quarta-feira, 29 de maio de 2013

Centro Ecuménico Kun Iam

A 21 Março de 1999 o Presidente da República Jorge Sampaio e o Governador Rocha Vieira inauguraram o Centro Ecuménico Kun Iam, construído numa ilha artificial junto aos novos aterros do Porto Exterior. A obra foi projectada em 1996 e ficou pronta três anos depois sendo da autoria da arquitecta Cristina Rocha Leiria que se inspirou em Kun Iam, a deusa da misericórdia, que também consubstancia na sua imagem e mensagem o amor, além da compaixão e da solidariedade. A estátua da deusa, com 20 metros de altura, é de bronze (50 toneladas) e assenta numa cúpula de betão em forma de flor de lótus (com 7 metros de altura), por sua vez implantada numa ilha artificial ligada a terra por um istmo com 65 metros. A flor é uma referência na arte e literatura chinesas e faz parte da bandeira da RAEM.
A cúpula, revestida de 16 pétalas, tem um perímetro circular de 19 metros de diâmetro. O Centro tem dois pisos: uma zona lúdica e de lazer, onde se pode ler, ouvir música e adquirir livros e uma área para palestras, exposições e pequenos espectáculos, tendo  ainda uma biblioteca e mediateca. Incluído nos roteiros das agências turísticas, é um dos locais mais visitados da cidade. Para a autora o Centro "visa perpetuar o respeito mútuo e a amizade entre todos os povos e civilizações, sendo um espelho da tolerância religiosa e do pluralismo cultural, características multisseculares de Macau."

Cristina Rocha Leiria nasceu em Lisboa em 1946 e passou a infância e a adolescência em Moçambique. Formou-se em arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e especializou-se em planeamento no University College de Londres, dedicando-se depois ao aprofundamento de estudos sobre “feng shui” em Macau, China e Japão e sobre electromagnetismo em França. Trabalhou em Portugal, Reino Unido, Moçambique, África do Sul, Zimbabué e Macau. A par da arquitectura, dedicou-se à escultura a partir de 1992, sendo os seus trabalhos concebidos a partir do barro e passados posteriormente para outras escalas, em diversos materiais (cristal, bronze, prata, estanho e pedra). Os seus trabalhos mais emblemáticos são o Centro Ecuménico Kun Iam (1999), “Elan de Mãe”, em pedra branco-mar, no Parque Marechal Carmona em Cascais (2003), “Vela ao Vento”, em bronze patinado, à entrada de Tavira (2003) e “Barco à Vela”, em bronze polido assente numa onda em mármore branco, na Marina de Cascais (2007). Uma reprodução, em bronze polido, com 2,70 m, da estátua de Kun Iam está colocada no jardim da Casa de Macau, em Lisboa, desde 2002.
Helena Vaz da Silva, presidente do Centro Nacional de Cultura, pouco tempo depois da inauguração do Centro Ecuménico Kun Iam, escreveu o seguinte:
“O centro ecuménico Kun Iam — ou Guan Yin como familiarmente se diz na maior parte da China — foi concebido por Cristina Leiria como um espaço que espelha e prolonga o encontro, entre todos histórico, do Oriente com o Ocidente feito pela mão dos portugueses, os primeiros dos europeus a chegarem à China, assim como chegaram ao Sião e ao Japão. Teriam os portugueses particulares razões para este pioneirismo na aproximação dos mundos? Se deixarmos de parte a pobreza congénita do território nacional de então e a sua natureza resistente e aventureira diríamos que não, em especial. Mas a verdade é que tal facto faz pesar sobre nós, hoje, particulares responsabilidades já que a globalização actual que aproxima física — e virtualmente — os povos nos obriga a nós, que a história fez desbravadores de caminhos, a saber uma vez mais apontar a rota, neste final de século. Qual rota? A do aprofundamento do progresso através do espírito e da promoção da paz através do conhecimento mútuo. A Unesco proclama há anos a construção da paz através da educação e da cultura, insistindo que elas são a única forma de prevenção dos conflitos, A União Europeia acaba de reconhecer a urgência de melhorar a qualidade da sua política externa e de cooperação com outros países pelas mesmíssimas razões. É por isso de saudar esta iniciativa da Administração Portuguesa que coloca alta a “fasquia” para as futuras relações Luso-Chinesas, neste particular oásis intercultural que é Macau e que é, não só dever, mas também interesse dos futuros administradores do território preservar. Num mundo onde abundam os conflitos e onde grassa a destruição, Macau pode tornar-se no futuro um lugar de quase peregrinação pela originalidade do seu património e pela sua esplêndida tradição de hospitalidade, forjada em meio milénio de convivência.”

Sem comentários:

Enviar um comentário