segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

"Praya Grande": descubra as diferenças

"The Praia Grande, a beautiful promenade on sea front, with Fort San Francisco and Public Gardens at the Eastern end, the ancient Fort Bom Parto and magnificent Hotel Boa Vista on an eminence at the West end."
in The Directory and Chronicle for China, Japan, Corea, Indo-China, Straits Settlements, Malay States, Siam, Netherlands India, Borneo, the Philippines, and Etc, 1902
"Travellers to the East should not leave Hongkong without paying a visit to Macao. This historical and picturesque Portuguese Colony founded in 1557 is sufficiently important and interesting to deserve a portion of the tourist's time. The approach to Macao is exceedingly beautiful and has often been spoken of as a miniature Bay of Naples."
in The Directory and Chronicle for China, Japan, Corea, Indo-China, Straits Settlements, Malay States, Siam, Netherlands India, Borneo, the Philippines, and Etc, 1906
"Le quartier de la Praia Grande est l'endroit le plus fréquenté de la ville. La Praia Grande est une agréable promenade ombragée ouverte sur la baie et terminée par un jardin dans lequel se donnent des concerts."
in Bulletin de la Société belge d'études coloniales, 1910.

"Saubere gut gepflasterte Straßen führen zwischen altmodischen Häusern mit grünen Fensterläden bergauf und bergab bis wir die Praia Grande erreichen eine hübsche Promenade am Meeresufer an der neben dem" 
"Ruas limpas e bem pavimentadas sobem e descem entre casas antigas com venezianas verdes até chegarmos à Praia Grande, um bonito passeio à beira-mar."
in Im Osten Asiens, 1896

Em cima a fotografia que muito provavelmente deu origem às diversas soluções de postais ilustrados publicados entre os últimos anos do século 19 e os primeiros do século 20. 

sábado, 13 de janeiro de 2024

"Districtos Policiaes" da Polícia Marítima: 1897

Áreas de intervenção da Capitania do Porto e Polícia Marítima: 1897
Total de 16 "districtos policiaes"
PS: documento valioso para o estudo da toponímia local.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Primeiras ilustrações da Gruta de Camões

Neste ano de 2024 assinalam-se os 500 anos do nascimento de Luís de Camões (1524-1580). Aqui no blogue já publiquei dezenas de post's - ver etiqueta respectiva, em baixo do lado direito - sobre o tema, e este ano, por via da efeméride, publicarei mais.
Foi em Macau que surgiu o primeiro local de homenagem ao poeta português imortalizado com a obra Os Lusíadas, a denominada Gruta de Camões que até aos primeiros anos do século 19 foi a imagem mais simbólica do território nos jornais e livros publicados em todo o mundo.
Pertencente à pequena nobreza Luís de Camões estudou literatura e filosofia em Coimbra. As paixões não correspondidas e as rixas frequentes valeram-lhe vários desterros.
O primeiro foi passado em Ceuta onde perdeu o olho direito em combate. O segundo foi na localidade portuguesa de Constância, entre 1547 e 1550, por ofensas a uma dama da corte. Regressado a Lisboa, foi detido em 1552 depois de uma rixa com um funcionário da corte. Consta que terá sido perdoado mas foi para a Índia.
Segundo alguns autores, terá sido por essa altura que compôs o primeiro canto de Os Lusíadas ao mesmo tempo que participou em várias batalhas. Daqui viajou para Macau na companhia do que viria a ser o capitão-mor da cidade, Pero Barreto Rolim, tendo os dois chegado em 1562. Alguns autores indicam que em Macau Camões exerceu o cargo de provedor-mor de defuntos e ausentes (uma versão contestada) tendo vivido no território até 1565 altura em que terá escrito mais uma parte do famoso poema épico. A tradição diz que a escrita foi feita nos penedos perto da povoação do Patane com vista para o porto Interior. Um documento da Companhia de Jesus datado de 1604 refere a zona como "os penedos de Camões".
Uma das primeiras representações gráfica do local surge no livro "A Picturesque Voyage to India by Way of China", de Thomas Daniell e William Daniel, publicado em Londres entre 1795 e 1810 em 10 partes. 
Os dois assinam a autoria do desenho, da litografia e do texto. Eis um excerto:
"It is delightful to discover in a remote corner of Asia an object like Camoens’ cave, consecrated to the memory of European genius. It is well known that the adventurous bard having too freely indulged his wit in satire, was disgraced by Francisco Barreto, the viceroy of Goa, and banished to Macao. Tradition still preserves some records of his residence. The stranger is still led to the top of the rock where he was accustomed to walk, and where the summer-house is now erected, commanding a view of the harbour of Macao: but it was in this romantic cave that he delighted to spend his leisure hours, forgetting past and present hardships in the luxurious exercise of his imagination. His exile was softened by the kindness he experienced; and he obtained a lucrative appointment, which enabled him in five years to realize a considerable fortune: but, like Spenser, he lost his all in shipwreck; and finally returned to Portugal as poor as he left it. He died at Lisbon in 1679*, in his sixty-second year."

