terça-feira, 6 de março de 2018

Sapecas

No dicionário Priberam Sapeca surge definida como "antiga moeda pequena chinesa, de cobre, com um orifício no centro." No Infopédia "moeda de cobre chinesa furada ao centro".
A origem do termo é do malaio sa, «um» +paku, «enfiada de cem moedas».
Zhi Dao yuan bao; sapeca da dinastia Song 995-997 d.c.
As sapecas chinesas existiram ao longo de várias dinastias. Entre as mais conhecidas estão as do denominado tipo Kai Yuan Tong Bao, fundidas no período da Dinastia Tang (618-907), a época de ouro da literatura e arte chinesa.
A primeira emissão de sapecas foi feita por ordem do Imperador Gao Zu, sendo também a primeira moeda chinesa a ser objecto de regulamentação: liga de 83% de cobre, 15% chumbo e 2% estanho, peso de 2,4 zhu e peso de 8 fen.
As sapecas Kai Yuan têm quatro caracteres em cruz, dos quais faz parte a menção Kai Yuan, que significa "abertura duma nova era".
Sugestão de leitura:  “Typologie et chronologie des kai yuan tong bao des Tang", de François Thierry, escrito em em 1991.
(...) "câmbio corrente de Sapecas até Sábbado 17 do corrente mez será de 1400 sapecas boas, conforme as partes que os cambiadores deram na Procuratura (...)" 
in Boletim do Governo (de Macau), Maio 1851

segunda-feira, 5 de março de 2018

Museu de Macau: um segredo na Junqueira

Entre o Museu da Carris e o Centro de Congressos de Lisboa há um museu por descobrir. 
Apesar de estar mais ou menos bem identificado na fachada, quando o visitámos mais ninguém explorava a exposição que resulta de um acervo de mais de quatro mil objectos.
Na antiga Vila de Santo António, uma estrutura que se encontrava devoluta, nasceu em 1995 o Centro Científico e Cultural de Macau, um centro de investigação e formação dedicado à história das relações luso-chinesas até aos dias de hoje. 
E desde a sua fundação que foi constituído o acervo deste museu que teve como principal ponto de partida a aquisição da colecção do macaense António Sapage, uma das maiores do mundo no campeonato das terracotas e porcelanas chinesas.
Passando o arco que dá acesso a um pequeno jardim de toques orientais, as boas-vindas do Museu de Macau estão a cargo da bandeira e bandeja usadas na cerimónia de transferência de Macau para a China em 1999. E depois está convidado a fazer uma viagem a Macau em particular e à China em geral por apenas 1,5€.
Entre cerâmica, pintura, mobiliário, têxteis, documentos gráficos, numismática e ourivesaria, hoje a colecção do museu distribui-se por dois núcleos: A Condição Histórico-Cultural de Macau nos séculos XVI e XVII (que inclui secções como Portugal e China: Os Inícios do Encontro; A Cidade Portuária; Formas de Espiritualidade Chinesa; e A Ordem das Transferências e Cristianismo e Cultura), e A Colecção de Arte Chinesa, decorada a terracotas, bronzes, grés, porcelanas, objectos para fumo de ópio (que inclui um estojo de viagem do século XIX para, presumimos, clientes frequentes), pintura China Trade, lacas, leques, pratas, marfins, têxteis e numismática. (...)
in TimeOut (texto)13.2.2018

domingo, 4 de março de 2018

Emissão de selos em 1948

1948 é um ano marcante na filatelia portuguesa. Nesta década o Serviço de Valores Postais do Ministério do Ultramar procede à renovação do selo colonial. Nesse ano Alberto de Sousa/Souza (Lisboa, 1880-1961), aguarelista da tradição e ruralidade portuguesas, marca presença em todas as emissões das colónias: Angola, Cabo Verde, Guiné, Índia, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor. As séries são litografadas sobre papel mate nas oficinas da Imprensa Nacional ou na Litografia Nacional, no Porto, em sóbrias mono ou bicromias.


Desenhos de Alberto de Sousa. São 12 selos no total. Uma das curiosidades desta emissão é o facto de um dos selos, o da Porta do Cerco, ter uma impressão na cor azul (ver acima), que não foi a que fez parte da colecção (verde - ver em baixo).


sábado, 3 de março de 2018

A aclamação del Rei D. João IV em Macau


A aclamação del Rei D. João IV em Macau, da autoria de  Frazão de Vasconcelos (1889-1970), editado em Lisboa pela Agência Geral das Colónias em 1929. 

