quarta-feira, 10 de maio de 2017

Ainda o culto mariano

O culto mariano tem uma longa tradição em Macau e no último foram realizadas uma série de iniciativas pela diocese local. Durante 12 meses a imagem de Nossa Senhora visitou 12 igrejas da cidade, ficando um mês em cada uma.
O ponto alto das comemorações do centenário das aparições em Fátima é a procissão da sexta-feira (13 de Maio), a maior do território e que junta em Macau católicos de todos os pontos da Ásia. Este ano a novidade é a missa e a novena serem rezadas na Sé Catedral de Macau, e não na Igreja de São Domingos, como habitual. A procissão depois segue até à Ermida da Penha. É na Sé que está uma das mais imponentes imagens de Nossa Senhora de Fátima em Macau, com a inscrição “Rainha do Mundo, Mãe de Portugal, Amparai Macau”.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O "Penha" atracado no Porto Exterior

A chegada a Macau dos "hidroplanadores" no início da década de 1960 veio revolucionar o sistema de transportes que fazia a ligação por via marítima a Hong Kong e, por via disso, como resto do mundo.
Em cima o "Penha" atracado na ponte-cais do Porto Exterior, construída de propósito para o efeito. Clicar na imagem para ver em tamanho maior.

domingo, 7 de maio de 2017

A Obra das Mães

Empenhado no enquadramento e organização de estratos da população, por idade e por sexo, o Estado Novo criou em 1936 a primeira organização estatal de mulheres, a Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN). Segundo o ministro da «Educação Nacional», Carneiro Pacheco, o objectivo era «estimular a acção educativa da família», «assegurar a cooperação entre esta e a Escola» e «preparar melhor as gerações femininas para os seus futuros deveres maternais, domésticos e sociais». No discurso que proferiu, por ocasião da nomeação dos membros da Junta Central da Obra das Mães, o ministro definiu os três objectivos daquela instituição: por um lado, a reeducação das mães e a assistência materno-infantil, através dos centros sociais e educativos, das «semanas da mãe» e dos «prémios às famílias numerosas» e, por outro lado, a antecipação e prolongamento da escolaridade através da educação infantil, das cantinas escolares e da criação da Mocidade Portuguesa Feminina.
Em Macau foi depois do 25 de Abril de 1974 que a Obra das Mães foi reformulada. Precisamente na Portaria n.º 1/76 de de 3 de Janeiro.
Artigo 1.º É instituída no território de Macau a "Obra das Mães", em substituição da "Obra das Mães pela Educação Nacional de Macau" cujos estatutos foram aprovados pela Portaria n.º 7.908, de 10 de Julho de 1965, e que se extingue pela presente portaria.
Art. 2.º São aprovados os Estatutos da "Obra das Mães", que fazem parte integrante desta portaria e baixam assinados pelo chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil.
Art. 3.º Todo o activo e passivo da "Obra das Mães pela Educação Nacional de Macau" transita para a "Obra das Mães" a partir da publicação desta portaria.
Art. 4.º A presente portaria entra imediatamente em vigor.
Governo da Província de Macau, aos 30 de Dezembro de 1975.
CAPÍTULO I
Natureza jurídica, fins e sede
Artigo 1.º A Obra das Mães (O.M.) é uma associação de utilidade pública, com personalidade jurídica e autonomia administrativa e financeira, que se destina a exercer a protecção e educação social, estimular a acção educativa da família, assegurar a cooperação entre esta e a escola e fortalecer o sentido do dever e da responsabilidade do trabalho.
Art. 2.º Os fins da O.M. são os seguintes:
1.º Orientar as mães, por uma activa difusão das noções fundamentais de higiene e puericultura, para bem criarem os filhos;
2.º Estimular e dirigir a habilitação das mães para a educação familiar, tendo em conta as diversas circunstâncias de vida e do meio;
3.º Promover o conforto do lar como ambiente educativo, em relação com os usos locais defendendo e estimulando as actividades e indústrias caseiras;
4.º Defender os bons costumes, designadamente no que respeita ao vestuário, à leitura e aos divertimentos;
5.º Promover e colaborar na educação infantil pré-escolar, em complemento da acção da família;
6.º Dispensar aos filhos dos pobres a assistência necessária para que possam cumprir a obrigação de frequentar a escola, designadamente pela instituição de cantinas, pelo fornecimento de uniformes e outros artigos de vestuário, pela distribuição de livros e pelo fornecimento e fortalecimento das caixas escolares;
7.º De um modo geral contribuir por todas as formas para a educação da juventude de Macau e para melhorar as condições de vida dos que necessitam de auxílio.

sábado, 6 de maio de 2017

Rumores em 1935

Em Maio de 1935 o jornal britânico Daily Mail publica um artigo tendo por base informações do seu correspondente em Hong Kong onde garante que o Japão estava interessado em comprar Macau tendo mesmo oferecido 20 milhões de libras.
Logo no dia seguinte o mesmo jornal publica outra notícia onde inclui declarações do ministro português das Colónias que nega prontamente que alguma parte do território português estivesse à venda.
Os rumores surgiram numa altura em que a companhia aérea norte-americana Pan Am se preparava para inaugurar uma rota até à China, precisando para isso de utilizar Macau como ponto de escala (o que viria a acontecer em 1937). 
Ao mesmo tempo, os japoneses, que planeavam a invasão da China (aconteceu em 1937) tinham planos para instalar em Macau uma base aérea que serviria de apoio à invasão. 
Esta ofensiva militar viria a ocorrer, mas as forças japonesas localizariam o seu quartel-general do lado de lá da Porta do Cerco e embora circulassem com relativa à vontade em Macau nunca chegaram a invadir o território, que se manteve com o estatuto de neutralidade garantido pelo governo de Portugal durante todo o conflito.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Foto-Legenda: Largo do Senado na década 1950

