sexta-feira, 17 de abril de 2015

Memórias de Silene Wong - 2ª parte

Quando estava no 2º ano, a escola promoveu um evento desportivo infantil e eu me inscrevi em várias modalidades. Nas eliminatórias, consegui me classificar para três finais. A competição das finais foi na unidade feminina. Das três competições, eu ganhei dois terceiros lugares e um primeiro lugar. O dia da entrega de prémios foi um dia de festa na escola, além da cerimónia de entrega de prémios e fotos dos ganhadores. As provas incluíam, por exemplo, saltar à corda.
Na cerimónia de entrega dos prémios das competições desportivas no colégio Yuet Wah
Tecnologicamente, Macau pareceu-me menos avançado que o Brasil. Do que me recordo não era fácil aceder a certos electrodomésticos como geladeira e ferro eléctrico. No caso do ferro, usava-se o de carvão vegetal. Complicava um pouco para o meu pai principalmente, pois ele era alfaiate. Às vezes, eu e meus irmãos ajudavam abanando para que a brasa pegasse e aquecesse o ferro. Em relação à geladeira, ou melhor, à falta da mesma, minha mãe tinha que ir ao mercado todos os dias. Julgo que também não se vendia leite fresco nem café em pó. Comprávamos leite condensado e diluíamos em água quente e acrescentávamos em seguida café instantâneo. Pão somente havia o de forma, vendido em fatias.
Televisores poucas famílias possuíam. Meu pai comprou uma pequena com o intuito de facilitar nosso aprendizado na língua chinesa. Era corriqueiro verem pessoas desconhecidas nossas pararem à frente da loja e ficarem assistindo em pé. Isso acontecia em outras casas também. Lembro que assisti ao seriado “Kung Fu” com David Carradine e também a muitos filmes musicais com óperas chinesas. A programação era transmitida de Hong Kong, cidade onde tínhamos de ir de vez em quando para resolver assuntos burocráticos referentes à nossa permanência na colónia portuguesa. Íamos de navio. Adorava a viagem. Penso que demorava algumas horas, não sei ao certo. Havia a opção de uma viagem mais rápida em um barco menor, mas era mais caro. Viajamos uma vez e não gostei. Apreciava o maior, pois ficava o tempo todo olhando para o mar, as espumas e o horizonte...
Prova 'desportiva' no colégio
Sei que nem tudo foram flores nestes dois anos passados em Macau, mas diferentemente de alguns membros da família, a minha adaptação foi fácil. Ía bem na escola, dava-me com os colegas de classe, com os vizinhos e aprendi rapidamente a língua chinesa. Minha rotina resumia basicamente à escola durante a semana, diversão ao final do dia com os vizinhos, ida à missa aos sábados ao final do dia. Aos domingos, quando saíamos, era para visitar algum parque da cidade ou almoçar ou tomar chá em algum restaurante. Sinto falta de alguns pratos chineses. Onde resido actualmente existem muitos restaurantes chineses, especialmente no bairro da Liberdade/SP, mas não é a mesma coisa.
Na Taipa em 1972
Saudades tinha eu dos familiares do Brasil, principalmente do meu avô. Meus pais trocavam cartas e fotos com frequência, notícias iam e vinham, assim as saudades eram amenizadas e encurtava a distância física, já que pensamentos e sentimentos estavam conectados sempre. Próximo de onde residíamos, havia um local (não sei exactamente o que era, talvez um templo budista) onde eram realizados velórios. Eram frequentes os cortejos passarem na frente de casa. Todo mundo parava para ver: o caixão sendo carregado à frente e em seguida os familiares e amigos do falecido. Vestiam branco da cabeça aos pés e lamentando a morte do ente querido. Isso me impressionava.
Jogo já era actividade de lazer comum naqueles tempos. Corriqueiro era ver pessoas jogando mahjong 麻 将, dia e noite. Penso que não é à toa que Macau hoje tem os jogos como uma das principais fontes de receita.
O regresso
O retorno ao Brasil deu-se em Julho de 1973. Poucas lembranças deste período, despedidas rápidas, malas arrumadas e de volta à terra natal. Hora de rever parentes e me readaptar à vida no ocidente. Um pouco de dificuldade na escola, já que o ano lectivo inicia-se em Fevereiro/Março. Ficamos um período morando com meu avô, mas em dois meses nos mudamos para uma casa. E mudamos de escola de novo, mas no final deu tudo certo. Recomendo experiências internacionais, quem tiver oportunidade, faça. A minha foi com pouca idade, mas posso dizer que muito me acrescentou. Herdei provavelmente desta estada a forma de pensar e agir, mais objectiva, directa devido talvez à maneira de expressar que aprendemos usando ideogramas, mais sucinta, e que às vezes entra em choque com o lado prolixo do português para explicar algo. Mas é um exercício e aprendi com o tempo.Tenho 50 anos e um dia ainda espero regressar a Macau!"
Nota: Fica assim completo o testemunho inédito e exclusivo de Silene Wong a quem eu agradeço aqui publicamente. Espero que tenha sido do agrado dos leitores. Logo após a publicação da primeira parte destas memórias, a Silene enviou-me um e-mail e seleccionei um excerto para publicação:
"Parabéns pelo seu trabalho e dedicação com a história de Macau. Óptima fonte de informação e preservação da memória da cidade. Eu é que agradeço a oportunidade e por ter me desafiado a escrever, rememorar uma parte importante da minha vida. Aproveitou informações que trocamos por e-mail e incluiu no relato. Algumas só vieram a partir desta troca. Descobri que havia muito mais lembranças do que imaginava... Hoje sei que fui feliz lá e o quanto a estada em Macau influencia / influenciou quem sou hoje. A vontade de voltar à cidade só aumentou e espero em breve revê-la!"

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Memórias de Silene Wong - 1ª parte

Silene tem 50 anos e vive actualmente no Brasil, um dos países onde o blogue Macau Antigo tem mais leitores. Foi de lá que partiu em 1971 para uma viagem que a levou a Macau por apenas dois anos mas que nunca mais esqueceu embora fosse uma criança com apenas 7 anos. Para relembrar esses tempos encontrou no blogue Macau Antigo uma referência, contactou-me e eu desafiei-a a passar para o papel as memórias da Macau que conheceu no início da década de 1970, há mais de 40 anos. O que se segue é esse testemunho, fruto de conversas que fomos mantendo via e-mail e acompanhado de imagens da época.
Brincando com o irmão e a irmã no jardim Luís de Camões.
"Minha avó paterna aparece em algumas fotos, ela morava em Cantão. Saiu de lá quando estávamos em Macau. Ficou um tempo com a gente e depois foi para Kowloon se encontrar com minha tia. Pouco tempo depois todos eles emigraram para os EUA."

"Só me dei conta que já se passaram mais de 40 anos que vivi em Macau quando comecei a escrever este texto, a convite do João Botas. De início acreditei que seria difícil, mas as imagens e as lembranças começaram a vir à tona em minha memória e o texto foi fluindo. Não são muitas as lembranças, o tempo acabou por levar boa parte delas, mas sei que ficaram as saudades e os aprendizados que adquiri nesta experiência.

