quarta-feira, 27 de abril de 2016

Antigos salões de chá


A propósito de umas fotos antigas disponibilizadas pelo meu amigo macaense JD, refiro-me neste post aos antigos salões/casas de chá de Macau de outras eras, famosos pelos pequenos almoços de dim sum. Entre as mais conceituadas destaque para a Lok Kok (demolida em 1994),Tai Long Fong, Long Wa (av. Almirante Lacerda), Kun Na...
 Salão de chá "Lok Kok" (seis país) na Rua 5 de Outubro

 Um peça da antiga Casa de Chá doada ao Museu de Macau
Curiosidades: 
A palavra Chá em português soa ao mesmo que em mandarim ou tailandês mas o mesmo já não acontece em várias línguas europeias onde, curiosamente, a palavra começa sempre pela letra T: Tea, Tee, Te, Té, Thé, Thee, etc. A explicação que me deram deriva do facto do chá ao ser transportado do oriente para o ocidente vir em sacos que muitas das vezes tinha a letra T (de transporte) inscrita. Pouco científica, mas provável.
Refira-se ainda como achega para o tema que o carater chinês para chá é 茶 e pode ler-se de duas maneiras: tcha (significa apenhar, colher) ou té (significa bebida). Temos assim uma explicação plausível para que tenhamos actualmente duas formas de dizer (e escrever) a palavra chá no mundo.
A lenda sobre as origens desta bebida aromática tão enraízada nos costumes chineses remonta aos tempos do imperador chinês Sheng Nong. 
Lu Yi (733-804 d.C.) / Lu Yu, monge budista da China, produziu no século VIII (Dinastia Tang) a primeira obra importante sobre o chá, intitulada Ch’a Ching (O Clássico do Chá) e ainda hoje considerada uma obra de referência (Lu é considerado o Deus do Chá) sobre os rituais, a cultura, a colheita, a preparação, a degustação, os utensílios e a planta propriamente dita.
No seu comércio os portugueses trariam nas naus as plantas do chá que nos primeiros tempos eram usadas com fins medicinais. 
As primeira referências escritas no ocidente surgem no século XVI com a descrição botânica da planta em tratados europeus por um suíço, Gaspar Bauhin (1550-1624), através de relatos feitos por holandeses, e outro por um jesuíta português, João Rodrigues (1562-1633). Voltarei ao tema em breve... até lá sugiro este post.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Colecção Iconográfica Única de Postais Fotográficos

O Arquivo de Macau, sob a égide do Instituto Cultural, apresentou ao público na semana passada o livro “Macau e os Territórios Lusófonos – Colecção Iconográfica Única de Postais Fotográficos”, de João Manuel Loureiro.
A obra “Macau e os Territórios Lusófonos – Colecção Iconográfica Única de Postais Fotográficos”, em língua portuguesa, resulta da colecção de postais fotográficos de países e regiões de língua portuguesa e Macau, propriedade de João Loureiro e recentemente adquirida pelo Arquivo de Macau.
A colecção é constituída por mais de dez mil de postais fotográficos entre 1898 e 1999 dos mais diversos motivos: geografia, economia, comércio, costumes, religião, arquitectura, monumentos, etc, de Macau, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e a Índia Portuguesa.

domingo, 24 de abril de 2016

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Usos chineses do “modelo de Resende”

 Mapa de Macau no tempo da Dinastia Qing
Foram recentemente identificadas nas colecções públicas chinesas duas pinturas de Macau, as quais incluem, sobrepostos ao desenho original, legendas em manchu mais ou menos extensas. Fora este pormenor, é patente que as imagens em causa constituem simples variações sobre o modelo de Resende, com traços pictóricos de exclusiva inspiração europeia. Apesar das diferenças que exibem entre si, comungam também de certo tipo de originalidades em relação àquele modelo, o que prova que existiu uma estreita interdependência entre elas. Seguindo a ordem pela qual têm aparecido reproduzidas, a primeira corresponde a uma pintura que os catálogos sugerem datada de c. 1679-1682 , enquanto sobre a segunda apenas se indica que terá sido elaborada nos primeiros tempos da dinastia Qing.
A mais precisa destas duas datações remete-nos, de imediato, para o tempo da missão diplomática que o cidadão de Macau Bento Pereira Sarmento de Faria conduziu a Pequim, em nome dos interesses da sua cidade, em 1678. Pouco antes, desenrolara-se a embaixada de Manuel de Saldanha a Pequim (1667-1670), mas sucede que é a propósito da missão de Bento Pereira que surge a notícia de que a delegação portuguesa levava como presente uma pintura representando Macau, a qual tinha sido executada por um pintor local pelo preço de dois pardaus . Sucede também que a segunda destas imagens está pintada sobre uma tela envernizada de dimensões consideráveis (101x185 cm). Como Bento Pereira partiu para Pequim no início de 1678 – e como é elevada a probabilidade de alguma destas peças coincidir com a que então levou consigo para a Corte do imperador Kangxi –, além de insistirmos na origem portuguesa ou macaense de ambas, devemos considerar a hipótese de qualquer delas ter sido executada por volta de 1678. 
Planta de Macau ca. 1675:Desenhada a partir do “modelo de Resende”, tem a particularidade de incluir 9 legendas em manchu referentes aos principais pontos estratégicos da colónia. Está no Arquivo Histórico Nacional nº 1 da China, em Pequim.

