quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A propósito de uma fotografia de uma equipa de Hóquei em Campo: década 1940

Este post é mais um exemplo do quanto o blog Macau Antigo tem sido uma mais valia no partilhar de memórias individuais e colectivas. Sem mais delongas... vamos ao que interessa. Recebi um e-mail do Reinaldo Amarante pedindo ajuda na identificação de uma foto de uma equipa de hóquei em campo tirada em Macau (ainda fez outra pergunta que espero conseguir obter resposta em breve.. talvez até com a publicação deste post). Fiz de intermediário na obtenção da resposta e eis o resultado tal qual tudo se passou no espaço de poucos dias graças à generosidade de João Bosco Basto da Silva. Obrigado aos dois!
e-mail do Reinaldo Amarante:
Caro Amigo João,

Li em tempos um post no "Macau Antigo", onde João Bosco falava de Hóquei em Campo em Macau. Aliás, tive o ensejo de deixar um pequeno comentário sobre o Hoquei feminino. Envio-lhe em anexo uma fotografia não datada de uma equipa masculina onde não aparece nenhum familiar meu. Tenho uma certa curiosidade em saber porque razão ela surge no espólio fotográfico de minha Mãe. Talvez João Bosco consiga identificar os elementos da equipa e por aí eu me esclareça.
Outra questão que lhe queria colocar, a propósito dos posts que colocou sobre o falecimento de Henrique Senna-Fernandes. O meu irmão Mário, é afilhado de Baptismo de uma "Luísa Senna-Fernandes". Será possível saber qual o grau de parentesco dela com HSF, sabendo que deverá ter nascido por volta de 1925 (era amiga de minha Mãe e tinham mais ou menos a mesma idade)?
Muito obrigado. Um abraço. Reinaldo Amarante
e-mail do João Bosco Basto da Silva:
Olá J. Botas

Já estou em condições de identificar a foto sobre a equipa de hóquei de Macau:
de pé, da esquerda para a direita - Reinaldo Angelo, Lourenço Ritchi, Herculano Rocha, Vítor Rosário, Eng. Humberto Rodrigues e Frederico Nolasco;
agachados, da esquerda para a direita - Augusto Jorge, José Santos Ferreira, Eurico Rosário, Armando Basto e Albertino Almeida.
Dessa foto, apenas 4 deles continuam vivos: Vítor Rosário, Augusto Jorge, Eurico Rosário (emigrado na Austrália) e Albertino Almeida. Também estou em condições de informar que essa equipa não era a mais forte e que deve ser dos finais dos anos 40, pouco depois da 2ª guerra. Um abraço. João Bosco
e-mail do Reinaldo Amarante (depois de lhe ter reenviado a resposta do João Bosco)
Caro Amigo, Antes de mais o meu muito obrigado pela identificação da foto. A maior parte dos nomes é-me familiar, quanto mais não seja no apelido. A pessoa que terá feito a minha Mãe guardar a foto é José Santos Ferreira (Adé) que ela dizia ter sido seu treinador em Atletismo, algo que nunca consegui confirmar. Já pensei e tentei adquirir o Vol. Desporto de José Santos Ferreira, Obras Completas de Adé, mas ia adiantar-me pouco, porque, pelos vistos está escrito em Patuá. Eventualmente, poderá ser também Reinaldo Ângelo, porque disse-me uma vez que o meu nome (pouco frequente) era de um amigo. Pode utilizar a fotografia no Macau Antigo.
Relativamente Luísa Senna-Fernandes, já pedi ao meu irmão para ver na sua certidão de baptismo o nome completo da madrinha. Logo que o tiver comunico.
Muito obrigado pelas informações. Um grande abraço. Reinaldo Amarante

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Patuá e Miguel Senna Fernandes

Miguel de Senna Fernandes é um dos rostos que 'teima' em preservar o patuá de Macau...
A lawyer by profession, Miguel de Senna Fernandes is also a playwright, director and linguist dedicated to preserving the Macanese culture. As a founding member of the amateur theatre group Dóci Papiaçám di Macau, literally ‘sweet talk’, Senna Fernandes has written a number of plays in Patuá since the group’s stage debut in 1993. Every year the group’s comedy is a highlight of the Macau Arts Festival, which is set to again dazzle audiences with its 20th staging this May.
“Patuá is a Creole language that fuses Portuguese with Chinese, Malay and other languages,” Senna Fernandes explains. “It was once stigmatised as bad Portuguese. People weren’t allowed to speak it publicly.” Today, among the 20,000 Macanese-born Portuguese in Macau and overseas, only a handful are able to communicate in this highly endangered language. “Before putting pen to paper, I had to learn my ‘mother tongue’. Patuá is a very funny language, phonetically and syntactically. it’s absolutely a language for comedy. That explains why our plays are all light-hearted, topical and, above all, humorous.”
Traditionally, only Macanese would take part in the plays, but since 2000, a chinese character has been added. “Our plays have to reflect all walks of life in Macau. it’s very narrow-minded if we exclude the role of chinese in the play. The Filipino community in Macau is growing. This year, we have an additional Filipino role to show their importance in our society.”
But how do the actors and actresses master this at-risk language so quickly during rehearsals? “Maybe it’s because we are Macanese,” says Senna Fernandes. “We’re of mixed Portuguese and chinese blood blended with strains of everything from Malay to indian. Perhaps our hybrid nature helps us grasp the essence of this hybrid language.”
Excerto de um artigo da revista da Air Macau em 2009 Texto de Chung Wah Chow e fotografia de Gary Mak

Extinção do patuá “não é inevitável”

