domingo, 17 de fevereiro de 2013

Procissões: N. Sra. Fátima, Sto. António e Sr. dos Passos

Procissão N. Sra.de Fátima: década 1980-90
(...)esta cidade do Nome de Deus de Macau ajoelhou, mais uma vez, aos pés virginais da Senhora da Fátima. nesta pequena parcela de terra portuguesa vibraram sinfonias de amor milhares de corações unindo suas vozes ao hino de louvores que, no dia 13 de Maio, ecoou triunfante na catedral imensa do universo. O povo de Macau, tradicional e profundamente religioso, depressa ergueu nesta cidade um santuário à Senhora da Fátima e, todos os anos, aí celebra com toda a solenidade da liturgia católica, a festa da sua primeira aparição. É a velha igreja de S. Domingos o centro da devoção mariana em Macau. Aí os católicos desta cidade prestam a sua devoção à Virgem, sobretudo durante a novena que antecede a festa e nesse dia de apoteose em que a Senhora mais branca do que a luz é levada em procissão até à Ermida da Penha e daí abençoa esta Cidade do Nome de Deus estendida a seu pés. É dia de magnífica expressão católica em que a gente de Macau vive uma tradição que vem de oito séculos a vincar, no concerto das Nações, a presença dum povo” (...)
in Boletim da Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Estatística Geral, Ano III, Maio de 1956 (de onde é tb a imagem de cima)
Do mesmo boletim segue-se um excerto de um texto que retrata a procissão do Senhor dos Passos na década de 1950.
A Festividade do Senhor Bom Jesus dos Passos – a mais arreigada tradição entre a gente portuguesa – ocupa lugar de proeminência entre as devoções do povo de Macau. É concorridíssima a Novena que precede a festa, realizada sempre no primeiro Domingo da Quaresma. A Igreja de Santo Agostinho enche-se de oração e de cumprimento de promessas feitas, sendo numerosas as Comunhões diárias. A Procissão da Cruz, ao anoitecer de sábado, em que a venerável Imagem do Senhor dos Passos é conduzida para a Sé Catedral, é o mais recolhido cortejo litúrgico da cidade. A túnica roxa do Senhor e os cortinados, da mesma cor, que envolvem o andor, de mistura com a luz misteriosa dos archotes, infundem respeito e põem na alma uma tristeza grande (...) O Primeiro Domingo da Quaresma representa, na vida católica de Macau, um dia de penitência e oração – é o dia da Procissão do Bom Jesus dos Passos. Todos os pensamentos e todas as acções gravitam nesse dia à volta do grande acontecimento. O povo de Macau enche, desde o alvorecer da manhã até à hora de saída da Procissão, a vasta Sé Catedral (…)”
Este domingo, 17 Fevereiro 2013, tem lugar em Macau e nas comunidades macaenses na diáspora a procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos introduzida no território em 1586 pelo padres Agostinhos espanhóis, vindos das Filipinas, que trouxeram consigo o culto da Paixão de Cristo. Estes acabariam por partir para Goa em 1717 e a procissão deixou de se realizar Acontece que nos anos seguintes registou-se falta de alimentos o que para muitos, nomeadamente a população chinesa, foi atribuído ao ao facto de não se realizar a procissão. Foi então requerido ao Procurador do Senado a 14 de Fevereiro de 1721 “que fizesse andar pelas ruas aquele homem de pau às costas” (como era chamado) e prontificaram-se a pagar todas as despesas. 
Foi em 1721 e desde então todos os anos o Senhor dos Passos sai à rua em Macau num ritual que Fernando Sales Lopes explicou no jornal  Ponto Final do dia 15.02.2013. 
"No sábado véspera do primeiro domingo de Quaresma, ao fim do dia e ao som da Banda da Policia de Segurança Pública de Macau, sai da Igreja de Santo Agostinho em procissão até à Sé Catedral, onde passará a noite, a imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos, coberta por uma cortina de renda bordada a fios de ouro. No domingo, pela tarde, com o sermão do Pretório seguido do canto de Verónica, parte da Sé a imagem do Senhor, agora descoberta, percorrendo o centro histórico de Macau Vivem-se as sete das catorze estações da Via-sacra, que representam o percurso de Jesus Cristo do Pretório ao Calvário. A procissão termina com o sermão do Calvário, já com imagem na Igreja de Santo Agostinho. Em Macau, contrariamente ao que é habitual nas outras procissões dos Passos, não há o habitual encontro das imagens do Senhor com Nossa Senhora, sua mãe. Esta é uma característica que diferencia o culto do Senhor dos Passos em Macau. Mas não se pense contudo não ser aqui bem forte o culto Mariano. A questão da data em que a celebração se realiza é outra das diferenças que a tornam, talvez, única. Não há, no calendário da Igreja Católica, uma data certa para a realização da procissão dos Passos. Pelo menos é o que a prática confirma, embora se saiba que entre os séculos XIV e XVIII, em Portugal ela se realizava na Quinta-Feira Santa. Encontramos procissões dos Passos desde a segunda à quinta semana de Quaresma. A originalidade do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos em Macau é que a procissão tem início no sábado anterior ao primeiro domingo de Quaresma, dia em que termina."
Para saber mais sobre procissões religiosas em Macau consultar os links abaixo indicados.
Imagem baixo de AJM Nunes da Silva

