segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Carta registada para Hong Kong: 1936

Carta registada remetida por Pedro Paulo Ângelo de Macau para o Hong Kong and Shangai Bank Corporation em 1936. Tem a particularidade de ter sido enviada por avião, uma novidade que só nesse ano passou a ser possível com os aviões da Pan Am. Até então o correio seguia por via marítima. Este novo serviço de correio aéreo durou pouco tempo já que os efeitos da 2ª guerra sino-japonesa também se fizeram sentir em Macau.

sábado, 29 de agosto de 2015

Museu da Prostituição - Qinglou Fang

A Rua da Felicidade era uma área com diferentes tipos de entretenimento, no início do século XX, muito semelhante ao que hoje acontece, no Nape, na zona ribeirinha. Porém, hoje em dia, as pessoas costumam pensar naquela rua como tendo sido apenas um local de bordéis e prostituição. A história da Rua da Felicidade é mais rica do que se pensa e a verdade será desvendada pelo Museu da Prostituição (ou Qinglou Fang, em mandarim), que deverá abrir na actual sede da Associação dos Empregados de Restaurantes e Padarias de Macau.
Mas a zona não foi sempre tão feliz como o nome sugere. A Rua da Felicidade foi, outrora, uma área inóspita e abandonada, apesar de localizada perto do Porto Interior. Porém, em 1870, o então  governador de Macau, António Sérgio de Sousa, sugeriu aos maiores proprietários de terras da época, a família Wang, que construísse o primeiro teatro chinês do território, o Cheng Peng. Ali se pôde ver ópera chinesa, cinema e concertos, por mais de um século, até ter sido encerrado, em 1992.
Em 1932, a prostituição foi banida pelo Governo de Hong Kong e, subsequentemente, o “mercado das cortesãs” de Macau começou a florescer. Assim, no início do século XX, encontravam-se, na Rua da Felicidade, salas de ópio, bordéis, salas de jogo e tascas. Porém, o nosso entendimento actual da palavra bordel não reflecte de forma exacta a natureza desses estabelecimentos. A prostituição não era necessariamente a principal actividade destes espaços, nessa altura. As cortesãs tinham grande talento para tocar instrumentos musicais e cantar. Sob as grandes lanternas vermelhas, os visitantes do bairro poderiam ouvir o som da música doce, tocado pelas jovens cortesãs (pei pa chai, em cantonense), que normalmente eram vendidas, quando ainda eram muito jovens, e que cresciam nos bordéis. Literalmente, pei pa chai significa a jovem rapariga que toca a pipa, um instrumento musical tradicional de quatro cordas. Eram ensinadas a entreter, de forma elegante, os convidados, mas também aprendiam poesia, desenho e xadrez. Quando cresciam e tinham desenvolvido estas competências, tornavam-se cortesãs, acompanhando os clientes e talvez secretamente à espera de que alguém as levasse, oferecendo-lhes uma vida mais livre.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o Governo de Macau finalmente declarou a prostituição e a  gestão de bordéis como actividades ilegais. Foi então que a Rua da Felicidade deixou de ser Fa Kai (o bairro vermelho ou, em sentido literal, a rua das flores), voltando ao seu já esquecido ambiente insípido. Na ausência das jovens e lindas residentes, o Governo tem lutado, ao longo dos anos, para revitalizar o ambiente da zona, apesar de mais de seis milhões de patacas terem sido gastas na renovação de estruturas. Em 2012, o Instituto Cultural auxiliou a Associação de Empregados de
Restaurantes e Padarias de Macau na renovação da sua sede, localizada na Rua da Felicidade.
“O edifício era inicialmente um dormitório para os membros da associação. Conforme o tempo foi passando, os membros já não viviam ali e o local perdeu a função original”, afirma Laura Lei, a directora da Associação de História Oral de Macau. “Os membros pensaram que seria um desperdício continuar a usar o local como dormitório e quiseram revitalizá-lo. Foi assim que iniciámos a colaboração, para transformar o edifício no Museu da Prostituição”, diz, esclarecendo: “Não quisemos simplesmente adicionar uma nova função à estrutura, mas quisemos dar-lhe uma alma. Esperamos que isto leve à diversidade, e, idealmente, a um melhor equilíbrio entre desenvolvimento e conservação cultural.”

O museu terá três secções, repartidas por seis diferentes temas. No primeiro andar, estará a informação sobre os bordéis e um café, enquanto no segundo andar haverá uma loja criativa. “Ao dar-lhe o nome de Qinglou Fang ou Museu da Prostituição queremos captar a atenção das pessoas. Esperamos que, além de comprar recordações, as pessoas também aprendam que esta foi, em tempos, uma rua que nunca dormiu, com tantas histórias interessantes para contar”, afirma. Laura acredita que não apenas tornarão a área mais popular, mas também irão revelar a história da comunidade a mais pessoas. “A alma que lhe daremos deverá ser única e deverá revelar histórias que uma pessoa poderia, de outra maneira, ignorar ou nem sequer estar consciente.”
As cortesãs de Macau tinham direitos cívicos e protecção legal, tal como outros cidadãos, o que  significava que gozavam de um estatuto social mais elevado do que as suas homólogas noutras zonas da China Continental. No tempo do feudalismo, tinham direito a comprar propriedade e até construir templos. Se estivessem doentes, poderiam ter tratamento e medicamentos gratuitos nos hospitais, incluindo no Kiang Wu e na Santa Casa da Misericórdia. É interessante mencionar que o Templo de Nuwa, na Rua de São Paulo, foi construído com contribuições das cortesãs.
Macau foi uma cidade neutra durante a Segunda Guerra Mundial, e assim continuou na Guerra da Resistência contra o Japão. Muitas pessoas ricas e empresários vieram de vários sítios da China  Continental para o território em busca de refúgio. Assim, neste período, a Rua da Felicidade continuou a ser vibrante e próspera. “As cortesãs desempenharam papéis diferentes na comunidade naqueles dias, mas o de heroína é algo que a maior parte das pessoas desconhece. As pessoas poucas vezes falam – ou até se lembram – da sua contribuição para a comunidade durante a guerra”, afirma Laura. Quando as cortesãs ou prostitutas são descritas como “heroínas de guerra”, talvez sejamos tentados a pensar em cenas de filmes como “As Flores da Guerra”. Porém, a realidade por
detrás dos seus feitos não era assim tão aventurosa.