Uma tese de doutoramento sobre o patuá, que será apresentada nos próximos dias, envolveu trabalho de campo em Vancouver e São Francisco, onde reside o maior grupo de falantes. Muitos deles são idosos e a UM quer documentar o seu legado.
Existem casais de idosos que, no seu dia a dia, comunicam entre si em patuá. Mas não estão em Macau. Mário Pinharanda foi encontrá-los entre a vasta diáspora macaense radicada nas cidades de São Francisco e Vancouver. O investigador da Universidade de Macau (UM), que irá defender uma tese de doutoramento sobre o patuá nos próximos dias, esteve naquelas cidades do continente americano, onde recolheu dados sobre o maquista, tendo efectuado gravações com pessoas que o falam fluentemente.
A recolha sócio-linguística faz parte da pesquisa realizada no âmbito da tese de doutoramento daquele investigador, que se intitula “Estudo da expressão morfo-sintáctica das categorias de tempo, modo e aspecto em maquista”. A tese aborda as variações nas formas de falar crioulo macaense ao longo dos tempos, incluindo uma comparação com o kristang, de Malaca.
Os registos recolhidos deverão “funcionar como base de dados para futuras pesquisas e também para a comunidade em si”, segundo explica Pinharanda. As gravações foram captadas apenas em áudio, mas o áudio-visual deverá ser o momento seguinte da investigação. A documentação imagética torna-se mais pertinente dada a idade da população em causa: “Temos que ser rápidos, eu trabalhei com pessoas na faixa dos oitenta, noventa anos. Na véspera de eu chegar a Vancouver tinha falecido um informante com 107 anos, eu ia muito entusiasmado para o conhecer”, comenta o investigador, que está radicado em Macau desde 1997.
Os macaenses que Mário Pinharanda foi encontrar no Canadá e nos Estados Unidos são, sobretudo, provenientes da comunidade de Hong Kong. Trata-se de pessoas que saíram de Hong Kong nos anos sessenta e que já estão na América há cerca 40 anos. Apesar disso — ou talvez por causa disso - mantêm o patuá em contexto familiar, de uma forma bastante viva. Os dados recolhidos junto das Casas de Macau indicam que a maior comunidade de macaenses residirá na baía de São Francisco.
Com o andar do tempo, torna-se prioritário registar a herança destes macaenses, constituída por elementos como diários, livros de receitas e cartas. Mas, para isso, será necessário que os estudiosos tenham a possibilidade de passar mais tempo entra a comunidade, argumenta Pinharanda: “É preciso a pessoa ter um contacto prolongado com a comunidade, que não foi o caso, eu fui por uma semana, o projecto era assim e não permitia mais. Futuros investigadores têm que ter um projecto que lhes permita uma maior permanência. Até porque as pessoas não vão, de um dia para o outro, disponibilizar as cartas pessoais e coisas assim. Mas era fantástico que as várias comunidades começassem a pensar no sentido do legado, para quem cá fique”.
Os falantes de patuá pertencem a uma “geração bastante mais velha”, sendo que os filhos dessa geração “já pouco falam”, caracteriza o investigador: “Nas entrevistas que lhes fiz iam sempre ‘bater’ nessa questão da perda da língua e das tradições. Por outro lado, achei, estando inserido no contexto norte-americano - onde há tantos grupos minoritários linguísticos e onde há um grande incentivo para manter associações - que há uma camada jovem de macaenses, já nascida lá, e que é muito activa nas associações.”
BOLSAS PARA MALACA. Alan Baxter reconhece que há falantes de patuá, mas que estes não estão em Macau. “Com plenas funções linguísticas, aqui em Macau há cinco pessoas. Há depois muitas outras pessoas que sabem alguma coisa e que conseguem comunicar. Onde há falantes funcionais em maior número é em São Francisco e Vancouver”, revela o director do Departamento de Português da UM.
Com o patuá “à beira da extinção”, Alan Baxter considera que o que lhe acontecerá “vai depender da comunidade, dado que os especialistas podem dar conselhos, mas a própria comunidade fará o que bem quiser com a sua língua”. O responsável valoriza a iniciativa de conseguir a classificação por parte da Unesco do maquista como património imaterial da humanidade: “Acho interessante e poderia fornecer os meios para dar alguma continuidade simbólica ao patuá. O patuá não será reactivado como uma língua com funções plenas, mas pode ser reactivado no sentido simbólico, com mais presença, mais participação por parte dos jovens. Se entre os jovens houvesse um interesse para falar fluentemente o patuá, a sugestão que venho propondo há quase dois anos é que poderíamos criar umas bolsas e mandar alguns jovens a Malaca por uns meses. No regresso, faríamos ajustes no sotaque e no léxico e teríamos alguns falantes do patuá”.
A última ligação do “Ethnologe” lista 6909 línguas, mas há estimativas que apontam para que subsistam cerca de metade no início do próximo século. Baxter argumenta que a comunidade macaense continua a “gostar do teatro e de celebrar a sua cultura, sendo o patuá é parte da cultura local” e não considera, portanto, que seja inevitável a extinção do idioma. Embora seja difícil que venha a ter outro destino: “No século XXI, é cada vez mais inevitável [essa extinção], mas as minorias podem manter as suas línguas e podem utilizar outras línguas para o funcionamento sócio-económico. É uma questão de vontade, mas a língua precisa de funções e a comunidade tem que compreender como é que funcionam os factores condicionantes que vão afectar negativamente a língua, ou de maneira positiva, para aproveitar os efeitos positivos. A língua minoritária não tem de desaparecer, há muitos exemplos no mundo de línguas minoritárias bem conservadas em situações multilingues,” analisa o académico australiano.
Artigo da autoria de Paulo Barbosa publicado no Jornal Tribuna de Macau a 18-10-2010

"Macao: L'enfer du jeu"

Cartaz da Suécia - o título em francês é o original
Filmed in 1939 as "Macao, l'enfer du jeu" with Erich von Stroheim but released in 1942 as "L'enfer du jeu" without von Stroheim. His films were banned in all German-occupied countries, so Delannoy, the director, could not release the film. Instead of shelving it, all scenes with von Stroheim were reshot with Pierre Renoir. The von Stroheim version was rereleased in 1945.

Filme muito atribulado este.... rodado em 1939 mas estreado em 1942 (na Europa) e em 1950 nos EUA (Gambling Hell). Teve duas versões com dois actores diferentes pois o primeiro, Von Stroheim, estava 'proibido' na Alemanha de então... As suas cenas foram rodadas uma segunda vez tendo como actor Pierre Renoir. A primeira versão seria editada depois da guerra, em 1945. 
Em Portugal chamou-se "Labaredas"... talvez porque era essa a imagem do inferno... da Segunda Guerra Mundial. Foi filmado em dois estúdios de França.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Homenagem a Henrique Senna Fernandes 29 Outubro, Casa de Macau, Lisboa

A Casa de Macau em Portugal, em parceria com a Universidade Nova de Lisboa numa iniciativa coordenada por Rogério Miguel Puga, realiza nas suas instalações em Lisboa (av. Almirante Gago Coutinho) ao longo do dia 29 de Outubro - programa ainda em elaboração -, um seminário dedicado ao escritor macaense recentemente falecido. O evento conta já com um grande número de oradores que acederam ao convite e que se fazem representar com estudos inéditos ou já publicados sobre o autor.
Estão confirmados, entre outros, os nomes de Ana Paula Laborinho, António Estácio, António Graça Abreu, Beatriz Basto Silva, Celina Veiga de Oliveira, David Brookshaw, Henrique J. Manhão, João Basto Silva, João Botas, Joseph Levi, Lúcia Lemos, Maria Antónia Espadinha, Rogério Miguel Puga, Yao Jinming. Posteriormente as apresentações serão publicadas em livro.
Organização: CETAPS (Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies), FCSH, Universidade Nova de Lisboa/FCT.

domingo, 17 de outubro de 2010

Ponte Cais 16: 1949

Neste local exisitia uma antiga ponte-cais. Em 1947 iniciou-se o processo de reconstrução. Fu Tak Lam, comerciante e proprietário, morador no Hotel Central, desejava construí-la por considerar a obra urgentíssima e de grande interesse para o Governo. Charles Lun Chou, engenheiro civil e construtor, assinou o projecto e encarregou-se da obra de demolição da antiga estrutura e da edificação da nova Ponte Cais no. 16. O edifício foi sucessivamente alterado, ampliado e modificado. Mas foi durante muitos anos o principal lugar de chegada à cidade de Macau.
Fotografias de Jack Birns para a Time Life Magazine em 1949:
um ano depois da inauguração da Ponte Cais nº 16 no Porto Interior
 em baixo: o mesmo local na década de 1960

