segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Traços Impressionistas de Macau

Como era Macau no final da década de 1920 aos olhos de um estrangeiro? Uma das respostas possíveis está neste excerto de um artigo intitulado “Macao, replica of Portugal – an impression of Macao”, da autoria de Bella Sidney Woolf publicado no jornal “The Macao Review Illustrated” em 1929.
Bella Woolf foi autora de obras como “The Twins in Ceylon” (1909) e “How to See Ceylon” (1914). Lady Bella Southorn, como também era conhecida, era casada com Wilfril Thomas Southorn que de 1925 a 1936 foi Secretário do Governo da Colónia de Hong Kong.
O artigo foi ainda reproduzido no Boletim Geral das Colónias (vol. V nº 53 de Nov. de 1929) em Portugal com o título “Traços Impressionistas de Macau”.
«Terras há que se impõem à nossa atenção por certa feição particular. Macau acha-se neste caso, - com o exotismo que a caracteriza. Além disso, Macau sugere-nos a acção de todos esses velhos navegadores portugueses por mares desconhecidos, como o grande Vasco da Gama. A Inglaterra é também uma nação de navegadores e esta circunstância leva-nos a sentir que um elo nos prende a eles. E quanto de interessante há em ver, em mais dum ponto do Extremo Oriente, associados, com os vestígios e as recordações dos seus feitos, aos nossos compatriotas, os velhos nautas lusitanos! A dentro da sua baía, como nas colinas que a cercam, - Macau tem mantido apesar do seu exotismo um puro espírito português que ao longo dos séculos tem conservado inalteravelmente os seus traços. Assim, ao percorrer as suas ruas, numa breve visita, os meus olhos pousando nas frontarias das casas, de graciosas taboínhas verdes corridas sobre as janelas, me ocorreu este velho dizer: Il ne change pas de pays celui qui voit toujours le soleil."
Os portugueses fizeram de Macau, tão cheia de sol, uma pequena réplica da sua pátria. E a verdade é que é deveras admirável que, a poucas horas de jornada, se possa encontrar naquelas colónia um ambiente completamente diverso. Macau vibra de sonoros nomes portugueses; são os das ruas, ao longo das quais fizemos algumas milhas, a Praia Grande, Estrada de Flora, rua de S. Lourenço; e as denominações de certas instituições, como a Escola de Artes e Ofícios, o Orfanato da Imaculada Conceição, a Santa Casa da Misericórdia. A despeito da vizinhança do vasto país que é a China, a que geograficamente está ligada, - Macau não perdeu nenhuma das suas características rigidamente portuguesas, tanto que hoje, como à data da sua fundação, isto é, há quatro séculos aproximadamente, - não deixa de ser uma colónia em absoluto portuguesa. Os confortáveis salões do palácio, onde o Governador e a sua esposa (NA: refere-se a Artur Tamagnini Babosa e Maria Ana Acciaioli Tamagnini) nos fazem uma recepção amável e cortês, - ainda mais avivam, na nossa imaginação, a encantadora sugestão dos países do sul da Europa. Sobre o brunido pavimento em mosaico dessas salas, decoradas de mobília dourada e de velhos brocados, - homens e mulheres, que, pelos nomes que usam, representam algumas das famílias mais ilustras de Portugal, passam conversando na sua língua de sonoro timbre - espectáculo este que tem o que quer que seja dum estranho e fascinante sonho.
 
Sonho que prossegue... cá fora, ao percorrer-se as ruas, ao observar-se o admirável panorama que proporciona a Praia Grande, sob cujas frondes, ao longo de esbeltas avenidas, muitos moços de barba negra passeiam a par de raparigas de negros olhos; e ao visitar as nobres ruínas de S. Paulo que, duma eminência, um memento moris, dominam, entre tantas coisas risonhas e belas, a cidade. De resto, esplêndidos hotéis, escolas, hospitais, estabelecimentos de comércio. Tudo isto vão vendo os nossos olhos, até que chegamos a um jardim de recolhido aspecto, onde as árvores dizem uma venerável velhice, de longos ramos frondosos. Diante de nós está o busto de Camões, o grande cantor dos Lusíadas, que, neste local, longe dos seus, na solidão, compôs aquele poema mundialmente famoso. Da árvore que ensombra o monumento mão amiga ofereceu-me então uma vagem contendo umas sementes castanhas, luzidias, a que os botânicos, na sua peculiar indiferença, pela beleza, dão o nome de Sterculia Lanceolata ...
Para mim, - que me importa? - representa Macau, - a leal cidade, que através dos tempos brilha, forte e altiva como o génio dos homens que a fundaram.»

