sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cinco séculos em poucas palavras


Existem indícios do povoamento humano de Macau remontar a um período de quatro a seis mil atrás. Ainda assim, o seu desenvolvimento apenas se verificou com o estabelecimento dos portugueses, relativamente ao qual são geralmente os seguintes factos:
- A conquista de Malaca, em 1511, foi essencial ao prosseguimento da expansão até à China.
- Jorge Álvares e a guarnição do seu junco foram, em 1513, os primeiros portugueses a viajar por mar até à China.
- Tomé Pires foi o primeiro embaixador enviado à corte chinesa, em 1520.
- A frustrada iniciativa de 1552, liderada por Diogo Pereira, marca o fim da preponderância do Estado nas viagens à China, e a sua substituição pela dinâmica dos interesses mercantis privados.
- O tratado verbal celebrado em 1554, entre Leonel de Sousa e a autoridade marítima de Cantão, foi instrumento relevante na criação de condições para o estabelecimento estável dos portugueses no delta do rio das Pérolas.
- Os portugueses estabeleceram-se a título permanente em Macau no ano de 1557, isto é, há quase 500 anos.
- Este acontecimento foi favorecido pela conjugação dos interesses mercantis portugueses, japoneses e chineses contando, na ocasião, com a cumplicidade das autoridades chinesas locais e, pouco depois, com a distante e relutante tolerância da Corte Ming.
- Em 1987 Portugal e China acordaram que se encerraria em 1999 o ciclo histórico, iniciado em 1557, da sua administração do território de Macau.

Postal de 1953... o império em selos

Emílio de San Bruno

Emílio de San Bruno é o pseudónimo literário de Filipe Emílio de Paiva, oficial da marinha, contemporâneo de Jaime do Inso, que esteve alguns anos em Macau no início do século XX, além de servir em outros territórios do então Ultramar.
O Caso da Rua Volong (1928) foi um de três romances escritos para apoiar o esforço colonial português. Este foi sobre Macau os outros sobre Angola e Moçambique.
O Caso da Rua Volong - Scenas da Vida Colonial, Lisboa, Tipografia do Comércio, 1928

Origens do nome Macau

Macau é palavra composta possivelmente de “Má” ou “A-Má” (“A”, prefixo usado pelos chineses antes dos nomes de pessoas; “Má” = mãe), e “cau”. “Má” relaciona-se com a deusa protetora dos marítimos, venerada pelos chineses no velho templo “Má-Kók-Mil” (Pagode da Barra, para os portugueses), templo, provavelmente, anterior à chegada dos portugueses e que servia de abrigo temporário a pescadores.
O étimo “A-ma-ngao” ou “A-ma-ngau” é o mesmo proposto no século XVI e XVII pelo Padre Mateus Ricci, e por outros missionários e historiadores. Do cantonense “A-ma-ngao”, ou “A-ma-gau” para os portugueses, teríamos “Amagau > Amacau > Macau”. Não se trata, porém, de evolução natural, uma vez que as oclusivas sonoras não passam a surdas.
É mais provável que em lugar da designação de “Baía de A-Má” se empregasse “Embocadura de A-Má”, expressão em que se empregaria “Hau” (boca, embocadura). Daí teríamos “A-Ma-Hau”, com “h” aspirado pelos fuquienenses (da província de Fuquiem), passando a “A-Ma-K' au”, com “k” aspirado, explicando-se a forma “Amacau”.

Nos escritos do século XVI aparecem as variantes “Amaquam”, “Machoam” e “Amagão”. A forma “Amaquam” estaria documentada por Fernão Mendes Pinto, na carta de 20/11/1555. Seria o documento português mais antigo em que surge o nome de Macau. Na carta escrita de Macau pelo Padre Belchior Barreto, em 23/11/1555, estaria registrada “Machoam”. Há dúvidas, porém, quanto à estada de Fernão Mendes Pinto ou do Padre Belchior Barreto em Macau.
Austin Coates propõe a seguinte explicação para o nome Macau: “Má Kó”, a “Ancestral Avó”, padroeira dos pescadores, ouviu as preces destes, quando, apanhados por um tufão, foram desviados das suas zonas de pesca. Ofereceram preces a Má Kó e chegaram salvos ao porto de abrigo. Construíram, então, um relicário em honra de Má Kó, como prova de gratidão à deusa. Posteriormente surgiu um templo de dimensão maior, um dos pontos de referência em terra. Este local, em dialeto fuquienense, era designado por “Má Kó Cau” (enseada da Ancestral Avó), cuja abreviatura “Ma Cau” deu origem ao nome da futura cidade.

No dialeto cantonense ainda hoje se usa “Ou-Mun” (Porta da Baía) para designar Macau.