sábado, 16 de outubro de 2010

João Guedes, jornalista e investigador

Camarada de profissão (e com quem tive o prazer de trabalhar), o João Guedes (jornalista e investigador) estreou-se há alguns meses no mundo dos blogs com o seu "Tempos do Oriente" de onde por vezes reproduzo aqui com a devida autorização alguns dos seus artigos. Para além dos vários livros que tem escrito sobre temas menos conhecidos da história de Macau há vários que escreve semanalmente nas páginas do Jornal Tribuna de Macau uma página tb dedicada à história do território. Pessoas como ele deveriam ser mais apoiadas para que os temas que investiga vissem a luz do dia em forma de livro. 
Porque a homenagem é mais do que merecida, reproduzo artigo sobre a vida e obra de João Guedes publicado na edição em português do jornal Tai Chung  Pou a 29 de Janeiro de 2008. O texto é de Isabel Castro a fotografia de António Falcão.
O investigador presente do passado
São duas vidas completamente distintas, como se fossem as de dois homens, com Macau a marcar o fim de uma e o início de outra, em tudo diferente. Ou então não: a vinda para o território só alterou o método e o objecto. Ninguém pode ser quem não é e João Guedes transportou os hábitos e capacidades para um novo meio.
Já lá vão 27 anos desde que deixou de ser investigador criminal para passar a vestir a pele do jornalista. A verdade é que “o jornalismo é muito parecido, há muita investigação”. Hoje em dia, não tanta quanto gostaria, que a velocidade do tempo não o permite. É o jornalismo do quotidiano que faz os dias. Mas a investigação está lá sempre, de uma forma ou de outra.
Nascido na região de Lamego, há quase três décadas no território, João Guedes, jornalista da Teledifusão de Macau desde o início das operações da televisão, autor de vários livros, apaixonado por literatura e história, sente-se mais daqui do que de outro local qualquer. “É interessante, acaba-se por se gostar de Macau… e ao fim destes anos todos perde-se muito a ligação a Portugal”, sorri. “Vou lá todos os anos, mas é um país que já não tem muito a ver comigo. Tenho a família toda aqui, de modo que Macau é a minha pátria”, abrevia, com uma gargalhada.
Foi precisamente por questões familiares que se mudou para Macau. Para trás deixou a carreira de investigação criminal na Polícia Judiciária, que o levou a passar por Paris e Inglaterra. Em 1981, pediu uma licença ilimitada, que lhe foi concedida. Começava então a segunda vida, a de Macau.
O Gabinete de Comunicação Social era o destino à chegada. “Na altura, estava a formar-se a televisão e fui convidado para integrar a TDM. Estive dois ou três anos na rádio, depois passei para a televisão.” Contam-se um ano na Tribuna de Macau, um período no Correio de Macau e colaborações com outros jornais. Mas o território é significado de televisão, muita televisão.
“Colaborei no lançamento do novo figurino da informação, juntamente com Judite de Sousa, Fernando Maia Cerqueira e José Alberto de Sousa”, conta. “Em 1984, passei a apresentar o resumo da informação na televisão, segmento de notícias emitido, então, diariamente às 18 horas.” Um ano depois, chegava a apresentação do telejornal. Em 1987, começou a dirigir a informação da TDM. Treze anos depois, foi nomeado director de informação e programas portugueses. Desde Junho de 2005 que é assessor da informação para os canais portugueses de rádio e televisão.
Pelo meio, perde-se o número às entrevistas a nomes sonantes da política e da história, umas quantas viagens, programas e documentários sobre questões tão diversas como a presença de Camões em Macau, a história portuguesa no Japão e a vida no final da década de 1980 na Coreia do Norte. Ao trabalho na TDM junta o de correspondente, tanto de televisão como de imprensa, com colaborações para Agência France Press, a revista Sábado, o Hong Kong Standard e o Expresso, entre outros. Foi correspondente da CNN e da portuguesa RTP.
João Guedes tem uma ligação forte à forma de comunicação que a televisão assume, mas gosta também de rádio. “E gosto essencialmente de escrever”, sintetiza. E é aqui que entram os livros e que a capacidade de investigar encontra espaço para fugir aos limites que o jornalismo do quotidiano impõe. Quando chegou a Macau, descobriu que havia muito para descobrir. “As pessoas passavam por aqui um ano ou dois, a história ia-se esquecendo”, conta. “Lembro-me que, quando cheguei, encontrei temas que não fazia ideia sequer que existiam e só as pessoas mais velhas se lembravam de ter ouvido falar.” Depois, havia também os assuntos “tabu”, como o “1,2,3”. “Ninguém falava disso, acabei por escrever sobre o tema. O mesmo se passou com os conflitos de 1922, que já tinham caído no esquecimento.”
João Guedes escreveu sobre temáticas variadas, sempre com os séculos XIX e XX a servirem de enquadramento, e é o autor de um livro sobre uma questão sensível que nenhum escritor de língua portuguesa tinha, até então, abordado: as seitas. “Tive contacto com as seitas de Macau quando estava na Polícia Judiciária em Portugal”, recorda. “Quando cheguei aqui fascinou-me esse mundo. Tinha bons contactos na polícia, fui investigando a história e reparei que não havia nada em português sobre as seitas.” E assim escreveu livro “As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau”, obra que aborda as associações secretas chinesas em Macau desde inícios do século XIX até 1978.
“Não é um trabalho muito profundo, mas foi o primeiro a aparecer em português. A bibliografia em inglês é extensíssima, mas em português só havia alguns artigos de jornal e um ou outro livro muito antigo que fazia referências às seitas”, analisa. O tema é “fascinante”, porque se trata de “um mundo de facetas, de aparências, de coisas que não se conhecem e, por isso, muito interessante de investigar”, sendo que continua a despertar interesse ao investigador que pediu licença ilimitada para ser jornalista em Macau. “Ainda hoje vou guardando coisas sobre as seitas mas não tenciono escrever mais nada sobre o assunto.”
Sobre outras questões João Guedes poderá ainda escrever mas, diz, está numa fase de “pouca produção literária”. No computador vão-se guardando textos mas não existem datas nem metas para cumprir. É o tempo que corre demasiado depressa e deixa poucas horas do dia para a pesquisa, trabalho do qual sente saudades, quer no papel de investigador, quer enquanto jornalista.
Macau tem pano para mangas para quem se interessar por história. E porque não o presente, investigar o que se passa agora? “Não acho que tenha grande interesse, mais a mais porque é difícil discernir as coisas, está tudo a acontecer muito depressa. Ao se escrever sobre o que se passa hoje corre-se o risco de dizer asneiras”, atira. É que Macau é um enigma.
“Não é possível conhecer Macau”, diz. Os 27 anos de residência a Oriente não acabam com a capacidade de ser surpreendido. “O território tem uma população flutuante muito grande, esta sociedade está em permanente mudança, ainda mais agora com os novos casinos e esta americanização, que traz coisas novas, forma movimentos diferentes”, analisa. “O quotidiano altera-se. Macau está hoje radicalmente diferente do que era antes de 1999, em todos os aspectos.”
Por uma questão de nostalgia, João Guedes “gostava mais do Macau antigo”, mas não vira as costas ao momento presente. “Não tenho nada contra este desenvolvimento. Acho que se está a desenvolver o melhor possível dentro dos condicionalismos que tem, porque Macau é uma cidade pequena e tem investimento a mais.”
É este desenvolvimento que faz com que o trabalho do dia-a-dia continue a ser “aliciante”. “Macau está numa nova fase, em que acontecem muitas coisas, é interessante ir acompanhando, continuam a acontecer coisas que não esperava.” Ao final de tantos anos, a cidade continua a surpreendê-lo. “Quanto mais conheço Macau, mais surpresas acontecem”, constata.
O jornalista que divide o seu tempo entre a televisão e os livros (os seus e os dos outros) descobriu que gostava de escrever ainda em adolescente, quando começou a ser redactor da revista do colégio onde estudou. Tinha uns 13 ou 14 anos e era colaborador da revista “Contr’O Vento”, publicação que acolhia artigos de escritores externos. “Alguns, como Frias dos Santos, eram apenas conhecidos a nível regional. Outros, como António Quadros e Aquilino Ribeiro, eram universalmente reconhecidos e dignavam-se inserir artigos nessas páginas.” Agora, “mais de quarenta anos passados, a honra que tal significa mais se me afigura importante”, diz. “Era um miúdo a redigir artigos tolos e eles os grandes escritores que escreviam coisas sérias e importantes”.
A paixão pela literatura vem desses tempos, “em casa toda a gente lia, havia essa mania”, e embora “a escrita a sério” tenha começado só em Macau, os hábitos de leitura vêm de sempre. Não é fácil fazer a lista de favoritos; Dostoievsky acaba por surgir em primeiro lugar. “Foi um dos escritores que me marcou fortemente. São romances densos, com aspectos sociais intensos, e que ainda tinham a ver com a vida do meu tempo.” João Guedes descodifica a comparação: “Portugal, antes do 25 de Abril, ainda não estava muito distanciado da Rússia do século XIX.”
Tolstoi faz parte também das preferências, bem como “alguns brasileiros”. “Vou enchendo a minha casa de livros. Ficar com o que leio só para mim é um bocado redutor.” Às terças-feiras, João Guedes partilha as palavras que lê com os espectadores da TDM. “Conto às pessoas o que leio e do que gosto.” É a literatura sempre presente. E a eterna ligação ao ecrã.

