segunda-feira, 29 de maio de 2017

Shao Seng: o deus da longevidade

O  título deste post é fiel ao original de Manuel da Silva Mendes, Shou Xing, mas para melhor se perceber, convém referir que são vários os nomes pelos quais é conhecido o deus da longevidade: desde Shao Seng, Shou Xing ou Shou Xi (longevidade feliz) a Nanji Laoren (“Velho Homem do Polo Sul”). 
Normalmente a figura surge representada com um pêssego, pois a palavra “pêssego” em chinês tem o mesmo som de “longevidade”  - “shou” - sendo acompanhado de uma garça ou tartaruga, outros símbolos de longevidade, ou ainda um morcego, símbolo de riqueza.
Por norma tem ainda um cajado feito de madeira de pessegueiro (árvore da imortalidade) e uma cabaça, que lá dentro tem o elixir da imortalidade.
A longevidade pertence à trilogia das divindades populares, também conhecida pelas três divindades estelares(三星san xing): a Felicidade (福fu), a prosperidade (祿lu) e a longevidade (壽shou).
Feita esta pequena introdução deixo-vos com o texto original de Manuel da Silva Mendes escrito em 1921.
Shao Seng
Uma figura que em toda a China se encontra, pintada ou modelada em louça, em madeira, em bronze, aspecto de velho simpático, de pé ou a cavalo em uma ...corça, com um pêcego numa das mãos e um cajado, de que uma cabeça pende, na outra, é Shao Seng, o deus da longevidade.
É relativamente recente tal representação antropomórfica desta divindade. Sob as dinastias Chao e T’sin, Shao Seng era, como todos os deuses do pantião chinês, ainda só representado por um simbolo geométrico. Não ha dados que levem a determinar-se quando começou o culto a esta divindade; mas sabe-se que o primeiro imperador de T’sin, logo que derrubou a casa de Chao (246 antes de Cristo), sacrificou a Shao Seng na cidade de Chi Po.
Shao Seng é uma estrela, a Estrela do Velho, a estrela do polo sul, que está no Ceo a sul das estrelas pelos chineses chamadas Hu, constituindo uma parte das constelações do Grande Cão e de Argo. Anima essa estrela um espirito divino, que é Shao Seng, com o condão especial de poder dar felicidade e longa vida aos homens; e foi para alcançar estes dois bens que o referido imperador sacrificou a este divino espirito: paz ao império e felicidade e longa vida a êle sacrificante.
Os condões divinos não se aquilatam pela história que se se aquilatassem, dessa vez o Espirito do Velho teria, merecidamente, caído em descrédito grande, pois aconteceu que nem deu então ao império paz, nem longa vida ao imperador: este, poucos anos depois que a Shao Seng sacrificou, morreu; e o sucessor, mal tomou do posto posse, foi-se abaixo com uma revolução. Mas, porque os deuses facilmente da história triunfam, nada perdeu no publico conceito Shao Seng com ter dessa vez ficado em cheque o seu condão divino; e continuou como até ali, e continua a ser, reputado deus que dá felicidade e longa vida a quem o invoca do coração...
Porque entre os espiritos stelares foi o de Shao Seng escolhido para dispensador de longa vida e felicidade, diz-se no édito do imperador Yuen Chong (736 A. D. da dinastia Tang), publicado no 24.° ano do seu reinado: por ser a estrela, que êle anima e em que reside, a primeira dos vinte oito constelações, «pois obter o nascimento é a primeira das virtudes, e obter vida longa a maior das felicidades».
Na capital imperial ordenou o dito monarca que um terraço especial fosse erigido para o devido culto a Shao Seng. Ê sob a seguinte dinastia de Sung continuou esta divindade a receber sacrifícios segundo o rito estabelecido sob a dinastia T’sin pelo ministro Lao Pou Wei no equinócio do outono. Sabe-se tambem que no reinado de Hong Wu, primeiro imperador da dinastia Ming, ainda a Shao Seng eram oficialmente oferecidos sacrifícios; mas parece quo dahi em diante os imperadores se mostraram menos devotos para com este divino espirito.
Os deuses chineses estão, como os mortais, sujeitos a ingratidões e á perda do crédito. Ha divindades, consideradas de grande valia durante séculos, que, por casos que ás vezes não são conhecidos, perdem de repente ou pouco a pouco a reputação e cahem em olvido. Quem viaja pela China topa aqui e ali com templos em ruina de deuses que se desacreditaram.
Shao Seng, porém, se oficialmente viu o seu crédito prejudicado, continua na massa popular a ser o que sempre foi. No culto oficial não teve jamais este espirito forma humana; sempre foi simbolicamente representado por uma simples taboleta, para a qual se dignava descer e nela repousava quando era invocado e sacrificios lhe eram oferecidos. Findos, ascendia, qual Mercurio, á sua, stelar séde. O povo, porém, que nunca poude compreender bem um deus-taboleta, deu-lhe forma humana e representa-o, como acima o descrevemos, um bom velhote, de cabeça alta como duas, etc.
Do Shao Seng conta-se um milagre realizado no tempo dos Três Reinos que consagrou definitivamente o seu poder de alongar a vida. Foi o caso que, tendo o célebre adivinho fisionomista Kun Ló reconhecido que certo jovem não passaria dos vinte anos, aconselhou-o a que levasse a certo sitio um barril de vinho e ali o désse a beber a dois sujeitos que lá encontraria a jogar damas.
O rapaz foi e efectivamente encontrou lá os tais indivíduos a jogar: mas tão entretidos estavam, que esvasiaram o barril, copo após copo, sem darem pela presença do rapaz. Só no fim da partida viram que o vinho que tinham bebido era do rapaz.
«E agora (um deles disse) como poderemos recompensar este mocinho? Deixa vêr dahi esse livro (o outro respondeu)».
Examinou o livro e viu no assento respectivo á vida do rapaz que êle não passaria dos 19 anos. Pegou em seguida num pincel e trocou os algarismos; e o rapaz viveu 91 anos.
Os jogadores eram um o Espirito da Estrela do Norte, e o outro o Espirito da Estrela do Sul, Shao Seng. Foi este que trocou os algarismos caso que deu em toda a China grande fama a este espirito e, rialmente, não era para menos. Dahi em diante ficou tendo inúmeros adoradores.
Na Europa não há, que nos conste, nenhum Shao Seng; mas tem havido e há elixires de longa vida que não tem feito nem fazem milagres maiores do que há China tem feito o Espirito do Velho. Na Europa, a moda, o Shao Seng de agora, é o leite fermentado (salvo seja, pôdre), que se diz que faz com que a gente vá até macróbia. Vende-se em Macau no Café Victoria, ex-Café de Luxe (Avenida Almeida Ribeiro) e gente fina, entre a freguesia, há quem não crê na religião, mas o toma com mais fé do que um católico convicto, a santa hóstia...
Manuel da Silva Mendes. in “Macaense” 9/1/1921. 

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