Silene tirou esta foto aos pais, irmã e irmão em Macau
Sou brasileira, descendente de chineses da região de Cantão, família constituída de cinco membros. O Brasil vivia sob a Ditadura Militar imposto em 1964 e naquele início da década de 1970 meu pai tinha um comércio. Bem em frente funcionava o Departamento de Ordem Política e Social. Lá eram presos, torturados e mortos as pessoas que eram contra o regime militar. Já me disseram que talvez por ter visto situações de violência, meu pai tenha resolvido ir embora do Brasil. Mas são cogitações, não tenho como confirmar esta história. Certo é que ele resolveu que iríamos passar um período na China, as nossas origens, para que meus irmãos e eu aprendêssemos chinês. Largamos tudo aqui: casa, negócios, familiares por parte de mãe, vida estudantil, amigos e iniciamos a jornada rumo a um local desconhecido do outro lado planeta. Permanecemos em Macau praticamente dois anos, de Agosto de 1971 a Julho de 1973. 
Era uma criança com apenas sete anos sem a completa noção do que estava acontecendo. De repente vi-me em uma cidade completamente nova e diferente do que estava acostumada. Viajamos em julho de 71 e antes de chegarmos a Macau, passamos por Hong Kong 香港 e Kowloon 九龍. Residia lá uma tia, irmã do meu pai que não conhecíamos, e sua família. Destes locais apenas recordo das ruas apinhadas de gente, muito calor, apartamentos com várias famílias (cada uma em um quarto) e um parquinho próximo onde brincávamos de balanço.

Foto de grupo da primeira comunhão celebrada na igreja de Santo António
Em Macau meu pai abriu uma alfaiataria na Rua Sacadura Cabral e morávamos ali mesmo, ao lado. Da vizinhança, fizemos amizade com dois rapazes que pertenciam a uma família de mãe chinesa e pai português. Brincávamos com os dois mais novos, o Plácido e o Judas, por serem de idades próximas às nossas. Segundo minha mãe, misturávamos palavras em chinês, português de Portugal e português do Brasil. Lembro que uma vez nos desentendemos ao discriminar uma determinada cor. Eu dizia que era vermelho e eles, carmim. Riram, pois desconheciam a palavra...enfim, entendíamo-nos.
Na 1ª comunhão frente à igreja de Sto. António

A escola
Estudei no Yuet Wah College 粵華中學, mais precisamente no colégio para o nível fundamental, o 粵華小學. Fiz o 1º e 2º anos. Eu já tinha feito o 1º ano no Brasil. A escola era considerada uma das melhores da cidade, não sei hoje como está. Escola de disciplina rígida, com muito mais matérias comparativamente ao Brasil, quadro de professores exigentes e indisciplina corrigida com castigos. Lá me preparei para a primeira comunhão com aulas de catolicismo.
Eram as freiras que cuidavam da administração. Lembro-me de duas: uma era chinesa, mais rígida e que vivia chamando a atenção de nós, alunos, quando algo não estava de acordo e a outra, italiana, mais condescendente e por isso, abusávamos um pouco...coisa de criança que queria um pouco mais de liberdade nos intervalos entre aulas. Lembro que uma época em que eu e uns colegas resolvemos que iríamos descobrir o que elas guardavam nos bolsos dos hábitos que usavam. Até tentamos enfiar as mãos dentro, mas foram infrutíferas as tentativas...Os padres apareciam por lá apenas para realizar missas. Íamos para a unidade maior 粵華中學, onde estudavam os alunos do 5º ano em diante, quando havia algum evento.
As aulas eram em período integral de segunda a sábado (exceto quarta e sábado – meio período). Sim, havia tempo para brincar nos finais de tarde e domingo. Aprendi muitas brincadeiras na rua e “ importamo-las” para o Brasil depois. 
O Yuet Wah classificava os alunos a cada final de trimestre após as provas. No primeiro trimestre do 2º ano, eu fui a 6º colocada, num total de 53 alunos. Eu, na época, não tinha noção deste "feito", mas descobri aos poucos, pois meu pai me fez escrever ao meu avô e contá-lo. Uma das freiras (a chinesa) disse uma vez no intervalo a uma aluna: "Ela é estrangeira, não falava chinês e ficou em quinto lugar. Você precisa se esforçar mais." Na época e hoje, considero isso uma humilhação o que a freira fez... Recordo que no meu aniversário em 1972 e coincidindo com o meu bom desempenho escolar o meu pai me levou de visita à ilha da Taipa. Meu pai deve ter ficado realmente muito feliz porque, como a maioria dos chineses, ele também não era de demonstrar afeto."   Continua...

quarta-feira, 15 de abril de 2015

De Marta a macaense

O romance histórico City of Broken Promises, de Austin Coates, é mais do que uma história de amor entre o sobrecarga da Companhia das Índias inglesa Thomas Kuyck Van Mierop e a sua concubina de traços asiáticos, Marta. É também a história da Macau dos séculos XVIII e XIX, das órfãs concubinas, dos vários poderes, das diferentes comunidades e da elaborada estratificação social. O autor britânico que viveu em Hong Kong e morreu em Portugal centra-se nessa mulher de Macau que ficou conhecida como a mais rica do seu tempo no enclave. Para tal, vale-se do diário e dos testamentos de Thomas e Marta, do imaginário ocidental sobre o Oriente e seus estereótipos, de histórias da carochinha de Macau, dos arquivos históricos ingleses e de testemunhos do que era a região naquela época. Coates “conta a história possível” da vida de Marta (1766-1828), vários historiadores de Macau concordam.