A 20 de Junho de 1642 foram jurados e solenemente aclamados com pompa e festa de dois dias, em Macau, El-Rei D. João IV e o Príncipe D. Teodósio, seu herdeiro presuntivo. Era Capitão-Geral da praça D. Sebastião Lobo da Silveira, em cujo governo, de 1638 a 1645, terminou o comércio com o Japão, tendo a missão enviada para esse país para consegui o seu restabelecimento sido quase toda exterminada.
Excerto do livro:
"A aclamação de D. João IV em Macau revestia uma importância grandíssima, mercê de circunstâncias extraordinárias, de ordem material e moral. De Manilha, onde tinham sua principal base, podiam os castelhanos intentar uma surpresa contra Macau se a notícia da aclamação chegasse primeiro ao seu conhecimento que ao dos portugueses.
A perda de Macau representava para Portugal a perda do comércio da China e a de grande esperança do restabelecimento das relações com o Japão . Sem o comércio da China, afirmava em 1642 o Padre Cardim a el Rei D. João IV, não havia Índia rica. E não era sómente isto. Havia ainda a ter em conta que os portugueses de Macau iam todos os anos a Manilha levar fazendas que importavam em mais de dois milhões de atroe que se o aviso da aclamação chegasse depois dêles se encontrarem em Manilha se comprometeria grandemente a situação de Macau. Foi o que logo ponderou ao Vice-Rei da Índia o Padre António Francisco Cardim, Procurador Geral da Companhia de Jesus na Província do Japão, então assistente em Goa, e que em 1642 se encontrava já em Lisboa, onde dirigiu ao Rei, sôbre o assunto, o memorial que publicamos, até agora inédito.
Na côrte de Lisboa o caso não foi igualmente descurado, tendo-se tomado a resolução de enviar a Macau, com tôda a possível urgência, António Fialho de Ferreira,* que aqui se encontrava esperando socorros para o Estado da Índia que em nome do Vice Rei Pedro da Silva viera requerer. No espiritual, com Macau, perder-se-iam a cristandade do Tonquim, a melhor do Oriente, onde se baptizavam por ano dez a dôze mil almas, e as da Cochinchina, de Camboja, de Sião, etc.A aclamação de D- João IV naquela nossa mais longínqua colónia não foi , pois um facto sem significado e sem interêsse. Bem pelo contrário.” 
Macau em meados do século XVII: ilustração reproduzida no livro
*António Fialho Ferreira nasceu em Sesimbra nos fins do século XVI. Não se sabe quando se fixou em Macau mas já nela vivia em 1624, como mercador. Casou com Catarina Cerqueira, macaense, filha de Jorge Cerqueira (natural de Lamego) e de Maria Pires natural de Macau.Foi escrivão da Santa Casa da Misericórdia em Macau em 1628 e 1629. Entre 1630 e 1633, período em que foi concedido a Lopo Sarmento de Carvalho o monopólio das viagens do Japão e Manila, foi Capitão Mor da viagem Macau Manila.
Por causa de uma grave discórdia entre o povo e os ministros do Rei ausentou-se de Macau no ano de 1637, dirigindo-se por terra, à Índia. O Vice-Rei Pedro da Silva conhecendo a capacidade do seu talento mandou-o representar a el Rei de Castela e Portugal (em Madrid; 1580 – 1640 dinastia filipina) o miserável estado a que estava reduzida a Índia. Por terra, chegou a Roma onde se encontrou com o Embaixador de Castela e depois via Valença chegou a Madrid onde ” representou a el Rei a causa que o obrigara para empreender jornada tão dilatada que perigosa”
Foi logo mandado a Lisboa para que aprestassem seis naus que socorressem a Índia. Encontrava-se em Lisboa quando se deu a aclamação de D. João (1 de Dezembro de 1640) como Rei tendo logo António Fialho Ferreira jurado fidelidade ao novo rei português. Foi-lhe dado a incumbência de seguir com urgência para Macau onde logo que chegou, em 31 de Maio de 1942, convocou as pessoas principais do estado eclesiástico e seculares, lhes expôs em uma elegante oração a feliz notícia de estar exaltado ao trono de Portugal, o Senhor D. João, o IV a quem deviam reconhecer por seu Rei e Senhor.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Os governadores do século XIX

