quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Macau por Gabriel Lafond de Lurcy

Tendo por base o post de ontem, aqui ficam alguns excertos sobre Macau incluídos no livro "Quinze ans de voyage autour du monde" (Paris, 1840). Destaque para a descrição do território no primeiro quartel do século 19: baía da Praia Grande, bazar chinês, Porta do Cerco, Gruta de Camões, etc...
Tradução/Adaptação:
A cidade de Macau, em chinês Ou-Moun, fica numa posição agradável e sadia, dezoito milhas a leste de Cantão, a doze da Grande Lemma, e a um pouco menos da Grande Ladrão. É a única possessão europeia no império chinês, possessão a cada dia mais precária e mais contestada pelo governo imperial. Colinas coroadas de pinheiros atrofiados circundam a cidade construída na península e que termina na ilha de Ngao-Men ao sul. Logo que parámos no canal frente a Macau, a mais de duas léguas de terra, o piloto chinês que tínhamos a bordo avisou-nos que deviamos enviar um bote a terra para pedir ao hopu, ou director da alfândega, o piloto que nos conduzirá a Wampoa. (...) 
Chegámos pelas dez horas à Praia Grande, porto metade europeu, metade asiático. As embarcações destinadas aos passageiros eram às centenas na baía e pareciam engolir-nos. A forma ligeira como navegam e a facilidade com que manobram são surpreendentes. Por vezes, eram manobradas por duas ou três jovens mulheres, algumas com traços graciosos. Uma fiada de belas casas, brancas, elegantes, de estilo europeu, alinhava-se ao longo da margem e numa extensão de cerca de uma milha: é o que se chama a Praia Grande. Os belos edifícios da Companhia inglesa destacavam-se entre todos os outros, a maior parte dos quais é habitada por comerciantes ingleses, que para aqui vêm viver quando não se pode fazer o comércio do chá na China, e por alguns ricos negociantes portugueses e de outras nações estrangeiras. (...)
Tinha vindo a terra para renovar as provisões frescas do navio e as levar a bordo, mas a tarefa acabou por ser feita por um 'comprador'. Aproveitei este tempo livre para percorrer Macau. Encaminhei-me para o bairro chinês, também chamado bazar, situado no interior da cidade sobre o braço de mar que chamam ribeira de Macau. Este bairro compõe-se de uma miríade de pequenas ruas estreitas cruzando-se em todos os sentidos, ladeadas por lojas perfeitamente decoradas e guarnecidas de uma variedade infinita de mercadorias. Uma multidão atarefada indicava que esta parte da cidade era o centro de um grande movimento comercial. Os desembarcadouros, instalados aqui e ali nas margens do rio, estavam cheios transeuntes e de uma quantidade incontável de embarcações de passageiros servindo para transportar os habitantes de um lado ao outro ou de os conduzir a bordo dos navios maiores. É aqui que se abrigam os juncos e as embarcações portuguesas, vendo-se nas margens feitorias, lojas, as alfândegas portuguesa e chinesa bem como estaleiros navais. 
Na parte portuguesa da cidade algumas igrejas têm um aspecto miserável. As ruas são, na maioria, muito íngremes e mal construídas, salvo algumas excepções. Todas vão da Praia Grande para a ribeira de Macau. Não tendo muito tempo disponível, acompanhado de um guia chinês apressei-me a afastar-me do centro da cidade para ter uma ideia dos arredores. Segui ao longo de uma muralha e reentrei por uma porta junto ao cemitério chinês, depois de dar uma vista de olhos às fortalezas portuguesas que dominam o mar. (...)
A península em que Macau está tem, no máximo, meia légua de comprimento por um quarto de légua de largura. O istmo que a reúne ou, para dizer melhor, a isola da ilha de Ngao-Men é extremamente estreito e fechado por uma muralha que nem os portugueses nem os estrangeiros podem atravessar. Nesta pequena península montanhosa dominam as colinas não muito elevadas, mas escarpadas e pitorescas. A cidade ocupa uma parte deste espaço; o resto está coberto de casas de campo cuja resplandecente brancura dá um ar risonho aos arredores da cidade. Numa das colinas, do lado do rio, fica a célebre gruta em que o autor de Os Lusíadas compôs o seu poema. Algumas das outras colinas têm fortes portugueses, cuja artilharia é limitada pelos chineses que diminuem à sua vontade o número de peças com que podem estar armadas. Mesmo para fazer reparações é preciso uma autorização.
A população de Macau e do istmo é avaliada assim: 500 europeus de sangue puro; 25 000 a 30 000 chineses; 4000 portugueses, mestiços quase todos, ou o resultado de misturas, com uma infinidade de nuances e graus, da raça europeia com as raças chinesa, indiana, timorense, malaia e africana. (...)
Excertos na língua original (Tomo I - Capítulo VII):
(...) La ville de Macao en chinois Ou Moun est dans ume position agréable et saine à dix huit milles à l'E de Canton, à douze de la Grande Lemma et à un peu moins de la Grande Ladrone; c'est l'unique possession européenne dans tout l'empire chinois, possession de jour en jour plus précaire et plus contestée par le gouvernement imperial.
Des collines couronnées de pins rabougris entourent la ville bâtie sur la péninsule dont je viens de parler et qui termine l'île de Ngao Men vers le sud. Dès que nous eûmes mouillé dans le passage, vis à vis Macao, à plus de deux lieues de terre, le pilote chinois que nous avions à bord nous prévint que nous devions envoyer un canot à terre, pour demander au Hopoo, ou directeur de la douane, le pilote qui devait nous conduire à Wampoa.