Olhando o panorama do casario – de um imaculado branco mediterrânico – que a primeira destas imagens oferece, detecta-se que tal representação está mais próxima do traço original de Barreto de Resende do que de qualquer uma das posteriores simplificações do respectivo modelo já descritas (figura 3). As principais diferenças face a esse mesmo modelo de partida traduzem-se no acrescento de alguns perímetros amuralhados e na supressão de outros, numa maior precisão do risco da maioria das fortalezas e peças de artilharia, nas bandeiras com a cruz de Cristo levantadas dentro dessas fortalezas e na aparente ausência da silhueta de qualquer navio – dizemos aparente porque alguma ou algumas das nove grandes legendas em manchu que, manifestamente, foram acrescentadas ao desenho poderá ter ocultado o bosquejo de uma ou mais embarcações. A propósito destas 9 legendas, importa ainda notar que assinalam as 7 baterias e fortalezas principais, as Portas do Cerco e o templo de A-Má. Com excepção daquela que se reporta a estes dois últimos sítios, a informação nelas contida respeita apenas a matéria militar, designadamente ao número e à qualidade das peças de artilharia.
Temos notícia de que o imperador Daoguang recorreu à cartografia ocidental de Macau, por interposto Zaobanchu (Direcção de Obras do Neiwufu, ou Administração da Casa Civil do Imperador), quando teve de decidir sobre o destino da colónia lusa no contexto marcado pelo enfrentamento entre as teses do lobby anti-cantonense (acolhidas na intenção imperial de arrasar todo o sistema defensivo de Macau) e as pretensões do alto funcionalismo civil e militar de Cantão (o qual, a propósito da matéria crucial do tráfego do ópio, em 1835 apelou em uníssono e veio a conseguir impedir a concretização dessa mesma intenção). A partir da letra do despacho em causa (recebido no 17º dia da 12ª lua do 14º ano do reinado de Daoguang, i.e. 3 de Abril de 1835), já foi sugerida a hipótese do imperador ter então manuseado este mapa legendado em manchu. Em qualquer caso, devemos notar que a ordem imperial que esteve na origem do memorial ao trono dos “advogados” cantonenses de Macau – dada no 25º dia da 10ª lua do 14º ano do reinado de Daoguang (25 de Novembro de 1834) – apresenta uma contabilidade das peças de artilharia distribuídas pelas fortalezas da cidade bastante diferente daquela que temos neste mapa, pelo que preferimos ser mais cautelosos e não forçarmos tal associação.
Texto de Francisco Roque de Oliveira - Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa - Bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Portugal) publicado na Scripta Nova Revista Electronica de Geografia y ciencias Sociales- Universidad de Barcelona. Vol. X, núm. 218 (53), 1 Agosto 2006

quarta-feira, 20 de abril de 2016

"Peregrinação Vermelha"

O novo livro do jornalista António Caeiro conta histórias do relacionamento Portugal-China entre 1949-1979 e da atracção que a revolução chinesa exerceu sobre alguns actuais líderes portugueses.
livro antonio caeiro“A China está hoje muito presente na vida portuguesa, com empresas, lojas chinesas, um grande número de turistas, mas há uma relação mais antiga que não era conhecida do grande público”, desenvolvida ao longo de um período em que os dois países não mantinham relações diplomáticas, mas os contactos oficiosos nunca foram interrompidos, afirmou o antigo correspondente da agência Lusa em Pequim. Foi “uma surpresa” compreender esse relacionamento e a dimensão da influência do maoísmo em Portugal ao longo daquele período, declarou. “Foi uma surpresa para mim e para muitos portugueses da minha geração e mais novos”.
“Houve uma grande atracção de Portugal pelo comunismo chinês como não houve em outros países”, disse Caeiro, sublinhando que parte da actual elite portuguesa foi maoísta na juventude.
O autor citou o historiador José Pacheco Pereira, na apresentação da biografia do fundador do Partido Comunista Chinês “Mao, a História Desconhecida”, de Jung Chang e Jon Halliday, quando este disse que “a passagem pelo maoísmo é um elemento muito importante da História contemporânea” portuguesa. Pacheco Pereira “passou” pelo maoísmo, no início da década de 1970. Após a queda da ditadura, aderiu à “esquerda liberal” e a seguir filiou-se no Partido Social-Democrata (PSD).
Caminho flexível
António Caeiro, que viveu mais de dez anos em Pequim, destacou Macau como um “fenómeno único do mundo”, que traduz a relação singular entre Portugal e a China. “Ao longo de muito tempo conseguiram arranjar ali, através daquilo que podemos chamar ‘flexibilidade do bambu’, por muitos tufões políticos e económicos que surgissem, uma maneira de todos saírem bem”, sublinhou. Para contar estas histórias de vários intervenientes portugueses, chineses, macaenses e das ex-colónias, António Caeiro tentou encontrar “todas as pessoas que estiveram em contacto com a China ao longo desses trinta anos”.“Consegui quase todos (…) Alguns poderão aparecer depois da publicação do livro, o que será ainda melhor”, considerou, explicando ter escrito “Peregrinação Vermelha: O Longo Caminho até Pequim” ao longo de uma década.
Para o jornalista, a história mais impressionante e dramática que contou foi a de Viriato da Cruz, poeta fundador do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola, actualmente no poder), que viveu e morreu em Pequim.
A 1 de Outubro de 1966, Viriato da Cruz discursou na praça Tiananmen perante um milhão e meio de pessoas e ao lado de Mao. Morreu em Junho de 1973, num hospital, depois de ter caído em desgraça e foi abandonado por todos. A mulher e a filha só conseguiram sair do país no verão de 1974, após a polícia política portuguesa ter autorizado a concessão de um passaporte. “A amizade Portugal-China é uma história com ‘H’ grande e estas são as histórias de uma história maior e mal conhecida”, concluiu.
Este é o terceiro livro de António Caeiro sobre a China. O primeiro “Pela China Dentro: Uma Viagem de 12 Anos” foi publicado em 2004 e o segundo “Novas Coisas da China – Mudo, Logo Existo” em 2013. 
Artigo da Agência Lusa de 15.4.2016
António Caeiro nasceu em Moscavide em outubro de 1949. É jornalista profissional há 38 anos. Em 1978 ingressou na agência noticiosa Anop, antecessora da Lusa. Em janeiro de 1991 partiu para a China, como correspondente da Lusa. Em 2012 foi condecorado pelo Presidente da República com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique, pelo «contributo ao jornalismo e à aproximação entre Portugal e a China». 