Tudo o que se sabe do início da sua vida é que era mais uma das muitas órfãs que engordavam as taxas de natalidade do enclave. Juntamente com as viúvas, estas crianças constituíam a classe mais desfavorecida. Caso se soubesse que era filha de um português, Marta teria dado um bom partido no popular “mercado matrimonial” e com isso beneficiado a Santa Casa da Misericórdia (SCMM), o Senado, a estirpe macaense e, por consequência, a cidade cristã, naquelas que eram as suas “estratégias de reprodução dos poderes sociais e da concentração de riqueza”, como refere o historiador Ivo Carneiro de Sousa no artigo Mulheres, Casamento e Família em Macau, publicado na Revista de Cultura, em 2007. Foram movimentações que também preservaram a presença portuguesa na região, na sequência da crise que vinha do século XVII e ainda da entrada de novos actores no comércio internacional de Macau no século seguinte: os ingleses.
Contudo, Marta não deixou de dar um contributo essencial aos poderes vigentes. Afinal, ela deixou toda a sua riqueza à Santa Casa e à cidade. Mas a sua vida não teve um começo fácil. Não sendo órfã de boa linhagem, o mais provável era ter sido mesmo uma “enjeitada”, já que foi abandonada à nascença na rua. Escapou de morte certa porque, antigamente, “o infanticídio feminino era uma prática corrente na China”, refere Leonor Seabra, directora do Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos da Universidade de Macau no artigo A Mulher na Misericórdia de Macau, publicado na Revista de Administração Pública de Macau, em 2007. Marta foi encontrada nas escadas da Igreja de São Domingos pelas freiras Clarissas. Com o destino desvelado à nascença, seria escrava muitsai, prostituta da Rua da Felicidade ou concubina de um estrangeiro, herdada como a casa e a mobília de uns sobrecargas para outros. Para Seabra, como “Marta foi abandonada pelos progenitores, não é bem como as muitsais, que não sendo prostitutas lineares, eram rapariguinhas, normalmente, compradas pelos ocidentais aos pais chineses com dificuldades”. Não tendo a mesma condição, mas arriscando um futuro semelhante, a órfã ainda recebeu nome próprio cristão, quem sabe numa súplica para fugir ao lúgubre destino. É que a homónima da Bíblia era irmã de Lázaro e louvada por ser muito trabalhadora.
A Marta idealizada pelo autor de Macau, Calçadas da História ficou no Convento de Santa Clara até aos nove anos. “É conhecida a dedicação das freiras Clarissas às órfãs”, que recebiam dinheiro do Senado para cuidar destas crianças, explica Seabra. A partir de certa idade esse patrocínio cessava e as raparigas tinham de encontrar outro destino. Por isso, talvez não tenha sido o temperamento difícil de Marta, que Coates descreve, a forçar as irmãs a dar a criança para adopção. Ainda assim, é verosímil ter sido o casal macaense, Teresa da Silva e o francês Monsieur Auvray, recriado por Coates, a assumir a guarda da órfã. Aliás, um dos apelidos de Marta é o portuguesíssimo Silva, bem inscrito no seu retrato de corpo inteiro que chama a atenção na sala das sessões da SCMM.
Com Monsieur Auvray, Marta aprendeu a falar francês, a cozinhar e a conhecer as especiarias e as suas melhores terras de origem. Saberes que, mais tarde, lhe dão outro protagonismo no livro já que é retratada como uma grande negociante de Macau. O talento para o comércio revelou-se na casa da Companhia das Índias que ficava na Rua do Hospital. Aí viveu com Thomas como sua concubina, um papel que já assumia desde os 13 anos pois o inglês herdou-a como a casa e a mobília do sobrecarga antecessor. Depois do seu protector francês morrer, só encontrou futuro na prostituição, mas logo se dedicou ao comércio enchendo de prata várias arcas durante os 15 anos que viveu com Thomas, sobretudo quando este se ausentava no Inverno.
Rua de Santa Clara
Macau era uma espécie de reserva para residência de sobrecargas da Companhia das Índias inglesa durante os seis meses de Primavera e Verão. Isto porque os estrangeiros só estavam autorizados a fazer negócio em Cantão no Inverno. O resto do tempo ficavam em Macau. Não tinham como ir e voltar de barco às suas terras natais nesse “curto” espaço de tempo. Ir para o Extremo Oriente era, sem dúvida, uma forma de enriquecimento rápido mas também se transformava num exílio de 15 a 20 anos, como depreende Coates da leitura do diário de Thomas. Partia-se para a China mais por dever familiar do que por ânsias de aventura e paixão pelo exótico.
Macaense por adopção
A mãe adoptiva da Marta ficcionada, Teresa da Silva, e a filha Dominie, ou mesmo os familiares macaenses, os Gonçalves Sequeira, a quem a órfã mais tarde se une nos negócios, são retratados por Austin Coates como tendo caracteres duvidosos, envenenados pela intriga, a inveja e com uma maneira de estar na vida algo hedonista e interesseira. Porém, não é por causa deste retrato sentencioso dos Filhos da Terra que o padre Manuel Teixeira se insurge contra o escritor britânico à data da publicação do livro City of Broken Promises, em 1967, afirmando que a personagem central do livro nada tinha de “verdadeiro” a não ser o facto de ter existido. Sente-se que na base deste ataque estão sobretudo as descrições do mundo católico de Macau, conforme alude o investigador Rogério Miguel Puga no artigo A Vida e o Legado de Marta da Silva Van Mierop, publicado na Revista de Cultura, em 2007.
Coates dá de facto uma imagem afectada do domínio católico logo nas primeiras páginas do livro (“A terra está infestada de padres (…) a assistir à necessidade espiritual desta pequena comunidade estavam cerca de 90 padres”), isto já para não falar da descrição física do padre Montepardo, qual diabo, mais para o final do livro: “O seu rosto horrível com os seus olhos de tamanhos diferentes”. Como sublinha a historiadora Tereza Sena, do Centro de Estudos das Culturas Sino-Ocidentais do Instituto Politécnico de Macau, para além dos vários poderes que vigoravam em Macau, os estrangeiros ainda se debatiam com o problema da religião, já que tinham um credo diferente. “Não nos podemos esquecer que nesta época ainda não havia liberdade religiosa” em Macau.
Esse poderio católico podia ser desproporcionado, mas a verdade é que naquela altura salvou grande parte da franja bastarda da sociedade de Macau, definindo a identidade de muitos que nasciam fora dos matrimónios. A Igreja Católica e a Misericórdia tiveram aí um papel fundamental, na medida em que ajudaram a legitimar parte do rebento da cultura macaense, ou seja apoiavam as muitas “órfãs” que nasciam das relações clandestinas com mulheres de baixa condição de Macau.
“Não se sabe ao certo qual era a ascendência de Marta, mas parte-se do princípio de que era chinesa”, explica a macaense Cecília Jorge, consultora do Núcleo de Apoio da Misericórdia de Macau. Até “podia ser macaense. Parece ter qualquer coisa de Xangai também. Podia ser euroasiática”, sugere o provedor da SCMM, António José de Freitas.
São necessárias muito mais provas para se falar da origem de Marta mas, para Cecília Jorge, há um ponto assente: “Para se ser macaense não é necessário ter sangue português. O que é importante é a cultura”. No caso da benemérita, a sua fé católica é fundamental, “o que era algo inerente ao macaense”. Por isso, “é mais do que tácito que seja considerada macaense”.
Outro macaense, José Luís de Sales Marques, faz notar que Marta “adopta uma atitude claramente europeia, nomeadamente através da sua relação com o Catolicismo e a maneira de vestir”. No entanto, considera que ela “é uma macaense fora do vulgar, quer pela sua independência em relação ao mundo masculino, reforçada pelas circunstâncias de viver com um sobrecarga que se ausentava regularmente para Cantão, pela sua iniciativa e sagacidade nos negócios e pelo facto de ter de viver escondida do mundo”.
Já a investigadora Ana Maria Amaro se referia aos chineses católicos que eram assimilados pela comunidade macaense como “macaenses por adopção”, o que inclui a benemérita, mesmo que a sua ascendência fosse apenas oriental. Marta também só é conhecida dos portugueses de Macau pois parece que nenhum chinês ouviu alguma vez falar desta mulher, ainda que Coates sugira o contrário. Nem mesmo os especialistas da Associação de História de Macau, consultados para este efeito, têm qualquer conhecimento da sua existência.
Marta era tão ou mais católica que os macaenses. O seu testamento é bem prova disso: “Deus verdadeiro, em quem firmemente creio por ser cristã, e Catholica Romana (…) Eu Marta da Silva Merop, viuva de Thomaz Merop (…) ordeno esta a minha última vontade”. Neste documento deixa expresso o desejo de legar o seu espólio à SCMM, beneficiando ainda o Senado, os seus protegidos e várias instituições, como o Recolhimento de Meninas de Santa Rosa de Lima e o Convento de Santa Clara, e patrocinando até festividades locais. O mesmo documento também refere que se casou com Thomas “à face da Igreja”, ainda que não exista registo do matrimónio, conforme faz notar Puga no seu artigo sobre a benfeitora.