Je fus expédié dans le bateau où M Duboisviolet et son secrétaire s'étaient également embarques. Nous arrivâmes vers dix heures à Praya Grande port moitié européen moitié asiatique. Les embarcations destinées aux passagers se trouvaient par centaines dans la baie et semblaient voltiger autour de nous leur légèreté sur les eaux la facilité avec laquelle elles virent de bord sont surprenantes souvent elles étaient conduites par deux ou trois jeunes fdles dont quelques unes avaient des traits gracieux Une rangée de belles maisons blanches élégantes d une construction européenne s alignait sur le rivage sur une étendue de près d'un mille c'est ce que l on nomme la Praya Grande.
Les beaux bâtimens de la Compagnie anglaise se faisaient remarquer parmi ces édifices dont la plupart étaient habités par des négocians de cette nation qui viennent y passer le temps de la clôture de la traite du thé et par quelques riches négocians portugais ou d autres nations étrangères A notre débarquement la douane nous fit payer une piastre ou cinq francs par tête et autant par malle ou colis de marchandises impôt inique humiliant et lourd auquel les Portugais eux mêmes n osent pas se soustraire car je l'ai dit leur domination à Macao est purement nominale leur pavillon n y flotte (...)
(...) je profitai de cet intervalle de liberté pour parcourir Macao en attendant l heure du départ Je m acheminai vers le quartier chinois nommé aussi le Bazar et situé dans l intérieur de la ville sur le bras de mer appelé rivière de Macao. Ce quartier se compose d une multitude de petites rues étroites se coupant dans tous les sens bordées dé boutiques parfaitement ornées et garnies d une variété infinie de marchandises une foule affairée indiquait que cette partie de la ville était le centre d un grand mouvement commercial Les débarcadères pratiqués de distance en distance sur les bords de la rivière étaient encombrés d allans et de venans et d une quantité innombrable de bateaux de passage servant à transporter les habituas d un quartier à l autre ou à les conduire à bord des grandes embarcations du pays. 
C'est dans ce bras intérieur que se tiennent les jonques chinoises et les navires portugais et sur ses bords l on voit les factoreries les magasins les douanes portugaise et chinoise ainsi que les chantiers de construction. Dans le quartier portugais j aperçus quelques églises d une assez chétive apparence la plupart des rues sont fort montueuses et généralement mal bâties hors de rares exceptions toutes se dirigent de la Praya Grande vers la rivière de Macao.
Ayant peu de temps à ma disposition je me hâtai accompagné du Chinois que l on m avait donné pour guide de sortir de la ville pour avoir au moins une légère idée de ses environs Je longeai d abord une partie de son enceinte et rentrai par la porte voisine du cimetière chinois après avoir jeté un coup d œil sur les forts portugais qui dominent la mer A chaque porte je trouvai une garde de soldats noirs ou cipayes de l Inde commandés par des oificiers portugais ou soi disant tels.
La presqu'île sur laquelle Macao est située a tout au plus une demi lieue de longueur sur un quart de lieue de large L isthme qui la réunit ou pour mieux dire l isole de l île de Ngao Men est fort étroit et fermé par une muraille que ni les Portugais ni les étrangers ne peuvent franchir ou qu ils ne franchissent pas impunemente.
Le sol de cette petite presqu'île est montueux composé de collines peu élevées mais escarpées et pittoresques dans leurs proportions exiguës la ville occupe une partie de cet espace le reste est couvert de maisons de campagne dont l'éblouissante blancheur donne une physionomie riante aux environs de la ville. L'une de ces collines dans l'enceinte de la ville du côté de la rivière est couronnée par la célèbre grotte où l auteur de la Lusiade composa son poème et quelques autres le sont par des forts portugais dont l'artillerie est limitée par les Chinois qui diminuent à leur gré le nombre des pièces dont ils peuvent être armés même pour réparer leurs affûts il faut une autorisation expresse.
La population de la ville et de l'isthme de Macao est évaluée ainsi qu il suit cinq cents Européens pur sang vingt cinq à trente mille Chinois et quatre mille Portugais sang mêlé presque tous ou provenant du mélange à une infinité de nuances et de degrés de la race européenne avec les races chinoise indoue timorienne malaisienne et africaine Les humiliations que les Chinois font subir à cette race portugaise dégénérée sont intolérables et elle ne peut sortir de cette abjection car d un mot le gouvernement impérial pourrait affamer toute cette population et la forcer d aller chercher fortune ailleurs Les Chinois ne craignent que les noirs esclaves ou libres qui vivent à Macao et que l on a vu souvent se réunir et faire trembler les mandarins.
Le mouillage de Macao se nomme le port de la Taypa il est formé par plusieurs îles escarpées et situé en face de la ville il ya aussi la baie portugaise et Praya Pequena Au nord de l ile de Ngao Men s ouvre le grand bras du Tigre bordé au nord par la côte chinoise On nomme ce passage qui est le plus fréquenté dans la mousson du N E la passe du dehors. (...)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