domingo, 15 de dezembro de 2013

"A Lorcha"

O quadro de Marciano António Baptista, "A Lorcha" foi doado a Macau pelo bisneto do artista, Filomeno, numa sessão organizada pelo Instituto Internacional de Macau, no dia 4 de Dezembro último, no Centro de Actividades Turísticas, durante o Encontro das Comunidades Macaenses 2013.
A entidade que acolheu a pintura é a Associação dos Treze Hongs para a Promoção da Cultura e do Comércio de Macau cujo presidente, William Ho, obteve o concurso de peritos do Museu do Palácio Imperial de Pequim, para apoiar uma equipa na recuperação e renovação do quadro do século XIX. A referida associação foi criada na RAEM para dar a conhecer a histórica reputação de Macau de séculos no relacionamento com povos estrangeiros.
O quadro a óleo com mais de 150 anos é uma peça de inegável valor patrimonial que vai ficar em exibição permanente num museu que está a ser criado em Macau por entidades privadas na zona do Patane, em cujos cais, nos tempos remotos, atracavam os barcos de comércio que iam e vinham de Cantão, transportando os familiares daqueles que negociavam com os comerciantes (“hongs”) que, durante o período de 1757 a 1852, detinham o exclusivo privilégio de trabalhar com as feitorias estrangeiras.
A pintura (60 x 45 cm) foi feita em homenagem ao seu pai que comandava a lorcha que está retratatada e faz parte da memória colectiva da família, tendo figurado tradicionalmente, através de sucessivas gerações, na sala de jantar dos descendentes de Baptista: herdado por Marciano Jr., passou  pela casa de Marciano III (conhecido por Naneli) estando ultimamente na posse de Filomeno Marciano Baptista, bisneto do pintor.  De acordo com Filomeno, o quadro teria de “ir para Macau, local de nascimento de Marciano Baptista, ou para Portugal”, para “uma instituição que pudesse cuidar devidamente dele e exibi-lo”.
Marciano António Baptista (1826-1896), considerado o melhor pintor de Macau do século XIX, aprendeu as técnicas da pintura europeia com o pintor irlandês, George Chinnery, tornando-se seu discípulo, quando este se estabeleceu em Macau, fugido dos credores.  Dizia-se que pintava as cores, em aguarela ou em óleo, sobre os esboços que Chinnery lhe entregava, quando este cumpria os trabalhos encomendados da Companhia das Índias Orientais Inglesas que usava Macau como base dos seus lucrativos negócios com a China.  Em finais de 1840, juntando-se ao maciço êxodo de macaenses para Hong Kong, Marciano Baptista mudou-se com a família para colónia britânica, onde foi professor no St. Saviour’s College e na Victoria Boys’ School.
As suas pinturas iniciais assemelhavam-se no estilo às do seu mestre mas, com o passar dos tempos, ele desenvolveu técnicas e feições próprias. Marciano gostava de pintar o Templo de A-Ma e existem quadros de diferentes perspectivas sobre o tema que, no parecer de peritos de arte, são as pinturas mais apreciadas.  O Museu de Hong Kong conta na sua colecção um quadro sobre esta construção histórica de Macau.  Existem também outros quadros de cenas de rua e da vida marítima da Costa do Sul da China, feitos cerca de 1850, que fazem parte da colecção do Museu de Arte de Macau.  Marciano Baptista pintou também o tecto e o altar das igrejas de Santo António e de São Lourenço.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Jorge Álvares e as origens da estátua