 Duas de Gina Badaraco:em cima, procissão do 13 de Maio de 1969. 
Em baixo, Procissão do Senhor dos Passos em 1959.
Procissão N. Sra. de Fátima: postal década 1980-90

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Colégio Yuet Wah: breves apontamentos

Gov. Lopes dos Santos entrega diploma a aluno da 'secção inglesa'
Fundado em Guangdong em 1925, o colégio Yuet Wah transferiu-se para Macau poucos anos depois (1928) devido à instabilidade na região (invasão japonesa). Em 1948, foi aberta no Colégio Yuet Wah a Secção Inglesa por iniciativa dos padres Lapin e Robert Vech. Esta secção segue os programas das escolas inglesas ministrando o curso desde a 5.ª cl. até à Form VI, segundo o sistema educacional britânico. Os alunos que completam a Form VI estão aptos para o Certificado da Educação da Universidade de Londres. Em 1951 o colégio teve direito a classificação canónica sendo nomeado o seu primeiro director o P. João Buchta. Sucedeu-lhe em 1954 P. Paulo Janssen, que ampliou o colégio, cedendo-lhe a Diocese a «Vila Flora», onde esteve inicialmente o Convento das Carmelitas. Foi ele também que ampliou a capela do Colégio. Em 1957, foi nomeado director o P. Mário Calvi, que aumentou para 28 o número de aulas. Ultimamente foi construída uma escadaria em forma de anfiteatro para reuniões, e cinema com uma capacidade para 1.400 alunos sentados. No total, o Yuet Wah tinha 4 colégios: o Colégio Yuet Wah feminino na avenida Coronel Mesquita dirigido, pelas Canossianas; a escola Yuet Wah infantil e primária, na Travessa dos Bombeiros, n. º 9, sob a direcção das Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas).

