quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Luís Maria Baptista da Costa: recordações dos familiares

Este post é mais um exclusivo do blog Macau Antigo. Conta a história de um militar, Luís Maria Baptista da Costa, que no final da década de 1940 cumpriu uma missão em Macau como ajudante-de-campo (militar oficial às ordens de um general) de Laurénio Cotta Morais dos Reis que assumirá o cargo de Comandante Militar da Colónia de Macau a 27 de Agosto de 1949. Este cargo era até então desempenhado em acumulação pelo Governador. Morais vai manter-se no cargo até Setembro de 1950. Voltando a história do então tenente Luís Costa...
Vista da Penha: década 1950
"Meu irmão, Luís Maria Baptista da Costa, na altura tenente, integrou o contingente que partiu para Macau a 15 de Julho de 1949 na qualidade de Ajudante de Campo do Comandante Militar, Gen. Cotta de Morais. Regressou com o mesmo contingente em 1951. Cerca de dois anos depois casa e parte para Moçambique onde, em 1955, nasce sua filha Luísa Maria G.S. Baptista da Costa. Passam os anos e chegamos ao 25Abril. Sendo um homem progressista integrou o MFA. Sucede o 25 de Novembro e…é passado à reserva. Entretanto, como tinha concluído o ISCEF, passa a trabalhar em consultadoria, apoiando o Poder Autárquico. No verão de 1983 aparecem complicações digestivas, sintomas da trágica doença que, em três meses, o leva à morte. 
 Baptista da Costa: da esq. para a dta. é o 4º

 Baptista da Costa junto à estátua
Onze anos mais tarde, nossa sobrinha Luísa Maria vem com a novidade que nos deixou de boca aberta:Parece que tenho uma irmã chinesa!!!…e conta que entraram em contacto com ela informando-a que tinha uma irmã, Maria da Fátima , filha de Matilde Rosa Dias, funcionária dos Correios de Macau na altura. Matilde teve um romance com meu irmão, de que resulta a Fátima. Entra em baixa médica, evitando assim qualquer contacto com meu irmão. Fê-lo com receio que, aquando do seu regresso, lhe ‘roubasse’ a menina (situação que constava ocorrer com frequência). Assim, meu irmão nunca soube que teve esta filha! Em princípios de 1974, Matilde e Fátima resolvem vir para Portugal. Aqui, Fátima, sabendo há muito quem era o pai, procurou seu nome na lista telefónica e encontra-o. Contou à mãe, que confirmou mas não deu saída, pois já sabia que ele tinha constituído família.Um pouco mais tarde junta-se-lhes o tio Aka, de seu nome Carlos Henrique Dias. Passam-se mais uns anos e, em 1993 Aka morre; cinco meses depois, véspera de Natal, Matilde desaparece também.
Porto Interior (hotel Kuok Chai ao fundo) no início da década de 1950
Em cinco meses Fátima vê-se só. Colegas dão-lhe apoio; a mulher do Director instiga-a e apoia-a a encontrar a família paterna. O que faz. Quando a Luísa traz a novidade, ficámos demasiado interessados e pedimos-lhe que a convide a vir a nossa casa, o que sucede em 15 de Maio de 1994.Naturalmente que a curiosidade era muita e, procurando ver nela sinais de meu irmão, reparo em suas mãos: cópia fiel das de nossa mãe e sua avó… ficando tudo esclarecido!P assa a visitar-nos com assiduidade, desenvolvendo-se a intimidade. Passando fins de semana connosco, passamos em breve a viver juntos (ela, eu e minha mulher Mariana Baptista da Costa) .Cumprindo o que meu irmão não deixaria de fazer, em 17/7/98 foi registada como minha filha, incluindo ‘Baptista da Costa’ no seu apelido conforme seu direito, e ficando plenamente integrada na família. Ainda uma questão: grandes afinidades marcam nossas carácteres e os mistérios do amor fazem com que, sendo filha de meu irmão seja minha filha também!" A. J. Baptista da Costa
Como forma de agradecimento pela partilha desta história, reproduzo um conjunto de imagens retiradas de um pequeno filme feito em Macau nos primeiros anos da década de 1950 pelo director dos Serviços de Obras Públicas.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A "Nau do Trato"