"A Praia Grande de Macau em 1840"

Numa edição de 1899 do "Ta Ssi Yang Kuo Archivos E Annaes Do Extremo Oriente Portuguez" J. F. Marques Pereira publica uma gravura que representa a vista da Praia Grande de Macau em 1840. Segundo o próprio, "É uma reproducção reduzida, mas exactíssima, duma lithographia sem assignatura ou indicação do auctor, que o livreiro francez Dufossé (a quem a encommendei) diz, no seu catalogo, ser de St. Aulaire e Freeman, com a seguinte rubrica subordinada ao n.° 18:908 (pag. 886): «Macao. Vue genérale de la Ville prise de l'autre còté du port par St. Aulaire e Freeman 1X40, in-fol. oblong.» Essa lvthographia em tres tons (amarello, negro e branco) tem no original as dimensões 363x260 mil."
Para ajudar os leitores na identificação do que está representado J. F. Marques Pereira faz uma legenda:
"Os números que colloquei superiormente representam: 1 Fortaleza do Horn Parto; 2 Egreja de S, Lourenço (?); 3 Egreja de Santo Agostinho (?); 4 Fortaleza do Monte; 5 Forte de S. Jeronymo; 6 Fortaleza e ermida da Guia; 7 Fortim de S. Pedro 8 barco mandarim; 9 Fortaleza de S. Francisco".
O que se mostra é uma ilustração de Macau - a Baía da Praia Grande vista a partir da Fortaleza do Bom Parto - não de 1840 mas dos primeiros anos do século 19. Na verdade a litografia reproduzida foi publicada pela Société des publications cosmopolities ca. 1840 (imagem abaixo). Na mesma está escrito que se trata de uma litografia de "St. Aulaire e Freeman". Trata-se muito provavelmente de Félix-Achille Saint-Aulaire (1801-1889). Sobre Freeman pouco consegui saber.
Esta litografia datada de ca. 1840 surgiu primeiro na obra: "Quinze ans de voyage autour du monde", da autoria de de Gabriel-Pierre Lafond de Lurcy (1802-1876). Este marinheiro francês visitou Macau pela primeira vez em 1819 e depois em 1820, 1823, 1830 e 1832. Esta obra foi publicada em dois volumes mas apenas com texto. As ilustrações só seriam publicadas num álbum apenas com litografias em 1840 (imagem abaixo). O sucesso das vendas foi tal que uma outra edição mais pormenorizada e intitulada Voyages autour du monde et naufrages célèbres foi publicada em 8 volumes entre 1843 e 1844.
As traduções para diversas línguas também incluíram as litografias. Na tradução para italiano "Viaggio in Cina Pell'Atlantico il Mare delle Indie le Isole della Sonda e Le Filippine'" publicada em 1842, por exemplo. (imagem abaixo)
Na época também já tinham sido publicados vários livros com relatos de viagens ao Oriente com passagem por Macau. Algumas obras incluíram ilustrações da baía da Praia Grande muito semelhantes a esta. Veja-se - imagem abaixo - por exemplo o livro "Narrative of a Voyage Round The World, during the years 1835, 36, and 37" publicado em Londres e EUA em 1838. Da autoria de William Samuel Waithman Rushenberger relata a viagem de Edmund Roberts (1784-1836).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Postais da década 1960 do Casino flutuante

Estes postais ilustrados do Casino de Macau (flutuante) - o primeiro da STDM - publicados no início da década 1960, são a mais recente aquisição para a minha colecção que engloba mais de 5 mil objectos: postais, notas, moedas, selos, envelopes, carteiras de fósforos, calendários, lai si's, folhetos turísticos, mapas, etc


domingo, 14 de dezembro de 2025

Foto-legenda: Escola Comercial Pedro Nolasco da Silva na Praia Grande

 
Fotomontagem: imagem base 1968/69; 
imagem menor tb a preto e branco inauguração a 28.5.1966; 
a imagem a cores é de 2016.

sábado, 13 de dezembro de 2025

100º aniversário do Colégio Yuet Wah - 粵華中學 - Yuet Wah College

O Colégio Yuet Wah College (粵華中學) foi fundado em Cantão em 1925 por duas senhoras cristãs - Liu Fong Kei e Tam Kai Man - sendo transferido para Macau três anos depois.
No livro "A Educação em Macau" (DSEC, 1981) o padreManuel Teixeira escreve:
"A 12 de Setembro de 1927, foi registado no Serviço Provincial da Educação de Cantão, que lhe deu a sua aprovação. Nesse ano deram-se distúrbios políticos nessa cidade e Miss Liu transferiu a sua escola para Macau em 1928, para um prédio da Estrada da Vitória. Miss Liu tratou de construir ali um novo edifício para a educação da juventude de ambos os sexos. O Governo Português cedeu gratuitamente o terreno e ela promoveu uma subscrição na China e no Estrangeiro, sobretudo Estados Unidos, conseguindo inaugurar o novo edifício em 1935. (...)"
Uma emissão filatélica alusiva ao 100º aniversário - design de Tiago Lei - foi disponibilizada no início deste mês pelos Correios de Macau:
"O conjunto de quatro selos desta emissão apresenta a imagem de São João Bosco ao lado do lema do colégio (do latim In Virtute Scientia); o antigo portão da escola; as instalações escolares Edifício Versiglia e Complexo Jubileu; e o Edifício Dom Bosco." 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Fonte de Nilao: 1843

Anúncio publicado no jornal "Aurora Macaense" em Dezembro de 1843:
AVIZO.
O ABAIXO assignado faz saber ao publico que ha para alugar humas cazas, sitas ao pé de fonte de Nilão, onde servira em outra ora d'Hospital Britannico; quem a quizer poderá derigir-se ao Encarregado
JOZE SIMAO DOS REMEDIOS.
Macao, 16 de Dezembro de 1843.
O "Hospital Britanico" que se refere era muito provavelmente este. A "fonte de Niláo" é o nome primitivo do que hoje se conhece por Fonte do Lilau. 
A zona referida no "Avizo" numa pintura de Chinnery feita entre 1825 e 1852

A zona é actulamente conhecida por colina da Penha, termo posterior a 1622, data da construção do forte e da ermida, mas antes era denominado "Nilao".
Um documento revelado por A. da Silva Rego indica: 
"Na cidade de Nome de Deos de Macao temos huma ermida consagrada a Nossa Senhora da Penha de França em hum dos montes da cidade, chamado Nilao, edificada pelo Pe. Fr. Estevão de Vera Cruz, prior do convento da mesma cidade em o anno de 1623, em cuja fábrica muito trabalhou gastando do convento (alem das esmolas) trezentos, e tantos taéis de prata."
O comerciante (e historiador) sueco Ljungstedt também revelou um documento de 1795 que indica o termo "Nilao":
"Diz Felipe Correa de Liger Cazado, e m.or nesta Cid.e, que como este N. Sen.º tem entre outras hua terra baldia cita a Orta de D. Anna Correa, e Bica de Nilao, que inda conserva prezentm.te hum posso, que fora feito p.’° Avô do Sup.e, pertende o Sup.e cento e vinte braças de Norte ao Sul, e outras tantas de Leste a Oeste". 
Na "Planta Topographica da cidade de Macau" de 1831-38 (capitão Cândido Osório) refere-se na legenda nº 25 a "Bica de Liláo ou Nináo".
Na toponímia actual restam ainda com o nome "Lilau" uma rua, um largo e um beco.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Carta registada de 1904