Durante a Guerra da Resistência contra o Japão, em 1937, foi estabelecida a Macau Academic Music Sports and Drama Industries Relief Association  que se tornou o maior grupo patrióticoe de apoio da comunidade durante a guerra. “As cortesãs entraram na associação como representantes da indústria da música e actuavam para angariar fundos”, explica. Estas iniciativas foram organizadas até ao Inverno de 1941. Além de se juntaram à associação, as cortesãs da Rua da Felicidade e as dançarinas dos salões de baile também formaram a Fa Kai Relief Association. Um ano depois do incidente da Ponte Marco Pólo, popularmente conhecido por o Incidente de 7 de Julho e que se considera assinalar o início da Segunda Guerra Sino-Japonesa, a Fa Kai foi para as ruas recolher donativos. As cortesãs usaram os seus próprios acessórios de ouro e entregaram-nos a um bazar de caridade. Um jornal da altura publicou um artigo aclamando-as com o título: “Cortesãs estão também conscientes do ódio e da aversão causados pela invasão japonesa da nossa mãe-pátria.” “Estas são as histórias que  queremos partilhar com os visitantes, para que eles possam ligar esta zona não apenas a bordéis e prostituição, mas para que também conheçam o outro lado da história”, conclui Laura.
Os museus são locais de memória, em que o tempo se transforma no espaço. As pessoas são frequentemente lembradas pela sua dedicação abnegada e contribuições à comunidade, através das provas que deixam atrás. Assim, quando visitarmos este novo museu e olharmos em volta para as fotos e objectos em exposição, talvez pensemos em imagens de uma rapariga bonita, com um vestido de seda, sentada debaixo de uma grande lanterna vermelha, tocando música doce na sua pipa, e nos ajude a lembrar da sua história fascinante. 
Artigo da autoria de Melanie Ma publicado no Ponto Final de 7.8.2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A tomada de Ceuta e a 'viagem' até Macau

Há 600 anos, a 22 de Agosto de 1415 dá-se a tomada de Ceuta - hoje um enclave espanhol no Norte de África - pelos portugueses, situação que durou até à Guerra da Restauração.
O "Reino da China" assinalado num Atlas de 1571
 Na Crónica da Tomada de Ceuta, Gomes Eanes de Zurara (1450) escreve "(...) Já passavam de sete horas e meia depois do meio dia, quando a cidade foi de todo livre dos mouros. (...) As outras Companhias [de soldados portugueses], não tinham maior cuidado doutra coisa que de apanharem o esbulho. (...) Muitos que se acercaram primeiramente naquelas lojas dos mercadores que estavam na rua direita, assim como entraram pelas portas sem nenhuma temperança nem resguardo, davam com suas facas nos sacos das especiarias, e esfarrapavam-nos todos, de forma que tudo lançavam pelo chão. E bem era para haver dor do estrago, que ali foi feito naquele dia. Que as especiarias eram muitas de grosso valor. E as ruas não menos jaziam cheias delas (...) as quais depois que foram calcadas pelos pés da multidão das gentes que por cima delas passavam, e de si com o fervor do sol que era grande, davam depois de si muy grande odor. (...)" 
A data assinala o início da expansão marítima e por via disso, o início da 'viagem' até Macau.
Em 1434 dá-se o "reconhecimento" da costa africana e Gil Eanes ultrapassa o Cabo Bojador, na costa do actual Saara Ocidental, que até então era o ponto mais meridional conhecido na costa de África. Em 1446 os portugueses chegam à costa da Guiné, atual Guiné-Bissau, seguindo-se Cabo Verde e S. Tomé (1471). Em 1498 Vasco da Gama aporta em Moçambique a caminho da Índia e é dali que parte Jorge Álvares, o primeiro português a chegar à China por via marítima em 1513, aportando na ilha de Tamão, adjacente à costa sudeste da China, hoje denominada Lin Ten. 
Esta viagem é considerada como o primeiro passo para o estabelecimento dos portugueses em Macau situação que se iniciaria pouco depois e seria 'oficializada' em 1557.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Pelos meandros do labirinto