Uma terra... vários nomes

"O nome de Macau deve ter sido, a princípio, apenas o do local onde se encontra o Pagode da Barra e onde, segundo a tradição, os nossos pioneiros desembarcaram pela primeira vez. Enquanto a povoação se estabelecia e aumentava, este nome persistiu na boca do povo, a despeito de todas as designações oficiais, portuguesas ou chinesas."
Graciete Nogueira Batalha in Revista de Cultura nº1, ICM, 1987
Macau é palavra composta possivelmente de “Má” ou “A-Má” (“A”, prefixo usado pelos chineses antes dos nomes de pessoas; “Má” = mãe), e “cau”. “Má” relaciona-se com a deusa protetora dos marítimos, venerada pelos chineses no velho templo “Má-Kók-Mil” (Pagode da Barra, para os portugueses), templo, provavelmente, anterior à chegada dos portugueses e que servia de abrigo temporário a pescadores.
O étimo “A-ma-ngao” ou “A-ma-ngau” é o mesmo proposto no século XVI e XVII pelo Padre Mateus Ricci, e por outros missionários e historiadores. Do cantonense “A-ma-ngao”, ou “A-ma-gau” para os portugueses, teríamos “Amagau > Amacau > Macau”. Não se trata, porém, de evolução natural, uma vez que as oclusivas sonoras não passam a surdas.
É mais provável que em lugar da designação de “Baía deA-Má” se empregasse “Embocadura de A-Má”, expressão em que se empregaria “Hau” (boca, embocadura). Daí teríamos “A-Ma-Hau”, com “h” aspirado pelos fuquienenses (da província de Fuquiem), passando a “A-Ma-K' au”, com “k” aspirado, explicando-se a forma “Amacau”.
Nos escritos do século XVI aparecem as variantes “Amaquam”, “Machoam” e “Amagão”.A forma “Amaquam” estaria documentada por Fernão Mendes Pinto, na carta de 20/11/1555. Seria o documento português mais antigo em que surge o nome de Macau. Na carta escrita de Macau pelo Padre Belchior Barreto, em 23/11/1555, estaria registrada “Machoam”. Há dúvidas, porém, quanto à estada de Fernão Mendes Pinto ou do Padre Belchior Barreto em Macau.
Austin Coates propõe a seguinte explicação para o nome Macau: “Má Kó”, a “Ancestral Avó”, padroeira dos pescadores, ouviu as preces destes, quando, apanhados por um tufão, foram desviados das suas zonas de pesca. Ofereceram preces a Má Kó e chegaram salvos ao porto de abrigo. Construíram, então, um relicário em honra de Má Kó, como prova de gratidão à deusa. Posteriormente surgiu um templo de dimensão maior, um dos pontos de referência em terra. Este local, em dialeto fuquienense, era designado por “Má Kó Cau” (enseada da Ancestral Avó), cuja abreviatura “Ma Cau” deu origem ao nome da futura cidade.
No dialeto cantonense ainda hoje se usa “Ou-Mun” (Porta da Baía) para designar Macau.
(...)
O nome cristão dado à povoação foi “Porto do Nome de Deus”, mudado para “Cidade do Nome de Deus”, em 1586, quando o rei Felipe II da Espanha, I de Portugal, conferiu à povoação o estado de cidade. Mais tarde, foram-lhe conferidos os mesmos privilégios, liberdades, honras e prerrogativas da cidade portuguesa de Évora, a primeira a revoltar-se contra o domínio dos Felipes, em 1637. Como Macau nunca se subordinou ao domínio dos reis da Espanha, as suas armas passaram a ter o mesmo lema das de Évora: “Muynobre e sempre leal cidade”. D. João IV mandou gravar à entrada do Leal Senado o dístico: “Cidade do Nome de Deus, não há outra mais leal”. É com este nome que aparecem atas e outros documentos ao longo do século XVII, ocorrendo também as denominações: “Nobre Cidade do Nome de Deos de Macau” e “Nobre Cidade de Macao”.
O que está escrito no Leal Senado é: "cidade do nome de deus não há outra mais leal em nome d'el rei nosso senhor D. João IV mandou o capitão geral desta praça, João de Souza Pereira, pôr este letreiro, em fé de muita lealdade que conheceu nos cidadãos della em 1654"

1ºs livros sobre a história de Macau

A soberania de Macau sofreu um primeiro impacto com a publicação em 1832 de um estudo sobre a sua história, pelo sueco Anders Ljungstedt. Nesse estudo afirmava que Macau era território da China. As suas afirmações foram consideradas falaciosas pelos historiadores portugueses.
Mais tarde, Carlos Montalto de Jesus, numa resenha histórica sobre Macau, publicada em 1902 (Historic Macao), afirmava “que os portugueses tinham sido convidados pelos chineses a instalar-se em Macau, e que, nos primeiros tempos, não havia qualquer renda”. Mas Montalto de Jesus, na segunda edição, publicada em 1926, acrescentou novos capítulos, em que se refere às falhas de Portugal e da China como responsáveis pela ruína de Macau, ao triste destino de Macau... O Governo de Macau sentiu-se atingido e acabou por condenar herética esta 2ª edição, apreendendo-a e queimando-a em público.
Em 1992, Monsenhor Manuel Teixeira fez elogios ao trabalho de Ljungstedt, reabilitando-o. A obra mereceu então nova edição.
Excertos de uma entrevista do Monsenhor Manuel Teixeira, em 1982:
Monsenhor:
Well, I was born in Portugal, in a villa called Freixo de Espada-a-Cinta in the Tras-os-Montes. That village is a missionary village. We have more missionaries from that village than all the others put together. I came to Macao in 1924 for my ecclesiastical studies at the seminary of Macao under Jesuit fathers. My professor of French was a father belonging to the Foreign Missions Society of Paris. He was very interested in history and was the only historian at that time. He published a book called: Resumo da história de Macau. (A Summary of Macao History.)What was his name?
Monsenhor:
Father Regis Gervaix. In 1925 he went to Peking and became a professor of French literature at the Goverment University and there he published a new history of Macao in two volumes called "Abre'ge' de l'histoire de Macao". So it was that father who gave me the taste and inclination to carry on his work. Because on his departure Macao was left without historians. When I finished my studies in 1933, I started at once writing history and published my first book in 1937. And since then I have published a hundred and nine books on Macao history. This year on the tenth of June I published four volumes and next year on the tenth of June - because it is a national holiday - another four volumes...Was it Gervaix who started this?
Monsenhor:
The first man who wrote a history of Macao was a Franciscan friar, Jose de Jesus Maria: Azia Sinica e Japonica. A very nice volume. Professor C.R. Boxer has published the manuscript in two volumes. The book was written in between 1742 and 1745. He spent three years in Macao, consulting all the archives. Many of these do not exist any more. Then the second history of Macao was written in 1902 by a layman, Montalto de Jesus: Historic Macao, then came father Gervais as I said and then....What about Sir Andrew Ljunsted?
Monsenhor:
Yes, in 1834 he published here the History of Macao, an historical sketch of the Portuguese settlements in China. He was the factor of the Swedish in Macao. He used the documents collected by Bishop Dom Joaquim de Souza Saraiva, the Bishop of Peking. He arrived in Macao in 1804 and died here in 1818. All his documents he handed over to Ljungsted and Ljungsted acknowledged in the introduction of his history that he used the bishop's documents.