Albertino Dias de Almeida recorda no texto que se segue as origens da estátua de Jorge Álvares que existe em Macau.
"Como nós sabemos, encontram-se por esse mundo fora estátuas de grandes homens que levaram até às mais longínquas paragens os conhecimentos de outras civilizações, os benefícios das suas artes e ciências e a fé cristã, com o fim altruísta de fazer com que partilhassem desses bens temporais e espirituais, num admirável espírito de abnegação, que tantos e tantos portugueses levaram através do Mundo, onde ainda hoje o nome português é relembrado e respeitado. Faltava, assim, nestas paragens, pagar uma dívida de gratidão a um grande português – o primeiro a demandar a China no princípio do século XVI.
«Antes tarde do que nunca!» e, talvez por isso, o Governo da Metrópole achou que era tempo de prestar uma homenagem a Jorge Álvares, encarregando um escultor português de grande mérito, Euclides Vaz – irmão do meu antigo professor do Liceu de Macau, Cândido Vaz – de fazer a estátua do navegador.
Construída em mármore de lioz, com um pedestal em azulino de Sintra, a estátua chegou a Macau em Junho de 1954, a bordo do paquete português «Índia», propriedade da Companhia Nacional de Navegação. A fim de escolher o local mais apropriado para a sua colocação, o então governador de Macau, almirante Joaquim Marques Esparteiro, nomeou uma comissão para se pronunciar sobre o assunto.
A comissão apreciou a opinião do conhecido historiador e investigador, Jack Braga, o qual sugeriu que a estátua devia ser colocada no Miradouro da Estrada D. Maria II, voltada para o mar, pois ficaria de frente para a ilha Lin Tin, onde Jorge Álvares pisara pela primeira vez terra da China. Esta opinião, com muito peso histórico, foi, porém, desvalorizada por dois membros da comissão, nomeadamente, pelo director das Obras Públicas, José dos Santos Baptista e pelo reitor do Liceu de Macau, Pedro Guimarães Lobato, com o argumento de que o local não era o mais apropriado, não só por estar afastado do centro da cidade, como pelo facto da estátua ter sido construída em mármore de lioz e, naquele ponto, estar mais exposta às inclemências do tempo e a brincadeiras de mau gosto. Para ambos, a estátua devia ser erguida numa das praças da cidade. Falou-se também no Jardim de São Francisco, mas, examinados alguns esboços, chegaram à conclusão de que, devido à sua disposição, não se prestava para o fim em vista, sem grande prejuízo da sua estética, tornando-se oneroso o seu arranjo, pois seria necessário demolir a biblioteca chinesa que lá se encontra e construir outra no mesmo jardim.
Finalmente, Luís Gonzaga Gomes, conhecido historiador e escritor macaense, também membro da comissão, disse que, como as estátuas se destinam a ornamentar as praças de uma cidade, portanto, os centros, achava que um dos pontos mais centrais – passagem obrigatória de todas as pessoas que vivem ou visitam a cidade – era em frente do Palácio das Repartições Públicas, à Praia Grande, no começo da então Avenida Salazar.
A comissão submeteu à apreciação do governador os resultados a que chegou, tendo o mesmo dado o seguinte despacho: «Examinando as três hipóteses consideradas, reconhece-se que:
a) o Miradouro de D.Maria II, se bem que haja razões históricas a seu favor, tem o inconveniente de deixar a estátua à acção do tempo e dos homens, como friza a comissão;
b) o Jardim de S.Francisco, a ser usado, implicaria a mudança da biblioteca chinesa, com grande aumento de despesas;
c) na Praia Grande, em frente do Palácio das Repartições Públicas, evitam-se os inconvenientes apontados.
Por estas razões escolho este último local.»

Junto ao Hotel Metrópole e o Solmar no início da década de 1980
Em cumprimento desse despacho, a estátua de Jorge Álvares foi erguida no local escolhido pelo governador, onde hoje, felizmente, ainda podemos contemplá-la, toda inteirinha, muito embora, em tempos idos, tivesse sido «abusada» – deceparam-lhe um braço – pelas diabruras importadas da Revolução Cultural da China, no ano de 1966. E onde está o problema?"
Este sábado cerca de uma centena de cidadãos em Macau reuniram-se junto à estátua e numa cerimónia simbólica assinalaram os 500 anos da chegada do navegador ao estuário do Rio das Pérolas.
Foto de Paulo Godinho, um dos organizadores da iniciativa

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Francisco Gonçalves Pereira: 1949- 2003