Na segunda metade do século 19 Macau teve 12 governadores. Porventura o mais marcante foi Ferreira do Amaral. Na imagem pode ver-se a estátua do mesmo em Macau - feita em 1935 em Portugal e inaugurada em Macau a 24 Junho 1940 - num postal da década 1960/70 e que actualmente pode ser vista na Alameda da Encarnação em Lisboa.
Eis alguns os governadores da segunda metade do século XIX:
João M. Ferreira do Amaral (1846-1849). Isidoro Guimarães (1851-1863). Coelho do Amaral (1863-1866). Almirante Sérgio de Souza (1868-1872). Conde de S. Januário (1872-1874). J. M. Lobo d'Ávila (1874-1876). Tomás de Sousa Rosa (1883-1886
). Custódio Miguel de Borja (1890). José Maria de Sousa Horta e Costa (1894). Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo (1897)
(...) Depois de ocupar militarmente toda a península de Macau, desde as muralhas à Porta do Cerco, o heróico governador João Maria Ferreira do Amaral executou essa promessa verbal, incumbindo o capitão do porto, Pedro José da Silva Loureiro, em Abril de 1847, de construir a Casa Forte da Taipa. Depois de difíceis negociações com os mandarins limítrofes e com o vice-rei de Cantão, a bandeira portuguesa arvorou-se pela primeira vez nessa ilha aos 9 de Setembro de 1847. Em 1879 foi também ocupada a Taipa Quebrada ou Ilha de Maria Nunes e aí levantado um quartel, no antigo edifício do hospital, hoje Centro de Recuperação Social.
A 23 de Dezembro de 1864, os habitantes de Coloane pediram que uma força militar portuguesa os fosse proteger contra os piratas. Um destacamento de 10 polícias dirigiu-se imediatamente para aquela ilha. A administração dos três novos territórios (note-se que então a Taipa eram duas ilhas) organizou-se em 1878.
Entretanto, Isidoro Francisco Guimarães (1851-1863) era encarregado por Lisboa de negociar um tratado com a China, que sancionasse a situação de facto, que Ferreira do Amaral criara. O acordo de amizade e de comércio, datado de 13 de Agosto de 1862, em Tientsin, foi assinado em Pequim, mas não ratificado, dois anos depois, como se previra. O obstáculo esteve no artigo 9°, que permitiria, em Macau, a fixação dum consulado chinês, mas não dum mandarinato, como acontecia anteriormente ao governador mártir. A Coelho do Amaral faltou o tacto do seu antecessor, Isidoro F. Guimarães; e os governadores José Maria da Ponte e Horta (1866-68), António Sérgio de Sousa (1868-72) - que deixou de enviar a nossa polícia à ilha da Lapa, para a ronda e prisão dos criminosos -, Januário Correia de Almeida (1872-74) e Joaquim José da Graça (1879-83) não lograram convencer os chineses a adoptar o nosso ponto de vista.
A solução de compromisso encontrou-a Tomás de Sousa Rosa (1883-86), que se aproveitou da necessidade que os chineses sentiam do nosso apoio para a fiscalização do contrabando do ópio, feito através de Macau e de Hong Kong.
O tratado de Pequim, datado de 2 de Dezembro de 1887 e ratificado em 28 de Agosto de 1888, confirma, no seu 2° artigo, o protocolo assinado em Lisboa, aos 26 de Março do mesmo ano, por Henrique de Barros Gomes, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, e por James Duncan Campbell, representante do Governo da China, que diz:
Art°2° - "A China confirma a perpétua ocupação e governo de Macau por Portugal, como qualquer outra possessão portuguesa".
Art° 3° - "Portugal obriga-se a nunca alienar Macau e suas dependências, sem acordo com a China".
Infelizmente, apesar de muitas negociações que se prolongaram até nossos dias, a China fugiu sempre a delimitar as fronteiras territoriais de Macau e a especificar quais são "as suas dependências ". (...) 
Quase todos os governadores, atrás enumerados, formam ainda uma galeria de figuras cimeiras, no trabalho de construção e desenvolvimento de Macau. 
Assim, Isidoro F. Guimarães ergueu, no local duma anterior residência dos governadores e capitães-gerais, que data de 1772, frente à actual estátua de Jorge Álvares, um grandioso palácio, que seus sucessores Coelho do Amaral, Ponte e Horta e Sérgio de Sousa valorizaram com ricas mobílias, louças, roupas e uma capela.
No sítio do antigo convento e em parte do forte de S. Francisco, Coelho do Amaral edificou, em 1864-5, o quartel do mesmo nome, "espaçoso, bem arejado, em excelentes condições, e ocupado (em 1894) pelo batalhão do regimento do ultramar, destacado em Macau"
. 
Convento de Santa Clara e respectiva cerca vito da colina de S. Jerónimo
Tomás de Sousa Rosa comprou à viúva do barão de Cercal o seu palácio, que em 1849 levantara o grande arquitecto macaense José Tomás de Aquino. Desde 1884, os governadores passaram a residir neste palácio. "Durante algum tempo, estiveram nelle diversas repartições;.mais tarde, todas se installaram, com grande commodidade para o serviço público, no antigo palácio do governo, um óptimo edificio também, e onde principalmente se admira a sala do tribunal, que era a antiga sala do throno do palácio. Quantos capitães de districto na metrópole invejariam este edificio para as suas repartições, e como todos desejariamos que o tribunal da Boa Hora se parecesse, de longe, com o tribunal de Macau! Ao lado, fica o pequeno correio (ex-casa da guarda)estabelecido também durante o governo de Thomaz Rosa. Até então era coisa que não havia na provincia! Toda a correspondência se enviava pelo vapor da carreira, ao correio de Hong Kong".
Tomás de Sousa Rosa mandou criar e plantar 60.000 árvores, por todas as encostas da cidade. Transformou a Horta da Mitra num bairro salubre. Aí estava "edificada a pequena mas elegante escola Príncipe D. Carlos, onde os chinas, com grande beneficio para o prestígio do nosso domínio, aprendiam português". Eis a primeira Escola Luso-Chinesa. "Era deveras bonito o pequeno palácio da Flora, habitação também do governador, com um jardim do estilo de Le Notre". Porventura a maior obra material de Tomás Rosa foi o saneamento e a construção do Bairro de S. Lázaro, com a sua igreja, "a mais bonita e risonha de todas".
Principiado a formar-se em 1809,1814 e 1818, com os cristãos fugidos das perseguições da China, o bairro de S. Lázaro teve, como primeiros apóstolos, o agostinho espanhol P.e José Segui, o P.e António Vieira e o P.e Marcos Liu (1847-1858). Antes foco da peste bubónica, estenderam-se os portugueses para ele, em 1878, e para os demais bairros chineses, em 1896. O governador Horta e Costa e o engenheiro-director das Obras Públicas, Abreu Nunes, completaram o trabalho dos antecessores, urbanizando o então chamado "bairro de Volong" (1900-1904). (...)