Os livros de João Guedes
As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau, Livros do Oriente, Abril de 1991.
Macau Via da Seda, Missão de Macau em Lisboa, 1992.
O Sortilégio de Macau, com fotografias de António Conceição Júnior (inédito)
Laboratório Constitucional, Livros do Oriente, IPOR, 1995
História do Desporto em Macau, Inédito (Aguarda publicação).Instituto  Desportos de Macau, 1995.
Duas Instituições Macaenses (1871–1878–1998) parceria com José Silveira Machado. APIM, 1998
Dicionário da História de Macau (em fase de publicação),Inst. Estudos Portugueses Universidade de Macau.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Transporte "Pêro de Alenquer": anos 20

Pertenceu à Esquadra de Guerra Portuguesa de 1910:
estes dois postais testemunham a sua passagem por Macau no final da década de 1920
Em 1927 o navio de transporte de guerra "Pêro de Alenquer" é enviado ao Extremo-Oriente. Parte de Lisboa no dia 13 de Abril para uma viagem de 11 meses de apoio à esquadra portuguesa no Oriente. Chega a Macau a 22 de Outubro desse ano. Uma viagem repleta de peripécias que o comandante capitão-de-mar e guerra Álvaro de Freitas Morna - que só assumiu a chefia do navio em Lourenço Marques em 29 Julho 1927 - publicou em 1931 na Imprensa da Armada o relatório dessa viagem no livro "Transporte de guerra «Pêro de Alenquer» : relatório da viagem ao Extremo Oriente, 1927-1928".
A 16 de Junho de 1928 o "Pêro de Alenquer" chegou ao Tejo e terminou  a sua missão. Antes deixou em Macau 3 hidroaviões Fayreys para o Centro de Aviação Naval inaugurado a 10 de Novembro de 1927, deixou militares e recolheu outros para regressarem à metrópole, transportou material de guerra (nomeadamente para os cruzdores portugueses que estavam na região) e presos, visitou Xangai e a comunidade de portugueses que ali existia e voltou a Macau de onde partiu rumo a Lisboa a 3 de Maio de 1928.
Na pág. 77 do seu relatório pode ler-se "Macau, embora muito pequeno, é sem dúvida uma das nossas mais bonitas colónias, um verdeiro mimo, pela situação, pelo aceio e conforto, pela vida e movimento que he dá a sua grande população indígena". (...) "É sem dúvida uma terra que não nos envergonha aos olhos dos estrangeiros. (...)
O Pêro Alenquer (na imagem acima em 1946) foi um navio alemão construído em 1913 e apresado em 1916. Serviu nos Transportes Marítimos do Estado, uma empresa estatal criada para gerir a frota de navios alemães e austríacos apresados na 1ª Guerra Mundial. Foi vendido à Armada Portuguesa em 1925, e novamente à marinha mercante em 1929.
Tinha 104 metros de cumprimento e 4450 toneladas de peso. a propulsão era assegurada por uma máquina de E.T. de 1870 h.p. - 1 veio, atingindo uma velocidade de 11 nós. A guarnição era consituída por 90 homens.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Rodrigo Leal de Carvalho recorda Henrique Senna Fernandes

O último adeus a Henrique de Senna Fernandes aconteceu este fim-de-semana com as exéquias fúnebres que levaram muitos dos residentes de Macau a deslocarem-se à igreja de São Lázaro e à Sé Catedral para uma homenagem sentida ao escritor macaense. Um dos testemunhos que solicitei  para o Blog sobre HSF  a pessoas que o conheceram de perto foi Rodrigo Leal de Carvalho.
Fechada a última página da capítulo vida, é preciso começar desde já delinear e efectivar o perpetuar da sua memória e o honrar do seu legado. É este o grande desafio e responsabilidade que se coloca a todos em Macau, governantes e governados, chineseses, macaenses e portugueses. Estátuas, nomes de rua, seminários, bolsas de investigação e, acima de tudo, uma marca na História de Macau que é preciso ensinar aos jovens.
Por mim, vou fazendo o que posso, casos da publicação de testemunhos que passaram ao lado da imprensa local...
HENRIQUE E EU
A notícia da morte do Henrique de Senna Fernandes apanhou-me de chofre. Abalou-me forte e relembrou-me que também eu estou já na linha da frente para a grande viagem; mas teve o mérito de me trazer à memória dias passados cuja recordação o tempo, esse comparsa cruel e inabalável de todos nós, ia fazendo esquecer.
Quando, há mais de 50 anos, passageiro do ferry Tai Loy, desembarquei pela primeira vez em Macau como jovem delegado do procurador da República, o Henrique, então substituto nomeado e em exercício nesse cargo, estava à minha espera, com outros profissionais do foro, na Ponte-Cais nº 16, ao Porto Interior. E a partir de então desenvolveu-se uma saudável amizade, alimentada pela convivência profissional e, mais ainda, por uma afinidade de interesses que até então raramente tinha encontrado nas minhas deambulações por esse mundo de Cristo e do Império: para além das questões profissionais, o mesmo gosto pela literatura, pelo cinema, pela História e pela vivência de um passado de Macau que eu não vivera mas que falava alto à minha imaginação de romancista (então apenas em potência ), e até pela saborosa culinária local, alimentavam largas horas de amena cavaqueira, no meu gabinete, na mesa do Solmar ou até no seu gabinete, ali à Almeida Ribeiro, mesmo na esquina com uma Travessa de cujo nome já me esqueci.
Foi ele quem me abriu o álbum de recordações macaístas que ainda hoje folheio com saudade. Com a sua generosidade tipicamente macaense, abriu-me as portas da sua casa – vivia então e ainda na casa dos pais, (pessoas encantadoras de quem me tornei amigo por direito próprio), na Rua da Penha da cidade cristã – e me iniciou em inúmeras histórias reais ( ou porventura temperadas pela sua viva imaginação de romancista, já então sobejamente revelada em livros publicados: "A-Chan, A Tncareira", ou a publicar: "Amor e Dedinhos de Pé" e a "A Trança Feiticeira".
Mas ainda mais do que estes romances, objecto depois de tratamento cinematográfico em fitas do mesmo nome, encantaram-me as crónicas regulares que escrevia para o então "Notícias de Macau": críticas de filmes, pequenos estudos sobre escritores que eu também tinha lido, recordações da guerra do Pacífico, ou de um passado macaísta que eu não vivera, mas com tão vívida nitidez que me parecia perceber-lhe a cor, os cheiros, os ruídos e os sabores de Macau, a minha pátria de adopção.
Por tudo isto - e por muito mais que as escassas linhas deste “ad memoriam” me não permitem alargar – estou-te, Henrique, muito grato e saudoso. Para toda a família – e em particular para o Miguel, seu primogénito – a minha amizade e as minhas sinceras condolências.
Rodrigo Leal de Carvalho
RLC é Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, na situação de jubilado. Nascido em 1932 nos Açores, viveu em Macau entre 1959 e 1999 (com pequenos interregnos).
A sua faceta de escritos levou-o a escrever até hoje oito livros onde Macau está sempre presente: Requiem por Irina Ostrakoff (1993) ; Os Construtores do Império (1994) ; A IV Cruzada (1996) ; Ao Serviço de Sua Majestade (1996) ; O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres (1999) ; A Mãe (2000) ; O Romance de Yolanda (2005) ; As Rosas Brancas do Surrey (2007).

