quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A burla no Casino do Hotel Estoril em 1964

«O enigmático “operacional” britânico Herbert Lester, que era visita de casa de António de Oliveira Salazar, tinha entre os seus amigos um gang de burlões de casinos procurados pelo FBI, cujo líder, um homem de "reputação insípida", foi protegido pelo Estado Novo».
É assim que começa um artigo publicado no suplemento do jornal "Público" a 31.12.2017, da autoria de Bárbara Reis e com o título  «O misterioso “tio Herbert” com quem Salazar tratava dos negócios “sem papéis”».
A história é longa e complexa pelo que apenas destaco aqui (excertos) o que diz respeito a um facto que julgo ser pouco conhecido: uma burla no casino do Hotel Estoril em 1964
O telegrama para a Touring Lisboa foi enviado de uma prisão de Macau e era dirigido a… Herbert Lester.
LESTER URGENT INFORM TED / ISTANBUL HILTON / WE ARE ARRESTED MACAU / USE ALL POLITICAL INFLUENCE / BENNY LIPSON
Benny Lipson, um “negociante americano”, acabara de ser preso em Macau com mais cinco americanos e um chinês, todos acusados de terem roubado ao Casino do Estoril de Macau 1.155 contos (cerca de meio milhão de euros ao preço actual), com dados de jogo viciados.
Interceptado pela PSP de Macau, o telegrama foi transcrito e enviado para o director da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) em Lisboa, Fernando da Silva Pais, com uma gralha — “JLester” em vez de “Lester”. Além disso, o tradutor dirige a atenção para Theodore Lewin, o tal “escroqueteiro” procurado pelo FBI desde 1952, e não para Lester, visita de casa de Salazar: “Benny Lipson enviou um telegrama dirigido a Touring-Lisboa no qual informava que tinham sido presos em Macau e pedia para que TED (Ted Lewin?) usasse toda a sua influência política.” A interrogação dentro do parêntesis é do próprio comandante da PSP de Macau. Todos os dados de que dispõe parecem indicar que assim seja, mas o tenente-coronel Octávio de Figueiredo não tem a certeza se o Ted do telegrama é o Ted Lewin que o visitou dias antes com uma conversa esquisita. Apesar de tudo, a PSP de Macau faz um alerta relevante e nota que o telegrama fora enviado para a empresa dos Garton da Madeira. Mas fica a dúvida: a quem é que Benny Lipson pede o uso de “toda a influência política”? A Herbert Lester, a Ted Lewin ou aos dois? (...) 
Se havia alguém em Portugal capaz de ajudar os homens detidos em Macau, Herbert Lester era um deles. 
Já com Ted Lewin, o americano instalado no Hilton de Istambul no momento da burla, a história é outra. Não está perdido em Portugal, mas tem um rasto de alertas, mandados de captura e denúncias nos serviços de informação dos quatro cantos do mundo. Em 1964, é sócio da Sociedade Luso-Americana de Representações, Lda., que vende material eléctrico e tem como “objectivo o fornecimento às Forças Armadas de diversos materiais”, diz um relatório da PIDE consultado pelo PÚBLICO na Torre do Tombo, mas “funciona praticamente como um departamento técnico da ECOMAR, com sede em Luanda, uma importante empresa do Ultramar Português” que pertence ao milionário João Ildefonso Bordallo, de Cascais. O sócio original de Ted Lewin fora Manuel Roseta Fino, escreve a PIDE, mas em 1964 esse lugar era já do major reformado João Donas-Botto. (...) 

Poderá ser outro Lewin, também americano e também interessado em casinos. Mas uma coisa é certa: quando Benny Lipson é preso com os seus alegados cúmplices, é ao amigo inglês de Lisboa, Herbert Lester, que pede ajuda. E se Lester conhecia bem Ted Lewin, é normal que este conhecesse Mrs. Cary Garton.
A burla de Macau é um filme rápido, cujas peças a PSP junta em poucos dias. A 12 de Março de 1964, o major Donas-Botto envia um telegrama ao comandante Octávio de Figueiredo que diz: “PEÇO FAVOR ATENDERES AMIGO SENHOR LEVIN PROCURARA MACAU ABRACOS DONAS BOTTO.” Lewin chega a Macau no barco Fat Shan a 21 de Março, com um visto emitido no dia 3 pelo consulado de Portugal em Nova Iorque, já a PIDE sabia que ele era um fugitivo da justiça americana. No mesmo barco, vinham John Jackson Boyle, R.B. Legaspi, vice-cônsul filipino, e a mulher, e David Day.
No dia 23, Lewin telefona ao comandante da PSP e pede para ser recebido. Escreve Figueiredo ao director da PIDE, num relatório em papel-Bíblia de sete páginas: “Lewin apresentou-se no comando pelas 15h para pedir os bons ofícios no sentido de a gerência do Hotel Estoril de Macau permitir ali uma estadia mais prolongada”. “Trazia uma carta de recomendação do cônsul de Portugal em Honolulu” e também do “Dr. Carlos Assumpção (advogado local) e do Sr. Teodoro dos Santos”, um empresário que ficara rico com uma fábrica de malas do Aljube, ao pé da Sé de Lisboa, e tinha entretanto ganho a concessão do Casino do Estoril (cuja praça tem hoje o seu nome). Nesse encontro, Lewin falou do seu amigo major Donas-Botto e disse “que costuma ir a Lisboa-Estoril e pretendia em Macau estudar a possibilidade de se dedicar aqui à indústria hoteleira e de construção civil”, escreve Figueiredo. No dia 24, também no Fat Shan, desembarcam William McKinkley Barret, David Felstein e Harold Glenn Grayson. E a 28, James George Cyrus chega no hidroplanador Coloane.
Entre o instinto e os mandados de captura do FBI, alguma coisa deixou a PSP de Macau desconfiada. A 2 de Abril de 1964, chega à PIDE um telegrama com pedido urgente para envio de “todos os elementos conhecidos nessa Polícia sobre o cidadão americano TED LEWIN aqui presente há dias como turista”. Se a informação chegou, não foi a tempo. “Rogo V. Exa transmitir urgentemente director PIDE seguinte: grupo seis americanos possivelmente chefiados Teo Lewin aliás Ted Lewin aliás Theodore Lewin realizaram Casino esta cidade burla jogo dados viciados montante superior mil contos. Lewin saiu Macau antes realização burla”, lê-se no telegrama guardado no Arquivo da PIDE. Depois do desfalque na madrugada de 6 de Abril, “um dos burlões pretendeu expedir telegrama Touring Lisboa. Touring é endereço telegráfico firma Manuel Passos Freitas Companhia Rua Alecrim 45. Telegrama vai ser autorizado seguir depois este. Solicito Vexa informar reacções consequentes esse telegrama. Segue relatório via aérea. Lewin amigo major João Donas Botto, residente Estoril. Governador.” (...)
Não sabemos o que Lester fez com o pedido de ajuda de Macau, se alguma coisa, quando ainda gozava de confiança no sistema. Sabemos apenas o desfecho da história. A 5 Dezembro de 1964, o comandante Figueiredo informou o director da PIDE que os “seis americanos e um chinês” tinham sido "libertados sem julgamento" e “expulsos da Província de Macau” por serem “considerados estrangeiros indesejáveis”.