A propósito do post desta semana sobre a estátua do coronel Mesquita, recupero aqui uma imagem do Largo do Senado, o 'coração' da cidade, na década de 1950.
A imagem, feita a partir do edifício dos Correios, retrata o que foi aquela praça entre as décadas de 1940 (inauguração da estátua a 24.6.1940) e 1970 (remoção da estátua em Dezembro de 1966), testemunho da pacatez vivida no território em meados do século XX.
Os edifícios de estilo europeu mantiveram-se até hoje mas actualmente é bem diferente o aspecto da praça: deixou de ter trânsito, no piso sobressai a calçada à portuguesa e também se perdeu a forma triangular onde estava instalada a estátua em bronze. Depois da sua remoção foi criada uma fonte triangular que entretanto também já desapareceu dando lugar a um fontanário em formato circular.
No lado esquerdo vê-se um pequeno troço da Av. Almeida Ribeiro frente ao antigo edifício do Senado e a antiga mercearia e casa de câmbio Soi Cheong (na esquina com a Rua do Dr. Soares, no nº 3 da avenida tb conhecida pelo nome de San Ma Lou). O largo ocupa uma área de quase 4 mil m2 prolongando-se até à igreja de S. Domingos sendo todo espaço e vários edifícios da zona, como o da Santa Casa da Misericórdia, considerado Património Mundial da Humanidade pela Unesco desde 2005.
Largo do Senado no início do séc. XXI

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Percorrendo o Oriente

Percorrendo o Oriente: A Vida de António de Albuquerque Coelho (1682 - 1745)

Livro - romance histórico - da autoria de Paulo Miguel Martins editado em 1998.
António de Albuquerque Coelho nasceu no Brasil em 1682 e foi para Portugal ainda novo. Em 1700 partiu para a Índia. Atravessou a pé todo o sul da Índia de costa a costa, tendo-se envolvido nas lutas internas do reino de Jahore, na Malásia, tomando partido pela facção vencedora. 
Foi sucessivamente nomeado governador de Macau, de Timor e de Pate (Mombaça). 
Por duas vezes esteve preso na Índia sendo sempre libertado após provar a sua inocência. Pobre e esgotado morre num mosteiro de Goa em 1745.
Foi marinheiro, guerreiro, aventureiro e político, um homem cuja história está intimamente ligada à presença portuguesa no Oriente, em que não falta grandeza e realismo, intriga e mesquinhez, drama e coragem...

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A visita de Sun Fo em Agosto de 1947

Comandante do "Afonso de Albuquerque", Samuel Conceição Vieira assumiu as funções de encarregado do Governo - função que apenas existia na ausência prolongada de um governador -  a 5 de Agosto de 1946, no rescaldo da segunda guerra mundial, por um período de treze meses, em substituição de Gabriel Maurício Teixeira.
Foi nessa qualidade que recebeu a 20 e 21 de Agosto de 1947 a visita de Sun Fo, vice-presidente da República da China, filho e Suan Yat-Sen o fundador da república chinesa em 1911. Uma visita destacada na primeira página do Diário de Notícias (Portugal) que titula "Macau visitada pelo vice-presidente da República da China A continuação ds amistosas relações entre portugueses e chineses foi enaltecida num discurso que ali proferiu".

State visit of the Vice-President of the Republic of China Mr. Sun Fo to Macau during 20-21 August 1947. Sun Fo was the son of Sun Yat-sen, the founder of the Republic of China, and his first wife Lu Muzhen. Sun Fo being hosted by Samuel Vieira in an official reception. Portugal's daily newspaper 'Diario de Noticias' gave a report of the state visit of the Vice President of the Republic of China to Macau.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Estátua do Coronel Mesquita volta a ver a luz do dia

Inaugurada a 24 de Junho de 1940 no Largo do Senado (foto acima) a estátua de Vicente Nicolau de Mesquita (1818-1880), militar macaense que se notabilizou na Batalha do Passaleão, a 25 de Agosto de 1849, (em represália pelo assassinato do governador Ferreira do Amaral) seria vítima dos eventos de Dezembro de 1966 quando foi derrubada por um grupo de manifestantes em plena 'revolução cultural chinesa passando a ficar guardada nas oficinas navais desde então.
Em 1986 foi entregue à Associação de Comandos pelo então Governador de Macau, Contra-Almirante Vasco Almeida e Costa e desde então permaneceu o mistério sobre o paradeiro da mesma. Aqui pelo blogue publiquei vários posts revelando que terá sido por volta de 1986 que a estátua foi transportada para Portugal sendo entregue à referida associação que ficaria encarregue de a voltar a expor publicamente.
Entretanto restaurada a estátua viu novamente a luz do dia 77 anos depois da sua inauguração em Macau e foi exposta publicamente em Oeiras, na Bataria da Lage, em Fevereiro de 2017. (imagens abaixo)
A estátua em bronze é da autoria de Maximiliano Alves e incluía um pedestal (que se terá perdido para sempre) onde se podia ler:
“Homenagem da Colónia ao Herói Macaense Coronel Vicente Nicolau de Mesquita. 25 de Agosto de 1849. Monumento erigido por subscrição pública e auxílio do Governo da Colónia. Foi inaugurado por ocasião das festas comemorativas do duplo centenário da Fundação e Restauração de Portugal. 24 de Junho de 1940. Oferta do Leal Senado”.