Yuet Wah was founded in 1925 in Guangzhou by Ms. Li Fong Kei and Ms. Tam I Man. It was moved to Macau due to political unstability In 1928. In 1933, Macao government granted land for expansion of the school. Yuet Wah College was then named as "Yuet Wah College (Macao)" and was officially registered at the Guangzhou education bureau.
The financial situation of the school became very difficult with the outbreak of the Pacitic War in 1942. Principle Liu then discussed with Fr. Chan Kei Chi and handed over the School to Salesinas of Don Bosco in the same year. In June of that year, the 1st batch of Senior Secondary students graduated. Yuet Wah College is now the school with the longest history in Macao. Later the Salesians of Don Bosco bought the site of old "Ching Yun Primary School" and built "Yuet Wah Branch School".
In 1944, "Pui Ching Girls' Middle School" was found unregistered at the Guangzhou Education Bureau; with the consent of the school, its name was changed to "Yuet Wah College (Girls' School). In 1948, the English Section was established. Starting from 1954, our students participated in University of London General Certificate of Education examinations. In the 60s and 70s, the Grand Stand and two 3- storey buildings were built. In 1971, Yuet Wah Alumni Association was established.
In 1973, Yuet Wah College (Girls' School) was separated from Yuet Wah College and changed its name to "Sacred Heart Chinese Girls' School", which is the present Sacred Heart Canossian College (Chinese Section). In 1974, school library and laboratory were augmented. In the same year our school was officially appointed to be the examination center of Exdecel London Examination (GCE) in Macao.
Starting from 1981, school provideed both science and commerce subjects for students of Chinese section. They could choose to study either Science stream or Commerce stream. Besides air-conditioned classrooms, Audio-Visual Room and Computer Room were also set up. In 1988 Teachers and Staff Association was established. In the following year, Rinaldi Building was built. It is a 6 storeys building with 22 classrooms and 7 special rooms. The Opening Ceremony was held on the 4 May 1991.
In September 1991, Yuet Wah Branch School changed its name to Chan Sui Ki Perpetual Help College (Branch School) and was managed by FMA (Figlie di Maria Ausiliatrice - Daughters of Mary Help of Christians). Starting from 1992 September, students in the English Section could choose either Science stream or Commerce-Art stream when they were promoted to Form 4. In 1994, Student Union was established.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A maior das festividades

“A festa tradicional que para os chineses se reveste de maior importância e animação, é a que levam a efeito pelo Ano Novo, conforme o seu velho calendário subordinado ao movimento da Lua. Antigamente, o início dos anos lunares variava segundo as dinastias reinantes, mas, cento e quatro anos antes de Cristo, foi fixado no dia da primeira Lua Nova a seguir à entrada do Sol no Aquário, data que fica compreendida entre 21 de Janeiro e 19 de Fevereiro. O primeiro Governo da República, em 1912, decretou a abolição do Ano Chinês, estabelecendo a ´Festa da Primavera´ em substituição das cerimónias usuais por ocasião do Ano Novo, mas a tradição encontrava-se de tal maneira no espírito do povo que este, embora em alguns casos adoptasse o calendário ocidental, continuou a reger-se pelos anos lunares, mantendo as grandes solenidades do princípio do ano, que apresentam simultaneamente características religiosas, familiares e comerciais. Em Macau, já muitos dias antes o Porto Interior se começa a encher de embarcações chinesas, que paralisam todas as suas actividades para gozarem o único descanso de um ano de labuta; arrumam-se muito juntinhas, procurando agrupar-se com as dos parentes e formando longas fileiras separadas umas das outras por estreitos corredores aquáticos que semelham pequenas ruas de um estranha cidade flutuante com mais de sessenta mil habitantes!
Na véspera do Ano Novo, bandeiras vermelhas são içadas nos mais elevados mastros das embarcações, enquanto os panchões estoiram ruidosamente no mar e em terra, afugentando apressadamente os espíritos malignos, que nestes dias festivos se vêem forçados a procurar esconderijo bem longe dos povoados… Pelas portas, janelas e paredes encontram-se afixados papéis vermelhos exprimindo votos de felicidade, e muitas lojas e residências ostentam ricos panos carmesim em vistosas decorações; nas ruas, numerosos chineses aproveitam a oportunidade para exibirem cabaias e fatos novos como prova da sua abastança. Sequeira, interessado pelo exotismo da festa que constitui o maior acontecimento da vida social chinesa, mas cujas solenidades particulares são absolutamente vedadas aos olhos de europeus, pediu à Mary Wong que fosse sua companheira naquela noite de desusada animação e o elucidasse sobre os milenários costumes da China em data tão solene. Lado a lado, como um casalinho de namorados, percorreram a Rua da Felicidade, ornamentada com inúmeros balões de feitios esquisitos e atapetada com os papéis vermelhos dos panchões que não cessaram de rebentar.
 – Como esta festa deveria ser animada e interessante – pensava o médico – se não estivéssemos em guerra e a miséria não fosse tanta!
 E, de facto, o que se passava em Macau constituía uma pálida amostra das comemorações dos anos anteriores. Não havia jogo pelas ruas nem iluminações no Bazar; apenas o Bairro da Felicidade, onde as `pipa-chai´ são rainhas, pretendia mostrar ainda um pouco de alegria própria da mocidade. Numa rua do Mercado de S. Domingos, em numerosas barracas armadas propositadamente e com luz a jorros, os horticultores e floristas expunham à venda as plantas e flores tradicionais da época como símbolos de felicidade, tangerineiras anãs carregadas de frutos, ramos de pessegueiros, pereiras e ameixieiras a florescer, jacintos, dálias e crisântemos. Enorme multidão, sempre renovada, adquiria os seus perfumados e decorativos talismãs, que deviam enfeitar o lar antes de soar a meia-noite.