A pedido de um leitor aqui fica um post para ajudar a explicar a expressão "nau do trato".
Nos final do século XVI, o comércio da Nau do Trato ou "o Grande Navio de Amacau" - segundo a expressão de Charles Boxer - origina lucros fabulosos aos que se arriscavam no mar e, por arrastamento, a todos os que viviam na cidade e que 'patrocinavam' estas viagens. Segue-se um texto de José Firmino Rocha Dinis sobre o tema. A imagem da Praia Grande é de uma pintura do séc. XVIII.
Em Maio, a Nau do Trato saía de Malaca com pimenta e outras especiarias e algodão da Índia e Molucas, vinhos, espelhos e relógios da Europa, jóias do Médio Oriente e pássaros falantes do Sião (que depois iam para a feira de Cantão), para além das mulheres cristãs, malaias, que a comunidade masculina de Macau necessitava para aumentar a população.
Descarregada à chegada a Macau, a nau recebia a seda chinesa, as armas, carpetes persas e obras de arte, seguindo o mais depressa possível para o Japão, a tempo de evitar a época dos tufões, entre Julho e Outubro. Se o conseguia, em Novembro partiria de Nagasáqui a abarrotar de prata, que era vendida com ainda maiores lucros em Cantão, de onde vinha mais seda, pérolas, porcelanas, ouro e mesmo produtos medicinais, que através de Malaca chegavam à Europa, com lucros acrescentados E assim, ao dobrar do século, vivendo num ambiente liberal, governado por portugueses residentes localmente, sem interferência dos venais funcionários de Goa, e temperado pela presença dos mandarins chineses, que, em qualquer momento, poderiam pôr em causa a continuidade da cidade, Macau atingia o ponto de máxima prosperidade que leva Austin Coates a considerar que "of all the cities of the Far East influenced ar chitecturally by Europe, Macao was the finest".
NA: Recomendo a leitura do livro de Boxer "O Grande Navio de Amacau, Fundação Oriente e Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1989". 
Aí pode ler-se a este propósito: "Na altura em que os portugueses visitaram pela primeira vez o Japão, as suas naus tinham cerca de 400 a 600 toneladas de arqueação, mas, no fim do século, o "Grande Navio de Amacau" andava por uma média de 1.200 a 1.600 toneladas, e não eram de excluir monstros de 2.000 toneladas. As naus portuguesas eram, nesse tempo, os maiores navios do mundo, e, quanto ao tamanho, só tinham como rivais os grandes galeões de Manila ou os navios da prata de Acapulco que ligavam anualmente o México às Filipinas".
Os autores chineses apreciam os Portugueses à sua maneira. "Esta gente é de raça branca, de alto nariz, os olhos verde-escuros, mas sem brilho; não deixam crescer a barba e o cabelo e quer seja preto ou branco, deixam-no cair da cabeça até ao pescoço, onde fica pendendo encaracoladamente ou solto", diz Iâu-Tông, que comenta: "os que possuem escravos julgam-se importantes. O corpo destes é inteiramente negro como a laca. O lábio é vermelho e os dentes brancos, sendo bastante parecidos com seres humanos. (...) Quanto às mulheres, também há duas espécies, brancas e negras, distinguindo-se em senhoras e escravas. Há ao todo umas 430 casas e o número de habitantes é o décuplo deste número ".
Uma das melhores fontes chinesas sobre a Macau desta época, Iâu-T'ông revela que "quanto à comida e bebida (os Portugueses) gostam do doce e picante (...) não usam bancos, mesas ou faichis. Os homens e as mulheres assentam-se de mistura uns com outros e os escravos negros servem-lhes a comida que é levada à boca com garfos de prata (...) Quando comem comida muito misturada empregam infalivelmente a mão esquerda, tirando-a com os dedos. Primeiro quebram vários ovos crus de galinha e chupam-nos. Depois, trincham os assados e usam de um pano branco para limparem as mãos e, de cada vez que as limpam, põem-no de parte para o mudarem por um novo. (...) Jejuam, dois dias, não comendo nem carne de vaca nem de porco, não lhes sendo porém proibido comer camarões e hortaliça. Lançam os sobejos da comida num recipiente parecido com uma manjedoura. Os escravos, quer homens quer mulheres, tiram-nos então com a mão para os comer".
Sugestão de visita: Portugal
Também o vestuário mostrava a prosperidade então reinante. "Os homens usam feltro preto para chapéu e amolgam-no, formando três bicos e ornamentando-o com placas douradas, em forma de flores, parecendo-se com um cesto de vime. Os rapazes vestem-se desedaazul. Como regra de vestir, a parte superior não ultrapassa a cintura e a parte inferior não passa dos joelhos. Muitos usam plumas e to-lo para se ornamentarem, ou fazem-no com brocados prateados e dourados ou com seda tecida em Fát-Sán. Os debruns são feitos de seda. O fato é abotoado na altura do peito, com botões de ouro ou de prata", enquanto as mulheres, "mesmo no rigor do Inverno, só usam uma blusa que chega apenas até à cintura. O vestuário inferior é composto de três peças. Uma que chega até aos joelhos, uma que esconde as pernas e outra para calçar os pés e que é feita de seda de cinco cores".
É precisamente através da evolução dos ornamentos das mulheres que se pode apreciar como a Macau do final do século 16 era diferente da do início do estabelecimento. Com grande perspicácia o mesmo autor recorda que, "ao princípio, andavam todas descalças e nem usavam meias". Ultimamente, refere,"usam couro encarnado para fazerem calçados tão curtos que não se podem enfiar neles os dedos dos pés" e mais adiante que "o penteado fica em cima da testa. Usam raras vezes alfinetes para o cabelo desornamentado e, para se embelezarem, colam o cabelo à altura das maçãs do rosto, deixando um orifício adiante e outro atrás. Nas mãos levam braceletes de ouro".
O apogeu comercial atraiu o interesse de outros povos europeus, nomeadamente dos Holandeses e Ingleses, que, mais de uma vez, por diferentes formas, tentaram assumir o controlo das rotas dos mares da China e do Japão. Nos inícios do século 17, os frequentes recontros entre Portugueses e Holandeses obrigaram a cidade a fortificar-se, criando nos Chineses o temor de que os Portugueses assumissem uma posição ofensiva, e ao reforço da posição do líder militar, o capitão geral que, vindo de Goa, passou a disputar com o Senado, o poder executivo da cidade. Mas os Holandeses não conseguiram alterar o domínio português no comércio com o Japão.
A década de 30 revelar-se-ia, porém, fatal, com uma sucessão de acontecimentos que ultrapassaram os mais negros cenários previstos para a cidade. Os cristãos são massacrados no Japão e Nagasáqui fecha-se ao comércio português; os Ingleses começam a entrar no porto de Cantão e a disputarem o comércio com a China, e, final mente, quando os portugueses de Macau comemoram o regresso à independência, acaba o comércio com as Filipinas, sob jugo espanhol, e, em, 1641, Malaca é conquistada pelos Holandeses As principais linhas de abastecimento e prosperidade de Macau estavam encerradas e abalado o prestígio de que Portugal gozava entre os Chineses como principal potência europeia. Em Pequim, crescente influência dos jesuítas, que impressionaram o Imperador com os seus conhecimentos, e a deslocação da embaixada de Manuel de Saldanha, tentaram ajudar os Portugueses a retomar o comércio marítimo proibido desde 1662, uma medida tão prejudicial para Macau que leva o Padre Francisco Pimentel a concluir: "e como os moradores desta cidade não tinham bem algum de raiz, nem um palmo de terra sobre que cair mortos, tirar-lhes o comércio foi o mesmo que tirar-lhes a vida".
Sugestão de visita: Museu Marítimo de Macau
Alguma coisa os jesuítas terão ajudado, uma vez que o Imperador Kang-Hsi se recusou "a sair com algum decreto contra Macau, ainda que muitos lho solicitavam, porque (seria) agravar a um Rei e a uma Nação a que há tão pouco tempo fez tantas honras em sua corte", mas foi uma questão de tempo. Em 1688, 18 anos depois da embaixada de Saldanha, as autoridades chinesas estabeleciam uma alfândega, destinada a cobrar impostos aos barcos chineses e estrangeiros que demandassem o porto, o que retirou ao Senado a última grande fonte de receita do estabelecimento português.
Ao longo do século XVIII o período de decadência torna-se ainda mais evidente. Agravam-se as relações com os Chineses, que em 1732 abrem nova alfândega na Praia Grande e quatro anos depois criam o cargo de mandarim para administrar os interesses chineses em Macau. Agravam-se as relações com a Coroa Portuguesa com as "Providências Régias" de D. Maria I a conferirem mais poderes ao Governador, considerando os membros do Senado "todos ignorantíssimos em matéria de governo e sem outras vistas mais do que a de procurarem a sua fortuna por meio de navegação e comércio".