Aspecto actual da estátua em bronze exposta na Bataria da Lage em Paço d'Arcos, Oeiras
Fotos da Associação de Comandos
Devido ao feito heróico da batalha do Passaleão Mesquita foi promovido a primeiro-tenente a 12 de Janeiro de 1850, a 7 de Fevereiro de 1867 a tenente-coronel e a 27 de Outubro de 1873 foi promovido a coronel. Enquanto militar em Macau foi comandante da Fortaleza da Taipa, do Forte de São Tiago da Barra e da Fortaleza do Monte sendo ainda membro do Conselho do Governo e do Conselho da Justiça Militar. Deprimido devido ao processo de promoção lenta e inadequada nos quadros do Exército Português sofreu uma série de graves crises nervosas aposentando-se a 27 de Novembro de 1873.
A 20 de Março de 1880, numa das crises psíquicas feriu gravemente dois dos seus filhos e matou a mulher Carolina e a filha Iluminada. Após o acto trágico suicidou-se, sendo o seu corpo encontrado no poço da sua casa no nº1 da Rua do Lilau no bairro com o mesmo nome. As circunstâncias macabras da morte levaram as autoridades de Macau a rejeitar-lhe um funeral militar e o Leal Senado, em conformidade com os preceitos da Igreja Católica, recusou-lhe a sepultura cristã, determinando que "a sepultura para o coronel deve ser em lugar não bento".
No Boletim da Província de Macau e Timor, de sábado, 27 de Março de 1880, o comandante geral interino da Guarda Policial de Macau, major Francisco de Paula da Luz, é o autor do relatório da ocorrência (pág. 84):
“Pela uma hora da madrugada de hoje houve uma denúncia a S.Exª o Governador de que o Coronel Mesquita assassinara todas as pessoas de sua família achando-se o denunciante, filho mais velho do referido Coronel, gravemente ferido por três tiros de revólver, em vista disto marchou imediatamente, por ordem do mesmo Exmº. Sr. o tenente Azedo com 4 praças do piquete sendo pouco depois seguido pelo comandante da guarda policial com oito homens, e tendo chegado ao lugar da habitação do referido coronel, ali encontrou S.Exª. o Governador, juiz de direito da comarca, delegado do procurador da coroa, e mandando em seguida bater à porta a que respondeu o silêncio; mandou depois buscar uma picareta e arrombar a porta principal e aberta esta entraram parte das pessoas presentes, tendo de se arrombar também a porta interior que dava para a escada e em poucos momentos se deu com os cadáveres de duas senhoras e uma outra ferida gravemente. Devia ter havido grande luta porque tudo estava em desordem, percorrendo-se a casa em procura do mesmo coronel foi encontrado morto dentro do poço, donde se tirou pelas 5 horas da manhã por falta de aparelho próprio e pela enorme profundidade do mesmo. Foram prestados os socorros que em tais ocasiões se devem prestar, recolhendo a ferida ao hospital de S. Rafael, bem como o filho”.
Só cerca de trinta anos depois da sua morte o coronel Mesquita seria reabilitado pelo Juízo Eclesiástico e os restos mortais foram transladados, no dia 28 de Agosto de 1910, para o Cemitério de São Miguel com todas as honras militares e eclesiásticas. No cemitério junto a um busto em mármore pode ler-se: “Vicente Nicolau de Mesquita, heróico defensor de Macau em 25 de Agosto de 1849”; “Erecto por subscrição pública com o concurso da primeira subscrição promovida pela Comunidade Portuguesa de Hong Kong em 1884”; “Tomou Passaleão em 25-8-1849. Faleceu em 20-3-1880. Foi transladado em 28-8-1910. Teve nesse dia honras militares e eclesiásticas”. O túmulo seria restaurado em 1947 tendo uma cerimónia por ocasião de mais uma aniversário sobre a Batalha do Passaleão assinalado o momento.
Na toponímia macaense existe uma Avenida Coronel Mesquita sendo o seu nome também inscrito na Porta do Cerco.

domingo, 30 de abril de 2017

A estátua da Imaculada


A imagem acima é do início da década de 1930 e testemunha a passagem por Macau de um grupo de marinheiros japoneses cuja embarcação passou pelo território. A visita ao miradouro da Penha era praticamente obrigatória pelo panorama que oferecia sobre a cidade, nomeadamente sobre a baía da Praia Grande.
A imagem ao lado é um postal já do final da década de 1950 e a fotografia foi tirada praticamente do mesmo local da imagem dos anos 30.
O  objecto retratado - no adro da igreja da Penha - é uma estátua da Imaculada com 5 metros de altura ali colocada em 1909. Feita em mármore de Carrara (Itália), no fuste da estátua de N. Senhora de Lourdes, pode ler-se a seguinte inscrição:
«Deiparae Immaculatae ad Lourdem coelitus adparenti anno quinquagesimo primo redeunte Urbs Macau pon. cur.»
«A cidade de Macau erigiu este monumento à Imaculada Mãe de Deus no primeiro cincoentenário de sua aparição em Lurdes.»
Refere-se a 1858.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Retrato económico na década de 1910


No primeiro número da Revista Colonial (Janeiro de 1913) Álvaro de Mello Machado, governador de Macau na época, assina um artigo - transcrito em baixo - onde traça um retrato da economia local não muito animador. Segundo o governador 2/3 dos rendimentos da então colónia provinham da exploração do jogo e da preparação e comércio do ópio. Este cenário, aliado à falta de recursos naturais, levam Álvaro Machado a defender novas ideias para dinamizar o comércio local: a construção de um caminho de ferro com ligação à China - "a não se realisar esse caminho de ferro, o futuro de Macau afigura-se extremamente modesto", escreve - a criação de uma agência comercial de produtos portugueses em Macau e o estabelecimento de uma ligação marítima regular com o território a partir de Lisboa.
Com excepção de uma pequena representação de produtos portugueses através da Agência Colonial, nenhuma das ideias foi concretizada. Curiosamente o governador era contra a grande obra que se projectava na altura, a dos Portos de Macau, por a considerar megalómana em termos de gastos. E assim foi... para além de se ter arrastado por muitos e muitos anos. Assinale-se ainda o facto do governador chamar a atenção para o potencial da actividade turística.


