sábado, 17 de março de 2018

Juncos Chineses por Louis Audemard

Louis Audemard (1865-1955), oficial francês destacado no Extremo Oriente no final do século XIX e G. R. G. Worcester (1890-1969), oficial da Alfândega do porto de Xangai no final da primeira metade do século XX estão entre o rol escasso de autores ocidentais que deram um contributo decisivo para o conhecimento da náutica chinesa.


A carreira de Audemard no Extremo Oriente desenrolou-se entre os anos 1885 e 1910. Durante aquele período, este oficial francês pôde observar e estudar de visu as embarcações dos países onde estava destacado. Nascido em 1865 no Sul de França, Louis Audemard foi um criador tardio. As suas observações no Extremo Oriente, iniciadas em 1885, coincidem com o momento em que o então vice-almirante Pâris publica em Paris os seus monumentais Souvenirs de Marine. Uma vez de regresso do Extremo Oriente, Louis Audemard concebeu sua obra em França. Retirado na Bretanha, o oficial reformado inicia aí a redacção de uma obra inteiramente dedicada aos juncos chineses. 
Interrompido no início da II Guerra Mundial, a publicação deste trabalho acabou por ser levada a cabo sob a forma de fascículos pelo Museu Marítimo de Roterdão nos anos 1950, graças ao interesse que um antropólogo holandês, C. Noteboom, director do Museu, que se dedicava ao tema das embarcações tradicionais do Extremo Oriente. 
Em 1994 o Museu Marítimo de Macau fez a publicação da obra de Audemard, em português, uma obra essencial para o estudo das grandes embarcações chineses do passado.


sexta-feira, 16 de março de 2018

"A Vencedora" comemora 100 anos

Da costeleta panada ao peixe cozido passando, da canja de galinha ao bacalhau com grão de bico - acompanhado sempre de azeite português - do típico minchi macaense aos pastéis de bacalhau passando ainda pelo bitoque, há um século que o Restaurante A Vencedora abriu as portas na Rua do Campo servindo comida portuguesa.
Curiosamente, na família dos proprietários não 'corre' sangue lusitano nem se domina a língua. Os pratos portugueses foram aprendidos pelos donos através de um empregado português.
Ao lado, a localização original do restaurante, mesmo ao lado do actual (imagem abaixo).
Da década de 1920 há um anúncio onde pode ler-se que ali vendia-se "vinhos, azeite, conservas portuguesas, chouriços de sangue e de carne”, e “fornece no seu estabelecimento e aceita comensais de fora”.
Mesmo sem ter honras de presença nos roteiros turísticos, A Vencedora está de portas abertas desde 1918... diz-se que, para além do dia de descanso semanal, só fechou mais de um dia, nos eventos de 1966. Desses tempos mais antigos também era conhecida como "Kan Kei". Os preços acessíveis chamavam a clientela menos abastada, em especial, os militares em comissão de serviço.
O espaço actual (ao lado do anterior) abriu em 1992 e fica no nº 264 da rua do Campo.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Michel Vaillant regressa a Macau

O autor francês Philippe Graton anunciou esta quarta-feira que vai lançar, por altura da 65.ª edição do Grande Prémio de Macau, uma nova aventura de Michel Vaillant nas curvas e contra-curvas do Circuito da Guia, 35 anos depois do álbum de banda desenhada “Rendez-vous à Macao” ter sido lançado.
“Em Novembro passado, durante o Grande Prémio de Macau, estivemos aqui a reunir documentação para a história. Ficção e realidade vão tocar-se aqui, o que é muito interessante e inovador para os artistas e escritores”, afirmou o filho de Jean Graton, responsável pelo argumento juntamente com Denis Lapière. Os desenhos do novo álbum são da responsabilidade de Benjamin Bénéteau.
“Estou muito contente por ver que o Michel Valliant continua a despertar interesse, mais de 60 anos depois”, sublinhou Graton sobre a personagem e série criada em 1957 pelo seu pai.
O autor explicou que há cinco anos recomeçou a série iniciada pelo progenitor, com uma nova imagem e novas narrativas: “Chamo-lhe uma nova temporada de Michel Vaillant e o sétimo episódio vai ser em Macau”, disse, citado pelo Diário de Notícias, que por sua vez cita a agência Lusa.
Sem querer desvendar o enredo, Philippe Graton esclarece que a história vai passar-se não só no traçado da Guia, mas também na cidade, propriamente dita. Elementos como a arquitectura e gastronomia marcam presença, bem como às pequenas ruas mais escondidas, “que não são cartões de visita [da cidade], mas onde nem se sabe se se trata de Macau ou de Portugal”.
“O projecto começou a ser desenvolvido no ano passado, quando vim participar no festival literário de Macau e o [director] Ricardo Pinto sugeriu a ideia”, disse.
O álbum vai ser publicado em francês, inglês e português. “Depois do mercado francófono, o mercado mais entusiástico é Portugal”, explicou. “Estamos a tentar encontrar um parceiro para a China”, para a tradução em chinês simplificado e tradicional, acrescentou Philippe Graton, considerando ser esta uma “oportunidade única” para entrar no mercado chinês.
Ao mesmo tempo, vai ser lançado um documentário sobre o “making off” deste álbum, realizado por Susana Gomes.
in "Expediente Sínico", 14.3.2018

quarta-feira, 14 de março de 2018

A Paixão Chinesa de Wenceslau de Moraes:1955 e 1990

Na primeira imagem a capa de "A Paixão Chinesa de Wenceslau de Moraes", da autoria de Danilo Barreiros, com prefácio de Tereza Sena e capa de Pedro Barreiros. Edição Instituto Português do Oriente, Macau, 1990. A primeira edição é de 1955 (segunda imagem) feita pela Agência Geral do Ultramar, Divisão de Publicações e Biblioteca, ilustrada  com várias gravuras impressas em papel couché, e onde se publicam algumas cartas inéditas do autor.
Leopoldo Danilo Barreiros (1910-1994), tendo nascido em Lisboa, radicou-se em Macau em 1933, pelo que se tornou um importante defensor e promotor da cultura oriental, destacando-se os seus apontamentos acerca de Wenceslau de Moraes e de Camilo Pessanha. Para alguns esta é uma das melhoras obras sobre o «exilado de Tokushima».