Carta registada em Macau a 11 de Outubro de 1904. A franquia no total de 36 avos, foi feita por um selo de 18 reis sobre 80 reis D. Luis e outro selo de 18 reis sobre 200 reis, D. Luis. Seguiu pelos vapores alemães (German Mail) para Bombaim, tendo feito trânsito em Hong Kong a 11 Outubro - no mesmo dia em que saiu de Macau - e chegado à Índia a 27 de Outubro de 1904. Tem ainda a indicação do que parece ser o navio que transportou a carta de Macau para Hong Kong.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Identificar "uma residência" num selo

É rara a semana em que não recebo um pedido de leitores do blogue Macau Antigo. Um dos pedidos mais recentes chegou da Polónia. 
Andrzej P. escreveu: "Prezado Senhor, tenho lido com muito interesse o seu blog “Macau Antigo”. Sou um grande admirador de Camões e da obra Os Lusíadas e, como não poderia deixar de ser, já tive a oportunidade de visitar Macau, facto que menciono em um dos meus livros. Venho por este meio colocar uma questão acerca dos selos de 1948 e 1950 que exibem a imagem intitulada “Uma residência”. Gostaria de saber se se trata da “Casa Grande” ou de outro edifício."
Anexa uma foto de um dos selos da emissão "Motivos Locais" de 1948
Quando recebi o e-mail estava sem acesso à minha biblioteca e outras fontes pelo que respondi apenas que o edifício não estava relacionado com Camões nem com a "Casa Grande", indicando mesmo que desconhecia o termo - talvez uma confusão com Casa Garden - e prometi dar mais detalhes em breve. Aqui está a resposta...
Apenas com a legenda "Uma Residência" esta imagem representa um edifício construído na década 1920/30 na Estrada da Vitória. A escadaria dava acesso ao Jardim de Vitória e ao monumento com o mesmo nome que comemora o feito histórico da vitória dos portugueses que repeliram a invasão holandesa em 1622.
O edifício foi demolido na década de 1960. 
O mesmo selo num postal ilustrado com a mesma ilustração - Postal Máximo

Sequência de fotografias que ajudam a identificar o selo com a legenda "uma residência"

Actualmente naquele espaço fica o colégio Chan Sui Ki.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Poço público no Largo do Senado

Até meados do século 20 as fontes e os poços (públicos e privados) foram cruciais para garantir o abastecimento de água potável. Num relatório de 1905 informa-se que na freguesia de Santo António havia 59 poços públicos e particulares, na da Sé 50 poços públicos e 407 particulares e em S. Lourenço 19 poços públicos e 121 particulares.
" (...) a água para consumo é fornecida na sua maior parte por pôços, espalhados um pouco por toda a cidade e dentro das habitações, e que, segundo um estudo recentemente feito, deveriam ser quasi todos atulhados por inconvenientes para a saude publica."
Álvaro de Melo Machado in Coisas de Macau, 1913
Nas imagens o poço público localizado no Largo do Senado que existiu até ao primeiro quartel do século 20 sendo substituído por um fontanário.
“Não há em Macau nenhum curso d´agua. Todas as aguas do consumo provem dos poços, mais ou menos profundos, que existem em grande profusão e em toda a parte. As fontes da Inveja, da Flora e Solidão, provenientes da infiltracção das chuvas na colina da Guia, e a Bica de Lilau, situada na base da Penha, fornecem agua potavel a um numero limitado de habitantes. Na estiagem o povo serve-se da agua da Lapa trazida em barcaças.”
J. Antonio Filipe de Moraes Palha in Macau e a Saúde Pública: elementos historicotopograficos, climaticos, demograficos e nosograficos, 1917

Curiosidade: 
Existiam também inúmeros poços privados. Para facilitar a tarefa dos bombeiros em caso de incêndio na entrada dos edifícios privados que tinham poço, ao lado do número de polícia, tinha de ser colocado também o símbolo - P. 井- (poço em português e em chinês). Ainda hoje podem ser vistos...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

"The most idyllic and peaceful place in the Far East"

Hermann Graf Keyserling (1880-1946) foi um escritor e filósofo alemão. Cursou as Universidades de Genebra, Tartu, Heidelberga e Viena. Viajou pelo mundo em 1911 e dessa viagem resultou um de seus livros mais conhecidos Das Reisetagebuch eines Philosophen" / "Diário de Viagem de um Filósofo", publicado em 1919.
A edição em inglês surgiu em 1925 sob o título "The Travel Diary of a Philosopher". Macau surge no Vol. 2 - "To the Far East - China - Japan - To the New World - America", pág. 42 a 51. 

Excertos:
"Macau
I have escaped from the busy turmoil of Canton into the most idyllic and peaceful place which exists in the Far East. I have reached the delightfully situated Macau where Camoëns completed his Lusiadas. To what a remarkable extent the atmosphere of China has taken possession of me. As a matter of course the reaction against city life expresses itself in my soul by quietistic thoughts à la Laotse and Djuang Tse for there can be no doubt that the extreme form of the quietism of these men must be understood as a reaction against the extremes of sociability and bustle which characterised China even in their day.
When I re read their writings here then I feel as if I were listening to the echo of my own self. The same moods in Indian or European colouring would strike me as heterogeneous nay even as tactless. What is it which gives its special character to Chinese mysticism? Certainly not its meanings, its substance in this direction it agrees with the wisdom of all peoples of all time. It is partially its method of expression. I will not expand further on this subject as it is a direct function of the Chinese system of writing. In just the same way Taoistic philosophy does not express definite thoughts so much as their ultimate significance. And since this significance alone partakes of immortality whereas all conceptual embodiments must pass away sooner or later this fact brings about an absolute superiority of the Chinese expressions of supreme truth they alone will continue to live as they stand that which can be said of other literatures only in the case of some rare sentences applies in principle to all the expressions of Chinese wisdom.
But I am not concerned to day with these objective things I am too tired after Canton too needful of rest. And then Macau is much too beautiful for me to enjoy the examination of abstract (...)
"Praya Grande, Macao" Postal ca. 1910 M. Sternberg