A pequena colonia do extremo-Oriente, que ha mais de tres séculos vem attestando ao mundo a tenacidade e a resistência dos portuguezes, não tem hoje a importância que em tempos idos lhe deu a situação privilegiada que soube grangear, iniciando o commercio europeu com a lendaria e mysteriosa China. Não tendo sabido manter-se em face da concorrência de dia para dia mais energica das auctoridades extrangeiras; debatendo-se inutilmente no regimen de asphixiante centralisação que lhe crearam os governos da metrópole; tendo deixado escapar todas as opportunidades em que, de concerto com as outras potencias, podia ter defendido e melhorado a difíicil situação em que se encontra perante a China; Macau, erguendo-se coquetiemente por sobre os graciosos contornos da pequenina peninsula que termina para o sul a ilha Heong-Shan, pouco mais é agora do que um monumento histórico das grandezas lusitanas de outras eras. Sem recursos proprios de qualquer natureza, dependendo por isso em absoluto dos territórios que a rodeiam, Macau só pôde aspirar ao papel de entreposto commercial de maior ou menor importância que desde os mais remotos tempos da sua existência tem desempenhado; se bem que, como cidade de residência e como ponto merecedor da curiosidade dos turistas, possa alcançar uma situação de relativo destaque, que não deve ser por fórma alguma despresada. Embora o commercio que por intermédio da nossa pequena colonia se efectua, attinja o valor de treze mil contos de réis, sete mil contos de importação e seis mil de exportação, a necessidade imperiosa de manter a sua qualidade de porto franco limita extraordinariamente os recursos que a fazenda publica pôde auferir com essa proveniência. E assim, tem sido necessário para fazer face aos encargos da administração recorrer a outras fontes de receita que, seguindo a linha da mais fraca resistência, neste caso as das tendências naturaes do meio, se localisaram na exploração do jogo e no commercio e preparação do opio. A estes dois poderosos auxiliares deve a Província dois terços dos seus rendimentos totaes; e sobre elles como pontos de apoio principaes gira portanto, a sua vicia administrativa. 
Todavia, o commercio relativamente importante que por intermédio de Macau se eflectua favorece algumas manifestações de actividade e garante-lhe uma densidade de população considerável (a cidade com uma area de 330 hectares tem uma população de 07:000 indivíduos) que devidamente aproveitadas pódem dar origem a um progresso compensador das energias que ali se venham a dispender. A importância de Macau como entreposto commercial vem-lhe exclusivamente da sua posição geographica e do seu porto, embora o apparecimento da colonia ingleza de Hongkong tenha reduzido a estreitos limites as vantagens inherentes a estes dois factores.
Dentro das actuaes condições, e enquanto ellas se mantiverem, não é crivel que muito se possa esperar de Macau, no tocante ao augmento do seu valor como entreposto commercial e ao seu progresso economico consequente, porque se encontra reduzido aos limites naturaes da sua esphera de acção, que hoje se reduz ás regiões extremamente próximas que d'elle forçadamente dependem. O grande problema a resolver em Macau reside, pois, no alargamento dos limites da sua influencia como entreposto commercial, combatendo não a supremacia de Hongkong, porque tal seria uma utopia, mas vencendo a concorrência dos numerosos rios e canaes que cortam os territórios chinezes vizinhos em todas as direcções, e fazendo do porto portuguez o escoamento natural dos productos das ferteis e laboriosas regiões que o' circundam. 
Em poucas palavras: o desenvolvimento de Macau depende da construcção de um caminho de ferro de penetração que, tendo por extremo a nossa colonia, facilite, tornando-se superiormente vantajoso a todos os outros meios de communicação, a sabida e a entrada das mercadorias pelo porto que nos pertence.
A construcção d'esse caminho de ferro, que constitue a única esperança de uma vida desafogada para a colonia, não é, infelizmente para nós, um objectivo de fácil alcance. E quem conhecer o estado das nossas relações com a China, nunca se poderá convencer de que uma tal vantagem se possa conseguir sem uma grande dóse de chance por nossa parte, ou sem que dêmos em troca compensações de valor, alliadas a uma bem orientada acção diplomática. Não será dar provas de um pessimismo exagerado pensar que nunca a nossa colonia de Macau verá realisada a sua grande ambição, o único emprehendimento que a pôde salvar; mas também não estamos em face de um impossível e portanto devemos - temos pelo menos essa obrigação moral - empregar todos os esforços para se alcançar o que deveria ter sido objecto das mais persistentes attenções de todos os governos. 
A não se realisar esse caminho de ferro, o futuro de Macau afigura-se extremamente modesto, demais approximando-se a passos agigantados a reducção inevitável das suas mais importantes fontes de receita - o jogo e o opio; e milagre de administração será se fôr possível conseguir que a colónia continue por muito tempo a bastar as suas próprias necessidades. Não é, porém, dos fortes cruzar os braços ante a adversidade, ainda mesmo quando ella se apresenta inevitável e sem remedio. É preciso, é indispensável luctar; para que ao menos reste a consciência de que se resistiu o máximo possível. Emquanto não apparecem os dias de desgraça, que a sorte pôde bem querer que nunca cheguem, as auctoridades portuguezas podiam aproveitar um campo de exploração que não deve ser desprezado. Macau ainda pôde ser um meio de restabelecer o commercio entre o extremo-Oriente e Portugal, favorecendo a entrada na China, dos nossos vinhos, pelo menos, e talvez de alguns outros productos de origem nacional e permittindo a importação directa de alguns productos chinezes, como o chá, as sedas, os charões, louças, trabalhos em marfim, bordados, etc. 
É este em todo o caso um assumpto a estudar e que deve prender a attenção do nosso commercio e industria de mãos dadas com o governo da colonia. A que resultados uma agencia commercial portugueza, estabelecida em Macau tendo como um dos seus principaes objectivos a collocação dos nossos vinhos, poderá conduzir? E que vantagens poderão advir para o publico portuguez da importação directa dos artigos chinezes que mais se consomem e maior apreço teem no paiz? Uma carreira de navegação directa entre Lisboa e Hongkong, muito fácil de conseguir, evitando os trasbordos e delongas a que hoje estão sujeitas as mercadorias que transitam entre estes dois pontos, assim como a extensão aos navios estrangeiros dos benefícios que as nossas pautas concedem á navegação nacional, que não existe para essas paragens, teriam indiscutivelmente uma influencia benéfica na probabilidade de realisação d'este ideal. A bôa vontade e o desejo de ganhar dos commerciantes, auxiliados pelas facilidades que o governo de Macau pôde conceder, fariam o resto.
Alguma coisa se deve tentar nesse sentido. É indispensável que o commercio portuguez se lembre de que novos horisontes se pódem abrir á sua actividade, onde energias estrangeiras se degladiam ha vários annos num esforço continuado e persistente, aproveitando as faculdades de uma colonia, onde a quasi totalidade dos capitaes são chinezes e onde as iniciativas portuguezas se resumem aos tímidos ensaios de mal orientado commercio de alguns pobres reformados a quem os azares da vida prenderam para sempre áquelle pedaço de terra. 
Álvaro de Mello Machado. Governador de Macau

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Viagens em "Primeira Classe"

in Revista Colonial, Nov. 1913. 
Clicar na imagem para ver em tamanho maior
"Tabella das classes em que devem ser transportados os funcionários públicos das províncias ultramarinas: Primeira classe".
Em vigor no ano de 1913.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Ó Costa e os Jogos Olímpicos de 1956

