segunda-feira, 20 de maio de 2013

Os adivinhos chineses

A comunidade portuguesa conhece-o por “Tio Pak”. Desde a antiguidade (segundo o calendário chinês, há cerca de 5000 anos a.C.) já os homens procuravam através de várias maneiras, predizer o futuro. Assim, os homens da antiguidade foram, pouco a pouco, introduzindo processos, uns mais simples e outros mais complicados, que lhes permitiam ultrapassar o presente, para tentarem conhecer o futuro.
A China terá sido a nação onde surgiu maior variedade desses métodos. Infelizmente durante a Revolução Cultural da China, em 1966, a adivinhação foi totalmente abolida, só voltando a reaparecer, pouco a pouco, após a morte de Mao Tsé Tung.
Em Macau, foi sempre comum verem-se pelas ruas, arcadas e templos, uns indivíduos sobriamente vestidos sentados numa cadeira e tendo à sua frente uma pequena mesa sobre a qual se vê uma pequena estátua de um ídolo ou a imagem do Buda Sorridente, um receptáculo cilíndrico dentro do qual estão hastes de bambu, t’chock-t’chim, (o número de hastes varia entre sessenta a cem e tem cerca de metade do comprimento dum fai-chi) e a carapaça oca de um cágado contendo no interior, três sapecas. 
Todo aquele que desejar saber o futuro bastará sentar-se na cadeira em frente e combinar seguidamente com o adivinho o custo para as previsões que deseja saber. Os preços variam conforme as espécies de perguntas, fáceis ou difíceis de responder. Esses adivinhos são geralmente consultados por pessoas de menos posses, o que não acontece com os adivinhos que trabalham nos templos cujos preços por cada visita são bastante elevados.
Há quem diga que os chineses não são religiosos como parece, mas sim muito supersticiosos. Ao entrar num templo, a primeira coisa que um devoto faz, é ajoelhar-se com os dois joelhos sobre umas almofadas que podem ter o feitio dum quadrado ou duma circunferência. Este acto é repetido três vezes, fazendo chegar a cabeça sobre o chão, quando executa o bate-cabeças.
No chão, estão os tais recipientes cilíndricos com tabuinhas e ao calhar, escolhe um, agitando-o seguidamente com ambas as mãos, até que, com o chocalhar, uma das tabuinhas numeradas caia para fora. O número impresso na tabuinha é o início da resposta às suas preces. Para saber a sorte que lhe cabe, leva então a tabuinha ao adivinho que está próximo, sentado num balcão vendendo pivetes e dinheiro do inferno, que por sua vez tira duma armação fixada na parede, um papelinho amarelo com um número igual ao da tabuinha. É nesse papelinho que estão gravadas as mensagens dos deuses, as quais geralmente dizem respeito à saúde, felicidade e boa sorte da pessoa no futuro, se cumprir à risca o que nele está estabelecido. Finalmente, o devoto não tem mais do que pagar o que foi exigido pelo adivinho. Se por acaso a pessoa deixou alguma pergunta por fazer, ele terá de negociar novamente.
Além dos tais papelinhos amarelos há também duas pequenas peças de madeira, que são designadas por seng pui cuja finalidade é quase idêntica. Cada peça tem o comprimento aproximado de quatro polegadas, sendo plana num dos lados e um pouco curvada, no outro. Há também quem chame a essas peças de madeira, chôk-tchau. Recorde-se que antigamente esses pauzinhos eram utilizados pelas aguadeiras quando transportavam água para as casas, no tempo em que não havia canalização de água em Macau. Cada tchau valia naquele dez avos e dava direito a uma pinga de água que correspondia a duas latas vazias de petróleo completamente cheias desse precioso líquido.
A seguir e com as duas mãos, o devoto lança sobre a esteira colocada no chão, as duas palhetas a fim de obter os favores dos deuses da sua devoção. Se as palhetas ficam uma com a parte plana, e outra com a parte curva voltada para cima é sinal de que a prece foi ouvida e em breve, será recompensada. Mas se as palhetas, ficarem com as duas faces planas voltadas para cima, então a resposta será negativa. No caso de caírem as duas iguais, o devoto terá o direito de lançar novamente. O livro The Book of Records, dá-nos alguns nomes de postos autorizados a adivinhos. São eles O Grande Adivinho, O Mestre de Adivinhação, O Defensor das Tartarugas ou Cágados e Respeitadores e Interpretadores de Prognósticos.
Em Macau existe um pequeno e pobre santuário, na Rua Tomás Vieira, de nome Sói Fât. Este santuário é escuro por dento e vem servindo de relicário a budistas e taoistas. No interior desse relicário, está a estátua do Buda, que, segundo se afirma, tem existência de mais de mil anos e que terá sido trazida para Macau nos princípios deste século.
No interior desse templo vivem alguns adivinhos, , recebendo cerca de uma dezena de pessoas que vão saber o seu futuro. Além de trabalhar com os tais pauzinhos, são também procurados para praticar o exorcismo, e as grávidas vão procurá-lo para saber se o filho será rapaz ou rapariga.
Para isso utilizam o seguinte método: suponha-se que a futura mãe tem, naquele momento vinte anos de idade e que ficou grávida em Março. Escolhe-se seguidamente o número quarenta e nove, adicionando-lhe três que é o terceiro mês do ano o que dará cinquenta e dois. Subtrai-se de cinquenta e dois a idade da mulher que é vinte e o resultado será trinta e dois. Sendo o número par, será filha e se for ímpar um rapaz, cálculos que segundo os adivinhos têm sido muito satisfatórios acertando muitas vezes. Para clientes que solicitem uma só pergunta os adivinhos utilizam então a carapaça do cágado cujo resultado está referenciado num livro, que no final será consultado.
Artigo da autoria de Leonel Barros publicado no JTM em 2008

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