terça-feira, 19 de abril de 2016

"Benvindo"


Este arco comemorativo ao jeito chinês foi colocado na ponte-cais do Porto Exterior aquando da chegada do governador Correia de Barros em 1957. 
Os símbolos nacionais usados são a bandeira portuguesa e o escudo.
Na época ainda não havia terminal de passageiros nesta zona. As carreiras marítimas chegavam ao Porto Interior.

Na foto destaque ainda para o pequeno edifício de apoio às operações da companhia aérea Matco: Macao Air Transport Company - Transportes Aéreos de Macau.
A título de curiosidade refira-se que a palavra conforma surge escrita é um nome próprio e não um adjectivo, como deveria ser. 
Ou seja, neste caso deveria estar escrito "Bem-Vindo", adjectivo usado para saudar hóspedes ou visitantes, como forma de manifestar satisfação pela sua presença. 

domingo, 17 de abril de 2016

Exposição Internacional de Nova Yorque 1939-1940


A “Feira Mundial de Nova Iorque de 1939” foi inaugurada em 30 de Abril desse ano. A exposição universal ocupou um área de 492 ha, no “Flushing Meadows-Corona Park”.
A presença de Portugal neste certame foi comissariada por António Ferro, director do “SPN - Secretariado de Propaganda Nacional”, que escolheria o arquitecto Jorge Segurado para a realização do projecto de arquitectura do pavilhão de Portugal (imagem acima).
Macau estaria representado num "planisfério luminoso da epopeia marítima". Para assinalar o evento os Correios aproveitaram um selo já emitido e colocaram um carimbo com a expressão "Exposição Internacional de Nova Yorque 1939-1940".
Esta exposição encerraria a 30 de Outubro de 1940 e por causa da 2ª Guerra Mundial a seguinte só viria a acontecer em 1949 no Haiti.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O mural do hotel Estoril

Numa altura em que é mais que certa a demolição do hotel Estoril, evoco a história do mural da fachada do edifício (que deveria ser preservada) e que com o passar dos anos 'perdeu' a assinatura do seu autor. Refiro-me ao escultor, arquitecto e empreiteiro italiano Oséo Leopoldo Goffredo Acconci falecido em 1988 aos 83 anos e que deixou várias obras da sua autoria em Macau.
Conhecido como 'babbo', Oseo Acconci fez parte do movimento artístico Arco-íris fundado pelo pintor Herculano Estorninho no início da década de 1960, precisamente a época em que criou o mural da fachada do hotel Estoril, marca rara do movimento futurista em Macau.
O mural/painel foi uma encomenda de Stanley Ho para o que era na época o seu primeiro hotel/casino inaugurado a 15 de Novembro de 1963.
No mural destaca-se a imagem de uma deusa semi-nua chamada fortuna. Segundo o neto Oseo Acconci Jr a ideia original do avô era uma deusa em nú integral que seria depois 'corrigida'/tapada por um véu e uma folha de oliveira. Do mural fazem ainda parte as figuras de um golfinho (símbolo cristão do amor) e uma gaivota que simboliza a serenidade.
Desenhado e construído no início da década de 1960 a autoria do edifício do Hotel Estoril é de Alfred Victor Jorge Alvares, arquitecto português radicado em Hong Kong. O edifício é composto por quatro pisos com a fachada principal  a ter 73,14 metros de comprimento e 16 metros de altura. Na fachada exterior o mural de mosaico tem 13,6 metros de altura e 5,7 de largura.
Planta do hotel Estoril (década 1960)

Em 1966 os preços dos 16 quartos duplos e 21 quartos singulares variavam entre as 45 e as 75 patacas por noite. 
O hotel situado na Av. Sidónio Pais, desactivado já há alguns anos, faz parte da história recente de Macau e tudo o que puder feito para salvaguardar essa memória, será sempre pouco. Com o hotel/casino Estoril, o território de Macau teve o seu primeiro hotel verdadeiramente moderno que incluía as valências de casino, restaurante, espaço de jogos de recreio, sauna... e logo ao lado (nas traseiras) a piscina municipal que nos primeiros anos era gerida pelo hotel.
O mural do Estoril em destaque num trabalho (por finalizar) da autoria de Adalberto Tenreiro
O mural fotografado num altura em que ainda visível em baixo, do lado direito, o nome de Acconci.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Em Torno da China"