Tradução:
"É delicioso descobrir num canto remoto da Ásia um objecto como a Gruta de Camões, consagrada à memória do génio europeu. É bem sabido que o bardo aventureiro, tendo-se entregado com demasiada liberdade à sátira, foi desonrado por Francisco Barreto, vice-rei de Goa, e banido para Macau. A tradição ainda preserva alguns registos da sua residência. O visitante é conduzido ao topo da rocha por onde o poeta costumava caminhar e onde hoje se ergue uma casa de veraneio, com vista para o porto de Macau: mas foi nesta romântica gruta que teve o prazer de passar os seus dias e horas de lazer, esquecendo as dificuldades do passado e do presente no luxuoso exercício de sua imaginação. Seu exílio foi suavizado pela bondade que experimentou; e obteve uma nomeação lucrativa, que lhe permitiu em cinco anos realizar uma fortuna considerável: mas, como Spenser, perdeu tudo num naufrágio; e finalmente regressou a Portugal tão pobre como o deixou. Morreu em Lisboa em 1679*, aos sessenta e dois anos."
* lapso gráfico 1524/25?-10.6.1580 (Dia de Portugal)
Thomas Daniell (1749–1840) e o seu sobrinho William Daniell (1769–1837) viajaram para a Índia em busca de oportunidades enquanto artistas numa aventura com algumas semelhanças com William Hodges (1744-1797), outro artista cuja obra tentaram superar. Chegaram a Calcutá em 1786, passando pela China, e passaram sete anos na Índia, viajando e representando a paisagem.
"The Grotto of Camoens, at Macao" de William Alexander
William Gomm, 1794

Em cima três ilustrações da Gruta de Camões feitas no final do século 18 por elementos da comitiva do inglês Lord Macartney numa expedição à China realizada entre 1792-1794 e com passagem por Macau em Março de 1794. Entre os 'desenhadores' de serviço contavam-se William Alexander, William Gomm, John Barrow, H. W. Parish, etc.
Este último foi aind ao autor do que é muito provavelmente a primeira planta do que viria a ser o jardim público, tema que ficará para um próximo post.
Como se pode verificar nestas primeiras ilustrações da Gruta de Camões não aparece representado nenhum busto, mas já existiria um logo no final do século 18. Sobre as várias versões de bustos que existiram na gruta publicarei um outro post.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

"Juiz e Escrivão de Orphãos": 1603

Alvará de 24 de Janeiro de 1603 em que o rei D. Filipe II (1598-1621) faculta à "Cidade de Macáo" o privilégio de "eleger Juiz triennal e Escrivão de orphãos vitalicio".
Estava-se nos primeiros tempos do "estabelecimento" dos portugueses em Macau (1557), concessão do imperador chinês depois da expulsão dos piratas chineses da região e mediante uma renda anual de "quinhentos taéis de prata fina".
Nesses primórdios da organização político-administrativa da cidade, o primeiro "Capitão da Terra", cargo ocupado por eleição, foi Diogo Pereira em 1560. Em 1580 surge pela primeira vez a figura do Ouvidor (Rui Machado) para tratar das "causas cíveis e crimes" acumulando o cargo de juiz dos orfãos.
A 9 de Março de 1582, em carta régia ao Vice-Rei da Índia, Conde da Vidigueira, seria deferido um  pedido de Macau, ordenado o rei "que o ofício de juiz de órfãos não ande junto ao de ouvidor, como até aqui mas sim em morador casado e de partes que o saiba e possa bem servir, pelo que posso entender como essa jurisdição foi separada que me conste, do cargo de ouvidor”.
Com o exponencial crescimento do comércio, aumenta a população e a riqueza estando reunidos os argumentos para reclamar a Lisboa a elevação de Macau a cidade. Tal feito viria a ocorrer por alvará de 10 de Abril de 1586 dado pelo vice-rei da Índia, D. Duarte de Meneses, conde de Tarouca. Os privilégios, as honras, as precedências, etc., eram iguais aos da cidade de Évora.
Num documento intitulado "Treslado dos apontamentos que se mandão pedir a S. Mag. pelo D. Gil de Maltta pª. o bem desta cidade, e bom governo delle no jan.º de 1592", reproduzido no jornal Ta-Ssi-Yangg-Kuo" pode ler-se:
"(...) que vendo os moradores hir a povoação em grande crescimento sem nella haver nehum modo de Camera, nem governo no an.º de 1585 se ajuntarão e com o parecer do B.º e Capitão da terra ordenarão que Macao se pozesse em ordem de governo , como as cid.es do Reino, e do Estado d Índia, e conforme a ordenação elegerão juízes e vereadores, Procurador de Cidade e Escrivão de camera, e tomarão por nome Cid.e do nome de D.s com que até então correrrão.
A Eleição da Cid.e e Vereação foi aprovada pelos Viso-Reis da Índia, e o V. rei D. Duarte de Menezes lhe passou patente em nome de S. Mag.e pelo qual lhe concedeo o nome de Cid.e e tendo respeito a ella se criar p.r si e seos moradores concedeo a Camera, e officiaes d`ella que pudessem eleger hum dos moradores para juiz dos Órfãos, e dar-lhe escrivão, que fosse vitalício, ou tribunal e o mesmo a respeito do Escrivão d´ant.e os juízes ordinários"
Ou seja, já havia autorização para que a Câmara do Senado de Macau pudesse eleger juiz dos orfãos...
O alvará deste post, de 1603, concede autorização para a eleição para o cargo por um período de três anos  tal como se costumava fazer em Goa e mais partes do Estado da Índia.
O "escrivão" era um dos subordinados do Juiz, autoridade judiciária, tinha a função de zelar pelos órfãos de sua jurisdição, incluindo os seus bens, tendo para o efeito autoridade para nomear tutores, venda de bens, emissão de licenças de casamento, etc... A eleição do juiz e do escrivão era feita pelos chamados "homens bons" com assento no Senado da Câmara de Macau.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Inauguração de um mercado em 1940

