segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Curiosidades históricas VI - Bocage"

Gabriel Fernandes assina uma coluna intitulada "Curiosidades Históricas" no jornal "O Conimbricense" em 1895. Localize uma sobre Camões e outra sobre Bocage (1765-1805), que viveu em Macau entre Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, oriundo da Índia de onde desertou do cargo de guarda-marinha.  É a número VI que a seguir se transcreve:

"Curiosidades históricas VI - Bocage"
Manoel Maria de Barbosa Hedois du Bocage («Elmano Sadino»), vindo de Goa, por via de Surrate, (porto então de muito commercio) chegou a Macau em Julho de 1789.
Durante a sua estada nesta cidade, além da elegia feita á memoria do principe do Brazil D. José, fallecido em 11 de Setembro de 1788, e á qual se refere Rebello da Silva (a) compoz diversas poesias satyricas, taes como: O canto da Beba, Os sonetos contra certos moradores de Macau, etc., que ainda se acham ineditos*.
Deparando-lhe um protector no ouvidor Lazaro da Silva Ferreira e membro do conselho governativo, por morte do capitão geral Francisco Xavier de Mendonça Côrte Real, pôde o insigne poeta regressar a Lisboa, onde desembarcou em Agosto de 1790, vindo a fallecer em 21 de Dezembro de 1805 com 40 annos de edade incompletos.
Despachado guarda-marinha para o estado da India, por decreto de 4 de Fevereiro de 1786, entrou em Goa em 29 de Outubro subsequente, sendo nomeado tenente de infanteria da 5.ª companhia do regimento da praça de Damão em virtude da portaria do governador da India, Francisco da Cunha Menezes, de 25 de Fevereiro de 1789.
O seu poema satyrico a Monteigui, presume o escriptor indiano Filippe Nery Xavier ter sido feito ou na viagem para Macau, ou em Surrate, theatro das façanhas da sua heroina Anna Jacques Mondteigui ou Monteigui, natural da cidade de Damão e casada com o alferes Jacques Filippe, do mesmo appellido, por entre 1775 a 1782.
O referido escriptor Rebello da Silva, ignora a época em que o poeta naufragára, se foi á ida ou á volta de Macau, salvando a nado e recolhendo algumas poesias, estampadas depois no 1.º tomo das suas Rythmas. (b)
Lisboa. Gabriel Fernandes.
(a) Vide Memoria biographico-litteraria ácerca de M. M. B. du Bocage..., por Luiz Augusto Rebello da Silva.
(b) Ibidem Diccionario Bibliographico Portuguez (na parte respectiva).
Ilustração criada por IA a partir de desenho de 1850 de Joaquim Pedro de Sousa

O autor do artigo é José Gabriel Bernardo Fernandes*, nascido a 29 de Dezembro de 1848 em Macau (na Sé). Formou-se em Direito em Coimbra no ano de 1875. Empregado no Ministério dos Negócios da Fazenda, foi Conservador do Registo Predial em Angola e Juíz de Direito em Moçambique. Foi também jornalista e historiador, autor dos «Apontamentos para a história de Macau» (Lisboa, 1883), da «Relação dos bispos de Macau» (1884) e de «Jornalismo em Macau». Colaborou no «Jornal de Coimbra», no «Conimbricense» e no «Impulso às Letras», de Hong Kong. Morreu em 1914.
O pai era João Gabriel Fernandes, nascido em Bardez, Goa. Com os preparatórios do Seminário de Chorão e estudos preliminares da época, após Exame de Estado obteve Carta de Advogado junto da Relação de Goa (1845), com a provisão para advogar nas possessões da Ásia (1863) fixando-se em Macau onde foi Juíz da Paz e Síndico da Misericórdia e do Colégio de São José, bem como das Missões do vasto Padroado Português de Pequim, Nanquim e Singapura. Foi ainda Auditor de Guerra e Vogal do Conselho do Governo de Macau e Secretário do Governo. Em Macau foi um dos fundadores do semanário histórico e literário «Ta-Ssi-Yang-Kuo – Semanário macaense d´interesses publicos locaes, litterario e noticioso» e autor de um esboço biográfico sobre o macaense A.J. de Miranda. Retirou-se para Coimbra (1870/83) onde viria a morrer.
Sobre pai e filho basta utilizar o campo de pesquisa para procurar artigos publicados no blog.

* o poema sobre Macau é um retrato fiel de como era o território na época em que Bocage ali viveu (e onde tem o nome numa rua). Em breve publico.

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