O tenente Filipe Augusto do Ó Costa fundou o hóquei em campo em Macau no início da década de 1920 quando viveu no território em comissão de serviço.
Regressaria a Macau em Julho de 1956 (dia 21) a convite da Direcção do Hóquei Clube de Macau para preparar a selecção local com vista à representação de Portugal nos próximos Jogos Olímpicos de Melbourne.  A fotografia abaixo e uma notícia da época testemunham o facto.
Macau deveria participar nos jogos (XVI Olimpíada) que começaram a 22 de Novembro de 1956 na cidade australiana mas no final o governo de Lisboa alegou dificuldades económicas e foi tudo cancelado. Um balde água fria para as aspirações da sociedade macaense e em especial para os praticantes da modalidade, tidos como entre os melhores do mundo na altura mas que não puderam mostrar o seu valor no maior palco.
"(...) Uma longa fila de «panchões» assinalou a descida do recém-chegado ao cais, donde seguiu em automóvel reservado, acompanhado por dezenas de carros em cortejo promovido pela Delegação do Automóvel Clube de Portugal, até à Pousada de Macau. Ali efectuou-se uma modesta reunião de boas vindas, com a presença de muitas pessoas, durante a qual usaram de palavras Sr.. Dr. Carlos Correia Pais de Assunção na qualidade de presidente da Assembleia Geral do Hóquei Clube e Pedro Hyndman Lobo, como Presidente da Direcção do mesmo clube. (…) 
O sr. Tenente Filipe do Ó Costa começou aqui a praticar hóquei em campo, em 1924. Em 1926, já estava formada a primeira equipa, à qual deu  ele o nome de «Macau Hockey Club». Nos primeiros anos, nas lutas travadas contra fortes equipas da vizinha colónia britânica de Hong Kong, o «Macau Hockey Club» registou derrotas consecutivas, que nem por isso desanimaram nem o orientador e treinador nem os seus discípulos, então já em número apreciável. nas épocas seguintes, já o «onze» local não sofria apenas derrotas, pois que, sobre os fortes adversários de Hong Kong, tinha também começado a registar vitórias, algumas das quais bem honrosas. 
Até 1937, ano em que o inesquecível fundador do hóquei macaense embarcou para a Metrópole, já o agrupamento local havia registado vitórias incontáveis, umas após outras e quase todas igualmente honrosas para as cores de Macau” (…) Em 1944, um grupo de hoquistas e entusiastas d modalidade fundou o «Hóquei Clube de Macau» (…)  Assim, na primeira Assembleia Geral , efectuada nesse ano de 1944, foi o benquisto e sempre lembrado «Pai do Hóquei Macaense», por proposta dum dos primeiros directores da colectividade, proclamado «Sócio de Mérito do Hóquei de Macau» (...)” 
in Boletim Informativo da Repartição Provincial de Economia e Estatística Geral, n.º 71/72 de Agosto de 1956

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ferry to Hong Kong (1959)

Ferry to Hong Kong é o título do filme que me proponho analisar mas também poderia chamar-se Ferry to Macau… Nalguns registos o filme surge traduzido com títulos como O Proscrito de Hong Kong e Embarque para Hong Kong.
Orson Welles (1915-1985) – realizador de Citizen Kane/O mundo a seus pés, estreado em 1941 e considerado pela crítica um dos melhores filmes de todos os tempos – também participou em muitos filmes como actor. Este foi um desses casos, embora não muito bem aceite pela crítica na época. O filme estreado em Agosto de 1959 no Reino Unido foi rodado em Hong Kong e Macau um ano antes, embora na ficha técnica surja a indicação que as filmagens decorreram somente na antiga colónia britânica. No entanto, essa informação só se pode considerar correcta no que diz respeito a cenas com a presença de actores e actrizes, pois algumas paisagens do filme que foram registadas em Macau. Mas, já lá iremos…
O britânico Lewis Gilbert (conhecido por Alfie) assina a realização do que anos mais tarde (em 2010 ao canal 4 da BBC televisão) disse ser o seu grande "pesadelo" queixando-se especialmente de Orson Welles: "Não ligava nem aos colegas actores nem ao realizador", disse, concluindo que "tudo correu mal no filme, e em especial o Orson Wells". Poucos anos depois Gilbert iria parar à saga James Bond assinando três realizações: Only Live Twice (1967), The Spy Who Loved Me (1977) e Moonraker (1979).
Orson Welles - que se estreara em 1958 com Touch of Evil - é o capitão (de nome Hart) do navio de passageiros Fa Tsan (repare-se que é muito parecido com um ferry que existia na época, o Fat Shan) que fazia as ligações marítimas regulares entre Macau e Hong Kong. Contrariado é obrigado a levar a bordo Mark Conrad (interpretado por Curt Jurgens), um exilado austríaco expulso de Hong Kong, por vadiar pelas ruas sem possuir qualquer identificação. Ao chegar a Macau as autoridades locais também não o deixam desembarcar. Num dos diálogos em que o capitão Hart tenta convencer as autoridades portuguesas a deixarem entrar Conrad (sem passaporte), o polícia português afirma: “Hong Kong may have the Money but we in Macau have our pride. (…) His not going to land.”
Conrad passa assim a viver a bordo fazendo todas as viagens entre Macau e Hong Kong. A relação entre ele e o capitão torna-se cada vez mais tensa. Conrad é aventureiro e cínico. Hart é presunçoso e dissimulado. A ‘ponte’ entre os dois é feita pela professora de ar angelical Liz Ferrers (interpretada por Sylvia Syms) que atura um e apaixona-se pelo outro.
A quase totalidade do filme foi feita em Hong Kong. ‘Abre’ com uma imagem aérea sobre a zona de Vitoria Harbour e as cenas da viagem do ferry assolado por um tufão foram feitas na doca de Aberdeen com a ajuda de aviões a hélice. Mas há também cenas filmadas em Macau. As mais significativas são as que mostram os rituais de um funeral chinês que atravessa diversas ruas do território em procissão (Av. Almeida Ribeiro, junto às ruínas de S. Paulo e na Penha junto à residência do bispo) até chegar ao Porto Interior (ponte-cais nº 27 – na Av. de Demétrio Cinatti perto da Rua do Guimarães e que actualmente já não existe), onde o caixão é embarcado no ferry. A baía da Praia Grande surge como pano de fundo de algumas das conversas que os protagonistas têm a bordo. Destaque ainda para as imagens feitas a partir da Penha e que registam a chegada à barra do Porto Interior do Fa Tsan, que a tripulação denomina por Fat Annie.
Numa das várias viagens que o filme documenta o ferry é assolado por um tufão mas como o capitão está doente será Conrad a assumir os comandos. Como se isso não bastasse a bordo estão também uns piratas. O junco onde seguiam viagem estava à deriva no delta do rio e o Fa Tsan acolhe-os a bordo. Apesar do perigo e da ameaça que representam Conrad consegue demovê-los das intenções criminosas.
Entre as várias curiosidades deste filme refira-se a existência de um nome português, Miguel Henriques, o imediato do navio interpretado por Jeremy Spenser. O polícia português, curiosamente, é apresentado como “portuguese major” e interpretado por Ronald Decent. A ponte-cais nº 27 não passa de um décor. Na época essa e outras já existiam em Macau e eram estruturas feitas em betão e não em madeira como surge no filme.
O ferry, feito de propósito para este filme a partir de uma carcaça de uma embarcação acabou por ser incluído numa publicação da Universidade de Hong Kong sendo catalogado como navio a vapor de cerca de 1900 (imagem ao lado). Uma imagem do ferry até surge na capa dessa edição de Junho de 2009, mas na verdade foi apenas um adereço de um filme…
A 27 de Abril de 1961 Howard Thompson assinava uma crítica ao filme no jornal The New York Times. “O filme é apenas recomendado aos curiosos mórbidos que podem ver Orson Welles na sua pior prestação de sempre. (…) O verdadeiro crime do filme é o desperdício da paisagem. Filmado totalmente a cores em Hong Kong está encharcado de uma atmosfera exótica mas após as primeiras cenas é uma desilusão.”
O filme começa e acaba no cais de Hong Kong, embora quase no fim, o Fa Tsan vai ao fundo já muito perto do destino final, numa das menos conseguidas cenas do filme. Mas não nos podemos esquecer que estávamos em 1958 e os recursos em termos de efeitos especiais não eram os de hoje… O ferry afunda mas os passageiros e a tripulação acabam por chegar sãos e salvos e Conrad acaba por ver compensado o seu empenho quando obtém autorização para viver em Hong Kong.
Fica feito o convite para que um destes dias passe 112 minutos frente ao televisor. Demasiado tempo para contar uma história que começa por parecer um drama, mas no fim se fica com a sensação que está meio caminho entre os registos comédia e aventura.
Por último importa referir que, em parte, a história deste filme (argumento adaptado de um livro com o mesmo título da autoria de Simon Kent – pseudónimo de Max Catto), é inspirada em factos reais, ocorridos anos antes, precisamente num ferry que fazia a ligação diária entre Hong Kong e Macau. Mas isso fica para uma próxima oportunidade…