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Macau por Bento da França: 1897


Bento da França morreu um ano antes da publicação deste volume (o 183) da Bibliotheca do Povo e das Escolas em 1890 em Lisboa. Cada volume custava 50 réis. Já o livro - "Macau e os seus habitantes: relações com Timor" foi editado em Lisboa em 1897. Nas primeiras páginas o autor explica a razão de ser da obra.
"A obra que apresento a publico é filha das observações feitas e apontamentos tirados durante cerca de quatro anos de permanência nas nossas possessões junto da China e da Oceania. Não tem grandes pretensões o trabalho, mas afianço que foi elaborado com amor e consciência, e creio achar-se aqui compendiado tudo de mais interessante e útil que possa importar aos que tenham interesse, ou tão somente curiosidade, em conhecer os nossos recursos e vida na antiga Cathay, ao que acresce fornecer bastas noticias sobre Timor, districto que, com o de Macau, constitue a nossa provincia ultramarina mais oriental.
Estive em terras portuguezas de alem mar, dou conta do que vi e das sensações experimentadas; d'est' arte julgo concorrer para que nos vamos todos familiarisando com os dominios coloniaes. Se vi mal e falseei as conclusões, talvez que os bons desejos de elucidar o publico dêem azo a que penna mais auctorisada me corrija os erros, estabelecendo a verdade. É sempre de vantagem ventilar estes assumptos. O plano do livro é este: Resumo da historia de Macau. Noticia geographica administrativa e política. Raças usos e costumes dos habitantes de Macau. Relações com Timor, dados sobre a ultima colónia. A primeira parte é extrahida de outra obra do audor, Subsídios para a historia de Macau, mandada publicar a expensas do ministério da marinha e ultramar em 1888. A segunda foi compilada de informações officiaes e varias rebuscas ; contém um documento curioso para os camoneanos. A terceira nasceu, principalmente, de observações (...) A quarta consta da matéria contida n'um folheto escripto por mim para a Bibliotheca do povo e das escolas, acrescentada com vários artigos que publiquei em differentes jornaes. Devo também prevenir os leitores de que, na terceira parte não tenho em vista descrever os costumes chinezes cm toda a sua interessante e complicada contextura, apresento apenas um pallido escorço do viver dos que habitam Macau. Como, todavia, a curiosidade de alguns se pode aguçar, permittam-me que lhes indique onde a poderão satisfazer. Afora outras de menor vulto, recommendâmos-lhes as seguintes publicações: 
Wenceslau de Moraes
Apontamentos de uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa - Carlos José Caldeira.
Cartas da índia e da China - José Ignacio do Andrade.
Os chins de Macau - Manuel de Castro Sampaio, Hong-Kong, 1867.
La vida en el Celeste Império - Edoardo Toda, Madrid, 1887.
A China e chins - Henrique G. R., Lisboa, Montevideu, 1888.
A traveis la Chine - por Rousset.
Ten years in China - J. Thompson.