terça-feira, 13 de março de 2018

Foto-Legenda: Baía da Praia Grande vista da Penha ca. 1969/70

Destaque para o hotel Lisboa na fase final de construção (inaugurado em Fevereiro de 1970), para o edifício do Liceu (à esq.), para o edifício residencial dos CTT e para o facto de ainda não haver a ponte cujos trabalhos se iniciaram por volta de 1972 sendo inaugurado a 5 de Outubro de 1974. A foto foi tirada da igreja da Penha vendo-se a estátua de N. Sra. de Lourdes virada para a baía onde estão alguns juncos.
Nota: clicar na imagem para ver em tamanho maior

segunda-feira, 12 de março de 2018

O Hopu (alfândega chinesa)

O estabelecimento da alfândega chinesa em Macau remonta a 1684/85. Primeiro o Hopu Grande, na Praia Pequena, do lado do Porto Interior, seguido do Hopu Pequeno, localizado na Praia Grande, no Porto Exterior. Eram apenas dois de um total de mais de uma dezena que chegaram a existir na península de Macau ao longo de mais de dois séculos.
Com a chegada do gov. Ferreira do Amaral dá-se a extinção do Hopu - Macau tornava-se porto franco tal como Hong Kong - em 1849, porventura o acto político de maior melindre em todo o seu mandato e que viria a ditar o seu assassinato. No edital publicado no Boletim do Governo de 20 de Março de 1849 pode ler-se:
"[...] havendo Sua Majestade a Rainha de Portugal decretado o Porto Franco e por conseguinte deixado de existir a Alfândega Portuguesa, não é possível tolerar-se por mais tempo uma alfândega estrangeira, onde se continua a cobrar direitos das fazendas, comestíveis, materiais e outros artigos de uso, pela maior parte já pagos dos direitos e outras despesas no lugar da exportação ou pelo trânsito das vigias. Hei portanto conveniente declarar que, depois de oito dias a contar desta data [...] nenhuma cobrança desde essa data em diante se consentirá pelos Hopus nesta Cidade."
A 1 de Maio desse ano o governador envia um ofício ao vice-rei de Cantão onde explica os motivos da decisão:
"Antigamente a nação portuguesa era a única que gozava de certos privilégios na China, mas depois dos tratados, todos os antigos regulamentos e convenções entre a China e Portugal caducaram porque ou. eles continham artigos mais favoráveis que os dos tratados e nós não os podíamos gozar sem que os Ingleses e as mais nações tivessem direito a eles, ou eles eram menos favoráveis e não nos serviam a nós porque a Nação Portuguesa, só porque é uma aliada de 3 séculos e porque tinha sempre sido a Nação mais favorecida, não podia tornar-se de repente a Nação menos considerada [...] O Governo Português, que teve durante quase três séculos provas nada equívocas de que a Nação Portuguesa merecia a atenção do Governo Chinês conjuntamente com a simpatia do povo, esperava que mesmo sem se socorrer dos direitos que lhe pertenciam em comum com os tratados com a Inglaterra, que as autoridades chinesas proporcionassem meios de fazer prosperar o amigo que se conservou constante durante duas dinastias".

Mapa de 1838 onde se assinala a localização do Hopu da Praia Grande
Mas o que era o hopu? A.F. Marques Pereira, explica na página 61 do livro "As Alfândegas Chinesas de Macau, Macau, Typographia de J. da Silva, 1870.
"(O Hopu) tinha o prestígio da antiguidade e a força de muito poderio. As atribuições de completa alfândega juntava, como quase todas as repartições públicas do Império, uma certa alçada de castigos que lhe deixava prender e açoitar quantos chinas lhe caíam em desgraça. Situado no meio do bazar e fiscalizando todo o comércio que aí se fazia, tinha este Hopu inteiro conhecimento de todos os negociantes chineses que residiam em Macau, e não era possível a estes manifestar-lhe desafecto, em favor da independência do nosso domínio, sem arriscarem à perseguição e vingança dos mandarins as suas relações de comércio ou de famûia com o território chinês".
Nas páginas seguintes (63 e 64) relata alguns episódios relacionados com o fim do hopu por Ferreira do Amaral: "Em 13 de Março Amaral ordenou ao 1°o intérprete da colónia, João Rodrigues Gonçalves, que procedesse à definitiva e solene expulsão da alfãndega chinesa. O dito funcionário dirigiu-se ao Hopu com uma guarda de quatro homens e intimou a ordem que levava aos chins que ali encontrou, os quais embrulharam a roupa e abalaram sem resistência. Feito isto participou ao Governador que o edifício estava abandonado mas que restavam em frente dele um mastro com bandeiras, tabuletas e outras insígnias de autoridade chinesa [...] Amaral respondeu por escrito: 'Deite abaixo!' A cena cresceu então em solenidade e interesse. A multidão de chins apinhados à beira do expirante Hopu era de centenares e alguns cristãos se achavam aí também; mas esta concorrência toda estava calada e quieta como se não fôra viva. Dois ou três negros da extinta alfândega portuguesa atacavam a machado a base do grande mastro que durante cento e sessenta anos vexara a independência da colónia de Macau. Os golpes soavam claros, ásperos e fortes, como se os rodeara o silêncio de alta noite. Despedido o último, hesitou o madeiro instantes e deixou-se por fim cair para o lado dos chins, que se desviaram respeitosos e logo depois, e sempre calados, debandaram. Este silêncio (diz o Sr. João Rodrigues Gonçalves numa carta em que me refere o acto) foi apenas quebrado por um cristão, de quem me não lembra o nome, e que disse: 'acabou Macau!"
PS: Mais de 100 anos passados sobre o assassinato de Ferreira do Amaral ocorreu um episódio curioso relacionado com uma emissão de notas de 100 patacas em 1950.