Montalto de Jesus: 1863-1927

Montalto de Jesus sempre foi a favor de um maior desempenho por parte de Portugal nas oportunidades comerciais que a China parecia oferecer. Numa conferência dada à Sociedade de Geografia de Lisboa em 1911, lamentou a apatia de Portugal em relação a Macau, atribuíndo esta falta de iniciativa ao governo do antigo regime monárquico: "infelizmente um dos maiores males do paiz é a falta de inciativa e cooperação nacional, o tétrico pessimismo dos tempos idos. O regime monárquico nao só arruinou o país: esmoreceu na alma nacional a confiança, o arrojo indispensavel á vida comercial, deixando o povo quasi morto em marasmo e obscurantismo econòmico..." Jesus, Montalto de, in Portugal e Macau. Problemas Económicos e Políticos, Lisboa, Tipografia Universal, 1911
Carlos Augusto Montalto de Jesus em 1921
Historiador e publicista, correspondente da Sociedade de Geografia e da Royal Asiatic Society, Montalto de Jesus teve uma vida trágica. Acabou por falecer na miséria em Hong Kong, onde nascera, por ter escrito uma história de Macau considera insultuosa pelo Governo do Território. Foi a segunda edição de Historic Macao, de 1926, (a primeira é de 1902) que lhe valeu a prisão e o consequente exílio. o livro viria a ser apreendido e queimado, qual heresia, lembrando os antigos autos de fé da Inquisição.
Na segunda edição de Historic Macao acrescenta vários novos capítulos. Foram precisamente esses últimos capítulos que o transformaram instantaneamente, de herói nacional que era, num reles traidor. A segunda edição surge num tom acutilante contra os portugueses: "Fundamentalmente, a ruína de Macau deve-se às duplas e perpétuas falhas, quer de Portugal quer da China, bem como às catas tróficas maquinações de Hong Kong, sobretudo nos primeiros tempos desta colónia..."
Para salvar do previsível golpe final a triplamente vitimada colónia, que já fora a "pérola do Oriente", Montalto prossegue: "a não ser que, providencial mente, aconteça algo de inesperado, o enfraquecido Macau terá de ir à deriva na maré de azares onde navega, até se afundar por completo; ou, mais tarde ou mais cedo, Portugal terá de passar a sustentá-lo como um peso morto; ou, melhor dizendo, como um justo castigo pela negligência e mau governo sistemáticos ao longo dos tempos. É este, infelizmente, o triste destino que espera esta colónia portuguesa, que sempre foi auto-suficiente, cujo nobre brasão heráldico é o próprio brasão nacional e cuja divisa é 'Não Há Outra Mais Leal'. Na História da Colonização dificilmente poderemos encontrar outro caso de cruel expiação e de lealdade mal recompensada semelhante a este. A civilização bem pode ficar perplexa perante tal ironia do destino, tão pacientemente suportada durante séculos de martírio. Mas é óbvio que só uma catástrofe poderá despertar a nação sonolenta (Portugal) para o seu senti do do dever, perante a severa lógica dos factos e a Nemesis do destino em plena actividade.
Completamente desiludido com o Governo de Macau, Montalto tinha, simultaneamente, uma visão utópica da Liga das Nações, a qual, no seu entender, poderia salvar Macau da ruína total. A Liga das Nações é fantasticamente idealizada como sendo um verdadeiro presente dos deuses, e Montalto deposita nela total es perança de uma intervenção messiânica. Montalto nunca sonhara que a abandonada e velha "pérola do Oriente" viria a ser retomada pela China no final do século. Se assim fosse, talvez tivesse acrescentado outro capítulo, exigindo à China que prestasse a Macau a consideração devida.
O último capítulo foi, portanto, considerado como uma úlcera no conjunto do livro, e um claro desafio à impotente administração portuguesa. Como era inevitável, enfureceu o Governo de Macau, sobretudo por Montalto fustigar implacavelmente os portugueses. Estes sabiam tão pouco sobre Macau, preocupavam-se tão pouco e eram tão incompetentes quanto a ir de encontro aos desejos de Macau, que mais valia arriar a bandeira portuguesa e o Território passar a ser administrado pela Liga das Nações. O Governo de Macau condenou imediatamente a segunda edição, que considerou "herética", "apreendeu toda a edição e queimou-a em público. "Todos os que tivessem comprado um exemplar receberam ordens para o entregar, a fim de ser destruído".

Quer Ljungstedt quer Montalto foram considerados traidores pelas autoridades portuguesas. O primeiro era sueco e o segundo cidadão de Hong Kong, mas ambos escreveram em inglês sobre a História de Macau. Era óbvio que a versão em inglês se destinava não só aos leitores portugueses como também a um público mais vasto. Convém referir que a palavra "história", em português, significa não só o relato de acontecimentos históricos, como também qualquer narrativa, e o mesmo sucedia na língua inglesa até ao século XIX.
Qualquer obra, quer se trate de um relato de factos reais, quer de uma narração fantasiosa, tem como destino ser censurada ou reprimida se não estiver do lado do governo vigente.