A primeira versão do mercado municipal da Horta da Mitra - recentemente alvo de um restauro profundo - remonta a Agosto de 1886 no âmbito de obras profundas que transformaram uma zona pantanosa da cidade, sem infraestruturas sanitárias, insalubre e foco habitual de infecções habitada sobretudo por cidadãos chineses em barracas. Um relato de Dezembro de 1865 dá conta um incêndio onde foram destruídas mais de 200 barracas.
Seria o governador Tomás de Sousa Rosa a ordenar o saneamento da zona, uma empreitada que ficou a cargo da repartição das Obras Públicas, na altura dirigida por José Maria de Sousa Horta e Costa (viria a ser governador de Macau).
É neste contexto que é construído um mercado - para substituir o que existia antes, ao ar livre - de linhas simples, com uma cobertura suportada por colunas e sem paredes. Muito semelhante ao que existiu na Taipa (Rua do Cunha), foi projectado por Rafael Gastão Bordalo Borges, director de Obras Públicas, e o engenheiro João Canavarro Nolasco. A autorização de construção data de 27 de Maio de 1939.
O primeiro edifício do mercado da Horta da Mitra tinha uma área de 600 m2

Esse mercado - imagem acima - funcionou até quase ao final da década de 1930 quando foi demolido por volta de 1938 para ali ser construído o Mercado Municipal da Horta da Mitra - imagem abaixo - inaugurado a 4 de Junho de 1940 no âmbito das comemorações do duplo centenário da Fundação e Restauração de Portugal. Ainda hoje pode ver-se na fachada inscrito "1939", ano em que a obra ficou pronta.

As comemorações do duplo centenário da Fundação e Restauração de Portugal começaram a 2 de Junho de 1940 com uma sessão solene no Leal Senado tendo discursado o governador Artur Tamagnini Barbosa - imagem abaixo - (que também esteve na inauguração do mercado). Pontos altos das comemorações foram as inaugurações das estátuas de Nicolau Mesquita e Ferreira do Amaral
Mas houve mais. Houve a tradicional cerimónia religiosa Te Deum na Sé; foram inaugurados o edifício do Asilo da Mendicidade, o Campo Desportivo 28 de Maio (Canídromo) e ao lado a sede da União Nacional (actual canil), o hangar do Centro de Aviação Naval no Porto Exterior, o Pavilhão de Isolamento (junto ao hospital S. Januário), as ruas de Lopo e Inácio Sarmento de Carvalho, a Avenida Infante D. Henrique, a Estrada da Penha, a Avenida D. João IV, etc...



Curiosidade: na ocasião estavam em Macau Tamagnini Barbosa, que cessava funções como governador, e Gabriel Maurício Teixeira, que o iria substituir no cargo. T. Barbosa viria a morrer em Macau pouco depois, a 10 de Julho.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Macau na volta do mundo de F. L. Churchill

Na edição de 17 de Dezembro de 1898 o jornal The Post Express (de Rochester, Nova Iorque) publica uma carta em que um conhecido e abastado cidadão da região, Frederick L. Churchill (1855-1920) dá conta da sua viagem à volta do mundo. Estava nessa altura no Oriente a bordo do SS Parramatta, um dos navios da empresa P & O - Peninsular & Oriental Steam Navigation Company. 
Inglaterra, Austrália, EUA, Índia e Japão eram alguns dos países onde fazia escala este navio que navegou entre 1882 e 1903 e foi o primeiro da empresa a ter telefone a bordo, logo em 1892.
O excerto que se segue é uma breve passagem por Macau, numa escala em Hong Kong. F. L. Churchill chega a Macau proveniente de Hong Kong a bordo de um vapor a pás de fabrico norte-americano e descreve a viagem de cerca de três horas como "pitoresca" referindo-se às ilhas que avistou no delta do "famoso rio das Pérolas". Considera "estranho" os portugueses "quererem" aquela território admitindo que possa ser apenas por "orgulho" já que não "gere nenhum benefício". E depois acrescenta que os ganhos obtidos pelas licenças de jogo e do ópio "chega para fazer face às despesas do governo".
No cais do Porto Interior o visitante diz ter sido "recebido por um guia do Hotel Hing Kee" que lhe mostrou "as principais atracções antes do jantar". Entre esses locais visitados Churchill destaca o retirar da sede dizendo ter visto 800 mulheres a executar tal tarefa. Explica ainda que trabalhavam 12 horas por dia e recebiam 6 cêntimos(de dólares dos EUA). Dá ainda conta das condições em que laboravam, um ambiente muito quente já que a actividade era feita junto a água a ferver.
Frederick passa ainda por uma fábrica de panchões, algo que lhe diz muito, pois era uma artefacto muito usado nas celebrações do 4 de Julho, dia da independência dos EUA, sendo exportado de Macau para lá. 
Por fim, refere que Macau é "Monte Carlo em miniatura no que ao jogo diz respeito" acrescentando que o jogo do fantan atrai muita gente de fora. Deduz-se que terá dormido a noite do Hotel Hing Kee (ficava na Praia Grande junto ao actual cruzamento da Av. da Praia Grande com a Av. de Almeida Ribeiro, perto do BNU) já que partiu na manhã seguinte para Hong Kong e dali seguiu para Cantão. F. L. Churchill regressaria depois à então colónia britânica para prosseguir viagem no navio da P&O. 