domingo, 11 de março de 2018

The Last Year in China (1843)


Em 1843 foi publicado em Londres em formato livro (199 pp) um conjunto de cartas que um oficial britânico (não identificado) enviou para amigos sobre a sua estadia na China por alturas da assinatura do tratado de Nanquim.
Título original:
"The Last Year in China, to the Peace of Nanking: as Sketched in Letters to his Friends, by a Field Officer, actively employed in that Country with a Few Concluding Remarks on Our Past and future Policy in China".
O interesse pela obra foi de tal ordem que no mesmo ano foi publicada nos EUA. Neste post publico alguns excertos dessas cartas relativas a Macau.
Letter IX Macao 25th October 1841
I have worn out my feet in walking on the stony worse than Paris pavings of Macao so I am resting this morning and will write you a long letter Having obtained leave till the end of the month from my floating prison at Hongkong for the purpose of going with Captain C to Macao we started on the night of the 21st instant in a little brig The Thistle placed at C s disposal by a Chinese merchant the first Chinese owner I believe of an English vessel. (...) Macao is politically speaking a very curious place The Portuguese have a great many privileges they have their own governor and a garrison of some 400 men and rule themselves I saw yesterday the Portuguese army the numerous guards deducted returning from mass at the great church The men have by no means a despicable appearance They are in general as dark as Mussulmans in the Carnatic and indeed I was told that some of the recruits were actually Mussulmans The Portuguese fair ones or rather brown ones seem never to stir abroad though they may be seen in the balconies of their houses in the cool of the evening If you look up they get behind the venetians to pretend to hide themselves and to take a peep at you I have not yet seen a pretty face among them Indeed pretty ladies seldom hide themselves to be seen is with them even a greater pleasure than to see The venerable fathers of the convent with their cocked or as C calls them cockedup hats and long black gowns and a lot of hooded nuns may be seen abroad occasionally the latter doubtless on their way to and from mass Among these last I have seen one or perhaps two pretty pale faces not more The English merchants here though hospitable and friendly cannot enjoy much society. (...)



Carta datada de 5 de Novembro de 1841:
Letter XI On board the Sulimany Hongkong Harbour 5th Nov 1841
I left Macao on the 30th at noon in a small bark called the Cowasjee Family and in spite of strong contrary winds the next morning at 10 o clock found me once more in my floating prison in this harbour We are anxiously expecting news from Chusan by HM brig "larne". (...) The mall in Macao is the Praya Grande - the great paved walk along the beach Near this and at the foot of a grand flight of steps leading to the church of San Francisco there is a green spot where till of late years the Portuguese used to dance on summer evenings and moonlight nights What a pretty sight it must have been the town the hills the sea and the islands bounding their spacious ball room instead of the four small walls and suffocating heat of a London party Imagine too the Chinese looking on in wonder and who in that pale light might pass for monkeys but for the different locality of their tails origin 
Tradução do excerto acima transcrito:
"A bordo do «Sulimany», Baía de Hong Kong 5 de Novembro de 1841
O «passeio» em Macau é a Praia Grande – o grande caminho pavimentado ao longo da praia. Próximo, e na base da grande escadaria que leva à igreja de S. Francisco há uma zona verde onde, até há poucos anos, os portugueses costumavam dançar nas noites de luar, no Verão. Que belo deverá ter sido! A cidade, as colinas, o mar e as ilhas delimitando o seu espaçoso salão de baile em vez das quatro pequenas paredes e do calor sufocante de uma festa londrina. Imagine-se, também, o olhar admirado dos chineses que naquela pálida luz poderiam ter passado por macacos, não fora a distinta origem da sua cauda. Tudo isto já acabou. Quando os comerciantes ingleses, expulsos de Cantão, foram obrigados a estabelecer-se em Macau, os hábitos alteraram-se. Seguramente transportamos connosco a desconfiança, o tédio e a repugnância, seja para onde for que vamos. Os portugueses já não dançam ao ar livre mas os cavalheiros e as senhoras passeiam ao luar e, segundo me disseram, passam noites inteiras nas colinas a tocar guitarra e a cantar (…)"
Vista de Macau (Praia Grande) no final do século XIX; quadro de autor desconhecido

sábado, 10 de março de 2018

Tai Hei (1952)


"Tai Hei", da autoria de Redondo Júnior (1914-1991), editado em 1952 (Século).
"Durante três meses, viajei de Lisboa à India, Timor e Macau, com escalas previstas e imprevistas em chipre, Port Said, Malaca, Singapura, Macassar, Manila e na providencial baía de Lingayen, ao norte da ilha de Luzon."
José Rodrigues Redondo Júnior nasceu a 12 de Outubro de 1914, na Figueira da Foz e morreu a 20 de Outubro de 1991. De formação académica em Matemática e Engenharia Geográfica, enveredou pela carreira jornalística em 1936. Em 1952 foi redator do jornal “O Século”, chefe de redação da agência noticiosa Lusitânia, da revista “Mundo Gráfico” e do semanário “Vida Mundial”. Nesse mesmo ano foi-lhe atribuído o Prémio Afonso de Bragança com a série de reportagens “Três meses no Oriente” em “O Século”.
Como representante da agência noticiosa Lusitânia tomou parte na 3ª viagem experimental da linha Aérea Imperial Lisboa – Luanda – Lourenço Marques, e como redactor de “O Século” fez diversas reportagens no estrangeiro, nas antigas províncias utramarinas e ilhas adjacentes.
Foi um dos fundadores da fase inicial do “Programa da Manhã” transmitido pela extinta Emissora Nacional. Com especial interesse pelo teatro, cujo dinamismo na sua terra natal não lhe terá sido alheio, traduziu, prefaciou e anotou obras dos mais representativos ensaístas desta expressão artística. Publicou os ensaios de estética teatral “Pano de Ferro” e a “Juventude pode salvar o teatro”. Foi também encenador e crítico e sócio honorário da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. Deixou o seu vasto espólio bibliográfico à Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.