Klu-klu e fan-tan
Ao entrar no Hotel Central, Sequeira encontrou o átrio repleto de chineses jogando o ´klu-klu´ em volta de duas mesas, ouvindo-se de vez em quando o grito convidativo do ´croupier´ berrando em altos sons ´hoi, hoi´ (abro, abro) enquanto acariciavam uma caixinha de base plana e circular, onde assentavam três dados fechados superiormente por uma cúpula de vidro, que uma tampa preta apropriada eximia à vista do público. Esperando um pouco, o banqueiro retirou a cobertura da redoma e surgiram os dados mostrando um 4, um 3 e um 2, no total de nove, ´pequeno´, que ele anunciou logo em voz cantante: ´Si, sâm, i, kao, sai´ (4, 3, 2, 9, pequeno). Todos os ´pontos´ que tinham jogado naqueles números e no ´pequeno´, receberam os seus lucros, depois do que, fechando de novo a caixa e agitando-a três vezes para revolver os dados, a pousou sobre a mesa aguardando que mais apostas fossem efectuadas. Sequeira verificou que os oleados colocados sobre as mesas e onde os jogadores dispunham o dinheiro que arriscavam, estavam divididos em numerosos rectângulos, com os números 4 a 17 escritos em fila e desenhos de combinações dos algarismos gravados em cada dado (1 a 6), além de dois espaços maiores, um para o ´grande´, números de 11 a 17, e outro para o ´pequeno´, de 4 a 10. Três dados iguais constituíam o ´partido´ da banca, mas os ´pontos´ também podiam tentar a sorte nesses números, o que não evitava que aquele jogo não deixasse de ser uma espécie de ´banca francesa´ em que o banqueiro tinha a colossal vantagem de ficar com seis ´partidos´… – Que diabo – monologou o Sequeira – Nem doutra maneira se podia admitir que os concessionários do jogo pagassem anualmente de impostos à Colónia cerca de dois milhões de patacas, a brincadeira de mais de doze mil contos!
Metendo-se no elevador com a Mary Wong, o médico parou no sexto andar, dirigindo-se para o cabaret onde duas orquestras tocavam alternadamente músicas de actualidade para baile. Em volta do recinto destinado à dança, numerosas ´taxi-girls´ aguardavam sentadas pelos fregueses que as levariam para o rodopio, enquanto na restante parte da sala à meia luz, numerosas mesas se encontravam apinhadas de frequentadores ansiosos por divertir-se.

Não resistindo à tentação duma rumba sensual, Sequeira tomou nos braços a apetitosa bailarina e pretendeu executar alguns passos de dança, em breve reconhecendo que não estava dia para essas fantasias, pois os pares comprimiam-se de tal forma em recinto tão apertado que se via em sérios embaraços para não pisar o seu par ou os pés vizinhos.
Foi então tomar conhecimento com outro jogo desconhecido, o ´fan-tan´, que se praticava numa sala ao lado e constituía uma espécie de jogo do ´monte´, mas sem cartas: sobre a mesa revestida de oleado escuro apenas se lobrigava um quadro metálico com os algarismos 1 a 4 escritos nos lados e uma grande quantidade de botões brancos, que o banqueiro separava em grupos de quatro manejando uma vareta. Terminada a jogada, o banqueiro pegou numa espécie de malga com a boca virada para baixo e cobriu repentinamente uma porção de botões, que desviou para o lado, indicando em seguida que podiam começar as apostas.”
Excerto do livro "Eu estive em Macau durante a guerra", da autoria de António de Andrade e Silva escrito nos primeiros anos da década de 1940 mas que só veio a ser editado em 1991 pelo ICM e Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Calçada à portuguesa...