O livro A Paixão Chinesa de Wenceslau de Moraes de Danilo Barreiros é de algum modo um livro perigoso, pois lê-lo e escrever sobre ele abre para um labirinto infinito de referências e de evocações no seio das quais estão reunidas todas as condições para nos perdermos. Tanto a vida e a obra de Wenceslau deMoraes como a obra e sobretudo a vida de Danilo Barreiros produzem imediatamente um fascínio ao qual é quase impossível resistir. Estamos na presença de dois aventureiros que transformaram as suas vidas em romances, recheados de peripécias tão variadas quanto apaixonantes. Mas o mais importante ainda é que não estamos a falar de misantropos, de aventureiros mais ou menos solitários, mas antes pelo contrário de personalidades que entreteceram ao longo das suas vidas múltiplas relações com figuras da vida cultural, social e cultural do seu tempo, com outras vidas, portanto, se não tão apaixonantes quanto as suas, pelos menos tão importantes e de atenção obrigatória.
Através de Danilo Barreiros e Wenceslau de Moraes entramos em contacto estreito com Camilo Pessanha, José Vicente Jorge, Sun Yat-Sen, Lou-Kau, Lou-LimIok, Zeng Guanying, entre muitas outras figuras ligadas à história da vida social de Macau. “E fugi, e voei, e fui deixando farrapos de alma (…)”. Tereza Sena não podia fugir ao significado desta frase que mais parece um verso de um poema autobiográfico, e por isso a escolheu para epígrafe da sua introdução, para se referir a Wenceslau de Moraes, que sendo o motivo desta obra não é o seu autor. Sobre Wenceslau de Moraes, a obra que, se outros méritos não tivesse teria pelo menos esse de deslocar a atenção sobre o aventureiro e escritor da sua ligação e paixão ao mundo nipónico e lembrar que antes do Japão, Wenceslau de Moraes, está também por uma estranha paixão ligado à China, embora através de Macau. Sabe-se que o Japão foi o maior amor da sua vida e que algumas vezes não se terá mesmo referido nos melhores termos a Macau e à China, contudo no balanço existencial da sua ligação ao Oriente, Macau e a China representaram um papel insubstituível, pois aqui viveu entre 1931 e 1945, o que não pode ser de somenos, aqui casou, mesmo que não tenha sido segundo os cânones do Direito Civil Português e aqui foi pai por duas vezes e afinal as únicas, que se saiba. Wenceslau José de Sousa Moraes nasceu em 30 de Maio de 1854, na Travessa da Cruz do Torel em Lisboa. Com 17 anos assentou praça voluntariamente em Caçadores 5, que abandonou para entrar na Marinha, concluindo o curso de Escola Naval aos 21 anos. Foi depois promovido a guarda-marinha indo servir em África Iniciou então um período de viagens a Moçambique com paragens na costa africana e Madeira. Em 1880 foi promovido a segundo- -tenente, e em 1885 fez a sua segunda estadia em Moçambique seguindo para Timor. Durante essa viagem fez escala em Zanzibar, Colombo, Singapura, Batávia, Macáçar e finalmente, Timor, onde apenas permaneceu um ano, pois foi obrigado a regressar por ordem médica. Em 1886, com 32 anos, foi promovido a capitão- -tenente. Dois anos mais tarde, em 1888, foi para Macau onde permaneceu até 1898 desempenhando missões no Sião e em Hong-Kong. Nesse primeiro ano começou a escrever a sua primeira obra, Traços do Extremo-Oriente, que foi publicada em Portugal em artigos avulsos no jornal O Correio da Manhã, sob o pseudónimo de A. da Silva. Wenceslau José de Sousa Moraes, seguiu a carreira da Marinha por questões financeiros, mas jamais se adaptou. Foi professor de matemática no Liceu de Macau, onde se tornou amigo de Camilo Pessanha e com quem partilhava muitos dos valores e interesses, em particular os literários e poéticos. Iniciou a sua ligação à escrita muito cedo, através da qual exprimia os seus anseios e desabafos mais profundos, a sua estrutural inadequação à sociedade convencional das mesquinhas preocupações. Em 1889 passou a viver com Vong Ioc Chan, uma jovem anglo-chinesa conhecida por Atchan (à qual há referência num episódio em Traços do Extremo-Oriente), e nesse mesmo ano visitou pela primeira vez o Japão que tanto o encantou. Desta paixão chinesa nasceram dois filhos, José de Sousa Moraes e João de Sousa Moraes. Separou-se da família devido ao seu cargo de oficial, mas assegurou sempre a subsistência dos três e a educação dos filhos até que estes atingissem a idade para se sustentarem e ajudarem a mãe. Ambos foram baptizados na igreja de São Lourenço em Macau, o mais velho em 1 de Setembro de 1892 e o mais novo em 2 de Setembro de 1905, estudaram em Hong Kong e visitavam a mãe durante as férias do colégio. O contacto com Atchan e os filhos foi mantido pela troca de correspondência através de Feliciano Francisco do Rosário, um macaense que servia de benévolo intermediário epistolar. Desta correspondência temos conhecimento pela obra de Danilo Barreiros A Paixão Chinesa de Wenceslau de Moraes, Desde a sua primeira visita turística ao Japão em 1889, durante a qual passou por Nagasáqui, Kobe e Iokohama, que Wenceslau de Moraes referiu a imensa atracção que sentia pelo País do Sol Nascente. A morte da sua mulher japonesa foi crucial. Uma ferida da qual nunca se terá curado verdadeiramente. Aos 59 anos deu início à sua niponização integral na cidade de Tokushima, pequena cidade do Sul do Japão, visitando o túmulo de O-Yoné. Depois viveu com Ko-Haru, sobrinha de P-Yoné e foi com a morte desta que mergulhou finalmente na mais completa solidão (…) Wenceslau de Moraes acabou por adoptar progressivamente todos os costumes japoneses até os religiosos que segundo ele se adpatava melhor à sua vida solitária.

Leopoldo Danilo Barreiros nasceu em 11 de Outubro de 1910 tendo partido muito novo à descoberta do mundo. Viveu em Macau entre 1931 e cerca de 1945, terra da qual nunca se desligou afectiva e culturalmente. Em Macau foi professor, jornalista e empenhado activista da Cruz Vermelha Internacional durante a II Guerra Mundial, tendo sido ainda um entusiástico bibliógrafo e coleccionador. Licenciou-se em Direito depois do regresso a Portugal, e exerceu o notariado e a advocacia. Publicou, entre outros estudos, O Testamento de Camilo Pessanha e As Marcas da Porcelana Chinesa. “Em Lisboa, foi um dos fundadores da Casa de Macau e viveu sempre com a cabeça em Macau, mas nunca mais lá foi…”. Leopoldo Danilo Barreiros faleceu no ano de 1994.
Artigo da autoria de Manuel Afonso Costa publicado no jornal Hoje Macau de 13.3.2015

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

上海葡裔難民在澳門 Refugiados de Xangai em Macau

Já antes referi esta exposição上海葡裔難民在澳門 Refugiados de Xangai em Macau: 1937-1964 que está patente ao público até ao dia 6 de Dezembro deste ano em Macau. Willis Chan (a quem agradeço) captou estas imagens de alguns dos documentos expostos. Contam a história da família de Clementina Fernandes nascida em Xangai e que se refugiou em Macau na década de 1950.
 