E Ted Lewin? “Lewin saiu Macau antes realização burla”, dizia já o telegrama do governador. Depois de Istambul, o “súbdito americano" voltou para Lisboa, onde entrou “pela fronteira do aeroporto” a 30 de Maio, dois meses depois da burla, e alojou-se no Hotel Albatroz, em Cascais. Nas barbas da PIDE. Em Junho, o inspector-adjunto da Divisão de Estrangeiros pergunta à Secção Reservada “se há inconveniente em que seja autorizada nova prorrogação do visto”. É plausível que tenha circulado à vontade. Preso, não foi. Dois anos depois, quando a Interpol de Zurique pergunta se as procuras de Lewin "foram até agora negativas" e pede para "indicar se continuam a procurar esta pessoa", um inspector da PIDE responde “já não se tornar necessário a continuação da diligência”. E em 1967, quando a embaixada dos EUA em Roma escreve à PIDE a informar que recebera informações de que "Theodore Lewin está a viver no Hotel Estoril-Sol, apartado 1605, Cascais", ninguém se impressiona na António Maria Cardoso. Os americanos dizem que "Lewin é conhecido por associação com traficantes de narcóticos" e que, "com tal reputação, existe a possibilidade de que possa estar a usar Portugal como base de operação para as suas actividades ilícitas", mas os serviços de informação do Estado Novo respondem secamente: “Não lhe têm sido assinaladas quaisquer ligações com elementos com cadastro criminal."

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O comboio que nunca chegou

Em 1904 as autoridades de Macau e as autoridades chinesas de Cantão assinaram um acordo que previa a ligação das duas cidades por caminho de ferro. Vicissitudes várias - embora tivessem sido muitas as tentativas - fizeram com que o projecto nunca passasse do papel, embora chegasse a estar prevista nas obras dos portos (mapa de 1922) uma "gare do caminho de ferro" nos aterros do sopé do monte da Guia. 
Nos mapas da época ficou para a posteridade o "caminho de ferro projectado", como neste caso do Mapa Corografico de Macau e Regiões Circunvisinhas". O termo "Corografia" tem origem no grego χῶρος khōros; "lugar" + γράφειν graphein, "descrever".
A título de curiosidade, refira-se que no território chegou a existir uma linha de comboio e curta extensão e uma pequena locomotiva. Era propriedade dos Serviços de Obras Públicas e foi usada nas obras dos (aterros) portos nas décadas de 1920/30.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Impressões pessoais nos primeiros anos do século XX

Neste post publico um excerto de um longo artigo da autoria de Francisco Carvalho e Rêgo (1898-1960) que faz o retrato de Macau nos primeiros anos do século XX. Francisco Ernesto Palmeira de Carvalho e Rêgo, era filho do Dr. José Maria Ernesto de Carvalho e Rêgo (1860-1917), bacharel em Direito que veio para Macau em 1908 como magistrado. Depois foi ainda delegado do Procurador da Coroa e Fazenda, Procurador Administrativo dos Negócios Sínicos, e após aposentação, advogado) e de Joana Alexandrina Palmeira de Carvalho e Rêgo (1860-1934). Francisco chegou a Macau em 1908 com 10 anos de idade, juntamente com os pais e irmãos.

