades - vão ter papéis determinantes ao longo dos tempos no território, não só nos trabalho que desempenhavam nas casas dos mais abastados (eram sobretudo mulheres em tarefas domésticas), como também acompanhando os comerciantes nas viagens marítimas e na defesa militar, como ficou provado nas várias tentativas de invasão por parte dos holandeses, nomeadamente a derradeira em 1622.

Sobre este tema na Cronologia da História de Macau, de Beatriz Basto da Silva pode ler-se:
"Em 1747, D. Fr. Hilário de St.ª Rosa, numa representação ao Rei em 1747, censura os de Macau por trazerem “Timores furtados, enganados, comprados e trocados por fazendas, fazendo-os escravos...a gente de Macau (faz o mesmo) com as chinas suas naturais, comprando-as em pequenas por limitado preço (dizem que para as fazer cristãs) e depois de baptizadas e adultas as cativam e reputam suas escravas por 40 anos, sem lei que permita, comprando-as, vendendo-as e dando-lhes (ainda com ferros) como escravas, bárbaros castigos”. O prelado e os jesuítas são os campeões da liberdade individual e da libertação dos escravos que, apesar de grandes oposições, conseguem alcançar. Em 1758, o Rei proibe esta escravatura; o Senado apressa-se também a lançar pregões para que “nenhuma pessoa de qualquer condição pudesse vender Atais, sob pena de perderem os ditos Atais e Amuis, ou a valia destes e pagarem 100 taeis de pena (e todo o que foi impossibilitado para dita satisfação será castigado corporalmente como a este Senado lhe parecer), a qual quantia será aplicada para a reedificação das fortalezas desta cidade”. (Atai - rapaz; Amui - moça. Ambos de origem chinesa)"

No dia 15 de Novembro de 1755, o Bispo D. Bartolomeu escreve ao Conselho Ultramarino sobre o cativeiro dos chinas, mostrando a inconveniência de os macaenses comprarem crianças para serem suas escravas. O Rei D. José I respondeu em 20 de Março de 1758, declarando “barbara e nula” a referida escravatura.

No dia 20 de Março de 1758, o Rei de Portugal escreve ao Conde d’Ega, V.R. da Índia: “Por lei de 19-11-1624, publicada em Goa no mês d’Abril de 1625 e logo participada ao Ouvidor de Macau, foi determinado que os chins não podiam nem deviam ser escravos”. No entanto, acharam-se subterfúgios e pretextos, dizendo-se “que ficariam as crianças expostas ao perigo de as matarem os ladrões chins que as levam a dita Cidade de Macau para os não apanharem com os furtos nas mãos, no caso de não acharem compradores”; outro é de os pais as matarem eles mesmos para evitar as despesas de as criar; “como se a culpa alheia e particular dos que cometessem semelhantes barbaridades pudesse bastar para escusa de pecado próprio e igualmente bárbaro dos que, debaixo de semelhante pretexto, introduziam e estão sustentando uma escravidão geral, que ainda sendo de 40 anos, como se está praticando e convencionando ao tempo dos baptizados pelo chamado Pai dos Cristãos”. Para arrancar pela raiz este absurdo, o rei determina: “não haja mais escravidão de chins nem ainda temporal de certos anos; antes, pelo contrario, todos os referidos chins de um e outro sexo sejam livres”... ordenando debaixo das penas que por minha lei se acham estabelecidas contra os que fazem cárceres privados e roubam o alheio; que nenhuma pessoa, de qualquer estado, qualidade ou condição que seja, possa reter os referidos chins como escravos mais de 24 horas, contadas da mesma publicação desta. Anulando e cessando toda a jurisdição temporal, que até agora teve o sobredito intitulado “Pai dos Cristãos” e seus constituídos, para que seja exercida pelos meus Governadores, Ministros Officiais, cada um na parte que pelos seus Regimentos lhes pertence”.

No dia 10 de Dezembro de 1836, Sá da Bandeira proclama a abolição da escravatura em todo o Território Português.

Dados sobre 1834 publicados aquando do recenseamento de 1897


Em 1817, por exemplo, a população portuguesa era composta por 4471 pessoas; destes, 1522 eram escravos. Em 1834 a "população de escravos" era composta por 1200 pessoas, a maioria mulheres.
Adolfo Loureiro escreve em 1884:
"No fim do seculo XVII esta população chegava a 19500 pessoas mas em 1821 não era de mais de 4600: homens livres, escravos e oriundos de todas as nações, incluindo os chins convertidos, sem contar 186 homens do batalhão, 19 freiras e 45 frades. Em 1830 esta população era avaliada em 4628 individuos, excluindo os militares e ecclesiasticos, sendo 1202 homens brancos, 2149 mulheres brancas, 350 escravos do genero masculino, 779 do feminino e mais 38 homens e 110 mulheres de differentes castas. Os portuguezes nascidos em Portugal ou nos seus dominios não passavam de 90."

Como se pode concluir esta "extinção" seria apenas formal já que na prática a situação pouco ou nada mudaria. Foram precisos muitos anos... 
Ao mesmo tempo, prosseguiu a actividade do chamado tráfico de cules (iniciada em 1851 e que de alguma forma pode ser classificada como uma forma de escravatura), algo que só sofreu sérias restrições em 1874. Depois desta data esse tráfico passou a ser feito sob a condição de "emigração voluntária".