Casamento sem papel
É curioso que nem o próprio Coates os casa pela igreja e este episódio, que até tem o seu fundo de verdade impresso no testamento, é mesmo o único em que o escritor parece desviar-se da realidade, espetando assim mais uma farpa anticatólica, uma das que fez jorrar a tinta da pena de padre Manuel Teixeira em três artigos sobre o tema no jornal Clarim. O enlace do romance acontece numa cerimónia muito privada a dois com uma testemunha acidental e é a partir desta que o leitor espreita a união secreta, assim se ilustra o perigo que representava este casamento. Nas vésperas, o casal tinha recebido a visita do padre Montepardo e a Companhia estava desconfiada de que Thomas planeava casar com Marta. Se o enlace se tornasse público, o inglês perdia o direito à viagem que precisava de fazer para se curar da disenteria que o tinha acometido numa das muitas idas a Cantão.
Os ingleses não podiam ter residência permanente em Macau não podendo, por isso, levar mulheres ocidentais para o território ou para a China, ou mesmo casar com as locais. Claro que nenhum se devotava ao celibato. Todos tinham à partida pensionistas em casa, como Thomas, ou visitavam prostitutas. É um facto que também fazia com que a Macau Setentista fosse extremamente masculina, muito escondida por detrás das portadas ocidentais e dos biombos chineses.
Em City of Broken Promises, Marta nunca manifesta crença no matrimónio. Não tinha por que alimentar os sonhos de casamento nutridos por Thomas, as tais promessas não cumpridas que Coates chama para o título do romance. A grande preocupação da concubina era fazer dinheiro suficiente para que quando ele partisse ela não tivesse de ser entregue, como a casa, a outro estrangeiro. Não é que os ingleses não se apaixonassem pelas suas concubinas. Mas se algum estrangeiro decidisse esposar uma chinesa ou reconhecer a paternidade de um mestiço, a Companhia das Índias inglesa retirava-lhe tudo, criando até impeditivos ao seu futuro na mãe-pátria.
Thomas consegue partir na embarcação da Companhia mas, doente como estava, não sobrevive aos dias de mar e não regressa a Macau, como tinha prometido à sua amada. A notícia da sua morte chega com as suas derradeiras palavras: “Diz-lhe que este é o meu desejo antes de morrer: USA O MEU NOME”. Marta herda assim o nome Mierop, a casa da Rua do Hospital e ainda 10 mil libras que lhe garantiram o resto da vida. Deu bom uso ao dinheiro e lançou-se como armadora, mandando construir uma grande embarcação com o seu nome que se fez bem conhecida no Mar do Sul da China.
O que a notabilizou não foi a sua riqueza, mas sim a benevolência. Sem herdeiros directos, a ex-concubina lega a sua fortuna à SCCM, que era instituição caritativa, testamenteira, seguradora e banco. E fá-lo numa altura em que a instituição estava muito precisada. “Exactamente”, admite o provedor, sublinhando até que “a Santa Casa de Macau nunca recebeu nenhum apoio quer monetário ou de recursos humanos de Lisboa”. Naquela época uma crise afectava as Irmandades de Portugal e dos territórios ultramarinos, conforme lembra Leonor Seabra, que esclarece: “Os irmãos apoderavam-se dos bens da Misericórdia a título de emprestado, tal como os reis, mas eram empréstimos que muitas vezes não tinham retorno”. A mesma historiadora adianta no seu artigo que “as Misericórdias acumularam vastos patrimónios em bens de raiz e móveis, principalmente a partir do século XVII, quando estas instituições obtiveram um maior número de doações, devido à vulgarização da ideia de Purgatório, após o Concílio de Trento”.
O legado de Marta perdurou até ao século XX, em prol da cidade e da igreja, mas gerou disputas por causa dos juros devidos pelo Senado. Também é nesse século que Austin Coates dá o merecido reconhecimento à concubina naquele que é o seu romance mais importante. O sucesso repercute-se depois no palco, quando a história é encenada num musical que abrilhanta um festival de Hong Kong nos anos 1970.
Poderes a chocar no Antigo regime
Um dos grandes valores reconhecidos ao romance histórico de Austin Coates é a forma como caracteriza a Macau do século XVIII. O escritor britânico consegue ilustrar bem o que era o choque de poderes económico, social e político. Na época de Marta da Silva Van Meriop (1766-1828),  “havia a cidade cristã e a cidade chinesa. Na primeira regula o Senado e os poderes portugueses e de luso-descendentes, mas têm de negociar diariamente com as autoridades chinesas”, explica Tereza Sena, investigadora do Centro de Estudos das Culturas Sino-Ocidentais do Instituto Politécnico de Macau.
Há uma série de influências e poderes paralelos que gerem Macau, como o do Mandarim da Casa Branca, a Igreja Católica e as autoridades portuguesas. É que se houvesse problemas, os chineses fechavam as Portas do Cerco e, em Macau, não havia víveres. Aliás, a mesma especialista acredita que “esse argumento foi utilizado ao longo da história como arma de pressão. É que, na realidade, Macau não foi formalmente portuguesa até 1887 (data da assinatura do Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português). Antes dessa data e até ao consulado de Ferreira do Amaral, era uma espécie de feitoria em que era permitido aos portugueses lá estar”. O próprio escritor britânico Coates faz referência no romance ao domínio sínico: “Uma Macau onde nenhum chinês pode entrar era uma Macau sem do que viver a não ser a água do poço”.
Tereza Sena afirma que “uma das características dessa sociedade do Antigo Regime, anterior à construção do Estado Moderno, é a pulverização dos poderes, sem supremacia duns sobre os outros, com a Coroa como única figura tutelar em relação a todos. Não existia uma distinção clara entre o público e o privado, nem os poderes estavam organizados tal como estão hoje”. Esta sociedade também se caracteriza pelo “particularismo” e a “isenção”, a que se podia sempre apelar e “as normas nunca eram muito rígidas”. Mas depois as isenções acumulam-se… Certo é que “não podemos olhar para esta realidade com os olhos dos nossos dias pois vivemos num sistema diferente”.
Quando os estrangeiros se começam a estabelecer-se em Macau em meados no século XVIII, “o equilíbrio desestrutura-se mesmo e é preciso arranjar novas formas de coexistência e acomodação”, justifica Sena. Leonor Seabra, directora do Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos da Universidade de Macau, afirma no livro A Misericórdia de Macau (séculos XVI a XIX): Irmandade, Poder e Caridade na Idade do Comércio que naquela época o comércio de Macau foi afectado pelo “desenvolvimento da Companhia das Índias Orientais e do country trade dos britânicos, que utilizavam meios mais modernos de crédito”. A Companhia das Índias, operando sob a Royal Charter, viria a deter o monopólio do comércio inglês dos mares do Oriente e transformou-se mesmo na maior organização comercial do mundo. A sua maior fonte de lucro era então o comércio do chá. Apesar do seu crescente poderio no enclave, os estrangeiros eram confrontados com “uma série de proibições das autoridades”.
Segundo as leis chinesas, nenhum estrangeiro podia aprender a língua chinesa ou permanecer em Cantão mais dos que os seis meses da temporada comercial. Também não podiam comprar casa em Macau ou fazer trocas comerciais em nome próprio fora do âmbito da Companhia. Mas claro que o Senado cedia a alguns “pedidos especiais”, explica Sena. Também existiam situações, como a que é retratada no livro de Austin Coates, em que os macaenses faziam de intermediários. “Eles emprestavam nome, tratavam dos alugueres das casas, frete das embarcações para Cantão, e uma série de outros patrocínios”, adianta a historiadora.
Aparte das leis chinesas e desígnios do Mandarim da Casa Branca, das autoridades portuguesas e das regras da própria Companhia, havia ainda um código de costumes de Macau: a China Fashion (à moda da China). Eis algumas das regras que os recém-chegados ingleses tinham de respeitar. Por norma, os sobrecargas herdavam a casa, a mobília, os criados e a concubina do colega da Companhia das Índias inglesa que substituem; as concubinas não podiam ser vistas nas casas dos sobrecargas, pelo que as portadas deviam estar fechadas, tendo estas mulheres de evitar circular na parte da casa que dava para a rua; as concubinas não podiam sair à rua, e não podiam permanecer nas divisões da casa onde estivessem simultaneamente o sobrecarga e os criados.
Texto de Patrícia Lemos. Revista Macau 2014