Walter Benjamin observa que a História é "um instrumento das classes dominantes". A História não só tende a reflectir o poder dominante, como também se ajusta ao vencedor e à ideologia da ordem legítima. Não surpreende minimamente que o livro de Ljungstedt tenha sido estigmatizado e fosse impiedosamente atacado, simplesmente porque a História que escrevera não celebrava os feitos dos Portugueses, mas revelava a insuportável "verdade". No entanto, em 1992, a sua obra foi, finalmente, encarada como uma inestimável fonte para o estudo da História de Macau (graças ao Monsenhor Manuel Teixeira), e a sua reputação reabilitada. Passou, assim, a ser um traidor que se transformou em herói, autor da primeira História de Macau em inglês. Apesar de Montalto ter sido, no passado, condenado como herói que se transformou em traidor devido à fúria provocada pela segunda edição, a sua obra é indispensável para o estudo da permanência Portuguesa desde os primeiros anos do século XVI até ao princípio do século XX.
Após a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa de 1987, Macau passou a ser alvo duma atenção sem precedentes, quer por parte dos Chineses, quer dos Portugueses, relativamente aos seus 400 anos de História e à sua cultura sincrética. No passado, a História de Macau escrita em língua chinesa era com frequência considera da como um capítulo ou uma parte da História da província de Cantão; mas, em Julho de 1988, foi publica da em Hong Kong a obra Aomen Shilue (《澳門記略), uma breve História de Macau, em caracteres chineses clássicos. A China também não perdeu tempo em publicar (em caracteres chineses simplificados), Aomen Sibainian (《澳門四百年), relativa aos 400 anos da História de Macau, em Setembro de 1988. Por ironia, o autor de Aomen Sibainian admitiu, no Epílogo, nunca ter estado em Macau, e ainda que a sua pesquisa a nível de arquivos poderia não ser completa. Parece ter tido um súbito fervor de escrever a História de Macau. Quer Aomen Shilue quer Aomen Sibainian foram publicadas pelos Chineses, o que poderá representar um monólogo no seio da perspectiva chinesa.
Em 1992, o Padre Benjamim António Videira Pires publica também um livro em português, Os Extremos Conciliam-se, (《殊途同歸--澳門的文化交融》)que abarca os 400 anos da História de Macau e a formação da sua cultura, contribuindo para dar uma perspectiva dialógica, apresentando uma visão de Macau distinta da chinesa; e o leitor pode ouvir uma voz diferente. O que é notório na obra de Pires é, em primeiro lugar, o facto de este reiterar que, segundo alguns registos oficiais e uma carta do governador de Macau datada de 1846, Macau fora de facto dado a Portugal "para sempre", e que "não era necessário pagar uma renda anual". Isso teria sido decretado pelo imperador Jiajing, da dinastia Ming (1522-1566), cerca de 1557, num documento de posse de terras chamado "chapa de ouro". Infelizmente, o paradeiro deste documento era um enigma, e ter-se-ia provavelmente perdido nos princípios do século XIX.
Para além disso, Pires salientava que aquando da publicação, em 1832, de An Historical Sketch, por Ljungstedt, o referido documento já estaria perdido. Porém, parece pouco convincente que uma prova tão importante de um "presente" se tivesse extraviado. Em segundo lugar, no final do mesmo capítulo, Amaral era saudado como um "herói" por ter forçado, com sucesso, os Chineses a abrirem mão da renda exigida, e por ter expulsado a Alfândega Chinesa da cidade Cristã (Macau). Mas os incidentes do assassínio de Amaral pelos Chineses e a invasão de Beishaling por Mesquita foram totalmente omitidos. Também a sórdida história do tráfico de cules em Macau está omissa na sua História. Finalmente, o passado colonial é, no texto de Pires, estranhamente mediatizado, e a sua História de Macau embelezada, sendo expurgada dos acontecimentos indesejáveis. A sua empatia com o Governo de Macau é claramente visível.

Famílias macaenses

Três volumes com 7,5 kg, 3500 páginas, 245 capítulos, 250 fotografias e 440 famílias registadas e estudadas, eis como se poderia resumir a obra Famílias Macaenses, da autoria de Jorge Forjaz. Uma obra que a Fundação preparou para os mais de 1200 Macaenses que, em 1996, desembarcaram em Macau para o II Encontro das Comunidades Macaenses.
Fruto de mais de cinco anos de trabalho ininterrupto em vários continentes, a obra é, afinal, também um encontro, este muito mais vasto, e de dimensão planetária única, de todos os Macaenses hoje espalhados pelo Mundo. Sete anos depois o mesmo autor entregava à Fundação Luso-Descendentes da Índia Portuguesa, o mais vasto repositório alguma vez reunido sobre a origem das mais de 300 famílias portuguesas radicadas na costa ocidental da Índia, em Goa, Damão e Diu, Baçaim e Bombaim.

Restaurante Cecília

Antes do Café Ruby, nos anos 50, o ponto de encontro dos militares da Metrópole era o Café Cecília, situado na R. Pedro Nolasco e propriedade da família Quevedo da Silva. Lá comia-se um bom bife com batatas fritas e tomava-se um bom vinho tinto. Na época, os jovens macaenses preferiam o Café Imperial...
Reveillon no "Cecília" em 1954

Na década “dourada” de Macau – os anos cinquenta do século passado – um dos “ornamentos” da cidade era, para o bem e para algumas maldades inconsequentes, a profusão de fardas de caqui dos militares do exército português. Os oficiais, sargentos e praças, classes bem distintas e compartimentadas, depois das suas obrigações de serviço cumpridas, espalhavam-se pelos quatro cantos do burgo e tinham sítios certos como pontos de encontro.
Para encontrar “todo o mundo” servia o Largo do Leal Senado e a Avenida Almeida Ribeiro, mas para um determinado tipo de interesses comuns a grupos mais ou menos restritos havia os Cafés e Restaurantes. Eram autênticas “tertúlias” onde o estar e conversar se sobrepunha ao comer e beber.
Um desses lugares de eleição, para praças e alguns sargentos, era o Restaurante Cecília, situado na parte mais alta da Rua Pedro Nolasco da Silva, logo a seguir e do lado contrário ao Hospital de S. Rafael, para quem vai da Rua do Campo.
Era propriedade da família Quevedo da Silva e o nome do estabelecimento vinha da filha mais velha, a D. Cecília, que era funcionária pública e só lá aparecia de vez em quando. Tal como um irmão Roberto que andava na marinha mercante.
O “Papá e a Mamã” (era assim que eram tratados pelos frequentadores) geriam com infinita paciência o negócio de comidas e bebidas retintamente portuguesas. O cliente mais ilustre e estimado da casa era o senhor Padre Sarmento.
Ao cair da tarde apeava-se do “riquexó”, tirava o seu capacete de “caçador de leões” e, enquanto saboreava o chá, conversava com a rapaziada evidenciando uma jovialidade digna de inveja. Divertia-se imenso a desmontar e contrapor os subentendidos maliciosos das conversas dos mais atrevidos que o acicatavam, só para o ouvir.
A Fina (Delfina) tomava conta da escrita, um tanto trabalhosa porque a maior parte da clientela utilizava o “aponta’í” e pagava no fim do mês. Além disso escolhia a música ambiente (era mais Pat Boone que Elvis Presley) e aturava, com uma delicadeza muito própria e dissuasora, os dichotes da meia dúzia de paixões serôdias que eram conhecidas e “gozadas” pela malta.
O maior acontecimento do restaurante foi a aquisição e instalação da primeira “mesa de matraquilhos” em toda a Ásia. (O Guiness não regista o facto, mas aqui fica o testemunho para a posteridade). Não é só para que conste que trago os “matraquilhos” à conversa.
Os outros dois irmãos da Fina, o Johny (João) e o Tchito (Gilberto), na altura jovens estudantes, em pouco tempo tornaram-se imbatíveis naquele jogo. Apareciam os maiores “craques”, campeões da Mouraria e arredores, com truques complicados e anos de treino na Feira Popular de Lisboa, e levavam cada “cabazada”!!!
A sua táctica consistia em fazer perder a paciência aos impetuosos adversários e, com a habilidade característica do “seu lado chinês”, empurrar a bola de mansinho para o golo. Bons tempos, meus amigos… Que saudades!!!
Texto de José A. S. Neto
Nota: enviado por Carlos Charlie Santos que acrescenta: "O amigo Zé Neto comete apenas um pequeno equívoco.... menciona a Cecília como a irmã mais velha da família, quando, na verdade, a irmã mais velha da família Quevedo da Silva é a minha mãe, Maria Quevedo."
Grupo de Militares em Dezembro de 1955

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Curiosidades sobre as Ruínas de S. Paulo

ca. 1976
Ir a Macau e não ver as Ruínas de S. Paulo é como ir a Roma e...
Mas, será que sabemos realmente a verdadeira história por trás do ex-libris de Macau e do que é provavelmente o monumento mais fotografado da cidade?