Aquele que, deixando Hong Kong viesse a Macau pela primeira vez, gozava as delícias de uma curta viagem de quatro horas, rodeado do maior conforto e desfrutando uma paisagem admirável por entre ilhas e ilhotas cobertas de vegetação e semeadas a capricho, como se tal disposição obedecesse à finalidade de proporcionar o imprevisto. Para trás ficava a imponente colónia inglesa, cheia de grandeza e majestade, lançada pela íngreme vertente, que parecia dirigir-se ao Céu.
E quanto mais o pequeno e confortável navio se aproximasse de Macau, tanto mais mudava a feição de tudo, desde a brisa, que se tornava suave e branda, à cor das águas, que reflectiam na superfície o amarelado dos fundos que as correntes cobriam de lodo.
Passadas as Nove Ilhas, semelhantes a nove irmãs imorredouras, que a lenda não deixa esquecer, avistava-se à distância a “Porta do Cerco”, a praia da “Areia Preta”, a “Chácara do Leitão”, mostrando-se no cimo da “Montanha da Guia” o célebre farol, o mais antigo da Costa da China.
Na outra elevação próxima, distinguia-se o “Hospital Conde de São Januário” , que dominava o grande casarão que outrora fora Convento de S. Francisco e que servia de Quartel de Infantaria. É, então, à recortada costa de pequenas enseadas, seguia-se a “Baía da Praia Grande”, em curva caprichosamente feita, deixando antever as delícias de uma pequena cidade de paz e sossego. O casario caiado a cores garridas, as Igrejas, as Capelas, os Fortes, Fortins e Bastiões, as casas solarengas e a quietude dolente e embaladora, não deixavam dúvidas de que a China deveria estar longe desta terra, que tudo indicava ser portuguesa.
Ao dobrar a “Fortaleza do Bom Parto”, talhada no regaço do imponente “Hotel Bela Vista”, surgia o sinuoso caminho, que levava ao ”Tanque do Mainato”, com a colina despida de casario, à excepção da velha e abandonada vivenda de “Santa Sancha”.
Em cima, a velha Ermida da Penha, cheia de unção religiosa e graça na sua simplicidade.
Na última curva da ordenada beira-mar, via-se a “Fortaleza da Barra” e, mais adiante, em plano superior, a “Capitania dos Portos”, em estilo mourisco. Então, o cunho português desaparecia, surgindo o aspecto de um a pequena cidade chinesa, que a avenida marginal do Porto Interior revelava aos olhos cobiçosos do observador.
O peixe estendido pela via pública, exposto ao Sol, na salga que o chinês faz a capricho, espalhava pelo ar um aroma desagradabilíssimo que, de mistura com o cheiro de hortaliças salgadas, do balichão e outros produtos da indústria explorada, confundia e perturbava quem a ele não estivesse acostumado.
Altos rickshaws, pintados a vermelho, com aros de ferro nas rodas, cruzavam a rua em correria, sem que os peões se afastassem, apesar dos altos gritos dos cúlis.
O casario baixo e sujo igual em toda a Avenida marginal, sendo os baixos utilizados para comércio e o primeiro e único andar para moradia.
Junto ao cais de desembarque viam-se muitos rickshaws, e cúlis segurando longos e grossos bambus, prontos para a descarga.
Serviço da polícia marítima, rudimentaríssimo, era feito nos cais por um ou outro indiano, auxiliado pelos chamados loucanes, que vestiam uniforme curiosíssimo, com meias brancas por fora das calças e pequenos chapéus feitos de filamento de bambu.
O policiamento das ruas pertencia aos soldados de infantaria que, de grandes chapéus de aba larga, se lobrigavam de quando em vez, aqui, ali, ou acolá.
Desse cais do porto interior caminhava-se para o coração do bairro chinês e, por ruas tortuosas, vinha dar-se ao Largo do Senado, onde o edifício da Câmara mais e melhor nos fazia lembrar que tínhamos deixado a China e regressado a Portugal.
Só faltava o pelourinho!
De ali, pela tortuosa rua do Gonçalo, apertada e estreita, era o visitante conduzido até à calçada do Governador, por onde vinha dar à “Praia Grande”. E, chegado ao fim da Calçada, à direita tinha o edifício das Repartições Públicas, e à esquerda o pequeno edifício dos Correios, ao lado do qual se mostrava em suas arcadas, tão próprias da arquitectura das cidades cosmopolitas do oriente, o “Hotel Macau” modesto e simples, onde o velho inglês Farmer e sua família recebiam acolhedoramente os hóspedes.
Aquele que viesse encomendado ao “Hotel Bela Vista”, ao deixar a ponte-cais, dirigia-se pela Calçada do Gamboa à Rua do mesmo nome e, seguindo pela Rua do Seminário, entrava no Largo de S. Lourenço, alcançando a Penha pela Rua do Pe. António e Rua da Penha, indo dar ao chamado Chôc-Chai-Sat onde , no referido Hotel, era recebido pelo velho Vernon, que, de há muito, explorava, na Colónia, a indústria hoteleira.Mas não eram estes os hotéis recomendados aos funcionários chegados à Colónia, porque os seus preços eram elevados. Para estes funcionários era mantido pelo velho Mami o “Hotel Ocidental” modesto e pouco dispendioso e que, situado também na Praia Grande, oferecia ao visitante a mesma vista agradável, que lhe era apresentada nos outros hotéis.
A Praia Grande tinha os seus encantos: bela vista sobre as águas; passeio à beira-mar; brisa do mar, sombra das árvores e a música aos domingos, à noite, que tocava em frente do palácio do Governo e às quintas-feiras no jardim de S. Francisco. Os únicos meios de transporte, que havia, eram o rickshaw e, a cadeirinha, espécie de palanquim transportado por dois ou quatro homens.
Era a Praia Grande pavimentada a macadame e o resto da cidade quase todo calçado à portuguesa. Viam-se na Praia Grande as residências dos Primeiros e Segundos Condes de Sena Fernandes, de Carlos Pais da Assunção, de Luís Aires da Silva, do Major Aurélio Xavier, do General Garcia, José Ribeiro, Simplício de Almeida, Dr. Álvares, Constâncio José da Silva, Alexandrino de Melo, da Família Eça, do Capitão Carneiro Canavarro, etc.
Em algumas viviam os chineses Lam-Lim, Chou-Sin Ip, Li-Kiang-Chin, Chan-Fong e outros.“

Francisco de Carvalho e Rêgo, "Macau há quarenta anos", in «Macau». Imprensa Nacional, 1950

sábado, 30 de dezembro de 2017

"Morreu o Dr. Silva Mendes!"

Manuel da Silva Mendes morreu a 30 de Dezembro de 1931 na sua casa em Macau. Na imprensa da época o facto não passou despercebido. Neste post reproduzo excertos dessas notícias.
Jornal Eco Macaense, 2 de Janeiro de 1932, título “In Memoriam”

“Figura simpática e vulto de destaque nesta terra, a inesperada morte do sr. Dr. Manuel da Silva Mendes foi profundamente sentida em Macau, onde viveu metade da sua vida e onde em cada pessoa contava um amigo e admirador das suas lídimas qualidades intelectuais e morais.
Para Macau veio há cerca de 30 anos como professor do Liceu, onde leccionou até ainda há bem poucos anos quando, tendo atingido o tempo de reforma, se retirou já cansado do esgotante trabalho do seu magistárrio, ao qual se dedicou com vontade e carinho, e enfraquecido de saúde. Como professor, foi um dos mais eruditos que o Liceu teve. As suas lições foram sempre atentamente escutadas porque soube sempre com raro tacto fazê-las interessantes de maneira a captar a atenção dos seus alunos, aos quais tratava com bondade e estima, que o admiravam e respeitavam.
Também foi advogado, e dos melhores deste auditório em todos os tempos. Mestre no Liceu, também o foi no foro. Como poucos, soube exercer a sua nobre profissão com dignidade, aprumo moral e elevação. Foi, na verdade, como advogado, segundo a definição do Dr. Henri Robert ‘le défenseur de la veuve et de l’orphelin, le champion desintéressé de toutes les nobles causes, celui dont le dévouement est acquis à tous les désherités de la fortune et qui fait entendre, devant la justice, la voix de l’humaine pitié et de la miséricorde’.
Trabalhador incansável, apesar de doente e entrevado, recostado na sua cadeira de rodas, à beira da sua secretária cheia de livros e papelada, bastas vezes o fomos encontrar no seu escritório, transformado em precioso museu de arte, enfronhado em perseverantes investigações e profundos estudos. Mais de uma vez o vimos trabalhar, nestes últimos tempos, em processos judiciais, mais por amor à arte (como nos explicava) do que em mira de interesses materiais, e, geralmente, para tirar de embaraços algum colega menos experiente que à sua brilhante inteligência e vasta cultura recorria.
A sua obra está pouco divulgada, porque a sua modéstia tornou-o em severo e exigente crítico de si mesmo. Ainda assim, dispersos pelos jornais e revistas publicaram-se muitos escritos seus, versando geralmente assuntos chineses em que era uma autoridade respeitável, e em muitos processos judiciais se encontram trabalhos jurídicos seus, inconfundíveis pelo seu cintilante estilo de laureado escritor da língua portuguesa. Há bem pouco tempo acabámos de reler os seus ‘Excertos da filosofia taoísta’ em que, a par da cultura, demonstrada, se nos revelou um profundo filósofo.
Professor erudito, causídico brilhante, excelente poeta; cintilante escritor, perseverante estudioso da literatura, da história, da arte e da filosofia chinesa, a sua inteligência e vasta cultura tornaram-no Mestre em muitos ramos do saber. Roubou-o a Morte no momento em que ele quase que concluía a revisão de mais uma obra de vulto à qual, durante anos de paciente trabalho, dedicou o melhor dos seus esforços.
Morreu o Mestre! Mas ‘morrer não é acabar’. À nossa admiração e agradecida amizade ficou a saudosa e perdurável lembrança dos seus doutos ensinamentos e dos seus modelares exemplos, em homenagem dos quais prestamos hoje publicamente o preito sentido da nossa imensa saudade e profunda gratidão pelas lições que deste Mestre e Amigo querido recebemos”.