O Instituto Português do Oriente (IPOR) e a Associação dos Advogados de Macau (AAM) promovem a apresentação da versão em língua chinesa da “Portugal, a China e a Questão de Macau”, da autoria do advogado e investigador Francisco Gonçalves Pereira, no próximo domingo, 15 de Dezembro, na residência do cônsul-geral de Portugal, no antigo hotel Bela Vista.
Inicialmente editada pelo IPOR em 1995, e reeditada em 2010, a obra conhece agora a tradução e a edição em chinês.
Realizada num contexto e um tempo próprios, a análise histórica e política que Francisco Gonçalves Pereira desenvolve sobre o estatuto jurídico-político de Macau ao longo do tempo e até ao período que imediatamente antecedeu a transferência de Administração, “permanecem como um contributo válido para a historiografia portuguesa, bem como para a História de Macau”.
A edição de 中葡與澳門問題  (título chinês) surge numa altura em que se assinalam os 10 anos da morte de Francisco Gonçalves Pereira. Para além da versão em chinês, estará disponível durante a sessão a versão em português de “Portugal, a China e a Questão de Macau”.
“Francisco Gonçalves Pereira foi o primeiro investigador português a colocar a ‘Questão de Macau’ no seu devido lugar”, entende Carlos Gaspar, especialista em relações internacionais, e responsável pela apresentação em Lisboa do livro  “Accommodating diversity: the People’s Republic of China and the ‘Question of Macao’”.
Para Gaspar, ex-assessor de diversos presidentes da República, com o pelouro de Macau, a dissertação académica que Francisco Gonçalves Pereira preparou para o seu doutoramento na London School of Economics and Political Science, sob a direcção de Michael Yahuda, mostra que “só se pode compreender a história de Macau (e de Hong Kong) se se analisar a sua evolução no quadro da política de reunificação da República Popular da China”.
A família de Francisco Gonçalves Pereira, em concreto a sua filha Joana, fez  a doação de uma rica biblioteca sobre temas de Macau, China e Ásia ao Centro Científico e Cultural de Macau. São mais de 1500 títulos que passam a constituir a Biblioteca Francisco Gonçalves Pereira, disponível em sala própria da Biblioteca do CCCM em Lisboa.
Nascido em 1949, licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa em 1978. Cursou Estudos Europeus Avançados no Colégio da Europa, em Bruges, Bélgica e fez o seu trabalho de pesquisa na Universidade de Siena, Itália. Em Macau exerceu advocacia desde 1985 onde também foi notário privado desde 1991. Foi ainda membro da Direcção da Associação dos Advogados de Macau e vice-presidente do Conselho Superior da Advocacia e membro do Conselho de Assuntos de Transição do Governo de Macau. Foi também um dos co-proprietários do Ponto Final na década de 1990, ajudando a relançar o jornal numa fase conturbada da sua existência.
Nos últimos anos de vida dedicou-se ainda à investigação e elaboração da tese de doutoramento na “London School of Economics”, Reino Unido. Morreu a 15 de Dezembro de 2003.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Avenida da República

 A zona conhecida como "Meia Laranja"
Marco toponímico: foto de Vanessa Seed
Esta avenida - uma das mais extensas de Macau - foi assim denominada em 1910 altura em que, coincidentemente, ficou pronta. Em Outubro deu-se a implantação da República em Portugal e a 10 de Dezembro desse ano a avenida foi inaugurada em Macau. As obras estiveram a cargo do engenheiro Miranda Guedes. Começa junto à Rua do Bom Parto e termina na Rua de S. Tiago da Barra. Com este troço ficou feita a ligação do Porto Exterior com o Porto Interior. Até essa data, a estrada marginal à baía da Praia Grande terminava no Bom Parto, situando-se o forte junto ao mar.


A construção do troço final da av. da República ainda antes da construção do Palacete de Santa Sancha

Neste postal ainda não se chamava assim, já que este é do final do século XIX
Década 1970
Em cima década 1920 e em baixo década 1960
Meia Laranja
1968. Foto AJMNSilva
 Anos 50 e anos 90


década 1950 e 1980
Década 1990

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Criação das paróquias de São Lázaro e de Nossa Senhora de Fátima em 1965