"(...) Quando Nacaúra e os seus companheiros chegaram a Macau, descobriram que a igreja que conheceram tão bem fora completamente destruída por um incêndio em Novembro do ano anterior. Contudo o projecto de reconstrução estava já em curso sob a direcção de um jovem missionário italiano, Carlos Spinola, que havia chegado uns meses antes do incêndio na sua viagem a caminho do Japão. O Reitor de S. Paulo, P.e Manuel Dias, solicitou a Spinola, um óptimo matemático, que concebesse o plano para a nova igreja, e, em 1601, o Vice-provincial nomeou Spinola Procurador da Província Japonesa em Macau, a fim de ele poder completar a sua obra. Spinola não chegou a ver o seu projecto concretizado. Em Julho de 1602 alcançou o seu destino no Japão. Mas Ito, Nacaúra e os seus três companheiros assistiram à inauguração solene da nova igreja em vésperas do Natal do ano de 1603."
ilustração de 1860

- Chamam-lhe ruínas de S. Paulo, mas a fachada é da Igreja da Madre de Deus (o colégio de S. Paulo, que lhe deu o nome, funcionava ao lado;
- O colégio Jesuíta de S. Paulo, foi a primeira universidade de tipo ocidental no Extremo Oriente; - No colégio estudaram missionários como Mateus Ricci e Adam Schall antes de partirem para a corte Ming, em Pequim, onde foram astrónomos e matemáticos;
- A igreja, primitivamente feita de "taipa" e madeira, estava, de acordo com os viajantes da época, ricamente decorada e mobilada;
- A escadaria que dá acesso às ruínas tem um total de 68 degraus;
- A fachada de pedra trabalhada foi construída entre 1620-27 por cristãos japoneses exilados e artistas locais sob a orientação do jesuíta italiano Carlo Spinola;
- Depois da expulsão dos jesuítas, a universidade foi utilizada como quartel e, em 1835, um incêndio deflagrado nas suas cozinhas destruíu-a, bem como ao corpo de igreja;
- A fachada que “sobreviveu” ergue-se em 4 alas com colunas, estando coberta de peças escultóricas e imagens que ilustram com eloquência o que foram os primeiros tempos da Igreja na Ásia;
- Há imagens da Virgem e de alguns Santos, símbolos do Paraíso e da Crucificação, anjos e o demónio, um dragão chinês e um crisântemo japonês, uma caravela portuguesa e inscrições religiosas em chinês

Antes e Depois

Biblioteca Nacional ao Tap Seac: 1949 e actualmente

Para além dos casinos... museus, igrejas, pagodes...

Pagode de Mong Há ca. 1930 S. Lázaro, 1996Serviços Meteorológicos na Fortaleza do Monte... depois de obras de remodelação funciona aqui o museu de macau



Coloane na décade de 1960 Templo A-Ma
Vista do Monte da Guia a partir do hospital S. Januário em 1965
Entrada da Fortaleza do Monte em 1973

Macau é definitivamente a cidade do jogo. Actualmente conta com quase 30 casinos, a maioria construídos depois de 1999, o 'limite' temporal deste blog. Mas para além dos neons, Macau tem concerteza o maior número de museus por metro quadrado... alguns construídos depois de 1999. Já para não falar das inúmeras igrejas e templos (mais de 50!)... e dos diversos edifícios considerados pela Unesco Património da Humanidade.

Eis uma lista que deve andar muito próximo da realidade:
Museu de Arte, Museu das Comunicações, Museu das Ofertas sobre a Transferência de Soberania, Museu da História da Taipa e Coloane, Casa Cultural de Chá, Casa de Penhores Tradicional, Museu do Gramofone, Museu dos Bombeiros, Museu do Grande Prémio, Museu do Vinho, Núcleo museológico da Santa Casa da Misericórdia, Museu Memorial Lin Zexu, Museu de Macau, Museu Marítimo, Museu Natural e Agrário, Museu de Arte Sacra, Museu das Forças de Segurança, Casas-Museu da Taipa, Tesouro de Arte Sacra na Igreja de São Domingos.
O seu espólio encerra a História de Macau da qual este blog é apenas uma ínfima amostra.
Igreja S. Domingos ca. 1930

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Grémio Militar: primeiro presidente em 1870

O Clube Militar de Macau foi fundado em 20 de Abril de 1870 com o nome de Grémio Militar... Noutro post já contei de forma resumida a sua história. Espaço agora para maior detalhe a quem esteve na sua origem.
"Aos vinte dias do mês de Abril de 1870, na sala dos oficiais do Quartel do Batalhão de Infantaria, reunidos os oficiais ao serviço do referido Batalhão, propôs o Alferes Dores organizar-se um Grémio não só para ponto de reunião, como, mui principalmente, para nele se estabelecer uma biblioteca de livros militares, científicos e de qualquer outro assunto, havendo também jornais, jôgo de armas e de todos os permitidos por lei.
Aceite a proposta pela corporação, nomeou o chefe da mesa preparatória, da qual tomou a presidência, a fim de imediatamente se proceder por escrutinio à eleição dos oficiais que deviam elaborar o projecto de estatutos para o referido Grémio. Recolhidos os votos, foram eleitos: presidente, o capitão Manuel de Azevedo Coutinho (na imagem), vogais, o tenente Henrique Augusto Dias de Carvalho e o Alferes Rafael das Dores, sendo este o secretário. Nomeada a comissão, ficou logo convencionado que podiam ser sócios do Grémio todos os oficiais do exercito, marinha, reformados e aspirantes. Em seguida o presidente deu a mesa por dissolvida e encarregou a comissão de fazer convidar para sócios todos os oficiais nas circunstâncias acima, sendo estes os fundadores, os quais avisariam para as sessões em que forem presentes os estatutos, e assim terminou esta reunião do dia 20 de Abril de 1870. Ass) - Domingos José d' Almeida Barbosa - tenente-coronel."Os primeiros estatutos do Grémio Militar foram aprovados pelo Governo a 24-01-1871 e publicados a 31 do mesmo mês no "Boletim de Macau e Timor".