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Danilo Barreiros (1910-1994): retrato de corpo inteiro


A primeira vez que referi a figura de Danilo Barreiros aqui no blog recordo-me de ter escrito que a sua vida dava um livro e um filme. Pois bem, o livro já existe. Intitula-se  "Danilo Barreiros: no teatro da vida", foi escrito pelo seu filho Pedro Barreiros e será apresentado dia 11 de Outubro (centenário do seu nascimento) em Lisboa (Instituto Camões). Deixo-vos o prefácio de Paulo Franchetti, crítico literário brasileiro que conheceu Danilo Barreiros já na fase final da sua vida.
Conheci Danilo Barreiros pessoalmente em 1989. Já o conhecia de nome e de texto havia alguns anos. Mas de poucos textos. Basicamente dos seus livros sobre Wenceslau de Moraes e Camilo Pessanha. Aqueles eram outros tempos, sem internet e sem facilidades de reprodução de livros.
A busca e a leitura de um volume podiam até mesmo implicar longas viagens. Os de Danilo só pude encontrar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a quatrocentos quilômetros de casa, para onde me deslocara em 1988, com o fim específico de os ler – fato que muito o impressionou, quando lhe contei.
Ainda me lembra perfeitamente o dia em que o conheci. Estava em Lisboa pela primeira vez e por um
mês, buscando sofregamente textos sobre e de Camilo Pessanha. Uma tarde apanhei um catálogo telefônico e lá busquei o nome de Danilo Barreiros, sem saber sequer se ainda era vivo ou se residia em Portugal. Telefonei e, para minha surpresa, atendeu sua mulher, D. Henriqueta, ex-aluna de Camilo Pessanha e filha do sinólogo José Vicente Jorge, amigo e conselheiro do poeta nos estudos da literatura chinesa.
No dia seguinte, fiz-lhe a primeira visita, a que se seguiram outras, durante as quais ele me contou longamente (e eu anotei, para memória futura) a sua vida aventurosa e, principalmente, o que sabia de Moraes e de Pessanha – que era muito e tinha um sabor especial narrado pela sua voz.
Impressionou-me, desde o início, não só a vivacidade do seu pensamento e da sua memória, mas também sua generosidade e disposição de dividir, com um estranho, o muito que tinha amealhado ao longo de anos de dedicação. Foi, portanto, com igual dose de assombro e gratidão que, depois de duas ou três visitas, saí uma noite de sua casa carregado com grandes sacolas, nas quais se encontravam os seus livros, junto com grandes cadernos de recortes de jornal sobre Moraes e coisas do Oriente. “Use o que quiser e quando precisar”, disse-me ele.
Além do conhecimento e da enorme afetividade de Danilo, capaz de me incluir na família a partir da descoberta de que minha avó portuguesa era uma Barreira de Trás-os-Montes, na casa onde fui encontrá-lo ao longo de duas semanas me atraía a presença sempre elegante e muito discreta de D. Henriqueta, que me concedeu uma preciosa entrevista sobre os anos em que foi aluna de Pessanha. Além disso, o lugar da minha peregrinação daqueles dias reunia muitos objetos de arte chinesa, que faziam daqueles cômodos um pedaço vivo de Macau – do Macau português que já quase não encontrei quando para lá fui dois anos depois.
Foi nessa época que fui apresentado, em casa de Danilo, a Pedro Barreiros, médico e artista, cuja pintura vim depois a conhecer e admirar muito – especialmente as obras compostas a partir de poemas de Camilo Pessanha. E a quem agora, depois de ler esta obra notável, que não é só um testemunho de dedicação e de amor ao pai e à terra natal, admiro também como escritor. Da leitura deste romance biográfico, saí com a impressão de que a vida aventurosa e rica de Danilo encontrou aqui o seu narrador ideal. E posso imaginar o quanto ele ficaria feliz ao se ver assim retratado, com tal fidelidade e afeição, pelo filho que lhe herdou os papéis e os livros e, por meio de ampla pesquisa e sistematização de informações, conseguiu compor à volta da vida do pai um vívido quadro da vida portuguesa no começo do século, aquém e além-mar.
Especial relevo ganha, naturalmente, a segunda parte do livro, a partir do capítulo XIV, quando começa a aventurosa vida oriental de Danilo Barreiros, pois aí se juntam de modo mais harmônico a experiência do biografado e a vivência do biógrafo que, junto com Graça, sua mulher, é dos maiores conhecedores e dos mais dedicados preservadores da cultura macaense em Portugal.
A melhor homenagem que Pedro Barreiros poderia ter feito ao seu pai era este seu retrato de corpo inteiro, movendo-se contra o pano de fundo de uma época tão próxima e diferente da nossa, ainda capaz de se constituir em palco aberto à aventura e ao exercício triunfante da audácia criativa.
Não é trivial juntar com equilíbrio e proveito o gesto afetivo, o olhar para dentro do ambiente familiar, a objetividade histórica e o interesse amplo na cultura geral. Por isso, se lhe é grata a memória do pai por este ato de preservação, também lhe serão gratos os leitores que, por meio deste volume, poderão ter o prazer de travar contato ou conviver de novo, por algumas horas, com essa personagem fascinante que foi – e agora, graças a este livro, continua sendo – Danilo Barreiros.
Excertos de uma entrevista de Pedro Barreiros ao jornal Hoje Macau a 6-5-2009
Danilo Barreiros era maçon?
Não. Além da fotobiografia, irei publicar um romance. Cheguei à conclusão que o que estava a escrever não era uma biografia – o meu pai teve uma vida diferente da vida que as pessoas têm. A formação política, por exemplo, é muito interessante. O meu pai foi estudar engenharia para a Bélgica muito novo e acabou o curso no Brasil, onde a minha avó era actriz de teatro. Ela queria que o meu pai tivesse uma vida cultural fina e comprou-lhe um piano de cauda. Ele vendeu-o e montou um quiosque de charutos. Ela acabou-lhe com o negócio e ele foi trabalhar para o porto do Rio de Janeiro como estivador. Nessa altura, fez um jogo de cabra-cega com os amigos: iriam para o sítio onde a página do altas se abrisse. Saiu-lhe a Cochinchina. Esta viagem foi a grande formação política do meu pai. Conheceu Amâncio de Alpoim, que foi presidente do Partido Socialista em Portugal. O meu pai esteve sempre ligado às ideias socialistas, às anarquistas também. Depois do 25 de Abril, aderiu ao Partido Comunista [português] mas também se zangou. Tinha uma grande preocupação de justiça individual. Foi sempre difícil enquadrar-se dentro de um sistema ou clube político.
Mas exerceu alguma militância em Macau?
Não foi militância, foi deslumbramento. É das coisas que mais me fascina. Chegou aqui com aquele curso e a experiência de ‘bon vivant’ da América do Sul. Começou por trabalhar na Melco e, à noite, dava exibições de danças de salão: tinha um fato de macaco e um smoking. A Melco fez com que rapidamente aprendesse cantonense – descobriu que havia em Macau quatro coisas importantes. O dialecto português de Macau, a porcelana chinesa, Camilo Pessanha e Wenceslau de Morais, a quem dedicou a vida. Em 2010 comemora-se o centenário de Danilo Barreiros. Estou a pensar reeditar os artigos que ele publicou n’O Renascimento e noutros jornais, o livro “As marcas da porcelana Chinesa” e o que ele escreveu sobre Camilo Pessanha e Wenceslau de Morais. Há ainda imensas coisas dispersas. Embora tivesse nascido na Mouraria, o meu pai considerava-se e apresentava-se como macaense. 
Fotografia de Danilo Barreiros que faz parte do quadro de honra dos fundadores da Casa de Macau em Lisboa

