quinta-feira, 18 de maio de 2017

Heroes e Martyres

"Heroes e Martyres. A Infantaria Portugueza. Paginas gloriosas do nosso povo".
É este o longo título da obra da autoria de Eduardo de Noronha (1859-1948) publicada pela Livraria Moderna em 1905. Nas mais de 400 páginas o autor recorda "alguns trechos commoventes da nossa historia, em que a peonagem, a arraia-miuda dos primeiros tempos da monarchia, o plebeu anonymo, o que mais tem sentido o sacrosantissimo amor da patria, se impoz pelo seu valor pessoal, pela heroicidade das suas façanhas, pela abnegação com que sempre offereceu a vida ao paiz e escreveu com o seu sangue as mais brilhantes paginas militares de que se póde ufanar um povo". 
Sobre Macau o autor escreve que "É rica em aventuras a existência d'essa pequena peninsula em Macau, onde os portuguezes se estabeleceram em 1547, e que é hoje uma das nossas colonias mais florescentes. Não cabe nos pequenos limites d'este capitulo fazer a gloriosa historia d'essa possessão. Apenas diremos que os seus princípios foram difficeis, que houve luctas terríveis em terra e no mar; que alli foi provedor dos defunctos e ausentes, durante dois annos, o nosso grande épico I.uiz de Camões e que ahi trabalhou no seu immortal poema; que entre hollandezes, chinezes, e portuguezes houve rivalidades e attritos que nos custaram muito sangue e muito dinheiro".
Eduardo de Noronha escreve sobre "heróis e mártires" relativos a Macau e relata, por exemplo, o episódio do Forte do Passaleão (republicado na Revista Colonial em Janeiro de 1913) e faz relatos curiosos sobre a personalidade de Ferreira do Amaral.
"A 21 de abril de 1846 toma posse do governo de Macau João Maria Ferreira do Amaral. O novo governador pertencia á marinha de guerra. Em 1821 era aspirante. A 24 de fevereiro de 1823 a tripula- ção da esquadra portugueza tomava parte no combate da ilna de ltaparica, querendo reduzir á obediência os colonos do Rrasil, que tinham proclamado a sua emancipação da mãe patria. A ilha foi atacada pelos escaleres da esquadra, e os marinheiros foram, como sempre, heroicos, mas o ataque foi repellido. Logo no principio da acommettida o guarda marinha Ferreira do Amaral foi ferido por uma bala no braço direito. Levado á força para bordo do brigue Audas, que servia de hospital de sangue, teve ahi de soffrer a amputação d'esse importante orgão. Ferreira do Amaral sujeitou-se á operação sentado numa cadeira, fumando um charuto, e quando os medicos acabaram, pegou no braço cortado, e atirando-o ao ar bradou com enthusiasmo: «Viva Portugal!» Em seguida, ainda mal pensado, subiu ao convez e de lá exhortava os seus camaradas a combaterem até alcançar victoria. Promovido tenente, emigrou mais tarde para a ilha Terceira e tomou parte nas campanhas da Liberdade. Fez parte da expedição do Mindello, commandou o brigue S. Boavemtura, e a esquadrilha do Ribatejo, que em 1833 defendeu Lisboa pelos lados de oeste. O almirante Napier dedicava-lhe particular estima e escolhia-o sempre para as missões mais perigosas. No fim da campanha era official superior, posto que obtivera por distincção.
Comandou a corveta Urania e a fragata Diana, ambas encarregadas de espinhosas e difficeis cornmissões em que o seu commandante se houve com a costumada perícia. Em Angola perseguiu com o maior denoto os negreiros, denodo que lhe valeu diatribes e intrigas, das quaes se libertou e justificou com o maior desassombro. Findou por aqui a carreira marítima, que tanto illustrara, o valente commandante. Ferreira do Amaral mantinha a bordo dos seus navios uma disciplina de ferro. Contam-se d'elle algumas excentricidades. A bordo da corveta Urania era servido a mesa por um chimpanzé. Uma vez que offerecia um jantar, fundeado em frente de Paço d'Arcos, uma das convivas, ao ver o feio animal deitar-lhe o vinho no copo, assusta-se, solta um grito, o macaco atrapalha-se por seu turno e deixa cahir o copo, que mancha o vestido da dama. Amaral zanga-se. castiga o chimpanzé, que impressionado, deixa de comer e morre de inanição. O brioso official domestica então outros dois macacos, para os utilizar como o anterior, mas estes não são nem tão submissos, nem tão sensíveis. Uma vez que o commandante de um navio inglez vae a bordo da Urania retribuir cumprimentos, um dos quadrumanos agarra o chapéu armado do official britannico, trepa com elle para a mastreação e de lá deixa-o cahir ao mar. A victima não se zanga e toma o partido de se rir, declarando que vae arranjar dois pagens da mesma especie. 
Amaral adquirira o habito de entrar nos navios sendo içado ao caes, indo assentado numa cadeira de braços, quando poderia subir pela respectiva escada do portaló. Diz-se que a cadeira em que fazia essa singular ascenção era a mesma onde lhe fôra amputado o braço. Seria superstição! Foi heroe em mais de uma aventura galante, que lhe originaram vários duellos, batendo-se sempre á pistola e ferindo mais de um adversário. 
Vejamos agora o que dizem alguns dos seus biographos: Ferreira do Amaral era deputado por Angola, quando foi nomeado governador da província de Macau. O novo chefe ia resolvido a estabelecer a absoluta independência da colónia e a levantar o nome portuguez na China. Tinha a luctar contra a contumácia e o systema sophistico dos chinas, bem como contra o abatimento e interesses de alguns habitantes, mas não trepidou e o seu animo de ferro deu-lhe forças para tudo vencer. A elle deveu a colonia todo o bem estar qué posteriormente gosou. Começando desde logo a tomar medidas acertadas, foi augmentando de incentivo ao passo que ia affirmando a nossa soberania. Assim, se a 8 de Outubro de 1846 suffocou a celebre revolta dos faitiões, com mais energia firmou, em 5 de Março de 1849, a abolição e a expulsão do ho-pu, ou alfandega chineza de Macau, que mandou fechar a 13 do mesmo mez, causando grande assombro tal resolução, mas livrando-se a colonia de maior vexame que sobre ella pesava. (...)"

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