I like the Chinese here ever so much more than I did those of Canton. The tradesmen of course cheat me with equal success here as there but that is not the point in the Chinese quarter of Macau; the same atmosphere predominates which is so homely and attractive in the style of Kung Fu Tse it is the atmosphere of a cheerful bourgeois existence possessing an extreme sense of form. (...)
At night time I occasionally visit one of the famous gambling hells and amuse myself with the fan-tan. There can hardly be anything more calm and peaceful than such a hell Gamblers almost always look earnest and professional, but I have never observed anywhere such cheerful equanimity as in Macau. The game in itself is infinitely dull; the player at best can only win very little; the bank must in all circumstances win a great deal. The Chinaman however goes home calmly and placidly after he has played away his daily wage. He rocks himself at most if he has lost too much in sweet opium dreams to comfort himself. (...)

domingo, 7 de dezembro de 2025

8 de Dezembro: Origens de um feriado

8 de Dezembro é feriado em Portugal e também é - ainda - em Macau. A data refere-se à Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal e também de Macau. Actualmente a festa religiosa ainda se realiza sendo considerada como Património Cultural Intangível de Macau, um reconhecimento do significado histórico e religioso.

Em cima detalhe da estátua de Nossa Senhora da Assunção na fachada das ruínas de S. Paulo. Nossa Senhora de Assunção e Imaculada Conceição são dois dogmas marianos distintos da Igreja Católica, já que se referem a momentos diferentes da vida de Maria, Mãe de Jesus: a Imaculada Conceição refere-se ao nascimento, enquanto a Assunção se refere ao final da vida terrena.

A festa da Imaculada Conceição tem origens pagãs e foi definida como uma festa universal a 28 de Fevereiro de 1476 pelo Papa Sisto IV. Em 25 de Março de 1646 o rei D. João IV proclamou, em Vila Viçosa, Nossa Senhora da Conceição, como padroeira e rainha de Portugal, em agradecimento da restauração da independência de Portugal em relação a Espanha.
"D. João, por Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, etc… Faço saber aos que esta minha Provisão virem, que, sendo ora restituído, por mercê muito particular de Deus Nosso Senhor, à Coroa destes meus Reinos e Senhorios de Portugal; considerando que o Senhor Rei D. Afonso Henriques, meu Progenitor,… tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus, Nossa Senhora, e debaixo dê sua sagrada protecção e amparo lhe ofereceu todos os seus sucessores, Reinos e Vassalos… Estando (eu) ora junto em Cortes com os três Estados do Reino… Com parecer de todos, assentamos de tornar por Padroeira de nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição".
Após a chegada do despacho real a Macau, Nossa Senhora da Conceição seria proclamada padroeira (são 4 os padroeiros) de Macau. Foi também a partir desta data que a igreja e o colégio jesuita passaram a ter por ordem real a designação oficial "Colégio e Igreja da Imaculada Conceição". Até 1835 era ali celebrada a data e depois passou para a Sé.
O título de dogma católico foi atribuído a dia 8 de Dezembro de 1854. Invoca a vida e a virtude de Virgem Maria, mãe de Jesus, concebida sem mácula.
Echo Macaense 11.12.1898

Eis as origens da celebração desta data religiosa em Macau que em tempos idos era marcada por uma missa pontifical realizada na Sé a que se seguia uma procissão "com a veneranda imagem de Nossa Senhora da Conceição acompanhada de cânticos entoados à Virgem pelas congregações, escolas e colégios que se incorporaram nessa romagem de fé", de acordo com uma notícia de 1953.
Admite-se que a primeira confraria dedicada à Imaculada Conceição em Macau remonta a 1580 com a chegada dos franciscanos. Pouco depois seria construída a Igreja Mater Dei (anexa ao colégio de S. Paulo). Desse templo resta apenas a frontaria (hoje conhecida como das Ruínas de São Paulo) onde está a imagem da Senhora da Conceição. Marcas da devoção à Imaculada Conceição em Macau podem ainda ser encontradas no Colégio Salesiano, Igreja de São José, Igreja de São Lourenço, Colégio Yuet Wah, Colégio Ricci, etc..

sábado, 6 de dezembro de 2025

Carta registada de 1988

Carta registada expedida de Macau a partir do Estação Central no Largo do Senado "por avião" a 13.1.1988 tendo destino Lisboa. Franquia total de 11,70 patacas, com dois selos de 5 Patacas da Assembleia Legislativa, mais 1 selo de 30 avos, dois de 50 avos e outro de 40 avos. O envelope timbrado é da Imprensa Oficial.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Testemunhos do "1,2,3" de 1966

"12" refere-se ao mês de Dezembro em que ocorreram os incidentes, "3" é o dia dos mesmos. Seguem-se excertos de entrevistas realizadas com macaenses radicados no Brasil, que viveram os acontecimentos. Estas entrevistas fazem parte da tese de mestrado em Antropologia Social "Macaenses em trânsito" de Maíra Simões Claudino dos Santos. Para além dos testemunhos, o texto é da autora da tese.
Testemunho de João Francisco, macaense que ao tempo dos eventos, era ainda jovem. Nasceu em 1950 e rumou ao Brasil em 1967.
"Nessa época, isso foi em 1966, foi quando apareceram guardas... Eu lembro... Que aconteceu um incidente lá em Taipa, península de Macau. Nas ilhas, de Taipa e ilha de Coloane, nós tínhamos um administrador das ilhas. Ele morava em Taipa, mas administrava essas duas ilhas. Então, tinha uma escola lá em Taipa que me parece que os papéis não estavam em ordem e os chineses vinham com muita pressa para tocar a obra pra frente. Bom, o motivo para o atraso eram problemas burocráticos. Isso fez com que desse o início entre o conflito da população chinesa e a administração portuguesa. Houve umas demonstrações, houve pancadarias, teve que colocar polícia em postos especiais da rua... Aí, então com influência da Revolução Cultural da China, com a influência dos guardas vermelhos, aquilo começou a propagar-se cada vez mais, e nesse novo período, nesse período, Macau estava na transição do governador anterior indo embora e o governador novo chegando, e, esse governador novo que estava chegando estava totalmente alheio ao que estava se passando, aí começou as demonstrações propagar-se cada vez mas até que um dia eles invadiram o palácio do governo, exigindo mais, e com isso deu-se um problema muito grave em Macau, greves e problemas de... Como que chama... Como que se traduz?.. Bom, isso foi também manifestações entre policiais, depois de problemas de doenças graves em mulheres, filhos... Esse período foi um período muito conturbado em Macau, e o engraçado é que eu estava no cinema assistindo um filme e o filme foi interrompido por causa do problema que estava acontecendo no palácio, porque estávamos escutando um barulho, e era muito próximo onde fica o palácio do governo. Escutávamos aqueles barulhos, o estouro das granadas daquele lugar. Saí de lá, fui pra casa e de casa acompanhei no radio as informações, aí, teve que entrar a lei marcial que não permitia as pessoas saírem, ou melhor, só num horário, as pessoas saíam pra fazer suas compras. Enfim, era só isso. Foi um período, muito, muito chato, porque os chineses aproveitaram muito bem desse período, e nós portugueses que nos sentíamos superiores aos chineses, passamos a ter que respeitá-los mais."