 
 
 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Barra Temple


A lot of attention is paid to what’s happening inland in Macau, but people rarely cast their eyes seawards. Nestled in a hillock on the southern part of the peninsula is the A-Ma Temple, otherwise known as Ma Kok Miu. It's the oldest in the city and one of the best known Taoist temples in Macau, dedicated to the goddess Mazu, protector of seafarers and fishermen. 
 
Mazu was known to her family as Lin Mo, a girl born in the Song dynasty (AD960-1279) and who died at the age of 28 in Putian, in China's Fujian province. During her lifetime, Lin offered her natural born weather forecasting ability to locals and saved the lives of many fishermen from the menace of typhoons. The local people respected her enormously and eventually deified her as “Mazu: Goddess of the Empty Sea”. 
The A-Ma temple is believed to have been constructed by fishermen in the year 1488 to commemorate their beloved Mazu. Today the temple is a destination offering silence and spectacular views. 
Images from 1930's
At the main entrance, guarded by a pair of stone lions, the Gate Pavilion is a granite structure 4.5 metres wide. Artisans have produced masterpieces on the granite with scenes of Chinese mythology, animals and historical allegories. To this day the Gate Pavilion stands as an architectonic masterpiece and no one can ignore the harmonious lines and the imagination that presided over the composition of the friezes which includes the cornice surmounted by multicoloured tiles of faience.
The temple consists of six main parts: the Gate Pavilion, the Memorial Arch, the Prayer Hall, the Hall of Benevolence, the Hall of Guanyin and a Buddhist pavilion. They make up a series of classical Chinese architectural treasures.
The Hall of Benevolence is believed to be the oldest of the pavilions, dating back to 1488. Distributed in banques all around are chapels and sanctuaries, dedicated to Tin-Hau, Sovereign of the Heavens, whose festivity is observed every year on the 23rd day of the Third Moon.
In the temple yard, engraved on one of the rocks there's a drawing of a boat. It represents a Fukien embarkation. The Fukienese are believed to be the first ever inhabitants of Macau. They were mostly fishermen and Tin Hau was their goddess.
In the 16th century the Portuguese landed near the temple. They asked the local inhabitants the name of the land, but the locals misunderstood, thinking that the Portuguese were asking for the name of the temple. So they answered “A-Ma-Gau”, meaning “Bay of A-Ma”, on which A-Ma Temple is located. That's where the name “Macau” is believed to derive. In modern Cantonese, “Macau” (Ou Mun) means “gateway of the bay”.
Article by João Botas published on Destination Macau, published in July/August 2015 in Hong Kong.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A carta a Salazar de Gabriel Maurício Teixeira

Gabriel Maurício Teixeira está em Moçambique quando recebe o convite para governar Macau no Verão de 1940. A competência para a nomeação dos governadores das colónias portuguesas pertencia ao Conselho de Ministros sob proposta do ministro da pasta. É este quem por norma sugere o nome ao chefe do governo, Oliveira Salazar, e só depois o nome do novo governador era levado a conselho para formalizar a nomeação. A posse era normalmente conferida em Lisboa. Com Maurício Teixeira isso não acontece dada a necessidade urgente de seguir para Macau.
O rascunho da carta de resposta a Salazar (enviada no início de Agosto de 1940) é escrito a cor verde na parte de trás de um edital dos “Portos de Lourenço Marques e Inhambane.” Aceite o convite, onde é notório que vai contrariado (“é serviço e serviço não se discute, cumpre-se”, escreve), Maurício Teixeira procura inteirar-se da situação que espera encontrar em Macau. Refere por exemplo que ao consultar um anuário de 1939 verifica que “há ao todo 10 médicos” - o que lhe parece pouco - “Dá um médico por 50 mil pessoas”, conclui.
Entretanto recebe de Lisboa as “cifras e instruções confidenciais” para o seu mandato. E também sobre estas instruções toma diversas notas, nomeadamente sobre os meios militares. “Quanto às forças militares, Macau está na mesma situação da Índia e Timor: não tem condições de defesa e portanto a sua força tem de ser de polícia. No actual momento de emergência aquela polícia tem de ser anormalmente acrescida em correspondência com a anormalidade da situação internacional”.
Numa carta que envia ao ministro das Colónias afirma concordar com o que se lhe pede. “Resumindo”, creio poder afirmar a V. Exa que me será fácil ser lael ao plano das intenções de V. Exa porque elas representam uma orientação lógica (...)”.
Face à urgência que lhe pedem para seguir viagem informa que “conto seguir no dia 14 de Setembro num barco holandês, o primeiro que tinha passagens disponíveis” e lamenta não poder partir juntamente com a família, pois um dos filhos está doente.
Poucos dias depois, a 23 de Setembro, o já nomeado governador recebe uma carta das autoridades portuárias da Cidade do Cabo (África do Sul) com a informação de que o navio holandês onde deverá seguir está atrasado pelo que a mulher e filhos (a bordo do Niassa) deverão conseguir juntar-se a ele em Lourenço Marques e prosseguir viagem juntos.
A partida atrasa-se e Maurício Teixeira informa Lisboa por telegrama. “Devo seguir daqui no dia 2/3 Outubro, via terra para Durban para embarcar ali a 6/7 Outubro”. Chegará a Macau a 29 de Outubro.
 O "Nyassa" e Maurício Teixeira no dia da chegada a Macau 29.10.1940
Teor do rascunho da carta-resposta de Maurício Teixeira a Oliveira Salazar