Se tivermos em conta a reduzida dimensão do Território Macau tem de certeza a maior área de pavimento em calçada à portuguesa e nem mesmo depois de 1999 essa área diminuiu, antes pelo contrário. Destaque para o Largo do Senado, Largo do Lilau, entre outros. Esta arte secular típicamente portuguesa está espalhada um pouco por todo o mundo em locais tão díspares como o Brasil ou Timor. A explicação é simples: os navios que seguiam para Macau iam maioritariamente vazios e precisam de peso para navegarem em condições - o chamado lastro. Daí que a solução encontrada foi carregar os navios com 'pedras da calçada' (calcário e basalto) à partida de Lisboa. Os motivos dos desenhos são na maioria: desenhos de caravelas, rosas-dos-ventos, conchas, peixes, estrelas, e ondas do mar
Pormenor da calçada junto à Sé
Dois livros de Ernesto Matos sobre este tema editados em 2009 e 2010
Edição trilingue de 2010. O prefácio é de Ana Paula Laborinho, presidente do Instituto Camões, que em declarações ao Jornal Tribuna de Macau recordou que “a calçada portuguesa, tão descuidada no território da sua origem, foi adoptada por Macau e tornou-se numa arte local”. “Das artérias nobres foi progredindo para os bairros históricos, quer as antigas ruas da cidade cristã, quer as populares ruas do bairro chinês”. Realça ainda que este “tão belo e mágico livro” de Ernesto Matos “percorre as ruas da cidade fixando por meio da sua objectiva a beleza dos desenhos e os sinais de um quotidiano que enche de vida as pedras da calçada” e que, “para sublinhar a voz das pedras, as imagens cruzam-se com as palavras de poetas, quer se trate daqueles que miticamente estão ligados à cidade, como Luís de Camões, quer os contemporâneos de mais ou menos recente memória”.
Para o autor, ainda em declarações ao JTM, “a calçada portuguesa tornou-se um ícone”. “Os passeios de Macau desenvolveram-se para trazer um novo brilho a todo o território e muito especialmente às típicas e estreitas ruas do Centro Histórico, agora possuidor de um título reconhecido internacionalmente, como são exemplos o Largo da Sé, o Largo de São Domingos e o caso da Rua dos Ervanários, zona também denominada por rua dos tintins. As tonalidades de pastel das típicas fachadas coloniais ganham assim uma nova escala e as duas civilizações unem-se e saem à rua de mãos dadas para comemorarem as bodas dos 500 anos de uma coexistência, construída e fortificada através de um diálogo onde não são necessárias muitas palavras nem a descodificação de ambas as línguas maternas”.
Na década de 1970 (cima) e 1960 (baixo)
Ruas de Macau nas décadas de 1960 a 1980 com calçada à portuguesa

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Carnaval no ginásio do Liceu: décadas 1930-40

Na parede, o lema do patrono do Liceu, o Infante D. Henrique: "Talent de Bien Faire". O espaço era utilizado não só pelos alunos e docentes da escola como também pela sociedade civil, realizando-se ali algumas festas populares.
Este ginásio foi construído (inaugurado em 1934) já depois do Liceu ter sido transferido do antigo hotel Boa Vista para o antigo Asilo das Inválidas no início da av. Cons. Ferreira de Almeida ao Tap Seac, no início da década de 1920. O Liceu Nacional Infante D. Henrique funcionaria aqui desde essa altura até ao mês de Outubro de 1958.
Imagem do início da década de 1960

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Soirée no Palácio do Governo: Carnaval de 1896