Para Luis Pedruco o evento do “1, 2, 3” foi uma das causas principais de sua partida para o Brasil:
Foto que foi capa do livro de José Pedro Castanheira "Os 58 Dias Que Abalaram Macau"

"Na época, eu fui fazer o serviço militar e houve uma revolução, uma revolta. Tinha vinte anos. No dia da revolução, eu estava no cinema, uma matinê às duas e meia, quando chegou mais ou menos às três e meia da tarde, um cinema famoso, no centro da cidade, chamado Cinema Apolo, estava vendo um filme e às tantas começaram a abrir portas e correr gente, eu pensei: um incêndio. Fiquei sentado aguardando o movimento todo, o corre-corre, e depois de um certo ponto saí do cinema. Quando saí vi só cabeças na cidade. Tinha uma estátua na frente do cinema, do famoso Coronel Mesquita – esse indivíduo era considerado para os portugueses um herói, porque tinha tomado o Passaleão, que era uma cidadezinha logo na fronteira de Macau, idos tempos. Para os portugueses ele era um herói, para os chineses um invasor. Tem que ver os dois lados da medalha, herói para você invasor para eles. O resultado é o seguinte, aí começaram, aquela história, e ouvi ordens, alguém grita assim: matem os portugueses! Foi um corre-corre danado. Foi engraçado porque a bilhetera do cinema era conhecida, lá todos se conhecem, a mulher dizia assim para mim: deita aqui em baixo porque se não você vai ser linchado. Era chinesa. Eu deitei nos pés dela, fiquei uns minutos lá, meio revoltado: eu deitar aqui, que história é esta? Passado algum tempo, começaram os tiros. Aquela famosa avenida do centro de Macau que é chamada Av. Almeida Ribeiro, quando eu busquei sair eu vi um mar de sapatos e chinelos, todos deram no pé. Chinelos e sapatos no cinema, que coisa louca! Passou um jipe militar, pedi para parar o jipe e fui para o quartel. Eu já tinha passado do recrutamento, já estava em casa, prestava serviço e voltava para casa. No quartel, fui recebido aos gritos pelo comandante: seu imbecil, coisas desse gênero, onde estava você? Eu contei, e estava todo mundo nervoso. Já tinham fechado o quartel, tinham armado trincheiras, metralhadoras, um cena assim, do nada. Eu, às três, estava no cinema e às seis tinha ordem de recolher. Fui um dos primeiros, o primeiro pelotão que saiu do quartel e fomos para o centro da cidade. Eu estava dentro do cinema e três ou quatro horas depois estava fardado, capacete camuflado, com a tropa, para manter a ordem (Doré, 2001: 66).
(...) Passado uns dias a China pôs na fronteira em Macau uma divisão. Uma divisão são 10 mil homens. Aquilo foi apenas um aviso, eles não iam fazer nada. Você sabe que deste lado tem 400, 500 pessoas armadas, você bota 10 mil na fronteira, não fazendo nada, tocando viola, como eles ficaram lá, olhando para Macau, que tinha uns canhões apontados, aquilo era para dizer:quer guerra? Quer força? Foi um momento muito difícil, muita gente foi embora para Portugal. Eu achei uma humilhação enorme, porque os chineses depois de algum tempo obrigaram que o governo português, que seria o dono da terra, oficialmente, na época, pedisse desculpa escrita, falada e televisionada, à população chinesa. Foi recusado pela primeira vez e segunda vez, e aí fizeram força e como a força já estava posta, não teve outro jeito senão aceitar o pedido de desculpas. E o interessante no pedido de desculpas é que o chinês, o oriental, é muito simbólico, não é só um pedido de desculpas e está acabado. Eles fizeram no meio da rua, em frenta à Associação Chinesa, uma mesa comprida, e já como a largura da mesa “x”, de um lado ficavam as autoridades chinesas e do outro lado o governador de Macau, que na época era o General Nobre de Carvalho. Isso depois de muita confusão, conversas em Lisboa, muitas ameaças. Quando chegou o dia em que teve de aceitar esse pedido de desculpas, fizeram uma mesa e no momento em que o governador assinasse, pegasse o livro, e entregasse o documento para a autoridade chinesa, ele teria que se curvar e estender a mão. Enquanto o lado chinês não se curvava, ficava em pé e só estendia a mão. E fizeram uma fotografia nesse momento. Para eles isso daí representava: estão vendo, o fulano se curvando, baixando a cabeça, perante...atrás, uma foto do Mao Tse Tung. Isso tudo tem uma simbologia. É evidente que depois dessa cena toda...quer dizer, a razão pela qual vim para o Brasil, uma das causas foi essa. Alguma coisa me dizia que aquilo ali não dava mais também. Primeiro porque Macau era pequena, depois por esta história, não estava me sentindo bem. Porque o governo português, logo em seguida, declarou mesmo nós entregamos Macau a vocês, se quiserem tome...Quando eu ví esse posicionamento do governo, eu falei daqui a pouco vamos ficar sem pai nem mãe aqui e como é que fica? Esse também foi um momento em que falei para mim mesmo: não, aqui, não fico, vou-me embora, porque o caminho não é este. Já tinha terminado o serviço militar e estava trabalhando no serviço do governo, no Ministério da fazenda de Macau, como escrivão de execuções fiscais. Casei-me e vim para cá. (Doré, 2001: 66-67).
Antonio Bruno Machado de Mendonça nasceu em Macau, em 1948.
Foi em 1966, eu só sabia de uma coisa: não podia ir para a rua. Era lei marcial. Ficávamos dentro de casa. Só depois ouvi falar que o problema era uma escola que havia na Taipa, que não deixaram construir. Todos nós comíamos em casa. No comércio era só vendido para os próprios chineses. Não se vendia nada para nós. Nós éramos considerados como europeus. Claro que não se vendia nada para os portugueses também. Havia problemática que houve. Fazer o quê? Através de um amigo chinês a gente fazia as compras. Ele trazia. (Doré,2001:66)