“Exmo. Sr. Presidente do Conselho, Estava destinado que eu não havia de pregar/pegar? na União Nacional de Moçambique, para a qual afinal nunca cheguei a ser convidado pela Comissão de Colónias da União Nacional, tendo recebido apenas o ‘anúncio de convite’. Sem ser ouvido nem achado recebi o convite para governar Macau, o que aceitei pela situação espinhosa do Oriente. De todas as nossas colónias, é justamente Macau a que nenhum interesse oferece sob o ponto de vista administrativo, onde nada há que crear ou fomentar, e cuja vida económica está exclusivamente ligada a actividades pouco dignas. Enfim, é ‘serviço’ e serviço não se discute. Cumpre-se. Não tenho ilusões quanto às dificuldades que vou encontrar, mas tão-pouco levo receios. Esforçar-me-ei ao máximo por cumprir, e se as circunstâncias forem superiores a mim ou às minhas possibilidades, como nem directa nem indirectamente influi para a minha escolha, sairei de lá com a mesma consciência tranquila com que para lá vou. (...) hei-de esforçar-me para bem cumprir, a bem da Nação e também por devotada dedicação ao Chefe. Aceite V. Exa. os votos de felicidades bem do coração (...) respeitosamente (...) amigo”.
Esta e outras histórias sobre Macau da primeira metade da década de 1940 podem ser consultadas no livro "Macau 1937-1945:os anos da guerra".

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Salvos-condutos para Hong Kong (1915)



Um ofício dirigido pelo Governo de Hong Kong ao Consulado de Portugal em Hong Kong em Outubro de 1914,  em que se salientou: Os residentes de nacionalidade portuguesa que viajavam de Macau para Hong Kong não possuíam quaisquer documentos de permissão quando chegavam a Hong Kong e voltavam para Macau, assim, pedindo que o Governo de Macau estipulasse as regras a fim de evitar a ocorrência dos casos semelhantes.
O Consulado de Portugal em Hong Kong apresentou imediatamente o referido assunto ao Governo de Macau para o efeito. Após meio ano de estudo, comunicação e coordenação, o Governo de Macau publicou um anúncio a 30 de Agosto de 1915 (imagem acima): Os residentes em Macau, de nacionalidade  não chinesa, antes de deslocação a Hong Kong, deviam requisitar os salvos-condutos de ida e volta para Hong Kong junto da Repartição dos Serviços de Polícia de Macau.
Através deste arquivo, podemos conhecer as comunicações entre o Governos de Hong Kong e o Governo de Macau em cem ano passado, bem como as normas de entrada e de saída das duas cidades.

 Imagens do AHM

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Balanço do 1º semestre do ano

Terminado o mês de Julho impõe-se um pequeno balanço da primeira metade de mais um ano de vida do blogue cujo nº total de visitantes ronda os 764 mil visitantes.# Julho termina com um total de mais de 14 mil visitantes o que dá uma média diária de 451.
Ao longo dos últimos sete meses a participação no passatempo em que são oferecidos livros sobre Macau tem sido muito positiva e a iniciativa vai prosseguir. Aproveito a ocasião para publicar alguns dos comentários recebidos dos leitores durante o primeiro semestre deste ano. Na imagem uma vista do Porto Interior na década de 1980.
"Estou actualmente a estudar num Colégio International em Hong Kong. Durante a semana do Novo Ano Chinês estou a pensar em ir a Macau. Fiz uma pesquisa e encontrei o seu maravilhoso blog. (...) seria possível que me facultasse um programa de atividades/ locais para conhecer a sua cidade?"
Nuno Martins - Hong Kong, Fevereiro 2015

"Visito o seu blog Macau Antigo com bastante frequência. Parabéns pelo excelente trabalho que sempre nos tem proporcionado continuamente artigos interessantes."
Carlos Dias - Macau, Fevereiro 2015


"Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens. É um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco."
António J. Batalha - Portugal, Fevereiro 2015 

"Muito interessante seu blog. Sou brasileira, descendente de chineses (cantoneses)  e morei em Macau entre 1971 e 1973. Encontrei aqui algumas informações sobre a escola Yuet Wah, onde estudei, mas não encontrei nada sobre a rua onde residi - Rua Sacadura Cabral. Obrigada.
Silene - Brasil, Março 2015 

"I am pleased to make your acquaintance here; and fascinated by your blog Macau memories. (...)"
Suet-Ming Lau - Reino Unido, Março 2015

(...) Para informações sobre edifícios de Macau que vou desenhando o teu completissimo e entusiasmante Blog tem sido muito útil. (...)"
Adalberto Tenreiro - Macau, Março 2015

"Este site é incredible. Cumprimentos"
Garrett Reed - Macau, Março 2015

"Muito obrigado pelo seu trabalho"
José Manuel Barbosa - Portugal, Abril 2015 


"Parabéns pelo seu trabalho e dedicação com a história de Macau. Ótima fonte de informação e preservação da memória da cidade. Eu que agradeço a oportunidade e por ter me desafiado a escrever, rememorar uma parte importante da minha vida. Aproveitou informações que trocamos por e-mail e incluiu no relato. Algumas só vieram a partir desta troca. Descobri que havia muito mais lembranças que imaginava... Hoje sei que fui feliz lá e o quanto a estada em Macau influencia / influenciou quem sou hoje. A vontade de voltar à cidade só aumentou e espero em breve revê-la."
Silene Wong - Brasil, Abril 2015

"Os meus parabéns e pessoal alegria pela divulgação e interesse de tantos no seu trabalho. É um número significativo e uma expressão clara de que há pessoas que compreendem o valor deste seu esforço, as afinidades."
JMB - Portugal, Maio 2015 