domingo, 7 de janeiro de 2024

"Avizo" de Arroz de Bengalla: 1838

O "avizo" (anúncio) é de 1838 e refere que na Botica (loja de venda a retalho) do China Assáo, no Bazar, há de venda excelente Arros de Bengalla para meza". 124 cates custavam a 3 pesetas e meia (cada cate equivalia a cerca de 600 gramas). Havia ainda à venda "cera de Goa em vellas" e "ararrout a 3 cattes por huma pataca" (pó de uma planta usado para engrossar os molhos na culinária).

sábado, 6 de janeiro de 2024

Foto-legenda: vista sobre o bairro de S. Lázaro ca. 1870

 clicar na imagem para ver em tamanho maior

1. Vista muito parcial da Fortaleza do Monte.
2. Ilha verde e ao lado, do lado da península de Macau, o morro de S. Miguel.
3. Cemitério de S. Miguel ainda sem a capela (construída em 1875).
4. A igreja de S. Lázaro (N. Sra. da Esperança) na versão anterior ao grande restauro de 1885 que lhe deu o formato que ainda hoje mantém.
5. O bairro de Volong 'colado' ao casario do bairro de S. Lázaro.
6. Antiga muralha da cidade e o Fortim de S. João (o de S. Jerónimo ficava ligeiramente atrás e foi destruído para a construção do hospital); na então denominada Horta da Mitra correspondendo à zona da actual Rua da Colina.
7. Deve corresponder à actual Estrada do Visconde de S. Januário.

Admito que a foto possa ter sido tirada aquando do início da construção do hospital S. Januário (inaugurado em 1874); ou seja, foi tirada nas traseiras do que viria a ser o hospital. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

"As Viagens de Sarah"

Artigo da autoria de Andreia Sofia Silva publicado na edição de 4.1.2024 do Hoje Macau.
Jornalista João Botas descobre diário inédito com cerca de 200 anos
O jornalista João Botas, autor de diversas obras sobre a história de Macau, diz ter descoberto um diário de uma norte-americana, esposa de um comerciante que vinha a Macau e à China com frequência. O acesso a uma versão dactilografada, com muitos anos, permite descobrir relatos de uma época em que o comércio fervilhava no sul da China
Chamava-se Sarah, acompanhou o marido, comerciante, nas inúmeras viagens que realizou para fazer negócios em Cantão e deixou um diário que hoje tem cerca de 200 anos. O jornalista João Botas, autor de diversos livros sobre a história de Macau, diz ter descoberto uma versão muito antiga, dactilografada, do documento, graças às constantes pesquisas que realiza para o blogue Macau Antigo. Trata-se, no relato que fez ao HM, de “um diário inédito”, sendo que, até à data, “se desconhece o paradeiro do documento original”.
“Depois de múltiplas verificações posso garantir que se trata de um relato verídico”, conta João Botas, que chegou ao contacto com descendentes de Sarah e do marido que não querem dar o nome. O jornalista espera vir a poder publicar este diário que se revela muito semelhante a tantos outros escritos deixados por estrangeiros, incluindo esposas de comerciantes franceses, ingleses ou americanos que passaram por Macau, graças ao comércio que se praticava na altura com a China.
João Botas diz mesmo que o diário de Sarah se revela semelhante aos escritos já divulgados e estudados de Rebecca Kinsman e Harriet Low, datados das primeiras décadas do século XIX, “mas com informação mais rica a vários níveis”.
Segundo o autor do blogue, este diário “foi escrito com o objectivo de ocupar os tempos livres”, pois o marido de Sarah “passava muito tempo em Cantão”. “Esta não era a primeira vez que viajava até Macau, mas foi a primeira vez que decidiu escrever um diário. Ao todo a viagem, ida e volta, durou 317 dias! Quase um ano. Só em navegação passaram cerca de 200 dias, ida e volta.”
“A estadia em Macau é de cerca de um mês, período em que, além dos passeios diários, eram frequentes as visitas às residências de outros estrangeiros, para beber chá, conversar, ouvir alguém tocar piano ou para participar em jantares mais formais.”
Sarah gostava ainda de ler, referindo, nas páginas do diário, “inúmeros livros, obras históricas de referência sobre a Ásia, o Japão ou a Índia”.
Negócios florescentes
A época a que se remete o diário passa pelos anos em que a Companhia Britânica das Índias Orientais deixou de ter o exclusivo do comércio com a China e outras nações começaram a ter negócios no país, usando Macau como ponto de ligação. Era também a época dos cules, trabalhadores pouco qualificados da China que eram transportados quase como escravos para trabalhar na agricultura em diversos pontos do globo.