sexta-feira, 9 de março de 2018

O Ópio visto pelo Conde de Arnoso e por Jaime do Inso

"A casa não é muito vasta e é cheia de cubículos com as camas onde se fuma ópio, verdadeiras alcovas abertas nas paredes com uma simples tarimba; os alísares dos vãos são guarnecidos por finas e delicadas grades de madeira trabalhada. Em todas as casas há muitas destas grades a meio mesmo das salas formando divisórias. A cama ou tarimba é forrada com uma esteira. São espaçosas para dar logar a dois amigos fumarem ao mesmo tempo. No centro da cama e sobre um taboleiro de charão dispõem-se os cachimbos, a lâmpada do alcool, a pequenina caixa com o ópio e o estilete metálico com que se carrega o cachimbo. Contra a parede do fundo encostam-se os dois pequenos travesseiros chinas, duros como pedras, pois são sempre de madeira. Os cachimbos têm a forma de compridas flautas com o depósito para ópio atarrachado numa das extremidades. O depósito é bojudo e gordo, apesar de ser apenas atravessado por um estreito orifício. É rica a mobilia do club, de tamarindo com incrustações de mármore". (...)
Deitado ao comprido e de lado sobre a cama, com a cabeça encostada sobre o duro travesseiro, principiou por desatarrachar devagar e com amor a pequenina caixa onde estava o ópio; em seguida, acendeu a lâmpada e, tomando com a ponta da haste de metal um pouco de ópio gelatinoso, levou-o à chama. Ardendo como lacre, fazia girar a haste para o não deixar cair. Passados alguns minutos e reduzido já o ópio a uma pequena bola rescendente de perfume, introduziu-a, chegando também a chaminé do cachimbo à chamma, no orifício do depósito. Sempre deitado, era com delícia e paixão, e com os olhos. meios cerrados, que aspirava o aroma subtil".
Conde de Arnoso in Jornadas pelo Mundo (1895)
“…Paremos, agora, em frente dum nebuloso aspecto da China: o fumo do ópio!
O ópio é um polvo imenso, cujas raízes se estendem por todo o Mundo. A êle andam ligados interesses que representam milhões; o ópio é um dos grandes mistérios da China. Não tentemos devassa-lo, mesmo que seria inútil; basta que dêle observemos um aspecto e tenhamos uma idéia, tal como nós é transmitida através da tela impressionante e trágica – podemos dizer – que representa o interior dum fumatório de baixa classe. Na tela, do lado esquerdo, vê-se a entrada para um fumatório de classe superior.
Nunca fumei ópio; as primeiras tentativas são desagradáveis, causam um malestar parecido como o enjôo do mar. O mal do ópio, que tão bem se revela nos fácies das vítimas representadas nesta tela, não pode ser debelado duma forma radical e imediata, – o assunto tem sido regulado por conferências e acordos internacionais – mas o governo da China tem-se mostrado incansável na repressão dêste terrível vício, e a Colónia de Macau , vítima escolhida para permanentes quão injustos ataques, sempre que se trate de campanhas contra êste estupefaciente – como se todo o ópio que se consome na Terra fosse produzido e exportado da minúscula Macau! – a Colónia tem cumprido escrupulosamente o estipulado naqueles acordos internacionais.
O ópio fabricado em Macau, é muito apreciado no Oriente, e, tal como sucede com o vinho do Pôrto, sofre da fraude das imitações, havendo uma marca – a marca Leão, que se vende em pequenas caixas – que é a mais usada pela gente do mar, que tem tido muitas imitações, andando muito espalhada, e êste é um motivo a juntar a muitos outros, porque se atribuem a Macau culpas no negócio do ópio que não lhe cabem. "
Excerto de uma conferência de Jaime do Inso denominada “Quadros de Macau” in Fausto Sampaio, Pintor do Ultramar Português. Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1942

quinta-feira, 8 de março de 2018

Foto-Legenda: Hotel Lisboa e Liceu ca. 1970

Macau ca. 1970: ao centro o Hotel Lisboa (inaugurado em Fevereiro de 1970); à esquerda o Campo dos Operários; à direita, parte (fachada do ginásio em 1º plano) do edifício do Liceu Nacional Infante D. Henrique.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Exposição de postais ilustrados: "Memórias do Tempo"

Está patente no espaço de exposições da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa a exposição de postais fotográficos de Macau e da Lusofonia Afro-Asiática, "Memórias do Tempo", uma mostra selecionada de uma colecção de postais ilustrados do acervo documental/iconográfico do Arquivo de Macau e ilustrativa de aspectos urbano-arquitectónicos, etnográficos, históricos, naturais, económico-sociais de Macau, Angola, Cabo Verde, ex-Estado da Índia Portuguesa, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Memórias de um passado mostrado através de postais fotográficos que nos levam até ao início dos primeiros decénios do séc. XX, assinalando igualmente os inícios da circulação internacional dos postais ilustrados.
Na inauguração, a exposição teve como anfitriã O Tin Lin, Chefe da Delegação Económica e Comercial de Macau em Portugal, e estiveram presentes Xu Zhida, Conselheiro e Vice-Chefe da Missão Diplomática da Embaixada da R.P. da China, Andrea Direito, assessora do Gabinete do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura da RAEM e uma das responsáveis pela exposição, Lau Fong, Directora do Arquivo de Macau, Jorge Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau, João Loureiro, o coleccionador dos postais fotográficos que deram origem ao acervo, Jorge Alves, professor da Universidade Católica e um dos oradores da cerimónia de inauguração, bem como dezenas de convidados chineses, macaenses e amigos de Macau.
A exposição “Memórias do Tempo” está aberta ao público até dia 6 de Junho no espaço de exposições da Delegação Económica e Comercial de Macau em Portugal, na Av. 5 de Outubro, 115, em Lisboa, nos dias úteis das 10.00h às 19.00h.