terça-feira, 14 de abril de 2015

Hotel Estoril transformado em complexo de artes

O Governo tem planos para colocar em marcha uma transformação na zona do Tap Seac, que passará a ser um “complexo de artes”, anunciou ontem Alexis Tam. O “novo plano global” inclui a reforma do antigo Hotel Estoril que se vai tornar num “centro de formação artística”, revelou o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura aos deputados. (...) A ideia base é a de “transformar aquele espaço num complexo com elementos de arte, indústrias criativas, educativas, culturais e recreativas e de lazer, estando também incluído o Conservatório de Macau”, adiantou. (...)
As instalações da Piscina Municipal do Estoril e do antigo Hotel Estoril estavam à espera de plano há vários anos. O hotel, construído na década de 60 e onde Stanley Ho iniciou a sua concessão de jogo, encontra-se encerrado desde os anos 90. A Escola Portuguesa era uma das candidatas a ocupar estas instalações na praça do Tap Seac.
O hotel Estoril foi, até à abertura do hotel Lisboa, em 1970, a grande atracção de Macau. “Para além do jogo, este espaço – um hotel de primeira categoria -, era conhecido pelo excelente restaurante e a banda de música permanente. As festas de casamento das famílias mais ricas tinham aqui lugar, bem como as festas ligadas a datas como a passagem de ano, Natal, Carnaval e Ano Novo Chinês”, lê-se no blogue Macau Antigo sobre este hotel que é um exemplo de arquitectura modernista no território.
in jornal Ponto Final 14.04.2015
Hotel Estoril em 1968. Foto de AJMNSilva

Actualmente...

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Comissão de Estética: 1963

Para "assegurar a defesa da traça arquitectónica" dado o "incremento das construções que nos últimos tempos se tem verificado" foi criada a Comissão de Estética a 31 Maio de 1963 prevista no Diploma Legislativo nº 658 e através do Despacho nº 31 desse ano assinado pelo governador.
Esta comissão incluía representantes das Obras Públicas (o chefe da repartição era o presidente), Serviços de Saúde, Centro de Informação e Turismo, Serviços de Cadastro, representante do Leal Senado, o arquitecto Henrique Mendia e um delegado da associação comercial chinesa, no caso Chui Tak Kei. Seria o governador a decidir em que casos a comissão seria chamada a intervir. Desconheço até quando funcionou este organismo. Sei por exemplo que Francisco de Aquino foi vogal da mesma em 1966/67. Facto é que logo no início da década de 1970 a demolição do edifício onde funcionava o hotel Riviera não foi travada. E foi pena!

domingo, 12 de abril de 2015

Tribunal do Commercio da 1ª Instancia de Macao

"Lista dos Jurados Commerciaes que foram eleitos para servirem no Tribunal do Commercio da 1ª Instancia de Macao n'este corrente ano de 1863 a 1864". 
Da lista fazem parte o Barão de Cercal, Maximiano Remedios, Domingos Pacheco, Gonçalo da Silveira, Marciano da Silva e Bartholomeu Pereira.

sábado, 11 de abril de 2015

Almerindo Leça: 1908-1995

Almerindo de Vasconcelos Lessa, natural do Porto, médico, humanista e professor universitário, esteve ligado a Macau através de vários projectos de investigação na área da antropologia cultural dos trópicos e da biomedicina do sangue. (...) Formado em medicina pela Faculdade de Medicina do Porto, em 1933, foi assistente do Professor Abel Salazar na cadeira de Anatomia Microscópica. Dizia que Abel Salazar, era “a mais poderosa e desconcertante inteligência que até hoje conheci, e sem dúvida a mais chegada a mim, devo a iniciação nos rigores do método experimental, bem como a inquietação científica, um tudo nada céptica, de que padeço ainda hoje”. (...)
Em 1941 funda os Serviços de Sangue nos Hospitais Civis de Lisboa, tendo realizado missões médicas em Goa (1950), em Angola (1950), em Moçambique (1951), em Cabo Verde (1956) e em Macau (1960, 1974 e 1981). (...) O seu doutoramento será em Medicina e Cirurgia, na Universidade do Porto, em 1956, com uma tese sobre “A Individualidade Biológica do Sangue”. O aprofundamento das suas investigações conduzem-no a um outro doutoramento, em 1970, na Universidade de Toulouse, apresentando a tese, “L’Histoire et les Hommes de la Premiére Republique Democratique de L’Orient: Anthropobiologie et Anthroposociologie de Macao”.
A ligação a Macau remonta ao início da década de sessenta quando chefia uma missão sero-antropológica cuja objectivo era estudar as leis genéticas da miscigenação local. Será louvado, mais tarde, em 1962, pelo Governador Jaime Silvério Marques, pela qualidade científico-cultural do trabalho realizado.
Macau começou a apaixonar o cientista, que se revelará um conhecedor profundo da sua plurissecular história. Almerindo Lessa começou a olhar para a história ‘altiva’ do Território, vendo nela insuspeitadas qualidades autonómicas: “Reflectindo no Oriente, é certo, o estilo medieval da Europa, espécie de pequeno estado apenas, por assim dizer, nominalmente sujeito à mãe pátria e até 1585 quase desconhecendo o Vice-Reinado de Goa, ao qual só a ligavam a presença temporária dos capitães da rota do Japão, como sucederia de 1557 a 1625 (o tráfico no Pacífico sendo um negócio da cidade, mas o tráfico com a Europa continuando monopólio real, tanto que os direitos de passagem pelos mares de Goa, devidos ao rei, só seriam perdoados durante as guerras com Castela), os mandarins de Cantão viam, estupefactos, aquela pequena república mercantil olhar de frente os governadores que lhe mandavam, os próprios bispos e até o Rei”.
Chama-nos, igualmente, a atenção para uma diplomacia inovadora nas subtilezas processuais: “De modo igualmente maquiavélico (e durou setenta anos! De 1554 a 1625) tínhamos estabelecido uma governação volante de três capitães: um em terra, outro já no mar a caminho do Japão e o terceiro, também já em rota, desde Goa para Macau, por forma a nenhum estar por mais de dois ou três anos seguidos, o que dava à administração um ar de descontinuidade, de curta permanência no poder, e enganou os chineses que no método só viram a instabilidade governativa própria de uma nação bárbara”.
Com Jacques Ruffié publica em Paris, no ano de 1966, “Le facteur Diego chez les chinois originaires de la province de Kouangtong”.
Em 1967, organizou em Lourenço Marques um importante seminário sobre “Os portugueses, chineses e mestiços luso-tropicais que desde há quase cinco séculos habitavam uma pequena região do Rio das Pérolas”. A essência de Macau estava no mar: a “cidade era um cais. Toda a sua riqueza estava no giro marítimo. Chamava ‘dinheiro vivo’ aos empréstimos que fazia por hipoteca sobre barcos e fretes. Do mar vinha a prosperidade e a conservação”. Recorde-se que, nesse tempo,estava radicada em Moçambique uma numerosa e dinâmica comunidade chinesa.
Retorna a Macau em 1974 para expandir as investigações anteriores. É-lhe cometida a missão de estudar a implementação de uma nova orgânica institucional para a política de saúde e de assistência social. Propõe o Centro Hospitalar Sun Yat Sen. A ideia ficou na gaveta da secretária do governador.
No prestigioso College de France, na qualidade de professor convidado, lecciona um curso sobre a “História do Povoamento Português dos Trópicos”, inteiramente focado no seu trabalho nas missões médicas em Cabo Verde e em Macau.
Em 1977 aceita o desafio de presidir à Comissão Instaladora da Universidade Internacional de Macau, da qual será o Reitor. Vicissitudes diversas ditaram a sua extinção em 1982. O ensino superior em Macau caminhará por outras rotas e com objectivos completamente diferentes daqueles então traçados.
A bibliografia de Almerindo Lessa é tão extensa quanto importante e destaco os seguintes títulos: “Sua Magestade, a Criança”, 1924; “Educação Sexual da Mocidade”, 1934; “As Novas Orientações da Medicina Escolar”, 1937; “Ensaio sobre a Metodologia da Higiene no Ensino Secundário”, 1939; “Uma Urgente Questão Nacional. Da Necessidade de Dignificar a Prática e o Ensino da Medicina na Índia Portuguesa”, 1952; “Exposição de Motivos e Programas para uma Universidade Internacional de Férias – Macau”, 1978; “A História e os Homens da Primeira República Democrática do Oriente. Biologia e Sociologia de uma Ilha Cívica”, 1979; “Universidade Internacional de Macau”, 1980; “Macau – Ensaios de Antropologia Portuguesa dos Trópicos”, 1996.
Entre as suas condecorações, avultam a Legião de Honra, a comenda da Ordem do Infante D.Henrique, a comenda da Ordem de S. Tiago de Espada ou a Medalha de Ouro dos Hospitais Civis de Lisboa. Recebeu os Prémios “Instituto Português do Oriente” e “Nunes Correia Verdades de Faria”. O seu nome integra a toponímia da cidade de Lisboa.
Excertos de um artigo da autoria de António Aresta publicado no Jornal Tribuna de Macau a 20-01-2011

