segunda-feira, 8 de setembro de 2014

José Gomes da Silva: 1853-1905

O coronel José Gomes da Silva (1853-1905) foi o primeiro Reitor do Liceu de Macau, corria o ano de 1894. Atrás de si estava uma carreira militar prestigiada, com uma comissão de serviço de uma vida no extremo oriente, repartida por Macau e por Timor, e com uma notável actividade como investigador, botânico e jornalista.

Natural da cidade do Porto , formou-se na Escola Médico-Cirúrgica do Porto , enveredando depois pela carreira militar. Em 1881 é colocado como Facultativo de 2ª classe do Quadro dos Serviços de Saúde de Macau e Timor.
Nesse ano e meio que estancia em Timor, faz este registo: “A vida social em Dili, tão semelhante à das pequenas terras do continente é um dos elementos mais favoráveis ao descrédito do clima. Nem uma biblioteca, nem um grémio, nem um teatro, nem um centro de reunião, nem um bilhar, nem uma orquestra, nem um meio qualquer de distracção do espírito”. Convenhamos que a vida não estaria fácil para um português que o Império obrigou a ser cosmopolita.
Em 1884, por incumbência do Governador de Macau, Tomás Sousa Rosa, preside à Comissão Administrativa que gere a Câmara Municipal de Dili. Publica dois estudos muito interessantes, “Breve Notícia sobre as Caldas de Bemanas em Viqueque”(1889) e o “Catálogo das Plantas de Macau e Timor”(1887), tendo remetido um Herbário ao Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e outro à Sociedade Broteriana da mesma cidade. Sobre a realidade timorense, há a destacar o “Relatório sobre os Serviços de Saúde de Macau e Timor”(1887), um “Relatório sobre as Necessidades do Serviço de Saúde em Timor”(1889) , e “Em Timor”(1892). Em 1888 secretariou a Missão Diplomática ao Sião (Tailândia), e daí ter surgido, em 1889, o livro “Viagem a Siam”. Vamos encontrá-lo, em 1892, na Comissão Organizadora da Exposição Colonial que se realizou no Palácio de Cristal, no Porto, presidindo à secção histórico-cultural de Macau e de Timor.
Uma sentida reivindicação dos portugueses de Macau era a criação de um Liceu Nacional. Uma notícia inserta no jornal “O Oriente Portuguez”, de 5 de Setembro de 1893, é bem eloquente : “ a criação do Liceu de Macau veio ao encontro da maior aspiração dos chefes de família e dos jovens que residem em Macau”.
O Governador de Macau, José Horta e Costa, nomeou o Dr. José Gomes da Silva para exercer a função de Reitor do Liceu de Macau, em 24 de Março de 1894, em virtude do seu prestígio intelectual e , ainda, porque nessa fase delicada de instalação e organização era necessário uma pessoa empreendedora e dinâmica para liderar o processo. Recorde-se que o Dr. José Gomes da Silva era o Chefe dos Serviços de Saúde, sendo, posteriormente, também Professor de Física , de Química e de História Natural no Liceu. Os Professores percebiam o vencimento de 800$000 reis, tendo o Reitor uma gratificação de 60$000 reis.
Encontrado o edifício para o Liceu, o velho e desactivado Convento de Santo Agostinho (que acabou por ruir, sem causar danos pessoais), havia que prover o corpo docente, um concurso documental a cargo da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. Os nomes mais sonantes dos Professores que iam abrir o ano lectivo eram, sem dúvida, o de Camilo Pessanha (Filosofia) e o de Wenceslau de Moraes (Matemática), muito embora outros como Mateus Lima, Abreu Nunes, Ribeiro Cabral, Pereira Vasco ou Baltasar Faleiro se tenham revelado mestres competentes e dedicados. Em 16 de Agosto é publicado o Regulamento do Liceu, sendo os exames de admissão efectuados a 10 e 11 de Setembro. A 28 de Setembro faz-se a inauguração, em sessão solene com alguma descrição, devido ao luto da Família Real.
O ano lectivo arranca com 57 alunos e, como muito bem se calcula, não foram bem pequenos os trabalhos do Dr. José Gomes da Silva, quer em termos organizacionais, quer na gestão de uma boa vontade política patrocinadora da continuidade e estabilidade do estabelecimento de ensino. Bem vistas as coisas, não terá sido por acaso que o Dr. José Gomes da Silva tenha exercido o cargo de Reitor por três vezes (1894-1898, 1898-1899, 1900-1903).