terça-feira, 6 de março de 2018

Sapecas

No dicionário Priberam Sapeca surge definida como "antiga moeda pequena chinesa, de cobre, com um orifício no centro." No Infopédia "moeda de cobre chinesa furada ao centro".
A origem do termo é do malaio sa, «um» +paku, «enfiada de cem moedas».
Zhi Dao yuan bao; sapeca da dinastia Song 995-997 d.c.
As sapecas chinesas existiram ao longo de várias dinastias. Entre as mais conhecidas estão as do denominado tipo Kai Yuan Tong Bao, fundidas no período da Dinastia Tang (618-907), a época de ouro da literatura e arte chinesa.
A primeira emissão de sapecas foi feita por ordem do Imperador Gao Zu, sendo também a primeira moeda chinesa a ser objecto de regulamentação: liga de 83% de cobre, 15% chumbo e 2% estanho, peso de 2,4 zhu e peso de 8 fen.
As sapecas Kai Yuan têm quatro caracteres em cruz, dos quais faz parte a menção Kai Yuan, que significa "abertura duma nova era".
Sugestão de leitura:  “Typologie et chronologie des kai yuan tong bao des Tang", de François Thierry, escrito em em 1991.
(...) "câmbio corrente de Sapecas até Sábbado 17 do corrente mez será de 1400 sapecas boas, conforme as partes que os cambiadores deram na Procuratura (...)" 
in Boletim do Governo (de Macau), Maio 1851

segunda-feira, 5 de março de 2018

Museu de Macau: um segredo na Junqueira

Entre o Museu da Carris e o Centro de Congressos de Lisboa há um museu por descobrir. 
Apesar de estar mais ou menos bem identificado na fachada, quando o visitámos mais ninguém explorava a exposição que resulta de um acervo de mais de quatro mil objectos.
Na antiga Vila de Santo António, uma estrutura que se encontrava devoluta, nasceu em 1995 o Centro Científico e Cultural de Macau, um centro de investigação e formação dedicado à história das relações luso-chinesas até aos dias de hoje. 
E desde a sua fundação que foi constituído o acervo deste museu que teve como principal ponto de partida a aquisição da colecção do macaense António Sapage, uma das maiores do mundo no campeonato das terracotas e porcelanas chinesas.
Passando o arco que dá acesso a um pequeno jardim de toques orientais, as boas-vindas do Museu de Macau estão a cargo da bandeira e bandeja usadas na cerimónia de transferência de Macau para a China em 1999. E depois está convidado a fazer uma viagem a Macau em particular e à China em geral por apenas 1,5€.
Entre cerâmica, pintura, mobiliário, têxteis, documentos gráficos, numismática e ourivesaria, hoje a colecção do museu distribui-se por dois núcleos: A Condição Histórico-Cultural de Macau nos séculos XVI e XVII (que inclui secções como Portugal e China: Os Inícios do Encontro; A Cidade Portuária; Formas de Espiritualidade Chinesa; e A Ordem das Transferências e Cristianismo e Cultura), e A Colecção de Arte Chinesa, decorada a terracotas, bronzes, grés, porcelanas, objectos para fumo de ópio (que inclui um estojo de viagem do século XIX para, presumimos, clientes frequentes), pintura China Trade, lacas, leques, pratas, marfins, têxteis e numismática. (...)
in TimeOut (texto)13.2.2018

domingo, 4 de março de 2018

Emissão de selos em 1948

1948 é um ano marcante na filatelia portuguesa. Nesta década o Serviço de Valores Postais do Ministério do Ultramar procede à renovação do selo colonial. Nesse ano Alberto de Sousa/Souza (Lisboa, 1880-1961), aguarelista da tradição e ruralidade portuguesas, marca presença em todas as emissões das colónias: Angola, Cabo Verde, Guiné, Índia, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor. As séries são litografadas sobre papel mate nas oficinas da Imprensa Nacional ou na Litografia Nacional, no Porto, em sóbrias mono ou bicromias.


Desenhos de Alberto de Sousa. São 12 selos no total. Uma das curiosidades desta emissão é o facto de um dos selos, o da Porta do Cerco, ter uma impressão na cor azul (ver acima), que não foi a que fez parte da colecção (verde - ver em baixo).


sábado, 3 de março de 2018

A aclamação del Rei D. João IV em Macau


A aclamação del Rei D. João IV em Macau, da autoria de  Frazão de Vasconcelos (1889-1970), editado em Lisboa pela Agência Geral das Colónias em 1929. 