A aproximação à cultura macaense aconteceu depois de ter conhecido a sua mãe, Henriqueta?
Já estava interessando antes. Ele vivia numa república onde havia uma grande actividade intelectual. Depois de ter conhecido a minha mãe terá ficado mais ligado à porcelana chinesa e talvez a Camilo Pessanha. Acho que a primeira vez que o meu pai a viu foi quando foi arranjar o contador eléctrico a casa de José Jorge. Ficou fascinado com aquela menina. Era muito bonita.
O seu pai também....
Parecia um actor de cinema sul-americano. O meu pai era muito expansivo. Tinha necessidade de dar - livros, por exemplo. A casa dele em Lisboa era uma casa de cultura. Acabávamos os jantares com a mesa coberta de livros. Era uma casa muito frequentada, também por gente de Macau. Habituei-me a ouvir o patuá das senhoras que iam para lá fazer os chás e jogavam mahjong. São sons de Macau que ouvi em Lisboa.
A candidatura do patuá a património da UNESCO pode servir de pretexto para a reedição da primeira colectânea do dialecto, feita por Danilo Barreiros?
Era importante. Foi feita numa altura em que havia um certo rigor. Era importante fazer-se uma fixação da escrita do patuá. Para além da colectânea, tenho cartas dos anos 50/60 escritas em patuá. O meu pai, desde 1993 até morrer em 1994, colou tudo o que ele entendia que tinha interesse sobre Macau e a China em cadernos de papel almaço. Tenho 33 volumes com recortes. Propus a Carlos Marreiros fazer-se uma selecção de 200 páginas - só para aguçar o interesse os estudiosos. Está ali pano para mangas; há Macau para todos os gostos.
E esta biografia pode dizer o quê a quem desconhece Danilo Barreiros?
A personalidade do meu pai começa com o nome. Leopoldo veio do padrinho, empresário de teatro no Brasil; Danilo porque, quando nasceu, a companhia onde os meus avós trabalhavam estava a apresentar “A Viúva Alegre”; Barreiros é o nome de teatro do meu avô. É esta a chave para a vida de Danilo Barreiros.
É fácil escrever sobre um pai?
É porque não tenho pretensão de ser escritor. O romance sou eu a falar do Danilo. Ele foi sempre o Danilo. O meu pai, embora fosse real – tão real que morreu – era, ao mesmo tempo, um personagem. Tinha auto-crítica mas não tinha muito pudor. As coisas saíam-lhe: cantava ao desafio; não passava a limpo, escrevia sem correcção. O romance vai terminar na viagem de Macau para Portugal. Depois do regresso a Lisboa, na convalescença de uma doença, matriculou-se em Direito e passou o resto da vida como advogado. Lisboa foi sempre para ele um local de exílio. Não sei porque não voltou. Mas manteve uma correspondência intensa com macaenses como Luíz Gonzaga Gomes.
Que notícias ele queria saber?
Se aquela cultura e gente de Macau que ele conheceu tinha possibilidade de continuar ou não. Uma vez escreveu sobre a preocupação de um dia haver um tufão que deitasse abaixo as ruínas de S. Paulo e que com isso fosse tudo o resto.
Livro da autoria de Danilo Barreiros sobre Camilo Pessanha... Apenas um dos vários que dedicou ao poeta e também a Wenceslau de Moraes.
Alguns dos livros da sua autoria:
A Paixão Chinesa de Wencelaus de Morais, Ag. Geral do Ultramar, 1955
O Testamento de Camilo Pessanha, 1961
As Marcas nas Porclena Chinesa, 19?
A carreira militar de Santo António na cidade de Macau, 1938

"Ou Mun Ian Macaenses", documentário

"Ou Mun Ian, Macaenses" é o título do documentário, da autoria de Cheong Kin Man, que o Museu do Oriente apresenta no dia 14 de Outubro, pelas 18H30, entrada livre.
O documentário foi feito como trabalho prévio da tese de licenciatura do autor em Estudos Portugueses pela Universidade de Macau. Mais de dez anos depois da transferência da administração portuguesa de Macau para a República Popular da China, Macau tem vindo a construir uma identidade renovada em termos políticos e socioculturais.
O trabalho de Cheong Kin Man, uma jovem promessa no mundo cultural, que se tem dedicado ao estudo da língua portuguesa e à investigação na área do património e da identidade macaense, pretende explicar quem são as gentes de Macau, quer residentes locais quer os que vivem na diáspora.
O documentário resulta da observação e investigação do autor, feita a partir de 2008, e de uma série de entrevistas, documentos e imagens (mapas, fotografias e vídeos) tendentes a construir a identidade das gentes de Macau e dos filhos da terra, ou seja, os Ou Mun Ian (os primeiros) e os Tou Sang, ou macaenses luso-asiáticos. Daí, o subtítulo do trabalho: “Diferentes interpretações da identidade dos Ou Mun Ian, após a primeira década de Região Administrativa Especial de Macau”.
Um tema tão actual quanto ainda recentemente o jornal South China Morning Post alertava para a ameaça que paira sobre a comunidade macaense, “habitantes originais que estão em risco de se tornarem uma espécie ameaçada”. De facto, os macaenses, mais de 100 mil na década de 60, do século passada, são hoje cerca de um quinto desse número.
Avenida Brasília, Doca de Alcântara (Norte) - Lisboa
Texto e imagem do site do Museu do Oriente www.museudooriente.pt

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Depoimento sobre HSF: parte 2

O falecimento do Dr. Henrique de Senna Fernandes ocorrido na manhã de 4 p.p., obriga-me, por dever de consciência, a manifestar uma modesta e sentida homenagem para com quem me serviu de referência na minha vida.Tive o grato privilégio de o conhecer, de com ele trabalhar e conviver, primeiramente como seu aluno e, mais tarde, já adulto, em termos profissionais.
Fotografia publicada na edição especial do Jornal Tribuna de Macau de 5-10-2010 dedicada a HSF
Na qualidade de aluno do Liceu e numa altura em que a maior parte dos docentes eram considerados "inacessíveis e distantes", o Dr. Henrique era humano, amigo dos seus alunos e sempre muito compreensivo para com os nossos problemas; nas suas aulas de História e Filosofia, havia sempre um espaço para as "histórias" da sua vida académica em Coimbra. Recordo-me como absorvíamos as descrições que ele fazia, sempre com enorme entusiamo, sobre a vida quotidiana dos estudantes universitários, as festas estudantis (Latadas e Queima das Fitas), bailes e namoricos, tudo para nós, motivo de grande curiosidade e novidade. Para além disso, era também o "elo" de ligação alunos-Reitoria em tudo quanto dizia respeito às actividades extra-curriculares: torneios e jogos desportivos, festas de Carnaval, passeios escolares, visitas de estudo, bailes, etc.. Era ele o responsável perante o Reitor. Obviamente que tudo isso marcou a juventude escolar que com ele conviveu.
Mais tarde, já adulto, e sobretudo quando fui substituí-lo na Direcção da Escola Comercial "Pedro Nolasco", passámos a trabalhar mais de perto, uma vez que o Dr. Henrique era então Presidente da APIM (Associação Promotora da Instrução dos Macaenses), entidade responsável pelo funcionamento da Escola. Aí tivémos, durante cerca de 20 anos, um trabalho muito próximo e salutar em prol das necessidades da Escola e alunos e onde pude constatar o homem bom e superior que ele era. Sempre em sintonia com as orientações que lhe apresentava, foi invariavelmente compreensivo e amigo de todos.
Macau perdeu um grande Homem, prestigiado advogado, escritor reconhecido da Literatura Portuguesa e professor de várias gerações de jovens; foi sempre uma referência e defensor da comunidade macaense.
Os meus sentidos pêsames para a família e Paz à sua alma. Coimbra, 5 de Outubro de 2010
João Bosco Basto da Silva
NA: Depoimento solicitado a João B. B. da Silva no dia em que tive conhecimento da morte de HSF.

IIM vai editar livro de HSF sobre o cinema em Macau

A obra representa um “legado importante”, constituído por artigos que o escritor foi publicando na Revista de Cultura, do Instituto Cultural. Os artigos foram compilados e serão apresentados sob uma “forma nova e com uma possibilidade de divulgação maior do que teve no passado”, revelou o Presidente do IIM.
O Instituto Internacional de Macau (IIM) tem um livro quase pronto que versa a feição cinéfila de Henrique de Senna Fernandes, com publicação prevista "até ao fim do ano", revelou ontem Jorge Rangel.
Os textos versam a história do cinema em Macau, dado que Henrique de Senna Fernandes ”era também um estudioso do cinema e um homem que sentia um grande entusiasmo pelo cinema, que conhecia profundamente”, explicou Rangel. “O cinema teve uma importância muito grande em Macau. De acordo com as estatísticas das Nações Unidas, há cerca de 50 anos onde se ia mais ao cinema era em Macau. As salas de cinema estavam sempre cheias, havia um número invulgar de salas de cinema espalhadas pela cidade e ele coleccionava os programas, artigos de jornais e tudo o que havia sobre cinema”, continuou.
A obra poderia já ter sido publicada, mas a delonga será aproveitada pelo IIM para prestar uma homenagem ao escritor aquando do lançamento, em data a anunciar brevemente: “O livro atrasou-se um bocadinho, podia já ter saído e se calhar até foi bom não ter saído. No dia de lançamento do livro esperamos ter aqui muita gente da comunidade macaense para lhe prestarmos uma sentida e justíssima homenagem”, revelou Jorge Rangel.
Fotografia do JTM com HSF numa entevista em 2004
Reprodução de uma notícia da autoria de Paulo Barbosa publicada no Jornal Tribuna de Macau  (JTM) de 5-10-2010; neste dia o jornal dedicou grande parte das suas páginas a HSF.