"Parabéns meu caro! Força nisso! Abraço"
Sérgio Terra - Macau, Maio 2015 

"(...) magnífico blog."
José António Barreiros - Portugal, Maio 2015 

"(...) queria em primeiro lugar congratulá-lo pelo seu excelente blog Macau Antigo (...)"
Mariana Pinto Leitão Pereira - Macau, Junho 2015

"(...) excelente trabalho de levantamento permanente da História de Macau."
Garcia Leandro - Portugal, Junho 2015

"Aproveito para parabenizá-lo pela iniciativa (...) muito sucesso no projecto do blog."
Plinio Ribeiro Jr. - França, Julho 2015


"(...)Love your blog by the way - Macau history is so fascinating."
Brittany Panter - EUA/Macau, Julho 2015

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A farmácia Man Cheong Tong e o património a proteger


A queda da placa publicitária da farmácia chinesa Man Cheong Tong (萬昌堂中葯房) no nº 44 da Rua dos Mercadores, esta semana, foi um incidente que não provocou feridos, obrigou à demolição da estrutura e colocou em evidência os casos de edifícios que não estando classificados como tendo valor patrimonial o deviam ser dado o seu valor artístico e arquitectónico. 
Um outro exemplo de edifício sem classificação - o hotel Estoril - tem dado muito que falar nos últimos tempos tendo sido dado como muito provável a sua demolição. O facto é polémico e fez com que vários grupos de cidadãos, arquitectos incluídos, tenham exposto publicamente o seu desagrado pela intenção anunciada pelas autoridades da RAEM. Para quem se interesse sobre o tema das antigas farmácias chinesas sugiro a leitura deste post.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Memórias de Carlos Alberto Carvalho