João de Deus Ramos aterrou em Pequim em março de 1979 como encarregado de Negócios. Tinha 36 anos e já alguma experiência como diplomata, incluindo na Ásia, pois servira no Japão. Mas a missão na China era um desafio tremendo: tratava-se de abrir a embaixada portuguesa na República Popular da China, país com o qual os laços diplomáticos só tinham sido oficializados depois do 25 de Abril de 1974.
Mas porque viajou antes do embaixador? "Antes de chegar o general vão as tropas, para preparar o acampamento", explica ao DN João de Deus Ramos, acrescentando que nada estava preparado, que teve de se instalar num hotel e adaptar-se a um país que estudara mas que pela primeira vez visitava. Este e outros episódios de uma longa carreira constam do livro Em Torno da China - Memórias Diplomáticas que hoje será lançado às 18.30 em Lisboa, no Museu do Oriente, instituição a que o embaixador João de Deus Ramos está ligado pois foi administrador da Fundação Oriente e integra o Conselho de Curadores.
"Senti quando cheguei um grande entusiasmo. Estava numa das mais antigas civilizações do mundo e tinha pela frente um enorme desafio profissional. Por outro lado, lembro-me do ar nebuloso, cinzento, poeirento, desse final de inverno em Pequim, que nada tinha que ver com a cidade que hoje encontramos", relembra um homem que nos anos seguintes estará em todos os momentos-chave das relações luso-chinesas, em especial as negociações sobre Macau, devolvida à China em dezembro de 1999.
No livro, conta ter sido recebido por dois funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês e como lhe foi posto à disposição um motorista e carro, "um modelo de fabrico chinês, cinzento-esverdeado, usado para entidades oficiais de segundo plano e para táxis de luxo". Depois veio a surpresa da visita de um português, António Graça de Abreu, que tinha vindo como cooperante trabalhar no ensino de línguas e colaborar na revista China em Construção. Casado com uma chinesa, e com dois filhos pequenos, a família do futuro sinólogo e outro casal constituíam a comunidade portuguesa na China em 1979.
Ao fim de alguns meses chegou o embaixador António Ressano Garcia. Trouxe a mulher e o filho, conta o diplomata no livro. João de Deus Ramos mais tarde também verá a família chegar, incluindo as duas filhas muito pequenas. Assim, pouco a pouco, a vida foi-se normalizando, numa China que já não era a de Mao Tsé-tung (o líder comunista que morreu em 1976) e na qual Deng Xiaoping começava a deixar a sua marca, abrindo o país às reformas económicas que trouxeram o sucesso que hoje é uma evidência.
"Tenho uma grande admiração por Deng como estadista. Conseguiu transformar para melhor a vida de mais de mil milhões de pessoas", afirma João de Deus Ramos, que conheceu o grande reformador chinês no âmbito de uma visita do governador de Macau Melo Egídio a Pequim e reencontrará aquando das negociações que culminam em 1987 com a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre Macau, no Palácio do Povo, em abril de 1987, pelos primeiros-ministros Aníbal Cavaco Silva e Zhao Ziyang.
Num livro em que o tom pessoal se associa à importância dos acontecimentos descritos para tornar a leitura cativante, João de Deus Ramos dedica, claro, atenção especial à China, mas são também curiosos os relatos do encontro com Oliveira Salazar, que percebe pelo apelido ser filho de um diplomata conhecido, ou da forma como na embaixada em Tóquio os diplomatas receberam a notícia da Revolução. Estas Memórias falam ainda de Macau, da Fundação Oriente e terminam com uma declaração de amor à China, país onde viveu três anos e onde regressou "vezes sem conta".
Sobre a transferência de soberania de Macau, comenta ter sido inevitável e que "correu bem para Portugal e para a China". Sobre o que pensam os chineses dos portugueses, tem opinião muito própria: "É evidente que a China sente certa "ternura" por Portugal. Conhecemo-los há mais de 500 anos e, como gostam de dizer, nunca os humilhámos como os outros europeus."
Artigo da autoria de Leonídio Ferreira publicado no DN de 4.4.2016 
Diplomata, historiador e académico, há muitos anos que João De Deus Ramos vem publicando livros sobe a sua experiência na China.
Ao lado, "Portugal e a Ásia", uma obra que reúne 25 estudos produzidos entre 1991 e 2008, proferidos pelo autor como académico, e apresentados em eventos dedicados à história da Expansão Portuguesa ou Europeia na Ásia ou, ainda, publicados em revistas académicas nacionais ou internacionais.
O ex-embaixador, actualmente com 74 anos recebeu o Prémio Universidade de Coimbra 2013 pela sua dedicação "ao longo de muitos anos ao estudo da expansão portuguesa para o Oriente e ao estudo da influência da cultura chinesa em Portugal. De alguma maneira trouxe para Portugal aquilo que é a cultura oriental, e a cultura chinesa em particular".

terça-feira, 12 de abril de 2016

Exposição "Rumo ao Oriente: objectivo Macau"