Outro grande obreiro do progresso de Macau fora, dez anos antes de Tomás de Sousa Rosa, o Visconde de S. Januário, Januário Correia de Almeida, que se distinguira como governador-geral da Índia Portuguesa. A ele se devem a abertura das estradas da Barra e de D. Maria II, os trabalhos de pesquisa de água na parte posterior do Jardim da Flora, a bateria rasante do 1° de Dezembro, na ponta da praia de. S. Francisco, uma carreira de tiro no Campo da Vitória, uma nova casa para a guarda, na Praia Grande, o começo do alargamento do aterro marginal do Porto Interior, a canalização geral das ruas próximas do novo bazar e teatro chinês, junto da doca de Manuel Pereira, a construção de um quartel destinado a uma bateria de artilharia, na Fortaleza do Monte, o aterro marginal e muralha sul da Praia Grande e sobretudo o Hospital, cujo projecto se deve ao barão do Cercal, António Alexandrino de Mello, e foi inaugurado no 1° de Dezembro de 1872. Dirigiram a obra o capitão Henrique Dias de Carvalho, que ocupava o cargo de director das Obras Públicas. Colaboraram o tenente-coronel de engenharia Francisco Jerónimo Luna e o chefe do Serviço de Saúde, dr. Lúcio Augusto da Silva. (...) 
Excerto de artigo (as imagens são do acervo do blogue) da autoria de Benjamim Videira Pires, orientalista e investigador da história portuguesa no Oriente e da Missão Jesuítica na Ásia com dezenas de títulos publicados

quinta-feira, 1 de março de 2018

Tourist Map: década 1980

Brochura turística para oferta do início da década de 1980.