"Ferry to Hong Kong" is a 1959 British melodrama/adventure film directed by Lewis Gilbert and starring Curd Jürgens, Sylvia Syms, Orson Welles and Jeremy Spenser.

Plot:

Mark Conrad, a habitual drunk and troublemaker with a shady past, is expelled by Hong Kong police after one too many bar fights. He's sent to Macao on the Fa Tsan, a ferry owned by Captain Hart. Conrad's papers are out of order and Macao refuses him entry. Unable to go ashore, Conrad is a permanent passenger on the ferry with Hart, who detests him. It's all one long, lazy voyage for Conrad until one fateful trip when an encounter with a typhoon and pirates forces Conrad to choose between an aimless drifter's life and becoming a man again.


Lewis Gilbert described "Ferry to Hong Kong" as a "my nightmare film". Orson Welles, he said, "never cared about his fellow actors, never cared about the director". Gilbert says "everything was wrong with the film - principally Orson Welles". Lewis Gilbert's comments were made in an interview on the BBC Radio 4 programme "Desert Island Discs" transmitted on 25 June 2010.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Um "erro" com quase 40 anos

Num artigo publicado na edição do Diário de Notícias de 29 Agosto 2014 sobre a transferência de Macau para a RPC em 20 de Dezembro de 1999, vem escrito que "em 1974, logo depois do 25 de Abril Portugal propusera o retorno imediato de Macau à China. Mas Pequim rejeitou a oferta, apelando às negociações para uma transferência harmoniosa".
O assunto mereceu resposta do então governador (de Nov. de 1974 a Fev. de 1979) Garcia Leandro. "Há quase 40 anos que tento esclarecer o que se passou, sem sucesso e sem correcções de erros feitos no passado. Ora a História não pode ser feita com esta leviandade". Garcia Leandro garante que "dentro do que conheço, tal não aconteceu, feito por alguém em nome de Portugal."
Em cima: Garcia Leandro enquanto governador de Macau fotografado no seu gabinete no Palácio da Praia Grande; em baixo em 1976, na AL de Macau em 1976. foto publicada na Revista Macau.

Artigo publicado no jornal Ponto Final de 26.09.2014 da autoria de João Paulo Menezes