“A linguagem utilizada [no diário] é simples, mas o elevado número de pessoas mencionado obriga a muita pesquisa de contextualização, nomeadamente, sobre quem eram e o que faziam naquela época. É o que estou a fazer nesta altura, e está quase pronto”, relata João Botas, que diz estar em conversações com entidades públicas de Macau para a edição do livro.
Os escritos de Sarah permitem-nos “viajar até à Macau de meados do século XIX, com muitas descrições de espaços, ruas e edifícios, permitindo fazer o retrato da comunidade de estrangeiros ocidentais que viviam no território, que eram poucas dezenas” numa população que, à data, não tinha mais do que 35 mil pessoas, a maioria chineses, e com apenas 4.500 portugueses e macaenses.
“Como os estrangeiros ocidentais não podiam comprar propriedades no território, arrendavam casas aos portugueses e macaenses mais abastados. Esta era uma importante fonte de rendimentos numa altura em que já se fazia sentir algum declínio na actividade comercial fruto do surgimento de Hong Kong em 1842”, explica o jornalista.
Passear na rua
Sarah escreveu sobre os passeios que realizou em Macau, um deles bem perto da fortaleza do Bom Parto, no sopé da Colina da Penha. “Desde que aqui cheguei tenho-me divertido muito. Todos os dias, às cinco e meia, saímos para passear. (…). À tarde fomos todos para a baía do Bispo*, um lugar lindo, com praia para caminhar e muitas conchas. (…) No domingo fui com eles à igreja. Confundimos a hora e só chegamos lá mais de meia hora depois do início do culto. O regresso da igreja para casa foi encantador já passava um pouco das seis da tarde. Esta cidade de Macau é um local encantador, repleto de cenários pitorescos. (…)”, lê-se, segundo tradução feita pelo próprio João Botas de um excerto do diário.
Sarah descreve ainda um outro passeio, feito numa segunda-feira, quando jantaram e tomaram chá “na casa da Sra. Nye”.
“(…) Levei a minha cadeira até à Praia porque as ruas são estreitas demais para uma carruagem. Fizemos um passeio bastante longo e agradável, conhecemos vários grupos que andavam a cavalo e duas ou três outras carruagens. (…)”, escreveu ainda a americana.
Não falta ainda um relato da Casa Garden, onde hoje funciona a sede da Fundação Oriente (FO), e a Gruta de Camões. “À tarde visitamos a Casa Garden. É de facto um local encantador – abundância de belas árvores que sombreiam os belos passeios sinuosos e é constante o encontro com imensas rochas, por vezes isoladas, outras vezes empilhadas umas sobre as outras. A gruta de Camões, poeta português, é um local de grande atracção. É um sítio curioso, composto por três rochas imensas – duas em pé, a vários metros de distância uma da outra, a terceira repousando imediatamente sobre a abertura, formando uma divisão fresca e protegida, aberta em cada extremidade. (…)” À data, a Casa Garden pertencia ao comendador Lourenço Marques que a arrendava aos comerciantes estrangeiros.
A americana descreve ainda no diário o ambiente de Cantão, cidade do sul da China. “Chegamos a Cantão por volta das cinco da manhã. (…) Depressa desembarcamos e fomos até à residência dos Parker. (…) Passamos três dias e três noites muito agradáveis na casa do médico. Saí para fazer compras em Cantão, mas apenas uma vez e fui com a Sra. Parker. Estas compras perderam para mim muito da novidade. Este ano foi muito desagradável por causa das multidões nas ruas que se preparavam para duas das suas festas religiosas – o ‘Festival das Lanternas’ e uma outra, de que não me lembro o nome, embora a tenha testemunhado no ano passado, quando estive em Cantão. (…)”
Segundo João Botas, a referência feita a Parker remete para Peter Parker, nascido em 1804 e falecido em 1888, médico e missionário dos EUA. Este chegou à China em 1834 onde deu a conhecer pela primeira vez as técnicas da medicina ocidental, incluindo a anestesia. Em 1838 criou um hospital ligado à oftamologia em Macau, onde viveu durante algum tempo.
Por sua vez, Harriet Colby Webster Parker era esposa de Peter Parker, tendo sido a primeira mulher ocidental a viver na China.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Vue de Macao en Chine / View of Macao in China: 2ª parte

