domingo, 19 de dezembro de 2021

"Inauguração em Hongkong do jogo china intitulado fantan"

A notícia é de Setembro de 1867 e foi publicada em Macau dando conta do início da prática do jogo de fantan em Hong Kong. O fantan já representava na época uma importante fonte de receitas para o governo de Macau pelo que estava em marcha uma actividade concorrencial. Acontece que o governo de sua majestade britânica não tolerou por muito tempo o mesmo sendo banido em 1871. Este e todos os tipos de jogos, excepto as corridas de cavalos onde também se faziam apostas.
PS: O jornal London Times publicou um extenso artigo sobre o fantan numa edição de 1888 onde se pode ler: "A recent writer in an Eastern newspaper describing Macao refers to a fantan gambling den".

sábado, 18 de dezembro de 2021

Proposta de Lucínio Cruz para a Estátua de Jorge Álvares

Lucínio Cruz (1914-1999), arquitecto autor do projecto do Liceu da Macau na Praia Grande inaugurado em Outubro de 1958, também participou no concurso público de ideias para a estátua de Jorge Álvares em Macau realizado em Portugal. Aqui fica a sua proposta que acabou por não ser a escolhida. Venceu o concurso Euclides Vaz. Em breve publicarei algumas curiosidades em torno desta estátua.

 
Muito provavelmente deve ser a primeira vez que esta imagem é tornada pública.

Lucínio Guia da Cruz deixou obra em praticamente todos os territórios do ultramar português. As obras do Liceu Nacional Infante D. Henrique foram realizadas pelos empreiteiros Yao Vo e Chui Tak Kei. Começaram em 1956, nos aterros da Praia Grande, entre as avenidas Dr. Oliveira Salazar e Infante D. Henrique. Dois anos mais tarde ficaram concluídas sendo a inauguração em Outubro de 1958.
Duas lápides colocadas na fachada do edifício (à esquerda, ao lado da enorme porta principal) atestavam isso mesmo.
1) “Aos 28 de Maio de 1956 foi lançada esta pedra angular governava a Província o almirante Joaquim Marques Esparteiro."
2) "Este edifício construído dentro da primeira fase do Plano de Fomento foi oficialmente inaugurado aos 2 dias de Outubro de 1958."

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O Museu Colonial no Arsenal da Marinha: 1878

"Ha um mez que se abriu ao publico, no edificio do Arsenal da Marinha, o museu colonial consideravelmente ampliado hoje com os productos que se destinam das nossas colonias á exposição de Paris. As salas do museu estão sempre cheias. Folgamos em extremo. A modestia elegante das ornamentações eo aceio fresco e florido do conjuncto teem de facto uma attracção sympathica communicativa moça. Na escada franjas de relva serpenteam bordando os degraus polvilhados d uma areia subtil e dourada. Nos pequenos patamares acanhados estatuas de bronze sustentam acafates de begonias de amabilis corôam se de trepadeiras parecem offerecer na immobilidade metallica camelias e violetas a quem passa. Chega-se a uma especie de antecamara de caramanchel forrado de heras entrelecidas com uma disposição encantadorainente habil. Em vasos de madeira entalhada toscamente cintados de troncos nodosos de um aspecto rustico de casal habilmente imitado crescem pequenas palmeiras de um verde anemico vago pinheiros bravos e jovens bracejam no centro d um canteirozinho artificial alecrins do Norte torcem e emplumam as suas comas vivamente verdes de um aroma acre em caixões de jardim pintados de verde. Em redor tuffos de folbas bumidas largas avelludadas frageis exhalam uma frescura juvenil alegre bem casada com a luz. (...) Ha uma montra destinada aos trabalhos em madeira e marfim de Macau."
Excerto de um artigo da publicação "Museu Illustrado". 

"O museu colonial consta do cinco vastas salas que correm paralelas á rua do Arsenal e de uma extensa galeria que dá para a banda do mar. Nessas seis divisões que constituem outras tantas secções estão methodicamente dispostos em vidraças apropriadas, e scientificamente classificadas por provincias, familias, generos e especies, os productos vegetaes, animaes e mineraes de Cabo Verde, Angola, Moçambique, India Portugueza, S. Thomé e Principe, Macau e Timor."
Excerto de um artigo da publicação "Archivo de Pharmacia". 
A 1 de Dezembro de 1869 o Ministério da Marinha e Ultramar nomeou uma comissão encarregue de organizar um museu estatal de âmbito colonial. Cinco meses depois, a 15 de Maio de 1870, abria as portas ao público o Museu Colonial de Lisboa (zona da Ribeira das Naus). Em 1892 o Governo decidiu incorporar o acervo do museu numa instituição privada, a Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL). Dessa fusão resultou o Museu Colonial e Etnográfico da SGL.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

"Laminas de vaccina": 1855

No ano de 1855 o cirurgião-mor de Macau (e também de Timor e Solor), António Luís Pereira Crespo*, pediu ao governador para solicitar a Lisboa o envio de "lâminas de vaccinas" (contra a varíola) para "prevenir o contágio das bexigas,, uma das epidemias que mais vítimas tem feito naquela cidade". 
De Lisboa seguem em Maio desse ano seis pares de lâminas, daí o "avizo de interesse público" dirigido aos "cheffes de família" referir "pequenas quantidades". 
Sabe-se hoje que de facto não resultariam já que as vacinas não eram  transportadas hermeticamente fechadas sendo sujeitas durante o período da viagem a elevadas temperaturas.
Nesse ano tinha sido criado o hospital militar - funcionava até então no antigo convento de Santo Agostinho - mas as vacinas eram administradas no Hospital da Misericórdia (mais tarde denominado S. Rafael).
Natural da Marinha Grande, casou em Macau em Janeiro de 1854 com Bárbara Joaquina da Silva. Em 1858, por motivos de doença, teve seis meses de licença para tratamentos  em Portugal.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