Jornal A Voz de Macau, 3 de Janeiro de 1932; título “O funeral do Dr. Manuel da Silva Mendes”.
"Morreu o Dr. Silva Mendes! Esta notícia tão inesperada colheu-nos com a mais dolorosa surpresa. É que se sente, profundamente, o abalar inesperado de um amigo bom, um colaborador dos mais distintos de ‘A Voz de Macau’ cujas páginas abrilhantou com a sua colaboração distinta, um camarada ilustre cuja convivência nos honrava pela lhaneza de trato e amizade desinteressada com que nos distinguia.
Os seus conhecimentos vastos e profundos, quer como advogado distintíssimo, quer como escritor de raro mérito, nunca desmentidos na vasta e douta obra que legou à posteridade, impõe-se à nossa consideração e respeito como exponente de uma inteligência invulgar ao serviço de uma proficiência e probidade profissionais verdadeiramente raras.
As facetas variadas do seu saber, manifestam-se irradiando o fulgor da sua erudição profunda, no conhecimento e manejo hábil da língua difícil de Camões; na vastidão dos seus escritos nos jornais de Macau, nos arquivos dos tribunais da comarca, em documentos de subido valor, pela profundeza de argumentação, pela clareza da linguagem e pela elevação e singeleza de conceitos e beleza da forma.
Vindo novo ainda para Macau, em Fevereiro de 1901, em Maio desse ano tomava posse do seu lugar de professor do Liceu de Macau, onde, no ensino das letras pátrias e da língua latina, demonstrou durante 25 anos do magistério secundário, profundo e sólido conhecimento na regência das disciplinas que lhe foram entregues. Assim o declaram os seus inúmeros alunos que hoje lamentam a perda de tão ilustre ornamento do corpo docente do Liceu de Macau.
Durante os seus 30 anos de residência em Macau, foram-lhe confiados, em diversos períodos da sua vida, elevados cargos de responsabilidade da administração pública, como substituto do Juiz de Direito e do Delegado do Procurador da República, tendo por várias vezes entrado em exercício dessas funções; como Presidente do Leal Senado, Administrador do Concelho, membro de várias comissões públicas nomeado pelo governo, tendo em todos estes cargos relevado uma inteligência lúcida, uma cultura e ponderação invulgares e um saber profundo que nas mais insignificantes circunstâncias se revelavam, e impunham ao respeito de todos os que o ouviam.
No exercício da advocacia mostrou-se sempre pronto a acolher todos os que recorriam ao seu saber profissional, jamais se preocupando em distinguir pobres de ricos, a todos tratando com o maior desvelo e o mesmo carinho.”
Acompanharam o féretro, no Cemitério de S. Miguel, onde foi sepultado este respeitado professor e causídico, as mais altas entidades públicas, colegas, alunos e muitos amigos. Na sua lápide ficaram gravadas estas palavras: “Nascer não é começar. Morrer não é acabar.”

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Sala de Leitura de Jornais e Livros da Associação Comercial de Macau

É muito provavelmente a biblioteca pública mais pequena do mundo e não passa despercebida. Localizado no jardim de S. Francisco, junto ao cruzamento da Avenida da Praia Grande com a Rua do Campo, o edifício de formato octogonal e de características chinesas foi construído em 1927. 
O autor do projecto foi o arquitecto chinês Chan Kun Pui sendo o espaço primeira usado como como café/restaurante e sala de bilhar.
Em 1947 Ho Yin, na altura vice-presidente da Associação Comercial de Macau, adquiriu o edifício e transformou-o (inaugurado a 1 Novembro 1948) na Sala de Leitura de Jornais e Livros da Associação, nome oficial que ainda hoje se mantém. 
O Pavilhão Octogonal, como é mais conhecido, tem um telhado duplo, coberto por telhas de cerâmica verdes, com beirais levantados e as suas janelas são guarnecidas com caixilhos de madeira vermelhos. Abriga mais de 20 mil volumes e é sobretudo frequentada pelo público chinês.

Postais: década 1960 (em cima) e década 1930/40 (em baixo)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Aguarelas de Kam Cheong Ling

Um dos primeiros trabalhos de Kam Cheong Ling quando se radicou em Macau no início da década de 1950

Kam Cheong Ling was born in Hong Kong in 1911. After moving to Macao in the 50s of the last century, he engaged in Art Design, Art Creation and Art Education. Kam Cheong Ling was skillful in watercolor painting, his works had recorded the vast changes in Macao society of the past, and its transformations as time goes by.


Em 2014 os CTT de Macau fizeram uma emissão filatélica denominada "Historical Paintings of Macao” -“Macao Seen by Kam Cheong Ling”.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O nº 6 da Estrada de Santa Sancha

Em mais um exercício comparativo - antes e depois - apresento o edifício do nº 6 da Estrada de Santa Sancha. Clicar na imagem para ver em tamanho maior.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Cinema Memorabilia

Organizada pela Associação dos Coleccionadores de Antiguidades de Macau, esteve patente de 13 a 20 deste mês, no Jardim Lou Lim Ieok - Salão Chon Chou T'ong, uma exposição de artigos de memorabilia cinéfila. Os artigos, mais de 500, incluem cartazes, bilhetes, fotografias, etc... propriedade dos membros da associação. Em breve será editado um livro, apenas em língua chinesa, com o resultado da exposição.


Momento da inauguração

O tema tem sido amplamente abordado aqui pelo blogue

Teatro Ho I Kiang e Teatro Nam King

Alguns dos exemplares que puderam ser vistos na exposição



O Cheng Peng foi muito provavelmente a primeira sala de espectáculos (teatro/cinema/ópera) do território. Construído por Vong Lok, um destacado comerciante chinês, entrou  em funcionamento em 1875, ao que consta, incentivado pelo governador António Sérgio de Sousa. A maioria dos espectáculos eram sessões de ópera chinesa. Fechou portas em 1992. Recentemente remodelado inclui um pequeno museu de ópera.

