Entre 11 e 14 de Fevereiro de 1867 o jovem Conde Ludovic de Beauvoir, acompanhando o Duque de Penthièvre numa viagem à volta do mundo, visitam Macau. Partiram em Abril de 1866 e visitaram a Austrália, a ilha de Java, o Sião, Hong-Kong, Macau e Cantão, depois a China do Norte, o Japão e a Califórnia e voltaram para França em Setembro de 1867.
Os viajantes franceses chegaram a Macau vindos de Hong Kong a bordo do vapor a pás Fire-Dart e partiram em direcção a Cantão poucos dias depois.
Dois anos depois o conde publica um livro sobre a viagem. Num tom muito crítico resume o declínio económico da cidade afirmando que, se não fosse o êxodo forçado dos cules e o lucrativo contrabando de ópio, a "erva cresceria nas ruas de Macau abandonada". Para ele, o dinamismo comercial tinha sido totalmente absorvido pela vizinha Hong Kong britânica, restando a Macau a dependência deste comércio humano degradante e que só seria proibido uma década depois.
Excertos do diário a 12 de Fevereiro (tradução/adaptação) publicado em Voyage autour du monde: Java, Siam, Canton" logo em 1869:
"Graciosamente conduzidos durante a primeira parte do dia por Dom Osório, ajudante de campo do Governador, e durante a segunda por Sua Excelência em pessoa, Dom José Maria da Ponte e Horta, major de artilharia, visitamos hoje toda a possessão, o que é fácil, visto parecer-me ter cinco quilómetros de comprimento por dois de largura. Esta península tem exatamente a forma de uma pegada humana, cujo calcanhar está voltado para o mar, enquanto o polegar termina numa língua de terra com quatrocentos metros de largura que a une à grande ilha de Hiang-Chan.
O calcanhar é formado por nove altas colinas rochosas que dominam os fortes de Bom Parto, Barra, São João e São Jerónimo; a grande curva interior da planta do pé está preenchida pelas habitações amontoadas dos chineses, que são em número de cento e vinte e cinco mil, enquanto os dois mil residentes portugueses estão domiciliados no lado oposto e exterior. A Praia Grande, esplanada marítima, é o seu boulevard; solares de grades escuras, o Palácio do Governador, a Capitania do Porto, vivendas oficiais ou comerciais estão ali alinhadas, apresentando absolutamente o cunho colorido, arqueado e monástico da mãe-pátria.
Suponha-se então que uma muralha escala o peito do pé (...) e que todas as articulações dos dedos se crispam e se erguem; não são mais do que montanhas em sobressalto no topo das quais se erguem os fortes de São Francisco, da Guia, de São Paulo do Monte e sete ou oito outros; depois vêm a planície cultivada pelos hortelãos, a aldeia de Mong-Há e a barreira de dezasseis pés de altura que separa a colónia do território chinês.
As estradas que seguimos na nossa interessante viagem são escavadas em cornija no granito e do efeito mais pitoresco; uma centena de canhões de grande calibre apontados nas alturas partilham a tarefa de defender a península do lado do mar envolvente ou de bombardear o bairro das cento e vinte e cinco mil tranças em caso de motim.
Depois visitamos a Praça da Sé, a catedral, os velhos paços do concelho onde fica o Senado e onde figura esta inscrição desde 1654: CIDADE DO NOME DE DEOS NAO HA OUTRA MAIS LEAL.
Percorremos os quartéis, os mosteiros, a igreja de São Paulo construída em 1594 pelos Jesuítas e hoje três quartos incendiada, o Asilo dos Pobres, etc., etc.; numa palavra, uma série de edifícios antigos e cristãos encimados por cruzes, ornados com santos em nichos, cobertos de frescos curiosos. Adicione a mantilha que esconde a cabeça das mulheres, o imenso chapéu preto e oblongo sob o qual caminham os monjes, a cornoita branca das Freiras da Caridade, e jurar-se-ia, garanto-lhe, que estamos à sombra das basílicas de Lisboa ou de Génova.
Após os espetáculos modernos que nos acabam de dar, há dez meses, os mundos inteiramente novos e os mundos asiáticos onde, pelo menos, a invasão industrial tem todo o cunho da atualidade, é como uma ilusão encontrar à porta do Império do Meio uma caixa de doces antiga, com ruínas cristãs que parecem atestar que não houve nesta terra distante senão os nossos velhos monumentos e as nossas velhas crenças. (...)
O crepúsculo está a terminar no momento em que termina também para nós o território da colónia: estamos sobre a estreita língua de terra que liga Macau a Hiang-Chan. A cerca de duzentos metros de nós, tanto à direita como à esquerda, quebram-se as vagas da maré montante, e a barreira granítica do Império chinês detém-nos. Ei-lo, pois, o famoso solo onde flutua livremente a bandeira amarela do Imperador!*
Mas que desilusão! É coberta de imundícies, de podridão e dos trapos dos descendentes do Fogo que nos aparece a Terra Celestial das Flores. Um grupo de cerca de sessenta homens vestidos de branco, batendo em tam-tams e uivando com uma voz aguda, leva um morto a sepultar e desfila diante de nós (...).
Foi neste mesmo lugar que morreu assassinado o penúltimo Governador de Macau, o valente Ferreira do Amaral. Tendo tomado em mãos a reivindicação inteira de Macau por Portugal, atraiu a si a cólera dos mandarins de Cantão, que queriam a todo o custo manter os seus esbirros com paridade de autoridade na colónia portuguesa. Não recorreram à guerra aberta e lutaram pelo homicídio, o que lhes custava bem menos caro: a 22 de Agosto de 1849, os seus sicários lançaram-se sobre Amaral no momento em que ele passeava a cavalo ao longo desta muralha com um ajudante de campo, e levaram até aos pés do Governador de Cantão a cabeça e as mãos ensanguentadas do desgraçado oficial. (...)"
* Porta do Cerco
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