"Uma colónia feitoria destinada às transacções commerciaes"

"A cidade de Macau está edificada no extremo sul d'uma pequena peninsula da ilha de Hiang Chan situada junto da costa sul oriental da China na foz do grande rio de Cantão por 22º 11' de latitude norte e 122º 40' de longitude oriental pelo meridiano de Lisboa.
O territorio portuguez tem apenas 4,5 km desde o forte de S Thiago da Barra no extremo sul até á muralha que atravessando o estreito isthmo separa o territorio portuguez do chinez 1.800 m na maior largura e pouco mais de 3 km. q. de superficie. 
A oeste de Macau fica a montanhosa ilha da Lapa separada da cidade por um braço do rio de Cantão com 700 m de largura e ao sul a ilha da Taipa onde ha um forte portuguez. A leste da peninsula fica a bahia ou rada de Macau a oeste fica o porto interior que communica com o rio de Cantão
O clima de Macau é tido como muito saudavel grassando porém ás vezes febres perniciosas devidas aos extensos lodaçaes que as marés deixam a descoberto. É tambem ás vezes açoutada por fortes tufões.
A cidade de Macau é a séde do governo da provincia*. Tem uma população de 72.000 hab. Europeus descendentes ou macaistas, mouros, persas e chins. O numero de portuguezes anda por 2.000, tantos como ha em Hong Kong. Constitue uma das duas comarcas em que se divide a provincia* e uma diocese pertencente ao arcebispado de Gộa.
A sua guarnição é constituida por um batalhão do regimento d'infanteria do ultramar para lá destacado um corpo de policia e um batalhão de nacionaes.
Macau é apenas uma colonia feitoria destinada ás transacções commerciaes. Durante muito tempo foi o unico porto aberto aos estrangeiros para o commercio com a China adquirindo por isso grande importancia commercial que tem desapparecido com a abertura dos portos chinezes ao commercio europeu e sobretudo com o estabelecimento dos Inglezes na visinha ilha de Hong Kong. Assim mesmo ainda é consideravel o seu movimento. O valor das mercadorias importadas e exportadas em 1888, a maior parte apenas para reexportação, foi de 13 milhões de patacas (cada pataca corresponde aproximadamente a 850 reis), avultando o opio, o arroz, o chá, a sêda, o azeite e o anil. As transacções com a metropole foram insignificantes. 
Uma das principaes fontes de receita da colonia é o jogo de parar denominado Fantan muito frequentado pelos chinezes, e que foi arrematado agora por 145.000 patacas annuaes. 
Havia em Macau tres fabricas de desfiar casulos a vapor mas tendo sido obrigadas a transferir a sua laboração para fóra da cidade preferiram acabar com a industria. Em frisante opposição com isto a China acaba de permittir a laboração a vapor nas suas fabricas de fiação de seda.
O movimento maritimo do porto de Macau é bastante activo especialmente o dos juncos chinezes que fazem o commercio de cabotagem. Em 1887 as entradas foram de 702 vapores com 553.000 toneladas e 4.875 juncos com 410.200 toneladas. Os vapores são quasi todos das carreiras regulares entre os portos da China Macau e Hong Kong."
José Nicolau Raposo Botelho in Elementos de geografia economica: (agricola, industrial e commercial) 3º Vol., Porto, 1891
* juntamente com Timor.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

"George Chinnery , M. R. A. Landscape and Miniature Painter"

A imagem abaixo é de um directório publicado em Hong Kong no ano de 1845. Entre as 'personalidades' de relevo assinaladas na publicação destaca-se o nome de George Chinnery 錢納利 (1774-1852), "pintor de paisagens e retratos".


Segundo o padre Manuel Teixeira, "Quando chegou a Macau a 29 de Setembro de 1825, (Chinnery) viveu alguns meses na Rua do Hospital, numa casa de Christopher August Fearon, empregado da East India C.º, mas logo no ano seguinte arrendou o prédio n.º 8 da Rua de Inácio Baptista e ali viveu até à morte, ocorrida a 30 de Maio de 1852."
Num directório de 1850 - publicado em Hong Kong - na parte relativa a Macau pode ler-se: "Landscape and Miniature Painter. George Chinnery, Esq, MRA". Surge como tendo a morada na Travessa de V. Baptista.

Chinnery morreu a 30 de Maio de 1852, com 79 anos, estando sepultado no cemitério protestante (contíguo ao Jardim Camões).  Em baixo a notícia do óbito numa edição desse ano do jornal The Indian News and Chronicle of Eastern Affaires.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A "Praia Grande" de Fausto Sampaio

Este óleo sobre tela é da autoria de Fausto Sampaio e remonta à década de 1930 quando pintor português teve uma temporada no território e produziu uma vasta obra.
Nesta panorâmica da baía da Praia Grande, pintada à espátula, vemos a marginal ladeada por uma longa fileira de árvores (esquerda). Do lado direito pode ver-se o aterro que na época já estava quase concluído.
O vasto casario é representado com cores pastel suaves - amarelo, laranja, rosa, violeta, azul - enquanto o céu, acima dos recortes das colinas, apresenta-se em tons cinza. Nas águas da baía estão várias embarcações típicas do sul da China, nomeadamente tancares, sampanas e juncos, que transportavam os materiais para o aterro.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Memórias de Fernando Lúcio