Charles Ralph Boxer... historiador

Professor emérito da faculdade de estudos portugueses do King’s Colledge de Londres perfila-se como o maior historiador da expansão marítima oriental portuguesa iniciada no século XV. Nasceu na ilha de Wight no dia 8 de Março de 1904 e faleceu em Londres no dia 27 de Abril de 2000, com 96 anos de idade. Descendia de uma família de tradição naval. Seu avô tinha sido oficial de marinha e Charles Boxer não conseguiu ingressar naquela arma devido apenas ao facto de usar óculos. Por isso acabaria por ingressar na academia do exército de Sandhurst concluindo o curso como segundo tenente em 1923. Durante alguns anos prestou serviço na Irlanda até ser designado em 1930 para o Japão a fim de servir como oficial interprete na missão militar inglesa naquele país. Em 1936 transitou para os serviços de inteligência militar em Hong Kong onde serviu até Dezembro de 1941 (data da fotografia) data em que os japoneses ocuparam aquele território. Ferido em combate esteve prisioneiro num campo de concentração (em Cantão) até ser libertado no final da guerra e enviado de novo em missão ao Japão em 1946 de novo como adido militar. Em 1947 desligou-se do serviço militar obtendo a regência da cadeira de estudos portugueses na Universidade de Londres.Condecorado pelo governo português com a grã cruz da Ordem de S. Tiago da Espada e Grã Cruz da Ordem do Infante publicou aos 18 anos de idade o seu primeiro estudo sobre a história de Macau sendo autor de mais de 350 trabalhos sobre a expansão portuguesa, espanhola e holandesa a Oriente na era moderna.
Apesar de não ser um académico na acepção formal do termo, começou a interessar-se sobre a expansão marítima portuguesa e holandesa enquanto serviu, nos primeiros anos no Extremo Oriente, depois de ter contactado com elementos civis e militares holandeses na Indonésia. Em 1926 publicou os seus primeiros artigos sobre o tema, mas seria em 1930 que escreveria o seu primeiro trabalho académico: uma tradução dos “Comentários de Ruy Freire de Andrade”. Nesse tempo nada, ou quase nada era conhecido sobre a saga dos portugueses, japoneses e holandeses no Extremo-Oriente, nos meios universitários de língua inglesa, mas também nos de língua portuguesa. Servindo-se do facto de ser um oficial dos serviços de inteligência da Grã Bretanha, Charles Boxer, maximizou o seu interesse pela história utilizando os seus contactos no Extremo Oriente, mas particularmente em Macau onde cultivou um conjunto de amizades junto dos círculos intelectuais macaenses, que lhe permitiram não só reunir um conjunto de informações de carácter histórico, mas também adquirir um acervo de documentos originais e livros de diversa índole que lhe permitiram reunir em pouco tempo uma biblioteca invejável sobre o tema geral da expansão europeia no Extremo Oriente que prosseguia. Após a sua captura pelos japoneses em 1941, a sua biblioteca foi considerada como tendo interesse de estado pelos japoneses, apreendida e enviada para Tóquio. Terminada a guerra, Boxer, graças à cooperação do governo britânico conseguiria reaver o seu espólio, excepto um livro, que não constou do documento de apreensão japonês. Esse livro, veio a saber depois, tinha ficado nas mãos de um oficial japonês e somente viria a recuperá-lo décadas mais tarde, já nos anos sessenta recompletando assim a biblioteca da sua juventude.
A nomeação de Charles Boxer para a regência da Cadeira Portuguesa de Camões no King´s College foi um evento memorável tendo em conta a sua falta de credenciais académicas. Todavia certo é que em 1947, Boxer seria nomeado para reger a faculdade sucedendo ao professor George Young, fundador da Faculdade e ao seu sucessor Edgar Prestage em 1947. Tratou-se de uma atitude inédita das autoridades universitárias do King´s College, tendo em conta que Boxer não possuía grão académico. Apenas tinha publicado uma obra e nunca tinha sido professor. Apesar disso, Boxer, não só era admitido como regente da cadeira de Prestage, como seria, em 1951, incumbido de reger o Departamento de Estudos Orientais e Africanos da universidade, que dirigiria até 1953.
Retirado do exército e dedicado à universidade, Boxer escreveu a primeira das suas grandes monografias intitulada: - “Fidalgos in the Far East”. Essa monografia constituiu uma súmula alargada e aprofundada dos trabalhos avulso que tinha escrito anteriormente e publicado em diversos jornais da especialidade. Logo a seguir publicou “The Christian Century in Japan” (1951) e no ano seguinte a obra “Salvador Correa de Sá and the Struggle for Brazil and Angola”(1952. “Os Holandeses no Brazil” seria a obra complementar que surgiria à estampa em 1957. “The Great Ship from Amagon” (A grande Nau de Macau) seria o seu estudo seguinte dedicado ao tráfico das sedas da China e da prata do Japão no século XVI que tinha como centro nevrálgico Macau e que surgiria em letra de forma em 1959. Na sequência dessa obra Boxer produziria um outro livro sobre a idade do ouro do Brasil em 1962, que continua por traduzir em língua portuguesa. Firmada a sua reputação em Inglaterra com a série de obras publicadas a que se fez referência Boxer seria naturalmente nomeado membro da Academia Britânica e o seu contributo requisitado por várias universidades nomeadamente da Holanda e dos Estados Unidos da América. Assim, passou a ser professor convidado da Universidade americana de Indiana (1967) e de Yale, onde regeria a cadeira de Estudos da Expansão Europeia Ultramarina (1969). Do ponto de vista pessoal, Charles Boxer viveu uma vida plena de aventuras tendo em conta o facto de ser um elemento dos Special Inteligence Service da Grã Bretanha. Foi essa condição que lhe permitiu, nomeadamente em Macau fazer amigos junto de um círculo de intelectuais macaenses dos anos 30, nomeadamente Jack Braga, Silva Mendes, Vicente Jorge e outros que contribuíram para que conseguisse testemunhos históricos e fontes documentais portuguesas do Extremo Oriente a que de outro modo nunca teria tido acesso. Segundo um dos seus biógrafos, Boxer foi tudo quanto se pode ser no domínio da história: “autor, biógrafo, editor, bibliógrafo, arquivista, catalogador tradutor e revisor”. Para além disso, a concepção de história de Charles Boxer ultrapassava qualquer ponto de vista pessoal preferindo transmitir factos partindo dos documentos originais a que tinha acesso, segundo outro dos seus biógrafos. Neste ponto porém é importante salientar que uma nova escola de historiadores contesta esse comentário historiográfico que, alegadamente apenas, tem em vista “absolver” Charles Boxer das suas posições “conservadoras. Esse ponto de vista é subscrito nomeadamente pelo historiador indiano Sanjai Subramanyan, que afirma que Boxer não representa mais do que uma velha escola de historiadores que relatavam a história baseados apenas nos documentos coloniais, sem cuidar de consultar fontes e documentos autóctones cujas línguas desconheciam. Saliente-se, todavia que, para além de dominar o inglês (sua língua materna), Boxer falava e lia japonês, português e holandês, embora não falasse fluentemente estas duas últimas. Todavia, saliente-se também, que conseguia ler manuscritos dos séculos XVI e XVII em português e holandês, faculdade que não se encontra ao alcance de muitos historiadores e que por vezes constitui apenas domínio de alguns paleógrafos.Para além das obras mencionadas, Charles Ralph Boxer escreveu também os seguintes livros e ensaios, entre outros: - O 24 de Junho. Uma façanha dos portugueses (1926); Relação da perda da nau “Madre de Deus” (1927); The Siege of Fort Zeeland and the Capture of Formosa from Dutch (1927); Subsídios para a História dos Português no Japão (1927-1928); A Portuguese embassy to Japan, 1644-1647 (1928); Notes on early European military influence in Japan (1931); European influence on Japanese sword fittings, 1543-1853 (1931); Dutch Seaborne Empira 1600 – 1800; Church Militant & Iberian Expansion, 1440-1770; Dutch Merchants & Mariners in Ásia, 1602-1795; From Lisbon to Goa, 1500-1750; Studies in Portuguese Maritime Enterprise; Portuguese Conquest & Comerce in Southern Ásia, 1500-1750; Portuguese Embassy to Japan (1644-1647); Portuguese Merchants & Missionaries in Feudal japan 1543-1640; Race Relations in the Potuguese Colonial Empire, 1415-1825.
Relativamente a este último livro mencionado de salientar que seria a obra que incorreria nas iras do regime de Salazar em Portugal e que levaria a que o governo português chefiado pelo então ditador (1931-1968) lhe retirasse as condecorações que lhe tinha anteriormente autorgado pela sua obra como historiador da expansão portuguesa ultramarina. Boxer seria no entanto reabilitado posteriormente à revolução de 25 de Abril de 1974 sendo-lhe não só restituídas as medalhas concedidas durante a vigência do Estado Novo como atribuído o novo tributo da Ordem do Infante pelo presidente Mário Soares em cerimónia solene realizada em Lisboa.
Texto da autoria de João Guedes, jornalista e pesquisador da história de Macau