Numa correspondência oficial enviada ao governador de Macau no dia 3 de Abril de 1965, o bispo de Macau, Paulo José Tavares (1961-1973) afirmou que, devido ao crescimento da população, a divisão actual da Península de Macau em três paróquias não foi suficiente para atender às necessidades da diocese para servir os cidadãos e foi solicitado com urgência um estudo sobre a redivisão das paróquias.
Em 4 de Abril de 1965, o governador de Macau, comentou sobre a correspondência oficial e encaminhou para a Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil, para um estudo urgente.
Em 5 de Abril de 1965, a recção da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil pediu à Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas e Transportes um mapa da cidade de Macau e um mapa da actual divisão das paróquias. Os mapas foram fornecidos, conforme solicitado no dia 7 de Abril de 1965.
Em 10 de Abril de 1965, o governador de Macau nomeou por Portaria, uma Comissão presidida pelo Administrador do Concelho de Macau e composto por dois representantes de Macau na diocese e um representante de cada Leal Senado da Camâra de Macau e Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas e Transportes para um estudo da divisão das paróquias na Península de Macau. A comissão reuniu-se em 27 de Maio de 1965 e resolveu sugerir a criação das paróquias de São Lázaro e Nossa Senhora de Fátima, por outras palavras, para aumentar o número de freguesias de 3 a 5, ou seja: 
Freguesia de São Lourenço
Freguesia de Sé
Freguesia de São Lázaro
Freguesia de Santo António
Freguesia de Nossa Senhora de Fátima
A sugestão foi aprovada e promulgada com o Diploma Legislativo n.o 1676 de 7 de Agosto de 1965, que estipulou a divisão da península de Macau em 5 paróquias e revogação do Diploma Legislativo n.o 257 de 9 de Setembro de 1932 sobre a divisão administrativa na Península de Macau.
Esta legislação sobre a divisão administrativa de Macau manteve-se inalterada até hoje.

Imagem e texto do Arquivo Histórico de Macau

domingo, 8 de dezembro de 2013

Macau por Henri Cordier

Henri Cordier (1849-1925) foi linguista, historiador, etnógrafo, escritor e orientalista. foi ainda presidente da Sociedade de Geografia francesa. Nos diversos livros que escreveu sobre a China (dedicou especial atenção à presença francesa no Império do Meio) destaquei este pequeno resumo da história de Macau desde o século 16 até ao século 19.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Carta em patuá 1887



Carta em patuá de 1887 (clicar sobre a imagem para ver em tamanho maior) 
publicada no jornal Ta-Ssi-Yang-Kuo no final do séc. XIX