"Fernando Lúcio foi em 1970 para Macau cumprir o serviço militar. Percebeu que naquele território no outro lado do mundo faltavam os sabores verdadeiramente portugueses e, com 22 anos, abriu o seu primeiro restaurante. Quando terminou a comissão na Marinha ainda pensou emigrar para a Austrália, mas mudou de ideias ao encontrar o edifício abandonado do que viria a Pousada de Coloane, que transformou num dos melhores hotéis de Macau. Naquele território abriu vários restaurantes e foi responsável pela promoção da portugalidade. E também conduziu e colaborou na organização do mundialmente conhecido Grande Prémio de Macau.Regressou a Portugal em 2008 e hoje, com 70 anos, mantém-se em actividade com o Caldas Internacional Hotel, mas não esquece Macau, onde regressa todos os anos.
(...)
Aos 20 anos, como era comum na altura, foi cumprir o serviço militar obrigatório e em 1970 partiu em comissão para Macau. “Muitos dos meus camaradas foram para as ex-colónias africanas, mas uma pequeníssima percentagem dos recrutas ia para Macau e eu tive essa sorte”, considera.
A viagem, feita de barco, demorou 64 dias. “Ainda éramos umas centenas de militares, uns iam para Timor, outros para Macau”, recorda. A viagem “não foi nenhum cruzeiro”. A soldadesca viajava no porão e dois meses seguidos no mar não são propriamente umas férias. Mas o espírito de camaradagem que se vivia a bordo fez com que também não tenha sido um grande sacrifício, recorda.
À chegada a Macau, o jovem Fernando, então com 22 anos, deparou-se com uma realidade bem diferente da que deixou em Lisboa. O clima era muito quente, o que aliado à poluição e aos cheiros das ruas, com as típicas barracas de comida, fez com que a adaptação não tivesse sido fácil.
Macau nessa altura era pouco mais do que uma aldeia. O prédio mais alto que tinha era o Hotel Lisboa, com sete ou oito andares, recorda. Não havia muito onde as pessoas se pudessem distrair, sobretudo os portugueses. “Havia dois ou três cinemas em chinês e em inglês. Não havia restaurantes nem cafés. Éramos uma comunidade um bocado fechada”, afirma Fernando Lúcio. Além disso, enquanto militares, não havia uma ligação com a comunidade chinesa local. “O militar era sempre olhado de lado, eles não eram hostis connosco, mas também não eram simpáticos”, conta.
Foi nessa carência de espaços onde a comunidade portuguesa se pudesse juntar e sentir os sabores de Portugal, que viu uma oportunidade para se estabelecer. Ainda com 22 anos começou a explorar por sua conta o restaurante do Clube da Marinha.
“Orgulho-me de ter sido proprietário do primeiro restaurante português de Macau. Havia algumas casas mistas, com comida de Macau e portuguesa, mas restaurante tipicamente português não”, afirma. Foi ali que se serviu a primeira bica, por exemplo, e outras coisas simples que antes não existiam, como queijos, vinhos e enchidos nacionais.
Mas essa não era a sua única ocupação além da tropa. Pegava no aquartelamento às 7h00 da manhã. Era o cabo do rancho, ou seja, um dos responsáveis pela cozinha. Servia os pequenos almoços e saía pelas 10h00 para ir servir os almoços no restaurante do Clube da Marinha. Às 14h00 regressava ao quartel para preparar os jantares e, com o serviço orientado, voltava a sair às 17h00 para entrar ao serviço no Hotel Lisboa, onde era chef, até às 2h00.
“Foram assim os meus dois anos de comissão”, afirma. Quando terminou o serviço militar, continuou a explorar o restaurante do Clube da Marinha, que manteve por cerca de quatro anos, e a trabalhar no Hotel Lisboa, onde ficou até 1977.
Uma nova mudança foi-lhe proporcionada pela oportunidade de voltar a abrir um negócio próprio, numa pequena unidade hoteleira na ilha de Coloane, a menos urbanizada e mais natural das três que compõem a região de Macau. Adquiriu e reabilitou o imóvel para abrir a célebre Pousada de Coloane, que ainda hoje existe como hotel de charme.
Essa foi a derradeira razão para permanecer em Macau, até porque na altura tinha intenções de emigrar para a Austrália e até chegou a tratar da documentação.
A Pousada de Coloane tinha cerca de 30 quartos e estava situada naquele que Fernando Lúcio considera “o melhor sítio de Macau”.
A fórmula que aplicou para o sucesso da sua pousada foi a mesma que o tinha levado a abrir o seu primeiro restaurante: os sabores da portugalidade, que agora explorou ainda mais a fundo. Levou de Portugal contentores de materiais, como o clássico azulejo português azul e branco para decorar e renovar todos os espaços.
Para potenciar o negócio, começou a organizar muitos eventos de cariz português. “Durante mais de 20 anos fiz um festival chamado Abril em Portugal”, conta.
Nesse festival, fazia viajar de Portugal para Macau alguns dos melhores artistas da época, do fado e da música ligeira, como Vicente da Câmara, Octávio de Matos, Carolina Tavares, Nuno da Câmara Pereira, ou Herman José. O festival mostrava tradições nacionais, como o folclore, e também o melhor da gastronomia. “Importava uma série de produtos e vinham os chefes famosos da época, como o chef Silva, que iam lá ensinar a boa culinária portuguesa”, acrescenta. (...)
Acabou por abrir vários espaços ligados à restauração, entre eles “o melhor e maior restaurante de Macau da altura” – o Lusitano, que abriu em 1998, um ano antes da transição administrativa de Macau para a China, que ocorreu a 20 de Dezembro de 1999. (...)
Ainda numa fase inicial da sua estadia, participou em oito edições do mítico Grande Prémio de Macau, na chamada Corrida da Guia, que é dedicada aos automóveis de produção (carros “normais” que são adaptados para competir). E foi mesmo o primeiro português a fazê-lo. “Foi a minha única extravagância ao longo da vida”, comenta.
Participar naquele Grande Prémio, ainda hoje considerado um dos mais perigosos do calendário da Federação Internacional de Automobilismo, não era para qualquer um e por isso era algo que levava muito a sério. O seu bólide era um Toyota Celica que tinha um kit de competição que mandou vir directamente do Japão."
Excerto de um artigo do jornal Gazeta das Caldas, 24 Maio 2019

sábado, 11 de dezembro de 2021

"Theatro Concordia"