Manuel da Silva Mendes: 1867-1931

Manuel da Silva Mendes foi um dos intelectuais mais representativos da história de Macau, no primeiro quartel do século XX. Espírito multifacetado, professor e reitor do Liceu, advogado, juíz, presidente do Leal Senado, teve ainda tempo para se dedicar ao estudo da filosofia taoista e para se embrenhar nos exigentes meandros da arte chinesa, como erudito e coleccionador.
A sua valiosíssima colecção particular constitui o espólio mais significativo do desaparecido Museu Luís de Camões.

Ilha Verde: ca. 1880

A Ilha Verde é actualmente parte integrante da Península de Macau. Possui um terreno relativamente acidentado e o seu centro é dominado pela Colina da Ilha Verde.
Antigamente, a Ilha Verde era de facto uma pequena ilha granítica. Foi originalmente ocupada pelos jesuítas no início do séc. XVII emborfa a sua presença em Macau remonte ao século XVI. Estes missionários construiram vários edifícios de apoio nesta ilha coberta por um bosque de onde derivou as designações chinesas de Qing Zhou (Oásis Verde) ou Lok Dao (Ilha Verde) e posteriormente a designação portuguesa de "Ilha Verde".
Em 1890, as autoridades portuguesas começaram uma obra de aterro para conectá-la à Península de Macau, originando um istmo. Este istmo actualmente chama-se "Avenida do Conselheiro Borja". Neste mesmo ano, começou oficialmente a ocupacão portuguesa da Ilha Verde. Em 1923 foi absorvida totalmente pela Península devido aos sucessivos aterros, passando a fazer parte desta última. Em rigor, é actualmente uma península, mas o seu nome histórico, Ilha Verde, manteve-se.

Aspectos da ilha da Taipa ca. 1880

igreja nossa senhora do carmo construída em 1885
cais


Escritores de Macau

A presença literária portuguesa no Extremo-Oriente começa com Camões e Bocage e prossegue com Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes já no século XIX. Outros se seguiram...


Manuel da Silva Mendes (1867-1931) registou a terra em que viveu 30 anos. Colaborador de vários jornais da época (A Vida Nova, Jornal de Macau, Pátria) e de revistas (O Oriente, Revista de Macau), as crónicas que mais representam a cidade foram seleccionadas por Graciete Batalha em Macau, Impressões e Recordações (1979).
O romancista português Joaquim Paço d’Arcos, filho do governador de Macau (1918-1923), Henrique Correia da Silva Paço d’Arcos, publicou duas obras com temas macaenses: Amores e Viagens de Pedro Manuel (1935) e Navio dos Mortos e outras Novelas (1952).
Curiosidades de Macau Antiga e Lendas Chinesas de Macau, Efemérides da História de Macau (1954), Chinesices e Macau, factos e lendas são crónicas, que registram memórias e aspectos da vida e da história da Cidade do Nome de Deus, do macaense Luís Gonzaga Gomes (1907-1976). Grande conhecedor da língua chinesa, além de ter traduzido muitos textos chineses, publicou também os Vocabulários Cantonês-Português (1941) e Português-Cantonense (1942). O seu espólio encontra-se atualmente no Arquivo Histórico de Macau.