O testemunho inédito de CAC começa assim...
Vivi em Macau desde Novembro de 1953 até ao dia 9 de Julho de 1960, altura em que embarquei no Tak-Sin, no Porto Exterior, a caminho de Hong-Kong. Foi a primeira escala de uma viagem de 59 dias a caminho de Lisboa.
Reprodução do cartão de aluno de Carlos A. Carvalho no D. Bosco
Estudei no Colégio D. Bosco, onde fui aluno de 1953 a 1959, tendo saído de lá como o melhor aluno que passou pelo Colégio. É lógico que depois houve muitos mais melhores do que eu. Na minha altura, íamos fazer os exames à Escola Central, perto do Jardim Infantil. Era na rua onde estava o Hospital Militar e fazia um ângulo de 90º com a Av. Horta e Costa. Estudei também no Liceu da Praia Grande.
O meu irmão mais velho foi um dos fundadores da Casa de Macau, em Lisboa, Foi o primeiro aluno continental a merecer uma bolsa de estudos do Liceu de Macau, para a Universidade de Coimbra.
Fui para Macau com 6 anos e meio e regressei a Portugal com 13 anos. O meu pai era militar e já se encontrava lá. Fui num navio de cabotagem, pequeníssimo - o Lúrio - que estava preparado para a costa de Moçambique. Entrei no Colégio D. Bosco em Dezembro de 1953... Regressei a Macau passados 39 anos, em 1999. No primeiro dia fui dar uma volta pela cidade e, apesar das mudanças, eu conhecia tudo, porque o esqueleto da cidade está lá. A casa onde vivi, ainda existe, na Estrada da Areia Preta, 27, em frente onde era o depósito da Coca-Cola.
Reprodução da entrevista publicada no JTM em Abril de 2010
Jornal Tribuna de Macau: Nasceu em 1947 e em 1953 vai para Macau. Tinha apenas seis anos...
Carlos Carvalho- Nasci no dia 10 de Maio de 1947, na freguesia da Sé, concelho de Lamego, distrito de Viseu. Embarquei em Lisboa, no navio “Império”, com destino a Moçambique. Embarquei na companhia de minha mãe, e meus três irmãos de então. Passámos por Funchal, S. Tomé, Luanda e Cidade do Cabo, antes de chegarmos a Lourenço Marques, tendo ficado em casa do meu avô materno, que na altura estava casado em segundas núpcias e vivia no Bairro da Matola. Atravessámos duas fortes tempestades - uma, ao largo da costa do Senegal, e outra, na junção dos Oceanos Atlântico e Indico, à vista do conhecido cabo da Boa Esperança, no sul da África do Sul. Depois da espera de um mês, por um navio que nos levasse a Macau, acabámos por embarcar no navio “Lúrio”, que fazia cabotagem na costa de Moçambique - uma espécie de casca de noz dos tempos modernos. A bordo iam muitas famílias de militares que já se encontravam em Macau há algum tempo. Atravessámos o Oceano Índico, em direcção a Singapura, onde chegámos depois de termos passado por uma grande tempestade das monções e o navio se ter avariado gravemente. Diziam, na altura, que estivemos para ser lançados ao mar, o que felizmente não aconteceu. Porque se tratava de um navio muito pequeno, acabámos por chegar a Macau, tendo o navio atracado no Porto Interior em Novembro de 1953. Cheguei a Macau com cerca de seis anos e meio, portanto.
-Porque foi para Macau?
-Em Macau encontrava-se o meu pai, que era militar e prestava serviço no então quartel da Porta do Cerco, junto à fronteira com a China.
-Viveu em Macau até aos 13 anos. O que recorda desses tempos?
-Recordo o frenesim da juventude, dos cinemas, das festas chinesas e militares e dos fins-de-semana que os Salesianos ofereciam aos adolescentes de Macau, com brincadeiras, jogos, um lanche - pão com marmelada - e uma sessão de cinema.
-Em que escola estudou?
-Entrei no Colégio D. Bosco, dos Salesianos Portugueses, em Dezembro de 1953 e frequentei ali as aulas até à 5ª. classe, nas férias grandes de 1959. Era um Colégio virado para o internamento de chineses e outras raças minoritárias, tendo como alunos externos, os filhos da alta sociedade de Macau e dos Portugueses, que na sua maioria, cumpriam uma comissão de serviço militar em Macau. Temos o caso de muitos militares, que sendo solteiros, casaram com chinesas ou macaenses.
Na minha altura, íamos fazer os exames à Escola Central, perto do Jardim Infantil. Era na rua onde estava o Hospital Militar e fazia um ângulo de 90º com a Av. Horta e Costa.
Os professores eram óptimos, na sua maioria padres de Portugal, mas também Italianos e Espanhóis. Tive a sorte de poder contactar com as autoridades de então, porque, sendo português e bom aluno, era escolhido para almoçar ou cumprimentar o Sr. Governador ou autoridades militares, e ainda o Sr. Dr. Pedro Lobo, um amigo do Colégio, em todos os momentos. Em 1959/1960, depois de haver feito o exame de admissão ao Liceu, frequentei o 1º. ano, na Praia Grande, no local onde hoje se encontra o Banco da China, salvo erro. Tive como Reitor, o Sr. Dr. Cabral, e como Director de turma o Sr. Dr. Conceição, que viria a ser, mais tarde, Reitor do Liceu. Também aqui tive óptimos professores. Em especial, lembro a Dra. Ana Maria Amaro, professora de Ciências.
-Que mudanças notou na passagem do D. Bosco para o Liceu?
-No Colégio D.Bosco também éramos acompanhados por vários professores. Tínhamos as disciplinas normais para uma escola primária, mas já havia o ensino de Inglês e Chinês (Cantonês). Para além disso, era muito requisitado para o Teatro ou para representar o Colégio em apresentação de cumprimentos às entidades oficiais, especialmente Sr. Governador e Dr. Pedro Lobo.
Quando fui para o Liceu, na Praia Grande, senti uma diferença grande. Responsabilizavam-nos mais e estávamos numa casa muito grande. Lembro-me da Secretaria, logo à entrada, do lado direito, e que a minha turma do 1º. ano ficava no 1º. andar, por cima da Reitoria. As disciplinas que mais me agradaram foram o Português, e as Ciências Naturais, em que a Professora Dra. Ana Maria Amaro explicava as matérias com desenhos que ela fazia no quadro, a giz, e para os quais tinha um jeito fantástico.
-O edifício do liceu na Praia Grande tinha acabado de ser inaugurado (Outubro de 1958). Era um edifício imponente. Recorda-se do ginásio, do estrado do professor na Sala de aula?
-O Ginásio era espectacular. Lembro-me dos espaldares, nas paredes do mesmo, onde fazíamos ginástica para correcção da coluna. O palco era imponente. Faziam-se ali algumas festas e actos públicos.
O estrado dos professores, na sala de aula, era exactamente igual ao das salas de aulas no Colégio D. Bosco . O quadro era ao longo da largura da sala, só não apanhando a traseira da secretária do professor. Este tinha privilegiada a atenção dos alunos para as suas explicações das matérias. Os alunos, nas salas, estavam divididos em sexo feminino à frente e sexo masculino atrás.
-Recorda-se das suas brincadeiras de criança em Macau?
-Lembro-me perfeitamente. O meu nome é Carlos Alberto. Os meus vizinhos chineses, quando íamos brincar para a esplanada do armazém da Coca-cola, chamavam-me “Sapato”. Experimente ligar rapidamente o Carlos com Alberto. Os jogos que mais me atraíam era o dos berlindes e o do “Talu”. Dos berlindes, ainda hoje tenho uma lata de bolachas cheia com berlindes daquele tempo, policromados, muito bonitos. O Talu era jogado com dois paus, um que batia do outro, mais pequeno e afiado das pontas, como se de lápis se tratasse. Ganhava o que conseguisse bater no pau sem ele cair ao chão, atingindo uma determinada distância em passos. Havia também o jogo dos “Com Chai Chi”, que eram um tipo dos nossos pequenos cartões com jogadores de futebol, só que aqueles tinham as representações dos antigos heróis chineses. Quando ia para a praia de Hac Sa Van, em Coloane, onde o Colégio D. Bosco tinha uma casa, não tínhamos barracas. Ficávamos todos juntos a tomar banho e a brincar, vigiados pelos responsáveis. Um dia, apanhei um grande susto quando fui perseguido por uma cobra de água, no mar. Escapei...