O bilhete mais antigo da mostra é de 1910: teatro Cheng Peng

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Mappa da Barra de Macao

Mappa da Barra de Macao tirado por Costódio E. Azevedo Rendo no mês de Novembro de 1772 sendo piloto do navio Nossa Senhora de Penha de França (...) Dionízio Pereira

Alguns dos pontos assinalados no mapa "Tera de Macao": 
Porta do Cerco; Fortalezas: Monte, Guia, Penha, S. Francisco, Bom Parto, Barra; baía da "Praya Grande", Cacilhas, um pagode... e inclui-se ainda as ilhas da Taipa Grande, Taipa Pequena, Coloane e Montanha.
A nau "Nossa Senhora de Penha de França, São Francisco de Paula e Almas" era navio da carreira do Oriente. Em 1770 chegou a Lisboa vindo da China com escala pela Baía. Em 18 de Março de 1771 largou para Macau.
A fragata, de 34 peças, aparece a navegar em 1762. Em 1772 montava 44 peças. Desempenhou diversas missões, nomeadamente, largou a dar comboio para o Rio de Janeiro, Mazagão e Moçambique; integrou a esquadra do Coronel-do-mar João da Costa de Brito, para correr a costa em corso contra franceses; navegou nos mares do Oriente e participou no combate com maratas em 1772. Por vistoria de 11 de Setembro de 1776, foi julgada incapaz do serviço e mandada desmanchar.
Curiosidade: "Em 1728 chegou a Macau vindo de Gôa o navio Nossa Senhora da Penha de França e nelle por ouvidor desta cidade Antonio Fernandes Teixeira."

domingo, 24 de dezembro de 2017

Boas Festas / Season's Greetings / 节日问候 / 佳節快樂


No ano que agora chega ao fim o blogue Macau Antigo celebrou o 9º aniversário e superou a marca de um milhão de visitantes! Obrigado pela preferência.
 Boas Festas / Season's Greetings / 节日问候 / 佳節快樂

sábado, 23 de dezembro de 2017

De regresso ao "Portugal dos Pequenitos"

Numa época muito especial para as crianças, fica a sugestão de uma viagem a Coimbra, até ao Portugal dos Pequenitos (criado em 1940). Macau está representado num Pavilhão e ainda numa réplica do Farol da Guia e numa Torre de Pagode.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

"We are Proud of Macau!"

Nas imagens um folheto turístico (vol. 1 nr. 2) intitulado "Macau Garden City of the Orient", Vol 1, n.º 2, publicado em 1966, por F. Rodrigues (Sucessores) Lda e pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, SARL, da autoria de Geoffrey Powell. A fotografia da capa é uma dança de leão executada frente ao edifício do Liceu Nacional Infante D. Henrique.
Entre os vários negócios da empresa F. Rodrigues (criada em 1916) existiu a Rodrigues Tours que neste projecto surge associada à STDM.
É muito curioso o texto de apresentação dos editores. Começa assim:
"There can be no proud in poverty and we are very conscious of the fact that some poverty still exists in Macau"... 
E termina num apelo aos turistas explicando que cada dólar gasto no turismo em Macau é uma forma de ajudar o desenvolvimento do território e eliminar a pobreza: "Every dollar you spend in Macau, in its own small way,helps us achieve our aims, to improve the standards of living for the poor in our community (...)".
No remate final escreve-se "There is nowhere else in the whole wide world quiet like Macau. No wonder we are proud of her."
Geoffrey Bruce St. Aubyn Powell, (1918-1989) fotógrafo, jornalista, realizador, documentarista e radialista australiano, visitou pela primeira vez Macau em 1960 no âmbito de um trabalho para o canal de televisão australiano ABC, tendo ido também às Filipinas e Hong Kong e Macau. Em 1962 mudou-se em definitivo para Macau onde tentou vender máquinas de poker o que se revelou um fracasso. No ano seguinte retomou a sua carreira na rádio com um programa na Radio Hong Kong mas devido à sua pronúncia marcadamente australiana o programa foi cancelado. Procurou então montar em 1962 uma estação de rádio em Macau, sem sucesso. Em 1964 tentou instalar uma nova estação de rádio em Macau mas não o conseguiu. Continuou a fazer trabalhos esporádicos para a ABC australiana e abriu uma empresa de turismo trabalhando sobretudo como fotógrafo e tendo como principal cliente o Centro de Informação e Turismo, do Governo de Macau, na promoção do Grande Prémio, nomeadamente nas edições de 1966 (13ª) a 1968 (15ª), atribuindo-se a ele a autoria do cartaz da prova desse ano.
Geoffrey Powell acabaria por casar em Macau em 1970 e no ano seguinte mudou-se para a Tailândia. Em 1974 voltou a Hong Kong e à rádio e dois anos depois regressou à terra natal onde continua a trabalhar na rádio. Em 1989 morreu de ataque cardíaco e foi nessa década que começaram os primeiros trabalhos de investigação com vista à recuperação do seu legado, sobretudo enquanto fotógrafo.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

"Um sermão em Pedra"

“Um sermão em pedra” é o título do segundo capítulo do livro "A fachada de S. Paulo" da autoria do Padre Manuel Teixeira, editado pela Imprensa Nacional de Macau em 1941.
Do livro, impresso a propósito das comemorações dos Centenários da Fundação e da Restauração, retirei os seguintes excertos a propósito da fachada que, construída depois da igreja, ainda em 1640, estava por acabar...
“Desenhado por um mártir e executado por cristãos perseguidos, o Frontispício de antiga Igreja da Madre de Deus ainda hoje campeia, erecto e granítico, por sobre as velhas e modernas construções da Cidade do Nome de Deus, como para mostrar a todas as gerações a obra imortal de Macau na evangelização do Extremo-Oriente.”
“Sendo as Ruínas de S. Paulo ainda hoje admiradas por todos os turistas que nos visitam e sendo um dos mais soberbos monumentos históricos que Macau possui, cumpre-nos dar aqui a descrição da Fachada. Esta é toda de granito e as estátuas de bronze. Dá acesso ao adro da Fachada uma vasta escadaria de 68 degraus, maior que a do Capitólio de Roma. Agora, no adro, podemos contemplar com emoção a majestosa Fachada que, sem apoio de espécie alguma, desafia a fúria dos tufões, a lima do tempo e a incúria dos homens, há mais dum século.
Quatro ordens de colunas jónicas se nos apresentam com um entablamento coroado dum pequeno frontão, tudo repleto de simbólicos ornatos e encimado por remates e pináculos.
A primeira e segunda ordem tem dez colunas cada uma, jónicas na primeira e compósitas na segunda; a terceira tem seis colunas coríntias; a quarta ordem tem apenas quatro colunas a formar a base do frontão com uma cruz no acrotério e dois postes de cada lado.
Começando agora de cima para baixo, temos: no acrotério do frontão triunfa a cruz de Jerusalém; no tímpano do mesmo, a pomba simbólica do Espírito Santo, fundida em bronze, rodeada de quatro estrelas, com o sol à direita e a lua à esquerda; oito obeliscos, encimados por esferas, ornamentam os três corpos do frontão. (...)
Logo abaixo do Espírito Santo, na quarta ordem de colunas, aparece num nicho a estátua do Menino Jesus, estendendo a mão esquerda como a segurar um objecto, provavelmente o globo que lhe caiu da mão e tendo a mão direita entreaberta para o alto com o indicador estendido a apontar o céu; está rodeado dos instrumentos da Paixão, a saber: à sua esquerda, a escada, a cana verde, os cravos, a bandeira do Império Romano; à sua direita, a esponja, a coroa de espinhos, o azorrague, o martelo, a torquês, a lança; aos lados, duas colunas de ordem coríntia de cada banda, tendo entre si duas estátuas de anjos, em corpo inteiro; o anjo da esquerda, com brincos na orelha, suporta a coluna da flagelação; o anjo da direita, com o seu colar denticulado e com botões bem nítidos no peito, suporta a cruz, encimada pelas letras I.N.R.I. (ou seja, Jesus Nazarenus, Rex Judeorum: - ‘Jesus Nazareno, Rei dos Judeus’); ao lado do anjo da esquerda, um pouco mais para fora, vê-se um objecto que semelha um molho de trigo; nas bases dos dois obeliscos sem esferas, lêem-se as inscrições: SP ED RO SP AV LO, isto é, S. Pedro na extremidade do lado direito do Menino Jesus e S. Paulo na extremidade esquerda; ao lado da inscrição de S. Pedro vêem-se dois leões, um na parte da frente da Fachada e outro já na parte ocidental, a bica e a cabeça de Cristo coroada de espinhos também junto ao leão da parte ocidental; depois da inscrição de S. Paulo, vem um leão; quanto ao outro leão da parte oriental e respectiva bica, já lá não aparecem, tendo provavelmente caído com o tempo; ao lado do anjo da direita, aparece uma corda que alguns, sem razão, confundiram com uma serpente e, a seguir, um obelisco sem esfera, em cuja base, como dissemos, se lê o nome de S. Pedro.
William Heine: Jesuit Convent, Macao Facade of St. Paul's Church 1854