Antes da construção do teatro D. Pedro V o público de Macau teve raras oportunidades para assistir a peças de teatro ou espectáculos do género. Fosse por via de pequenas companhias que estavam de passagem pelo território fosse pela parolice dos amantes da arte. 
Em meados de 1836 há registo de durante alguns meses ter existido o chamado "Theatro Concórdia" criado por um grupo de amadores que levaram à cena algumas peças nas suas instalações. Exemplos: a comédia "Roberto chefe de salteadores" e uma ária da ópera Generentola.
Anos mais tarde seria construído o Teatro D. Pedro V.
A 29 de Setembro de 1867, o Boletim do Governo de Macau e Timor noticiava uma representação dada por sargentos do batalhão de linha de Macau a favor de um "projetado asilo de órfãs e desvalidas".
"Hontem teve lugar no nosso theatro a representação dada pelos officiais inferiores do Batalhão de Linha de Macao. (...) Os actores, sob os auspicios do inteligente alferes Carvalho, o qual fora guiado pelos conselhos do benemérito commandante do batalhão, desempenharam-se com muita habilidade dos papeis de que se encarregaram. O expectaculo compoz-se das comedias: Amasonas piemontesas, A costureira, O marido victima das modas, O capelão do regimento, e Cada um no seu lugar. Nos intervalos houve a scena cómica O meu amigo banana, e umas variações sobre a Somnambula, obrigadas a cornetim. A soirée teatral acabou assim bastante tarde, mas o publico conservou-se até ao fim da noite animado e satisfeito com o desempenho do expectaculo."

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

"Avizos" para compra e venda de cafres

Segundo os dicionários "cafre" é um "indivíduo pertencente a um conjunto de populações bantas, não muçulmanas, da África Meridional". Ou seja, de forma simples, um escravo.
Nas imagens estão dois anúncios publicados em Macau no jornal "O Macaista Imparcial" no ano de 1836 sobre compra e venda de um cafre e de uma cafra. A maioria das vezes estes 'cafres' eram utilizados como empregados domésticos.
Excerto de um artigo publicado no jornal O Panorama a 3.6.1837:
"Macáu, portugueza no nome, é quasi inteiramente habitada pelos subditos do imperador da China. Destes, vinte e cinco mil moram na cidade e cinco mil nos campos ou locas; e como a população total se julga ser de trinta e quatro mil almas, segue-se que andará por quatro mil o numero dos Portuguezes, se é que este nome se pode dar a uma raça mixta, composta de sangue europeu, indio, chim, e até cafre, reputada na China inferior aos Chins, e na India aos Indios, ainda tão soberba como nos dias prosperos, pois crê aviltar-se exercendo certos misteres que exigem trabalho manual, ao mesmo tempo que não se peja de estender a mão para receber esmolas." 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Tabuleiro em madeira de tamarindeiro e aplicações em prata

Na imagem um tabuleiro de origem chinesa feito em madeira de tamarindeiro com pegas e aplicações em prata chinesa. Datado do século 19 tem a particularidade de ter na decoração juncos e pagodes e uma placa com a inscrição "Macau".

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

"Medicamentos Novos": 1866

Anúncio várias vezes publicado no "Boletim do Governo de Macau" ao longo do ano de 1866 sob o título "Medicamentos Novos".

Os seguintes medicamentos encontram-se em Macau, na pharmacia de Leopoldino de Figueredo, e em Hong-kong, na pharmacia franceza." 
Um deles era o Xarope de Hipophosphito de Cal (hipofosfito de cal), "recommendado para doenças de peito" curando "tosse", "suores nocturnos" e os "catarros ordinários".
Já as "Grageas de Cubebina" - substância extraída da semente seca da pimenta asiática - eram aconselhadas para os casos de "hemorragias ureticas ou gonorrehas" sendo "muito faceis de tomar".
Para a anemia anunciava-se o "precioso medicamento" denominado "Hypo-Phosphato de Ferro".

Leopoldino Augusto da Cunha Figueiredo era na época o "pharmacêutico civil" da repartição de Saúde Pública. 

Existiam na época outras "pharmacias".

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Bazar: "o quarteirão mais brilhante e animado da cidade chinesa"