Sempre que esta colónia tem occasião demostrar a s. exa. o sr. governador Horta e Costa o quanto o estima e como bem avalia o seu carácter alevantado e correcto, corre pressurosa a manifestarlhe a sympathia que lhe dedica e o respeito que lhe consagra. Teve s exa. occasião de tal apreciar, quando em Outubro, por occasião do seu anniversario natalício, recebeu de toda a cidade a ovação mais sincera e espontânea que jamais se fez em Macau; no primeiro de Janeiro, quando, apezar de não haver recepção official, toda a colónia correu ao palácio a apertar, n’um impulso de sympatia, a mão leal que dirige os destinos da província; na noite de 15 do corrente, quando tudo o que havia de importante na colónia, quer portuguez, quer estrangeiro, accorreu ao palácio a cumprimentar o sr. Horta e Costa e sua Esposa.
Em 1960
Os salões regorgitavam de convidados, e o sr. Horta e Costa e a sra. D. Adelaide Horta e Costa, tendo para cada um as attenções mais delicadas, a todos deixaram gratíssimos pela maneira como bizarramente foram recebidos e acolhidos no palacio do governo. As salas do palácio vestiam de gala e estavam requintada e luxuosamente guarnecidas, offerecendo um aspecto deslumbrante. Muita flor, muita luz, aqui e além por entre macissos de verdura, um quadro de fino gosto, colchas de seda de cores delicadamente combinadas, cloisonées artisticamente trabalhadas, etc.
O gabinete causerie ornado de plantas tropicais, iluminando discretamente, offerecia os seus sophas voltaireanos cómodo descanso aos valsistas offegantes. A’s 11 horas a soireé estava no seu maior deslumbramento e mal se podia valsar, tantos eram os pares que se entre-chocavam nas duas amplas salas de baile… A’s duas horas foi servida uma opípara ceia na casa de jantar, que estava elegantemente ornamentada.
As senhoras (quasi 100) trajavam ricas e elegantes toilletes, havendo muitas dellas que vestiam lindos costumes, destinguindo-se a esposa de s. exa. o governador que elegantíssima no seu costume – Margarida de Vallois – ostentava um rico vestido de seda branco com finos ramos bordados a fio d’oiro.
A ultima valsa dançou-se ás 6 horas da manhã aos primeiros raios de sol, que curioso espreitava por entre as nuvens pardacentas os bustos dos elegantes valsistas, que offegantes principiavam a sentir saudades de uma noite que jamais esquecerão.
Jornal "Echo Macaense" de 23.02.1896

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O "Auto-China" e a Travessa do Auto Novo

No "Toponímia de Macau" Monsenhor Manuel Teixeira explica as origens do nome dado a esta travessa: "Foi-lhe dado este nome por se representarem ali os autos chinas. (...) Em chinês chama-se Ch'eng P'eng Hong, ou Ch'eng Sán Kai ou Ch'eng P'eng Chek Kai; tem este nome por lá existir o Cineteatro Ch'eng P'eng, que é o prédio nº 23 dessa travessa, construído um pouco antes de 1907."
O Wing Wah, hotel chinês, ficava nesta travessa.
Bento da França, na obra "Macau e os seus habitantes" de 1897 explica o que era o auto china.
"O theatro chinez é chamado em Macau o auto china. Esta denominação, cremos, veiu do nosso antigo theatro, pois assim eram designadas as composições dramáticas, ou dramatico-lyrico-comicas, de Gil Vicente, etc, em que tinha cabida toda a espécie de acção séria e burlesca. A sala de espectáculo é quasi despida de adornos. O palco levanta-se a uns dois metros acima da platéa, fazendo-se as mutações de scena á vista, porquanto não existe panno de boca. No proscénio vêem-se alguns bancos para espectadores. A scena tem poucas decorações. Ao fundo, que é de madeira, ostenta-se, na parte superior, um enorme letreiro vertical, indicando o nome da companhia que funcciona; mais abaixo ha duas portas, a da direita para as entradas e a da esquerda para a saida dos actores. Os músicos collocam-se ao fundo da scena, entre as duas portas. De um dos lados estadeia um cartaz com o annuncio do espectáculo. Em todas as suas representações theatraes ostentam os chinas muito apparato, e, qualquer que seja a peça que levem, ha sempre personagens em abundância, rasão pela qual as companhias são numerosíssimas. Todos os actores pisam o palco com a maior affectação; quer declamem, quer cantem, mudam a voz para falsete, pois que não admittem a naturalidade em scena. Ha espectáculos mixtos, em que fazem exercícios acrobáticos difficultosos, tornando-se insignes em saltos mortaes. Por lá ainda Talma e Arlequim confundem as respectivas artes. Todo o material scenico, mobiliário, adereços, etc, etc, se cifra em: uma mesa, seis cadeiras e três cannas, ou bambus. 
Com varias combinações (festas três espécies de objectos, e a ajuda de alguns cortinados de chita, se substituem bastidores, pannos de fundo, gambiarras, bambolinas, No jogo scenico são também parcimoniosos em accessorios; um signal physico, ou um ademane convencional, bastam. Em contraposição com isto, são riquíssimos e muito luxuosos os fatos que vestem, conservando no theatro os antigos trajos, anteriores à invasão dos tártaros. O auto china dá funcções que começam ao entardecer e duram até ás quatro e cinco horas da manhã seguinte. Ás vezes ha também espectáculo do meio dia até ao pôr do sol. Durante todo este lapso de tempo, exhibem-se, sem interrupção, comedias, dramas, melodramas, tragedias, jogos guerreiros, saltos, etc, etc. A sala de espectáculo compõe-se de uma espécie de palanque, onde se accommodam as mulheres e chinas ricos, e da platéa destinada â arraia miúda, de envolta com ven- dedores de chá, de guloseimas, etc, etc, os quaes apregoam ali mesmo. Todos fumam e é frequente ver chinas estirados em bancos durante o espectáculo. As composições theatraes são quasi todas de um realismo pornographico revoltante e torpe, cousa com que os chins nada se molestam, comtanto que se não offendam os actuaes poderes públicos. As companhias, em geral, compõem-se só de homens; ha, porém, algumas, em que figuram apenas mulheres. Umas e outras têem actores encarregados do desempenho de papeis de sexo differente. No género cómico têem figuras bastante apreciáveis. O que mais desgosta o europeu n'aquelles espectáculos é a inferneira da musica e o desplante com que os culis (serviçaes) fumam e estadeiam a sua porcaria e bruteza no palco. Mas voltemos a occupar-nos do que se passa na scena.