 (...) As a man is as far distant from China at Macao as in Europe, from the extreme difficulty of penetrating into this empire, I will not follow the example of navigators who have spoken of it without any knowledge whatever; I will therefore confine myself to a description of the connexion of the Europeans with the Chinese; the extreme humiliation they experience in it; the feeble protection they can derive from the Portuguese settlement upon the coast of China, and finally, the importance which might be attached to the city of Macao, in the possession of a nation which would conduct itself with justice, but at the same time with dignity and firmness, against a government which is perhaps the most unjust and oppressive, and at the same time the most cowardly, that at this moment exists in the whole world.

The Chinese carry on a commerce with the Europeans, which amounts to fifty millions, two fifths of which are paid in silver, the rest in English cloth, Batavian or Malacca tin, in cotton from Surat and Bengal, in opium from Patna, in sandal wood and pepper, from the coast of Malabar. Some articles of luxury are also carried from Europe, as looking glasses of the largest dimensions, Geneva watches, coral, fine pearls; (...)

Macao, situate at the mouth of the Tigris, can receive sixty-four gun ships into its road at the entrance of Typa; and in its port, which is below the city, and communicates with the river to the eastward, ships of seven or eight hundred tons half laden. Its latitude, according to our observations, is in 22° 12′ 40″, and its longitude 111° 19′ 30″ east.
The entrance of this port is defended by a fortress, consisting of two batteries, which on entering it is necessary to pass within pistol-shot. Three small sorts, two of which are mounted with a dozen guns, and one with six, guard the southern part of the city from all Chinese enterprizes; these fortifications, which are in the very worst state, would by no means be formidable to Europeans, but are fully adequate to keep in awe the whole maritime forces of the Chinese. There is, moreover, a mountain which commands the country, and on which a detachment might hold out a very long siege. The Portuguese of Macao, more religious than military, have built a church upon the ruins of a fort which crowned this mountain, and formed an impregnable post.
The land side is defended by two fortresses, one of which mounts forty guns, and which can contain a thousand men in garrison, has a cistern, two springs of running water, and casemates to enclose warlike ammunition and provision; another, upon which are mounted thirty guns, cannot allow of more than three hundred men; it has a spring, which is very abundant, and is never dry. These two citadels command the whole country. 
The Portuguese limits scarcely extend to the distance of a league from the city; they are bounded by a wall, guarded by a mandarin with a few soldiers. This mandarin is the real governor of Macao, and the person whom the Chinese obey; he has no right to sleep within the enclosure of the limits, but he may visit the place, and even the fortifications, inspect the custom-houses, &c. On these occasions the Portuguese are obliged to salute him with five guns. Not any European, however, is allowed to set a foot on the Chinese country beyond the wall; any imprudence of this kind would put them at the mercy of the Chinese, who might demand a large sum of money of them, or detain them prisoners; some officers of our frigates, however, exposed themselves to the risk, but this act of levity was not attended by any disagreeable consequences.
The whole population of Macao may be estimated at twenty thousand souls, of which one hundred are Portuguese by birth, about two thousand of half-blood, or Portuguese Indians; as many Caffre slaves, who serve them as domestics; the rest are Chinese, and employed in commerce, or the different trades which render the Portuguese themselves tributary to their industry. These, though almost all of them mulattoes, would think themselves dishonoured by exercising any mechanical art, and by that means supporting their family; but their pride is never in the least degree hurt in continually soliciting, with the greatest importunity, the charity of passengers.
The viceroy of Goa nominates to all the civil and military places at Macao. The governor is appointed by him, as well as all the senators, who divide with him the civil authority. He has just appointed the garrison to consist of a hundred and eighty Indian seapoys, and a hundred and twenty militia; the service of this guard consists in making night patroles; the soldiers are armed with staves, the officer only has a right to wear a sword, but in no case can he use it against a Chinese. If a robber of that nation be surprised breaking open a door, or taking away any effects, he may be stopped, but with the greatest precaution; and if a soldier, in defending himself against a robber, is so unfortunate as to kill him, he is delivered over to the Chinese governor, and hanged in the middle of the market-place, in the presence of that same guard of which he formed a part, of a Portuguese magistrate, and two Chinese mandarins, who, after the execution, on their departure from the town, are saluted as in entering; but if, on the other hand, a Chinese kill a Portuguese, he is committed into the hands of the judges of his own nation, who after having stripped him, make a pretence of fulfilling all the formalities of justice, but always suffer it to be evaded, very indifferent as to the claims which are made on them, and which have never been attended with the smallest satisfaction.
The Portuguese have lately made a vigorous effort, which ought to be engraved on brass in the calendars of the senate. A seapoy having killed a Chinese, they shot him themselves, in presence of the mandarins, and refused to submit the decision of this affair to the judgment of the Chinese.
The senate of Macao is composed of a governor, who is president of it, and three vercadores, who audit the finances of the city, the revenues of which consist in the duties imposed on merchandize, which enters Macao in Portuguese vessels only. They are so blind to their own interest, that they will not suffer any other nation to land goods in their city, even on paying the established duties, as if they feared to increase their own revenue, and to diminish that of the Chinese at Canton.
It is certain, that if the port of Macao were made free, and the city possessed a garrison, which could secure the commercial property that might be deposited there, the revenues of the customs would be doubled, and would, without doubt, be sufficient to defray all the expences of government; but a petty individual interest is opposed to an arrangement dictated by sound policy. The viceroy of Goa fells Portuguese commissions to the merchants of different nations, who carry on commerce from one part of India to another: these same adventurers make presents to the senate of Macao, according to the importance of their expedition; and these mercantile motives form, perhaps, an invincible impediment to the establishment of a free port, which would render Macao one of the most flourishing cities in Asia, and a hundred times superior to Goa, which never will be of any service to its metropolis.
After the three vercaderes, of whom I have spoken, rank two judges of orphans, entrusted with the charge of the property of minors, the execution of testaments, the nomination of tutors and guardians, and, in general, with all discussions relative to successions; there is an appeal from their sentence to Goa.
The other civil or criminal causes are also tried, in the first instance, by two senators, named judges. The produce of the customs is received by a treasurer, who pays, under the orders of the senate, the several appointments, and different expences; this, however, must be done by order of the viceroy of Goa, if the sum exceed three thousand piasters.
The most important magistracy is that of procureur of the city. He is the medium of communication between the two governments of Portugal and China; he is answerable for all strangers who winter at Macao; receives, and transmits to their respective governments, the reciprocal complaints of the two nations, of which a register, who has not any deliberative voice, keeps a record, as well as of all the deliberations of the council. He is the only person who is not removeable from his place at pleasure; that of the governor continues three years; the other magistrates are changed every year. So frequent a renewal, contrary to every received system, has not a little contributed to the annihilation of the ancient rights of the Portuguese, and it certainly could not be continued, if the viceroy of Goa did not find his account in having a great many places to give or to sell; for the manners and customs of Asia will readily admit of this conjecture.
An appeal lies to Goa from all the decrees of the senate; the known inability of these pretended senators makes this law extremely necessary. The colleagues of the governor, who is a man of great merit, are Portuguese of Macao, very haughty, very vain, and more ignorant than our country magistrates.
This city has a very pleasant appearance. The remains of its ancient opulence are several fine houses, let out to the supercargoes of the different companies, who are obliged to pass the winter at Macao; the Chinese compelling them to quit Canton, on the departure of the last vessel belonging to their nation, and not suffering them to return thither, till the arrival of the ships from Europe in the following monsoon.
 A localização do terreiro num desenho de James Waten 1814