O quarteirão mais brilhante e animado da cidade chinesa é o bazar. Trata-se de ruas estreitas cheias de lojas por onde circula uma multidão atarefada. Aqui, um carregador com uma vara ao ombro e, em cada uma das suas extremidades, uma carga suspensa; ali, uma jovem barqueira que passa rapidamente, a cabeça envolta num lenço de seda, mostrando uma longa veste e calças de algodão azul que deixam ver os seus belos pés nus que a moda não ousou mutilar. Mais além, uma velha senhora de pés aristocráticos, o que quer dizer semelhantes aos do casco de um cavalo calçado com um sapato. Ela marcha mancando e segurando um guarda-sol meio aberto que protege a sua cabeça cheia de cabelos grisalhos. Ou, então, encontra-se um jovem janota no seu robe azul, relógio à cintura, cabelos negros enfiados numa pequena touca, sapatos de seda de sola branca, ar ocioso e satisfeito, nariz empinado e leque na mão. Ou um sério burguês de barba grisalha com um rosto de tranquila beatitude, comodamente sentado numa cadeira que dois carregadores transportam o mais depressa que podem, gritando para arranjarem espaço e empurrando todos aqueles que não se afastam prontamente à sua passagem. 
Podem ser ainda dois operários semi-nus que, tomados de razões, brigam um com o outro, mas só depois de amarrarem as suas tranças à volta da cabeça para não darem qualquer vantagem ao adversário. Ou até mesmo incriminados que um guarda da polícia vai levar ao mandarim segurando-os pelo rabo-de-cavalo: não há qualquer receio que venham a fugir porque um chinês assim manietado pela trança sempre obedece à mão que o agarra.
A primeira vez que vi a grande rua do bazar acreditei que estava a ver uma decoração de ópera. Nunca tinha encontrado em nenhum outro lado esta estranheza de cores unida a estas bizarras formas. À direita e à esquerda, fileiras de colunas de madeira pintadas a vermelho sustentando toldos esculpidos. Depois, à frente de cada loja destaca-se um pilar carregado de alto a baixo, como um bastão de tinta da China, de inscrições em grandes caracteres. Aqui e ali, grossas lanternas cobertas de figuras grotescas e, dos dois lados da rua, as lojas que se abrem sem janelas e sem vidros a toda a sua largura, deixando ver a exposição de mercadorias e os detalhes do seu mobiliário. Existe normalmente um balcão atrás do qual o comerciante, com os seus pesados óculos sobre o nariz, passeia reflectidamente o pincel nos seus registos ou procura, com grandes gestos e modulando o melhor possível a sua voz monótona, fascinar a fantasia do seu cliente. Ao fundo, descobre-se um altar com a sua estátua pintada e dourada com pequenas velas que ardem, enquanto à entrada da porta se encontram alguns amigos sentados em cadeiras de bambu, falando sobre os negócios e os acontecimentos do dia, fumando através do longo tubo dos seus cachimbos.
As mercadorias estão dispostas na mais perfeita ordem e até com a aparência elegante das nossas lojas parisienses. No entanto, os objectos de arte e os mais dispendiosos vendem-se sobretudo na rua em que estamos alojados. O que melhor caracteriza o bazar é que se pode encontrar tudo, mas tudo o que é feito exclusivamente para a China sem qualquer influências europeias, desde a loja de estofos às lojas de comestíveis. O que permite surpreender os segredos dos hábitos quotidianos e íntimos da vida chinesa, conquanto a um nível pouco elevado já que os habitantes chineses de Macau geralmente possuem fortunas medíocres e a qualidade das mercadorias é, como em todo o lado, proporcional à riqueza dos consumidores.
Existem mesmo em algumas ruas lojas de ocasião que vendem um pouco de tudo como nas tendas a quatro soldos nas feiras das nossas aldeias: cachimbos, bastões, caixas de rapé, ábacos, pauzinhos para comer, guarda-chuvas, bússolas, leques, cintos, espelhos, pinturas grosseiras e milhares de objetos diversos. Encontram-se também comerciantes de velharias em cujas lojas se podem descobrir velhas divindades em madeira policromada, cobertas de pó e comidas pelos vermes, sentadas em tronos ou a cavalo em pássaros. Encontrei um dia numa destas lojas, bastante sombria e suja, um velho chinês que, dono da loja, tinha sentado no seus joelhos uma pequena criança. O único raio de luz que atravessava esta poeira e obscuridade iluminava directamente o rosto do velho que, como uma estátua de porcelana, abanava a cabeça, punha a sua língua de fora e revirava os olhos para entreter o petiz que ria.
Nas esquinas e nos cruzamentos depara-se com barbeiros, cozinheiros e vendedores de legumes que vendem as mercadorias no meio das ruas. O barbeiro rapa a cabeça do seu cliente com uma grande navalha triangular. O cozinheiro vende caldo, arroz e bolos sob o seu guarda-sol de papel oleoso. O vendedor de legumes, para além das couves, dos inhames, das abóboras e dos melões, tem também raízes de nenúfar, castanhas de água, raízes de bambu e brotos de feijão verde. Os frutos do mar vendem-se num barracão. Aí se encontram polvos, rãs, tartarugas, mexilhões, vermes do rio, peixes de todas as formas e cores, alguns com grandes barbas como os lagostins, outros com bicos achatados como os patos. Não é raro encontrar, transportados em caixas à vista, cães e gatos destinados a satisfazer a gastronomia dos pequenos comerciantes do bazar, enquanto ratos secos se encontram ao lado de pedaços de búfalo e de porco nas bancas dos carniceiros.
Theophile de Ferrière Le Vayer, Une Ambassade française en Chine. Jornal de Voyage. Paris: Librairie D Amyot, 1854 (o relato foi feito in loco em 1844)
Pintura - óleo sobre tela - vista da Praia Grande
primeira metade séc. 19 - autor anónimo


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

O Atlas 'secreto' da VOC

Impressa em Amesterdão em 1753 esta carta intitula-se em holandês "Nieuwe Pas=Caart Strekkende van Pta Cataon tot Pta Lamtaon langs de kusten von Cochinchina, Tonquin, Quangsi en Quantung bewattende insgelyks het eiland Aynam en die van Macao met dieptens, havens en ankergronden".
É o equivalente a "Nova Carta de Navegação de Cantão a Lantao ao longo das costas da Conchichina, Tonquin, Quangsi e Quantung, cobrindo as ilhas de Aynam (Hainão) e Macau com informações de profundidades, portos e ancoradouros".
A carta foi feita e usada pela VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais) para navegação e comércio e surge no volume VI (1753) do Zee-Fakkel de Johannes II van Keulen, o chamado "atlas secreto" da VOC.
Durante dois séculos, de 1602 a 1799, a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC: Vereenigde Geoctroieerde Oostindische Compagnie) dominou grande parte das rotas marítimas da Ásia e África. O mapeamento preciso dessas águas era essencial para uma navegação segura e bem-sucedida e a VOC tinha para o efeito o seu próprio departamento de cartografia. Durante os primeiros 150 anos estas cartas eram usadas apenas pelas embarcações da companhia de forma a minimizar o risco de espalhar o conhecimento à concorrência.
Detalhe da localização de Macau que na carta surge representado no canto superior direito.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Casa para venda na Rua dos Culles: 1866