Não fosse Garcia Leandro teimoso e o assunto provavelmente já teria sido esquecido. Mas esquecido não significa esclarecido – e é isso que
o antigo governador de Macau tem tentado fazer ao longo dos anos, não desperdiçando as oportunidades para contestar uma versão que foi amplamente difundida na segunda metade da década de 70 do século passado: que ele, em nome de Portugal ofereceu (por mais do que uma vez), a devolução de Macau à China.
Esclarecer e desmentir esta versão foi, aliás, um dos propósitos de Garcia Leandro quando publicou o seu livro de memórias macaenses (“Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979”).
O general conta mesmo que confrontou o professor Sonny Lo, quando este esteve em Lisboa, e que Sonny Lo reconheceu que não tinha provas do que escreveu em pelo menos duas obras: “Aspects of Political Development in Macao” (The China Quarterly, n.º 120) e “Political Development in Macau” (The Chinese University Press, 1995).
O que é que escreveu Sonny Lo? Que “Portugal offered to return Macao to China three times between 1974 and 1977”, frase que foi depois citada por Moisés Silva Fernandes.
O que o professor Sonny Lo disse, em Maio de 2009, no Centro Científico e Cultural, foi: a ter sido verdade que Portugal ofereceu Macau à China no âmbito das Nações Unidas, isso aconteceu apenas numa base informal.
O PONTO FINAL contactou o professor Sonny Lo para tentar esclarecer melhor esta questão e o investigador reafirmou a falta de provas, mas introduzindo uma cambiante: a sua fonte de informação foi outro académico de Hong Kong, Hungdah Chiu, que o escreveu na publicação “Introduction,” in Hungdah Chiu et al, “The Future of Hong Kong” (New York: Quorum Books, 1987), p. 8.
Sonny Lo assume poder estar errado, já que não tinha informações sobre as negociações entre Portugal e a China e não tem provas de que assim tenha acontecido, insistindo na hipótese de uma proposta meramente verbal.
Infelizmente não foi possível obter outras informações por parte de Hungdah Chiu, que morreu em Abril de 2011. Ainda antes dessa data foi contactado igualmente pelo PONTO FINAL, mas há muito que já não era possível obter informações, por motivos de saúde.
Os esforços de Garcia Leandro encontraram, ao longo destes anos, uma enorme adversidade: uma notícia do New York Times, com data de 1 de Abril de 1975, garante que foi o próprio a fazer essa oferta, no dia 10 de Junho do ano anterior, a Ho Yin (pai de Edmund Ho).
Embora as notícias (e os desmentidos…) sobre a hipotética devolução de Macau tenham começado logo a 1 de Junho de 1974, com uma noticia de primeira pagina do Hong Kong Standard, foi essa noticia do jornal norte-americano que mudou a forma como o processo decorreu.
Face à noticia assinada por David Binder, o então Governador de Macau não esteve de modas: disse que só podia ser uma “brincadeira do Primeiro de Abril”. Ho Yin apoiou-o, desmentindo que alguma vez tivesse proposto a entrega de Macau. E Almeida Santos considerou o artigo do NYT uma “mentira” e “especulação mal intencionada”, que tinha em vista atrapalhar os esforços de Lisboa no processo de descolonização em África, segundo escrevia Ricardo Pinto no PONTO FINAL em 2009.
Como afirma Moisés Silva Fernandes (“Contextualização das negociações de Paris sobre a normalização das relações luso-chinesas 1974-1979”, 2010), “apesar dos categóricos desmentidos do ministro Almeida Santos, da Administração portuguesa de Macau e do Governador Garcia Leandro, a versão do New York Times foi aquela que acabou por prevalecer nos meios académicos ocidentais e chineses”. O historiador português elenca aliás, neste artigo, a lista dos vários autores que ao longo das décadas seguintes insistiram na ideia da entrega (ver texto nestas páginas).
Duas conclusões parecem claras nesta altura: que a proposta, mesmo informal, chegou aos ouvidos chineses mas que não foi feita por um responsável político português, e portanto não tinha valor oficial (o que descarta Garcia Leandro).
Mas, então, quem o fez?
Todos os caminhos vão dar ao representante do Movimento das Forças Armadas em Macau, no momento da Revolução de 1974, capitão-tenente Augusto António Catarino Salgado, principal rosto da oposição à continuidade de Nobre de Carvalho como Governador e destituído de funções por Garcia Leandro, quando este sucedeu a Nobre de Carvalho.
O comandante naval Catarino foi um dos fundadores da CDM, a primeira associação cívica criada em Macau e era visto como o líder da facção mais revolucionária dos militares colocados em Macau.
O papel de Catarino Salgado no período de 1974/75 em Macau não está bem estudado, até pela indisponibilidade deste militar da Marinha para o esclarecer. Mas um dos raros historiadores que com ele falou, garante ao PONTO FINAL que sim, que Catarino Salgado fez essa proposta em Macau.
O académico em causa é Josep Sánchez Cervelló, autor do importante livro “A Revolução Portuguesa e a Sua Influência na Transição Espanhola”, que entrevistou Catarino Salgado.
Ao PONTO FINAL, o decano da Universitat Rovira i Virgili na Catalunha garante que foi o “primeiro a falar desta questão na minha tese de doutoramento”, revelando que no Arquivo Militar de Lisboa “há uma gravação que fiz ao comandante Catarino Salgado em 8 de Junho de 1986, que fala nisso. De todas as entrevistas que fiz durante dois anos deixei lá uma cópia”.
Catarino Salgado morreu há seis meses e com ele alguns dos factos que seriam importantes para compreender o que se passou. Outro camarada de armas de Catarino Salgado em Macau, o comandante Guerra da Mata, também já faleceu.
No seu livro ” A Revolução Portuguesa e a Sua Influência na Transição Espanhola”, Cervelló refere um documento do MFA, de Setembro de 1974, em que a entrega de Macau à China era um dos dois cenários apontados. Não só esse documento tem sido ignorado pelos investigadores, como um outro facto relatado por Cervelló nunca mereceu a devida atenção: Catarino Salgado contou-lhe que “veio incógnito um representante chinês, nós soubemos e tentámos falar com ele, e ao cabo de inúmeras perífrases conseguimos arrancar-lhe a seguinte resposta: ‘se nós quiséssemos irmo-nos embora, que fossemos, mas por que queríamos partir se estávamos ali há quatrocentos anos'”.
Mesmo que todos os caminhos apontem para Catarino Salgado, parece difícil que alguma vez o assunto venha a ser completamente esclarecido, por falta de interesse de quem tinha obrigação de investigar a história. Garcia Leandro continuará a dar o seu contributo, como aconteceu com um texto que enviou recentemente para o Provedor dos Leitores do Diário de Notícias, mas será caso para dizer que um erro (ou vários, se considerarmos o protagonista, o local e mesmo as datas) muitas vezes repetido, ainda por cima por académicos prestigiados, que se basearam muitas vezes em notícias de jornais, se transforma em verdade.
Uma história mal construída?
Moisés Silva Fernandes (“Contextualização das negociações de Paris sobre a normalização das relações luso-chinesas 1974-1979», 2010, pág 59) inventariou a lista dos académicos que se agarram à tese do New York Times:
– James C. Hsiung defendeu num artigo publicado numa revista científica que “[h]aving first declined Portugal’s offer to return Macao in 1974, Peking then signed an agreement the following year that allowed Portugal to continue to retain the enclave after nominally surrending its sovereignty back to China (p. 47).
– Baseado no mesmo artigo, Zhiduan Deng asseverou num capítulo de um livro que “[i]n 1974 Portugal offered to return Macao to Beijing. This was declined by the Chinese leaders. In the following year, Beijing signed an agreement with Lisbon allowing Portugal to continue its rule over Macao” (p. 292).
– Hungdah Chiu, por seu turno, argumentou, baseando se num despacho da agência noticiosa norte americana Associated Press. proveniente de Lisboa e publicado no diário The Sun, de Baltimore, em 2 de Fevereiro de 1977, que “the PRC had rejected the Portuguese offer to return Macao to China three times” (p. 8).
– Norman MacQueen argumentou que “[a] report at the end of March 1975, purportedly from western diplomatic sources, suggested that Peking had been asked directly to accept Portuguese withdrawal and had firmly refused to do so” (p. 168),
– Sonny Lo Shiu hing defendeu que “Portugal offered to return Macao to China three times between 1974 and 1977” (1989, p. 841).
– Finalmente, Julian Weiss afirmou que “Portugal tried twice – in 1967 and 1974 – to turn Macao over to China but the Chinese refused for a variety of strategic reasons” (p. 190).
O que se deduz desta lista, que não é exaustiva, já que outros autores (sobretudo com origem em Hong Kong) repetem sistematicamente a mesma informação, é que nenhum cita uma fonte primária (documento escrito, depoimento, etc.), essencial para a construção da história, já que isso demonstra um conhecimento pessoal directo dos factos. Todos se limitam a fontes secundárias, sendo que, ainda por cima, algumas das fontes primárias ainda se encontram vivas. A começar por Garcia Leandro.