A 20 de Junho de 1642 foram jurados e solenemente aclamados com pompa e festa de dois dias, em Macau, El-Rei D. João IV e o Príncipe D. Teodósio, seu herdeiro presuntivo. Era Capitão-Geral da praça D. Sebastião Lobo da Silveira, em cujo governo, de 1638 a 1645, terminou o comércio com o Japão, tendo a missão enviada para esse país para consegui o seu restabelecimento sido quase toda exterminada.
Excerto do livro:
"A aclamação de D. João IV em Macau revestia uma importância grandíssima, mercê de circunstâncias extraordinárias, de ordem material e moral. De Manilha, onde tinham sua principal base, podiam os castelhanos intentar uma surpresa contra Macau se a notícia da aclamação chegasse primeiro ao seu conhecimento que ao dos portugueses.
A perda de Macau representava para Portugal a perda do comércio da China e a de grande esperança do restabelecimento das relações com o Japão . Sem o comércio da China, afirmava em 1642 o Padre Cardim a el Rei D. João IV, não havia Índia rica. E não era sómente isto. Havia ainda a ter em conta que os portugueses de Macau iam todos os anos a Manilha levar fazendas que importavam em mais de dois milhões de atroe que se o aviso da aclamação chegasse depois dêles se encontrarem em Manilha se comprometeria grandemente a situação de Macau. Foi o que logo ponderou ao Vice-Rei da Índia o Padre António Francisco Cardim, Procurador Geral da Companhia de Jesus na Província do Japão, então assistente em Goa, e que em 1642 se encontrava já em Lisboa, onde dirigiu ao Rei, sôbre o assunto, o memorial que publicamos, até agora inédito.
Na côrte de Lisboa o caso não foi igualmente descurado, tendo-se tomado a resolução de enviar a Macau, com tôda a possível urgência, António Fialho de Ferreira,* que aqui se encontrava esperando socorros para o Estado da Índia que em nome do Vice Rei Pedro da Silva viera requerer. No espiritual, com Macau, perder-se-iam a cristandade do Tonquim, a melhor do Oriente, onde se baptizavam por ano dez a dôze mil almas, e as da Cochinchina, de Camboja, de Sião, etc.A aclamação de D- João IV naquela nossa mais longínqua colónia não foi , pois um facto sem significado e sem interêsse. Bem pelo contrário.” 
Macau em meados do século XVII: ilustração reproduzida no livro
*António Fialho Ferreira nasceu em Sesimbra nos fins do século XVI. Não se sabe quando se fixou em Macau mas já nela vivia em 1624, como mercador. Casou com Catarina Cerqueira, macaense, filha de Jorge Cerqueira (natural de Lamego) e de Maria Pires natural de Macau.Foi escrivão da Santa Casa da Misericórdia em Macau em 1628 e 1629. Entre 1630 e 1633, período em que foi concedido a Lopo Sarmento de Carvalho o monopólio das viagens do Japão e Manila, foi Capitão Mor da viagem Macau Manila.
Por causa de uma grave discórdia entre o povo e os ministros do Rei ausentou-se de Macau no ano de 1637, dirigindo-se por terra, à Índia. O Vice-Rei Pedro da Silva conhecendo a capacidade do seu talento mandou-o representar a el Rei de Castela e Portugal (em Madrid; 1580 – 1640 dinastia filipina) o miserável estado a que estava reduzida a Índia. Por terra, chegou a Roma onde se encontrou com o Embaixador de Castela e depois via Valença chegou a Madrid onde ” representou a el Rei a causa que o obrigara para empreender jornada tão dilatada que perigosa”
Foi logo mandado a Lisboa para que aprestassem seis naus que socorressem a Índia. Encontrava-se em Lisboa quando se deu a aclamação de D. João (1 de Dezembro de 1640) como Rei tendo logo António Fialho Ferreira jurado fidelidade ao novo rei português. Foi-lhe dado a incumbência de seguir com urgência para Macau onde logo que chegou, em 31 de Maio de 1942, convocou as pessoas principais do estado eclesiástico e seculares, lhes expôs em uma elegante oração a feliz notícia de estar exaltado ao trono de Portugal, o Senhor D. João, o IV a quem deviam reconhecer por seu Rei e Senhor.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Os governadores do século XIX

Na segunda metade do século 19 Macau teve 12 governadores. Porventura o mais marcante foi Ferreira do Amaral. Na imagem pode ver-se a estátua do mesmo em Macau - feita em 1935 em Portugal e inaugurada em Macau a 24 Junho 1940 - num postal da década 1960/70 e que actualmente pode ser vista na Alameda da Encarnação em Lisboa.
Eis alguns os governadores da segunda metade do século XIX:
João M. Ferreira do Amaral (1846-1849). Isidoro Guimarães (1851-1863). Coelho do Amaral (1863-1866). Almirante Sérgio de Souza (1868-1872). Conde de S. Januário (1872-1874). J. M. Lobo d'Ávila (1874-1876). Tomás de Sousa Rosa (1883-1886
). Custódio Miguel de Borja (1890). José Maria de Sousa Horta e Costa (1894). Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo (1897)
(...) Depois de ocupar militarmente toda a península de Macau, desde as muralhas à Porta do Cerco, o heróico governador João Maria Ferreira do Amaral executou essa promessa verbal, incumbindo o capitão do porto, Pedro José da Silva Loureiro, em Abril de 1847, de construir a Casa Forte da Taipa. Depois de difíceis negociações com os mandarins limítrofes e com o vice-rei de Cantão, a bandeira portuguesa arvorou-se pela primeira vez nessa ilha aos 9 de Setembro de 1847. Em 1879 foi também ocupada a Taipa Quebrada ou Ilha de Maria Nunes e aí levantado um quartel, no antigo edifício do hospital, hoje Centro de Recuperação Social.
A 23 de Dezembro de 1864, os habitantes de Coloane pediram que uma força militar portuguesa os fosse proteger contra os piratas. Um destacamento de 10 polícias dirigiu-se imediatamente para aquela ilha. A administração dos três novos territórios (note-se que então a Taipa eram duas ilhas) organizou-se em 1878.
Entretanto, Isidoro Francisco Guimarães (1851-1863) era encarregado por Lisboa de negociar um tratado com a China, que sancionasse a situação de facto, que Ferreira do Amaral criara. O acordo de amizade e de comércio, datado de 13 de Agosto de 1862, em Tientsin, foi assinado em Pequim, mas não ratificado, dois anos depois, como se previra. O obstáculo esteve no artigo 9°, que permitiria, em Macau, a fixação dum consulado chinês, mas não dum mandarinato, como acontecia anteriormente ao governador mártir. A Coelho do Amaral faltou o tacto do seu antecessor, Isidoro F. Guimarães; e os governadores José Maria da Ponte e Horta (1866-68), António Sérgio de Sousa (1868-72) - que deixou de enviar a nossa polícia à ilha da Lapa, para a ronda e prisão dos criminosos -, Januário Correia de Almeida (1872-74) e Joaquim José da Graça (1879-83) não lograram convencer os chineses a adoptar o nosso ponto de vista.
A solução de compromisso encontrou-a Tomás de Sousa Rosa (1883-86), que se aproveitou da necessidade que os chineses sentiam do nosso apoio para a fiscalização do contrabando do ópio, feito através de Macau e de Hong Kong.
O tratado de Pequim, datado de 2 de Dezembro de 1887 e ratificado em 28 de Agosto de 1888, confirma, no seu 2° artigo, o protocolo assinado em Lisboa, aos 26 de Março do mesmo ano, por Henrique de Barros Gomes, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, e por James Duncan Campbell, representante do Governo da China, que diz:
Art°2° - "A China confirma a perpétua ocupação e governo de Macau por Portugal, como qualquer outra possessão portuguesa".
Art° 3° - "Portugal obriga-se a nunca alienar Macau e suas dependências, sem acordo com a China".
Infelizmente, apesar de muitas negociações que se prolongaram até nossos dias, a China fugiu sempre a delimitar as fronteiras territoriais de Macau e a especificar quais são "as suas dependências ". (...) 
Quase todos os governadores, atrás enumerados, formam ainda uma galeria de figuras cimeiras, no trabalho de construção e desenvolvimento de Macau. 
Assim, Isidoro F. Guimarães ergueu, no local duma anterior residência dos governadores e capitães-gerais, que data de 1772, frente à actual estátua de Jorge Álvares, um grandioso palácio, que seus sucessores Coelho do Amaral, Ponte e Horta e Sérgio de Sousa valorizaram com ricas mobílias, louças, roupas e uma capela.
No sítio do antigo convento e em parte do forte de S. Francisco, Coelho do Amaral edificou, em 1864-5, o quartel do mesmo nome, "espaçoso, bem arejado, em excelentes condições, e ocupado (em 1894) pelo batalhão do regimento do ultramar, destacado em Macau"