Para Venda
A casa nº 17 na Rua dos Culles, bem conhecida pelo seu tamanho e valor. O abaixo assignado receberá os offerecimentos, dos que a quizerem comprar, até o dia 15 de setembro.
Macau, 13 de agosto de 1866
Manoel Pereira
in Boletim do Governo de Macau, Agosto 1866

sábado, 4 de dezembro de 2021

A Woman's Journey Round the World

Os viajantes do tipo turista como hoje conhecemos, no século 19, eram ainda uma ínfima minoria e eram, na esmagadora, maioria homens. Mas a história que seleccionei para o post de hoje é sobre uma mulher. Uma mulher que, já com mais de 40 anos, deu duas voltas ao mundo! A primeira entre 1846 e 1848 - passando por Macau - e a segunda entre 1851 e 1854. 
Viajava com pouco dinheiro. Muitas das vezes dividia pratos com os habitantes locais ou fazia refeições quando lhe ofereciam.; e para dormir, alojava-se em casas oferecidas pelos habitantes locais e chegou a dormir ao relento. À medida que foi sendo conhecida, as companhias de navegação e caminhos de ferro passaram a deixá-la viajar de graça.
Nascida na Áustria, Ida Laura Pfeiffer (1797-1858) foi até aos 45 anos uma dona de casa com um imenso desejo de viajar e conhecer o mundo. Um caso raro na primeira metade do século 19, mesmo na Europa.
Com os filhos já criados, vendeu a casa e o piano, e com esse dinheiro começou a viajar vindo a tornar-se uma exploradora e escritora de livros de viagens. A primeira que fez foi até à terra santa e no regresso passou para um livro as anotações do seu diário, o que lhe rendeu alguma notoriedade e dinheiro para prosseguir o sonho. 
Foi a primeira mulher a ser aceite como membro honorário nas conceituadas sociedades  de Geografia de Berlim e Paris e foi ainda laureada pelo rei da Prússia com uma medalha de ouro pela sua contribuição às artes e às ciências, tornando-se ainda membro das Sociedades de Zoologia de Berlim e de Amesterdão.
O registo da primeira viagem, Eine Frauenfahrt um die Welt (Viagem de uma mulher ao redor do mundo), foi publicado em Viena em 1850 em três volumes e depressa tornou-se um sucesso sendo traduzido em várias línguas. A tradução inglesa, A Woman's Journey round the World, foi publicada em Londres no mesmo ano.
"My Second Trip Around the World " foi o título do livro sobre a segunda volta ao mundo publicado em 1856.
No prefácio do primeiro livro pode ler-se:
I have been called, in many of the public journals, a “professed tourist;” but I am sorry to say that I have no title to the appellation in its usual sense. On the one hand I possess too little wit and humour to render my writings amusing; and, on the other, too little knowledge to judge rightly of what I have gone through. The only gift to which I can lay claim is that of narrating in a simple manner the different scenes in which I have played a part, and the different objects I have beheld; if I ever pronounce an opinion, I do so merely on my own personal experience.
Many will perhaps believe that I undertook so long a journey from vanity. I can only say in answer to this -whoever thinks so should make such a trip himself, in order to gain the conviction, that nothing but a natural wish for travel, a boundless desire of acquiring knowledge, could ever enable a person to overcome the hardships, privations, and dangers to which I have been exposed.
In exactly the same manner as the artist feels an invincible desire to paint, and the poet to give free course to his thoughts, so was I hurried away with an unconquerable wish to see the world. In my youth I dreamed of travelling - in my old age I find amusement in reflecting on what I have beheld.
The public received very favourably my plain unvarnished account of “A Voyage to the Holy Land, and to Iceland and Scandinavia.” Emboldened by their kindness, I once more step forward with the journal of my last and most considerable voyage, and I shall feel content if the narration of my adventures procures for my readers only a portion of the immense fund of pleasure derived from the voyage by
The Authoress. Vienna, March 16, 1850.
A autora chega a Macau em Julho de 1847. Tinha 50 anos. Seguem-se alguns excertos das suas impressões sobre o território onde destacou a visita à Gruta de Camões, os hábitos da população chinesa (do jogo ao comer com pauzinhos e a paisagem urbana marcada por igrejas e fortificações.
On the 8th of July we again reached the vicinity of Macao, and entered the Straits of Lema. Our course now lay between bays and reefs, diversified by groups of the most beautiful islands, offering a series of most magnificent and varied views.
On the 9th of July we anchored in Macao Roads. The town, which belongs to the Portuguese, and has a population of 20,000 inhabitants, is beautifully situated on the sea-side, and surrounded by pleasing hills and mountains. The most remarkable objects are the palace of the Portuguese governor, the Catholic monastery of Guia, the fortifications, and a few fine houses which lie scattered about the hills in picturesque disorder.
Besides a few European ships, there were anchored in the roads several large Chinese junks, while a great number of small boats, manned by Chinese, were rocking to and fro around us.
A year before my arrival in China, it would have seemed hardly credible to me that I should ever succeed in taking my place among the small number of Europeans who are acquainted with that remarkable country, not from books alone, but from actual observation; I never believed that I should really behold the Chinese, with their shaven heads, long tails, and small, ugly, narrow eyes, the exact counterparts of the representations of them which we have in Europe.
We had hardly anchored, before a number of Chinese clambered up on deck, while others remained in their boats, offering for sale a variety of beautifully made articles, with fruit and cakes, laid out in great order, so as to form in a few seconds a regular market round the vessel. Some of them began praising their wares in broken English; but on the whole, they did not drive a very flourishing business, as the crew merely bought a few cigars, and a little fruit.
Captain Jurianse hired a boat, and we immediately went on shore, where each person on landing had to pay half a Spanish dollar (2s.) to the mandarin: I subsequently heard that this imposition was shortly afterwards abolished. 
We proceeded to the house of one of the Portuguese merchants established there, passing through a large portion of the town on our way thither. Europeans, both men and women, can circulate freely, without being exposed to a shower of stones, as is frequently the case in other Chinese towns. The streets, which are exclusively inhabited by Chinese, presented a very bustling aspect. The men were in many cases seated out of doors in groups, playing at dominoes, while locksmiths, carpenters, shoemakers, and many others were either working, talking, playing, or dining in the numerous booths. I observed but few women, and these were of the lower classes. 
Nothing surprised and amused me more than the manner in which the Chinese eat; they have two little sticks, with which they very skilfully convey their victuals into their mouths. This process, however, cannot be so successfully practised with rice, because it does not hold together; they therefore hold the plate containing it close to their mouths, and push it in by the aid of the sticks, generally letting a portion of it fall back again, in no very cleanly fashion, into the plate. For liquids they use round spoons of porcelain.
The style in which the houses are built, did not strike me as very remarkable; the front generally looks out upon the courtyard or garden.
Among other objects which I visited was the grotto, in which the celebrated Portuguese poet, Camoens, is said to have composed the Lusiade. He had been banished, A.D. 1556, to Macao, on account of a satirical poem he had written, Disperates no India, and remained in banishment several years before receiving a pardon. The grotto is charmingly situated upon an eminence not far from the town.
As there was no business to be done, the captain resolved to put to sea again the next morning, and offered in the most friendly manner to take me as his guest to Hong-Kong, as I had only agreed for a passage as far as Macao. I accepted his invitation with the greater pleasure, as I had not a single letter to any one in Macao; besides which, it is very seldom that there is an opportunity of proceeding to Hong-Kong.
On account of the shallowness of the water, our ship was hove to at rather a long distance from the shore, where it was exposed to an attack from the pirates, who are here very daring and numerous. In consequence of this, every precaution was taken, and the watch doubled for the night.
As late as the year 1842 these pirates attacked a brig that was lying at anchor in the Macao Roads, murdering the crew and plundering the vessel. The captain had remained on shore, and the sailors had carelessly given themselves up to sleep, leaving only one man to keep watch. In the middle of the night a schampan - which is the name given to a vessel smaller than a junk - came alongside the brig. One of the rowers then came on board, pretending he had a letter from the captain; and as the sailor went near the lantern to read the letter, he received from the pirate a blow upon his head which laid him senseless on the deck; the rest of those in the boat, who had hitherto remained concealed, now scaled the side of the brig, and quickly overpowered the slumbering crew.
In our case, however, the night passed without any incident worth noting; and on the morning of the 10th of July, having first taken on board a pilot, we proceeded to Hong-Kong, a distance of sixty nautical miles. The voyage proved highly interesting, on account of the varied succession of bays, creeks, and groups of islands which we had to pass.
The English obtained Hong-Kong from the Chinese at the conclusion of the war in 1842, and founded the port of Victoria, which contains at present a large number of palace-like houses built of stone.
The Europeans who have settled here, and who are not more than two or three hundred in number, are far from being contented, however, as trade is not half as good as they at first expected it would be. Every merchant is presented by the English government with a plot of ground, on condition of his building on it. Many of them erected, as I before mentioned, splendid edifices, which they would now be glad to sell for half the cost price, or even very frequently to give the ground and foundations, without asking the smallest sum in return.
I resolved to stop only a few days in Victoria, as it was my wish to arrive at Canton as soon as possible. (...)