Roberto, nasceu também entre os meados da década de 40 e 50.
Desde de pequeno já ouvi dizer que esse dia chegaria. Ouvi de alguns chineses adultos, que talvez tivessem alguma mágoa com os não-chineses ou que fossem comunistas radicais? Não liguei muito e achei que fosse uma “besteira”. Mas tornou-se mais real com a revolução dos “guardas vermelhos” que atingiu também Macau nos anos 60. As bandeiras vermelhas da China estavam hasteadas em todas as partes, os “ativistas” vestiam-se de um conjunto de roupa azul (índigo), medalhões com o retrato de Mao Tse Tung, pregadas no peito, e alguns até com bonés do tipo “operário chinês” gritando slogans anti-ocidentais, anti-capitalistas, etc. Os “guardas” proibiam os macaenses, portugueses e qualquer ocidental, de utilizarem qualquer transporte público, as feiras estavam proibidas de venderem comidas para a gente, assim como os restaurantes, cinemas etc., porque a maioria destes estabelecimentos eram de propriedades de chineses. Os meus amigos chineses “viraram a cara” para mim. Mas só depois entendi os seus comportamentos, após a explicação que um deles me deu. Eles tinham que “obedecer” as ordens dos “guardas” por serem chineses e temiam represálias caso não o fizessem, e especialmente se a gente (macaenses e ocidentais) não abandonasse Macau, como o boato teria sido espalhado. Pensei: “Chegou a hora, eles tinham razão quando me disseram que Macau voltaria para a China um dia”. Não voltou daquela vez, mas agora em 1999 voltou.
(Entrevista realizada individualmente em sua casa)

O juiz Rodrigo Leal de Carvalho, o único a exercer funções em Macau, recorda assim os incidentes.
"Tentaram parar-me o carro e forçar-me as portas. A minha volta só via expressões de ódio. Fui andando devagar em primeira, para não atropelar ninguém, mas sem deixar que imobilizassem o carro. Lá acabei por conseguir passar, no meio de uma chuva de pedras." (Pinto,1998).
Relato de João Francisco Lopes Machado, nascido em 1950
"Estava com 16 anos, teve o “1, 2, 3” em que o China estava prestes a invadir Macau, tanto que na companhia da minha mãe, fomos até Hong-Kong e minha mãe levou as jóias dela, pra guardar lá em Hong Kong e eu fui com ela de navio pra guardar as jóias dela. Aí já prontos pra deixar Macau de vez, por causa da invasão chinesa. Naquela época, criou-se a idéia... isso que motivou a imigração da grande população de Macau pra Hong Kong. Isto aí, que fez todo mundo enxergar que Macau realmente não tinha mais futuro, porque seria tomado pela China de um modo ou de outro, não tinha mais aquela segurança de continuar sendo uma colônia portuguesa, então as pessoas começaram a ir embora. E meu pai falou assim: Macau não tem futuro mesmo, a China vai tomar tudo de bom e nós vamos perder tudo, porque naquela época a China não era a China capitalista de hoje, era uma China que realmente iria acabar destruindo  toda a nossa cultura e a gente iria virar refugiado, com certeza. (...) Acredito que Macau... já não se poderia viver, pois depois que passou aqueles acontecimentos em Macau, a gente sentiu que no fundo, no fundo...também como fui embora logo no ano seguinte... mas a mentalidade era realmente que a gente já não dominava Macau como antigamente. Antigamente, antes da Revolução, realmente era mais colonialista, vamos dizer...era mais o estilo português de governar, sem ter que se preocupar com os chineses, depois dos acontecimentos... pode ser que passamos a enxergar os chineses de um modo um  pouco diferente."
Henrique de Senna Fernandes, macaense que nasceu entre os finais da decada de 20 e o início da década de 30...
Anos antes da Revolução Cultural, a arrogância dos funcionários era uma coisa horrível e visível! Aqui é Portugal. Eram todos militares. Vivíamos na ditadura do tempo do Salazar. Colônia era só exploração. E Lisboa não servia as colônias. Sou português, sinto-me português também, mas acho que não poderia viver em Portugal. Eles traziam uma mentalidade e não se modificavam. Os chineses nunca foram colonizados, tinham seus costumes, não eram meia dúzia de portugueses que iriam modificar. O “1, 2, 3” foi como uma onda que cresceu – coisa do Mao, que deviam ser nossas autoridades. Indivíduos que... Havia os chineses corruptos, houve abusos. Os chineses não eram muito cumpridores de leis. Os portugueses também davam pontapés nas mercadorias chinesas e a partir de um certo momento... Começou a fervilhar, fervilhar a comunidade chinesa. O partido comunista fez a rebelião opressiva, rebelião estupidamente opressiva. Contra os chineses, 100 mil pessoas. Com pessoas que não são nem pretos e nem índios, com sua civilização. Havia de tratar dos chineses com certa diplomacia. Realizava-se uma política que não podia ser. O Estado Novo era contra o comunismo. Queriam construir uma escola comunista na Taipa. Os atritos começavam a crescer assim como os requerimentos: “não podemos espalhar o comunismo em Macau”. Os distúrbios na Taipa foram antes do Grande Prêmio de Formula 1 de Macau. A administração da ilha chamou a polícia e fizeram feridos. Os comunistas de Macau começam a se reunir. Na Associação Comercial Chinesa, fazem as demonstrações comunistas. Resolvem ir ao palácio do governo ler a cartilha de Mao. Ocorre que uma grande multidão se reúne em direção ao palácio e deitam abaixo o herói macaense e partem o braço de Jorge Álvares. Outra grande asneira: o encarregado do governo colocou no comando o comandante das forças militares, Mota Cerveira, que amava Macau, mas queria transformá-la à sua maneira. O macaense, pai do chefe executivo hoje em Macau, explicou-lhe que ele deveria ceder, pois não podiam conter os comunistas, mas ele sequer o recebeu. Resultado foram oito mortos, alguns nacionalistas foram entregues. E em Hong Kong não conseguem fazer o mesmo porque era Portugal que os comandavam. Corríamos o risco de perder tudo. E muitos fugiram para Hong Kong (Entrevista realizada em Macau em 06/12/2004).