O Olhar de Henrique de Senna Fernandes: Fragmentos

Em cima o título, e agora o sub-título deste livro editado em 2004. "Contributos para uma Fotobiografia de Henrique Senna Fernandes", da autoria de Lúcia Lemos (fotografias) e de Yao Jingming (poemas); edição do Instituto Internacional de Macau. Os dois autores conviveram ao longo de dois anos com HSF; dessa vivência nasceu este livro.
Existe ainda um outro escrito em inglês. Intitula-se "Visions of China Stories From Macau", foi feito em Hong Kong e apresenta quatro visões da China por outros tantos escritores... HSF é um deles. 
HSF em família: fotografia do livro "Fragmentos"
Voltando a "fragmentos" reproduzo aqui uma parte da entrevista de Lúcia Lemos ao jornal Ponto Final em Dezembro de 2004, aquando do lançamento da obra.
Como surgiu a ideia de fazer a fotobiografia "O Olhar de Henrique de Senna Fernandes - fragmentos"?
Sou por natureza curiosa, e quando cheguei a Macau quis perceber o que me rodeava para mais facilmente me integrar no meio. As leituras de livros existentes no burgo careciam de actualidade e da velocidade necessaria a uma adaptacao imposta pelo confronto do dia-a-dia. Tinha muita pressa de entender o que afinal me escapava. Sentia que apenas me poderia ajudar alguem de dentro, que tivesse contactos com todos os estratos sociais e que me ajudasse a encontrar o fio condutor para minha compreensao. Comecei a registar conversas com o Henrique da Senna Fernandes, Leonel Barros e outros, com um objectivo ainda nao definido. Neste momento de tantas viragens, Henrique da Senna Fernandes, com prestigio intocavel, foi a pessoa que aceitou este meu desafio. Coloquei a proposta a Fundacao Jorge Alvares que prontamente aceitou financiar o projecto na sua totalidade. E uma homenagem pequena e simples para a dimensao cultural que o Dr. Henrique de Senna Fernandes representa como macaense na sociedade local, tendo a carreira profissional, associativa e literaria que todos sabemos.
Pode descrever a forma como estruturou este trabalho e as fases por que passou?
Através do retrato de Henrique da Senna Fernandes e de lugares quis contar uma historia simples sobre ele e os personagens que flutuam nos seus livros, e Macau, a sua musa inspiradora. Fora de Macau ele nunca escreve. O livro inclui um pequenino texto escrito na primeira pessoa, que informa o leitor sobre a planificacao da escrita de Henrique da Senna Fernandes e a cidade, cenario unico dos seus livros.
Foi sempre claro que as imagens nao teriam legendas ou traducao. A ideia era cada um de nos, eu e Yao Jingming, ter um registo proprio e independente. Convidei este poeta que admiro muito. Fez um trabalho admiravel e Henrique da Senna Fernandes gostou imenso dos poemas escritos especialmente para este livro.
De que forma e que este trabalho se distingue dos outros anteriormente realizados?
"Fragmentos" esta focado exclusivamente na pessoa de Henrique da Senna Fernandes. Nao sei se existem muitos outros trabalhos com este angulo de abordagem. O escritor repete muitas vezes que e muito pouco estudado e raramente pela positiva. Em contrapartida, diz que escreve sobre Macau pela positiva e neles e eminente a denuncia da sociedade de entao. Passo a citá-lo: "Denuncio porque também fui vítima desta sociedade fechada e cheia de pruridos. Por ter casado com uma chinesa fui evitado por ambas as culturas e e claro fui-me afastando. E nao admito que digam que sou racista, apenas descrevo o que conheco melhor porque vivi e vivo, que sao as duas culturas maioritarias de Macau".
O que mais a fascina em Henrique da Senna Fernandes? O que passou a fasciná-la depois de fazer este trabalho?
Não sei. Não é uma questão de fascinação, mas de encontro humano. Dizem que em qualquer latitude e lugares, ha pessoas com o mesmo sentir e por razoes varias se cria empatia. Henrique da Senna Fernandes e uma pessoa complexa, com vários mundos ainda não revelados.
Teve alguma preocupação em passar determinada imagem do autor?
Era muito bom para Macau que alguem estudasse a sua obra literária. Gostaria que essa pudesse caminhar ao lado da outra literatura irmã, cujo veículo de comunicação é a língua portuguesa.
Que limites impôs Henrique da Senna Fernandes a este trabalho? Que acompanhamento deu a este livro?
Nenhum limite me foi imposto pelo escritor. Confiou plenamente em mim. Ficou radiante quando lhe comuniquei que tinha convidado o Yao Jingming para poetar as imagens. Ate disse: "Interessa-me muito saber a opiniao de um chines que e de literatura, com a ideia gratificante de ser um poeta muito conceituado e querido pelos portugueses e chineses".
Como é retratada a passagem do escritor por Portugal nesta fotobiografia?
Tal consta neste livro e de uma maneira muito pessoal. Conta a história de como foi para Direito quando desejava ir estudar medicina. São peripécias que acontecem a cada um de nós.
Existe alguma razão na base da escolha das fotografias a preto e branco?
O preto e branco em fotografia e o que me da resposta ao que quero transmitir: espontaneidade, dramatismo e mistério. Para isso, para captar esse momento, não uso flash e gosto cada vez mais das velocidades baixas.
Para além dos poemas, um texto percorre o livro. Por que decidiu inclui-lo, quem o escreveu e por que motivo está escrito na primeira pessoa?
São fragmentos das entrevistas: alguns amputados, outros burilados, enfim nunca se está satisfeito. É uma história muito inocente. Da mesma forma que muita das nossas intenções são inocentes.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O meu "Nam Van: Contos de Macau"

As obras de HSF há muito que fazem parte da minha 'bibiblioteca' sobre Macau. Este exemplar tem várias particularidades. É uma edição de autor, de Outubro de 1978, está autografado por HSF em 1991 (tinha eu 20 anos) e dedicado à minha mãe que mais tarde me ofereceu. Considero a capa particularmente bem 'conseguida'. No livro não existe referência à sua autoria.
 
Estes contos foram escritos entre as décadas de 1950 e 1970 e "quási todos viram a luz da publicidade, no diário 'Notícias de Macau' entre os anos de 1972 e 1975, sendo inéditos 'Candy' e 'A desforra de um china rico'"... as palavras são de HSF na 'Nota de Abertura' a esta obra que inclui o conhecido 'A Chan, a tancareira' (Prémio Fialho de Almeida dos Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950 da Universidade de Coimbra) editado num pequeno livro no Lobito um ano antes da independência de Angola.
Aqui fica a minha homenagem a HSF - falecido no passado dia 4-10-2010 - um homem que com os seus livros me guiou por "Macau di tempo antigo"...

