domingo, 10 de setembro de 2017

As expropriações em Macau

Há mais de vinte anos se anda a expropriar a cidade de Macau e do muito que já foi expropriado, muito pouco, quase nada, se fez que possa ver-se. O Bairro de S. Lázaro e a Avenida de Almeida Ribeiro são as únicas cousas que se vêem modernas na cidade. O resto é velho, medieval.
O que é que tem resultado de tão grande número de expropriações que têm sido feitas? O Boletim Oficial anda sempre, todos os anos, a anunciar expropriações. Todos os anos são demolidos muitos prédios. A Fazenda tem pago nos últimos anos centenas de milhares de patacas. Para quê que proveito tem tirado a cidade de tanto dinheiro gasto?
A única cousa que em tanto deitar abaixo ficou boa, foi o Bairro de S. Lázaro. Esta parte da cidade, sim, é nova, é moderna, ruas alinhadas, limpas, de suficiente largura, tudo obedecendo a um plano. Mas este Bairro foi feito há uns 20 anos. Ora, depois disso, o que é que se tem feito? Em que se tem despendido centenas de milhares de patacas?
Depois do Bairro de S. Lázaro a segunda expropriação grande que se fez foi a de um quarteirão de prédios a norte do Largo de S. Domingos, no sítio em que se acha o Mercado Municipal e o renque de casas que limita pelo norte esse mesmo largo.
Ora o Mercado Municipal custou cerca de oitenta mil patacas e ficou aquela vergonha arquitectónica, que pouca gente conhece bem, porque o nojo impede que lá se entre – se bem que é dali que toda a cidade se alimenta, ou senão toda dali, de outros antros ainda mais nojosos! A Câmara devia ter mandado deitar aquilo abaixo há muito tempo; mas já que o não faz, ponha ao menos na entrada, em lugar alto e bem visível, o busto do técnico, pendurado de uma forca...
A expropriação dos prédios contíguos fez-se ao mesmo tempo ou pouco depois da do terreno do mercado. Dever-se-ia ter feito um plano a que as reconstruções obedecessem; mas não; ou não se fez, ou se se fez permitiu-se que cada qual reconstruísse como quisesse, com o desastrado resultado de ficar o largo cheio de cotovelos, todo desalinhado, fazendo funil para o lado de S. Domingos, assombrando o mercado e tirando-lhe o pouco ar que tinha. E ainda a Câmara Municipal não pôs ali, bem alto também, o busto do técnico enforcado!...
Depois disso tem-se deitado abaixo muita cousa em muitas partes da cidade; mas não é fácil dizer onde, pois que anda a gente pela cidade toda e tudo parece velho. Ainda recentemente o disse um turista norueguês num jornal da sua terra: que Macau é uma cidade pitoresca, de bom clima, mas medieval. Também ele não viu sinais de que nós portugueses andássemos há mais de 20 anos a remodelar a cidade. Não viu nem podia ver, porque, de facto, quanto mais se tem expropriado mais isto tem ficado sempre a mesma cousa.
Os chineses têm a especialidade de fazer as cousas de modo que fiquem logo velhas. Olha a gente, por exemplo, para as embarcações chinesas, algumas ou muitas das quais vimos construir, e parecem-nos arcas de Noé. Entra a gente num estabelecimento para comprar bordados, louças, lacas, bronzes, pinturas, e logo o negociante nos jura que é tudo do tempo dos Mings. Ora não é nada Ming, mas, no aspecto, chega a parecer que o é.
Nós temos também muito desta especialidade chinesa; somos bastante Mings. Não roubam o dinheiro os encarregados das obras e obras se fazem continuamente; mas fica tudo sempre no mesmo Ming. Fazemos em terra, como os chineses na água, arcas de Noé. Se uma rua é estreita porque tem só três metros e meio, expropria-se e faz-se outra com três metros e três quartos. E assim fazendo é que se tem despendido milhares e milhares de patacas em pura perda.


Das grandes expropriações a mais recente é a da Avenida Almeida Ribeiro. Lembramo-nos de que quando se tratou desta expropriação (que teve as honras de um decreto especial), houve técnico ou técnicos que quis ou quiseram convencer o público de que no caso andava agora, então, olhar alto, vista larga – a qual vista larga ou ver longe era a expropriação por um processo novo, um processo que em Paris tinha produzido maravilhas, a expropriar por zonas.
Ora os técnicos, já se vê, são os que sabem; e, em falando deles toda a gente deve ficar calada e podendo ser... embasbacada. Foi o que nos aconteceu a nós; para que ficassem satisfeitos, quando os ouvíamos falar nas vistas largas, amavelmente nos embasbacávamos... Ah! E presenciamos que embasbacou também o elemento oficial não-técnico, que a eles estava agregado, nas deliberações a tomar, dizendo delicadamente a tudo amen.
Fez-se, pois, pela cabeça dos técnicos a Avenida de Almeida Ribeiro e saiu a bota que lá está: em vez de Avenida, uma rua de insuficiente largura para o trânsito. Deveria ser a principal artéria da cidade, com largura para peões, para rickchás, para automóveis, para eléctricos, etc. Afinal, se quiser que seja isso, terá de se expropriar outra vez, de se deitar tudo abaixo...
A especialidade desta expropriação consistia em se tomar uma zona de terreno de cada lado, que dividida em talhões e vendida para construção de prédios, pagasse ou quase pagasse as despesas. Ora nisto se enganaram os técnicos também redondamente. A zona expropriada, viu-se depois, não tinha profundidade para dar cabimento a prédios, e, portanto, rendeu muito menos do que se esperava.
Resultado: nem espaço suficiente para a rua, nem espaço suficiente para prédios como deviam ser. Calculou-se que ali se estabeleceriam os maiores negociantes e também este cálculo falhou. Não há ali, tirante duas casa de câmbio, senão pequenas lojas de barbeiro, lojas de carpinteiro, casas de penhor e quejandas e alguns escritórios. É comercialmente uma rua insignificante.
De notar é também que cerca da quarta parte dos prédios desta soidisant avenida estão normalmente desocupados. Para moradia não servem, porque o maior número deles não tem lugar para poço nem para cozinha; e, por lhes faltar fundo, as escadas de quase todos são tão íngremes que mais parece para gatos do que para gente foram feitas. Dentro, os pavimentos são todos devassados; não há espaço para divisões.
E aqui está o que os técnicos arranjaram. Nós, é claro, não temos ódio nenhum aos técnicos. Não o temos aos que “de verdade” o são. Aos outros, aos técnicos-sapateiros, ódio figadal, também não; mas ódio administrativo confessamos que algum temos, porque podia a cidade ao tempo que se anda a expropriar e ao que com expropriações se tem gasto, estar um brinco e está o que está - medieval. Só disto nos vem o ódio aos sapateiros a que aludimos. De resto, para nós, são todos boas pessoas: somente, se governássemos, amavelmente, os mandaríamos... passear...
Artigo da autoria de Manuel da Silva Mendes publicado no jornal “O Macaense”, 19.10.1919

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