quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A burla no Casino do Hotel Estoril em 1964

«O enigmático “operacional” britânico Herbert Lester, que era visita de casa de António de Oliveira Salazar, tinha entre os seus amigos um gang de burlões de casinos procurados pelo FBI, cujo líder, um homem de "reputação insípida", foi protegido pelo Estado Novo».
É assim que começa um artigo publicado no suplemento do jornal "Público" a 31.12.2017, da autoria de Bárbara Reis e com o título  «O misterioso “tio Herbert” com quem Salazar tratava dos negócios “sem papéis”».
A história é longa e complexa pelo que apenas destaco aqui (excertos) o que diz respeito a um facto que julgo ser pouco conhecido: uma burla no casino do Hotel Estoril em 1964
O telegrama para a Touring Lisboa foi enviado de uma prisão de Macau e era dirigido a… Herbert Lester.
LESTER URGENT INFORM TED / ISTANBUL HILTON / WE ARE ARRESTED MACAU / USE ALL POLITICAL INFLUENCE / BENNY LIPSON
Benny Lipson, um “negociante americano”, acabara de ser preso em Macau com mais cinco americanos e um chinês, todos acusados de terem roubado ao Casino do Estoril de Macau 1.155 contos (cerca de meio milhão de euros ao preço actual), com dados de jogo viciados.
Interceptado pela PSP de Macau, o telegrama foi transcrito e enviado para o director da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) em Lisboa, Fernando da Silva Pais, com uma gralha — “JLester” em vez de “Lester”. Além disso, o tradutor dirige a atenção para Theodore Lewin, o tal “escroqueteiro” procurado pelo FBI desde 1952, e não para Lester, visita de casa de Salazar: “Benny Lipson enviou um telegrama dirigido a Touring-Lisboa no qual informava que tinham sido presos em Macau e pedia para que TED (Ted Lewin?) usasse toda a sua influência política.” A interrogação dentro do parêntesis é do próprio comandante da PSP de Macau. Todos os dados de que dispõe parecem indicar que assim seja, mas o tenente-coronel Octávio de Figueiredo não tem a certeza se o Ted do telegrama é o Ted Lewin que o visitou dias antes com uma conversa esquisita. Apesar de tudo, a PSP de Macau faz um alerta relevante e nota que o telegrama fora enviado para a empresa dos Garton da Madeira. Mas fica a dúvida: a quem é que Benny Lipson pede o uso de “toda a influência política”? A Herbert Lester, a Ted Lewin ou aos dois? (...) 
Se havia alguém em Portugal capaz de ajudar os homens detidos em Macau, Herbert Lester era um deles. 
Já com Ted Lewin, o americano instalado no Hilton de Istambul no momento da burla, a história é outra. Não está perdido em Portugal, mas tem um rasto de alertas, mandados de captura e denúncias nos serviços de informação dos quatro cantos do mundo. Em 1964, é sócio da Sociedade Luso-Americana de Representações, Lda., que vende material eléctrico e tem como “objectivo o fornecimento às Forças Armadas de diversos materiais”, diz um relatório da PIDE consultado pelo PÚBLICO na Torre do Tombo, mas “funciona praticamente como um departamento técnico da ECOMAR, com sede em Luanda, uma importante empresa do Ultramar Português” que pertence ao milionário João Ildefonso Bordallo, de Cascais. O sócio original de Ted Lewin fora Manuel Roseta Fino, escreve a PIDE, mas em 1964 esse lugar era já do major reformado João Donas-Botto. (...) 