Logo abaixo do Menino Jesus, na terceira ordem de colunas, está num nicho a estátua de Nossa Senhora (Imaculada Conceição), de mãos cruzadas sobre o peito; há uma porta que dá para o nicho da Virgem; os símbolos em roda representam o triunfo da Imaculada; emoldurando o nicho há ornatos imitando flores e em volta uma corda em estilo manuelino; a Virgem está rodeada de seis anjos, três de cada lado; os dois de cima, de mãos postas, em atitude de oração e reverência, os do meio tocando trombetas e os de baixo incensando; em cima, uma cabeça de serafim; dos lados, estão seis colunas de ordem coríntia, seis de cada banda; entre a 1.ª e a 2.ª coluna, à esquerda da Virgem, está a Árvore da Vida; entre a 2.ª e a 3.ª, a hidra das sete cabeças, e superiormente um busto da Virgem encimado pela inscrição cuja tradução é: ‘A Santa Mãe calca a cabeça do dragão’; entre a 3.ª coluna e o 1.º obelisco encimado por um globo, vê-se um esqueleto, deitado e ferido por um dardo na ponta dum pau, empunhando a foice ou gadanha, representando a morte, lendo-se por cima a inscrição chinesa em alto relevo cuja tradução literal é: ‘A pessoa que se lembra da morte é sem pecado’ (ou seja, ‘lembra-te da morte e não pecarás’); entre os dois obeliscos, encimados por globos, está uma coroa atravessada por duas flechas em cruz a significar talvez a realeza de Cristo conquistada pelo sofrimento; logo abaixo das flechas está uma porta em miniatura, talvez a Janua Coeli – ‘porta do céu’, que se abre à entrada do Senhor no seu reino. Passando agora para o lado direito da Virgem, temos: entre a 1.ª e a 2.ª coluna, uma fonte; e entre a 2.ª e a 3.ª, um navio de três mastros com um busto da Virgem superiormente e um candelabro de 7 velas inferiormente; entre a 3.ª coluna e o 1.º obelisco, o demónio, atravessado por um dardo, com garras, cauda e asas, encimado por uma inscrição chinesa em alto relevo cuja tradução é: ‘O diabo tenta o homem para praticar o mal’; entre os dois obeliscos, uma pomba. Note-se a seguinte curiosidade: o demónio tem o corpo de mulher e a cabeça de demónio para indicar que a sensualidade é o demónio que arrasta o homem ao pecado. No plano abaixo do demónio vê-se um cálice coberto com um véu, como se costuma fazer na quinta-feira santa, rodeado de duas espécies de flores indígenas, as papoilas e as líchias; neste mesmo plano, logo a seguir ao cálice, está o túmulo para o SS.mo Sacramento e sobre o túmulo uma pomba poisada num globo. (...)
“Na segunda ordem de colunas, há três janelas, hoje desguarnecidas, com flores na parte superior; nesta 2.ª ordem há dez colunas, como já dissemos, cinco de cada banda; do lado esquerdo da janela central, está uma palmeira entre a 1.ª e a 2.ª coluna; depois vê-se a estátua de S. Francisco Xavier num nicho entre a 2.ª e a 3.ª coluna; vem a seguir uma janela e depois a estátua de S. Luiz Gonzaga, então Beato, num nicho entre as duas colunas extremas; do lado direito da janela central, ostenta-se uma palmeira entre a 1.ª e a 2.ª coluna; depois a estátua de Sto. Inácio de Loyola, num nicho entre a 2.ª e a 3.ª coluna; segue-se uma janela e depois a estátua de S. Francisco de Borja, num nicho entre as duas colunas extremas. Na base de cada uma das estátuas lêem-se os seguintes dísticos: B. RC.º B. S. IGNA. S. RC.º X. B. LVIS G. que significam: Beato Francisco Borja, Sto. Ignácio, S. Francisco Xavier e Beato Luiz Gonzaga. Nas abreviaturas de Francisco, segundo o uso dos antigos, no R está incluído o F. Estas estátuas foram provavelmente trabalhadas na fundição de Manuel Tavares Bocarro, que então fabricava, em Macau, canhões de ferro e de bronze.
Na primeira ordem de colunas, há três portas, hoje guarnecidas com portões de ferro; sobre a porta principal, lê-se a inscrição: MATER DEI; esta inscrição vem emoldurada por quatro artísticos pólipos, um em cada canto, estendendo os seus tentáculos para sugar, e ligados por uma cadeia de pérolas e diamantes; sobre as duas portas laterais está um coração em chamas encimado pelo emblema da Companhia: JHS.
Na pedra da esquina ocidental, lê-se: VIRGINI MAGNAE MATRI CIVITAS MACAENSIS LIBENS POSSUIT AN. 1602
Na Fachada há vários degraus, pelos quais se pode subir desde o fundo, passando pelo centro até ao frontão superior.
Vemos, pois, que esta Fachada com os seus simbolismos tão significativos é um sermão em granito, que todos podem ler sem grande dificuldade; poucas fachadas haverá que narrem a sua história com tanta clareza como esta, que é mesmo um livro aberto. ‘Eis – exclamava há pouco tempo, nas páginas da revista The Rock, um ilustre jesuíta irlandês, o P. Y. D. Francis – eis todo o sermão: é uma verdadeira teologia em pedra; é a Comunhão dos Santos, em que Maria, a Mãe de Divina Graça, tem a sua parte gloriosa. Começando pela fileira de cima, podemos reduzir a lição toda a uma sentença: pela graça do Espírito Santo, num determinado momento (primeira fila), Cristo incarnou e com a sua Sagrada Paixão alcançou-nos a graça e libertou-nos da morte e do inferno, vencendo estes monstros (segunda fileira) e esta graça é-nos concedida por meio de Maria (terceira fila), por cuja poderosa intercessão todos podem nutrir a esperança de transpor as portas da Eternidade. De maneira que a economia da salvação consiste em que Deus nos devia salvar por meio de Cristo, cujos merecimentos são aplicados às nossas almas pela intercessão, em primeiro lugar, da Sua Santíssima Mãe e, depois, de todos os Santos’.
Foto de John Thomson em 1870
Esta é, em linhas gerais, a tradução daquele sermão em pedra, daquela teologia sistematizada. Procuremos agora tentar explicar todos os símbolos, começando pelo frontão da Fachada. Em cima, campeia a Cruz da Redenção, o símbolo mais vivo e impressionante do cristianismo, que não é mais que o amor de Deus em Cristo. O Espírito Santo baixa do céu, onde se vê o sol, a lua e as estrelas, a cobrir Maria com a virtude do Altíssimo; é que a Incarnação, realizada no tempo, é obra do céu.
Cristo apresenta-se Menino, porque como tal nasceu de Maria; mas esse Menino que aos 12 anos maravilhou os doutores da lei, aponta para o céu com o indicador, e com a outra mão sustenta o mundo; foi pela sua Paixão dolorosíssima, cujos instrumentos se representam naquela fileira, que remiu esse mesmo mundo do pecado e lhe abriu as portas do céu. – O molho de trigo, que se vê na mesma fileira, refere-se a José do Egito, tipo de Cristo Menino. Nossa Senhora está rodeada de anjos, uns em prece em atitude de veneração, outros embocando a trombeta e outros incensando; a fonte e a árvore da vida são símbolos de Maria, donde brotou Jesus, o fruto do seu ventre, que veio para a todos dar vida e uma vida mais abundante; a Virgem, pela sua Imaculada Conceição, calca a cabeça do dragão infernal, a hidra das sete cabeças, e triunfa da morte e do inferno, pois que tanto o esqueleto como o diabo se encontram derrotados e prostrados por um dardo; o navio representa a esperança, com que havemos de chegar ao porto de salvamento, às praias da Eternidade; a pomba inocente e pura representa também a Virgem sem mancha, e a coroa e as flechas o amor e a realeza de Cristo. Vêm então os Santos que, velejando em busca do porto, pela graça de Cristo e pela intercessão de Maria, já o alcançaram, lançando ferro nas praias da Eternidade.”