Traços do Extremo Oriente - Wenceslau de Moraes, Lisboa, 1895.
Jornadas pelo mundo. A caminho de Pekin. Em Pekin - conde do Anioso, 1800." 
Filho de Bento da França Pinto d'Oliveira, marechal-de-campo e tenente-general do Exército Português e primeiro Conde de Fonte Nova e de Maria José Tovar Pereira da Costa, casou-se com Maria Bernardina da Gama Lobo Salema de Saldanha e Sousa de quem teve sete filhos. Pertenceu ao Ministério do Exército onde desenvolveu trabalho político relacionado com os territórios ultramarinos. Realizou missões em Moçambique, Cabo Verde, Angola e no Estado Português da Índia. Foi ainda governador de Timor (1882-1883) estando dependente de Macau. Em termos de patentes foi coronel de Cavalaria, Comandante do Regimento de Cavalaria nº9 (Aquartelada em Aveiro) e tenente-general do Exército. Devido às dificuldades económicas para manter a numerosa família de filhos e enteados (ao todo onze), aceitou a nomeação para governador de Timor, local conhecido pela adversidade de condições de saúde e segurança, além dos perigos de naufrágio que tal viagem acarretava. Partiu pois com quase toda a família (mulher, sete filhos, dois enteados, governanta e um ajudante de campo). Acabou por pedir a demissão de governador de Timor um ano depois, amargurado pela perda brutal de dois filhos vitimados pela malária, cansado pela hostilidade da administração portuguesa de Macau de que dependia e minado pelas muitas intrigas locais.

"Composição dos concelhos. O concelho de Macau compõe-se das freguezias da Sé, S. Lourenço e Santo António, e dos bairros chinezes do Bazar, Patane, San-kiu, Sa-cong, Santi, Mong-há, Long-tin-chin, Long nau-chin, Tap-siac, Cheac-in-tau e Macau-siac. O concelho da Taipa é constituído pelas ilhas: Da Taipa (comprehendendo a povoação d'este nome e as de Sam-ca-chin, Leong-sà, Chioc-ca chin e Sei-cá). De Colovane (abrangendo a povoação d'este nome, e as de Lai-che-van, Tai-van, Seac-pai-van e Ko-hó). De D. João (constituída pelas povoações de Chai-gui-van, Si liong-con e Pac-sa-lau). De Tai-vong can (constando das povoações de Manio-ho, Chu-sa-van e Nga-com-chai). 
De todas estas povoações a mais importante é a da Taipa, que cresce a olhos vistos, sendo o seu commercio de peixe muito para registar. N'esta mesma ilha ha uma fortaleza, quartel do destacamento e residência do administrador do concelho, que também é commandante militar. As outras ilhas estão quasi no estado primitivo; têem umas miseráveis povoações e acham-se por agricultar. Na de D. João são albergados os homens leprosos, que não têem cura e ficam incommunicaveis; e em Colovane as mulheres, que se acham nas mesmas circumstancias. Ilha da Lapa. — Vem de molde consignarmos aqui que allegámos direitos históricos á ilha da Lapa, ou dos Padres, e que, comquanto a sua posse nos tenha sido contestada pelos chins, elles nunca estabeleceram ali auctoridades, e nós temos tido intervenção policial nas desordens entre os seus habitantes por varias vezes, e têem-nos permittido outros actos de soberania. (...)
Occupando-nos d'ella por incidente, nada mais tínhamos tenção de dizer a respeito da ilha da Lapa, ou dos Padres; porém, os boatos, ainda que felizmente desmentidos, de pretensões allemãs à occupação d'aquella ilha, levam-nos a insistir no assumpto, deixando aqui consignado ser nossa convicção que, a realisar-se tal facto, Macau tenderia para perder todos os restos de importância commercial que ainda conserva, do mesmo passo que perderia também a tranquillidade. Senão rcpare-se em que a ilha da Lapa fica fronteira á cidade do Santo Nome de Deus, e forma, para assim dizer, a margem direita do chamado rio de Macau, porto interior; attente-se em que é este o nosso ancoradouro mais seguro, embora meça apenas de lado a lado cerca de uns 600 metros, quando muito. Isto basta para se calcular o sem numero de contestações que haveria a todos os instantes por causa da soberania das aguas, quadro de navios, etc, etc. Com os chinas não acontece outro tanto, pois que elles, tacitamente e por habito inveterado, nos vão deixando ter jurisdicção nas embarcações de qualquer espécie que surjam no porto interior, e de boa mente fecham os olhos a alguma incursão que façamos nos terrenos fronteiros para levar a effeito diligencias policiaes, etc, etc."