Entre os vários locais assinalados nos mapas (incluindo das ilhas da Taipa e Coloane), com interesse para os turistas, referem-se: 
igrejas e templos, hotéis (alguns em construção), praias, universidade, restaurantes, fábrica de panchões, cemitério, a ponte Macau-Taipa. o istmo entre Taipa e Coloane, as vilas da Taipa e Coloane, a leprosaria, etc...

A brochura é gratuita e trilingue - em língua portuguesa, inglesa e chinesa - foi impressa pelos Serviços de Turismo localizados na época no número 1 da Travessa do Paiva, mesmo ao lado do Palácio do Governo.

Na fotografia a preto e branco que ilustra a capa da brochura, estão dois turistas de bicicleta junto às Ruínas de S. Paulo.
Algumas curiosidades: apenas existiam três casinos: o Lisboa, Jai Alai e o Macau Palace; 17 hotéis (e pousadas) do tipo ocidental; oito cinemas/teatros; etc...

Clicar nas imagens para ver em tamanho maior.


 
Na pequena resenha histórica do território termina-se com a frase "Descubra Macau sozinho e verá como é interessante".



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Estátuas nas traseiras das Ruínas de S. Paulo


Registos fotográfico da década de 1960 nas traseiras da fachada das ruínas de S. Paulo. Em primeiro plano a chamada "estátua de pedra caiada" do holandês e ao fundo o busto do poeta português João de Deus, actualmente localizada no interior do jardim do edifício do Senado (IACM). Foi inaugurada em 1896 por ocasião de morte de João de Deus em Janeiro desse ano. Existe uma outra estátua do poeta no exterior do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes (desde 1942).
Segundo Monsenhor Manuel Teixeira já "a 8 de Março de 1895, as escolas portuguesas festejaram ao poeta numa grande apoteose, à qual se associou Macau”.


Num artigo intitulado "Macau visto pelo Conde de Arnoso" (Revista Cultura, nº 7 e 8 - Ano 2) o Padre Manuel Teixeira - que faz vários comentários ao texto do Conde - escreve assim a propósito desta estátua:
"(...) escreve Arnoso: "No adro e sobre uma pedra que lhe serve de pedestal uma tosca e disforme estátua de pedra d'um metro de altura representa, segundo refere a lenda, um valoroso capitão. Veste justilho, largo calção e bota até ao joelho. A irreverente brocha d'um pintor poz-lhe bigode e mosca! E como se tal não bastasse pintou-lhe garridamente o justilho de cor-de-rosa vivo, pondo-lhe nos canhões galões amarelos de coronel. Pobre heroe!"
Quanto a esta estátua, reza a tradição que se trata dum oficial holandês, moldada pelos holandeses que foram encarcerados na fortaleza da Guia após a sua derrota de 24 de Junho de 1622. A estátua sofreu maus tratos: um dia tiraram-na da Guia, foi parar às Ruínas de S. Paulo. Em 1966, desapareceu.
Alfredo de Almeida foi encontrá-la, decapitada, na sargeta duma via pública, para onde havia sido lançada pelos vândalos. Colocou-lhe a cabeça sobre os ombros, cimentou-a e levou-a para o seu caro Jardim da Flora. Dali passou para a esplanada do Museu Luís de Camões, onde hoje se encontra, acostada a uma parede, triste e envergonhada. 
Já desapareceram as cores do seu justilho e já não pousa em pedestal algum. Ali está no solo sem um letreiro, sem indicação alguma, com a ferida no pescoço, efeito da decapitação. Bem merecia que voltasse para a Guia, onde passou uns quatro séculos e donde nunca devia ter sido retirada. (...)"



terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

1929: 1ª central de telefones automáticos

No Boletim Oficial de 19.12.1928 foi publicado o Diploma Legislativo n.º 49 que autorizava o Governo da Colónia a contrair com a Caixa Económica Postal um empréstimo até à quantia de $125.000,00, destinado à aquisição de material e respectiva montagem de uma Central Telefónica Automática na cidade de Macau.
No Anuário do Império Colonial (1937) pode ler-se: “Talvez o mais lindo edifício no seu género em todo o território português, quer continental, quer insular ou ultramarino, e onde se encontra instalada a central dos telefones automáticos, primeiros a serem usados em território português.”
A Central de Comutação Telefónica (passo-a-passo modelo F1 da Siemens) foi instalada a 8 de Dezembro de 1929, tornando Macau o mais desenvolvido na área das comunicações face à metrópole e às demais colónias portuguesas. Em Lisboa só a 30 Agosto 1930 começaria a funcionar a primeira central de telefones automáticos. 
Refira-se que em 1887 foi introduzido o serviço da linha telefónica. O serviço telefónico tinha carácter permanente, utilizava telefones magnéticos e funcionava em nove estações: quartéis da 1.ª e 3.ª companhias da Guarda Policial; Palácio do Governo; Capitania do Porto; fortalezas do Monte, da Guia e do Bom Parto; Quartel do Batalhão do Ultramar; e Casa do Destacamento das Portas do Cerco. Com o desenvolvimento das comunicações telefónicas, em 1907 surge a lista telefónica, que apresentava, além das estações oficiais, 76 particulares, e instruções de uso dos telefones. Em 1910, continha não só telefones de Macau, como também da Taipa e de Coloane.

Em 1932 a central de telefones automáticos de Macau tinha capacidade para instalar 2 mil telefones. Na época o território tinha registados um total de cerca de 900 assinantes.
Eis apenas alguns a título de exemplo:

623: Ribeiro Júnior, Delfino - Rua do Campo, no. 3.
637: Rodrigues, Fernando -Travessa do Padre Narciso.
720: Rodrigues, Alina de Sousa Fernandes — Calçada do Bom Parto, no. 2
731: Rodrigues, Damião - Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, no. 93.
738: Silva, Dr. Henrique Nolasco - Avenida Almeida Ribeiro.
801: Macao Electric Company (Secção de Informações/Enquiries Department - Rua Central.
815: Hotel Riviera - Rua da Praia Grande.
816: Tai San Li - Travessa do Soriano.
835: Paradis des Dames - Rua da Praia Grande.
943: Menezes, Celeste - Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, 95-B.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Moeda comemorativa do Ano do Cão (1982)


Edição de 1982 do jornal World Coin News que destaca na capa a emissão "Macao Gold, Silver Year of Dog Coins".
Esta moeda comemorativa alusiva ao ano novo lunar chinês (de 1982) foi feita de acordo com o Decreto-Lei n.º 47/81/M de 19 de Dezembro. Com o valor facial de 100 patacas foram emitidas moedas em ouro e prata (5 mil unidades de cada).
Artigo 1.º É autorizada a emissão de moedas metálicas comemorativas do Ano Lunar Chinês de 1982 (Ano do Cão), com valores faciais de mil e de cem patacas, até à quantidade máxima de 5 000 moedas para cada valor facial.
Art. 2.º As moedas referidas no artigo anterior poderão ser cunhadas segundo os sistemas «proof» e «à flor de cunho».
Art. 3.º - 1. As moedas de mil patacas, emitidas com certificado de garantia do fabricante, serão de ouro de 22 quilates e obedecerão às seguintes especificações:
a) Toque de 916 por mil; b) Diâmetro de 28,4 milímetros; c) Peso de 15,976 gramas, com a tolerância de um por mil para mais ou para menos; d) Serrilha no bordo circular.
2. As moedas de cem patacas, emitidas com certificado de garantia do fabricante, serão de prata e obedecerão às seguintes especificações:
a) Ponto de 925 por mil; b) Diâmetro de 38,6 milímetros; c) Peso de 28,280 gramas, com a tolerância de um por mil para mais ou para menos; d) Serrilha no bordo circular.
Art. 4.º - 1. O anverso das moedas de mil e de cem patacas será constituído pelo desenho de um cão referente ao Ano Lunar Chinês de 1982, e terá indicação do valor facial e dos caracteres em chinês deste valor e de Macau.
2. O reverso das moedas de mil e de cem patacas será constituído pela indicação de valor facial, do ano da cunhagem e pelas insígnias da cidade de Macau.
Art. 5.º As moedas referidas neste diploma serão colocadas à disposição do público mediante subscrição por valores a fixar pelo Instituto Emissor de Macau.