domingo, 1 de dezembro de 2013

D. José da Costa Nunes: 1880-1976

José da Costa Nunes (1880-1976), açoriano de Calendária do Pico, foi um dos mais ilustres portugueses que jornadearam e trabalharam no Oriente e no Extremo Oriente. Veio para o Território em 1902, ainda estudante finalista do Seminário de Angra, na qualidade de Secretário do recém-nomeado Bispo de Macau, D. João Paulino de Azevedo e Castro, ele próprio açoriano. Ordenado sacerdote em 1903, logo integra como missionário o Padroado Português do Oriente.
É professor no Seminário de S. José e no Liceu de Macau. Muito mais tarde recordará que do “Seminário de S. José saíram gerações de sacerdotes que tanto se distinguiram pelas suas virtudes e pelos serviços prestados à Igreja. Mais. Foi o Seminário-Colégio de S. José que deu a Macau, a Hong Kong, a Xangai, a Cantão e a vários portos da China, abertos ao comércio estrangeiro, levas de macaenses que, pela sua boa preparação comercial, os seus conhecimentos e os seus arraigados sentimentos religiosos, grande lustre deram à Casa que os educou”. Este reconhecimento é justo e não deve ser esquecido.
Um antigo aluno do Liceu, Joaquim Paço d’Arcos, lembra o padre Costa Nunes então professor de Português, nas “Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo”, como um “homem de alto nível intelectual e moral”, dotado de uma “voz quente e persuasiva; era muito claro e lúcido na exposição; ensinava com bondade e grande interesse. Seria ele quem, primeiro de todos, notaria nos meus exercícios de redacção a facilidade e jeito da minha escrita e me traçaria, com segurança profética, o destino de escritor”.
Em 1911 foi incumbido de visitar as Missões dos Estreitos, Malaca e Singapura, e a de Timor. Eram tempos conturbados porque o regime republicano mostrou-se assaz intolerante em relação à Igreja. Em Macau, essa radicalização ideológica era sobretudo protagonizada pelos marinheiros que vinham nos navios da marinha de guerra portugueses. Eram conflitos de torna viagem. José da Costa Nunes impediu, por uma vez, sozinho, a invasão do Paço Episcopal, num lance de temeridade e de valentia.
Fundou a Revista Oriente, em 1915, uma publicação efémera que terminou ao fim de uma dúzia de números. Após o falecimento de D. João Paulino de Azevedo e Castro é nomeado Bispo de Macau e Timor (1920-1940).
Faz uma visita pastoral a Timor em 1937 e reporta ao ministro das Colónias a sua visão cristã e humanista sobre a missão educativa portuguesa: “eu entendo que toda a nossa actividade colonizadora e educativa deve reverter em benefício directo do indígena e não em benefício do branco”. Continua a desenvolver a ideia: “conheço colónias, que se dizem muito desenvolvidas, muito progressivas, muito ricas. São-no, de facto. Mas as riquezas estão nas mãos dalguns europeus, ao passo que a população nativa vegeta no mesmo desconforto e ignorância dos tempos primitivos. Isto não é colonizar; é explorar. E mal vai às nações coloniais, que marcham num tal caminho, numa época, como a que estamos vivendo hoje”. Via na educação um verdadeiro motor do desenvolvimento da sociedade: “as nossas escolas, em número de 46, são frequentadas por 2424 alunos e tendem a desenvolver-se num ritmo que poderia classificar-se de acelerado, caso dispuséssemos de mais pessoal ensinante e mais meios pecuniários”.
O Padre Manuel Teixeira publicará um número especial do ‘Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau’, Nº 406, de Janeiro de 1938, do qual era director e editor, dedicado a essa visita pastoral a Timor. É um impressivo testemunho de tudo quanto se fez, incluindo um precioso registo fotográfico. Uma parte significativa de toda essa obra será destruída pelos japoneses na segunda guerra mundial, quando invadiram Timor.
As preocupações com a educação e com as escolas acompanham-no sempre. Basta mencionar que quando saiu da Diocese de Macau, em 1940, o número de escolas era de 96 (em 1920 existiam 47) e os professores eram 331 (em 1920 eram apenas 124).
A sua carreira eclesiástica será invulgarmente vertiginosa porque D. José da Costa Nunes foi de facto um homem de raras qualidades humanas, pastorais, intelectuais e cívicas.
É nomeado Arcebispo Metropolitano de Goa e Damão (1940-1953), Primaz do Oriente e Patriarca das Índias Orientais (1940) e Arcebispo titular de Cranganor (1940). Foi para Roma com o título de Arcebispo titular de Odessa e Vice-Camerlengo da Santa Sé. O Papa João XXIII fê-lo Cardeal em 1962.
Todos estes cargos, adornados de pompa e brilho é certo, pouco mexeram com a sua maneira de ser, com o seu patriotismo e com a fraternidade cristã de que deu sobejas provas ao longo da sua vida. Dizia que se “quisermos ser grandes, façamo-nos pequenos, confessemos a nossa total dependência do poder absoluto de Deus e reconheçamos que, sem Ele, nada somos, nada podemos e nada conseguimos”.
Em 1964 é-lhe atribuída a distinção de Cidadão Benemérito de Macau, por iniciativa do Leal Senado de Macau. Recebeu a Grã-Cruz do Império Colonial em 1946 e a Grã-Cruz da Ordem de Cristo em 1953.
A pensar na cisão violenta mas inexorável do Império, que começou exactamente na Índia, dirigiu uma mensagem, em 1967, aos portugueses de Goa, Damão e Diu, incutindo-lhes uma dose suplementar de patriotismo e assegurando que a espiritualidade cristã e as raízes telúricas estão sempre onde há portugueses: “quem viaja pelo Oriente tropeça a cada passo com recordações do Velho Portugal, na sua maioria marcadas de cunho religioso. Se as fortalezas de Goa, Damão, Diu, Malaca, Japara, Macáçar e tantas outras falam da heroicidade da gente lusa, mais falam do nosso espírito cristão as igrejas que por lá erguemos; mais acentuam a nota religiosa os descendentes das numerosas cristandades que semeamos pela Índia e Ceilão, pela Birmânia e a Malásia, pela Tailândia e o Camboja, a China e o Japão, as Celebes e as Molucas, as incontáveis ilhas da Pequena Sonda e outras terras da chamada Índia Meridional”.