Português de nascimento, mas vivendo em Macau há mais de 60 anos, o emérito historiador Padre Manuel Teixeira tem mais de uma centena de títulos publicados. A sua vasta obra aborda Macau desde a chegada dos portugueses, no século XVI, até ao final do século XX. Galeria dos Homens Ilustres do Século XIX (1942), Macau através dos Séculos (1977), Vultos Marcantes em Macau (1982) são algumas de suas obras de valor não só histórico mas também literário.
Três escritoras têm-se destacado pela temática macaense. Deolinda da Conceição publicou contos no jornal Notícias de Macau, posteriormente editados no livro Cheong-Sam, a Cabaia (1956).

Maria Pacheco Borges, colhendo impressões entre o povo chinês de Macau, regista-as em Chinesinha (1974).
Maria Ondina Braga, cujo percurso literário vem sendo marcado desde os contos A China Fica ao Lado (1968), insere-se numa poetização da prosa em obras mais recentes sobre o Território: Nocturno em Macau (1991) e Dias de Macau em Passagem do Cabo (1994).
Dos prosadores macaenses do final do século XX salientam-se: Henrique de Senna Fernandes, e Rodrigo Leal de Carvalho.

Senna Fernandes com o gov. Nobre de Carvalho no final de década de 1960

Senna Fernandes publicou Nam Van – contos de Macau (1978) e os romances Amor e Dedinhos do Pé [1986] e A Trança Feiticeira (1993), estes dois últimos adaptados para o cinema.
Rodrigo Leal de Carvalho, romancista que se vem destacando na década de 90, apresenta paisagens e personagens com fortes traços macaenses em: Requiem para a Irina Ostrakoff, Construtores do Império e Quarta Cruzada.
Referência ainda para os textos em patois, dialeto falado em Macau durante quatro séculos, tendo como base a língua portuguesa do século XVI (segunda metade) e do século XVII. O poeta e prosador José dos Santos Ferreira, conhecido na Cidade do Nome de Deus por Adé, é seu maior representante. Suas obras Poéma di Macau (1983) e Macau, Jardim Abençoado (1988) são expressões vivas do dialeto, a doce língua maquista, não mais falado nos dias atuais.

Bocage em Macau (1789-1790)

Bocage esteve em Macau dois séculos (Out. de 1789 a Março de 1790) depois de Camões (que ali foi Provedor dos Defuntos) como guardamarinha. Ali escreveu odes, duas delas dedicadas a senhoras macaenses, “senhoras de grande linhagem e de grande beleza”. O poeta arcádico, no entanto, não se mostrou encantado por Macau, como se verifica nesta quadra de um de seus sonetos:
Um governo sem mando, um bispo tal,
de freiras virtuosas, um covil,
três conventos de frades, cinco mil
nhons e chinas cristãos, que obram muito mal.

Soberania(s)

Praia Grande na segunda metade do século 19
Por mais incrível que possa parecer e tendo em conta a presença portuguesa em Macau desde pelos menos 1557, à luz do Direito Internacional a soberania de Macau só foi esclarecida a partir de 1979 quando Portugal e China estabeleceram relações diplomáticas.
Na altura, os dois países definiram na acta de conversações por meio de acordo confidencial que "Macau é território chinês sob administração portuguesa", o que veio a ser confirmado na Constituição da República Portuguesa e no Estatuto Orgânico de Macau.
A celebração do Tratado de Amizade e Comércio entre a China e Portugal em 1887 possibilitou a Portugal a perpétua ocupação e governo, mas ficaram dúvidas quanto à soberania do Território pertencer à China ou a Portugal. Em 1979, quando a China e Portugal estabeleceram relações diplomáticas, ficou assentado ser Macau território chinês sob administração portuguesa. A Declaração Conjunta entre os dois países, em 1987, determinou, por fim, que a China
retomará o exercício da soberania sobre Macau em 20 de dezembro de 1999. Definido como Território sob administração portuguesa, Macau é um Estado regional, caracterizando-se como Cidade-Estado Semi-Soberana.
Ou seja, a posse da soberania sobre Macau entre 1887 e 1979 é um mistério histórico que continua por desvendar... A matéria é extensa e complexa e não se compadece com a missão desde blog...
Porto Interior na segunda metade do século 19

As ilhas (para além da Taipa e Coloane)

ilhas no delta do rio das pérolas junto a Macau

Quando se fala de Macau e ilhas a maioria das pessoas fala logo em Taipa e Coloane, mas anos houve em que o domínio português de estendeu a, pelo menos, mais 6 pequenas ilhas...
Lapa, Bugios, Dom João, Montanha e Zhongshan: ilhas habitadas por pequenas populações chinesas muito próximas da península de Macau... e a ilha Verde, muito junto a Macau e que no início do século XX foi 'anexada' com os aterros realizados.
Segundos alguns registos históricos, a presença portuguesa na ilha da Lapa data dos finais do séc. XVII quando um grupo de missionários se estabeleceu nesta ilha chinesa.
Durante o séc. XIX, missionários portugueses começaram também a povoar e a evangelizar as outras duas ilhas. O Governo de Macau começou também a recolher impostos às populações destas ilhas em troca de protecção (não eram protegidas por soldados chineses). Os portugueses construiram uma leprosaria (estabelecimento para tratar dos leprosos) e um posto de polícia na ilha de D. João e também algumas escolas para educar os poucos chineses residentes nestas ilhas.
Seguida da invasão do Japão pela China, os portugueses, em 1938, ocuparam oficialmente as ilhas da Lapa, Montanha e D. João com pretexto de proteger melhor os portugueses e os missionários aí residentes.
Em 1941, o exército japonês conseguiu ameaçar as tropas portuguesas a abandonar aquelas ilhas pouco povoadas. Consequentemente, estas ilhas foram ocupadas por japoneses. No final da Segunda Guerra Mundial, Portugal abandonou definitivamente as ilhas de forma gradual... ficando somente com Taipa e Coloane.