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O 'reconhecimento' oficial do Senado: 10 de Abril de 1586

A 10 de Abril de 1586, o vice-rei da Índia, D. Duarte de Meneses, conde de Tarouca, por ordem de Filipe I, aprovou o pedido feito, em 1580, pelos moradores de Macau ao seu antecessor, D. Francisco de Mascarenhas e renovado, no ano anterior, ficando, oficialmente, reconhecida a eleição dos vereadores, juizes e oficiais da Câmara, ou seja,  o Senado.
A eleição do Senado foi, ao princípio, feita por pelouros e, mais tarde, por pauta, de três em três anos. Todos os portugueses, quer nascidos em Macau quer noutras possessões portuguesas, desde que satisfizessem os requisitos exigidos por lei, tinham o direito de voto. Aos portugueses nascidos fora de Macau, era, porém, exigida a condição de serem casados e estabelecidos em Macau. Apurados os eleitos, a sua eleição ficava, porém, dependente da confirmação do vice-rei da Índia.
O edifício e largo do Senado em meados da década de 1930
O procurador da cidade era o representante do Senado em todos os assuntos sínicos, junto das autoridades chinesas de Xiangshan e uma espécie de juiz de primeira instância, em questões verbais entre portugueses e chineses, com poderes para aplicar penas em casos menores. Os casos de maior gravidade, sendo de chineses, eram remetidos ao mandarim do distrito, e sendo de portugueses, ao juiz de direito.
Quando houvesse assuntos de gravidade a tratar, era convocado um conselho geral das principais autoridades eclesiásticas e de moradores mais categorizados, na sua maioria antigos senadores, isto é, os chamados Homens Bons, para deliberarem sobre as medidas a adoptar. Os conselhos gerais eram presididos pelo capitão de terra, que dispunha de voto de qualidade.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

"Na Esteira do Pátria"