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Leading residents of Macao (1908)

No livro de 1908 "Twentieth Century Impressions of Hongkong, Shanghai, and other Treaty Ports of China há um sub-capítulo intitulado "Leading Residentes of Macao". Entre as dezenas de figuras proeminentes da sociedade macaense do início do século XX estão:

Dr. Alfredo Pinto Lello, Colonial Secretary to the Government of Macao, was born in 1864 at Fontes, in the district of Villa Real, Portugal. From 1890 to 1892 he was Colonial Secretary of the province of Mozambique, and Acting-Governor of the District of Lorenzo Marques. He was transferred to Macao in 1893.

Count de Senna Fernandes, the Consul for Siam, in Macao, is a native of the Portuguese Settlement. Born in 1867 he received an excellent education at St. George's College, Weybridge, Surrey, and, at the age of twenty, returned to the place of his birth with the most pleasant memories of his stay in England, and well equipped for the responsibilities of later life. Besides having the supervision of certain commercial interests, he became the intermediary between the Chinese and Portuguese Governments. In recognition of his public services he has been made a Commander of the Legion de Conception, and decorated with the Order of the Crown of Siam.

Mr. A. P. de Miranda Guedes, Director of Public Works and Superintendent of the Fire Brigade, was born at Poiares, near Regoa, in the district of Villa Real, Portugal, in 1875. He obtained honours at the University of Coimbra and at the Army School in Lisbon. As a civil and mining engineer he served in several Portuguese colonies, including West Africa, and has been Chief of the Railway section of St. Thomé, Chief of the Survey of the Railway of Malange, and Director of Land Surveys in Angola. He received his present appointment in 1906.

Mr. Pedro Nolasco da Silva has taken part in a number of progressive educational movements, and has been responsible for initiating several important municipal improvements. He was born at Macao, on May 6, 1842. During his academic course at the Seminary of St. Joseph he won the first prize in Philosophy, and, on the completion of his studies, was appointed Student Interpreter in the Government Chinese Translation Department, of which, subsequently, he rose to be the head. When, later, the department became an independent government office he was responsible for its total re-organisation. In 1887 Mr. Nolasco da Silva was appointed Secretary Interpreter to the Portuguese Minister Plenipotentiary to Peking, Conde de Souza Roza, at present Ambassador in Paris, whose special mission to the Chinese capital resulted in the Portuguese-Chinese Treaty of December 1st of that year, in which China, for the first time, recognised the sovereignty of Portugal over Macao. Always interested in educational matters Mr. Nolasco da Silva has been a teacher of Chinese in the Seminary of St. Joseph, and in the Commercial Institute. He has translated and compiled several school-books, among which is the "Manual da Lingua Sinica para uso dos Joveus Macaenses." He founded the "Associacao Promotora da Instruccao dos Macaenses" (the association for the promotion of the education of Macaenses), which now maintains the English Commercial School conducted by Mr. R. A. Coates, a graduate of Dublin University, and he organised the two central schools of primary instruction for boys and girls respectively. It was due also, to his initiative, that that splendid charitable institution, the Santa Casa da Misericordia, was revived, and, by his organisation of the great "Santa Casa" lottery, placed on a sound financial basis. For several years he was the provedor, or president, of this far-reaching philanthropic enterprise, and his term of office was marked by the erection of the Orphans' Asylum, the introduction of the service for the relief of the poor, and the framing of the present regulations. Mr. Nolasco da Silva's participation in municipal affairs has been no less noteworthy. During his occupancy of the positions of vice-president and president of the Municipal Council or the "Leal Senado" as it is termed locally, a number of important reforms were carried out. The new market and some fine commodious buildings were erected on the site of the old São Domingo market and in the Largo do Senado, where, formerly, only insanitary little houses existed. In other parts of the town several resumptions of insanitary property were also carried out, and the lighting of the public streets by electricity was due almost solely to his efforts. For a time Mr. Nolasco da Silva was editor of the Echo do Povo, a Portuguese weekly paper published in Hongkong, and he was also the principal contributor to the weekly papers, O Macaense and the Echo Macaense, published at Macao. He is a member of the Conselho Inspector da Instruccao Publica, and has been several times a member of the Conselho de Provincia. About twenty-five years ago, in recognition of his many services, he was created by the Portuguese Government Cavalleiro da ordem de Nosso Senhor Jesus Christo.

