Julgo ser caso único na toponímica macaense um navio ser nome de rua. Neste caso, a Avenida do Aviso Gonçalves Zarco (em chinês: 貢沙威塞古兵艦大馬路), que existiu na zona dos aterros do Porto Exterior.
Quando foi baptizada começava na então denominada Avenida do Dr. Oliveira Salazar* (frente ao Centro Náutico da Mocidade Portuguesa), e terminava na Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, próximo da "Chácara Leitão". Quando a conheci nas décadas 1980/1990 começava na Avenida da Amizade*, em frente ao Hotel Mandarim Oriental e junto à Tribuna do Grande Prémio e termina vana Rua de Luís Gonzaga Gomes, frente ao antigo Complexo Escolar, actual Instituto Politécnico. Desapareceu da toponímia local entretanto..
貢沙威塞古兵艦大馬路 / KÔNG SÁ VAI SÁK KU PÊNG LÁM TÁI MÁ LOU
由友誼大馬路,東方文華酒店對面,靠近 G.P.M.看台處起,至高美士街。澳門學校綜合體對面止。這條路以前從葡萄牙青年航海中心對面,薩拉沙大馬路及賽車看台旁側起,至羅理基博士大馬路,一稱為“乳豬園”的房產附近止。
É preciso recuar quase um século para perceber as origens...
Encomendados ao abrigo do Programa Naval Português da década de 1930, os navios 'gémeos' Gonçalves Zarco e Gonçalo Velho são denominados avisos coloniais de 2ª classe e estiveram ao serviço de Marinha de Guerra Portuguesa. Construídos nos estaleiros Hawthom-Leslie (Inglaterra) em 1932 tiveram por missão reforçar e manter a capacidade de presença naval nos vários territórios do então Império Colonial Português, assegurando a soberania de Portugal.
Foram baptizados com os nomes de dois dos navegadores portugueses envolvidos na descoberta das ilhas do Atlântico: Gonçalo Velho Cabral e João Gonçalves Zarco. Depois da Segunda Guerra Mundial, em 1946, os navios foram equiparados a fragatas, recebendo o prefixo F nos seus números de amura, pintado no costado.
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| "Gonçalves Zarco" em Macau em meados da década 1950 |
O NRP Gonçalves Zarco (F476) esteve ao serviço entre 1933 e 1964 tendo efectuado três comissões de serviço em Macau, em 1935, Set. 1938 a Abril de 1939 e de 1956 a 1964, durante os quais passou 17 meses na Índia Portuguesa e 20 meses em Timor.Em Macau 'apanhou' dois violentos tufões, o «Glória», em 1957 e em 1962 quando estava em Hong Kong o «Wanda»
Estava equipado com duas peças de 120 mm (visíveis na proa e na popa) e armamento antiaéreo, essencial para o policiamento marítimo.
Possuía turbinas a vapor que lhe permitiam uma velocidade de cerca de 16,5 nós, ideal para longas travessias.
Como se pode verificar nas imagens, na proa e na popa, estavam instaladas lonas que serviam de toldo. Quando operavam em regiões tropicais ou subtropicais (como Macau) o toldo servia para manter o convés e as áreas habitáveis por baixo dele minimamente frescos. Na zona de sombra a guarnição podia descansar ou realizar tarefas ao ar livre sem estar exposta directamente ao sol forte. Normalmente estes toldos eram montados apenas quando o navio estava fundeado ou atracado, pois não aguentariam a força do vento ou do mar durante a navegação em alto mar.
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| "Gonçalves Zarco" inscrito no casco |
Aviso de 2ª classe «Gonçalves Zarco»
Deslocamento: 1 784 tons (outras fontes: 1174 tons) (1933); 1 500 tons (1959)
Comprimento: 81,5 m; Boca: 10,8 m; Calado: 3,5 m; Sensores: radar de navegação e ASDIC (1959); Propulsão: 2 turbinas a vapor de 2 000 SHP, servidas por dois eixos permitiam atingir os 16,5 nós, de velocidade máxima.
Armamento: 3 peças de 120 mm e 2 peças de 40 mm (1933); 3 peças de 120 mm, 5 peças de 40 mm, 4 morteiros lança bombas, 2 calhas lança-bombas de profundidade (1959)
Tripulação/Equipagem: 142 homens
Na década de 1950 os dois navios oram alvo de grandes modificações sendo equipados com armamento e sensores para guerra anti-submarina. A partir de 1961 deixaram de ser empregues como unidades combatentes em 1961. O Gonçalo Velho foi abatido ao serviço, mas o Gonçalves Zarco seria transformado em navio hidrográfico condição que manteve até 1964, ano em que foi transformado em batelão (desmantelado em 1994). Seria então o navio de guerra mais velho em serviço em todo o mundo. Navegou o equivalente a 17 voltas à Terra.
Desfiles da guarnição do "Gonçalves Zarco" em Macau
A última missão do Gonçalves Zarco: 14 de Outubro de 1956 a 28 de Março de 1964:
14.10.1956: Vindo do estado da Índia Portuguesa chegou a Macau.
20.10.1956: A fim de receber beneficiações, partiu para Hong Kong sob comando do capitão-tenente António Garcia Braga.
8.3.1957: regresso a Macau trazendo a bordo para o Porto Interior o novo governador, Capitão-tenente Pedro Correia de Barros.
Dezembro 1959: ida a Hong Kong.
15.07.1963: Após reparações seguiu para Timor. Chegados a Timor, não havia condições de reabastecer o navio de combustível pelo que a 9 de Setembro seguiu até Darwin. Partiu de Timor a 2 de Janeiro de 1964 e chegou a Hong Kong a 12 de Janeiro de 1964 seguindo depois para Macau.
10.3.1964: Partida para Hong Kong com objectivo de efectuar uma inspecção geral, raspagem e pintura do fundo.
28.3.1964: Partida para Portugal com honras de fogo de artifício e "na véspera, em jeito de despedida, os marinheiros organizaram um cortejo em riquexós, pelas ruas da cidade, cantando e queimando panchões".
16.5.1964: Chegada a Lisboa. Segundo Eduardo Tomé num artigo publicado em Fevereiro de 1997 na Revista Macau, "a aguardar a tripulação no cais estavam apenas os familiares, nada de entidades oficiais, nem mesmo da marinha, tão pouco a imprensa. Restava-lhes a consolação do dever cumprido e o feito de terem conseguido trazer para Portugal aquela relíquia naval, que, com galhardia, desempenhou durante nove anos consecutivos a última missão de soberania de um navio da Armada Portuguesa, nas águas de Macau e Timor".




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