A Casa do Governador em Beja reabriu em Março último com a exposição "Rumo ao Oriente - Objectivo Macau, apontamentos de uma viagem aérea em 1924" que celebra a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau, realizada em 1924.
A primeira ligação aérea entre Portugal e Macau foi realizada por Brito Paes, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia em 1924 a bordo da aeronave "Pátria" e a Casa do Governador, em Beja, está a expor parte do espólio de Brito Paes, doado pela família ao Museu Militar do Baixo Alentejo nas décadas de 40 e 50.
A preparação para a viagem teve início em 1920, sendo que a aeronave "Pátria", modelo Breguet 16-Bn2, partiu de Vila Nova de Milfontes a 7 de Abril de 1924.
A viagem foi realizada dois anos depois da famosa travessia aérea do Atlântico Sul, a ligação Lisboa-Rio de Janeiro feita por Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922, sendo que a sua preparação começou em 1920.
Para a história o avião que ficou conhecido foi o Pátria mas, na verdade, foram utilizados dois aviões. Até Jodhpur (Índia), um “Breguet” 16 Bn2 equipado com motor de 300 CV e da Índia até Macau, um “De Havilland D.H.” 9 A com um Motor de 450 CV. Daí que existam referências ao Pátria I e ao Pátria II.
A viagem iniciou-se no dia 7 de Abril de 1924, em Vila Nova de Mil Fontes (na localidade existe um monumento que assinala o feito) e terminou a 20 de Junho do mesmo ano. Curiosamente o mau tempo não permitiu a aterragem em Macau. Sarmento de Beires relatou assim o que se passou: “Sobe o açoite furioso dos aguaceiros densos, rompemos para o Istmo de Macau, e passamos sobre a Ilha Verde e as Portas do Cerco” (...) “São cinco minutos de voo inacreditável, indescritível, irreal. O aparelho parece levado como uma folha de árvore, na violência do furacão”.  
No dia 21 de Junho a canhoneira “Macau” da Marinha Portuguesa que se tinha deslocado de Macau chegou a Hong-Kong. Na viagem tentou em vão encontrar o “Pátria II” que se admitia poder ter-se despenhado no mar devido ao mau tempo. No dia 23, um grupo de mecânicos desmontou o “Pátria II” e no dia 25, Sarmento de Beires e Brito Pais, chegaram a Macau, a bordo da Canhoneira, onde foram recebidos de forma entusiástica. Chegava ao fim uma viagem de 16.380 Km percorridos em 115 horas e 45 minutos. Sarmento de Beires, Brito Pais e Manuel Gouveia, três pioneiros, acabam de escrever o seu nome em letras de ouro na história da aviação portuguesa e mundial.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

"Macau Confidencial"

"Macau Confidencial", livro do investigador da História de Macau João Guedes recentemente publicado, relata episódios guardados a sete chaves durante décadas, como o jantar que desencadeou o Iberismo ou a fundação do Partido Comunista do Vietname.
O livro, publicado recentemente, fala "de variadíssimos episódios situados nos finais do século XIX mas principalmente nos inícios do século XX, até à ascensão de Salazar, que foi um período interessantíssimo da história de Macau", explicou João Guedes à agência Lusa.
O autor destacou três momentos: o Iberismo, a coincidência (ou não) da I República em Portugal e na China e a fundação do Partido Comunista do Vietname.
O "Iberismo", ideologia que defende a unificação política de Portugal e Espanha, que teve o seu apogeu na segunda metade do século XIX, como narra João Guedes, é "bem conhecido".
Contudo, talvez poucos saibam que a ideia de união ibérica, dois séculos depois da restauração de Portugal em 1640, teve o seu nascimento, de facto, no Paço Episcopal de Macau. A corrente que pretendia unir as duas coroas teve como impulsionadores Jerónimo José da Mata, bispo da diocese de Macau, Carlos José Caldeira (seu primo), enviado especial do Governo português à China.
Sinibaldo de Mas, catalão de origem e ministro plenipotenciário de Espanha na China, o padre canonista J. Foixa e o dominicano espanhol J. Fernando, que "selaram num jantar", no verão de 1850, um pacto "em que se brindou à Ibéria e à 'conveniência da união pacífica e legal de Portugal e Espanha'", escreve o também jornalista na sua mais recente obra.
"Esses vultos da altura entendiam que Portugal e Espanha deviam unir-se porque estavam em perigo os seus respectivos impérios ultramarinos", detalha o jornalista e investigador.
"Esse projecto, completamente peregrino, não chegou depois a ser subscrito em Portugal mas tinha defensores no governo português.
Neste livro de João Guedes "há também a história completamente escondida do movimento anarquista chinês que tem em Macau o seu quartel-general no início do século XX". Outro episódio revelado no livro prende-se com a fundação do Partido Comunista do Vietname, no Hotel Cantão, "um segredo que é guardado durante mais de 70 anos".
"Macau Confidencial" tem por uma base uma série de artigos escritos semanalmente no Jornal Tribuna de Macau ao longo de mais de dois anos, de uma forma esparsa.
Notícia da Agência Lusa 6.4.2016

domingo, 10 de abril de 2016

Ecos da Emissora Nacional

"A Emissora Nacional transmitia curtos períodos de emissão especial para Macau e Timor, mas a recepção era muito má no território. As pessoas corriam para os pontos mais altos da Guia e de Coloane com os seus pequenos portáteis, impelidos por essa paixão histórica dos relatos de futebol. Alberto Alecrim resolveu então apanhar as emissões num rádio-portátil, no terraço dos CTT, junto à cabine da locução. Ligava um fio ao rádio, outro à consolete, e a Emissora Nacional entrava, com certeza, pelas casas portuguesas. Com duas vantagens para Alberto Alecrim: por um lado servia o público; por outro, deixava cair a ligação quando o Sporting estava a perder. Entrava então da consolete e justificava-se: Devido às más condições de transmissão atmosféricas não é possível continuar a retransmitir os relatos."
Excerto de um artigo da autoria de Paulo Rego publicado na Revista Macau II série nº 25 – Agosto 1994. Alberto Alecrim começou na rádio em Macau em 1955 chegando a director em 1978.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Festival "Abril em Portugal"