Macao is a very agreeable residence during the winter, because the several supercargoes are generally men of distinguished merit, very well informed, and who have such considerable appointments as to enable them to keep an excellent house. The object of our mission stood so high in their estimation as to procure us, on their parts, the most flattering reception; had we possessed no other title than that of Frenchmen, we should, in a great measure, have been as orphans, the French East India company not having at that time any representative there. (...)
At this season of the year, the climate of the road of Typa is very unequal; the thermometer varies eight degrees from one day to another: almost all of us were afflicted with severe colds, attended with a fever, which gave way to the fine temperature of the island of Luconia, which we made on the 15th of February. We left Macao on the 5th, at eight o'clock in the morning, with the wind at north, which would have allowed us to pass between the islands, if I had had a pilot; but desirous of sparing this expence, which is considerable, I followed the common course, and passed to the southward of the great Ladrone. We had taken on board each frigate six Chinese sailors, to replace those whom we had the misfortune to lose at the time our boats were lost.
The situation of these people is so unhappy, that, in spite of the laws of the empire, which, on pain of death, forbid their going out of it, we could in a week have enrolled two hundred men, if we had stood in need of them.
Our observatory was erected at Macao, in the convent of the Augustins, from which we fixed the east longitude of this city at 111° 19′ 30″, from a mean between several observations of distances between the sun and moon. The motion of our time-keepers was also verified, and we found that the daily loss of one of them was 12′ 36″, a much more considerable one that what we had ever observed before this period; it is, however, necessary to observe, that during twenty-four hours, the winding up of this time-piece had been forgotten, and that having thus been stopped, the defect in the continuity of its motion had in all likelihood produced this derangement. But supposing, that till our arrival at Macao, and before the negligence of which we were guilty, the delay in this time-piece was such as we had fixed at Conception, it would then have given the longitude of Macao 113° 33′ 33″, that is to say, 2° 14′ 3″ more than it actually is, according to our lunar observations; thus the error of this time-keeper, after a ten months navigation, had been no more than forty-five leagues. (...)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Vue de Macao en Chine / View of Macao in China: 1ª parte

Esta é muito provavelmente a mais icónica representação de Macau no século 18: a baía da Praia Grande vista do terreiro/miradouro do convento de S. Francisco.
O desenho e a litografia da versão original (francesa)

Na imagem podem ver-se em 1º plano frades franciscanos; três parecem estar a falar  com uma mulher com uma saraça que lhe cobre a cabeça; um outro frade está junto a um  chinês que a julgar pelo que veste deveria ser abastado. Sentado podem ver-se duas freiras ou noviças tendo em frente, no chão, lajes de túmulos. Na escadaria do convento de S. Francisco estão representado dois chineses e mais à frente no areal outras figuras humanas. à direita pode ver-se o muro que cercava o convento de Santa Clara.
Do lado esquerdo é possível ver-se canhões. Pertenciam à fortaleza de S. Francisco, contígua ao convento (que também tinha uma igreja).
O panorama é dominado pela baía da Praia Grande - tendo ao centro o Fortim de S. Pedro -  tendo atrás várias colinas que, dada a dimensão exagerada, minimizam o edificado. Podem ainda ver-se a Fortaleza do Monte, o topo da fachada da igreja MaterDei/Madre de Deus, a igreja de São Domingos, a igreja de Santo Agostinho e no lado esquerdo, a colina da Penha e a ermida/capela com o mesmo nome.
O "Vue de Macao en China" foi publicado pela primeira vez no livro "Atlas du Voyage de la Perouse" editado em 1797. O desenho é da autoria de Gaspard Duche de Vancy. 
A tradução para inglês foi publicada em Londres em 1798 com o título "A voyage round the world performed in the years 1785, 1786, 1787 and 1788". Inclui uma ilustração muito parecida cuja autoria é atribuída a Sparrow. 
"View of Macao in China"  - é da autoria de Sparrow e foi incluída na versão inglesa do livro

Jean François de Galaup (1741-1788), conde de La Pérouse, fazia por ordem de Luís XVI uma viagem de exploração científica à volta do mundo, com as fragatas La Boussole e L' Astrolabe. Chegou a Macau a 3 de Janeiro de 1787 (há 237 anos), tendo ali permanecido até 5 de Fevereiro. Nesse período instalaram um ponto de observação no convento de Santo Agostinho tendo registado as marés. Toda a tripulação desapareceu, provavelmente num naufrágio em Vanikoro, em 1788. Anos depois uma outra expedição francesa teve como objectivo, entre outros, tentar encontrar os dois navios. Reza a lenda que pouco antes de morrer em 1793, o rei Luis XIV terá perguntado se havia notícias de La Pérouse...

Nota: A edição da obra referida - três volumes com 67 gravuras de página inteira, 31 mapas, 29 desenhos e 7 esboços de espécies de fauna - só foi possível porque ao longo da expedição La Pérouse ia enviando para França o material produzido. Caso contrário, ter-se-ia perdido tudo no naufrágio...