sábado, 15 de dezembro de 2012

Tratados no século XIX

O tratado de 1862 entre Portugal e a China deveria ser ratificado no espaço de dois anos por ambas as partes. Portugal ratificou-o e nomeou o novo governador de Macau, José Rodrigues Coelho do Amaral (1863-1866), para ir a Tientsin como ministro plenipotenciário assinar com os diplomatas chineses a ratificação. Amaral chegou a Tientsien a 13 de Junho de 1864 sendo informado pelas autoridades chineses que no dia 17 seria feita a ratificação. Nesse dia, estando já todos reunidos, os delegados chineses propuseram uma modificação ao art. 9, que estipulava que o governo chinês poderia nomear um cônsul para Macau com as mesmo atribuições dos cônsules dos outros países estrangeiros, ou seja, que pudesse cobrar os direitos alfandegários, pois Macau não podia deixar de ser considerado como território chinês. O representante português, que apenas tinha autoridade para assinar e não para modificar o documento terá respondido com altivez: "Pois vão conquistá-lo!". De seguida abandonou a sala e o tratado de 1862 ficou sem ser ratificado.
Os sucessores de Coelho do Amaral no governo de Macau foram: José Maria da Ponte e Horta (1866-1868); António Sérgio de Sousa (1868-1872); Januário Correia de Almeida (1872-1874); José Maria Lobo d'Ávila (1874-1876); Carlos Eugénio Correia da Silva (1876-1879); Joaquim José da Graça (1879-1883) e Tomás de Sousa Rosa (1883-1886).
Todos eles, excepto António Sérgio de Sousa, trataram de obter a ratificação do tratado de 1822; mas todos falharam. Só o último, Tomás de Sousa Rosa, é que conseguiu, não ratificar o tratado de 1862, mas concluir e ratificar um novo tratado, em que se reconhecia expressamente a soberania de Portugal sobre Macau.
Tratado de 1887
Em Julho de 1886, o governador Tomás Rosa, foi procurado por Robert Hart, inspector geral da alfândega imperial chinesa, para obter a adesão de Portugal contra o contrabando do ópio que se fazia através de Macau e de Hong Kong.
Em troca desta colaboração Rosa esperava obter da China o reconhecimento da ocupação de Macau pelos portugueses e até mesmo a cedência da Lapa a Portugal. Foi isto que ele comunicou ao seu governo em 31 desse mesmo mês.
Robert Hart entrou em comunicação com o governo chinês e em 22 de Setembro participou a Rosa que a China estava disposta a reconhecer a soberania portuguesa em Macau e a fechar os postos fiscais chineses nas cercanias desta cidade, tomando ainda em séria consideração a questão da Lapa. 
Com tudo acertado Robert envia, em Dezembro de 1886, a Lisboa o seu secretário, J. Campbell, para tratar do que fosse necessário para o bom êxito das negociações. A 1 de Março de 1887 este informa os dois governos que estão reunidas as condições para assinar um tratado assente nos seguintes três pontos:
1) Reconhecimento da perpétua ocupação e governo de Macau e suas dependências por Portugal;
2) Obrigar-se Portugal a não ceder nunca Macau sem o consentimento da China;
3) Cooperação das nossas autoridades na percepção do ópio, idêntica à cooperação de Hong Kong.
A 20 de Março Robert Hart informa o governo português que, por decreto imperial, Campbell recebera plenos poderes para assinar em Lisboa o protocolo do tratado. Este foi assinado às 19 horas de 26-3-1887 pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Henrique de Barros Gomes, e por James Duncan Campbell. 
Tomás da Rosa, que fora nomeado em 22 de Setembro de 1886 enviado extraordinário e ministro plenipotenciário para ir a Pequim concluir um tratado nas bases do protocolo de Lisboa, chegaria a Tientsin a 7 de Julho de 1887 e depois de muitas discussões conseguiu concluir em tratado de Amizade e Comércio de 54 artigos com o governo chinês. Este tratado seria assinado em 1 de Dezembro de 1887 - por Tomás da Rosa, pelo príncipe Chíng, presidente do Tsun-li-Yamen e por Sun, ministro do Tsung-li-Yamen e primeiro vice-presidente do Ministério das Obras Públicas - e ratificado a 24 de Abril de 1888.
O Art. II diz expressamente: "A China confirma, na sua íntegra, o artigo 2.º do protocolo de Lisboa, que trata da perpetua ocupação e governo de Macau por Portugal."
Portugal obtinha o reconhecimento da perpétua ocupação de Macau e ao mesmo tempo comprometia-se a nunca alienar o território sem o consentimento da China. E assim foi durante mais de quatro séculos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O fim da Banda Municipal