A canção "Coimbra", composta por Raul Ferrão na década de 1930 (a letra é de José Galhardo), é a canção portuguesa de maior divulgação internacional, existindo mais de 200 gravações, em versões vocais e instrumentais, representativas dos mais díspares géneros musicais, com ênfase para o jazz, música latina e seus derivados. Também é conhecida por "Abril em Portugal", título de um filme de 1955 em que Amália Rodrigues participou - Avril au Portugal - e foi mote de uma campanha do turismo português. Em Macau o "Abril em Portugal" chegariam em forma de 'festival' pelas mãos de STDM (por vezes em articulação com o Centro de informação e Turismo local) logo a partir da década de 1960 levando vários artistas portugueses a actuar no território: Rui de Mascarenhas, Tonicha, Quarteto 1111 (José Cid, Tozé Brito, etc...), etc...
Publicidade do hotel Lisboa (STDM) em Abril de 1974

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Marca Postal de 1985

No mundo da filatelia existe uma área conhecida por "marca postal" onde se incluem os carimbos com a informação de envio/recepção. Esta é de 1985.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Memória Revisitada

O título do post é o mesmo da única página escrita em português no livro "Fábrica de Panchões Iec Long", a mais importante do território, localizada na Taipa. O pequeno texto é assinado por  Gastão Humberto Barros, ex-presidente da Câmara Municipal das Ilhas (entre 1967 e 1975). A foto acima testemunha uma visita de inspecção à fábrica em 1975 pelo governador Garcia Leandro. Os produtos eram comercializados sob o nome Yick Loong.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A visita do rei do Cambodja em 1872

O Rei do Cambodja, Somdach Préa Noradon, visitou oficialmente Macau no dia 21 de Julho de 1872. Cento e quarenta e três anos depois é possível reconstituir a visita e perceber a motivação política que lhe estava subjacente, muito se estranhando que ela esteja arredada das histórias, das cronologias ou das antologias dedicadas ao Território. Devemos a Pedro Gastão Mesnier, secretário do Governador Visconde de São Januário, jornalista e escritor (mais tarde agente secreto do governo português em vários países da América do Sul), uma descrição soberba da estadia do Rei do Camboja em Macau, publicada na “Parte Não Official” do “Boletim da Província de Macau e Timor”, do dia 27 de Julho de 1872. O texto não está assinado, mas é seguro afirmar que foi redigido por Pedro Gastão Mesnier porque possui a mesma matriz estilística, estética e ideológica que encontramos, por exemplo, na “Descrição da Viagem de Sua Exª. o Sr. Visconde de São Januário, governador-geral da Índia Portuguesa às Praças do Norte – Bombaim, Damão, Diu, Praganã, Surrate”, que começou a ser publicada no mesmo Boletim a partir de 6 de Abril. A descrição é meticulosa, informativa e por vezes servida com um particular sentido de humor.

A emigração chinesa através do porto de Macau era realmente o assunto fracturante que agitava a governabilidade do Território, cuja elite lia com uma curiosidade um pouco menos do que literária os sucessivos artigos sobre “A Sociedade e o Socialismo”, do professor A. Franck do College de France, e traduzidos do lisboeta “Jornal da Noite” para o circunspecto “Boletim da Província de Macau e Timor”, que também publicitou a “Convenção Consular celebrada entre Portugal e a República do Perú”. Consultando o mapa das embarcações saídas do porto de Macau, durante o primeiro semestre de 1872, verifica-se o registo de uma elevada média mensal de saídas, cerca de 9 322 passageiros. Números oficiais é claro. Eça de Queirós escreveu o relatório “A Emigração como Força Civilizadora” em 9 de Novembro de 1874, publicado por Raúl Rego em 1979, que é de facto uma reflexão inteligente e acutilante sobre a emigração dos cules através do porto de Macau.