Já dissemos quão exiguo era o seu material, vejamos agora como elles se arranjam para o figurado das cousas. Uma sala, por exemplo, fórma-se com a mesa ao centro e as três cadeiras em volta ; um salão rico é representado pelos mesmos moveis cobertos com pannos encarnados; uma alcova obtem-se unindo duas cadeiras, em cujas costas se prendem cannas sustentando um cortinado. Mais ainda ; para representar o oceano basta tombar uma cadeira, tapal-a com um trapo azul que diga hai (mar) ; figura-se uma igreja, ou grande cathedral, atando duas cannas á mesa, das quaes càe um cortinado com o dístico «templo»; querendo-se uma montanha, põem-se as cadeiras em cima da banca;  por ultimo, representa-se um bosque, espetando uma canna no meio da scena e atando-lhe um ramo verde no cimo. Igual simplicidade se nota na acção ou jogo scenico. Para que o publico supponha que vão a cavallo basta que se apresentem os cómicos com um chicote na mão. Personagem que tenha maus sentimentos, seja tyranno ou traidor na peça, pinta de branco o nariz e está revelado. Uma tira de papel branco posta nas orelhas converte o actor em alma do outro mundo. Levantar o pé direito significa transpor uma porta, cruzar os braços no peito, fechal-a. Os cómicos são mal vistos na sociedade chineza e classificados de escoria social, sem embargo o seu modo de vida é bastante rendoso. As companhias de actores chinezes são bastante numerosas, como já tivemos occasião de dizer. Ha companhias de primeira, segunda e terceira classes, variando o numero de figuras entre 60 a 120. Formam verdadeiras tribus nómadas, que viajam nos seus acaus, ou lorchas, com o guarda roupa próprio, cozi-heiro especial, etc, etc, demorando-se nas localidades para onde foram contratadas. Não acceitam compromissos para menos de seis, nem mais de nove representações. O publico dos theatros chinezes desconhece o que são applausos e pateadas, todavia, quando gosta, solta exclamações ruidosas, taes como ai-lô, etc, ctc. Se a peça não os satisfaz, lançam para o palco tudo quanto tèem á mão: fructas, bolos e até pedras."