“O Famoso Trio” (“The famous Trio”): cartoon published in O Liberal, 15.1.1921, criticising the demise of the Municipal Band, caused by bad management and money misuse. The three figures portrayed are most probably members of the city council (two of them were possibly identified as Luiz Gonzaga Nolasco da Silva, Vice-president of the Leal Senado [right] in 1920 and the Major Alípio Ubaldy d’Oliveira [left]). The caption reads, “The Municipal Band was abolished and, very soon the organ of the Chi-chi-ui [literally “trash club”, nickname given to the conservative newspaper O Macaense, opponent of the O Liberal] will be closed. The advertised “sextet” cannot be formed because of lack of musicians, but the famous Trio intensively rehearses a new repertoire, which will certainly amuse the public.
Na legenda deste cartoon - "O Famoso 'Trio'" - publicado na edição de 15 de Janeiro do jornal "O Liberal" pode ler-se: “Extinguiu-se a Banda Municipal, e, do próximo mês em diante deixa de funcionar o órgão da Chi-chi-ui (Referência ao jornal "O Macaense" tido como conservador). O anunciado “sexteto” não se forma por falta de elementos; mas, em compensação, o famoso Trio ensaia activamente um novo reportório, com que voltará muito breve a deliciar o público.”
O coreto do Jardim de S. Francisco era um dos locais uma a banda municipal actuava
 O extremo oposto do jardim (face à imagem do primeiro postal)
No final do ano seguinte, a 14 de Dezembro de 1922, o mesmo jornal escrevia: “Há quem pretenda montar o negócio de dotar a Colónia com uma banda e uma orquestra, capazes uma e outra de deliciarem a população, tanto nos jardins públicos como no hall do Hotel ou nas festas ou nos teatros. Aproveitando bons elementos que andam dispersos e contratando alguns músicos filipinos — óptimas figuras por pouco preço — poder-se-ia de facto fazer qualquer coisa de geito. (…) A iniciativa particular pretende, mais uma vez, tirar canceiras ao Estado, oferecendo servi-lo por pouco dinheiro. Que irá fazer esse mesmo Estado?”

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Natal Chinês: conto de Maria Ondina Braga



A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Costumava vê-la logo de manhã, com a irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. Via-a casualmente a contemplar, embevecida, o presépio do convento. Encontrava-a por fim à mesa. A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou.  Nesses dias, com as meninas em férias, o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. Daí a presença da senhora Tung, que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes), se tornar nessa altura notável.
Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos, pensativos, a senhora Tung sorria constantemente, falava inglês, gostava de comer, de fumar, de jogar ma-jong. As criadas cortejavam-na nos corredores, preparavam-lhe pratos especiais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de ser mãe da subdirectora, tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa.
Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora, a subdirectora e a mestra dos estudos. E muito empertigada, segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda, a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório, entregando cerimoniosamente o presente à filha, que por sua vez o oferecia à directora. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. Toda de vermelho, de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo, a senhora Tung, quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa, dobrava-se quase até ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos pátios, à porta da cozinha, as criadas espreitavam, curiosas.
Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro Natal que passei em Macau, a senhora Tung era cristã, mas todos os anos se nomeava catecúmena. A seguir ao jantar falava-se nisso. A directora, uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim, perguntava em chinês formal quando era o baptizado. Inclinando a cabeça para o peito, a senhora Tung balbuciava, indicando a irmã Chen-Mou. A filha... a filha sabia. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito, mas o coração atraiçoava-a. O coração continuava apegado a antigas devoções... Todavia, vestira-se de gala para a festividade da meia-noite, tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores, e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse.
Com um sorriso meio complacente meio contrariado, a irmã Chen-Mou desconversava, passando a bandeja dos bolos à superiora, que separava uns tantos para o convento. Os restantes comê-los-iamos nós, ao fim da Missa do Galo, com chocolate quente.
O chocolate era a esperada surpresa da directora. A senhora Tung chamava-lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem), e Miss Lu, fanática terceira-franciscana, sempre atenta aos passos das monjas, sorvia à pressa o líquido escaldante, como quem cumprisse um dever, e saía atrás delas.
Ficávamos, assim, a senhora Tung e eu, uma em frente da outra. À luz das velas olorosas do centro de mesa, os seus olhos eram dois riscos tremulantes. Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. Uma das criadas entrava, silenciosa. Servia-se vinho de arroz. Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. O certo, contudo, é que ambas o bebíamos, a acompanhar os bolos de sésamo, no grande e desertorefeitório, na noite de Natal. O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Quanto à senhora Tung, saboreava-o devagar, molhando nele o bolo, e, como mal provara o «chá de Paris», bebia dois cálices. Entretanto, Aldegundes, a criada macaense mais antiga do colégio, aparecia com as especialidades da terra: aluares, fartes e coscorões, dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus, farte almofada, coscorão lençol. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung, que achava isto enternecedor e gratificavaa velha generosamente. Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa, sob uma lua branca, espantada, anunciadora do Inverno para a madrugada, a senhora Tung abria-se em confidências. A menina sabia... ― a «menina» era a irmã Chen-Mou, a subdirectora do colégio ―, sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se de uma pequena divindade, toda nua e toda de oiro. Fora ela quem lhe dera filhos. Estéril durante sete anos, a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa. Não podia portanto deixar de a amar. Toda a felicidade lhe provinha daí, dessa afortunada hora em que a deusa a escutara.
Parava a meio do largo átrio enluarado, de olhar meditabundo, mãos cruzadas no colo. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas, como se falasse sozinha.
Maria Ondina Braga leccionou no Liceu no início da década de 1960
... E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora! Virgem e mãe ao mesmo tempo... Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras, num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade, patrona dos lares, operava milagres, sim, mas racionalmente, atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção. Como o Céu alagando a Terra na estação própria.
Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung, nem ela parecia esperar resposta. Mudava, rápida, de assunto, aludindo ao tempo, à viagem de regresso, às saborosas guloseimas da criada macaísta. Já em casa, convidava-me a ir ver o seu presépio. O quarto cheirava fortemente a insenso. Em cima da cómoda, entre flores, lá estava o Menino Jesus, de cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto, feições chinesas. Depois, timidamente, a senhora Tung abria a gaveta... e surgia a deusa. O Menino Jesus era de marfim. A Deusa da Fecundidade era de oiro. O Menino, de pé, de um palmo de altura, trajando ricamente. A deusa, sentada, pequenina, nua. Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus, como se à procura de compreensão, mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. Não, não devia fazer aquilo. A filha asseverava que o Menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. E quem sabia mais do que a filha ? Eu já sentia frio, apesar da aguardente de arroz. O Inverno, ali, chegava de repente. A senhora Tung, no entanto, tinha as mãos quentes e as faces afogueadas. Despedíamo-nos. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada, que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. E que, de qualquer jeito, não me acreditaria.
Maria Ondina Braga, A China Fica ao Lado, Lisboa, Panorama, 1968
PS: outros posts alusivos ao Natal:

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Paquete "Índia": década 1950

Postal do Índia em 1953. Imagem cedida por JD.
Anúncio publicado no Diário de Lisboa em 1952

Testemunho de Diamantino Correia: "Foi neste "basófias" que em 22/8/51 embarquei em Lisboa (Cais dos Soldados em S. Apolónia), com destino à então lindíssima cidade de Macau, aonde cheguei no dia 23 de Setembro do mesmo ano. Regressei a Portugal no mesmo navio tendo embarcado em Macau a 14/10/959 e desembarcado em Lisboa a 11/12/59. Fez ontem 53 anos."
Testemunho de Augusto Veiga: "Foi no Índia que cheguei a Macau em 1956. Tinha 9 anos o meu era capitão de infantaria. Fomos pelo Canal de Suez, Adém, Goa (tivemos cerca de 10 dias) Colombo na então Ceilão, Singapura Hong Kong e Macau. Diamantino eu fiz a minha viajem como militar para a Guiné num navio chamado Carvalho Araujo em 1970. Gostei mais de Macau."
  

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Segredos da culinária macaense

De acordo com a opinião de grandes especialistas na matéria, a Culinária Macaense é uma combinação e mistura de comida portuguesa, indiana, malaia, filipina e chinesa. O limao Timor, o serrabulho, o peixe esmagal, o gengibre com mão de porco e o vinagre escuro doce para as parturientes já fazem parte da gastronomia macaense.
Prédio onde ficava a Casa Moosa na Rua Central
As receitas, condimentos e a maneira de confecção dos pratos favoritos da comida macaense diferem entre as cozinheiras de Macau, Hong Kong e Xangai. Todos os pratos têm os seus temperos próprios, segredos e originalidade na arte de cozinhar. Assim, o pato cabidela, a capela, a casquinha, o tacho, e mesmo o caril de galinha, carne de vaca e o cozido macaense são um pouco diferentes em Macau e Hong Kong. Uns colocam mais vinagre no pato cabidela, mais cebola na capela, mais azeitona na casquinha, mais cogumelos no Tacho, enquanto em Hong Kong também usam o Nam Yi e outros ingredientes.
Almocei várias vezes no Club Lusitano de Hong Kong, que serve excelente comida macaense, mas um pouco diferente da oferecida por Anita Assumpção do Clube de Macau. Por exemplo, o “Diabo”, preparado pela Menica não é idêntico ao das outras cozinheiras. O da Menica leva carne de carneiro e diferente tempero. A Dete, que cozinhava para as festas do Palácio do Governo, de acordo com a sua filha Adelaide, fazia um excelente bolo “Menino” e Mármore, à sua maneira especial. Anita Cordova, Crescência Silva e Augusta Rosa também cozinhavam excelentemente mas, mais uma vez, usando estilos diferentes das outras cozinheiras. Cada uma tinha a sua especialidade.
O bagi, o ladu, rebuçado de ovos, a coqueira, o cabelo da noiva e o bicho-bicho tambem são feitos desigualmente em Macau e Hong Kong.
Por ocasião dos festejos de Natal, destacavam-se as grandes especialistas de “aluar”. Designamos apenas as mais conhecidas: a Mui Mui, que morava na casa adjacente à Casa Gardem, no Jardim de Camões; a Dete, que foi funcionária das Obras Públicas; a Menica, que trabalhou como mordoma do Asilo das Inválidas da Santa Casa da Misericórdia; a Celeste Araújo, que foi enfermeira do Hospital São Rafael; e Idália da Luz, antiga professora de Inglês da Escola Comercial. Todas tinham os seus segredos próprios.
O “aluar” continua a ser ainda muito procurado por altura do Natal e é vendido actualmente em Macau pela familia Moosa, que mora na Rua Central.
Muitas grandes cozinheiras macaenses levaram com elas, para a eternidade, as suas receitas e segredos. Felizmente, ainda tenho muitas escritas à mão que tenciono compilar e publicar. Aproveito para adiantar que as cozinheiras macaenses das três associações sediadas na Califórnia celebraram o estabelecimento da Confraria da Gastronomia Macaense em Macau com uma grande festa no “Ritch Club” em São Francisco, que contou com grande participação dos seus associados.
Artigo de Henrique Manhão publicado no Jornal Tribuna de Macau a 19-09-200. HM era na altura Presidente da Casa de Macau nos EUA e vice-presidente do Conselho Permanente das Comunidades Macaenses.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Rua de S. Domingos / Mariazinhas / Tai Pou Lam