Continua a publicar estudos científicos [“Relatório da Epidemia da Cólera-Morbus a bordo do Transporte Índia e nos Lazaretos de Macau”(1888); “Rapport sur les essais du sérum Versin dans le traitement de la peste bubonique”(1897); “Rapport sur la peste bubonique a Macao et Lapa”(1897)], de sociologia dos costumes [“A República de Macau: história amena, redigida por um dos fundadores com a colaboração de muitos efectivos e adidos”(1896) – obra foi reeditada em 1994], de índole pedagógica [“Noções de Higiene e Medicina Prática para uso dos Alunos do Seminário Diocesano de Macau”(1899) ], para além da colaboração que generosamente espalhava na imprensa. Alguns estudos publicados no “Boletim Oficial” bem mereciam ser resgatados do esquecimento, porque são fontes importantes para a História de Macau e para a História de Timor.
Integrou a Comissão Executiva da Celebração em Macau do IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo da Índia, em 1898, a Comissão de Macau para a Exposição Universal de Paris, em 1900. No Hospital Militar criou um Museu de História Natural, que seria transferido em 1906 para as instalações do Liceu. Polemizou rijamente com o médico Ricardo Jorge por causa das medidas profilácticas para erradicar a peste.
Biblioteca do Leal Senado
Entre as suas condecorações destacam-se a Medalha de Ouro de Serviços no Ultramar, a Ordem de S.Tiago de Espada, a Ordem Militar da Torre e Espada, a Ordem Militar de S.Bento de Aviz e numerosíssimos louvores.
Sendo um homem do Norte, não dispensava o vinho tinto que fazia importar directamente da sua propriedade no Baixo-Douro para Macau. Faleceu em Macau, no dia 1 de Novembro de 1905, com a patente de coronel-médico, na sua residência “Vila Branca”.
O Conselho Escolar do Liceu de Macau, aquando do seu falecimento, presidido pelo Dr. Manuel da Silva Mendes, exarou em Acta o notabilíssimo contributo do primeiro Reitor para a consolidação e prestígio do Liceu, ao qual também legou a sua biblioteca particular, onde predominavam obras de medicina e de botânica. O fundo antigo da biblioteca histórica do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (Leal Senado) era a Biblioteca do Liceu de Macau e a maioria das obras de medicina aí depositadas pertenceram ao Dr. José Gomes da Silva.
Numa das suas “Cartas do Japão”, escreveu Wenceslau de Moraes, também ele antigo Professor no Liceu : “Por último, uma palavra de saudade pelo Dr. José Gomes da Silva, meu confrade neste Extremo-Oriente, como correspondente que era do ‘Comércio do Porto’, e cuja morte me acabam de anunciar em cartas. Todo nervos, todo sentimentalidades e irritabilidades, o Dr. Gomes da Silva, que fez toda a sua carreira em Macau, não escapou, claro está, à crítica azeda da colónia, que é forte neste género de energias negativas. Hoje, porém, que uma campa pousa sobre o seu corpo inerte, a colónia inteira e todos os que conheceram este grande lutador, devem sentir verdadeira mágoa pela perda do delicado intelectual, do brilhante escritor, do incansável e obsequioso funcionário, que era a chefe dos serviços de saúde de Macau, e, certamente, um dos seus mais distintos residentes europeus, durante estes últimos vinte anos”. Em 1917 o Governo de Macau adquiriu a vivenda “Vila Branca” , transformando-a no “Pavilhão Dr. Gomes da Silva” , destinado ao isolamento de doentes com varíola.
O seu nome está na toponímia local e durante muitos anos foi o Patrono da Escola Preparatória, entretanto extinta.
Artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM

2 comentários:

  1. Muito obrigada por esta publicação. O Dr. J Gomes da Silva era avô do meu querido avô. Se ele ainda estivesse vivo iria mostrar-lhe este artigo que muito o honraria.

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    1. Olá! Em breve conto ter mais novidades para revelar sobre JGS. Cumps

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