domingo, 25 de fevereiro de 2018

Silva Mendes na Heritage Society

文第士(Manuel da Silva Mendes)(1867-1931) 是澳門當代葡人知識份子中最傑出代表人物之一,研究及推崇老子道家思想的第一個葡萄牙人;在哥英布拉大學完成法學學位,1901年受邀來澳擔任利宵中學教師,之後歷任校長、法官及檢察官,也是開業大律師,著名的中國文物收藏家。1905年其位於東望洋山腰的大宅落成,居此直至1931年去世。大宅曾空置一段時間;其後業權轉讓予瑪利亞方濟各傳教修會(Franciscanas Missionárias de Maria FMM ) ,作為修女宿舍、護士學校;之後由澳門政府收購,作為政府診所、衛生司藥物事務中心。1998年4月由澳門基金會斥資三千萬將它重建,改為聯合國大學國際軟件技術研究所,建築保留原立面,內部間格完全改動,擴建東西兩翼,增加實用空間,由原來的六百多平方米增加至二千三百多平方米。




sábado, 24 de fevereiro de 2018

O Noticiarista das Índias


"O Noticiarista das Índias - Duarte Barbosa" com o sub-título "pioneiro revelador dos costumes das Indias" é uma relação biográfica coordenada por Eduardo Reis e editada em Macau pela Imprensa Nacional em 1948.
Duarte Barbosa (Lisboa, c. 1480 - Cebu, 1 de maio de 1521) foi um viajante e navegador português. Serviu como oficial do Estado Português da Índia entre 1500 e 1516-17 no cargo de escrivão em Cananor e, por vezes, intérprete da língua local (malaiala).
A sua obra, "Livro de Duarte Barbosa" é um dos mais antigos exemplos de literatura de viagem portuguesa logo após a chegada ao oceano Índico. Em 1519 partiu na primeira viagem de circum-navegação com Fernão de Magalhães, de quem era cunhado, vindo a perecer em Maio de 1521 no banquete-cilada do rei Humabon, em Cebu, nas Filipinas. Manuel Severim de Faria, um erudito português que publicou, em 1626, 1627 e 1628, Relações... as primeiras notícias impressas sendo considerado "o primeiro noticiarista português".

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

"A Praia" (Grande) em "A China e os Chins" (1888)

(...) A Cidade do Nome de Deus não há outra mais Leal ocupa a parte sul da pequena península que termina a ilha de Hiang-Chang. Nove morros a dominam do lado do mar, erguendo-se em quatro deles outras tantas fortalezas armadas de antiga artilharia. O bairro onde se albergam os 4.000 europeus que vivem em Macau acha-se situado na parte leste da cidade e apresenta um alegre aspecto, com suas construções pintadas de vivas e variadas cores, seus seculares conventos e igrejas e seu belo passeio a beira-mar, que recordou-me a Promenade des Anglais de Nice ou a praia de Botafogo.
A “Praia” é o nome desse passeio onde, à tarde, saem a respirar a suave brisa do mar morenas europeias ou amarelas mestiças, trajando vistosas saias que procuram imitar as modas um pouco atrasadas de Paris. Carros antiquados, cadeirinhas e pedestres cruzam-se constantemente em uma e outra direção, parando de vez em quando para permitir alguns cumprimentos ou confidências de amor, arte a que se dedicam assiduamente os mancebos de Macau, por não encontrarem, talvez, outra ocupação. Não se pode, porém, negar que empreguem grande engenho para ostentar uma toilette sempre cuidada. Nada mais interessante do que esses moços de fisionomia chinesa e cabelo naturalmente lustroso, trajando elegantes fraques, com os pequenos e bem formados pés apertados em brilhantes botinas e o pescoço encerrado em altos e duros colarinhos rodeados de coloridas gravatas.
É Macau a única cidade da China em que se mantém a pretensão dos trajes europeus, ainda que adulterados pelo gosto e a distância e pela especulação do comércio, que encontra aí cômodo mercado para os artigos passados de moda. Em outras partes, os residentes estrangeiros adaptam o seu traje à comodidade de movimentos ou às condições do clima; Macau, porém, conserva aquela originalidade, que não deixou de produzir-me grata impressão, ainda que certa estranheza, depois que os meus olhos se tinham habituado, na minha longa viagem desde o istmo de Suez, a só ver como exceção a comprida sobrecasaca e o chapéu de copa. (...)
Henrique Carlos Ribeiro Lisboa in "A China e os Chins - Recordações de viagem", 1888.
Henrique C. R. Lisboa (1849-1920) era diplomata e foi secretário da missão especial que o Império do Brasil enviou à China em 1880. Dessa viagem fez um registo detalhado que deixou em livro de cerca de 400 páginas ilustradas com um mapa e 44 gravuras.
Neste post transcrevi um excerto relativo à baía da Praia Grande ilustrado com uma imagem da época (não é do livro) em que o autor visitou Macau.
Na imagem acima, entre outros aspectos, destaque para: Sé Catedral, Palácio das Repartições (1874), Macao Hotel (1880), Jardim S. Francisco, Grémio Militar (1870)Ermida da Guia (e farol em construção - 1865), Hospital S. Januário (1874), Quartel S. Francisco (1866) e a bataria rasante 1º de Dezembro (1872).