Convento de Santa Clara e respectiva cerca vito da colina de S. Jerónimo
Tomás de Sousa Rosa comprou à viúva do barão de Cercal o seu palácio, que em 1849 levantara o grande arquitecto macaense José Tomás de Aquino. Desde 1884, os governadores passaram a residir neste palácio. "Durante algum tempo, estiveram nelle diversas repartições;.mais tarde, todas se installaram, com grande commodidade para o serviço público, no antigo palácio do governo, um óptimo edificio também, e onde principalmente se admira a sala do tribunal, que era a antiga sala do throno do palácio. Quantos capitães de districto na metrópole invejariam este edificio para as suas repartições, e como todos desejariamos que o tribunal da Boa Hora se parecesse, de longe, com o tribunal de Macau! Ao lado, fica o pequeno correio (ex-casa da guarda)estabelecido também durante o governo de Thomaz Rosa. Até então era coisa que não havia na provincia! Toda a correspondência se enviava pelo vapor da carreira, ao correio de Hong Kong".
Tomás de Sousa Rosa mandou criar e plantar 60.000 árvores, por todas as encostas da cidade. Transformou a Horta da Mitra num bairro salubre. Aí estava "edificada a pequena mas elegante escola Príncipe D. Carlos, onde os chinas, com grande beneficio para o prestígio do nosso domínio, aprendiam português". Eis a primeira Escola Luso-Chinesa. "Era deveras bonito o pequeno palácio da Flora, habitação também do governador, com um jardim do estilo de Le Notre". Porventura a maior obra material de Tomás Rosa foi o saneamento e a construção do Bairro de S. Lázaro, com a sua igreja, "a mais bonita e risonha de todas".
Principiado a formar-se em 1809,1814 e 1818, com os cristãos fugidos das perseguições da China, o bairro de S. Lázaro teve, como primeiros apóstolos, o agostinho espanhol P.e José Segui, o P.e António Vieira e o P.e Marcos Liu (1847-1858). Antes foco da peste bubónica, estenderam-se os portugueses para ele, em 1878, e para os demais bairros chineses, em 1896. O governador Horta e Costa e o engenheiro-director das Obras Públicas, Abreu Nunes, completaram o trabalho dos antecessores, urbanizando o então chamado "bairro de Volong" (1900-1904). (...)

Outro grande obreiro do progresso de Macau fora, dez anos antes de Tomás de Sousa Rosa, o Visconde de S. Januário, Januário Correia de Almeida, que se distinguira como governador-geral da Índia Portuguesa. A ele se devem a abertura das estradas da Barra e de D. Maria II, os trabalhos de pesquisa de água na parte posterior do Jardim da Flora, a bateria rasante do 1° de Dezembro, na ponta da praia de. S. Francisco, uma carreira de tiro no Campo da Vitória, uma nova casa para a guarda, na Praia Grande, o começo do alargamento do aterro marginal do Porto Interior, a canalização geral das ruas próximas do novo bazar e teatro chinês, junto da doca de Manuel Pereira, a construção de um quartel destinado a uma bateria de artilharia, na Fortaleza do Monte, o aterro marginal e muralha sul da Praia Grande e sobretudo o Hospital, cujo projecto se deve ao barão do Cercal, António Alexandrino de Mello, e foi inaugurado no 1° de Dezembro de 1872. Dirigiram a obra o capitão Henrique Dias de Carvalho, que ocupava o cargo de director das Obras Públicas. Colaboraram o tenente-coronel de engenharia Francisco Jerónimo Luna e o chefe do Serviço de Saúde, dr. Lúcio Augusto da Silva. (...) 
Excerto de artigo (as imagens são do acervo do blogue) da autoria de Benjamim Videira Pires, orientalista e investigador da história portuguesa no Oriente e da Missão Jesuítica na Ásia com dezenas de títulos publicados

quinta-feira, 1 de março de 2018

Tourist Map: década 1980

Brochura turística para oferta do início da década de 1980.

Entre os vários locais assinalados nos mapas (incluindo das ilhas da Taipa e Coloane), com interesse para os turistas, referem-se: 
igrejas e templos, hotéis (alguns em construção), praias, universidade, restaurantes, fábrica de panchões, cemitério, a ponte Macau-Taipa. o istmo entre Taipa e Coloane, as vilas da Taipa e Coloane, a leprosaria, etc...