Imagem da década de 1930-40
Não deve ser fácil encontrar uma rua conhecida por três nomes. Mas, Macau sã assi...
S. Domingos, o oficial, "Mariazinhas", o adoptivo para os portugueses/macaneses, e Tai Pou Lam (Largos Passos) para os chineses. 
Segundo Luiz Gonzaga Gomes, o sol no empedrado fazia com que a população que andava descalça para percorrer a rua tivesse de o fazer... a correr a passos largos!
"(...) vulgarmente designada pelo povo com o nome de Tái-Pou-Lám ou Tái-Pou-Láp, que significa "galgar a grandes pernadas", querendo com isto dizer que tal via deve ser transitada a largas passadas pois, na época que assim a alcunharam, dizia-se que o indivíduo que ousasse caminhar nela, durante a noite, era infalivelmente alvo duma chuva de grãos de areia e de pedra miúda lançada por mãos desconhecidas, decerto pelas almas penadas que estavam residindo numa das duas ou três casas que existiam naquele remoto local, então considerado como um dos pontos extremos da cidade."
A Rua de S. Domingos, em chinês, Pan Cheong Tong Kai, ou seja, Rua do Templo das Tábuas. A razão é simples. A primeira igreja de S. Domingos (Pan Cheong Miu) foi construída em madeira em 1587. A construção em tijolo surgiu já no século XVII.
A seguir, excerto de um artigo da autoria de João GuedesAnalisar a história da rua das Mariazinhas, que ainda hoje constitui o coração da baixa é bastante mais difícil. Oficialmente, o nome desta curta via é “Pedro Nolasco da Silva” presidente que foi da câmara de Macau nos tempos atribulados da passagem da monarquia para a República em 1910. No entanto, apesar da placa que perpétua o nome daquele edil dos tempos da transição de regime da primeira década do século XX, o certo é que , portugueses e chineses nunca a conheceram pelo nome oficial.
Para os primeiros, trata-se de facto da rua das Mariazinhas, sítio que outrora conteve uma casa comercial com esse nome recheada de novidades que atraíam a curiosidade dos clientes de todo o mundo que não deixavam perder a oportunidade soberana de comprar toalhas bordadas, robes de seda , cabaias e peças de marfim na loja que possuía o curioso nome de “Mariazinhas”.
Os segundos, porém, preferiram ignorar a existência do afamado armazém (talvez porque o proprietário não fosse chinês), preferindo manter a designação de “Pak Ma Hong”, ou seja, Rua da Firma do Cavalo Branco, tendo em conta que outrora ali existira um edifício da firma Fearon & Co. Fearon era cônsul de Hanover, cuja bandeira era um cavalo branco em campo vermelho. “Como o escudo na fachada da companhia e a bandeira que lá flutuava nos dias festivos reproduziam o emblema do estado alemão, os chinas crismavam a rua com o nome de Pak Ma Hong”. Esta a explicação do historiador Mons. Manuel Teixeira.
O artigo pode ser consultado na íntegra aqui:
Em baixo pormenor da Livraria Po Man Lau
"(...) O Largo de S. Domingos, além de pertencer ao meu caminho para a Escola Primária, também me entretinha. Por baixo das suas arcadas, alinhavam-se os cegos adivinhos que "cantavam" a sina e os escribas que respondiam às cartas dos clientes analfabetos, depois de longas conversas. Eram letrados e escreviam os caracteres sínicos com elegância, possuídos duma caligrafia impecável, segundo os entendidos. Ainda se vêem hoje, nos lugares tradicionais, mas em número muito reduzido. No Largo, estava instalada a Livraria Po Man Lau, à esquina para a Travessa de S. Domingos, ponto de paragem praticamente obrigatória para todo o aluno da Primária, o que a Livraria Progresso, à Rua do Campo, representava para o Liceu. A Po Man Lau, mais papelaria que livraria, vendia livros para o ensino primário, como o Livro de Leitura de Ulysses Machado, da 1.ª à 4.ª classe, a Gramática do mesmo autor, a Geografia de Figueirinhas, a História de Portugal, de Jaime Séguier, a Tabuada e o Sistema Métrico, e uma obra muito interessante para os estudantes do último ano, denominada Coisas Geográficas, de cujo autor não me recordo o nome. (...)".
"Rua das Mariazinhas" in Mong-Ha de Henrique de Senna Fernandes, edição do ICM, 1998
Livros onde pode ser consultada mais informação: Luís Gonzaga Gomes: "Macau, Factos e Lendas", ICM, 1994 e "Lendas Chinesas de Macau", Notícias de Macau, 1951 
 Foto de AJMN Silva
Foto de Miguel Andrade. Década 1980