A tradução do alemão tem algumas variantes consoante o país onde era impresso o livro. Veja-se o caso desta edição para os EUA em 1852, "A Lady's Voyage Round the World: A Selected Translation from the German of Ida Pfeiffer":
A year ago I should have little thought there was any chance of my becoming acquainted with this remarkable country not merely from books but in my proper person that the shaven heads and long tails and cunning little eyes as we see them in pictures and on tea chests would have presented themselves in living forms before me.
But scarcely was our anchor dropped before several Chinese already stood upon our deck while numbers of others appeared in boats surrounding us and displaying in pretty order fruits pastry and various kinds of beautiful works so that the space round the ship looked like a fair.
Some among them lauded in broken English the treasures they had brought but after all they got but little for their trouble for our crew bought only fruit and cigars.
Captain Jurianse now hired a boat and we rowed ashore but on landing the first thing we had to do was to pay half a Spanish dollar each to a mandarin. I heard that this abuse was shortly after abolished.
We had to go to one of the Portuguese houses of business and in doing so passed through a great part of the town for Europeans women as well as men can now go about freely here without as in other Chinese towns being exposed to the danger of being stoned.
In those streets which are exclusively inhabited by Chinese things looked very lively and bustling. The men were sitting in groups playing dominoes in the streets and in the shops of the locksmiths tailors shoemakers & c there was working gossiping gambling and dancing going on at once. I was greatly amused at the Chinese mode of eating with two little sticks which they manage with great adroitness it is only in eating rice that they seem to labor under difficulties as it will not hold together.
The plan is therefore to bring the vessel containing it as near as possible to the mouth which is held in readiness wide open and then dexterously shove a heap into the expectant aperture In performing this operation it happens of course often that a portion falls back again into the dish but that is of no consequence with fluid food they make use of China spoons.
My stay at Macao proved to be an exceedingly short one for as our captain found there was no chance of doing any business there he resolved to go to sea the next day but he kindly offered to take me with him as a guest. His invitation was so much the more welcome to me as I had not a single letter of introduction to Macao and the opportunities of going to Hong Kong are not at all frequent.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Um Sonho Oriental