-Como era a cidade nessa época?
-A cidade era muito pequena. Não era a Metrópole que hoje é. Mas tinha uma vida muito activa, por parte dos estudantes, que se juntavam em alguns cafés da cidade - não lembro já os nomes -, e frequentavam as sessões, nos diversos Cinemas da cidade - o Apollo, o Vitória, o Capitólio, o Império, e outros mais. O desporto estava na moda, especialmente o futebol no Campo 28 de Maio, o hóquei em campo, no Tap Seac, em frente ao edifício do antigo liceu, a rádio, com a “guerra” entre os apoiantes de Elvis Presley ou Pat Boone.
Lembro-me que o meu irmão mais velho era um locutor solicitado em Macau, no Rádio Club Vila Verde, porque se encontrava instalado numa casa cedida pelo Dr. Pedro Lobo, que tinha a côr verde. O desporto Escolar era também muito participado pelas diversas escolas de Macau, nas quais sobressaíam o Colégio D.Bosco e o Liceu Nacional Infante D. Henrique.
-Quer contar a história dos seus pais e dos seus irmãos?
-Os meus pais foram um casal simples que tiveram cinco filhos. O meu pai, por ser filho de uma família transmontana com dificuldades na vida, passou pelo contrabando de café e tabaco, em pequeno, por ausência do pai, que se ausentou para o Brasil, donde nunca deu notícias. A minha avó paterna era muito exigente, de tal modo que levou o meu pai a alistar-se no Exército, como voluntário, para fugir à vida difícil que ele e os irmãos atravessaram.
Durante o tempo de Macau, o meu pai foi um 2º. Sargento como tantos. Mas era exigente com os cinco filhos, quer nos estudos, ou no comportamento social. Deslocava-se de bicicleta para os quartéis onde esteve, excepto no Quartel das Portas do Cerco, em que as casas que habitávamos, ficavam anexas na frente do próprio quartel.
Exigiu sempre muito dos filhos. O meu irmão mais velho – Walter de Carvalho - veio a ser o melhor aluno de Macau no tempo em que lá esteve, tendo recebido uma bolsa de estudos para a Universidade de Coimbra, a qual estava destinada aos filhos da terra, como se deve compreender. Ele também foi um dos fundadores da Casa de Macau, em Lisboa.
A minha única irmã casou em Macau com 17 anos, com um Sargento do Quartel de Artilharia de Mong Há. Tenho o meu irmão mais novo que nasceu em Macau em 1955, é professor, e já esteve em Macau durante quatro anos como professor também.
-Lembra-se de onde morava?
-Tive duas residências: a primeira, na Estrada da Areia Preta, nº 27, em frente a um armazém da Coca-cola, que tinha como anexos dois campos de ténis, onde jogavam os elementos da alta sociedade macaense. A segunda, na estrada que ligava ao monumento das Portas do Cerco, em casas que pertenciam ao Estado, e que estavam distribuídas a Oficiais e Sargentos do Exército.
-Regressou a Portugal em 1960. Porquê?
-A Comissão de serviço de uma quantidade enorme de Oficiais e Sargentos foi considerada como exagerada, e entenderam as autoridades fazer regressar à Metrópole as mais de cem famílias.
-Como foi a viagem de regresso?
-Foi óptima. No dia 9 de Julho de 1960, partimos para Hong-Kong, a bordo do “Tak-Sin”, onde se encontrava o navio “Niassa”, que nos trouxe, às mais de cem famílias, de regresso a Lisboa. Sei que demorámos 59 dias exactos na viagem, tendo passado por Mormugão, na India; Nacala, Beira e Lourenço Marques, em Moçambique; cidade do Cabo, na África do Sul; Lobito e Luanda, em Angola; S. Tomé e Funchal, onde assisti à estreia de um grande filme - “A Bíblia”, no cinema João Jardim.
-Depois da saída em 1960 quando é que regressouMacau?
-Regressei a Macau em Março de 1999, 39 anos depois... com um grupo da Casa de Macau, para participar no III Encontro das Comunidades Macaenses. No primeiro dia fui dar uma volta pela cidade e, apesar das mudanças, eu conhecia tudo, porque o esqueleto da cidade está lá. A casa onde vivi, ainda existia, na Estrada da Areia Preta, 27, em frente onde era o Depósito da Coca-Cola. Estivemos em Macau durante 12 dias, sendo a primeira semana de visitas e passeios livres.
-O que acha desse tipo de eventos?
-Acho os Encontros de Macau excelentes para o encontro de gerações passadas e recordação da Terra e dos tempos passados. Depois, permitem que as pessoas possam visitar isoladamente, durante uma parte do tempo, o que mais desejarem. Eu aproveitei para ver os Jardins e Museus de Macau, além de algumas Igrejas, como a Sé e Santo António, que eram as mais frequentadas pelas comunidades portuguesas, incluindo os Macaenses. Depois, não podia faltar a ida às Ruínas de S. Paulo, ao Farol da Guia, e ao Colégio onde estudei e fui muito bem recebido.
-Nesse regresso com que opinião ficou, nomeadamente das marcas portuguesas no Território?
-O único senão foi que, ao deslocar-me ao Serviço de Turismo, no Largo do Leal Senado, à procura de um ex-colega que lá trabalhava, não percebiam o meu português, falando-se ali simplesmente o chinês e inglês. E era um serviço público... Quanto ao resto, penso que Portugal teve o cuidado de deixar marcas no Território.
-De que forma tem acompanhado a evolução do território?
-Tenho em Macau vários amigos, com quem converso periodicamente, que me vão informando da sua forma de viver. Sei que Macau atravessa uma situação muito boa, baseada no turismo e no jogo.
-Está ligado a alguma instituição com vínculo a Macau em Portugal?
-Estou ligado à Casa de Macau. Tenho pena que esta Instituição não tenha uma delegação no Porto.
-Que memórias guarda de Macau?
-Macau foi e é uma cidade que me marcou definitiva e profundamente. Ali ficaram os amigos fiéis e desinteressados, que deixaram saudades, e que estão espalhados por todo o Mundo - Brasil, Canadá, Estados Unidos, Austrália, Portugal, e na própria Macau.
-Qual é o ‘postal ilustrado’ de Macau?
-Para mim, há três postais de Macau: as Ruínas de S.Paulo, o ‘postal’ principal, o Farol da Guia e o Monumento das Portas do Cerco.
-Numa frase ou numa palavra… o que é para si Macau?
-Uma intensa saudade.
-Saudades?
-Macau ficou-me no coração. Sabe que, passados uns anos, pedi aos meus padres salesianos para me deixarem regressar a Macau? E, no entanto, vivia numa cidade de que gosto imenso - Coimbra. Em 1960, quando regressei ao Continente, o meu pai foi colocado no R.I.12, em Coimbra. Como o meu irmão mais velho estava a estudar na Universidade, foi ouro sobre azul. Porém, o estilo de vida em Coimbra não era o mesmo de Macau, e isso deixou-me muito deprimido durante algum tempo. Foi nessa altura que senti saudades de Macau, da minha vida no Colégio, e dos colegas que havia deixado no Território.
-Hoje já está reformado. Qual foi a sua profissão?
-Fui empregado bancário durante 36 anos e 10 meses, tendo começado no Banco Borges & Irmão. Hoje, estou reformado do BPI.