Excerto sobre Macau (versão inglesa):
The weather, which was very cloudy, had prevented us from perceiving the town; at noon it cleared up, and we made it from the west a degree south about three leagues. I sent a boat on shore, commanded by M. Boutin, to advertise the governor of our arrival, and to acquaint him, that we intended to make some stay in the road, for the purpose of resting and refreshing our ships companies. M. Bernardo Alexis de Lemos, governor of Macao, received this officer in the most obliging manner; he made us an offer of every assistance in his power, and immediately sent a Malay pilot on board, to conduct us to the anchorage of Typa; at day break the next day we got under way, and at eight o'clock in the morning we brought up in three fathoms and a half, muddy ground, the town of Macao bearing north-west five miles.
We came to an anchor alongside of a French flute, commanded by M. de Richery, ensign in the navy; she came from Manilla, destined, by Messrs. d'Entrecasteaux and Cossigny, to cruize on the eastern coasts, and there to protect our commerce. We had then at length, at the end of eighteen months, the pleasure of meeting not only with our countrymen, but even comrades and acquaintances. M. de Richery had the night before accompanied the Malay pilot, and had brought us a very considerable quantity of fruits, pulse, fresh meat, and in general every thing which he could imagine might be agreeable to navigators after a long voyage. Our apparent good state of health seemed to surprise him. He informed us of the political state of Europe, the situation of which was exactly the same as at our departure from France; but all his researches at Macao to find out some one who had been charged with our packets were in vain; it was more than probable, that no letter addressed to us had arrived in China, and we experienced the melancholy idea of having been forgotten by our friends and families. Sorrowful situations make men unjust; these letters, which we so forcibly regretted, might have been entrusted to the company's ship which had lost its passage; her consort alone had arrived this year, and information was received from the captain, that the greater part of the money; and all the letters, had been sent by the other ship. We were perhaps more afflicted than the merchants by the unfavourable weather which had prevented the arrival of this ship, and it was impossible for us not to remark, that out of twenty-nine English ships, five Dutch, two Danes, one Swede, two Americans, and two French, the only one which had lost its passage was of our nation. 
As the English never trust the command of their ships except to thorough-bred seamen, a similar event is what rarely happens to them; and when, arriving too late in the Chinese Seas, they find the north-east monsoon set in, they struggle with obstinacy against this impediment; they frequently penetrate to the eastward of the Philippines, and standing to the northward in this sea, much more extensive and less exposed to currents, they re-enter by the south of the Bashee Islands, make the land of Piedra Blanca, and, as we did, pass to the northward of the Great Lamma. We were witnesses of the arrival of an English vessel, which, after having followed this track, anchored in Macao Road ten days after us, and immediately afterwards went up to Canton.
My first care, after the ship's being moored, was to go on shore with M. de Langle, in order to thank the governor for the obliging reception he had given to M. Boutin, and to ask his permission to have an establishment on shore, for the purpose of erecting an observatory, and giving rest to M. Dagelet, who was very much fatigued with our voyage, as well as M. Rollin, our surgeon major, who after having, by his care and advice, warded off the scurvy and all other diseases from us, would himself have been obliged to yield to the fatigues of our long voyage, had our arrival been retarded a week longer.
M. de Lemos received us as countrymen; every favour we had asked was granted, with a politeness to which no language can do justice. He made us an offer of his house, and, as he did not speak French, his wife, a young Portuguese from Lisbon, officiated as his interpreter. To the answers of her husband she added amiableness and grace peculiar to herself, and such as travellers can rarely flatter themselves with meeting in the first cities of Europe.
Dona Maria de Saldagna had twelve years ago married M. de Lemos at Goa, and very soon after the marriage I happened to be in that city, commander of the flute la Seine; she was so kind as to remind me of this event, which was very strongly impressed on my memory, and obligingly to add, that I was an old acquaintance; after which, calling all her children, she told me that she always thus presented herself to her friends; that their education was the object of all her cares; that she was proud of being their mother, which pride we must have the goodness to pardon, as she was determined to introduce herself to our acquaintance with all her faults. (...)
Detalhe da litografia 'francesa': destaque para o areal plano na ponta de S. Francisco da baía da Praia Grande; à direita Convento Santa Clara (em baixo) e no topo a Fortaleza do Monte com a igreja Mter Dei ao lado.

Detalhe da litografia 'francesa': colina da Penha e ermida do lado esquerdo em cima; em baixo a Fortaleza do bom Parto; ao longo da Praia Grande entre os edifícios representados destaco as igrejas
continua...

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

"Mala para Macau": 1861

"Administração do Correio Geral
A mala para Macau, Singapura, Solor, Timor, se hade fechar no dia 9 do corrente: ás cartas deverão ser entregues até duas horas de tarde referido dia. Nova Goa 1º de Agosto de 1861. O Escrivão Rozario Emiliano Ferrão."
Publicado no Boletim do Governo do Estado da Índia

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O Largo de S. Domingos visto por George Chinnery

A par da baía da Praia Grande um dos aspectos de Macau mais representados na obra de George Chinnery é a zona junto à igreja de S. Domingos com um convento em anexo.
Os trabalhos vão de apenas estudos a pinturas passando por esboços. A par dos elementos arquitectónicas a zona era por certo o aspecto do dia-a-dia da cidade, a dimensão humana, que atraía o pintor inglês que viria a viver no território até à morte em 1852.



Admite-se que um dos primeiros trabalhos de Chinnery após a chegada a Macau em 1825 tenha sido a fachada dessa igreja. Na época esse largo - ou adro - era um ponto nevrálgico da cidade, marcando a entrada no bazar, a cidade chinesa. Vendedores ambulantes, incluindo comida.