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Festa da Primavera

A Festa da Primavera começa na véspera do Ano Novo com as pessoas a fazerem limpezas gerais, a arrumar a casa, cortar o cabelo, pagar as contas, colocar oferendas aos deuses que cuidam do lar e da família, a preparar as roupas que irão usar nesse primeiro dia... e dando cor ao que os envolve.
Assim aparece a cor vermelha, por ser yang e vibrante, a cor predominante durante as comemorações do Ano Novo, com as mulheres da família a usarem um vestido novo nesta cor para assegurar a sorte e um bom ano, com o amarelo e o roxo também a aparecerem, pois são igualmente sinónimo de sorte. 
Mas o vermelho também está presente durante a comemoração nas tradicionais lanternas chinesas, acesas e penduradas diante da porta principal, que só serão retiradas após 15 dias do novo ano, e nos fogos-de-artifício que estouram para espantar os maus espíritos.
 Assim como, no primeiro dia do ano, nos envelopes contendo dinheiro que as crianças e os solteiros da casa recebem, distribuído pela matriarca da casa, com propósitos auspiciosos.
E é neste espírito que envolve a Festa da Primavera que se chega ao último jantar do ano, com a família reunida para a refeição que encerra um ano lunar e dá início a outro.
São feitos pratos especiais para trazer todo o tipo de sorte e felicidade, não podendo faltar os bolinhos em forma de lingotes de ouro, o peixe que representa o dinheiro, as tangerinas, também chamadas de laranjas da sorte, o prato feito com arroz moti, representando a prosperidade, e o talharim, uma espécie de macarrão, que representa vida longa, com todas as frutas e doces a serem servidos em bandejas ou embalagens vermelhas.
 Uma refeição que é feita numa mesa circular para favorecer o relacionamento e a união dos membros da família, durante a qual as pessoas procuram perdoar as ofensas, esquecer as diferenças e evitar os maus pensamentos, onde a preocupação principal é comemorar a Festa da Primavera com muita alegria e fartura para trazer muita sorte e felicidade.
Um outro costume é colocar desejos escritos com tinta preta em tiras de papel vermelho na porta de entrada. O preto que representa a água e a sabedoria, e o vermelho o fogo e o sucesso, devendo os desejos serem escritos por criativos calígrafos, de forma poética e metafórica para poder trazer sorte e realização.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Foto-Legenda: viagem ao Porto Interior na década 1950

A propósito do post anterior - em que visitámos Macau na década de 1950 em época de comemorações do ano novo lunar - proponho agora uma viagem ao Porto Interior na mesma altura, quando era principal 'porta' de entrada no território por via marítima. A chamada rada do Porto Interior começava na denominada ponte-cais nº1.
O fluxo de pessoas e bens via Porta do Cerco era nesses anos diminuto e o cais do Porto Exterior só seria uma realidade no início da década de 1960. Era também no Porto Exterior que aterravam os aviões anfíbios que asseguravam a ligação aérea com Hong Kong, e daí para o resto do mundo.
Uma descrição do que era Macau na década de 1950 por ser lida aqui num testemunho de Levy Gomes.
Para ver as imagens em tamanho maior e conseguir uma melhor leitura das mesmas e das legendas basta clicar nas respectivas fotografias.