É o patrono do “Jardim Infantil D. José da Costa Nunes”, desde 1945, em Macau e nos Açores, na Ilha do Pico, da Escola Básica e Secundária da Madalena. Em vida, já tinha doado a sua casa de família, na Calendária, para nela ser instalada uma Escola Infantil e uma obra de assistência. Esquecida tinha ficado a sua obra doutrinária, a obra ética e moral, a obra pastoral, histórica e apostólica, avultando entre elas as “Cartas aos Sacerdotes da Arquidiocese de Goa”, publicadas em 1947. D. José da Costa Nunes foi um prosador de fôlego, um pedagogo esclarecido e um pensador da existência e da acção humana.
A sabedoria adquirida ao longo da sua mundivivência intercontinental pode ser uma fonte de estudo e de ensinamentos e também uma fonte de inspiração para uma moral kantiana do dever. Surge a figura providencial do Padre Tomás Bettencourt Cardoso, que se ocupa da edição dos Textos do Cardeal Costa Nunes, isto é, da Obra Completa, que se alargou em 17 volumes, a saber: Estudante/Jornalista; Escritos; Cartas da China; Documentos Oficiais; Pastorais; Conferências; Viagens; Crónicas; Entre Chineses e Entre Malaios; Cartas ao Padre Ernesto Ferreira; Documentação Oficial; Magistério do Patriarca; Cartas aos Sacerdotes da Arquidiocese de Goa; Cartas aos Jovens Goeses; Cartas aos Católicos de Goa; Cartas de Roma; Últimos Escritos. Faltou apenas uma Fotobiografia. A benemérita Fundação Macau foi a editora deste grande empreendimento cultural.
O Padre Tomás Cardoso idealizou o projecto dos Missionários Açorianos em Macau, “cozinhado nos começos de 1994 e submetido, oportunamente, aos Bispos de Macau e de Angra, ao Governador de Macau, ao Secretário-Adjunto para a Administração, Educação e Juventude e ao Presidente da Fundação Macau – não teríamos ficado tão longo tempo no Oriente, onde chegamos a 30 de Dezembro de 1989, sem nunca ter deixado de dar o nosso possível contributo pastoral à Igreja, nesta Diocese, em especial, ao serviço dos Portugueses na Taipa e Coloane”.
Ao seu labor devemos as reedições ou edições facsimiladas das obras de D. João Paulino de Azevedo e Castro, Padre José Maria Fernandes, D. José Alvernaz, D. Jaime Goulart e D. Arquimínio Rodrigues da Costa. Jorge Rangel publicou um importante estudo, “D. José da Costa Nunes, Cidadão Benemérito de Macau”, sob a chancela do Instituto Internacional de Macau, em 2008, e dele retiro, com a devida vénia, o excerto de um artigo do professor Vitorino Nemésio, originariamente publicado no dia 15 de Novembro de 1955, no ‘Diário Insular’, de Angra do Heroísmo: “A nós outros, que não temos nenhumas das respeitáveis inibições de situação e de cargo que nos limitariam à atitude protocolar e arquimedida diante de um prócere nacional e príncipe da Igreja, o que nos move e comove, ao falar do Senhor D. José da Costa Nunes, é o padre exemplar, o amigo longânime, o português de têmpera e, de tanta sacralidade e honraria, poder ficar chão e indulgente como quem nasceu e é. Interessa-nos o chefe espiritual que pôde, num homem de acção chamado a altos destinos, conservar a cordura da gente da ilha do Pico, o seu espírito de modéstia, de justiça e de valentia, a sua patriarcalidade nativa, generosa e robusta: o homem dos doze quilómetros a pé pelos trilhos asiáticos e europeus, tão diários como a missa matinal, o vigilante de colégios, descobridor de vocações, tutor de meninos órfãos – e, por cima de tudo isto, homem do mundo sem o deixar de ser de Deus”.
Palavras sábias e verdadeiras. Monsenhor Manuel Teixeira, admirador confesso da vida e obra de D. José da Costa Nunes, aponta uma falha que reputa de imperdoável: não ter escrito as suas Memórias! Tinha carradas de razão. Faleceu aos 96 anos de idade em Roma, a Cidade Eterna.
Artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM de 3-3-2011