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Novo recorde mensal de visitantes

Em Novembro último - data do 17º aniversário - o blogue Macau Antigo registou num novo recorde mensal de visitantes com um total de 233.337. Dá uma média diária de quase 8 mil leitores diariamente. Ainda de acordo com os dados da plataforma onde o blogue está alojado - Blogger - em Novembro a maioria dos leitores teve origem nos EUA, Portugal, Macau, Brasil e Singapura (top 5).
Filmes em exibição no Cinematógrafo "Vitória" há 100 anos
O cinema ficava na Av. Almeida Ribeiro/San Ma Lou
referência actual: ao lado do hotel Central

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Restauração da independência, Eduardo Brazão e Escola Camões em Hong Kong

Em mais um aniversário da Restauração da Independência (1640) - data relevante tb para Macau * onde existem duas ruas da Restauração (em Macau e na Taipa) - ocorreu-me o nome de Eduardo Brazão (1907-1987), proeminente diplomata e historiador português com forte ligação ao Oriente e a Macau, tendo sido Cônsul de Portugal em Hong Kong entre 1946 (chegou em em Abril de 1947) e 1951.
The  China Mail 4.4.1947

Sabia que actualmente existe a "Escola Camões" em Hong Kong? Na sua origem está Eduardo Brazão. Diplomata, académico e historiador considerado um visionário. Neste aspecto, uma das ideias que preconizou foi a criação de uma Universidade em Macau na década de 1940. O projecto acabou por não vingar. O mesmo não aconteceu com a criação da Escola Camões em Macau e do Instituto Português, também na então colónia britânica.
Imagens fornecidas por antigos alunos da Escola Camões em Hong Kong
Fundada em 1947, começou por funcionar no nº 7 da Cox's Road (Tsim Sha Tsui) e abrangia os primeiros anos de escolaridade, da creche ao ensino primário. Embora se destinasse a alunos portugueses/macaenses, depressa passou a aceitar alunos de outras nacionalidades, incluindo chineses. De início teve apoio do Governo de Macau e posteriormente do Governo de Hong Kong e da comunidade portuguesa local. Em 1957 há registo de mais de 200 alunos inscritos.
A primeira director da escola foi a macaense - nasceu em Shameen, Cantão - Maria Lourdes de Oliveira Sales (1926-2022).
No início da década de 1950 o jornalista Armando de Aguiar (Correio da Manhã, do Brasil) visitou Macau e Hong Kong, tendo-se encontrado com Eduardo Brazão. Aqui fica o seu testemunho:
"Num dos navios do magnate macaense Sr. Fu Tak Iam fiz-me transportar a Hong-Kong. O braço amigo do Dr. Eduardo Brasão levou-me a visitar a cidade e os arredores, incluindo Kowloon, que em chinês quer dizer ‘nove dragões’, de Kow (nove) e Lung ou Loon (dragões). E levou-me também a transpor as páginas da história pátria no que diz respeito à presença de Portugal no ‘Porto Perfumado’. Numa das barulhentas e policromas ruas da cidade chamou-me a atenção uma casa revestida de azulejos de aspecto português. Dei- me à curiosidade de investigar a sua origem e apurei serem, realmente, de origem nacional, fabricados em Aveiro. O Clube de Recreio, em Kowloon, é uma afirmação do espírito social da comunidade portuguesa, assim como o Clube Lusitano, fundado em 1866, marca um lugar do mais alto relevo entre as instituições culturais que exaltam e prestigiam o nome de Portugal em países estrangeiros. Pois foi dentro das veneráveis paredes daquela patriótica instituição que o actual secretário nacional da Informação fundou, em Novembro de 1947, o douto Instituto Português de Hong-Kong, destinado à divulgação da nossa cultura naquela colónia britânica, onde, graças ao fecundo impulso que desde o início lhe foi dado por aquele brilhante diplomata, têm sido versados os principais problemas relacionados com a obra da inteligência em Portugal, no passado e no presente. O Instituto Português de Hong-Kong deve ser considerado o remate da obra de defesa da língua de Camões naquela colónia inglesa, onde vivem cerca de mil portugueses. O Instituto e a Escola de Camões, também patriótica iniciativa do Dr. Eduardo Brasão, constituem dois instrumentos onde vibra a alma de Portugal."
Em 1996 os destinos da escola para Po Leung Kuk, adoptando o nome "Camões Tan siu Lin Primary School" e mudando de instalações. Acualmente proporciona esporádicamente cursos de português.
Da vasta obra que Eduardo Brazão deixou publicada destaco:
- "Macau, Cidade do Nome de Deus na China, Não Há Outra Mais Leal",1957
* Macau manteve-se fiel à coroa portuguesa durante o período de união ibérica (1580-1640) e, como recompensa pela "lealdade", o rei D. João IV concedeu-lhe o título de "Não há outra mais leal" em 1654. A aclamação de D. João IV como rei ocorreu em Macau dois anos após a restauração em Portugal, em 1642. 

Sugestão de leitura:
A Aclamação del Rei D. João IV em Macau (Subsídios Históricos e Biográficos) da autoria  de José Frazão de Vasconcellos publicado em Separata do N.º 53 do Boletim da Agência Geral das Colónias em 1929.