"Macau, um sonho oriental" é o titulo de um projecto musical, com texto de José Jorge Letria e música de Carlos Alberto Moniz, editado pelo IPOR – Instituto Português do Oriente em 1993.
Em 2014 voltaria a ser divulgados integrando o volume 17 da revista Povos e Culturas, do CEPCEP – Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa.
A história é protagonizada por um marinheiro português chamado Aires Vicente que parte de Lisboa rumo ao Oriente. “Velejámos, navegámos / passámos rios a vau / e vogando nos mares da China / lançámos ferro em Macau”. No fim, retorna ao país de origem, já que “não podem durar para sempre / as viagens de aventura / que o sonho navegante / só é sonho enquanto dura”.
Temas: “Não vás para o mar, homem”, “Rumando a Oriente”, “Aires Vicente, um marinheiro português”, “Os bens de Macau”, “Na Gruta de Camões”, “Luís Vaz de Camões”, “Frei Tomé de Jesus”, “O homem da ‘Peregrinação’”, “Com o Hai-Tu de Cantão (e Leonel de Sousa)”, “Um Leal Senado”, “Um homem vindo de longe (Sun Yat Sen)”, “Pessanha e Patrício”, “Bocage: o amargo riso”, “Venceslau de Morais” e “Regresso de Aires Vicente”.
Dos textos fazem ainda parte poemas de Miguel Torga, Li Bai, Qu Yuan e Camilo Pessanha, Sophia de Mello Breyner, Roberto Carneiro, Han Yu, Antero de Quental, uma antiga cantiga em patuá (autor anónimo) e um extracto da “Peregrinação”.
Deram voz artistas como Helena Vieira, Fernando Serafim, Lia Altavilla, Pedro Chaves, António Wagner Diniz, Alberto Lobo da Silva, Alberto Silveira, Paulo Bragança e Maria do Céu Guerra (narração), entre dezenas de outros músicos.





Sob o mesmo título - nome de um soneto de Antero de Quental - foi editado pelo IPOR um conjunto de 13 postais ilustrados da autoria do macaense Victor Marreiros.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

"Calendário luso-chinez"

Numa edição do Boletim da Província de Macau e Timor em 1873 um anúncio informa do "grande abatimento de preço" do "Calendário Luso-Chinez para o anno de de 1873". A tipografia embora não referida, era a Mercantil, a mesma que imprimia o referido boletim.

Na imagem abaixo uma edição de 1895 do "Calendario luso-chinez: de 25 annos* acompanhado dúm appenso das principaes festividades civis e religiosas da China", da autoria de Eduardo Marques, impresso na Typographia Mercantil.

* até ao ano de 1920.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Sketch of the Typa and Macao: curiosidades

A primeira versão desta 'carta náutica' foi publicada no volume 3 da obra "A Voyage to the Pacific Ocean: Undertaken, by the Command of His Magesty (...)" cujo primeiro volume foi impresso em Dublin em 1784.
Excerto de um livro impresso em 1884 (2ª edição) pelo almirantado britânico "The China sea directory. Vol. 3." com indicações precisas sobre como chegar a Macau e lançar âncora junto à Taipa.
Typa Anchorage
The eastern entrance to this anchorage is between two high islands that on the south side named Ko ho or Apomi and that on the north side named Typa or Kuikong Ko lo is separated from the north east point of Montanha by a parrow gut with 19 feet water in it decreasing to 9 or 10 feet farther in towards the Typa The anchorage is between the west end of Typa island and the east end of Macarira island and affords secure shelter in 3 1/2 to 4 fathoms HM Ships Herald and Modeste refitted here during the operations in China in 1841.
Tides
In this anchorage and in Macao harbour it is high water full and change at 10h Om The springs rise 10 feet in the Typa they run 1 1/2 and 2 knots per hour when not influenced by the winds The ebb runs out of the Typa entrance but it sets across it when outside the points.
Directions
Vessels entering or leaving the Typa should weigh at half food In entering steer for the north extreme of Ko ho and pass it pretty close the deepest water being on this side the entrance Thence continue in mid channel for Juan point and when Village and East points of Typa island are in one haul to the northward and anchor near the west point of Typa with south point of Tylock open of south extreme of Typa Here the depth is 3 1/4 to 4 fathoms at low tide and vessels are sheltered from all winds by the high lands around the deepest water is near the west point of Typa on which is a fort the bay abreast at the east end of Macarira being shoal The watering cove is at the head of this latter bay and from the north point a reef of rocks with the sunken rock Pedra Mea projects nearly a quarter of a mile eastward In the fair channel leading to the anchorage the depths are only 8 to 10 feet at low tide but no injury can be received by grounding the bottom being remarkably soft.
A pouca profundidade das águas do estuário das águas que cercavam Macau criavam muitas dificuldades à navegação marítima sendo imprescindíveis múltiplas informações para que as embarcações de maior envergadura não ficassem encalhadas. 
Desde as profundidades, localização de baixios e rochedos, bem como das horas e alturas das marés tudo era importante e passou a fazer parte das publicações náuticas de forma sistemática desde o início do século 19. Para além da referida acima fica outro exemplo:
"India Directory, Or Directions for Sailing to and from the East Indies, China (...)" também de origem britânica e cuja segunda edição é de 1817.
Foi Alexander Hogg (1778-1819) quem desenhou esta 'carta'. Fez parte da terceira viagem de Cook a bordo do "Resolution" onde teve o cargo de comissário. 
Mas quem procedeu ao levantamento dos dados foi William Blight que tinha o cargo de Mestre no Resolution.
Na 'carta' mostra-se não só uma pequena planta da cidade bem como os arredores de Macau. Depois do capitão Cook morrer no Havai em Fevereiro de 1779 a tripulação prosseguiu a viagem tentando encontrar uma passagem pelo estreito de Bering. O intenso gelo do Ártico obrigou-os a fazer o regresso pelo oeste o que os levaria a Macau no final de 1779.
Sketch of the Typa and Macao foi o nome pelo qual ficaram conhecidos os mapas de Macau e da Taipa feitos na sequência da terceira várias viagens do capitão Cook. Escrevi "vários" porque foram feitas de facto inúmeras versões. Aqui ficam alguns exemplos.
A preto e branco, a cores, e em várias línguas...
Uma das curiosidades desta 'carta' é o facto de estarem assinaladas algumas fortalezas - Monte e Guia - embora sem legenda, bem como as muralhas da cidade. Destaque ainda para algumas indicações sobre os pontos mais elevados em termos de relevo: colinas da Guia, S. Paulo, Penha, Mong-Ha, etc...