Mr. Francisco Xavier Pereira (imagem à dta.) has the distinction of being the youngest president of the Leal Senado ever appointed. He was elected to the position in 1907, and his term of office will not expire until 1909. Born at Macao in 1883, he was educated at the Macao Lyceum and at Coimbra University. After being admitted as a barrister, he returned to Macao, in 1905, to practise law.

Mr. A. J. Basto, who has been elected many times as president of the Leal Senado, has practised as a lawyer in Macao for thirty-eight years. Born in Macao in 1848, he travelled a great deal during his younger days, visiting Shanghai many times, India, Portugal, France, Spain, Italy, England, and different parts of Africa. He is a Commander of the Portuguese Order of Christ, the Order of the Pope, the Rising Sun of Japan, the Crown of Siam, and the Redemption of the Republic of Liberia; a Chevalier of the Legion d'Honneur, and a Knight of various other orders. Mr. Basto is also a Fellow of the Royal Geographical Society of England, a member of the Royal Geographical Society of Lisbon, and of other scientific societies of Europe, and was the secretary of a Diplomatic Mission from Portugal to Japan and Bangkok.

Dr. Lourenço Pereira Marques (imagem ao lado), son of the late Commander Lourenço Marques, was born in Macao, in the famous garden of Camoens, which belonged to his family. Educated at the Royal College of St. José, Macao, and at Lisbon and Dublin, he is a Fellow of the Royal Academy of Medicine in Ireland, a member of the Royal College of Physicians of Ireland, and a Fellow of the Royal Geographical Society of Lisbon. He is the author of essays on various subjects, and has written several articles descriptive of his travels. He is a Commander of the Portuguese Military Order of Christ, and a Knight of the Ancient and Most Noble Order of the Tower and Sword, the latter decoration being awarded him in recognition of assistance rendered during the plague epidemics. Dr. Marques frequently gives poor patients the benefit of his medical experience without payment. He has a large circle of friends, and is a highly esteemed member of the local community.

Mr. Luiz Augusto Lopes Remedios, the Postmaster-General of Macao, was born in the Colony in 1874, and was educated at Macao and Singapore. At the age of nineteen he joined the China Trades' Insurance Company, but returned to Macao in 1900, and received his present appointment two years later.

Mr. A. H. Wilzer, the Commissioner of Customs for the Lappa district, which encircles Macao, was born at Hamburg in 1866 and educated there. He came to China in 1887 for the Customs service, and was stationed, first at Swatow, and afterwards at Peking and Canton. In 1899, following immediately upon his return from a holiday trip to Europe, he was appointed to Shasi on the Yangtsze, and, one year later, to Peking. On his way north, he was delayed at Tientsin by the Boxer troubles, and, returning to Shanghai, held an appointment there until 1901. He was then retransferred to the capital, where he remained till the end of 1904.
Mr. M. da Silva Mendes, who has been practising as a lawyer and advocate in Macao since 1902, was born in 1870 at Santo Thyrso. He had a very successful career at Coimbra University, and now, in addition to his professional duties, he is Professor of German at the Institute of Macao. He devotes a considerable portion of his spare time to literary work, and his publications include "O Socialismo Libertario on Anarchismo," and "Guilherme Tell."
Nota: Ao contrário do que é mencionado Manuel da Silva Mendes nasceu em 1867 e chegou a Macau em 1901.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

"Reviews" de Wartime Macau Under the Japanese Shadow

O ano passado, mais ou menos por esta altura, era editado em Hong Kong, pela Hong Kong University Press, o livro "Wartime Macau Under the Japanese Shadow", uma co-autoria de várias pessoas, coordenadas por Geoffrey C. Gunn, em que me incluo num capítulo dedicado aos aspectos económicos das consequências do conflito em Macau intitulado "Living on the Edge: Economic Management over Military Defences".

Ao longo dos tempos têm sido publicadas algumas críticas sobre o livro; deixo aqui algumas...
- The China Journal, Vol. 79 Jan. 2018
- South China Morning Post (21.12.2016)
- Journal of Asian History, Vol. 51 (2017)
- Asian Affairs, 2017


O convite feito por G. Gunn para a minha participação neste livro teve por base um outro título, da minha autoria, editado em 2012: "Macau 1937-1945: os anos da guerra". Aqui ficam as capas dos livros para memória futura e mais uma referência publicada anteriormente no blog.
Excerto da "review/crítica" de Peter Gordon:(...) Whether by accident or design, Wartime Macau’s combination of the personal and political stimulates intellectually and emotionally.
The intellectual satisfying moment comes with Gunn’s discussion of how Macau fit into the geopolitics of the Second World War. It is too simple to say that Portugal was neutral, that therefore Macau was considered neutral territory and the Japanese respected it. Neutrality was not enough to spare East Timor, for example: Japan invaded to expel a small group of Australian, British and Dutch forces that had installed themselves there. Japan never left. Portuguese protestations had to stop short of a declaration of war because Macau would have been immediately occupied.
The Allies, meanwhile, were concerned about Portugal’s vulnerability and were angling for base rights on the Azores. Germany didn’t want Portugal to tip into outright Allied solidarity. António de Oliveira Salazar, the Portuguese leader, was working to preserve Portugal’s colonial possessions in the future post-War period. The resulting unstable equilibrium contributed to preserving Macau’s precarious autonomy: it was a close thing at times.
Similarly interesting, if less far-reaching, is the discussion of the role that Banco Nacional Ultramarino played in maintaining some semblance of financial stability at a time of multiple fluctuating currencies.
The hero of the book, if such a book can be said to have had one, is the Governor of the time, Gabriel Maurício Teixeira, who managed to keep the place going despite food shortages and a dramatic influx of refugees which more than doubled Macau’s population; Macau seems, at least by today’s standards, to have been remarkably generous. Teixeira also had to contend with the murder of the Japanese consul, the bombing of Macau by the Americans, and other incidents which could have brought an end to the enclave’s precarious autonomy. Other personalities also make their appearance: the British Consul John Pownall Reeves, Pedro José Lobo and, of course, Stanley Ho. (...)"