Embora hoje quase esquecida entre nós, e totalmente ignorada pelas bibliografias aeronáuticas estrangeiras, a primeira viagem aérea entre Portugal e Macau, iniciada a 7 de Abril de 1924 pelos pilotos Brito Paes e Sarmento de Beires, deu um contributo para o desenvolvimento da aviação mundial, quanto mais não seja por ter cumprido, com um só aparelho, o primeiro voo entre vila Nova de Milfontes e Carachi, num gigantesco pulo do Atlântico ao Índico.
O motor do Pátria patente no Museu do Ar em Alverca
"Os Portugueses somos do Ocidente. Imos buscando as terras do Oriente" Luís de Camões, "Os Lusíadas", canto I, estrofe 50 "(...) se nós, os da Aviação, tomássemos a peito não deixar esquecer os nomes daqueles que à Aviação deram brilho, talvez que os outros, os de fora da casa, se não esquecessem também de nós, como é costume, nem se esquecessem de nos reservar o lugar que nos compete (...)" Jorge de Castilho.
Estava-se em 7 de Abril de 1924, no sítio de Coitos, uma terrinha atirada lá para baixo, para os confins do Alentejo, algures para os lados da embocadura do rio Mira, onde os sobreiros e as moitas se escapam da paisagem, e a terra desliza em planície mansa, até se fundir com as rochas abruptas e o ruído do mar. Na madrugada desse dia, os pilotos Brito Paes e Sarmento de Beires, aos comandos do "Pátria", um desactualizado Breguet XVI BN2, modelo de 1919, equipado com um motor Renault de 300 Cv, adquirido em segunda mão por subscrição pública - um avião de "esmolas" como então lhe chamaram - estavam prestes a iniciar uma das mais interessantes jornadas da nossa aviação pioneira, a primeira viagem aérea entre Portugal e Macau.Brito Paes e Sarmento de Beires eram oficiais do exército e pertenciam ao grupo de esquadrilhas de aviação República, sediado na Amadora. 
Brito Paes era natural de Colos, no Alentejo e na altura da viagem estava quase a completar 40 anos. Tinha o "brevet" passado pela escola de aviação militar de Avord, França. Sarmento de Beires, por sua vez, era natural de Lisboa, onde nasceu a 4 de Setembro de 1893, e na altura da viagem tinha 31 anos. Foi instruendo de Sacadura Cabral no primeiro curso de aviação em Portugal, em Vila Nova da Rainha. O aparelho, que inicialmente estivera destinado a tentar a primeira travessia aérea do Atlântico sul, embora seguindo uma rota diferente da que Sacadura Cabral e Gago Coutinho escolheram para o "Lusitânia", não chegaria, no entanto, cumprir tal objectivo, pois este, sucessivamente adiado, acabaria por perder, com o correr do tempo, toda a razão de ser, quando em 1922, já lá para as bandas do Brasil, o hidroavião "Lusitânia" passeava apoteoticamente os seus dois tripulantes.Perdido o objectivo inicial, foram surgindo as primeiras ideias de levar um avião português até à Índia - dada a finalidade histórica de tal viagem -, ideias que, quase de imediato, se estenderam até Macau e que, num eufórico acesso de optimismo, só compreensível se nos reportarmos ao ano aeronáutico de 1924 - em que tudo podia acontecer - se alargaram, desmesuradamente, até uma despropositada viagem de circum-navegação aérea, para a qual o avião não dispunha de autonomia suficiente e os pilotos de meios bastantes.
Embora hoje quase esquecida entre nós, e totalmente ignorada pelas bibliografias aeronáuticas estrangeiras, esta primeira viagem aérea entre Portugal e Macau teve o seu valor e, de alguma forma deu um contributo para o desenvolvimento da aviação mundial, quanto mais não seja, por ter cumprido, com um só aparelho, o primeiro vôo entre Vila Nova de Milfontes e Carachi, num gigantesco pulo, do Atlântico ao Índico, onde, pela primeira vez, se realizou a travessia de todo o Norte de África. Esta proeza, mais difícil do que parece à primeira vista, obrigou o "Pátria" a vencer condições de extrema dificuldade, em que os perigos do calor excessivo e das térmicas traiçoeiras se misturavam com o receio constante de uma "panne" inesperada, ou de uma bala perdida, saída do cano de uma qualquer espingarda de kabila revoltado. Assim, em caso de uma aterragem forçada, sobre o deserto, o panorama não se apresentava lá muito animador, pois se os não encontrassem, morreriam de sede e se alguém desse com eles, tinham grandes hipóteses de acabar decapitados. Foi por isso, que na época, tal proeza não passou despercebida e encontrou eco em muitos dos grandes jornais europeus, destacando-se, até, uma entrevista exclusiva, realizada por Stanley Parker, correspondente do Times no Egipto.
O facto desta viagem não ser mais conhecida, apesar de toda a divulgação que teve na época, deve-se ao grande incremento que a aviação teve desde então, e que dissolveu, por completo, façanhas como as do "Pátria", um pouco à semelhança daquilo que hoje se passa com as sondas espaciais que, ao tocarem Marte, parecem tornar menores os escritos e "croquis", surpreendentemente correctos, que o russo Konstantin Tsiolkovsky passou ao papel em 1898, ou mesmo as façanhas da Vostok I, ou de muitos outros foguetões que lhe sucederam nos vários programas espaciais, norte-americanos ou soviéticos e dos quais já ninguém recorda o nome.A isto juntar-se-á, ainda, uma certa incapacidade que Portugal tem demonstrado para "puxar lustro" aos galões dourados dos seus valores, não publicitando internacionalmente, com um mínimo de empenho, os feitos dos homens que fizeram os anos de ouro da nossa aviação. Aliás, a Aviação portuguesa nunca foi alvo de um estudo sistemático e sério. O grande manancial para o seu conhecimento são os jornais da época, e as obras que existem sobre essa temática, devem-se, quase todas, ao empenho de alguns dos protagonistas da "Idade Heróica",que dela nos deixaram os seus testemunhos.Entretanto, permanece um vazio no área da investigação da história aeronáutica portuguesa e, enquanto isto, vai-se perdendo a memória de toda uma época, apagada dia-a-dia pelo dedo implacável do tempo, fazendo desaparecer fotografias e outros testemunhos, para os quais não houve espaço para a sua sobrevivência Relembrar esse tempo é voltar a uma época aventurosa e breve, em que o mundo girava depressa e viver era mais importante que a própria vida.Naquela madrugada de 7 de Abril, não foi só o "Pátria" que partiu de Vila Nova de Milfontes. Com ele seguiram os sonhos de todo um povo que, mesmo na pobreza, soube encontrar os meios para levar um avião até aos confins do Oriente. 
 Os momentos que então se viveram, só quem passou por eles lhes conhece o contorno das palavras. É o caso do próprio Sarmento de Beires, que relata a experiência no seu livro "De Portugal a Macau", editado pela Seara Nova em 1925: "É preciso ter vivido esses momentos, ter visto a manhã mal transparecendo ainda através da noite moribunda, ter ouvido essas vozes que, veladas, diziam não sei o quê na sombra em que as formas mal se distinguiam! (...) É preciso ter ouvido o relinchar sonoro da Boneca, a égua inteligente que, puxando a frágil carrinha alentejana, nos levou, pelo caminho sinuoso e estreito, à esplanada cortada a prumo sobre o mar. Lá em cima, era a noite ainda - noite brumosa a desabrochar em pálidas claridades foscas. O Pátria, condor gigante de alumínio e seda, recortava-se na sombra agonizante, como fantasma estranho. Parecia outono. Cheirava a terra húmida. Andavam pelo espaço profecias mudas... Gente, muita gente, não sei quanta. Xailes, lenços, vultos masculinos, crianças.(...) Alguém quis escrever o seu nome na tela do avião(...) e outro, e outro... São dezenas de almas a prender-se, a esconder-se na fuselagem, para sofrer, morrer ou triunfar connosco... Num gesto, que fazia lembrar outros gestos vindos do passado, o pai de Brito Paes tirou do dedo o anel onde se espelhava o brazão da família e entregou-o ao filho.- Vamos !Quem disse a palavra? nem sei... Há segundos que são vácuo na memória (...) tomamos os nossos lugares(..) seis horas e dois minutos (...) lentamente, muito lentamente, como se lhe custasse aquele adeus à terra portuguesa, o Pátria começa a rolar na primeira luminosidade pérola da manhã. E ao fim de oitocentos metros de corrida solta-se do terreno macio e húmido, aproando a Oriente, a um sol que não nasceu ainda, mas que das bandas de Espanha, dispara já as suas claridades frouxas, por bombordo, um aguaceiro espesso desaba sobre a serra do Cercal. E pouco depois o ronco do Pátria desaparecia entre as nuvens." A aventura começara. 
Uma foto que muito provavelmente testemunha uma das 
várias homenagens dos pilotos em Macau (Grémio Militar)
Os calendários marcavam 7 de Abril, No livro de bordo lia-se "De Portugal a Macau - dia 1". Só terminaria dois meses depois, a 20 de Junho, com uma aterragem forçada em Shum-chum, em território chinês, dada a impossibilidade de aterrar em Macau devido a condições atmosféricas adversas. Ao longo da viagem, que passou por inúmeras paragens (Málaga, Cairo, Bagad, Carachi, Calcutá, Rangun, Banguecoque, Hanói), o avião teve de ser substituído por outro, de fabrico inglês, um Haviland DH9, baptizado como "Pátria II".  
Texto de Henriques Mateus, autor do livro "Na Esteira do Pátria", editado em 1999

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Canídromo e o Canil Municipal

Canil Municipal frente ao Canídromo (foto, actual, JTM)

Foto cedida por Isaac de Jesus ca. 1945
Na av. Almirante Lacerda, frente ao Canídromo
Em baixo, foto actual (IACM)
Não muito longe fica o Canil Municipal. O  mais antigo funcionou entre 1875 e 1908 na Calçada do Tronco Velho. O actual edifício data de 1948 e tem marcas de art déco: fachada simétrica e colunas de estilo clássico.

Embora popularmente mais conhecidas a partir dos primeiros anos da década de 1960, as corridas de galgos no Canídromo de Macau remontam a 1931. Inspirado pelo canídromo inaugurado em Xangai em 1928, Fan Che Pang, um empresário local, juntou um grupo de investidores norte-americanos e chineses para fundar o Macau Canine Club em 1931. A iniciativa iria durar apenas até 1938. Dois anos depois, era inaugurado o Campo 28 de Maio, com um campo de futebol relvado no interior da pista oval, onde se passaram a fazer corridas de atletismo. Em 1963 os novos concessionários remodelam o espaço tem  funcionado desde então mas com cada vez menos público.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Tsing Ming / Cheng Meng por Wenceslau de Moraes (1890)