Nesse mesmo século XIX, os impérios europeus procuravam firmar-se numa intercontinentalidade política, militar e económica, respaldados num escasso respeito pelas outras civilizações. É na evolução desse contexto que o Cambodja se transforma num protectorado francês, a par do Laos e do Vietname, constituindo esse todo a Indochina. A expansão francesa no extremo oriente necessitava de legitimação diplomática e de relações bilaterais amigáveis com as possessões ocidentais circunvizinhas, até porque a jurisdição religiosa tinha sido um irritante foco de conflitos ainda não sanados entre as diversas congregações. Macau e Hong Kong eram peças essenciais dessa estratégia política. Uma pela antiga linhagem no relacionamento entre o oriente e o ocidente, e a outra pela pujança do seu crescimento económico suportado por um infrene militarismo inglês. Pela obra do Padre Manuel Teixeira, “Portugal no Camboja”, publicada em 1983, ficamos a conhecer um pouco das intrincadas relações luso-cambodjanas que remontam ao século XVII. Esta visita foi considerada muito auspiciosa para a governação do Visconde de São Januário, cujo mandato se iniciara havia pouco tempo, desde 23 de Março de 1872, substituindo o Almirante António Sérgio de Sousa [pai do futuro ensaísta e pensador António Sérgio].
Acompanhemos, então, o fio da narrativa de Pedro Gastão Mesnier.
O Rei do Cambodja, Somdach Préa Noradon, aporta a Macau a bordo da corveta francesa “Bourayne”, numa visita oficial programada pelo cônsul “Mourat, residente político francês”. Depois, a “canhoneira Camões, embandeirada nos topes e seguida pela lancha a vapor Andorinha, foi buscar o Rei a bordo da Bourayne”. A população acorreu em massa para presenciar o inusitado espectáculo: “Um grande concurso de povo estava aglomerado na Praia Grande e todos os olhos seguiam com ávida curiosidade a esbelta canhoneira que sulcando airosamente as águas então tranquilas do nosso porto, voltava com esse misterioso potentado que o poder francês arrancara ao país das legendárias narrações dos nossos antigos viajantes, para o apresentar no mundo das realidades”. A narrativa segue em crescendo de pormenores: “Da varanda do palácio do governo desfrutava-se um magnífico espectáculo. A guarda de honra de música na frente marchava para o cais de desembarque fazendo refluir pelo famoso cais circular da Praia Grande a multidão de trajos variados e multicolores que já dificultava o trânsito. Na frente dos vários consulados que estão todos estabelecidos neste bairro de Macau, tremulavam sobre elevadas hastes as suas respectivas bandeiras”. Finalmente, aparece a comitiva real: “Daí a algum tempo desembarcavam uns indivíduos de pequena estatura envolvidos em mantos de lhama de ouro e resplandecentes com brilhantes. Era o Rei do Cambodja seguido da sua corte. Foi aí recebido pelo secretário geral do governo e outros funcionários e conduzido no palanquim de gala ao palácio do governo onde S.Exª. com o seu estado maior, o leal senado e outros cavalheiros o esperava”.
O governador Visconde de São Januário, “fez sentar Sua Majestade no lugar que lhe fora destinado e dirigiu-lhe uma breve alocução em francês manifestando-lhe o prazer com que recebia em Macau um tão ilustre hóspede, acrescentando que ele teria ocasião de observar o modo porque nesta colónia sábias e humanas instituições tem assegurado o domínio português”. O Rei foi descrito deste modo: “Somdach Préa Noradon rei de Cambodja é um homem de 40 anos, estatura pequena e da cor característica da raça amarela. Fala um pouco o francês e parece ser mui observador e inteligente. O seu trajo compunha-se de jaqueta com abotoaduras de brilhantes e profusão de pedras preciosas na gola, o purvem indiano, sapatos de fivela de ouro e meia de seda. O pano manufacturado em Phômpeng é riquíssimo sendo formado de fios de ouro e apresentando cores muito vivas. Entre os diamantes, avultava pelo brilho e grandeza um que o rei usava no anel”.
O Rei ficou hospedado no palácio do governo, “tendo passado a tarde na aprazível Flora Macaense, voltando às sete horas para o palácio”. Ao jantar, lamenta o cronista que o Rei “deixando o seu trajo nacional apareceu de farda europeia de general, perdendo assim muita da sua asiática originalidade”. A manhã do dia seguinte, 22 de Julho, foi consagrada a visitar alguns serviços públicos, mas não só. Sempre acompanhado por Pedro Gastão Mesnier, começou pelo Leal Senado: “admirou muito a luxuosa sala onde o actual governador tomou posse do governo, visitou a capela que lhe está anexa e fez algumas observações gerais acerca de questões religiosas que eram muito de admirar na boca de um asiático” ; seguiu-se a Procuratura dos Negócios Sínicos, “e tanto ele como os oficiais franceses informaram-se mui particularmente acerca desta vasta repartição, admirando o sábio mecanismo com que regulamos as nossas complexas relações com uma raça tão diversa por índole e tradições. Pela ordem admirável que reina em todos os trabalhos desta repartição recebeu o digníssimo procurador, o dr. Pinto Bastos, os mais justos elogios”. Por uma questão de oportunidade, interrompeu a sequência de visitas a organismos públicos para “assistir a uma representação no teatro chinês do Matapau, manifestando a sua satisfação com uma avultada dádiva aos actores”. As visitas foram retomadas, desta vez para “o tribunal judicial gabando a sua excelente disposição e asseio”. O Rei aceitou o convite do presidente do Leal Senado, doutor Lourenço Marques, para descansar em sua casa e visitar a gruta de Camões: “a todos encantou este lugar delicioso, os jardins que o circundam, e a frescura que se goza debaixo do copado e grandioso arvoredo. O rei perguntou pelos detalhes da vida do homem ilustre que imortalizou o nome destes rochedos e escutou com interesse a narração de glórias e martírios, de aventurosas expedições, e de perigos vencidos que anda ligada ao nome do nosso grande poeta”.
Às seis horas, no largo do Chunambeiro, passou revista ao “batalhão de linha, artilharia e o batalhão nacional”. Este pormenor não escapou ao nosso cronista: “Estavam as janelas todas guarnecidas de formosas macaenses e era verdadeiramente extraordinário o concurso do povo que veio presenciar as evoluções dos nossos soldados”. Concluída a “revista com uma continência geral voltou o rei para o palácio onde o esperava o jantar de despedida”. Após o jantar e cerca das “dez horas principiou a soirée com a chegada das formosas convidadas. O rei parecia estar muito satisfeito e decerto lastimou consigo que o tipo cambodjano se afastasse tanto do português. Os Srs. Antenori e Mesnier tocaram ao piano a Ouverture das Semiramis a quatro mãos, e as exmas. Sras. D. Maria Leite Baracho, D. Belarmina Homem de Carvalho e D. Hermínia Homem de Carvalho, cantaram algumas árias e duetos com o gosto e a perfeição que ordinariamente só se encontram em artistas consumados. O Sr. D. J. de Navarro que foi vice-cônsul de Espanha nesta cidade e que agora ocupa este lugar em Hongkong encantou a todos nos duetos em que tomou parte com a sua voz simpática e vibrante. Dançaram-se algumas quadrilhas e valsas e só pelas três horas é que se desfez tão agradável reunião”.
A visita a Macau estava terminada: “O rei do Cambodja partiu no dia seguinte pela manhã, sendo acompanhado até ao cais por S. Exª. O Governador, e até ao Bourayne pelo secretário do governo e alguns funcionários da colónia, civis e militares”. Que imagem de Macau terá guardado, no seu espírito, o Rei do Cambodja?
Outras visitas tiveram registos diferentes. A de Sua Alteza Imperial o Grão Duque Alexis da Rússia, em 29 de Setembro, escassas linhas mereceu. No fim do ano, o Visconde de São Januário desloca-se a Cantão e aí sim, o registo mundano, político e diplomático foi deveras interessante. Pedro Gastão Mesnier notabilizou-se ao serviço de uma diplomacia patriótica que promovia Macau, sobretudo a imagem do Governador. E é uma enorme injustiça que raramente tenha emergido das notas de rodapé da história de Macau.
Estava em marcha um grande empreendimento, o “Projecto do futuro Hospital Militar denominado Hospital de São Januário que deve ser construído na colina do monte de S. Jerónimo”. Ontem como hoje, Macau encontrou sempre polos de desenvolvimento, sobretudo formas notáveis de divulgar esses projectos.
Artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM de 21.7.2015