Depoimentos sobre vida e obra de HSF

Reprodução de depoimentos sobre a vida e a obra de HSF em diversos jornais de Macau.
Capa do jornal Hoje Macau 5-10-2010 que dedicou a HSF um suplemento especial. Fotografia de António Falcão
Jorge Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau
“É uma referência importantíssima que a comunidade macaense acaba de perder. Como professor, escritor, homem público, dinamizador cultural, advogado e mestre de gerações de jovens de Macau, será lembrado como uma das personalidades maiores da história da comunidade macaense”.
Leonel Alves, deputado e membro do Conselho Executivo da RAEM
“Com a morte de Henrique de Senna Fernandes não fica uma comunidade mais pobre, uma literatura mais pobre, uma história viva mais pobre. Macau fica mais pobre na medida em que o Dr. Henrique foi um Homem de referência para vários sectores sociais de Macau, dados os valores humanistas e de multiculturalidade que sempre defendeu e divulgou de forma aberta, sincera e convincente. Os valores que, afinal, são os valores de Macau. O seu legado ultrapassa os livros, a advocacia, o ensino ou a intervenção sócio-política. O seu espírito de Homem das letras e cultura, de amor a Macau e às suas gentes continuarão a ser uma importante referência para muitos que com ele tiveram oportunidade de conviver e de aprender, quer nas escolas e nos tribunais, quer nas tertúlias e nas actividades cívicas, ao longo de várias décadas." 
António Conceição Júnior
"Alguém disse que morrer é não mais ser visto. Não subscrevo, mas respeito. Henrique de Senna Fernandes não morreu. Não será visto na forma a que nos habituámos a conhecê-lo. Persistem os seus livros, e a Memória, algo que se situa numa inatingível geografia sem coordenadas palpáveis, e que, para mim, se configura numa obscuridade onde se repetem, em planos paralelos, todas as histórias e estórias de Macau."
Celina Veiga de Oliveira, Investigadora e editora
"Despedi-me de Henrique de Senna Fernandes em 2009, quando estive em Macau, entre Março e Maio, a trabalhar com a equipa do Albergue da Santa Casa da Misericórdia na homenagem a Carlos d’Assumpção. Henrique de Senna Fernandes era como aquelas pessoas de família de quem se sente saudades diárias e por quem se pergunta sempre como estão. Soube que estava hospitalizado e com a saúde muito debilitada. E fui com a Fátima Cid, recém-chegada a Macau, vê-lo e abraçá-lo ao Hospital de S. Januário. O Dr. Henrique, apoiado em duas senhoras do hospital, chegou ao pé de nós feliz, risonho, cheio de vontade de falar e de pôr a conversa em dia. Mas, dadas as circunstâncias, ouviu muito e quase não falou. Contámos-lhe todas as novidades de que nos lembrávamos, falámos de amigos, dos nossos tempos de Macau, de Portugal. Cada uma das suas mãos agarrava uma das nossas, com força e energia, como se quisesse transferir para elas a emoção do reencontro, como se elas pudessem substituir a voz que lhe faltava. Saímos de lá com a inquieta sensação de que, com a previsível partida de Henrique de Senna Fernandes, era um pouco de um certo Macau que partia também, um Macau que já não existe, mas que permanece vivo nas nossas memórias mais felizes, um Macau que nos aparece como o segmento jovem das nossas vidas. Falámos disso enquanto descíamos a colina. Mas felizmente que esse tempo macaense por nós vivido é o prolongamento de um outro que conhecemos através dos romances de Henrique de Senna Fernandes – vivência e conhecimento que cobrem todo o século XX, criando uma imagem de Macau que enriquece aquela que a História nos concede. E se nunca vamos esquecer a bonomia risonha do Dr. Henrique, a extraordinária capacidade de nos espevitar a curiosidade com as histórias espantosas que contava, a simpatia amável e acolhedora com que nos cumprimentava sempre que o encontrávamos, é a sua obra literária que o vai colocar no patamar raro das coisas sublimes e manter o seu nome ao lado de outros vultos da cultura portuguesa de Macau. Nam Van – Contos de Macau, Amor e Dedinhos de Pé e A Trança Feiticeira são saborosas obras de literatura que nos falam de uma cidade excêntrica, quase imaginária e irreal, justaposta e sedutora. Graças a este fabuloso legado, Macau pode sempre ser objecto de recriações, de revisitações culturais e de certezas quanto ao valor que a literatura de inspiração macaense oferece como fonte de (re)conhecimento e de (re)encontros."
Oswaldo Veiga Jardim, maestro
"Apesar de ter sempre vivido num meio pequeno e relativamente fechado, o Dr. Henrique se destacava por ser aberto, alegre e desprovido de preconceitos. Acho que tudo isso provinha do seu jeito simples e da sua natureza sensível. Infelizmente não convivi muito com ele; porém tive o privilegio de compor a banda sonora para um filme baseado no seu romance A Trança Feiticeira. Em geral, as pessoas preferem se proteger guardando para si suas opiniões e suas verdades. Ele, ao contrário, dizia o que pensava, abertamente e sem medos. O filme estreou em 1996, num momento particularmente difícil na minha vida profissional em Macau. Algumas pessoas me evitavam pois eu estava na lista negra e não sabia. O Dr. Henrique todas as vezes que me encontrava publicamente, me abraçava comovido dizendo: “Que rapaz de talento! Como eu gosto da musica que você fez para a minha Trança!” E tornamo-nos amigos, unidos pela música que era também uma das paixões dele.
A última vez que o vi foi em Fevereiro deste ano, no hospital Conde de S. Januário. Eu tinha ido lá visitar uma pessoa amiga e encontrei-o por acaso nos corredores da urgência, também a sair, acompanhado por uma das filhas que mora no Brasil e que o levava numa cadeira de rodas. Tinha passado mal e estivera lá algumas horas em observação. Já não conseguia falar, estava muito magrinho, mas mesmo assim me reconheceu. Notei que apesar da doença que o martirizava, ele mantinha os olhos muito vivos e brilhantes. Esboçou um sorriso como se nada se passara, e pude ver por detrás dos óculos aqueles olhos se emocionarem, como se quisessem falar comigo do mesmo jeito de sempre, com a mesma alegria, com a mesma amizade e com o mesmo carinho. Vai deixar um enorme vazio e muita saudade em todos nós."
Isabel Castro, jornalista
"Com Henrique desaparece a arte de contar histórias de Macau, de fixar a cidade e os seus tempos. Desaparece também aquele encanto e a gentileza que já não se usam, que é raro encontrar. Há dias que não se esquecem e ontem foi um deles."
Capa do suplemento especial do jornal Ponto Final - Ilustração de Victor Marreiros

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Obrigado Henrique!

No próximo dia 15 de Outubro Henrique Rodrigues da Senna Fernandes completaria 87 anos de uma vida recheada. Este advogado e escritor macaense faleceu em Macau - a sua tera natal ondde gostava do "doce perfume das magnólias" - vítima de doença prolongada. Deixa viúva, sete filhos, nove netos e dois bisnetos.
Nasceu em Macau e ali viveu a sua infância até ter de partir com a família para Cantão aquando da invasão japonesa nos anos 30. Depois do regresso a Macau passou por Portugal onde se estreou na escrita e se licenciou em Direito (Colimbra) em 1952. No retorno à terra natal dedica-se à advocacia e ao ensino.
Paralelamente esteve ligado a actividades de carácter social, cívico, cultural, desportiva: Presidente do Rotary Club de Macau, da Assembleia Geral da Associação Promotora de Instrução dos Macaenses, da Associação dos Advogados de Macau, Director das Bibliotecas "Nacional de Macau" e da "Sir Robert Ho Tung", do Centro de Informação e Turismo. Foi ainda membro do Conselho Consultivo do Governador de Macau e alvo de várias condecorações.
Para sempre ficarão os seus livros, alguns adaptados ao cinema, os seus ensinamentos enquanto professor (no Liceu Infante D. Henrique) e na Escola Comercial Pedro Nolasco. De personalidade cativante, nos poucos momentos que pude partilhar com ele realço uma das suas muitas qualidades: era um comunicador nato na escrita e na oralidade. Por mim, como "filho da terra" por ligações de alma, resta-me dizer 'Obrigado, Henrique'!
Foto de Lúcia Lemos publicada no jornal Ponto Final em Junho de 2010

Presidente do IPOR, Rui Rocha
"É uma figura bastante prestigiada da literatura de Macau e é uma grande perda para a cidade" (...) "era atualmente a figura mais importante do panorama literário de Macau em língua portuguesa".
Cônsul de Portugal em Macau, Manuel Carvalho
"É uma perda para Macau e Portugal, não sei porque ordem porque é importante para ambos" (...)"Espero que os portugueses em Macau continuem à altura de pessoas como Presidente da Casa de Portugal em Macau, Amélia António
"É uma perda para a identidade de Macau porque através da sua acção como professor, escritor e advogado contribuiu para manter a identidade de Macau, para manter a sua diferença".