quarta-feira, 26 de agosto de 2026

"Movimento do Porto" no primeiro semestre de 1835

Neste artigo publicado no jornal Chronica de Macao a 25 de Julho de 1835 dá-se conta do "Movimento do Porto" entre Janeiro de Julho desse ano.
Nesse período 19 navios espanhóis realizaram 51 viagens para Macau, transportando uma grande quantidade de arroz (mais de 383 mil sacos) e feijão-mungo. Embora o arroz pagasse apenas emolumentos (e não direitos alfandegários), a receita da Alfândega mantinha-se aceitável devido ao regime de franquia.
O autor do artigo sublinha que a Alfândega é a única fonte de rendimento de Macau. Defende, por isso, a urgência de implementar o sistema de depósito para mercadorias europeias para garantir a sustentabilidade da cidade e o pagamento dos funcionários públicos, apelando à atenção do Governo.
O ópio é apontado como o principal e mais importante ramo comercial da época. O artigo nota com optimismo que Macau estava a conseguir praticar melhores preços e a atrair mais comércio de ópio do que a ilha de Lintin (ponto central do contrabando na altura), com as embarcações a preferir descarregar directamente em Macau para negociar com os mercadores chineses.
O preço do arroz fixava-se em três patacas, prevendo-se uma colheita abundante na China. Nota-se ainda que as restantes mercadorias da Europa e da Ásia se mantinham estáveis, com exceção do vinho tinto, que estava escasso e, por isso, valorizado.
Pintura da Praia Grande - autor anónimo ca. 1840
Vista a partir do actual cruzamento da rua do Campo com a Av. da Praia Grande

Movimento do Porto
Desde Janeiro até ao presente os dezanove Navios Hespanhoes, como se ve do mapa abaixo, tem feito cincoenta e huma viagens, e tem trazido 383,702 sacos de Arros e 1,890 ditos de Mungo. Tem dado pouco interesse á Alfandega, porque naõ pagaõ direitos de arros só pagaõ emolumentos; mas n'este anno tem a Alfandega rendido soffrivelmente, pela razaõ da Franquia, e mais renderá admittindo-se-lhe tambem depozito dos generos d'Europa. Sabemos, que já se tem lembrado do depozito, porém ignoramos se ha ou naõ ha ideya de o fazer effectivo; he certo, que o unico rendimento d'esta Cidade he a Alfandega, se está naõ render, entaõ naõ sabemos o que será d'esta Cidade, e dos seus empregados publicos; por isso esta repartiçaõ deve merecer toda a attençaõ do Governo.
O opio, esse importante, e unico ramo de commercio, em que traficaõ, e especulaõ os negociantes nacionaes, e estrangeiros, tem sido procurado aqui, e tem tido melhor preço que em Lintim, e ha esperança de que venha tudo para aqui. Ha dias chegaraõ dous navios de Lintim com Opio, e na Rada importava o opio para esta Cidade, fizeraõ tambem entrega d'elle a Chinas, que acharaõ mais conveniencia em recebe-lo cá, do que em Lintim, que naõ tem tido nem tanta extracçaõ, nem taõ bom preço.
O Arros tem tido variaçaõ no preço e agora está a tres patacas; a colheita d'este anno na China hade ser mais abundante, que a do anno passado, porém assim mesmo, he provavel continue a conservar o preço com pequena differença.
Os outros generos d'Europa e Azía naõ tem tido alterações: vinho tinto ha pouco, e tem preço.

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