“O dia 5 de Abril amanhecera excepcionalmente belo em Macau. Uma alegria, este renascimento da luz, a alvorada cor-de-rosa, as montanhas doiradas pelo sol, a brisa tépida varrendo o espesso çlençol de neblina; alegria que só compreendem os que já por longo tempo habitaram as costas da China, e que por experiência conhecem a tristeza dos fastisiosos meses de Fevereiro e Março, invarialvelmente turvos, frigidos, desoladores. Com um poucochinho de boa vontade, quem não acreditaria numa influência complacente das grandes divindades budísticas, que, em amigável pacto, houvessem assi deliberado proteger o pacífico povo das vizinhanças de Macau, na realidade da festa religiosa mais grata talvez a todos os filhos do império?
As recortadas colinas, que rematam o panorama do porto interior, semeadas de velhos túmulos, ordinariamente desertos, encheram-se de peregrinos logo ao romper da madrugada. Curiosa romaria; um desprevenido julgaria surpreender misteriosas emboscadas, processos estratégicos de invasão, naquele desfilar indeciso de cobaias serpeando cautelosamente pelas trilhas das serras, aqui ocultando-se nas moitas, além ascendendo aos outeiros, dividindo-se em grupos, estudando o solo, perscrutando atentos. Mas peregrinação bem de paz era aquela, a comemoração do Tsing-Ming ou festa dos mortos, geral em toda a China.
No entanto atravessava eu a cidade, passava para além do nosso domínio, e achava-me no chamado Terreno neutro, vasto campo arenoso, onde os chinas de Macau e dos lugares vizinhos enterram habitualmente os seus mortos; terreno de mortos se lhe poderia mesmo chamar, sem ofensa aos nossos brios de dominação, atentas a imparcialidade política, a absoluta neutralidade, que professam a imparcialidade de todos os países… A mesma peregrinação: no dorso suavemente curvo da encosta, eriçada de pedras funerárias, formigava uma multidão enorme de povo; famílias inteiras, os avós trémulos de velhice, os pais vigorosos, os rapazes, as criancinhas agarradas às mãos das mães, onda humana alastrando-se por mais de dois quilómetros de extensão, salpicada de tons vivos pelas cores varieadas dos vestidos.(...)
Wenceslau de Moraes em 1890 in Traços do Extremo-Oriente

O Cheng Meng, festividade da pura claridade, remete para o culto dos antepassados  e ainda para o início do Verão e é assinalado por estes dias.
"Em Macau, milhares de pessoas dirigem-se para os cemitérios, sobretudo da Taipa e Coloane, e outros milhares atravessam as Portas do Cerco em direcção á terra natal onde estão sepultados os familiares. Vão carregados de comida, bebidas, dinheiro, objectos de papel, para cumular de presentes os antepassados e renovar as provisões da sua morada, para que possam continuar a viver na abundância, a partilhar com os amigos e a distribuir pelos pedintes (espíritos errantes)."  
António Pedro Pires in O Culto dos Antepassados em Macau.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Sabia que...

Na antiga sede do BNU em Lisboa existe um mural - da autoria de Leopoldo de Almeida - com os brasões das colónias/províncias ultramarinas portuguesas - colocados em redor do brasão português - onde o Banco Nacional Ultramarino era o o banco emissor. São sete no total, faltando apenas Angola que desde 1926 teve o seu próprio banco central. 
O mural em alto relevo - onde destaquei o brasão de Macau - pode ser visto na Rua Augusta desde Maio de 1964, ano em que se comemorou o centenário do BNU que ali inaugurou a sua nova sede.
Em cima, duas imagens relativas ao BNU de Macau do tempo em que a gestão dos clientes em fila de espera para serem atendidos ao balcão ainda não era feita de forma electrónica.

sábado, 4 de abril de 2015

Procissão de "Corpus Christi": 1862

A festa do Corpo do Cristo é realizada na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade que, por sua vez, acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes. (60 dias depois da Páscoa).
A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao séc. XIII.
Actualmente Hong Kong e Macau são os únicos locais na China onde a autoridade papal na Igreja Católica Romana é aceite. Pequim cortou as relações diplomáticas com o Vaticano em 1951, depois do Partido Comunista chegar ao poder e constituído a sua própria igreja fora da autoridade do papa.
Na China (continente), o culto só é autorizado nas igrejas aprovadas pelo Estado, pela Associação Católica Patriótica Chinesa, que reconhece o papa como um líder espiritual, mas que rejeita a sua autoridade na ordenação de padres e bispos.
Ao lado uma referência do Boletim Oficial de Macau de 1862 referente à festa "solemne de Corpus Christi" que incluiu uma procissão a partir da igreja da Sé Cathedral e que terminou com a intervenção do "Batalhão de Macao" que se associou ao evento efectuado "descargas ao recolher o Pallio" (leia-se pálio, um parte das vestes do papa e dos bispos cujo formato se assemelha ao cachecol).
Boa Páscoa!

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Ballou's Pictorial: edição de 3 Abril 1858

Edição de 3 de Abril de 1858 do jornal norte-americano (Boston) Ballou's Pictorial. Inclui um desenho da baía da Praia Grande e um pequeno artigo sobre Macau onde se pode ler "general view of Macao". Escreve-se que a cidade tem semelhanças com Cádiz (Espanha) e que o porto, habitualmente com pouco movimento, teve a presença de inúmeras embarcações em Dezembro de 1857.
 
"We present on this page a general view of the beautiful Portuguese city of Macao, which is situated on an island of the same name at the mouth of the Canton River, China. It is built, as our engraving shows, in a graceful sweep, while beyond it rise bold eminences, crowned with churches and forts. By many who have seen both cities, it has been compared to Cadiz. Tha harbor of Macao is not generally a busy one, but in December last it presented an animated spectacle, being the rendezvous of all nations. Never had it so many illustrious guests. (...)".

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Contra Ventos e Marés

"Contra Ventos e Marés" é o título do livro (edição L.O. de 2006) onde João Nobre de Carvalho escreve as suas memórias enquanto contra-almirante da Marinha de Guerra Portuguesa.
Nascido em Goa em 1940, ali viveu grande parte da infância e teve o primeiro contacto com as religiões orientais, despertando para o estudo dos assuntos esotéricos, iniciado mais tarde. Depois de cursar o Colégio Militar assentou praça no Exército, transitando para a Armada, onde cumpriu uma carreira muito diversificada, incluindo vários comandos de mar, tendo atingido o posto de Contra-Almirante.
Serviu no Continente, Açores, Guiné, Angola, Macau e no Mar do Norte, tendo cursado em 1990, em Londres, o Royal College of Defense Studies, onde a sua tese “Maritime Security and the Role of Portugal” mereceu um prémio. Depois de passar à situação de reserva, trabalhou sete anos na área da segurança da informação e dedicou-se também à pintura a óleo sobre tela.
O livro, grande parte sobre Macau, foi escrito, segundo o autor, “sem máscaras, nem falsos pudores”, com “total abertura de espírito e sem o menor complexo de chamar as coisas pelos seus nomes”. O contra-almirante João Manuel Nobre de Carvalho foi Capitão dos Portos em Macau, um regresso ao território onde viveu, entre 1966 e 1974, acompanhando os pais, quando o Brigadeiro Nobre de Carvalho foi governador.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Passatempo: um livro por mês até ao final do ano

Março chegou ao fim com um total de 15825 pageviews, um dos melhores registos mensais desde o início deste projecto em 2008 que caminha a passos largos para os 800 mil pageviews.
Para premiar tamanha dedicação, até ao final do ano os leitores têm oportunidade de, mais uma vez, habilitarem-se a ganhar um livro todos os meses. Para isso, basta estar atento ao que vai sendo publicado. Quando surgir o símbolo # num determinado post só tem de enviar um e-mail com o seu nome e morada para macauantigo@gmail.com escrevendo no assunto a palavra "passatempo". O que for mais rápido a responder receberá em casa, sem qualquer custo, um livro.
Esta iniciativa que só está disponível para os leitores residentes em Portugal. Tem o apoio do Instituto Internacional de Macau e da Livraria do Turismo de Macau em Lisboa.