Poderá ser outro Lewin, também americano e também interessado em casinos. Mas uma coisa é certa: quando Benny Lipson é preso com os seus alegados cúmplices, é ao amigo inglês de Lisboa, Herbert Lester, que pede ajuda. E se Lester conhecia bem Ted Lewin, é normal que este conhecesse Mrs. Cary Garton.
A burla de Macau é um filme rápido, cujas peças a PSP junta em poucos dias. A 12 de Março de 1964, o major Donas-Botto envia um telegrama ao comandante Octávio de Figueiredo que diz: “PEÇO FAVOR ATENDERES AMIGO SENHOR LEVIN PROCURARA MACAU ABRACOS DONAS BOTTO.” Lewin chega a Macau no barco Fat Shan a 21 de Março, com um visto emitido no dia 3 pelo consulado de Portugal em Nova Iorque, já a PIDE sabia que ele era um fugitivo da justiça americana. No mesmo barco, vinham John Jackson Boyle, R.B. Legaspi, vice-cônsul filipino, e a mulher, e David Day.
No dia 23, Lewin telefona ao comandante da PSP e pede para ser recebido. Escreve Figueiredo ao director da PIDE, num relatório em papel-Bíblia de sete páginas: “Lewin apresentou-se no comando pelas 15h para pedir os bons ofícios no sentido de a gerência do Hotel Estoril de Macau permitir ali uma estadia mais prolongada”. “Trazia uma carta de recomendação do cônsul de Portugal em Honolulu” e também do “Dr. Carlos Assumpção (advogado local) e do Sr. Teodoro dos Santos”, um empresário que ficara rico com uma fábrica de malas do Aljube, ao pé da Sé de Lisboa, e tinha entretanto ganho a concessão do Casino do Estoril (cuja praça tem hoje o seu nome). Nesse encontro, Lewin falou do seu amigo major Donas-Botto e disse “que costuma ir a Lisboa-Estoril e pretendia em Macau estudar a possibilidade de se dedicar aqui à indústria hoteleira e de construção civil”, escreve Figueiredo. No dia 24, também no Fat Shan, desembarcam William McKinkley Barret, David Felstein e Harold Glenn Grayson. E a 28, James George Cyrus chega no hidroplanador Coloane.
Entre o instinto e os mandados de captura do FBI, alguma coisa deixou a PSP de Macau desconfiada. A 2 de Abril de 1964, chega à PIDE um telegrama com pedido urgente para envio de “todos os elementos conhecidos nessa Polícia sobre o cidadão americano TED LEWIN aqui presente há dias como turista”. Se a informação chegou, não foi a tempo. “Rogo V. Exa transmitir urgentemente director PIDE seguinte: grupo seis americanos possivelmente chefiados Teo Lewin aliás Ted Lewin aliás Theodore Lewin realizaram Casino esta cidade burla jogo dados viciados montante superior mil contos. Lewin saiu Macau antes realização burla”, lê-se no telegrama guardado no Arquivo da PIDE. Depois do desfalque na madrugada de 6 de Abril, “um dos burlões pretendeu expedir telegrama Touring Lisboa. Touring é endereço telegráfico firma Manuel Passos Freitas Companhia Rua Alecrim 45. Telegrama vai ser autorizado seguir depois este. Solicito Vexa informar reacções consequentes esse telegrama. Segue relatório via aérea. Lewin amigo major João Donas Botto, residente Estoril. Governador.” (...)
Não sabemos o que Lester fez com o pedido de ajuda de Macau, se alguma coisa, quando ainda gozava de confiança no sistema. Sabemos apenas o desfecho da história. A 5 Dezembro de 1964, o comandante Figueiredo informou o director da PIDE que os “seis americanos e um chinês” tinham sido "libertados sem julgamento" e “expulsos da Província de Macau” por serem “considerados estrangeiros indesejáveis”.

E Ted Lewin? “Lewin saiu Macau antes realização burla”, dizia já o telegrama do governador. Depois de Istambul, o “súbdito americano" voltou para Lisboa, onde entrou “pela fronteira do aeroporto” a 30 de Maio, dois meses depois da burla, e alojou-se no Hotel Albatroz, em Cascais. Nas barbas da PIDE. Em Junho, o inspector-adjunto da Divisão de Estrangeiros pergunta à Secção Reservada “se há inconveniente em que seja autorizada nova prorrogação do visto”. É plausível que tenha circulado à vontade. Preso, não foi. Dois anos depois, quando a Interpol de Zurique pergunta se as procuras de Lewin "foram até agora negativas" e pede para "indicar se continuam a procurar esta pessoa", um inspector da PIDE responde “já não se tornar necessário a continuação da diligência”. E em 1967, quando a embaixada dos EUA em Roma escreve à PIDE a informar que recebera informações de que "Theodore Lewin está a viver no Hotel Estoril-Sol, apartado 1605, Cascais", ninguém se impressiona na António Maria Cardoso. Os americanos dizem que "Lewin é conhecido por associação com traficantes de narcóticos" e que, "com tal reputação, existe a possibilidade de que possa estar a usar Portugal como base de operação para as suas actividades ilícitas", mas os serviços de informação do Estado Novo respondem secamente: “Não lhe têm sido assinaladas quaisquer ligações com elementos com cadastro criminal."

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