A brochura é gratuita e trilingue - em língua portuguesa, inglesa e chinesa - foi impressa pelos Serviços de Turismo localizados na época no número 1 da Travessa do Paiva, mesmo ao lado do Palácio do Governo.

Na fotografia a preto e branco que ilustra a capa da brochura, estão dois turistas de bicicleta junto às Ruínas de S. Paulo.
Algumas curiosidades: apenas existiam três casinos: o Lisboa, Jai Alai e o Macau Palace; 17 hotéis (e pousadas) do tipo ocidental; oito cinemas/teatros; etc...

Clicar nas imagens para ver em tamanho maior.


 
Na pequena resenha histórica do território termina-se com a frase "Descubra Macau sozinho e verá como é interessante".



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Estátuas nas traseiras das Ruínas de S. Paulo


Registos fotográfico da década de 1960 nas traseiras da fachada das ruínas de S. Paulo. Em primeiro plano a chamada "estátua de pedra caiada" do holandês e ao fundo o busto do poeta português João de Deus, actualmente localizada no interior do jardim do edifício do Senado (IACM). Foi inaugurada em 1896 por ocasião de morte de João de Deus em Janeiro desse ano. Existe uma outra estátua do poeta no exterior do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes (desde 1942).
Segundo Monsenhor Manuel Teixeira já "a 8 de Março de 1895, as escolas portuguesas festejaram ao poeta numa grande apoteose, à qual se associou Macau”.


Num artigo intitulado "Macau visto pelo Conde de Arnoso" (Revista Cultura, nº 7 e 8 - Ano 2) o Padre Manuel Teixeira - que faz vários comentários ao texto do Conde - escreve assim a propósito desta estátua:
"(...) escreve Arnoso: "No adro e sobre uma pedra que lhe serve de pedestal uma tosca e disforme estátua de pedra d'um metro de altura representa, segundo refere a lenda, um valoroso capitão. Veste justilho, largo calção e bota até ao joelho. A irreverente brocha d'um pintor poz-lhe bigode e mosca! E como se tal não bastasse pintou-lhe garridamente o justilho de cor-de-rosa vivo, pondo-lhe nos canhões galões amarelos de coronel. Pobre heroe!"
Quanto a esta estátua, reza a tradição que se trata dum oficial holandês, moldada pelos holandeses que foram encarcerados na fortaleza da Guia após a sua derrota de 24 de Junho de 1622. A estátua sofreu maus tratos: um dia tiraram-na da Guia, foi parar às Ruínas de S. Paulo. Em 1966, desapareceu.
Alfredo de Almeida foi encontrá-la, decapitada, na sargeta duma via pública, para onde havia sido lançada pelos vândalos. Colocou-lhe a cabeça sobre os ombros, cimentou-a e levou-a para o seu caro Jardim da Flora. Dali passou para a esplanada do Museu Luís de Camões, onde hoje se encontra, acostada a uma parede, triste e envergonhada. 
Já desapareceram as cores do seu justilho e já não pousa em pedestal algum. Ali está no solo sem um letreiro, sem indicação alguma, com a ferida no pescoço, efeito da decapitação. Bem merecia que voltasse para a Guia, onde passou uns quatro séculos e donde nunca devia ter sido retirada. (...)"



terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

1929: 1ª central de telefones automáticos

No Boletim Oficial de 19.12.1928 foi publicado o Diploma Legislativo n.º 49 que autorizava o Governo da Colónia a contrair com a Caixa Económica Postal um empréstimo até à quantia de $125.000,00, destinado à aquisição de material e respectiva montagem de uma Central Telefónica Automática na cidade de Macau.
No Anuário do Império Colonial (1937) pode ler-se: “Talvez o mais lindo edifício no seu género em todo o território português, quer continental, quer insular ou ultramarino, e onde se encontra instalada a central dos telefones automáticos, primeiros a serem usados em território português.”
A Central de Comutação Telefónica (passo-a-passo modelo F1 da Siemens) foi instalada a 8 de Dezembro de 1929, tornando Macau o mais desenvolvido na área das comunicações face à metrópole e às demais colónias portuguesas. Em Lisboa só a 30 Agosto 1930 começaria a funcionar a primeira central de telefones automáticos. 
Refira-se que em 1887 foi introduzido o serviço da linha telefónica. O serviço telefónico tinha carácter permanente, utilizava telefones magnéticos e funcionava em nove estações: quartéis da 1.ª e 3.ª companhias da Guarda Policial; Palácio do Governo; Capitania do Porto; fortalezas do Monte, da Guia e do Bom Parto; Quartel do Batalhão do Ultramar; e Casa do Destacamento das Portas do Cerco. Com o desenvolvimento das comunicações telefónicas, em 1907 surge a lista telefónica, que apresentava, além das estações oficiais, 76 particulares, e instruções de uso dos telefones. Em 1910, continha não só telefones de Macau, como também da Taipa e de Coloane.

Em 1932 a central de telefones automáticos de Macau tinha capacidade para instalar 2 mil telefones. Na época o território tinha registados um total de cerca de 900 assinantes.
Eis apenas alguns a título de exemplo:

623: Ribeiro Júnior, Delfino - Rua do Campo, no. 3.
637: Rodrigues, Fernando -Travessa do Padre Narciso.
720: Rodrigues, Alina de Sousa Fernandes — Calçada do Bom Parto, no. 2
731: Rodrigues, Damião - Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, no. 93.
738: Silva, Dr. Henrique Nolasco - Avenida Almeida Ribeiro.
801: Macao Electric Company (Secção de Informações/Enquiries Department - Rua Central.
815: Hotel Riviera - Rua da Praia Grande.
816: Tai San Li - Travessa do Soriano.
835: Paradis des Dames - Rua da Praia Grande.
943: Menezes, Celeste - Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, 95-B.