domingo, 23 de abril de 2017

Portugal, China, Macau... em 1949

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 Hotel Central



Com a chegada ao poder dos comunistas na China em 1949 vivem-se momentos de grande apreensão em Macau e também em Portugal já que ninguém sabe qual será o futuro do território. Nesta época várias personagens se vão destacar. Uma delas chama-se O Lon, director clínico do Hospital Kiang Wu desde 1936 e tido como o primeiro secretário da célula do Partido Comunista chinês (PCC) em Macau. Será um interlocutor privilegiado do governador Albano de Oliveira, que conhece bem a realidade local e a quem é garantido que em Macau tudo ficaria na mesma.
O Lon parte em 1951 para Macau mas já antes o seu irmão, Cheng-peng, revolucionário clandestino radicado em Hong Kong, funda em Agosto de 1949 em Macau a Sociedade Comercial Nam Kwong. Será durante largas décadas a representação oficiosa da China em Macau...
Outro dos nomes que emerge naqueles anos em Macau é o de Ho Yin. Estará à frente da Associação Comercial de Macau, da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e da Associação de Beneficência Tong Si Tong...
Pelo facto de Portugal e China não terem relações diplomáticas será através destas múltiplas associações que oficiosamente a China tratará de acautelar os seus interesses em Macau durante muitos anos não tomando posições públicas sobre Macau.

A excepção foi a celebração do 4º centenário de Macau, em 1955, e de que  Ho Yin era membro da comissão organizadora. Seria o governador de Hong Kong, Alexander Grantham, que durante uma visita a Pequim recebe de Zhou Enlai a informação de que a RPC não autoriza Macau a comemorar o aniversário. E seria isso mesmo que acabaria por acontecer, não obstante estar tudo preparado. Até monumentos foram derrubados... mas sobre isso falarei numa próxima oportunidade.
O jornal Diário do Povo, órgão oficial do PCC, chega a escrever: “O povo chinês nunca se esqueceu de Macau, nem se esqueceu que tem direito a exigir a devolução deste território das mãos de Portugal”. Mas não passou de apenas isso... declarações. As comemorações foram canceladas e a vida em Macau continuou tranquilamente.






quinta-feira, 20 de abril de 2017

Jose P. Rizal: 1861-1896



Nascido nas Filipinas em 1861 (Calamba) no seio de uma família rural abastada, mas com ascendência chinesa através de um trisavô, José P. Rizal formou-se como médico em Madrid, onde começou a luta pela independência.
De Espanha seguiu para Paris e Heidelberg, onde aprofundou os estudos de medicina e dedicou-se à escrita inspirando vários movimentos de libertação.
Essa luta obrigou-o várias vezes a ter de fugir do país. No segundo exílio forçado viajou por várias paragens. 
Foi assim que a 18 de Fevereiro de 1888 - com 27 anos - passou por Macau oriundo de Hong Kong tendo ficado hospedado em casa de Juan Lecaros, um influente homem de negócios filipino casado com uma portuguesa que vivia no território.
Nessa ocasião, acompanhado por outro exilado filipino a residir em Hong Kong, José Maria Baza, Rizal chegou a Macau através do vapor Kiu-Kiang. Durante a curta estadia visitaram o Jardim de Camões, o teatro Dom Pedro V, um casino, igrejas, pagodes e assistiram a uma procissão. Rizal deixaria registos dessa visita no seu diário e nas cartas que escreveu.
A 20 de Fevereiro regressaram a Hong Kong e Rizal seguiu depois viagem rumo ao Japão a bordo do vapor Oceanic.
Rizal fixaria residência em Hong Kong, então uma colónia britânica, entre 1891 e 1892, tendo montado consultório como oftalmologista (imagem abaixo).
Regressado às Filipinas em 1892 seria julgado num tribunal militar e condenado à morte pela sua luta contra o colonialismo. Foi executado a 30 de dezembro de 1896 pelo exército espanhol em Manila. 
Considerado um herói nas Filipinas, no lugar onde foi fuzilado, ao lado das muralhas do Forte Santiago, foi construído um parque memorial em 1913, que é o pulmão da cidade e inclui com uma estátua de 15 metros de altura, erguida junto ao seu túmulo.
Um pouco por todo o mundo existem alusões à sua vida e obra. Em 2001 por ocasião do seu 150º aniversário o consulado das Filipinas em Macau inaugurou um busto de Rizal, (último imagem deste post).
Nos muitos textos da sua autoria ficou célebre o que escreveu na véspera da execução. Ficaria conhecido por "Mi último adiós" e "Mi ultimo pensiamento" mas na verdade o texto original não tinha título e começa como a expressão "Adios pátria adorada".

After arrived in Hong Kong in February 8, 1888, the journalist, poet, doctor, activist and Filipino hero José P. Rizal (1861-1896) made a short visit to Macau. He was 27 years old. On February 18, accompanied by Jose Maria Basa, a Filipino Hong Kong residente exiled for being part of the 1872 revolt which led to the execution of Gomburza, Rizal boarded the ferry steamer, Kiu-Kiang for Macau.
While in Macau, he and his friend stayed at Don Juan Francisco Lecaros home, a Filipino gentleman married to a Portuguese lady.
Rizal toured the famous places of Macau such as pagodas, botanical gardens, casino, theatres, churches, and witnessed a Catholic procession (19th february), in which the devotees were dressed in blue and purple dresses and were carrying unlighted candles.
On his diary Rizal wrote that Macau is small, low and gloomy and it looks sad.
On 20th February Rizal and Basa returned to Hong Kong, again on board the ferry steamer Kiu Kiang and after he took the steamer Oceanic on his way to Japan. On his way back he pratice medicine (ophthalmology) in Hong Kong from 1891 to 1892 (see image above), when he returned to Manila.
He was executed by the spanish authorities in Manila on 30th December 1896. On the eve of his execution we wrote the poem knowned as Mi Último Adiós (My Last Farewell) but Rizal didn't wrote a title. The poem starts with "Adios pátria adora" / Farewell my adored land" .
In June 2011 the Consulate of the Philippines in Macau inaugurated a bust of José Rizal in its facilities to mark its passage through the territory and his 150th birthday (image on the left.