domingo, 3 de abril de 2016

BNU: recordando os 90 anos do edifício-sede

Título de uma acção de 90 escudos: emissão de 1922
Embora tenha existido em Macau desde o início do século XX (1902), o BNU local só teve instalações próprias a partir de 1 de Março de 1926. Foi há 90 anos...
 A sede do BNU em 1925 pouco antes da inauguração
O BNU em 1927
BNU no século XXI
A primeira sede do BNU de Macau foi inaugurada a 20 de Setembro de 1902. Ficava no nº. 9 da Rua da Praia Grande, num prédio que pertencia a D. Anna Theresa Ferreira, antiga Condensa de Senna Fernandes. Mais tarde funcionou ainda na Repartição do Expediente Sínico na Palácio das Repartições, antes de se mudar em definitivo para o cruzamento da Praia Grande com a Av. Almeida Ribeiro, onde antes existia uma mansão de uma comerciante chinês.
Nota: são vários os posts sobre o BNU e a numismática aqui no blogue; basta procurar pelas 'etiquetas' respectivas.

sábado, 2 de abril de 2016

An Anglo-Chinese Calendar

Esta publicação remonta ao final do século 18 e foi sendo editada até ao início do século XX, por diversos editores e em diferentes locais, sempre em língua inglesa Trata-se de um espécie de almanaque com informações sobre comércio, geografia, política, etc...
Edição de 1845 com o índice onde destaquei "Portuguese Government of Macao"

Constituição do governo chinês em meados do século 19
Em cima a constituição do Governo de Macau em 1849 e em baixo uma lista com os principais comerciantes mas não só... do território; veja-se o nome de Jozé/José Vicente Jorge e  dos pintores George Chinnery e James Perkins Sturgis.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Uma viagem no "Timor" em 1958


A 1 de Abril de 1958 Reinaldo Amarante deixava Macau, com apenas 9 anos, acompanhado da sua família. Foi lá que nasceu e nesse dia iniciava "uma viagem marítima que nos fez cruzar oito fusos horários e passar por Hong Kong, Singapura, Timor Leste, Índia (Mormugão), Sudão, Adem, Canal de Suez e Port Said. Chegamos a Lisboa no dia 24 de Junho após 54 dias de viagem. Para um miúdo de 9 anos incompletos foi uma aventura que ficou na memória e marcou para sempre.
O último familiar que vi ainda em Macau foi o meu Tio Hugo. Lembro-me dele despedir-se de mim com uma festa na minha cabeça. Em Hong Kong estivemos com o Tio Vasco que passou uma tarde connosco. Quando nos levou a bordo do paquete “Timor” chovia a potes. Na fotografia sou o rapaz em calções. A menina loura mais pequena é a nossa irmã Diana."
O "Timor" foi construído no estaleiro Bartram & Sons, Ltd., em Sunderland, Inglaterra. Seria lançado à água em Maio de 1950 tendo fico pronto no ano seguinte. Esteve ao serviço da Companhia Nacional de Navegação (CNN) de 1951 a 1974. Era um navio majestoso com 131 metros de comprimento. Atingia a velocidade de 15 milhas/hora.Vendido Em 1974 foi vendido à Guan G. Shipping (Coreia), que lhe mudou o nome para "Kim Ann" e o manteve ao serviço até 1984 ano em que foi demolido em Huangpu, na China.
Estas das imagens, da Fotomar, são de Maio de 1960 e testemunham a chegada a Leixões do Timor oriundo de Lisboa trazendo a bordo uma claque do Sport Lisboa e Benfica que foi assistir ao jogo com o Leixões Sport Club para o titulo da 1ª divisão. De acordo com relatos da época "Foram cerca de quatrocentos passageiros que embarcaram na tarde de 14 de Maio de 1960, em Santa Apolónia, perante uma multidão que acenava com bandeirinhas vermelhas e ecoava vivas ao Benfica!" O jogo seria disputado no dia 15, data das fotos, e o S.L. e Benfica venceu o Leixões por 2-1 sagrando-se campeão nacional.